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História A Magia de Noé - Capítulo 1


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Notas do Autor


Uma tentativa de escrever comédia...

Capítulo 1 - One Shot


“Não acredito que estamos passando por essa situação surreal.”

Caio refletia enquanto corria lado a lado com Cassio. Os dois adolescentes percorriam desesperados por um planalto fugindo de três perus gigantes que estavam ansiosos por abocanhá-los.

– Ah! Ah! Eu não quero morrer, nós vamos morrer! – Cassio gritava estridentemente já sentindo o bafo quente dos animais selvagens atrás dele.

– Cala a boca e corre!

“Eu também achava que iria morrer. Atrás de nós, aquelas criaturas sedentas por carne, a nossa frente o fim da linha.”

Caio agarrou a mão de Cassio que diante do medo havia parado de correr, o puxou no último segundo quando estava prestes a ser engolido por um dos perus. Quando se deu conta ambos se encontravam em queda pelo desfiladeiro. Ao fim, mergulharam profundamente em águas turvas de um rio que se atrevia a adentrar pela passagem estreita. Afundando, Caio recordou-se que tudo começara com um telefonema.

***

 

Caio despertou com o barulho do telefone que tocava insistentemente. Ainda era muito cedo, véspera de natal. O quarto estava caótico como sempre, roupas espalhadas pelo chão, livros escolares que estavam empoeirados por nunca serem usados, restos de comida e algumas baratinhas circulando pelo espaço privado do jovem.

Sua mãe gritou para que ele levantasse logo. Muito aborrecido, ajeitou seu moicano e foi. Quando se dirigiu a sala, ficou espantado com a mãe: a flagrou de calcinha e sutiã se exibindo na câmera.

– O que você tá fazendo mãe?

– Tô mostrando minhas tatoos pros meus fãs queridos. Vem dar um oi pra eles.

– Fãs?! Mas que fãs? – Ele se aproximou da mesa do computador.

– Descobri há pouco tempo um negócio de cam girl e tô adorando. Tenho centenas de fãs, veja.

O menino olhou para a tela e ficou chocado com a quantidade de pessoas online interagindo com a mãe dele.

– Mãe, cê tá ligada que isso aí é a maior roubada né?

– Ah! Lindo... me deixa vai! Por que você não experimenta?

O jovem ficou revoltado e abaixou a tela do notebook da mãe com violência.

– Vai sonhando que eu vou botar meu bilau na webcam!

– Aposto que ia fazer sucesso. – Ruth se levantou e pegou um vestido. – Olha só, eu te chamei porque recebi um telefonema da escola, hoje vai ter uma recuperação especial. É melhor você se arrumar logo e ir.

– Mãe, hoje é véspera de natal. Quem vai estar na escola? Isso é trote.

– Deixe de desculpas e vai pra escola agora. Filho, estão te dando a última chance pra você passar de ano. Menino, você já tem dezessete e não sai desse fundamental!

– E quem se importa?

– Eu me importo. Anda logo vai.

– Você quer mesmo é ficar sozinha pra se exibir na webcam.

– Ótimo. É isso mesmo. É muito bom ter um filho que me entende. Agora vaza e vê se passa de ano finalmente.

Caio bufou e revirou os olhos.

“Sério que ela acha que eu vou pra escola.”

Caio saiu de casa e começou a vagar pela rua. Para todos os lados, pessoas fazendo compras, trânsito, tumulto, xingamentos e afins. Que estupidez. Pensava sobre o que aquilo realmente significava. Sem saber pra onde ir, resolveu ir até a escola para conferir se realmente haveria uma recuperação em plena véspera de natal. Ao chegar no local, o portão estava aberto. O silêncio era perturbador. Não estava acostumado com aquilo. Mesmo assim seguiu em frente e foi até o pátio. Lá chegando, encontrou outros três jovens que ele já conhecia. Todos eram do nono ano. Permaneceram em silêncio aguardando.

Com todos reunidos, surgira uma senhora para falar com eles.

– Bem vindos, queridos alunos. Fico muito feliz por terem atendido meu chamado para essa recuperação especial. Me chamo Noely, sou uma instrutora substituta e vou guia-los nas tarefas que os ajudarão a concluir o ensino fundamental. Vamos lá!

Os quatro a seguiram silenciosamente. Caio observava Noely com desconfiança. Instrutora, nem sequer professora era, com seus cabelos longos grisalhos, alta e robusta trajando calças largas vermelhas e uma camiseta regata branca.

Ao chegarem na sala, sentaram-se em círculo nas carteiras. Noely pediu que se apresentassem. Começaram pela única garota do grupo.

– Meu nome é Naoani, tenho quinze anos, zerei português, ciências, história, geografia e artes. Não tenho saco para leituras ou qualquer coisa que demore muito entendeu prof.? – A garota falava enquanto mascava um chiclete.

– Entendi querida. Pra você deve ser difícil até respirar né? – Noely falou, deixando a todos surpresos com o sarcasmo.

Então, a senhora apontou para o próximo.

– Eu sou o Cássio, tenho catorze anos e nunca repeti de ano. Mas esse ano eu fiquei muito distraído sabe teacher, e acabei me dando mal em.... todas as matérias.

– Pena que não tem a matéria ócio, né? Senão você teria passado em pelo menos uma, não é verdade?

Cassio ficou indignado com a resposta, mas antes que ele se manifestasse, ela apontou para Caio.

– Me chamo Caio, tenho dezessete. Fiquei de recuperação em todas as matérias também.

– Estava o ano todo distraído igual seu coleguinha? – Noely o provocou.

– Não, senhora! Eu estava sem saco de estudar mesmo.

Caio olhou emburrado para aquela mulher que parecia um nórdico travestido. Para ele, aqueles olhos azuis tinham um brilho sinistro.

– E por fim, quem é você?

– Eu me chamo João, passei em todas as matérias no terceiro bimestre.

– E o que você faz aqui então?

– Quando soube dessa recuperação pensei em vir para ajudar os meus colegas.

– Ah! Que gracinha. Um bom menino enfim. – Noely se aproximou abraçando João e projetando a cabeça dele por entre os seios dela.

“Que pirada essa substituta”. – Pensou Caio.

– Pois então, vamos começar! – Noely pegou uma meia, dessas decorativas de natal e pediu para que sorteassem um papel. Assim eles fizeram. – Cada um de vocês vai pegar uma tarefa. Leiam e respondam. Começando com Cassio.

O jovem pegou o papel e sem pensar duas vezes disse uma frase olhando para Caio.

– Quando estou perto de você eu fico hesitado.

Todos ficaram sem entender Cassio.

– Que tarefa você tirou? – Noely estava curiosa.

– Minha tarefa é fazer uma frase que contenha o verbo hesitar.

– E você sabe o que significa hesitar?

– É ficar cheio de desejo por alguém, teacher.

– Não! Não e não! Hesitar não é excitar. Presta atenção garoto! – Noely enfim percebeu o que tirava a atenção de Cassio: era Caio. – Hesitar é demonstrar dúvida! Agora garoto, você não vai ficar excitado porque eu não vou hesitar em te dar uma lição.

De repente aqueles olhos azuis brilharam de forma a cegar a todos presentes naquela sala. Quando Caio se deu conta, ele e Cassio estavam em um ninho de perus gigantes, prestes a serem devorados. Então correram até que não restasse mais nada a fazer senão se atirarem num precipício.

Nos poucos segundos que ficaram na água, Caio agarrou o pulso de Cassio e emergiu com ele. Cassio estava desacordado. Caio recordou-se das aulas de primeiros socorros e fez o serviço sem pestanejar. De repente, Cassio abriu os olhos quando suas bocas estavam unidas. Ele ficou rubro e Caio mudo. Caio hesitando e Cassio excitando. E o envergonhado abraçou Caio.

– Oh! Caio! Você é a razão da minha distração, passei o ano todo te desejando que me perdi por completo.

– Calma aí, cara! Eu só estava te ajudando. Eu não curto garotos, nem garotas, nem nada. Só quero ficar de boa, na minha entendeu?

A dor da rejeição foi demais para Cassio. Lágrimas prateadas começaram a rolar dos olhos dele. E como num passe de mágica o cenário em que estavam se desfez, surgiram sete jovens cantando e dançando e Cassio se juntou a eles no mesmo ritmo.

♫♫♫

Love you so bad, love you so bad

neol wihae yeppeun geojiseul bijeonae

Love you so mad, love you so mad

nal jiweo neoye inhyeongi doeryeo hae

Love you so bad, love you so bad

neol wihae yeppeun geojiseul bijeonae

Love you so mad, love you so mad

nal jiweo neoye inhyeongi doeryeo hae

♫♫♫

Enquanto eles dançavam uma barreira se rompeu e levou tudo pela frente com a força da água. Caio foi junto sendo arrastado. E quando parecia que tudo estava perdido ele reapareceu na sala de aula.

– Continuando com nossa aula.

Caio estava assustado olhando para Noely. Reparou que Cassio não estava mais ali. Era a vez de Naoani. Ela pegou o papel e leu, depois começou a falar.

– Essa é muito fácil.

– Qual é a sua tarefa? – Noely perguntou sem ânimo.

– Responder uma pergunta.

– Qual pergunta? – Noely se mostrou mais interessada.

– Quem foi o personagem histórico Noé?

– Então diga-nos, logo! – Noely já estava impaciente.

– Papai Noé é um ser mitológico, portanto nunca existiu. Quem nos dá presentes são nossos pais.

– Esse tipo de afirmação Naoani, é muito irritante. Por que só as crianças acreditam na magia de Noé?

As últimas palavras foram ditas num grito ensurdecedor. Aquele brilho malévolo veio de novo e Caio já não esperava boa coisa. Agora, ele e Naoani estavam caídos num deserto.

– Naoani, porque você não falou uma frase simples do tipo: Noé é um cara legal, ele salvou bichinhos do dilúvio. Tinha que fazer piadinha com Noel?

– E Noel não foi o Noé?

– Cê não tá falando sério né?

Ela deu de ombros e começou a andar.

– Eu aprendi na minha família que após Noé salvar os animais do dilúvio, ele não tinha mais o que fazer com aquela arca gigante, então ele a usou para fazer a entrega de brinquedos para crianças que não ganhavam nada dos pais. Com o tempo, ele gostou tanto da boa ação que começou a distribuir presentes para todas as crianças do mundo.

– Cara, todo mundo tá louco aqui! Eu nem vou discutir isso. É demais para mim. Para onde você tá indo?

– Em direção àquela estrela. Pra onde mais?

Caiu observou bem o corpo celestial.

– Aquilo não é estrela garota. É o planeta Marte.

– Se brilha é estrela e nas histórias a estrela salva as pessoas perdidas no deserto.

– Ah! Vamos! Estamos num deserto mesmo. Que diferença faz para que lado a gente vai.

E eles caminharam por muitas horas até que seus corpos estivessem esgotados. Já no amanhecer avistaram um castelo de algum soberano. Entraram e não encontraram ninguém. Desceram por uma grande escadaria e chegaram no que parecia uma masmorra. Naoani ficou impressionada com os equipamentos de tortura lá encontrados. Teve uma ideia súbita.

– Vamos brincar de uma coisa? Fingi que você é um assassino de aluguel ultra perigoso e procurado por todos. Daí você recebe um trabalho. Tem que me sequestrar. E depois de você me sequestrar, você resolve me torturar com esses equipamentos e aí eu me apaixono por você e fazemos o sexo mais selvagem de nossas vidas.

– Peraí! Você surtou?! Quer que eu seja um maluco violento e depois de tudo você se apaixona por mim e ainda transa comigo. Cara, as mulheres de hoje são muito loucas e controversas. Nem pensar. Eu vou dar um fora daqui.

– Ah! Não vai não!

Inesperadamente, surgiu um grupo musical de trocentas pessoas de todos os países do mundo, dançando e cantando no ritmo de Naoani perseguindo Caio com um chicote.

♫♫♫

Summer in the city

We'll be looking pretty

Goin at it all night

Summer in the city

Sing it to me, baby, do, ro, ro, do

 

Summer in the city

We'll be looking pretty

Underneath the sunlight

Tell me what you want

I know what you want

♫♫♫

E o jovem Caio rodopiava de um lado a outro fugindo daquele ataque voraz. Perdido entre os cantores se viu passar de mão em mão até cair de volta a sala de aula.

Assim que avistou Noely sorrindo e o encarando, ele deu um salto da cadeira.

– João, não pega esse papel e não fala nada. Essa mulher é um demônio e vai mandar a gente pra algum pesadelo alternativo.

– Senta meu bem, porque ele já pegou o papel.

João, sem entender muito o que o colega estava falando, leu sua tarefa.

– Complete: três pontinhos, aquele que se vale de mentiras, impostor.

João entendeu a mensagem. Olhou para Noely que acenava para ele continuar.

– Eu sou o melhor aluno da escola porque minha mãe, que é professora, me dá o livro com respostas. Eu sou um embusteiro, aquele que se vale de mentiras.

João falava como se fosse uma marionete. Mais uma vez aquele brilho que cegava invadiu a sala. João e Caio repentinamente se encontravam em uma pedreira onde havia um enorme pinheiro.

– Ah! Não! De novo não. Quando essa po### vai acabar? – Caio gritou.

E nesse instante o céu se abriu e daquele turbilhão de nuvens negras surgiu o bom e velho ser que nos visita uma vez por ano à meia noite.

– Que diabos é aquilo? – João estava tremendo.

– É papai Noel montado numa cabrita. Corre João! Ele está vindo atrás da gente.

– Que doideira. Por que isso tá acontecendo?

– É por minha causa cara. Quando eu era pequeno meu pai fugiu com uma cabrita e desde então eu surtei.

– Seu pai fugiu com uma cabrita?! – João estava incrédulo.

– Sim cara. Uma cabrita! Era meu bichinho de estimação e a maldita vivia sorrindo para o meu velho e o enfeitiçou com seu olhar sedutor. Tudo por minha causa. Porque eu insisti de ganhar aquele animal estúpido em um natal da minha infância.

– Você precisa superar isso cara. Liberte-se!!!! – Joao gritou e então o corpo dos dois garotos foi levado aos céus, começando uma transformação ao som de uma música que ecoava por toda a parte.

♫♫♫

malhaejwo yes ‘ani’neun no

Don't wanna stay ja ije go

neowa na hamkkeramyeon haneul wireul dallyeo

malhaejwo yes ‘ani’neun no

Don't wanna stay ja ije go

jigeum nal deryeoga jwo uriraneun mabeobe

♫♫♫

Os meninos ficaram muito impressionados.

– Céus. Isso é um pesadelo. Só pode. – Caio se olhava espantado.

– Estamos incríveis cara!

– Incríveis!? Você enlouqueceu? Estamos de salto alto, sainha rodada e peitos numa blusinha mega decotada.

– E isso não é incrível? Somos princesas guerreiras da lua. Vamos detonar essa cabra e o senhor Noel demoníaco ali.

O mal velhinho montado na cabrita começou a atirar biscoitos de gengibre nos dois meninos. Eles não entenderam, até que os biscoitinhos que caiam próximos começassem a explodir.

– Qual é o plano cara? – Caio já estava indignado e pronto para acabar com aquilo.

– Usa teu cetro mágico e parte pra cima dele!

– De onde eu vou tirar um cetro mágico?

– Taí guardado no meio do teu...

Antes que João pudesse completar a frase ambos são abatidos.

Nesse momento Caio despertou ofegante em sua cama.

– Que merda de sonho foi esse?

O garoto levantou- se tonto e enjoado. Foi até a sala, observou a árvore de natal, a estrela que sua mãe havia pendurado na porta. Na mesa, o peru quase que todo devorado e muitas garrafas de vinho vazia. Restos de biscoito de gengibre sob a árvore junto com uma meia e um envelope que tinha em letras garrafais seu nome. Abriu o envelope e para seu espanto era seu boletim. “Aprovado e apto a cursar o primeiro ano do ensino médio.” Surtou naquele momento. Foi correndo no quarto da mãe para lhe contar o que tinha sonhado ou o que pelo menos achava que tinha sonhado.

Ao entrar, se deparou com sua mãe agarrada a um velho barbudo, com cabelos longos grisalhos, usando uma regata branca e uma calça larga vermelha. No olhar, aquele brilho azul que lhe metia medo.

– Quem é esse cara, mãe?

– Ora filho, esse é o Noé, ele é meu fã numero um e eu o convidei para passar o Natal com a gente. Você não lembra?

– Alguém chuta meu saco, por favor, porque eu ainda devo estar sonhando!

O garoto bateu a porta do quarto da mãe e atirou-se ali mesmo no chão do corredor. Caio chegou à conclusão de que papai Noel até podia gostar de crianças, mas com adolescentes ele era um sádico filho da p###.

♫♫♫

Looking inside of yourself

You might see someone you don't know ooh ooh

Maybe it's just what you need

Letting the river in you flow

♫♫♫



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