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História A manhã de um novo amor - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capítulo II


 

II

Os três bruxos estavam vivendo nas montanhas no oeste do Território Norte. O clima era seco, mas o vento carregava o cheiro peculiar de litoral, que não ficava longe. Passa tempo de TH era levitar pedras no quintal, fazê-las dançar para si. A distância do deserto lhe cobrava algum vigor, percebeu ao tentar erguer um pedregulho a alguns centímetros do chão. Ele fazia com facilidade em casa, Jin observou da cozinha, enquanto preparava o jantar. 

Ali, estavam completamente isolados. Os aliados dos Kim tinham se dispersado e aguardavam escondidos a ofensiva dos lobos. Jin previa ser necessário esperar alguns anos para começar a usar o amuleto na reorganização dos bruxos. Estava preocupado apenas com alguns amigos, principalmente em Ida, primeira cidade que seria devassada. 

YG tinha informantes por toda a cidade e tropas do imperador lideradas por NJ rapidamente tomaram Ida. Dezenas de pessoas foram presas e não menor número de estabelecimentos fechados por ordem do ministro da Guerra. Não demorou muito para acharem rastro dos dois bruxinhos. TH e JM ficaram hospedados na casa de um homem que prestara serviços para bruxos monitorados por espiões do Estado. Um deles acusado de produzir e contrabandear feitiços e objetos mágicos para Quisa. Em poucas semanas, confirmaram que TH e JM eram protegidos de Kim Seokjin, do Lírio de Astrar. 

O exército imperial se preparava agora para invadir a cidade antiga. Sua missão era recuperar o amuleto, apreender Kim Seokjin, Kim TH e Park JM com vida e trazê-los à capital para serem julgados. Havendo meios e tempo para isso, deveriam levantar informações sobre as organizações clandestinas de bruxos que restavam no Território Norte e desmantelá-las. Eram as ordens expressas do imperador.

Quando acordou sozinho na tarde do dia seguinte à partida de TH, JK ficou profundamente decepcionado. Consigo, por não ter prevenido seu desaparecimento, ordenando claramente que o ômega permanecesse no quarto até que ele acordasse, pedindo a YG que escalasse guardas para proteger seus aposentos à noite durante o cio. Com os empregados da residência, que não estiveram vigilantes e não o impediram. Com TH, que tinha aparentemente tomado a iniciativa de ir embora sem falar com ninguém. Quando JK tinha planos de conversar e conhecê-lo melhor, no momento em que a vertigem do cio passara.

Apenas horas depois, quando localizou YG e ia mandá-lo buscar TH, percebeu que tinha algo errado com a pedra que levava no pescoço. Ela não reagiu à presença do lobisomem. JK se voltou então para outros, que sabidamente tinham magia, para verificar o que acontecia. Ficou evidente que não era o mesmo amuleto, que ele fora trocado por outro igual sem poderes, e o acompanhante do imperador poderia ter feito isso. 

JK se lembrou então de quando sentiu a magia de TH. O intenso fluxo de energia se movimentando através do peito, na altura do amuleto. Foi invadido por forte sentimento de pavor. TH era um bruxo, viera a Quisa para roubá-lo. Tinha conseguido. Sabe-se lá o que os bruxos queriam com a pedra, não era bom. 

TH mentiu descaradamente. Ele o enganou. Aproveitou-se do estado vulnerável de JK para furtá-lo, de forma covarde, enquanto dormia. Possivelmente agiu por ordem de alguém. Bruxos ou irmandades que se escondem no Norte. Onde ainda prosperava a prática da magia, e aparentemente também a da conspiração contra o Estado. 

TH aceitou passar o cio com JK para roubar o amuleto. Um bom ator. Frio, calculista, disposto a tudo. E JK não desconfiou. A magia, a cor da pele... estudioso de botânica e medicina... E seu lobo não pressentiu nem estranhou nada, só queria se fartar do ômega. 

Como ele trouxe a pedra falsa para o quarto depois de passar pela meticulosa revista dos empregados? Como enganou YG? JK tentava entender. 

YG falhou em protegê-lo. Permitiu a entrada de TH no castelo. Indicou o bruxo ao serviço ao imperador. Não previu a movimentação dos bruxos. TH, se é que se chamava assim, era provavelmente um espião treinado. Provavelmente usara magia. Caminhara sozinho pela residência imperial. Estivera ali duas vezes. Conhecia o caminho. Assim como seu comparsa.

JK vociferou contra YG e exigiu providências. Mas não o fez na reunião do Conselho de Ministros convocada para o dia seguinte. A situação era tão grave que poderia causar seu afastamento ou demissão do ministério. E isso o imperador não podia arriscar. Por isso falou o que queria, mas só na frente de NJ, que a tudo ouviu em silêncio e com crescente inquietação.

A pedra já fora motivo de muito transtorno em sua vida, e ele não queria ter com ela, muito menos revirar o Império a sua procura. Mesmo concordando com YG e JK sobre o furto provavelmente ser parte de um plano das irmandades para recuperar poder. Conhecendo bem as razões que antes levaram seu pai a tirá-la dos bruxos. NJ teria preferido deixar que YG a procurasse ao longo dos meses, por meio de sua rede de colaboradores pelo território, suas operações clandestinas e técnicas sigilosas. 

Mas JK estava resoluto quanto à urgência e a magnitude da resposta do Império e recusara todos os argumentos contrários à intervenção militar sem tentar refutá-los. NJ viu então que o jovem lobo estava transtornado, totalmente desconsolado com o que acontecera. E tomando decisões motivado por emoções, o que ele sabia ser ruim para os assuntos de Estado. 

NJ também sabia que era grande a chance de envolvimento de Jin no roubo do amuleto que, afinal, fora roubado dele antes, e em circunstâncias algo similares, não podia deixar de notar. Ele certamente nunca esquecera ou perdoara o que aconteceu, e planejara revidar. A chance de voltar a enfrentar Jin no campo de batalha lhe causava temor, mas também ansiedade.

O imperador ao menos foi convencido a não liderar pessoalmente a ocupação e aguardar seus desdobramentos no castelo. Seus irmãos mais velhos insistiram durante horas até demovê-lo da ideia. E JK finalmente assentiu, consolado pelo fato de que eles partiriam em uma semana. Os bruxos então saberiam que o imperador iria às últimas consequências para fazer valer sua vontade e assegurar sua hegemonia sobre o território. E TH se arrependeria amargamente de ter participado de conspiração contra ele. Disso JK pessoalmente se certificaria. 

***

Quatro meses depois, Ida e Astrar ocupadas por tropas do governo imperial, não havia sinal dos bruxos, nem do amuleto. Ninguém conhecia seu paradeiro, nem mesmo aliados seus detidos nos arredores da cidade antiga. Os três continuavam escondidos nas montanhas, a uma distância segura da ocupação. 

Jin havia proibido TH de sair à noite para caçar com JM porque vinha enfrentando dificuldades para usar magia e estava adoecendo por causa disso. Jin estava preocupado. Podia sentir através da pedra o centro de magia TH se esvaindo aos poucos e sendo absorvido por aquele lugar.

No início, pensou que os impactos da presença prolongada do irmão em local que impedira a manifestação de seus poderes mágicos causaram os efeitos que ele investigava. Pensava no quarto estéril do imperador. Embora tivesse conhecido bruxos que presos foram submetidos a condições piores sem desenvolver sequelas. Além disso, se aquele fosse o caso, não teria levado tanto tempo até aparecerem os sintomas. Antes de chegarem às montanhas, TH usara mágica inúmeras vezes, inclusive em feitiços complicados que exigiram seu máximo desempenho. 

Jin passou a realizar testes sobre o ambiente, a fim de saber se algo nas montanhas estava drenando os poderes do irmão. Mas não conseguiu confirmar nada ao longo dos meses. O que quer que fosse, não o afetava, nem a JM, e passava a atingir o corpo de TH, que estava sempre exausto. 

A solução era sair dali. Buscar outro esconderijo, mesmo que tivessem que se expor e viajar. Não seria fácil com o escrutínio imperial avançando esmagadoramente sobre os quatro cantos da terra. Mas o maior empecilho já era o próprio estado de saúde de TH, o qual comprometia seu deslocamento seguro. 

Jin decidiu pedir ajuda a uma bruxa que vivia perto. Jiah era também uma médica experiente. Após alguns minutos examinando TH, descobriu o problema. E estranhou que Jin não soubesse, tendo sido necessário apenas simples teste de verificação. TH estava grávido de dois bebês mágicos, provavelmente lobisomens, e seu corpo estava lutando para provê-los de magia necessária a seu desenvolvimento. 

Ao ouvir isso, TH ficou completamente alerta, apesar do cansaço debilitante. Impossível. A médica não sabia o que dizia. Jin não conseguia ajudá-lo e ninguém mais poderia.  

“Não pode ser, Jiah”, interveio Jin, “ele não é um lobo. Como pode ter concebido com um? ”

“Um dos pais de TH é lobo certamente” afirmou. “É raro que relacionamentos interespécies gerem filhos viáveis, mas aconteceu com ele. Tenho certeza de que ele está grávido de duas crianças mágicas ”

Diante do silêncio perplexo dos bruxos, continuou. “Acompanhei casos assim. O outro progenitor precisa estar junto, compensando o desgaste no corpo do gestante com sua própria magia...Duas crianças mágicas demandam demais do corpo de qualquer um, ainda mais de um lobo comum. Se TH der continuidade à gravidez longe do outro progenitor, os três vão morrer”

Jin não sabia quem tinham sido os pais de TH. Mas não se podia descartar que um deles era lobisomem. E não porque ele fora abandonado, o que quase nunca acontecia em famílias nobres. Mas seus pais podiam ter morrido no conflito, quando houve tantas perdas de vida entre lobos quanto entre bruxos. Eram o raros os casamentos interespécies, principalmente com filhos, mas ele mesmo já ouvira falar de alguns casos. Gravidezes impossíveis. Que precisavam ser interrompidas. 

“Como ‘estar junto’ do outro progenitor? Qual distância? ” Perguntou TH, mentalmente avaliando cenários.

“Seria preciso manter um contato físico continuado daqui para frente. O melhor seria se vocês dormissem juntos”. E explicou: “ à noite, durante o descanso, a magia de uma pessoa tende a se estabilizar e as trocas energéticas com outras são mais eficientes. A proximidade física com o outro progenitor poderia compensar a perda da magia do dia. Mas nada é garantido, tudo dependeria da resistência do seu corpo, TH”. 

Jiah fez novo exame. Feixes de energia cintilante se expandiram a partir do peito TH, dessa vez perfeitamente visíveis para Jin, JM e ele. Vinham dos bebês, suas assinaturas mágicas. TH os sentiu pela primeira vez dentro de si, sua magia pulsando com as batidas dos dois coraçãozinhos.

A bruxa sentiu muita pena ao ver olhos arregalados brilhando de contentamento, e acrescentou em voz baixa. “Infelizmente, as duas crianças somam quantidade de magia extraordinária. É muito difícil que TH sobreviva a isso, mesmo na presença do outro pai. Nesses casos, o recomendável é abortar imediatamente ”

A declaração tirou Jin do estado de estupor. “Claro, compreendemos perfeitamente”, disse olhando intensamente para os irmãos mais novos, “o mais rápido possível”. E esperou que concordassem, como de costume. Mas não foi o que aconteceu. 

“Não! Não, Jin!... Não vou abortar meus filhos. Nem pense nisso! ”

“TH, não tem como salvá-los. Você sabe... Jiah é uma bruxa mais hábil que eu, uma médica mais experiente. Ela sabe o que está dizendo. Você morreria de qualquer jeito! ”

“Não, não, não...” TH parecia se desesperar. Balançava a cabeça e apertava o braço de JM, implorando que ele ficasse a seu lado. Mas JM nada dizia. Apenas olhava com imensa tristeza para o irmão, pensando que aquilo ele não merecia. Conhecia-o tão bem. TH era tão compassivo e resiliente. Mas tinha tanto medo de perder Jin e ele. Não lhe surpreendia sua reação. Nem a de Jin, que exigia seu consentimento no instante. 

“Você sabe que não tem jeito ... O que? Você está pensando por acaso que ele vai te ajudar? ” Jin quase gritava. 

Os dois discutiram fortemente e TH saiu da casa para pensar. Sentia raiva do irmão, que a seu ver tinha somente a guerra com os lobos em vista e não lhe escutava. Caso em que entenderia simplesmente que TH jamais abriria mão dos filhos sem tentar tudo que fosse possível. 

Mas semanas passaram sem que surgisse uma solução. TH ia ficando cada dia mais exaurido, e igualmente mais apegado. Ele e Jin não se falavam. Jin contou a JM que iria provocar o aborto sem o seu consentimento. JM precisou ameaçá-lo para demovê-lo, fazê-lo ver que TH nunca o perdoaria. E nem a ele, JM, que seria então cúmplice de Jin. Continuaria vivo, mas longe, e os rejeitaria para sempre. Isso ele não queria de jeito nenhum. 

Naqueles dias, TH pensou muito em JK. Imaginava o que aconteceria se fosse a ele pedir ajuda, se JK teria misericórdia para com os próprios filhos. Se toleraria a presença de TH no castelo até seu nascimento. E cuidaria para que as crianças tivessem um futuro depois. Tentava resgatar instantes nebulosos, momentos em que o imperador lhe parecera especialmente doce e gentil, o suficiente para acreditar que ele não os repudiaria. Mas ele mesmo não acreditava nisso. E a fúria manifesta na ofensiva dos lobos sobre as cidades do Norte não dissuadia. 

Foi JM que uma manhã acabou com o impasse informando os dois que acompanharia TH a Quisa. A partir disso, TH estava decidido a se entregar e Jin não o faria mudar de ideia, embora tentasse ainda. Ficou acertado que os dois viajariam pelo oeste do território, evitando Ida, e que JM iria com TH até uma vila de lenhadores próxima da capital. Era arriscado que Jin fosse com eles, pois podia ser facilmente reconhecido, argumentaram. Assim como eles juntos, por serem três. Jin sairia então em busca de novo esconderijo. Que TH não conheceria. E deixaria o contato do arranjo na casa das montanhas para que JM o encontrasse depois.

A despedida foi um funeral de dois dias. Jin via o irmão partir para o cadafalso. Para não se verem nunca mais. Não sabia dizer o que sentia a TH. Nem tinha certeza se, como sua única família, não devesse ainda o impedir de qualquer modo. Sentia-se culpado por ter enviado TH ao imperador. Culpado pela gravidez. E pela decisão suicida que agora o tiraria da sua vida. Estava arrependido e desolado e, pela primeira vez em muitos anos, completamente perdido.

***

Fizeram a longa viagem. Quando finalmente alcançaram os arredores de Quisa, TH estava tão enfraquecido que praticamente não levantava. JM cuidou dele como uma mãe de seu bebê doente, como se cuidados suficientes pudessem prevenir ou postergar a separação. A gravidez agora evidente, apesar da magreza de TH, exibia seus seis meses e meio e a dupla carga. E fazia cada vez mais frio à noite ao relento, à medida em que o inverno firmava. 

Não havia motivos para delongar a entrada na cidade, e JM se conformou com a despedida. Abraçou TH por trás e chorou silenciosamente enquanto ele dormia, de novo o entregando à Deusa e dessa vez implorando por um milagre que não selasse de forma tão trágica seu destino. 

Decidira que só deixaria TH quando tivesse certeza que ele foi recebido pelo imperador ou ao menos um servidor de alto nível com acesso ao mandatário. Assegurar-lhe-ia ao menos a remota chance pela qual abrira mão de tudo. Tinha ouvido falar, havia várias semanas, que Min Yoongi retornara a Quisa, e era nele que pensava. 

Ao amanhecer, usou um feitiço para esconder TH e conduziu a carroça carregada de lenha para o castelo. Havia guardas treinados para detectar bruxaria ao longo do caminho, e ele precisou se esmerar para não ser descoberto. TH estava desacordado. Passaram por duas revistas até o portão sem serem impedidos. Quando se aproximaram da entrada do castelo, JM tirou o capuz. Um guarda veio liberar a entrada da carga e viu o corpo de TH estirado sobre a carroceria. 

“Tenho uma encomenda para Min Yoongi. Mande chamá-lo ”, falou em voz alta e firme. 

Mais guardas se acercaram. Um deles foi até TH para identificá-lo. O chefe da guarda eventualmente chegou e, ao tomar ciência do que acontecia, perguntou: “ quem é você e o que você quer com Min Yoongi?... De quem é o corpo na carroceria? ”

“É uma pessoa doente. Um parente de Mim Yoongi. De Andrus”. Lembrou-se que o espião comentara em um dos seus interrogatórios que era de Andrus, a cidade mítica dos lobos, no extremo sul do território. “Veio de longe para receber tratamento no castelo. Eu o trouxe”

“Ele não parece do Sul”, disse se referindo à pele morena de TH. “Nem é lobo”, outro falou enquanto se abaixava para levantar a pele de caça que cobria TH, “muito magro...” JM o impediu, puxando a cobertura com força. 

“Ele está doente há muito tempo e precisa de cuidado urgente. Mande chamar Min Yoongi. Quando ele vir de quem se trata, vai abrigá-lo. Mas se algo acontecer enquanto se espera, você vai ter com ele. ”

O espião do imperador fora chamado e caminhava em direção ao portão. JM o reconheceu facilmente. Os dois mantiveram contato com os olhos por vários instantes, até que o bruxo desapareceu na charpa de bruma. 

***

Yoongi sabia que JM não seria detido, mas enviou grupo de guardas à sua procura. Não obstante ter se encontrado com seu principal alvo e admitido objeto de interesse, estava distraído com o estranho presente que a Deusa lhe tinha trazido às mãos. 

Kim TH, o bruxo que enganou e furtou o imperador, e YG, à vista de todos, inaugurando nova fase do conflito entre bruxos e lobos. Grávido e desfalecido. Entregue à morte, pois seu irmão não podia imaginar outra coisa. O que queriam? Sugerir acaso que JK era o pai? .... Como? .... E para quê? .... Para entrar no castelo? Conseguir de novo acesso ao imperador? 

Por precaução, mandou levarem TH à enfermaria. Naquele estado o bruxo não oferecia risco. Lá recebeu os primeiros cuidados, mas se confirmou o estado de coma. A médica responsável, chamada Gamedi, informou ao espião que TH esperava gêmeos. Perguntada, declarou que eram ambos lobisomens, sem sombra de dúvida, por causa de suas assinaturas mágicas. Que aliás eram das mais poderosas que ela havia visto em bebês em gestação. 

“Como? ” Perguntou YG. “Ele obviamente não é lobo”

“Se não fosse, não poderia conceber um lobisomem... Existem casos de cruzamentos interespécies com filhos viáveis. Raros, mas existem”, explicou. “Mesmo essas uniões milagrosamente bem-sucedidas não são capazes de gerar uma criança mágica, só lobos comuns”E sentenciou sobre TH: “ele é um lobisomem, mas por alguma razão não está manifestando sua ligação com seu animal guia...Talvez nunca tenha se transformado. Não sei o que pode ter causado isso...”

O tempo da gestação coincidia perfeitamente com a data do último cio de JK. Aproximadamente vinte e oito semanas. 

“Ele é um bruxo”, apontou estupefato. 

“Sim! É verdade“, concordou Gamedi, “e tem as inscrições mágicas na base do pescoço. Veja”. Virou TH ligeiramente para mostrar a região da coluna. “São muito discretas, mas dá para ver bem com a lupa. Pelo tipo de grafismo, ele deve pertencer a uma irmandade antiga, provavelmente do Norte. Não sei o que significam. Mas o fato de ser um bruxo não impede que ele seja um lobo, só torna a situação improvável. Se ele foi criado entre bruxos, pode ter perdido completamente o contato com seu lobo na infância”. 

E continuou. “Mesmo assim, ele não vai conseguir terminar a gestação. O corpo dele não funciona como o de lobisomem típico. O animal guia parece ter sido completamente assimilado pelo subconsciente e sua mágica não impacta essa realidade. Toda a mágica que sustenta o desenvolvimento do centro de magia dos bebês está vindo do homem, não do lobo, e não vai ser suficiente.... Provavelmente, ele não vai acordar mais. Sua única chance seria a convivência com o outro progenitor.... Não há nada que possamos fazer por eles”.

YG pensou no quanto podia confiar nela. Gamedi era casada com Hoseok e atuava como médica no castelo havia muitos anos. Mas o assunto era sensível, especialmente se fosse necessário envolver o imperador. O que YG preferiria evitar, se possível. JK não lhe parecia confiável quando o assunto era Kim TH. Mas se o bruxo morresse sem que YG falasse nada a JK, a julgar pelo atual estado de espírito do imperador e a persistência de sua fixação, a ocupação poderia durar para sempre. E se ele contasse que o bruxo morreu e JK descobrisse depois as circunstâncias de sua morte e a existência dos bebês, poderia se indispor gravemente com YG, que estaria de fato cometendo alta traição. 

“Então, pelo que entendi, se o outro progenitor aparecesse, haveria uma chance de salvar os bebês. E o bruxo também ”

“Haveria. Mas ele já está bem enfraquecido. Não há garantia. Nem para os bebês...”. 

Sem possibilidade de debater o assunto antes com NJ, YG partiu ao encontro do imperador. 

***

JK fizera seu escritório na torre leste. Era alto e silencioso. Poucos tinham razão para se dirigir àquela parte do castelo e YG a mantinha bem protegida. Da janela, ele podia ver o que acontecia em quase todo o perímetro externo, bem como nos jardins e pátios interiores. E Quisa, no vale abaixo. JK tinha o hábito de acordar cedo e àquela hora da manhã estava trabalhando. YG o encontrou debruçado sobre uma pilha de documentos que aguardavam o selo imperial. Ao seu lado, um copo de pedra branca polida com chá preto ainda soltava vapor.

Ao vê-lo entrar, JK rapidamente o engajou em uma conversa sobre notícias da ocupação que tinham chegado na noite anterior. O mandatário queria que YG voltasse imediatamente ao Norte e enviasse uma equipe de espiões treinados às montanhas a oeste do deserto, onde ele acreditava que os bruxos estariam escondidos, com base nas informações que recebera. 

“JK”, YG em algum momento o interrompeu e falou, solene. “Kim TH está no castelo, acabou de se entregar. É o que vim avisar”. Olhava atentamente o semblante espantado do imperador. “Mas está na enfermaria muito doente.... Parece que não vai viver...” 

“Como assim, YG? Em Quisa? ” YG assentiu. 

“Kim TH se entregou? ....” Continuou perguntando. “Como? Por que?! ”

“Ele está morrendo e talvez pensasse que com isso, se entregando, poderia aplacar a ira do imperador e evitar novo banimento das irmandades? Não sei... E não saberemos. Ele não está mais em condições de ser interrogado” E se apressou a acrescentar. “Não há nada a fazer. O estado dele não é reversível”

“Que doença ele tem? ”

“Não temos um diagnóstico”, mentiu, “ele já chegou em estado de coma, muito magro e fraco” 

“E como chegou ao castelo? ”

“O bruxo que o acompanhou da outra a vez o trouxe escondido em uma carroça com lenha. Ele usou um feitiço para passar pelas revistas...”

“Eu quero vê-lo ”

“Agora? ”, engasgou, “acha necessário? ”

“Sim … Vamos para a enfermaria” Disse resoluto, já prendendo a capa ao pescoço. “Quero ver com meus próprios olhos”. 

E era o que YG não queria. Se essa era a decisão do imperador, melhor que ele soubesse antecipadamente de tudo. Inclusive que YG tivera a intenção de mentir. 

“Ele está grávido. De gêmeos. Por isso que ele está morrendo. Segundo a médica que o examinou, os dois bebês são mágicos e estão sugando a energia do centro de magia dele. ”

JK apenas olhou-o. Viu que YG o observava como se aquilo que falara lhe dissesse absoluto respeito. No grave silêncio que se instalou entre os dois, não levou muito tempo para JK concluir a razão de YG ter omitido até àquele ponto da conversa a gravidez de TH.

“Por que ele se entregou, YG?”

***

Quando chegaram na enfermaria, Gamedi os esperava, e ao ver o rosto tenso do imperador, rapidamente compreendeu porque ele fora chamado. Ela então explicou, discreta e objetiva, a condição dos pacientes, e falou da possibilidade representada pela proximidade com o outro progenitor, sem garantias. Principalmente, preparou JK para o que ele iria ver.

E a cena era realmente de partir o coração. Olheiras profundas davam alguma cor ao rosto pálido e emagrecido. A barriga distendida pela dupla gravidez já completamente visível através do amplo casaco de peles. A vida abandonando TH e se convertendo nas duas crianças, que por sua vez não sobreviveriam quando TH morresse. 

Por que ele não abortou? JK se perguntava, perplexo. Os dedos de TH estavam aparecendo sob a cobertura de peles e ele quis saber se estavam frios. Tocou-os ligeiramente com a parte de trás dos próprios dedos, sem que os outros percebessem. Não tão frios como os de um morto. 

Tanto tempo pensando, lembrando, tantos meses. Procurando meios de encontra-lo e prendê-lo e trazê-lo a Quisa. E ele aparece assim, fadado. E por sua própria iniciativa. Tirando de JK toda a chance de confronto e vingança. E ainda fazendo-o chorar a morte dos próprios filhos. 

De repente, TH inspirou profundamente, arqueando as costas e levantando vários centímetros da mesa de observação. YG e Gamedi interromperam a conversa. Foi o primeiro sinal de vida que TH deu desde que chegou. YG notou então que JK estava encostando nele. Os dois lobos se entreolharam. YG pedindo que JK refletisse sobre o que iria fazer e não se precipitasse. O imperador avisando com os olhos que, por mais que considerasse o amigo e o conselheiro, não toleraria mais sua intromissão no assunto. JK segurou as mãos de TH e em pouco tempo ficou evidente que ele respirava melhor.

Se Gamedi tinha alguma dúvida sobre a paternidade dos filhos de TH, resolveu-a rapidamente. A médica avisou que tiraria o casaco de TH para facilitar o contato físico. JK a ajudou. Ele queria reviver TH e salvar os bebês. Se fosse possível, ele queria fazer isso. Eram afinal seus filhos presos na barriga do bruxo. Se sua mágica podia ajudá-los, ele iria fazer algo por eles. Como seu pai teria feito. Como era o certo. O resto era de segunda ordem e ele pensaria depois. 

Por baixo, TH veio embrulhado em três camisas de lã que JM prendera com um feitiço às suas calças. JK abriu as garras afiadas e fez um corte transversal em cima da costura abrindo um buraco sobre as costas de TH. Colocou por um momento as palmas da mão contra a pele que surgia. Depois, abaixou-se até a nuca de TH e se acostumou de novo com seu cheiro e ouviu os corações dos bebês, acelerados como os de um colibri. 

Devagarzinho, a temperatura de TH foi se normalizando. As mãos de JK pinicando onde tocavam as costas do bruxo. O fluxo de energia mágica entre ele e os bebês gerava calor fora do normal e o lobo transpirava. Gamedi assegurou que era um bom sinal, de ótima compatibilidade mágica, e que o calor ajudaria TH a recobrar os sentidos. 

Mas não foi o que aconteceu. Quase uma hora depois, JK se cansou de ficar em pé e passou a pensar em um lugar onde pudesse se deitar com TH, conforme recomendara Gamedi. O bruxo continuava desacordado, embora com melhor aspecto. Tinha que ser um cômodo sem proteção contra magia, mas longe da vigilância corte. Na residência, portanto. Mas onde?

A residência foi o último edifício do castelo a ser construído. Bem depois da criminalização da magia. Foi projetada para a proteção do falecido imperador e seu filho. A mãe de JK morrera no parto. Como TH em breve morreria.

O chefe da residência foi chamado e colocado a par da situação. JK exigiu que ele mantivesse sigilo sobre a presença de TH no castelo. O assunto era tão sensível que se vazasse poderia deixar o imperador politicamente vulnerável. A ocupação contrariou interesses de famílias influentes na Corte e nas províncias. E agora o impensável, um bruxo daria luz a filhos do imperador. 

H compreendeu logo do que se tratava e sofreu ao ver TH, sentindo-se responsável pelo desfecho infeliz. No plano traçado com Jin, jamais foi considerada tal possibilidade. Ômegas comuns não ficam grávidos quando dormem com lobisomens. 

Levaram TH para um cômodo pequeno que servia de sala de estudos nos fundos dos aposentos pessoais de JK. H mandou esvaziá-lo e instalar uma cama, que praticamente ocupou todo o espaço. Ao menos era claro, com duas janelas amplas com vista do alto para o bosque e o rio. 

JK pediu que YG conduzisse a reunião do Conselho de Ministros, na ausência de NJ, e se ocupasse de seus outros compromissos do dia. Ele permaneceria na residência, contra os conselhos e pedidos do amigo. Estava excitado com a possibilidade de fazer alguma coisa pelos filhos. Já sentia tanta ternura. 

Também não desejava ver TH morrer assim. Não assim. Seu dia haveria de vir. E seria por sua vileza de caráter, seu apoio à sedição, não por gestar seus filhos, nem por ser quem ele é. Mesmo que a gestação fosse bem-sucedida, JK estava ciente de que dificilmente o parto seria se TH não acordasse e conseguisse o feito de se transformar em seu lobo, de que podia nem saber. Seria possível salvar as crianças, mas o risco de o bruxo não viver para pagar por seus crimes era significativo, e JK se sentia impelido a de algum modo reduzi-lo.

***



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