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História A Luz de Khiva - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Restauração


Estávamos voltando ao território dos Decaídos para encontrar peças e restaurar a habilidade de viagem interplanetária de nossa nave. Isso abriria novos destinos e missões para nós e, consequentemente, o equilíbrio de tudo.

    — Sobrou tão pouca coisa aqui. — começou Fantasma, preocupado — Os Decaídos estão saqueando tudo. Tivemos sorte em encontrar essa nave. Um Guardião não pode fazer muito em defesa da Cidade sem uma, mas ela precisa de um Motor de Dobra se quisermos lutar além da Terra. E aquele Cosmódromo é o único lugar que conheço no qual podemos encontrar um. Sobrevivemos aos Decaídos uma vez. Podemos sobreviver outra.

    — E vamos.

    Aterrissamos na Estepe, Antiga Rússia novamente. Uma proximidade do Cosmódromo. Era uma tarde de se admirar. O céu se mesclando no azul e laranja próximo ao sol, deixando feixes de luz entre as poucas árvores que haviam. Dali dava pra ver grandes foguetes desativados atrás de altos muros, plataformas pela metade destruídas pelo tempo, ou Decaídos. Algumas trilhas muito usadas viraram estradas demarcadas em várias direções. Terra, pedras, e um leve tom de outono.

— Uma nave Guardiã foi derrubada recentemente aqui. Se os Decaídos não chegarem nela, deve ter peças que possamos recuperar. Vamos por ali.

Comecei a correr na direção que Fantasma me apontou, em uma das estradas. Havia algo branco como a neve por todo o lugar, misturando-se com a terra, e de tempos em tempos o vento forte levava um pouco consigo.

Passando por um casebre avistamos a nave, já sendo guardada por dois Vândalos e duas Sentinelas. Hora de estrear a arma nova. O silêncio do vento foi cortado por nossa troca de tiros. Foi uma ótima escolha não querer desperdiçar tanta munição pela distância, o que já não foi o caso deles.

Eliminados, nos aproximamos. Fantasma foi inspecionar tudo, como fez com a nossa nave.

— O sistema de aviônica da nave está completamente catatônico, mas posso recuperar as últimas transmissões. — ruídos de um diálogo começaram a surgir. Não consegui entender nada. — Eles conseguiram restaurar uma central de comunicações aqui. Descendo pelos túneis abaixo. Deveríamos dar uma olhada.

Ótimo, túneis.

— Certo, vamos lá!

O sinal nos direcionava para o casebre, onde por acaso haviam vários receptores, dessa vez, rebaixados imprevisíveis. Haviam contêineres espalhados na entrada, o que daria uma boa cobertura para mim, e para eles.

— Você têm granada, jogue — Agora que ele me diz? Isso encurtaria o assunto por ali. Joguei no meio de três, e um chegou a sair do chão. Outro que estava próximo ficou atordoado, levou a mão do rosto e fez um som como se chorasse, quase dando pena. Finalizei sua dor com um tiro na cabeça.

Parecia mais uma grande garagem com escada para o subterrâneo. Toda gasta e bagunçada por tudo o que passou por ali, e descendo só piorava. Prateleiras, barris, grandes geradores e nenhuma iluminação, exceto a que vinha do início da escada. Um curto corredor nos mostrou um baú com espólios. Alguém sempre quer guardar algo para mais tarde, ou nunca. Nele havia lúmen, um material que vim a conhecer como girometal, e uma manopla, aparentemente melhor do que a minha.

— Temos tempo para uma troca?

— Se isso vai te ajudar a enfrentar os inquilinos, com certeza!

De fato ela era mais robusta e mais confortável do que a que eu estava usando, e sim, mais bonita. Claro que eu penso nessas coisas, ainda mais depois de ver tantos Guardiões com armaduras incríveis na Torre. Eu estava como pano que eles podiam pisar em cima.

Do lado oposto da sala havia uma porta dupla de metal com uma parte aberta. Ela dava para mais uma leva de escadas, nos levando cada vez mais abaixo da terra. Concreto e sujeira acumulados pelos cantos dava a impressão de que o prédio tinha tentado desmoronar algumas vezes, e o corredor que pegamos a seguir tinha luzes fracas e falhas, gastando a última força que tinham.

Chegamos ao que estávamos procurando e claro, Decaídos estavam lá. Era como se brotassem das paredes. Vândalo e Sentinelas, todos juntos para nos receber, e rapidamente nos despedimos. Atravessamos a sala e uma entrada que dava acesso ao nosso objetivo.

— Um mapa de toda a área. — disse Fantasma, pronto para inspecionar tudo. — O que precisamos mesmo é encontrar um Motor de Dobra, então poderemos saltar para qualquer planeta ou lua, ou quase qualquer um. Nossa única esperança está onde encontramos a nossa nave. Vamos ter que voltar.

— Tudo bem, vamos lá.

Retornamos à entrada do prédio, onde haviam novos Decaídos de guarda. Joguei uma granada pois já estava sem paciência pra eles. Seguimos à direita da nossa localização, em direção a um grande edifício acabado. Subimos as escadas e entramos. Ele estava ainda mais destruído do que o último, com um grande buraco da parede, feito por uma possível explosão, o que quase derrubou toda aquela parte.

Haviam várias salas, uma dando acesso à outra, uma menores outras maiores, e numa delas encontrei um outro baú. Lúmen, e botas! Como estava com um pouco de pressa deixei para analisar melhor quando voltássemos para a nave, mas parecia boa.

— Ok. Voltamos. Procurando Motor de Dobra. Má Notícia, já está nas mãos dos Decaídos.

Deixei escapar um riso.

— E já não estava antes? — sempre está.

Era preciso olhar para o chão para não cair nos destroços do piso inferior, nós iríamos descer mas, não exatamente por um buraco.

— Tem um grupo maior deles. E um dos grandes também. Espero que esteja pronta pra isso...

— Não tenho muita escolha tenho? — respirei fundo para conter o medo.— Vamos recuperar nosso Motor.

Descemos. Dava pra sentir o ar pesado, cheio de escuridão e fome de sangue.

—Antes que eu me esqueça. Caso você morra, terei de te ressuscitar aqui, para que não surja bem na frente deles ok?

— Eu não vou morrer.

Nós entramos na arena pelo lado contrário de quando encontramos a nossa nave. Dessa vez, havia dezenas deles… Rebaixados, Vândalos, Sentinelas vindos de todos os cantos, todo em minha direção logo quando notaram minha presença. Meu radar estava inquieto. Primeiramente, arrumei um lugar como cobertura, um que não tivesse como alguém chegar pelas minhas costas e me surpreender, e comecei.

Após algumas baixas, um rugido emergiu das paredes, especificamente de um grande buraco dela. Ele era como um Capitão, porém três vezes maior do que um.

— Riksis. — a única palavra que Fantasma disse, e eu não tive tempo de pedir detalhes.

Riksis tinha uma arma proporcional a ele, o que também seria passado para o dano que me causaria. Ele tinha uns oito olhos amarelos, dois grandes chifres laterais, quatro braços intactos e envoltos de uma armadura branca. Ou aquilo era o corpo dele? Bom, sem tempo para perguntas.

Assim como muitos, seu ponto fraco era na cabeça. Eu teria de focar ali caso quisesse sair viva daquele lugar — sem ter de ser revivida. Ele atirava e andava lentamente, como se tivesse total controle de tudo, como se a vitória fosse garantida pra ele. Em alguns momentos tive de correr pelo terreno para coletar munição. Quando começou a enfraquecer e ver que eu daria trabalho, ele apertou o passo e chamou reforços. Voltei para minha posição e esperei que viessem até mim, e os eliminei um a um.

Quando retomamos o duelo, ele já estava mais fraco, ou eu mais forte. Foi preciso muita cautela em minha posição, ele poderia avançar a qualquer momento. Não recuava por nada, mas já estava perto do seu fim.

Quando finalmente caiu, deixou cair o Motor de Dobra, nossa destinada recompensa. Respirei fundo e me dei um minuto para descansar os nervos.

— Você matou um Arconte. Eles são reverenciados entre os Decaídos. Não se sabe se estes sacerdotes são os guardiões de Mechanoides Superiores, ou se são simplesmente cumpridores da vontade deles. Riksis coleta os crânios de Guardiões mortos. Quer ele os mantenha como troféus ou os use para presentear o Mechanoide Superior ao qual ele serve, sua ameaça era real e agora sua morte trará grande alegria para uma Cidade que necessita de esperança.

Essa história está sendo suficiente para recuperar o fôlego.

— Mechanoide Superior?

— Eles existem em uma misteriosa simbiose com um Arconte Decaído, no caso um era Riksis. O Arconte passa os desejos do Kell ao Mechanoide Superior, e exerce alguma medida de controle. Desenvolvimentos recentes sugerem que os Mechanoides Superiores são mais do que um foco de adoração e atividade logística. Eles podem representar um papel chave na tripulação Decaída. Existem também os Mechanoides comuns, que são relíquias vivas do que um dia foi a civilização Decaída. Equipados de mecanismos ultra-sofisticados, eles processam energia e matéria transformando-as no éter que os Decaídos necessitam para sobreviver. Em batalha eles auxiliam os Decaídos com sistemas defensivos e suas próprias e poderosas armas energéticas. Do lado de fora, eles são a âncora de comunicações Decaídas e fornecem perspicácia tecnológica vital. Eles têm relacionamentos complexos uns com os outros assim como com suas tripulações Decaídas. Eles também são ligados a um Mechanoide Superior.

Apenas acenei com a cabeça lentamente, sem comentários a declarar. Nem havia o que dizer sobre essa complexa rede Decaída. Mas estava curiosa para ver um desses. Sem demora, Fantasma prosseguiu.

— Nós conseguimos o Motor de Dobra. Podemos levar a luta até a Lua. Tenho que chamar o Porta-Voz.

— É muito cedo para perguntar quem ele é?

— Sempre houve um Porta-Voz, um alto sacerdote anônimo com uma poderosa e misteriosa conexão com o Viajante e seus Fantasmas. Em todos os séculos da história da Cidade, o grande trabalho do Porta-Voz nunca mudou: guiar novos Guardiões, curar o Viajante e erguer nosso debilitado protetor de seu torpor.

— Uma grande responsabilidade.

— De fato.

Encerramos nossa missão. Vários corpos ficaram espalhados pelo local. Em breve veriam o notável confronto que aconteceu ali.

Voltando à Torre no início da noite, fomos encontrar o Porta-Voz. Seu grande salão ficava em um local mais afastado da praça. Quando entramos, vi o Viajante em toda sua grandeza. Não havia janelas, era uma visão direta do grande protetor. Parecia tão perto, como se fosse uma pintura realista em uma imensa parede, como se pudesse ser tocado.

— Houve uma época em que éramos muito mais poderosos… — uma voz anciã surgiu atrás de nós, descendo por uma longa escada, vindo de seu pequeno observatório pessoal, cheio de livros em suas estantes e uma mesa com itens de pesquisa. Estava distraída admirando e questionando o Viajante, mentalmente.

O Porta-Voz vestia um manto branco e cinza que descia até os pés, com mangas compridas. Usava luvas e um curto capuz, todos pretos, e uma máscara branca. Nenhuma parte do seu corpo era visível. Enquanto eu o observava, ele prosseguiu.

— Mas isso foi há muito tempo… Até ele despertar e encontrar a sua voz, sou eu quem fala pelo Viajante.

Estávamos em silêncio. Até mesmo Fantasma, apenas o deixando falar. Ele se aproximou lentamente e passou por nós, direcionando-se ao Viajante. 

— Você deve ter muitas perguntas, Guardiã. — eu tinha, mas nem sabia quais. — No seu último suspiro, o Viajante criou os Fantasmas, que buscam aqueles que podem usar a luz como arma… Guardiões, para nos proteger e fazer o que ele não pode mais. — essa parte eu já sabia. — Poderia lhe contar sobre a grande batalha, há séculos. Como o Viajante foi aleijado. Eu poderia falar do poder da Treva, sua inimiga ancestral. — ele andava, pensativo — Há muitas histórias contadas para assustar crianças. Recentemente, as têm cessado. Agora, as crianças sempre têm medo. — disse ele, de cabeça baixa.

Voltou o olhar para nós.

— A Treva está voltando. Não sobreviveremos dessa vez. — eu e Fantasma trocamos olhares pesarosos. — Os exércitos deles nos cercam. Os Decaídos são só o começo.

— O que posso fazer? — finalmente resolvi abrir a boca. Eu não podia ficar parada vendo o fim de tudo acontecer.

— Você deve afastar a Treva. Guardiões lutam na Terra e além. Junte-se a eles. O seu Fantasma lhe guiará. Espero que ele tenha escolhido bem.

E então ele se retirou. Apesar de um papel tão motivador, seu fardo parecia pesado e ele, sem muitas esperanças. Eu e Fantasma nos olhamos, e ele respondeu ao comentário do Porta-Voz, entre nós dois.

— Escolhi bem, tenho certeza. Estamos juntos agora.

Lhe dei um sorriso, e podia ter certeza que ele me correspondeu.



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