História A Maldição de Levítico - Capítulo 69


Escrita por:

Postado
Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Fanatismo, Preconceito, Religião, Romance, Tragedia, Violencia
Visualizações 22
Palavras 1.132
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, Romance e Novela, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 69 - Meu Paraíso quebrado


Ângelo 

No dia seguinte, meu pai me ajudou a fazer um curativo no rosto do Dante para atrair menos olhares. Ver uma pessoa com um curativo bem feito era melhor do que ver o estrago bem escancarado na sua cara.

Já que eu não tinha carro, Julio se ofereceu para me levar a todas as consultas do Dante, além de ter pagado todos os medicamentos necessários.

Tínhamos feito alguns exames antes e descobrimos que ele tinha o vírus da AIDS, coisa que Christian nem se deu ao trabalho de ressaltar em momento nenhum e Dante não quis falar sobre isso e nem em como contraiu o vírus. Eu tinha certeza de que não tinha sido eu, já que me cuido muito bem em todas as minhas relações sexuais. Porém, algo me dizia que eu não iria gostar de saber, embora fosse importante ficar a par de tudo.

Os remédios para a doença não eram de fácil acesso, eram caros demais em Grande Sunshine. Eles tinham uma política horrível de que era doença de gay e que todo mundo que tinha aquilo não merecia o tratamento, apenas a morte.

Felizmente, meu pai sempre os conseguia para mim e deixava um médico de sua confiança vir sempre checar o Dante e me senti muito grato a ele por isso, por estar fazendo tanta coisa por mim.

Aquele era o primeiro dia que iríamos sair juntos desde que o trouxe da igreja e tive um pouco de medo da reação das pessoas e como Dante iria se comportar com aquilo, pois ele estava tão distante. Claro que ficava de braços dados comigo como se tivesse medo do mundo e escondia o rosto em meu ombro enquanto caminhávamos, mas mesmo assim era difícil ter um vislumbre sequer do que passava naquela cabeça.

Lembro-me do dia em que o levei para casa, seus olhos estavam fundos demais, seu corpo possuía uma magreza tão excessiva que parecia que ele sofria anorexia nervosa ou algo assim. Tive medo de que fosse isso, mas a primeira coisa que ele falou quando chegamos foi:

— Estou morrendo de fome — Até falar parecia um esforço enorme a ser feito.

Com o tempo, ele foi ganhando um pouco mais peso, ficou até meio gordinho, porém nada muito significativo devido à baixa imunidade, mas o bastante para que algumas roupas ficassem um pouco mais apertadas e tive que comprar novas, nada que uma tarde no shopping com Lipe não resolvesse.

Lipe tem me ajudado muito nessa fase, mesmo que não nos víssemos sempre. Ele não quis fazer faculdade logo de cara, decidiu ficar um ano parado se divertindo com o dinheiro do pai.

Ficamos um tempo na sala de espera, meu pai lendo um jornal qualquer e Dante com a cabeça apoiada em meu ombro, com parte de seu nariz colada em meu pescoço como se quisesse sentir meu cheiro. Notei que ele estava tremendo muito de frio por causa do ar condicionado potente.

— Não trouxe seu casaco? Falei para trazer, Dante — fui o mais amável possível, ele estava muito sensível ultimamente.

Simplesmente deu de ombros e se encolheu. Revirando os olhos, afastei-o com delicadeza e tirei o meu casaco, colocando em seus ombros e o puxando para mais perto.

— Você não vai ficar com frio? — Ele olhou para mim através do curativo que escondia boa parte de seu rosto. O capuz o deixava ainda mais... fofo? Não sei se essa era a palavra ou já estava acostumado a ver Dante de uma forma diferente da assustadora que qualquer ser humano normal veria.

— Não, querido.

Em poucos minutos, o médico chamou o nome dele e nos levantamos todos ao mesmo tempo.

— Não posso entrar com ele? — eu quis saber com uma pontinha de esperança ainda reverberando dentro de mim.

— Lamento, mas a consulta é privada. Você pode acabar o intimidando, mas prometo que te manterei informado sobre o progresso dele, embora não possa dar detalhes por ser confidencial.

— Tá legal, só quero que ele se abra com alguém e se sinta bem, mesmo que esse alguém não seja eu. Você certamente será de mais ajuda.

Dei um empurrãozinho no Dante para incentivá-lo a seguir o médico e ele lançou um olhar apavorado para mim.

— Não gosto de médicos — choramingou.

— Esse vai te ajudar — cochichei, embora o médico pudesse ouvir claramente o que eu dizia.

Engolindo em seco, Dante apressou o passo ainda olhando para mim com medo, querendo que eu o tirasse dali e o levasse de volta para casa. Não gostava de vê-lo assim, mas era importante que ele se abrisse.

— Vou ficar aqui te esperando. Não vou a lugar algum.

Aquilo pareceu tranquilizá-lo por um momento, pois foi o que bastou para que o seguisse sem pestanejar.

— Tá sendo bem difícil — falei para o meu pai assim que me sentei e vi a porta do consultório se fechando. — Dante não conversa comigo.

— Dê um tempo a ele — Abaixou o jornal e virou o rosto em minha direção, levantando um pouco o queixo. — Aposto que é difícil para ele também, mas acho que um psicólogo saberá o que fazer e como guiá-lo, coisa que talvez você não consiga.

— É, tem isso também.

— Não é nem questão de confiança. Tenho certeza que ele confia em você.

— Me sinto culpado pelo que aconteceu.

— E se sentirá ainda mais se souber toda a verdade. Algumas coisas é melhor não saber, não agora. Dê um tempo não só a ele, mas a si mesmo também. No momento certo, tenho certeza que ele não vai hesitar em contar tudo a você, mesmo que a verdade seja dolorosa. Quando tiver certeza de que você será capaz de digeri-la.

— Acho que eu nunca serei capaz, papai. Vou querer matar o monstro que fez isso com o meu Dante — Eu sabia quem estava por trás de tudo, mas ainda estava de mãos atadas quanto ao que fazer. Christian era amedrontador demais.

— Vingança não traz nada de bom a ninguém, foque no melhor para você e para o Dante. É uma monstruosidade o que aconteceu? Sim, mas agora você o tem de volta e pode reconstruir tudo, dar a volta por cima.

— Não era essa vida que eu tinha planejado, não era o que eu queria para nós.

— Planos só nos atrasam, só tente por vocês dois. Sei que ainda se amam.

— É claro que sim, não vou desistir dele tão cedo se é o que tá pensando.

— Longe de mim — Ele soltou uma risada, quase preenchendo a sala silenciosa e pigarreou, pedindo desculpas para as pessoas antes de voltar a falar comigo num tom mais baixo. — Pode contar comigo sempre.

— Obrigado, pai.

E fiquei ali sentado esperando a consulta acabar, pensando em como reconstruiria o meu Paraíso quebrado. 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...