1. Spirit Fanfics >
  2. A manhã de um novo amor >
  3. Capítulo I

História A manhã de um novo amor - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


O prólogo é opcional. Explica o passado e algumas características do universo. Esta estória pode começar a ser lida do capítulo I em diante.

Capítulo 1 - Capítulo I


                                                                             Prólogo


     Fim de tarde no norte do Império. Faixas de luzes em tons de rosa e laranja se alternavam até a linha do horizonte. Sob ela, o pó ocre do deserto e a curva suave dos montes de areia e pedra vermelha conduziam a vista para o longe. Já não fazia tanto frio e TH pôde caminhar primeira vez até o poço sem as pesadas peles de inverno. Subiu sem pressa até a fonte, olhos fixos na primeira estrela da noite, que ele sabia ser Vênus, o planeta, regente da Linhagem do Lírio, a mais antiga irmandade de bruxos do Império, havia muitos anos uma organização clandestina. 
     O Império dos Lobos abrangia quase toda a terra conhecida. Do deserto gelado do Norte às florestas densas e quentes do Território Sul. Seu centro político era a cidade murada de Quisa, onde vivia família imperial, no centro leste do imenso território. As províncias eram governadas por família leais de lobisomens, raras, mesmo entre lobos. Além de nobres, encarregados de exercer o poder político havia várias gerações, os lobisomens eram seres mágicos. Sua magia se manifestava nos seus corpos excepcionalmente fortes e ágeis e no poder de se transformar completamente e à sua vontade em seus animais guia. 
     O restante da população de lobos não tinha esse poder e apenas em poucos casos lhe aflorava algum tipo de magia. Quanto ao gênero, estava dividida, assim como os lobisomens, em alfas, betas e ômegas, alguns com atributos majoritariamente femininos e outros, masculinos. Como nas demais espécies do Império o gênero coincidia sempre com atributos femininos ou masculinos, caso dos humanos, que não somavam 30% da população, os lobos também eram chamados de homens e mulheres quando a referência era seu sexo. Quando um lobo não lobisomem era poderoso ou estudioso da magia, era chamado de bruxo. Em oposição aos bruxos, os lobisomens, mais lobos que os bruxos, eram chamados de lobos.
     Os bruxos eram fugitivos continuamente combatidos pelo governo central e o das províncias. Muitos viviam no exílio, nas franjas despovoadas do império, nas antigas estradas empoeiradas e nas vilas empobrecidas que marcavam seus extremos. Sua capacidade de intervenção no real era vista como principal ameaça ao poder estabelecido dos lobos. As escolas de magia foram criminalizadas e os bruxos que não renunciaram a seu ofício, presos, deportados ou assassinados. Eles ainda atuavam clandestinamente, contratados por particulares com problemas por causa de magia ou seres sobrenaturais, trabalhos cada vez mais escassos na medida em que o território se desenvolvia e ainda mais quanto mais próximo da capital. 
     Alguns bruxos que resistiam na clandestinidade se organizaram em torno de Kim Seokjin, bruxo da Linhagem de Lírio. Jin tinha um plano para recuperar o status político da magia no império. TH vivia com ele desde a infância. Os Kim o encontraram criança nas ruas de Astrar, abandonado e faminto. Pouco tempo antes, o conflito entre lobos e bruxos na remota província do Território Norte onde ficava a cidade antiga dera fim violento à última escola de magia do Império, fundada quatro séculos antes pelo Lírio, nos arredores de Astrar. 
Em meio ao caos e a perda de vidas, TH foi separado da família, de que nunca mais se lembraria, com três anos. Vagou durante meses pelas ruas da cidade antiga, ajudado por muitos, mas quisto por poucos devido aos indícios de sua magia potencial, que se manifestava espontaneamente em frequentes e infelizes surtos psicocinéticos. Quando os Kim o vieram recolher à noite na casa da mulher do ferreiro, impediram uma tragédia anunciada. Para evitar problemas com os lobos, os homens da vila tinham decidido matá-lo no dia seguinte, afogando-o no rio. 
     Jin tinha dezoito anos à época. Tinha sido o instrutor mais jovem da escola de magia. Seu pai, mago Mestre do Lírio, fora brutalmente assassinado durante o conflito com os lobos. Sua mãe viveu até completar cinquenta anos, e cuidou do filho e de TH até a idade adulta. Os Kim acolheram outros bruxos, adultos e crianças, que viveram com eles em seu esconderijo no deserto, um pequeno e isolado conjunto arquitetônico esculpido nas rochas de uma caverna a 50 km de Astrar. Entre aqueles, TH gostava mais de JM, com quem combinava a idade. JM chegara ao abrigo acompanhado do pai após ter perdido mãe e irmãos. Sua mãe também fora instrutora na escola de magia. Os dois cresceram juntos e ao longo dos anos desenvolveram seus poderes mágicos sob a supervisão e a proteção dos Kim.
TH e JM foram preparados para lutar e se defender dos lobos em qualquer circunstância, inclusive no embate corporal. Jin esteve sempre determinado a revidar e não mediu esforços para treinar os bruxos que estavam a seu dispor tendo em vista uma oportunidade de ataque futura. 
     Ele herdara do pai uma pedra, um amuleto, que tinha o poder de medir à distância a magia de uma pessoa. A pedra não diferenciava o poder potencial da magia burilada pelo treinamento e a cultura, e por isso mesmo permitiria a identificação de crianças mágicas, que poderiam ser treinadas em escolas clandestinas e ajudar a formar o exército capaz de fazer frente ao Império e restabelecer o equilíbrio da convivência com os lobos. Era o que Jin queria e o que ele repetiu pela vida para seus dois irmãos mais novos, TH e JM. Os lobos conheciam o valor estratégico do amuleto. A pedra lhe fora covardemente roubada e desde então Jin planejava recuperá-la. 
     Lembrar-se da obsessão do irmão mais velho pela pedra fazia TH ficar triste agora. Ele soubera recentemente que o responsável pelo roubo fora o irmão do falecido Imperador Jeon, com a colaboração do próprio filho, NJ, que à época, quando ainda adolescentes, namorava Jin às escondidas. Embora nunca tivesse antes ouvido falar desses personagens de sua tragédia, TH entendeu imediatamente que esse amor traído teve impacto maior e mais duradouro que o assassinato do próprio pai na vida de Jin. Que seu desejo de inclusão e justiça para os bruxos era também a sua necessidade sempre premente de vingança causada por essa perda irreparável. 
     Após atar meticulosamente as bolsas de pele cheias de água à vara que levaria nas costas até o abrigo, TH se sentou sobre as pedras que rodeavam a fonte protegida por arbustos. Ele não precisava voltar imediatamente, e quis aproveitar o clima ameno para passar algumas horas sozinho. Pôde lembrar finalmente os detalhes do que dissera seu irmão mais velho na noite anterior e refletir sobre o que aconteceria com todos eles a partir dali. 
    Jin voltara de sua última viagem à cidade de Ida, onde viviam alguns integrantes do Lírio que ocultavam sua ligação com a magia. Estava agitado, vibrante, disse que surgira a oportunidade buscada por quinze anos. Que os três – JM, TH e ele, iriam recuperar o amuleto roubado.
     TH ouviu atento o ofegante relato, e depois sua proposta, sem nada dizer. Nem JM disse nada, apenas apertou levemente o antebraço de TH em certo ponto da conversa, quando os detalhes de sua participação eram finalmente anunciados. Não estava em questão a adesão dos dois jovens. Estiveram preparados a vida inteira para isso. E também dificilmente recusariam um pedido de Jin, quem amavam com loucura e acreditavam dever tanto. Mas as circunstâncias, a gravidade das circunstâncias, e o sacrifício envolvido no serviço a ser prestado, despertavam incontornável medo e hesitação. 
                                                                                                                    ***
                                                                                                                      I


     Jin contou que tinha um informante na corte imperial, o ministro-chefe da Casa do Imperador, responsável pela administração das residências reais em Quisa e Ida. Seu nome era Hoseok, mas isso, bem como seu título, Jin omitiu de JM e TH. Os dois haviam convivido na infância, quando Jin acompanhava os pais em viagens de estudo a Ida e brincava com o humano com quem regulava idade. Seus pais eram empregados dos bruxos que hospedavam os Kim. 
     Hoseok não era bruxo, nem espião dos bruxos, mas considerava injusta e maléfica a perseguição a todo custo à magia. Tudo que já havia testemunhado no castelo e também em Ida, quando visitou a cidade ao longo dos anos, sedimentou nele profunda convicção de que o conflito entre bruxos e lobos não teria fim. 
     Novos magos, irmandades e bruxos, ambiciosos, desejosos de poder, mesmo sem instrução formal, estariam sempre surgindo, e os lobos, em sua rejeição fanática à prática da magia e no desejo de se blindar de qualquer força potencialmente contestatória, sempre reagiriam com violência extrema à sua presença. Provocando a morte de inocentes e a precarização da vida dos que restaram. O melhor seria buscar o equilíbrio anterior ao conflito que levou à queda das escolas, restaurando seu papel político no regime imperial, ou seja, controlar e monitorar novas fontes de magia em colaboração com o governo central. 
     As escolas de magia ameaçaram principalmente o poder local das famílias nobres, e mais nas províncias mais remotas, como nas do Território Norte. As duas forças disputaram o controle político regional por gerações, sendo que em várias províncias o poder dos bruxos estava bem estabelecido e a hierarquia das poderosas escolas precedia os governantes locais nos ritos protocolares da administração imperial. 
     A situação mudou quando o imperador anterior, incentivado pelo irmão, ministro da Segurança e da Guerra, decidiu apoiar as famílias nobres em sua disputa por poder nas províncias, e criminalizou a atividade mágica e as escolas de magia. Os lobos tinham máquina de guerra inigualável, e ela passara a funcionar de forma integrada no território sob o comando do irmão do imperador com a missão de eliminar as irmandades de bruxos e suas escolas. Em duas décadas, toda a paisagem política do Império estava modificada. 
     As escolas mais importantes tinham sido as de Astrar e Ida, as cidades mais antigas do mundo habitado. De uma época anterior ao Império, quando poderosas cidades-estados governavam incontestes a terra conhecida. Nesses velhos burgos do Território Norte, área de extensos desertos e savanas frias, com baixa população natural de lobos – principalmente Astrar, mais distante da capital, as irmandades de bruxos se fortaleceram de forma excepcional. Elas se beneficiaram também da proximidade com um dos polos magnéticos do planeta e o forte campo de energia que se forma ao seu redor. Milhares migraram do Sul para o selvagem Norte. Foi nessas regiões que séculos depois o conflito com os lobos fora mais intenso e mortal e era também onde restavam os maiores focos de resistência dos bruxos.  
     Em uma taberna de Ida em que os amigos de infância se reencontraram discretamente, H contou a Jin que o atual Imperador, Jeon Jungkook, de apenas 23 anos, carregava o amuleto consigo todo o tempo, para se prevenir da aproximação furtiva de bruxos ou seres sobrenaturais. Não o retirava nem mesmo ao tomar banho. Mas, graças a seu brilho azulado, ele o vira de relance algumas vezes, entre as dobras da camisa de dormir do mandatário, quando esse fazia suas abluções pela manhã. 
     Contou que o jovem governante, a todo cio – que para os alfas normalmente corresponde a picos semestrais de testosterona, passara a escolher um ômega para acompanhá-lo. E o faria de novo em breve. Essa pessoa permanecia com ele no quarto por até três dias. Como todos os aposentos reais eram protegidos contra magia, sobretudo o quarto do imperador, H acreditava que ele não deixaria de escolher um ômega em que apenas percebesse magia potencial se realmente o preferisse, ou pelo menos não precisaria fazê-lo. Essa possibilidade era a chance de Jin. Se o imperador escolhesse um bruxo ou uma bruxa treinada por ele, essa pessoa poderia roubar a pedra e sair do castelo enquanto ele dormisse. E como dopá-lo durante o cio arriscaria a sua vida, o enviado teria que lhe servir e esperar a última noite. 
     O acompanhante do imperador era escolhido alguns dias antes em um encontro reservado no castelo. O chefe de Inteligência Imperial, Min Yoongi, é quem descobria e selecionava os candidatos nos bairros mais desfavorecidos de Quisa. Raramente eram aceitos ômegas de fora por razões de segurança, mas exceções eram acolhidas desde que o candidato ou candidata fossem excepcionalmente atraentes. A preocupação do Conselho Imperial, chefiado pelo Ministro da Segurança e da Guerra, primo do imperador, Kim NJ, era manter JK satisfeito com o procedimento de seleção de companhias e evitar que ele quisesse repetir a pessoa ou desenvolvesse relação afetuosa com ela. O imperador, afinal, casar-se-ia com um homem ou mulher nobre, lobisomem, capaz de garantir bons descendentes e contribuir para a estabilidade política do Império. 
     Jin explicou aos irmãos mais novos – assim considerava TH e JM, que tinha um contato confiável na capital disposto a indicar dois ômegas designados pelo bruxo para o encontro no castelo. Ninguém estaria mais preparado para essa missão que JM e TH. 
De fato, questionou um ainda atônito TH, eles tinham sido extensivamente treinados em técnicas de defesa e ataque corporal, eram disciplinados, bruxos experimentados, e estariam aptos ao esforço físico necessário para servir a um lobisomem alfa e jovem durante o cio, mas nada no seu treinamento lhes poderia auxiliar a seduzir o imperador. 
     Tendo sido essa a única objeção apresentada por TH até aquele momento da conversa, e obviamente lhe parecendo tão suficiente óbice ao plano, Jin parou para olhá-lo e apreciá-lo com atenção. Viu lindos olhos, grandes, amendoados, apontando por debaixo da franja cheia e ondulada. Em tons escuros, como os da pele, naturalmente dourada e típica dos nativos do Norte. Lábio carnosos, com ligeira tendência a se curvarem para baixo. Silhueta fina, alongada, tão graciosa como a de um dançarino. Seu irmão mais novo era tão bonito que não precisaria falar. E se ele não fosse escolhido, pensou o mais velho, tudo bem, JM não ficava atrás. Era excepcionalmente atraente, com gestos e aparência femininos, belíssimos cabelos platinados e um corpo sem defeitos. Apenas um pouco mais forte que o desejável para a situação. Convinha que os dois não dessem a conhecer seu extenso seu treinamento marcial. 
     Além disso, nenhum deles era inocente, pensou Jin. Pelo contrário. Aprontaram bastante nos bairros boêmios de Astrar nos últimos anos, sempre juntos. Quando não estavam treinando ou em missão no deserto, costumavam sair para dançar e beber e, algumas vezes quando faziam novos amigos, passavam dias sem voltar para casa. Aparentemente não tinham preferências de gênero e também não discriminavam humanos. 
     Jin desconfiava que até compartilharam um amante, Park Bo-gum – justamente o filho mais novo do governador, para desonra e desespero da família. Por causa desse caso, JM e TH passaram três meses sem pisar na cidade antiga, e o jovem lobisomem, enviado permanentemente para treinamento militar na capital. Os dois não eram inexperientes. Buscaram nas noitadas de Astrar a vivência de juventude que a vida regrada e o treinamento intenso lhes privaram sempre.  
     Embora nunca tivesse pensado que seria esse o expediente usado para recuperar o amuleto, Jin estava aliviado porque julgava que os riscos da missão eram relativamente baixos, pelo menos em comparação com os de um enfrentamento direto. JM e TH foram bem treinados para a guerra. Mas a vida clandestina, com suas privações e perigos, havia feito deles excelentes espiões. Sem dúvida, aquela era a grande chance dos bruxos. 
     TH não se sentia nem um pouco preparado, contudo. JM aceitou melhor o encargo, a seu ver, ou então não acreditava de jeito nenhum que seriam selecionados  e não tivera coragem de dizer isso a Jin. Quando o irmão mais velho acabou de falar, JM apenas se levantou e disse que levaria a janta para o pai e voltaria no outro dia seguinte cedo, para os detalhes da missão. 
     Passado esse dia, amanhã os dois partiriam sozinhos para Ida, lembrou TH enquanto fitava a noite se apossando da paisagem desértica. Lá, seriam recebidos por integrantes do Lírio que lhe apresentariam a cidade. Era preciso conhecer ao máximo o ambiente para formular estória cobertura crível de que os dois eram nascidos em Ida e sempre viveram e trabalharam na cidade. Se revelassem que eram de Astrar, certamente não passariam pelo crivo da segurança imperial. 
     O plano era permanecer em Ida por até três semanas. Depois, seguiriam para Quisa e se hospedariam em uma das tabernas da cidade cuidada pelo contato de Jin, uma senhora idosa que comprava feitiços em Ida para vender irregularmente na capital. Ela sabia que os dois eram estudantes de bruxaria, algo escondido, mas não o pior dos crimes, e que viriam a Quisa fazer pesquisas na biblioteca do castelo. Imaginava inclusive em se beneficiar e aprender mais sobre os feitiços que comercializava.
     Ela também soube que os dois queriam ser candidatos ao serviço ao imperador. Seu próximo cio aconteceria no início do verão. Como era um trabalho bem remunerado, não lhe estranhou que dois jovens ômegas estudiosos, com planos de melhorar de vida, identificassem a oportunidade sobre a qual todos estavam sempre falando nas ruas pobres de Quisa, e nem lhe incomodou quando Seokjin, que lhe vendeu tão bons feitiços, pediu que ela apresentasse os irmãos mais novos ao Chefe da Inteligência imperial, conhecido como “o espião”, quem costumava a vir à taberna em busca de indicações. 
     Algo dizia a TH que, desse certo ou não, as coisas não seriam as mesmas depois da missão. Talvez eles perdessem o refúgio de Astrar. Ou poderiam não voltar, nem ver mais o deserto, sentir a mágica que se movimenta selvagem e sem obstáculo por ele. Alguma coisa poderia acontecer com JM.  Jin e ele eram tudo o que tinha. E tendo perdido tanto, tão cedo, não os trocaria por nada, nem pelo sonho do retorno da magia à vida pública. Mas era Jin que pedia, sua família. E seu irmão mais velho não podia viver sem resistir ativamente à perseguição. Seu coração estava apertado de pesar, mas amanhã eles partiriam, para o que fosse. 
                                                                                                                     ***
     Após uma noite mal dormida, JK decidiu passar o dia recolhido e aguardar em seus aposentos o chamado de YG. Treinou até bem mais tarde que de costume, sem pressa. Seus músculos tensos, por causa das dificuldades da rotina à frente do governo, machucaram durante o exercício. Mas se autorizou uma longa e merecida massagem, que ajudou a aliviar a dor. 
     O óleo de amêndoas doce em contato com a pele tinha um cheiro bom. JK sabia que a essência exótica vinha do Norte. Ministros mencionaram que o óleo era usado em feitiços, para provocar os amantes. Era bom. O massagista também era nortista, uma indicação, diga-se heterodoxa, de H, que aos poucos ganhava o gosto da Corte. Não havia muitas pessoas do Norte ali, pensou. 
      O massagista pediu que ele tirasse a camisa e a calça. Para auferir todos os bons efeitos da sua técnica, vastos e profundos, foi o que disse. Se JK não tivesse sentindo tanta dor, dificilmente teria concedido, mas valera a pena, conseguiu finalmente relaxar e dormir por algumas horas, embalado pelo cheiro de amêndoas e a iluminação letárgica das velas. 
     A massagem fez aumentar os sintomas de chegada do cio, concluiu ao acordar. Vai começar em poucos dias, pensou, no máximo três. Era péssimo que ele não soubesse com antecedência com quem iria ficar dessa vez. Culpa de YG, que se enrolara com a viagem ao Território Sul, deixando o assunto do acompanhante para a última hora, como se importasse menos que qualquer outra coisa. JK nem sabia se ainda podia confiar em si para fazer a melhor escolha. Com certeza, devido ao adiantado da hora, essa caberia mais a seu lobo, que já estava a agitar-se.
     Levantou do cochilo sobressaltado, as faces quentes. Alguém veio avisar que YG o aguardava no pátio interno da residência. Preferiu vestir só a túnica de linho preta, e deixar a capa e o colete para trás. Ainda estava frio, mas era como se fosse alto verão. A ocasião, nem um pouco formal a seu ver, não exigia mais que uma blusa, por cima da calça de couro. 
     Ele nunca escolhera uma mulher. YG reparou e parou de insistir. Pelo menos isso. Teria gostado e preferido ficar de novo com o seu último acompanhante. Que tinha sido muito discreto e silencioso, e ao mesmo tempo agradável em todos os aspectos. Mas seus irmãos mais velhos – assim considerava NJ e YG, assim como os demais ministros, pareciam concordar que o melhor era selecionar a cada vez alguém diferente, a fim de não arriscar bons prospectos de casamento. Com os dois primeiros acompanhantes, contudo, ele não se sentira nada bem. Tinha sabida dificuldade de ficar à vontade com estranhos e, mesmo durante o cio, havia oportunidades para momentos de lucidez e embaraço. 
     Mas se dirigia agora aos candidatos, conforme combinado. E se não gostasse de nenhum, ficaria com o menos pior, e depois se recusaria a ceder novamente à chantagem dos irmãos. Era esse seu espírito enquanto descia rapidamente as escadas em direção ao pátio. 
     Quando apareceu, todos souberam de quem se tratava, apesar das vestimentas leves e de não haver cerimonial para a ocasião. Além da atitude, tinha a idade e o corpo certos. De acordo com o que fora dito a TH pela senhora da taberna. O jovem imperador era alto, longilíneo, parecia forte, e tinha olhos pretos muito expressivos. E era bonito mesmo, como ela dissera... 
TH o viu alguns segundos antes de ser visto. Mas o viu antes. E depois, o momento em que se olharam pela primeira vez. JK hesitou, fitou-o de novo. TH estava no centro do semicírculo de ômegas formado à sua frente. Era alto. Magro. Tinha os olhos grandes, a pele morena, incomum em Quisa. Atributos que chamavam atenção. Enquanto passava pelos demais candidatos, um a um, pela ordem, JK lançava olhares furtivos frequentes em direção ao exótico ômega. 
     Através do amuleto sentira o centro de magia de TH, denso e pulsante como o de um lobisomem. Espantou-se, pois raras foram as vezes que viu esse poder em lobo comum, nem lobisomem, nem bruxo. Mas confiava que YG não lhe traria candidatos que oferecessem risco de segurança. E TH não era o único. JK podia sentir na pele a energia estática em excesso no ar. Buscou YG com os olhos, a questioná-lo, e ficou claro que ele não percebia. Ao invés de rejeitar o ômega, como seria de se esperar, a situação só fez com que JK se interessasse mais. 
     Vieram lhe servir uma taça de água. Que ele tomou de uma vez. O sol das cinco desenhava sombras de cerejeiras no painel de linho que reservava parte do pátio para o encontro. Notou que o rosto do ômega, parcialmente visível sob a cabeleira assanhada, era agradável. Especialmente os olhos. Muito bonitos. Desviou-se novamente, com alguma dificuldade. Os outros candidatos eram aprazíveis, admitiu, reconhecendo os esforços de YG. 
      Quando finalmente chegou a vez de TH, JK não queria mais falar. O ômega lhe parecia já sem defeitos. Exatamente como ele gostava, sem o saber. Estranhou como a presença silenciosa de alguém sobre quem nada conhecia podia ter uma tal impressão sobre si. É claro, pensou, meu lobo escolheu você. É por isso que você cheira tão bem e meu coração bate tão rápido. E é com você que vou me deitar em alguns dias, pensou aliviado, e grato por ser o imperador e poder usufruir sem maiores consequências da companhia de tão belo amante. Mesmo que algo perigoso. 
     TH não estava indiferente. Parecia hipnotizado pelo jovem imperador. JM notou, fascinado. Nunca antes testemunhara um interesse real de TH por alguém. Pelo contrário, para TH tanto fazia transar ou não, esse ou aquela, tudo dependendo de sua disposição para se divertir ou se esquecer em meio às companhias, qual fossem. Ele sabia quando o irmão estava fingindo.
     Os demais ômegas presentes logo tiveram a mesma impressão. O imperador estava cativado. Após alguns minutos de silêncio e intensa troca de olhares entre os dois, YG resolveu intervir perguntando se o imperador não desejava já anunciar sua escolha. 
      “Como você chama? ” Perguntou então, despertado. 
     “TH”. Anunciou a voz grave e rouca, para a surpresa de JK. E acrescentou, com um leve sorriso. “Park TH, majestade, de Ida, a seu dispor”. JK assentiu com a cabeça, memorizando o nome. 
     “Park TH”, precipitou, “O escolhido é Park TH”. Disse olhando o lindo ômega, que soube então ser dois anos mais velho que ele e estudante de medicina, nas palavras de YG. 
     TH assentiu com uma leve inclinação da cabeça, confirmando o YG dissera e se comprometendo a servi-lo. Nesse momento, quando se abaixou e finalmente se desviou do rosto de JK, deu-se conta da enormidade do que acontecia. Ele afinal fora escolhido, como acreditou Jin e contra os vários óbices pensados tantas vezes por JM e ele durante a viagem. Agora deveria se preparar para dormir com o imperador e depois roubá-lo. Ajudava que ele era tão atraente para TH. Só ajudava, reforçou mentalmente, tentando se tranquilizar. 
Após a praxe protocolar que deu fim ao evento, JK se aproximou de novo de TH. O sol se punha colorindo vividamente as paredes e os painéis de linho. O pátio esvaziava rápido com a saída dos outros candidatos. YG e outro ômega, que insistia em aguardar TH, discutiam animadamente no portão de entrada. TH também notou. Não sabia se ia ao auxílio de JM ou se ficava, para conhecer o imperador, como parecia ser o desejo desse, e o seu.
     JK fez perguntas sobre sua origem. TH respondeu novamente que era de Ida e vivera na cidade toda a vida. Que era órfão e fora criado com JM, herdando seu nome de família. Ele se parecia com as pessoas que JK conhecia nascidas no Norte. Com a pele mais escura. Como a mãe de NJ, também natural de Ida. Perguntou o que TH estava fazendo em Quisa e por que ele estava no grupo de ômegas, já que era de fora da capital. TH foi respondendo com timidez e graça, sem vacilar, e JK ainda estranhava sua voz. Também notara o hábito do ômega de passar a língua sobre os lábios. Gesto de nervosismo, talvez de outra coisa. Àquela altura, sentia-se febril. 
     O imperador decidiu então não mencionar a YG que percebera a magia de TH, muito maior que os níveis considerados seguros para se eliminar a possibilidade de vínculo com bruxaria. 
                                                                                                                ***
     Apenas dois dias, e não três, separaram o encontro do afastamento formal de JK de suas atividades de primeiro mandatário. À medida em que seu corpo se preparava para o cio, sua razão perdia para o extinto e os impulsos que aos poucos tomavam a mente. Seu lobo. 
No meio da tarde, o jovem alfa arrancou a camisa de dormir, a pele supersensível não tolerando mais a carícia do tecido. Calor e sensação de sufocamento o deixando ansioso, ele exigiu, já meio fora de si, que o ômega lhe fosse trazido imediatamente. 
     TH fora avisado no dia anterior que aquela tarde era esperado no castelo. Passara tempo meditando, empregando técnicas ensinadas por Jin para se concentrar. JM percebeu que apesar disso ele estava excitado, não conseguia ficar quieto. Falava sem parar dos riscos envolvidos, das chances de sucesso e a admiração de Jin, da atitude vigilante de YG e sua óbvia implicância com JM e, principalmente, das várias qualidades insuspeitas percebidas no imperador. 
     Ao ouvi-lo, JM teve mais receio sobre o aconteceria. Não era aquele o estado de mente ideal para missão tão perigosa. Sentiu a falta de Jin. Ele saberia o que fazer e o que dizer a TH. Tentou repassar o plano tal como fora combinado, forçando TH a se lembrar repetidamente dos detalhes e se fixar na recuperação da pedra e na saída segura do castelo. Depois, entregou a situação para a Deusa, pedindo proteção divina para o irmão. 
     Os guardas vieram antes do esperado, para escoltar TH até a residência imperial. YG também veio, aparentemente para provocar JM. Ele implicara com o ômega, e só com ele, desde o primeiro momento, insinuando que não era suficientemente atraente, e depois que não era confiável. Usou esse expediente para fazer perguntas. Tentou desconcertá-lo, fazê-lo reagir. No fim, quando JM deu mostras de que nem mais queria, aprovou sua participação. 
     Pelo bem da missão, JM tentou controlar seu temperamento, mas o novo encontro com o Chefe da Inteligência imperial se mostrou particularmente desafiante. Ele temia se alterar e revelar alguma informação que ameaçasse o plano. Mal se despediu de TH, distraído que estava com YG. Viu de longe o irmão ser conduzido para carruagem que o aguardava em frente à taberna. 
     O caminho até o pátio da residência era conhecido. Depois, dividia-se em inúmeros corredores, parecidos e mal iluminados, e TH não conseguia se lembrar com certeza de onde passara. Após dez minutos transitando no labirinto dos aposentos reais, chegou até antessala do quarto do imperador, um cômodo amplo, com pé direito alto, forrado até o teto com madeira e ornado com prata. A seu lado, na sala de banhos, seu corpo foi cuidadosamente limpo, o cabelo penteado, as unhas lixadas. As roupas substituídas por uma rica túnica de dormir de linho, cinza claro, em alusão à cor prateada do brasão imperial. 
     De repente, todos se apressaram e ele foi instado a se dirigir para o quarto. 
    Entrou sozinho. Sua magia imediatamente se recolheu. Como previsto por Jin, o quarto tinha o formato de um pentágono perfeito. E provavelmente paredes de madeira e prata forradas com chumbo sobre pedra. O fluxo de energia mágica se cancelava completamente no centro do cômodo, remetido pela posição e o reflexo das paredes protegidas pelo metal. Nunca estivera em um local tão vazio. Nem sua magia refluíra tanto. Ele a sentia, mas não lhe estava mais disponível, nem reagia com o ambiente. 
     “Ômega?” o imperador chamou com voz grave. Estava na cama, sob cobertas, aparentemente sem as roupas. TH se virou para mirá-lo. Seu torso nu espetacular estava visível. Seus olhos desfocados, fixados em TH. A boca vermelha entreaberta. O cheiro de alfa dominava o quarto e as pernas do ômega começaram a bambear. A boca a encher de água. Seu centro de magia mesmo insulado vibrava sem controle e ele estava irresistivelmente atraído. 
     JK fez como se fosse levantar, ir em direção e ele, mas desistiu, preferindo apressar TH para a cama. Empurrou as cobertas. Não vestia nenhuma peça de roupa. 
     TH se aproximou. Quando pode, JK ergueu as mãos até seus ombros e o fez sentar, gentil e firme, sobre o joelho esquerdo, na cama. Olhava TH como se ele fosse a primeira refeição que faria em muito tempo. Levantou os braços trêmulos até a gola da túnica do ômega e tentou desfazer o amarrado, mas se atrapalhou com a tarefa. TH quis ajudá-lo e suas mãos se tocaram eletrificadas. JK as tomou junto às suas, sentindo visível prazer no contato íntimo. Por meio delas, puxou TH para cima de si, quem caiu no seu colo, colocando a perna esquerda do outro lado do lobo. À curta distância, os dois se olharam e se apreciaram sem pudor por quase um minuto. 
      TH desfez o fino laço da gola e abriu a túnica enquanto JK mordia os próprios lábios, excitado e impaciente. Não hesitou em colocar as mãos na superfície dourada e quente da pele que aparecia. Respirava com força. O cheiro inebriante do ômega agora o circundava e a temperatura do seu corpo parecia subir ao insuportável. Puxou TH para si, aproximando seus rostos, e com os olhos, e o que lhe restava de lucidez, pediu licença e passou a tocá-lo no pescoço e no colo, usando lábios, dentes e língua. E depois na boca. E como se soltasse uma fera de dentro de si, tinha fôlego para devorar TH com um beijo. 
     Pegou TH pela nuca e a cintura. Tinha controle sobre seu corpo indecente. Sem machucar, virou-o e deitou por cima dele já desnudo. Queria ficar por cima. Após beijá-lo por mais alguns instantes, abriu e levantou as pernas de TH para se acomodar como queria entre elas. Ele estava duro e molhado, assim como JK. Ao perceber isso, gemeu alto e apertou o punho contra os cabelos cheios de TH trazendo-o para si, para beijá-lo sensualmente. Várias vezes. Agora precisava entrar dentro do ômega e foder. Parecia um delírio. Pediu a TH que o chamasse de JK. 
                                                                                                                ***
     O cio com um lobisomem alfa, sobretudo para um lobo comum, é experiência intensa. Tipicamente, ele tem energia para copular por horas, pelo menos duas vezes ao dia. Mas se o alfa tiver vinte e três anos e a musculatura de JK, as possibilidades são infinitas. 
TH aprendeu muito sobre o próprio corpo. Sentiu prazer por mais tempo e com mais profundeza que nunca antes. Novas camadas de nervos, completamente desconhecidas de sua experiência, fizeram-se presentes. Tremeu tanto no colo de JK que achou que ia morrer. Mas mesmo quando apagava por um momento, logo voltava a si, com um sorriso, e parou de se preocupar. JK era um amante generoso e atencioso. E mesmo em seu estado, exigia sua atenção constante.
      Quando paravam para comer, o imperador despertava e cuidava do que ele comia. Insistia para que bebesse água, comesse fruta. Depois, fazia com que TH fosse com ele à sala de banho se lavar, enquanto os empregados trocavam os lençóis. Desnecessário, na opinião de TH, que preferia dormir. Mas uma mania que de fato tornava as coisas mais agradáveis, e TH sentia que conhecia JK. Pelo menos a água no castelo era quente, perfumada e abundante. 
      Quando ficava realmente cansado, JK se detinha para lhe poupar pelo tempo que precisasse, razoáveis as expectativas. Mantinha-o junto a si, o nariz grudado em seu pescoço, sentindo seu cheiro. TH pensava que não encontraria outro amante assim na vida. Nem o corpo, nem o rosto, nem o jeito controlador, porém encantador de JK. Era uma vez. Então, ele se deixava abraçar enquanto fechava os olhos por um instante, e se sentia privilegiado por estar ali.
     Na terceira noite, teve certeza que de era seguro dar sonífero a JK. Com seu lobo finalmente satisfeito, o alfa estava naturalmente sonolento. O sonífero estava seguro em um espaço seco costurado com mágica sob a superfície da pele. Não foi difícil adicioná-lo à água do imperador. TH se sentindo culpado ofereceu chupá-lo mais uma vez antes dormirem e JK concordou na hora. Acomodou-se na cama, empilhando os travesseiros para que pudesse ver bem TH fazendo aquilo. Pensou na boca linda esticada de novo ao redor do membro ereto. Saliva e o gosto do seu pênis escorrendo uma linha fina pelo queixo dele. E apesar dos últimos três dias só fazendo sexo, JK ficou duro em um instante. 
     Passados os festejos da sensual despedida, caiu no sono animado pela poção de TH. O bruxo esperou deitado do seu lado para buscar com a mão o pingente, a pequena pedra azul amarrada no pescoço do lobo, e com cuidado substituí-la por outra de aparência igual. Não hesitou. Pertencia a Jin. Estava contente que JK estivesse dormindo e não o visse retirá-la. Procurou pensar no irmão, em como ele e JM estariam torcendo e esperando por ele, e na irmandade, que teria novo alento com o retorno do amuleto. 
Antes de ir embora, o peito apertado e dolorido por ter de deixar JK daquele jeito, sem se despedir, admitiu por um momento que seus sentimentos pelo lobo podiam não ser mero encanto, mas algo que importasse talvez e que de certa forma estaria abrindo mão. Mas mesmo que JK por ventura sentisse o mesmo, e TH não partisse finalmente, pensou voltando a si, nesse mundo os dois nunca ficariam juntos. Simplesmente não existia circunstância que tornasse isso possível. Mesmo assim ele hesitava? Lamentava? Alimentava ilusões sobre a realidade enquanto o imperador dormia?
      Pensou então no milagre que seria encontrar a saída e deixar a residência sem ser notado. E que devia se concentrar nisso. O chefe da Inteligência poderia estar esperando por ele no caminho. Fosse esse o caso, ele diria simplesmente que o imperador o dispensara. O retorno de sua mágica proporcionou alguma clareza de pensamentos. Buscou seguir pelos corredores mais próximos à parede externa do edifício, pela qual entrava luz da lua cheia. 
     Já do lado de fora, seguiu a pé para Quisa sem ser importunado. Tinha experiência em missões noturnas em Astrar. Reuniu-se com JM, que o esperava próximo a um dos portões da cidade. Partiram de pronto e sem avisar, naquela madrugada. A viagem até o Norte levaria dezoito dias sem descanso e duas trocas de montaria. 
                                                                                                                      ***

 


Notas Finais


Vou publicar um capítulo por semana


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...