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História A Máscara da Lebre (SasuSaku) - Capítulo 24


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Notas do Autor


Bom, olás.

Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer que: esse era para ser, sim, o último capítulo, mas achei que passar de 20.000 palavras era uma má escolha. Então, optei por dividi-lo. Eu nem vou tentar me justificar mais, já fiz isso muitas vezes, e chega uma hora que as desculpas não tem mais validade. kkkk
Apenas aproveitem o capítulo, ok?

Espero que gostem!

Capítulo 24 - Refúgio


Fanfic / Fanfiction A Máscara da Lebre (SasuSaku) - Capítulo 24 - Refúgio

A superfície do lago se remexia em pequenas ondulações com a brisa, refletindo a luz do sol. O parque havia sido recuperado após a batalha feroz travada ali, mas a grama nova ainda estava amarelada e fraca, presa por estacas de madeira ao chão recém-aplainado e, onde um sulco havia se formado com um golpe poderoso, a água entrava criando uma pequena baía.

Sentada no banco do coreto, Tsunade estudou a paisagem calmamente. As mechas que adornavam seu rosto elegante se agitavam para os lados, fazendo cócegas nas bochechas e pescoço. Ali, Sakura e Sasuke haviam assassinado Shimura Danzō. O corpo carecia de um dos olhos e, em compensação, portava dez olhos cegos no braço mantido constantemente oculto. Era uma verdadeira barbaridade, uma aberração.

A Godaime nunca havia simpatizado com o homem, depois passou a odiá-lo visceralmente, mas as descobertas recentes levavam seu desdém a outro patamar. Havia inúmeras questões a serem respondidas, mas o próprio Danzō estava morto, Hiruzen-sama também, os conselheiros haviam desaparecido em meio ao caos e Sakura e Sasuke tinham partido. Qualquer pessoa capaz de fornecer uma resposta digna para todas aquelas perguntas estava muito além do alcance. Kakashi, como o novo Hokage, havia iniciado investigações para entender melhor toda a situação, mas ainda levaria um bom tempo até que tudo fosse clarificado.

E de qualquer forma, não lhe dizia mais respeito.

Preparava-se para desatar os nós que a prendiam a Konoha. Amava sua vila acima de tudo, mas não era o momento de estar ali. Como havia feito após a morte de Dan e de seu irmão, precisava distanciar-se de tudo aquilo.

— Tsunade-shishou. — a voz de Ino interrompeu seus pensamentos. A loira se aproximava a passos lentos.

Oh, Ino. Fico feliz em vê-la. Como está?

— Estou bem. — falou, mas não havia muita convicção. — Você disse que queria conversar comigo? — a mais nova indagou, aproximando do banco, tomando o lugar ao fim de seus pés.

— Sim. Chamei-a aqui para falar de negócios… — limpou a garganta suavemente. — Irei direto ao ponto: estive conversando com Kakashi e com o conselho, você será apontada a nova Vice-Diretora e futura Diretora do hospital de Konoha.

Ino recebeu a notícia com um arregalar de olhos instintivo.

— Eu?

— Sim. Você assumirá a direção no lugar de Sakura.

Estava surpresa. Encarou a sannin, esperando algum tipo de explicação, justificativa, o que quer que fosse, mas Tsunade, em contrapartida, parecia aguarda alguma reação sua.

— Mas… Tsunade-shishou… — começou, titubeando. Os pensamentos passavam rapidamente por sua cabeça.

Tsunade pareceu ler sua mente.

— Não há outra pessoa. Você é a mais qualificada, é minha aluna e extremamente habilidosa. Há de ser você.

Ino nunca havia ambicionado dirigir o hospital. Era um sonho de Sakura que, aliás, havia dedicado boa parte de sua vida e habilidades ao trabalho clínico e à gerência do grande complexo, aprendendo com Tsunade e Shizune todos os segredos e desafios da profissão médica. Ino estava bem sendo uma boa ninja médica, e nada mais.

Além de tudo aquilo, havia seu clã.

— Sei o que está pensando. O trabalho do hospital não a impedirá de levar as habilidades de seu clã adiante e, passado o primeiro momento, conseguirá executar as duas funções paralelamente com maestria, tenho certeza. — Tsunade a fitava intensamente. — Ademais, o hospital é de suma importância para Konoha agora, mais do que nunca. Não pode ter seu corpo administrativo desfalcado.

— E Shizune?

— Será a Diretora Interina, até que você esteja apta a assumir. — a expressão de Tsunade se intensificou. — Shizune não pode ser a diretora oficialmente, apesar de ser competente e íntegra, falta-lhe pulso firme e determinação.

Ino soltou um suspiro audível. Sua cabeça latejava com os pensamentos rápidos.

Era uma oportunidade muito interessante, definitivamente um grande desafio que poderia alçá-la muito alto, além de expandir consideravelmente seus conhecimentos e sua influência. Porém, tudo era muito súbito. A insegurança e a dúvida a consumiam como um animal feroz e faminto.

— Tsunade-shishou, eu não sei se sou capaz.

— É claro que é, Ino. Possui perspicácia e conhecimento, além de ser sociável, assertiva e persuasiva. Só precisa de treino, familiaridade com os processos.

— Foi Sakura quem sempre quis isso, não eu.

— É, mas Sakura não está mais aqui. — sentiu a sannin fulminá-la. Logo a expressão da mais velha voltou a se suavizar. — Você é minha única opção, a única em quem confio. Não me sentirei bem deixando esta função com qualquer outra pessoa, a não ser você. 

Permaneceram ali por mais alguns minutos, em silêncio. 

Não havia mais como ignorar o elefante na sala

— … Como está com relação a isso, Tsunade-shishou? — a voz de Ino saiu vacilante, incerta.

Então novamente se encontraram em meio ao silêncio. A mais velha ponderou longamente, passando a língua sobre os lábios. Finalmente falou:

— Não consigo colocar a minha decepção em palavras.

Uma sombra se fez presente nos olhos cor de mel, mas logo se dissipou. Era evidente que ela estava emocionalmente esgotada. Com o rapto de Sakura, o golpe de Danzō, a guerra e a fuga da pupila, Tsunade havia atingido o verdadeiro fundo do poço e, possivelmente, descido mais além. Não havia mais nada que pudesse expressar, tristeza a ser colocada para fora, lágrimas a serem derramadas. Ela havia secado como uma árvore no inverno.

— Hm. — Ino murmurou apenas, sem jeito. Acariciou o próprio braço, encolhida. — Se não vai reassumir o hospital, o que fará daqui em diante?

— Vou embora de Konoha… ao menos por um tempo. — viu os olhos azuis se arregalarem em surpresa mais uma vez. — Realmente preciso espairecer, deixa tudo isso para trás. Ficar aqui apenas me fará mal. — sua franqueza típica foi recebida com um breve aceno de cabeça pela mais jovem.

— Jiraya-sama irá com você? 

— Sim, ele irá comigo.

O silêncio pairou entre as duas kunoichis mais uma vez. Ino estudou as próprias mãos, absorvendo aquelas informações. Era bom saber que ela não iria sozinha, seu estado de espírito preocupava a Yamanaka, mas não achou pertinente fazer qualquer observação sobre aquilo. A sannin claramente não estava disposta a ter uma conversa emocional e Ino não se sentia íntima o suficiente para insistir… Sakura provavelmente teria falado com ela sobre o que quer que fosse, pensou, sem conseguir impedir sua própria mente.

Tsunade fitou os ombros tensionados da antiga pupila.

— Não se preocupe comigo, Ino. Eu ficarei bem. — falou e algo em seu tom de voz havia recuperado aquela calidez maternal. — Preocupe-se consigo mesma, sei como é duro perder um amigo.

Ino aquiesceu, sua franja lisa caía diante da bela face.

— Se quer um conselho, e disse o mesmo ao Naruto: aceite e siga em frente. Por mais que ame Sakura, ela fez uma escolha e esta escolha foi nos abandonar. — tinha os olhos fixos sobre a Yakamaka. — Eu a amo como uma filha e tenho plena certeza de que sou amada de volta, porém ela escolheu uma vida longe de mim. Não apenas de mim, longe de você, de Naruto, de Kakashi e de tantos outros. Entendo perfeitamente que queira trazê-la de volta e que sinta sua falta, mas ela é adulta e fez o que fez por vontade própria.

Uma lágrima silenciosa escorreu dos olhos manejados de Ino.

— Acha que ela voltará? — perguntou com a voz embargada e tão logo terminou a frase, um soluço escapou dos lábios trêmulos. Esfregou os olhos com as costas da mão.

Tsunade virou o rosto e estudou a superfície brilhante do lago.

— Se ela voltará? Talvez... daqui muito, muito, muito tempo. — seus lábios se curvaram para baixo com um espasmo e voltaram ao normal. — Com a criança, Sasuke... Ela sabe que tem muito a perder retornando a Konoha. Seria julgada como uma criminosa e sobre ele nem há o que falar. Estaria à mercê da clemência de Kakashi e do conselho.

— Eu sempre achei que ela escolheria Konoha. — a loira remexeu as mãos sobre o colo. — Digo, entre Sasuke e Konoha... Nunca achei que... — a frase perdeu força e terminou em um sussurro.

— Sakura sempre nutriu um amor intenso, quase febril por Sasuke. Um amor verdadeiro, não um amor de criança. Platônico sim, mas profundo. Acho que nem mesmo ela se dava conta disto, da magnitude de seus próprios sentimentos.

Incapaz de proferir qualquer palavra, Ino permaneceu em silêncio. A escolha de Sakura transcendia os limites de sua compreensão, ou talvez apenas fosse dolorosa demais para que fosse capaz de atribuir-lhe alguma lógica.

— Quando confrontada com uma escolha, escolheu uma vida ao lado de Sasuke e renunciou à Vila. — Tsunade estudou a mulher cabisbaixa diante de si. — Ino, por mais rancor e decepção que eu sinta, posso ver com clareza que Sakura está lutando pela própria felicidade. É verdade que abriu mão de muitas coisas, mas analisando friamente, ela optou pelo que achou que a faria mais feliz. Você deve lutar pela sua felicidade também, todos nós. Deixemos-na ir, ao menos por enquanto. Foi o mesmo conselho que dei ao Naruto, mas ele é cabeça-dura, enquanto você é uma mulher sensível e inteligente.

O riso de Ino saiu como um sopro em meio às lágrimas silenciosas que traziam o gosto de sal para seus lábios.

— Eu estou tentando...

— Aproveite para focar no hospital. Você tem muito potencial, fará um trabalho incrível. — A frase era assertiva, cheia de confiança. — Sei que é inesperado, mas encare como uma oportunidade de evoluir como kunoichi e como cidadã de Konoha, ganhará experiência e notoriedade. Tudo é difícil no começo, mas você aprenderá muito. Nunca achei que teria de dizer isso a você, mas tenha um pouco mais de confiança em si mesma.

A Yamanaka sorriu fracamente. Realmente, auto-estima nunca havia sido um problema para ela. Nos treinamentos com Tsunade, Sakura sofria de crises de auto-confiança e síndrome do impostor constantemente, e a sannin precisou trabalhar o psicológico da Haruno tanto quanto suas habilidades ninja. Enquanto isso, Ino detinha aquela certeza silenciosa que a tornava quase inatingível e raramente se abalava com o que quer que fosse… Mas naquele momento, emocionalmente instável como estava, tudo lhe parecia infinitamente mais difícil. E, curiosamente, sentia-se assim por causa de Sakura.

Apenas escutou a mais velha, absorvendo as palavras encorajadoras. O assunto estava terminado. 

Suspirou longamente, levantando-se.

— Obrigada, shishou.

— Shizune começará seu treinamento amanhã. Encontre-a no hospital às sete horas e se prepare para uma jornada de trabalho intensa.

A loira fez uma careta brincalhona de aborrecimento, ao que Tsunade riu, e depois agradeceu com um maneio de cabeça.

— Espero que corra tudo bem. — falou. — Cuide-se na sua viagem e mande lembranças ao Jiraya-sama.

Tsunade anuiu. Antes que a loira pudesse se retirar, falou novamente:

— Ino, confio em você.

Olhos cor de mel estudaram a aluna com a determinação do fogo. Ino enrubesceu de leve e, com um breve aceno, deixou a sannin.

————

 

Caminhavam lentamente por uma trilha perdida em uma floresta qualquer, realizando o caminho até o próximo povoado marcado no mapa que Sasuke carregava. Sakura contemplava a mudança das cores na paisagem com curiosidade e admiração, sentindo na pele exposta dos braços a temperatura que pouco a pouco se tornava mais fria. Avançavam devagar e em silêncio, escutando os sons da floresta.

De repente, Sasuke parou e ergueu a mão para o lado, indicando que ela parasse também.

Sakura não perguntou nada. Os ombros tensos dele e a mão sobre o cabo da kusanagi escondida embaixo do manto indicavam que havia detectado algum inimigo. O sharingan surgiu nas íris negras enquanto passava os olhos ao redor, respirando lentamente.

O Uchiha se moveu alguns passos adiante. Sob os dedos podia sentir a textura de couro e metal do cabo da arma, apertando-o com certa força. A presença estava muito próxima, mas não se revelava ou dava indícios claros de sua posição.

Era um ninja habilidoso, sem sombra de dúvida.

O silêncio era tanto que parecia pesado no ar, preenchendo a atmosfera.

— Sasuke. 

A voz calma fez Sakura pular onde estava e Sasuke brandir a espada num movimento reflexo.

Diante dos dois, Itachi estava parado no meio do caminho como um fantasma. Sasuke estudou fixamente o homem, espada em riste. O que era aquilo? Um genjutsu? Estava prostrado e imóvel como uma aparição, cabelos soltos e lisos caindo suavemente sobre o manto negro.

O tempo pareceu parar. O doujutsu faiscava nos olhos de Sasuke em buscar de uma perturbação que denunciasse uma emboscada.

Mas não havia nada.

— Já pode baixar a espada. — Itachi falou, havia um quê de divertimento no tom de voz.

Soltando a respiração, Sasuke piscou uma, duas vezes. Baixou a arma completamente estupefato, saindo lentamente de sua postura de ataque. Sentia-se em um torpor, preso em um sonho estranho.

— Itachi… — murmurou. Algo em seu interior se remexeu.

Quase inconscientemente, ele se moveu adiante, lentos passos indo em direção ao irmão. Era mesmo seu chakra, inconfundível e único, era Itachi indubitavelmente, em carne e osso. Quando já estava muito próximo, vendo os olhos negros como os seus o estudarem, parou e, antes que pudesse se dar conta do que fazia, abraçou o irmão mais velho. Tateou-o enquanto o apertava contra si, como se dando conta da veracidade daquilo tudo.

Sentiu os braços longos o envolverem de volta e o apertarem com carinho. A sensação de familiaridade o inundou como uma onda quente. 

Afastaram-se brevemente e Sasuke o contemplou como em um transe, sem conseguir acreditar no que via.

— Peço perdão pela demora. — o Uchiha mais velho falou, sempre polido, oferecendo um sorriso breve.

— Por onde… onde você estava? — Sasuke indagou, atônito. Tinha certeza da morte do irmão, já havia se comiserado do fato. — Eu achei que—

Deixou os braços caírem molemente ao lado do corpo. Não conseguia raciocinar direito.

Ao seu lado, Sakura se aproximou e seus olhos verdes estudaram o Uchiha mais velho com uma curiosidade quase infantil, cheia de ânimo.

— Itachi-san… — ela murmurou, contemplando-o. Talvez devesse se apresentar, mas sentia como se já o conhecesse. Estava acometida por um misto de alegria e surpresa que a deixava sem fala. Passou os olhos entre Sasuke e o irmão, assimilando aquele reencontro.

— Sakura-san. — ele cumprimentou. Tinha uma mão pousada sobre o ombro do irmão mais novo, que ainda o contemplava com certo assombro. — Sasuke, Sakura-san. Temos muito o que conversar.

————

 

A fumaça da fogueira subia sinuosa em direção ao céu noturno.

Sentados em frente ao fogo que crepitava, Itachi, Sasuke e Sakura se aqueciam e conversavam. A voz do irmão mais velho parecia preencher o ar, serena e grave quando ele falava.

— … Lutei contra Naruto-kun até minha exaustão praticamente. Precisava ter certeza que vocês tinham saído antes de finalmente me retirar, ou ele os teria encontrado. — explicou. — Quando finalmente senti que haviam passado dos limites da vila, comecei a me desmaterializar nos corvos, mas no último segundo, fui atingido por um ataque. Eu estava muito fraco e consegui fugir por um milagre, acredito.

Sasuke e Sakura ouviam tudo atentamente.

— Quando reassumi minha forma, estava nos arredores de Konoha, mas muito ferido e fraco… desmaiei em meio a uma floresta, e não sei quanto tempo permaneci desacordado. — sua expressão estava carregada de certa forma, e a kunoichi franziu as sobrancelhas involuntariamente, como em uma resposta automática do corpo. — Acordei em um vilarejo qualquer. Alguns civis tinham me encontrado e cuidado dos meus ferimentos, por pura bondade… — ele pareceu contemplativo por um instante, passou os olhos escuros da fogueira para o céu noturno. — Parece quase uma história de pescador, não é? — falou com bom-humor.

Sakura riu fracamente, mas Sasuke permaneceu sério.

— Você teve sorte. — o caçula falou. — Poderia ter morrido sozinho. Ou ter sido encontrado por ninjas, teria sido capturado, morto.

— É. — Itachi o fitou por alguns instantes, entre eles o fogo dançava. Ofereceu um sorriso ameno ao caçula. — Parece mesmo que a sorte finalmente está ao meu lado.

O mais novo crispou os lábios em irritação. Não se conformava que Itachi encarasse com tanta leveza uma situação tão crítica.

— Mas então… — Sakura falou, percebendo o leve clima de animosidade, incitando que continuasse a história.

— Fiquei lá por alguns dias, no pequeno vilarejo. Primeiro, porque tinha de me recuperar. Depois, porque senti que não poderia ir embora sem agradecê-los de alguma maneira.

— Eles não desconfiaram que fosse um ninja? — a kunoichi indagou.

— Não… eram realmente pessoas muito simples… — ele passou as mãos sobre os lábios. — Ajudei-os por algumas semanas com tarefas comuns. Como costuma acontecer com camponeses, ficaram muito gratos pela ajuda…

Enquanto falava, Itachi parecia absorto, pensativo.

— Sabem, há uma beleza curiosa na vida simples. Por um momento, pude até mesmo esquecer de tudo que havia acontecido. — ele falou de repente, como se chegasse a uma breve conclusão. — Enfim, quando achei que podia partir, saí no encalço de vocês. Foi bastante difícil, perdi o rastro ao adentrar o País da Terra… mas em um dos vilarejos, soube que um caçador e uma curandeira tinham se hospedado na estalagem algum tempo atrás… e essa mesma dupla pousou sistematicamente em vilarejos pelo caminho… — havia uma certa ironia nos olhos escuros.

— É um disfarce conveniente. — explicou Sasuke.

— Imagino. De qualquer maneira, daqui em diante, talvez seja melhor adotar outra estratégia. — ele falou. — A Folha está consideravelmente reconstruída. Não digo que está recuperada, mas definitivamente não corre mais o perigo que corria, e já tem parte da força executando missões novamente. — Olhos negros se estreitaram.

— Acha que virão atrás de nós? — Sakura indagou, preocupação tingindo seu rosto. Torceu as mãos nervosamente.

— Não agora, mas em breve… É um palpite.

— Não teriam poder para nos caçar. — Sasuke afirmou, categórico.

— Mesmo assim, o ideal seria realmente não chamar atenção, não ser encontrado, não entrar em combate… — O mais velho orientou. — Ou seja, desaparecer.

A sugestão pairou no ar e Sasuke pareceu estudá-la alguns segundos. Com seu ar sempre indiferente, ele falou:

— Hn. Estávamos apenas esperando você. — disse o caçula, encontrando os olhos do irmão, a indiferença nas palavras escondia toda a preocupação e tristeza que o havia consumido com a demora de Itachi. — Daqui em diante, podemos avançar com mais rapidez. — O objetivo eram as terras longínquas após o País da Terra, para além do que as alianças de Konoha eram capazes de monitorar.

— É o ideal. O motivo principal porque digo isso, além do fato de achar mais seguro, é porque Hatake Kakashi é o novo Hokage.

Os semblantes dos dois ninjas que o escutavam demonstraram pura surpresa. As notícias demoravam demais a chegar naquelas terras rurais e quase inabitadas. 

— Kakashi-sensei?! — Sakura indagou, incrédula. — Mas… e Tsunade-shishou?

— Ela optou por ceder uma vez que tudo foi recuperado. Apesar de todos insistirem para sua permanência, disse que estava farta da vida de Hokage, que tudo aquilo havia sido um baque… e Sakura-san, não queria ter de dizer isto, mas sua partida a deixou em frangalhos. — uma sombra passou pelos olhos da ninja, mas ela não disse nada. — Kakashi foi o escolhido para substituí-la, apesar de também não querer verdadeiramente assumir o posto de Rokudaime.

— Acredito que aconteceria, cedo ou tarde. — Sasuke comentou. — Sempre foi um ninja inestimável e fiel à vila.

— Acho que será um bom governante, assim como foi Tsunade-sama. — Itachi observou. — De qualquer forma, não nos diz mais respeito. Apenas acredito que, pela relação pessoal que nutria com os dois, talvez Kakashi torne descobrir o paradeiro de vocês uma missão prioritária.

Ficaram em silêncio alguns segundos, então Sasuke suspirou e se levantou, fitando o horizonte.

Havia apenas pequenos pontos de luz naquela imensidão repleta de planaltos, morros e florestas no País da Terra. A porção ocidental do país era majoritariamente rural, a capital tendo sido deixada para trás há algum tempo.

— Vamos seguir adiante o mais rápido possível, então. — comentou. — Não quero correr nenhum risco.

Itachi anuiu e os olhos escuros de Sasuke encontraram os de Sakura. Ela parecia um pouco desnorteada com todas aquelas informações, mas ao encará-lo de volta, também concordou silenciosamente. Na situação em que estavam, não queriam ser encontrados, definitivamente.

O silêncio recaiu entre eles mais uma vez e só o crepitar do fogo e o ocasional chirriar de uma coruja ao longe se fizeram audíveis.

— Agora… — Itachi passou seus olhos escuros e afiados de Sasuke para Sakura. — Eu serei tio?

A pergunta, feita tão repentinamente e de maneira tão cândida, pegou o casal de surpresa. Ele viu o caçula enrubescer violentamente e Sakura também corou, mas logo começou a rir, divertindo-se. 

Ela pousou a mão sobre a barriga.

— Sim… — murmurou, observando aquela pequena protuberância. O bebê crescia a cada dia e seu corpo mudava rapidamente. — Você será tio. — confirmou e riu gostosamente.

Itachi estudou a expressão feliz da cunhada e um sorriso brotou em seus lábios imediatamente. Parecia-lhe muito meiga.

— Estava sentindo, mesmo, mais uma presença. — ele falou. Sasuke ainda parecia constrangido demais para falar qualquer coisa. — Ora, Sasuke, está com vergonha? Ou achou que podia esconder isso de mim?

— Não é isso— o mais novo falou, corando mais uma vez. — Eu só— Ele grunhiu.

— Está tímido, Sasuke? — Sakura se curvou em sua direção, inclinando a cabeça para fitá-lo em uma leve provocação. Ele fez um bico e virou a cabeça para o outro lado.

Do lado oposto da fogueira, Itachi riu ao ver a expressão do irmão. Quando fazia aquela cara emburrada, ele ficava idêntico a quando era uma criancinha.

— Está tudo bem, Sasuke. Eu sei da onde vêm os bebês. — Itachi falou finalmente. — Não precisa ficar tão sem-graça.

Sakura riu alto, sem conseguir se conter, e Itachi deixou um sorriso maroto curvar seus lábios. Sasuke cruzou os braços com mais força sobre o corpo, sentindo as faces esquentarem intensamente.

Parecia que o irmão e a esposa estavam muito felizes e dispostos a unir forças para constrangê-lo.

————

 

Naquela noite, Sasuke e Itachi conversaram a sós.

Sakura dormia tranquilamente no saco de dormir, aquecida pelo calor da fogueira. Os dois irmãos, em pé lado a lado, contemplavam a paisagem rochosa que se estendia por quilômetros até o horizonte, em cânions e platôs que formavam esculturas minerais curiosas.

O caçula contemplou o irmão: estava muito mais magro, o rosto encovado, parecia ter pedido parte da musculatura. Itachi notou rapidamente que o irmão o estudava:

— Estou muito magro, não é? — Sasuke apenas o fitou em resposta. — De verdade, Sasuke, estive muito próximo da morte. Devo a vida aos estranhos que me ajudaram, estarei em débito com eles para todo o sempre. Fizeram por mim algo inestimável.

— Talvez não o tivessem feito se soubessem que era um ninja. — o caçula comentou.

— Talvez sim, talvez não. Apesar da nossa desconfiança e predisposição ao ataque, uma vez fora do universo shinobi, as pessoas costumam ser muito mais amáveis e altruístas. — Itachi observou. — Não há como saber. Era um risco que eu corria, ainda que estivesse desacordado e completamente incapaz de ocultar ou revelar minha identidade.

— Amáveis e altruístas… — Sasuke estudou as palavras por um instante. Havia certo desdém em sua voz, Itachi detectou algo de ciúme também. — Por isso ficou mais tempo? 

— Queria poder mostrar minha gratidão, ainda que pouco. — Itachi explicou. A irritação se fez visível no semblante de Sasuke e ele a estudou pacientemente. — Gostaria de ter feito mais.

— Como “mais”?

Permaneceram alguns segundos em silêncio. Então o primogênito finalmente falou:

— Se não fosse por vocês, acho que teria permanecido lá.

Sasuke imediatamente se enfezou, suas sobrancelhas escuras se unindo em irritação.

— Você não pode simplesmente fazer isso. Largar tudo e viver como um civil. — ele falou sem titubear, repreendendo o irmão. — Não é como se pudesse ser um cidadão comum.

— E por que não?

A pergunta retórica o pegou de surpresa. Era Itachi quem tinha as sobrancelhas franzidas, um ar de irritação o tomava, algo tão raro. Os pares de olhos escuros se encararam como em uma luta silenciosa, faiscantes. 

— Porque você é um shinobi.

— Nós não somos mais ninjas. Você não é mais um ninja, Sasuke.

— É claro que sou.

— Não, não é. — Itachi o repreendeu. — Por mais que você diga, não deve mais nenhum serviço a uma Vila, e também não tem um propósito violento que o guie. Sem o dever ou o desejo de matar, o que ainda faz de você um shinobi? — o mais velho indagou, a expressão carregada ainda permanecia em seu rosto elegante.

— Não é apenas isso que faz um shinobi. A luta, as habilidades, o combate—

— Vãs obrigações. — o mais velho refutou e viu Sasuke estreitar os olhos. — E não existem mais. Quem você irá combater aqui, tão longe de tudo? Se despistar Konoha definitivamente, não terá porque viver com a guarda tão alta, ou pronto para o combate. Você não estará no olho da ação, não precisará ser como uma lâmina brilhante e polida. Não precisará ser um shinobi.

Um silêncio pesado pairou sobre eles.

— Você deixou a vida ninja para trás, Sasuke. Está se agarrando ao pouco que ainda resta porque é tudo o que conhece, mas já não há mais razão alguma para se prender a isso.

Encarou silenciosamente o irmão mais novo. Sasuke tinha a fisionomia tensa, apertava os punhos duramente. Sua respiração, de súbito, estava pesada.

O mais novo passou os olhos de um lado para o outro, agitado. Itachi apenas aguardou que conseguisse colocar aquilo que pensava e sentia para fora.

— Eu— ele gaguejou, procurando as palavras. Então suspirou longamente, fitando as estrelas ao longe. — Não sei o que fazer daqui em diante. E nem sei se conseguirei viver assim. — confessou finalmente, expondo suas inseguranças.

Contemplou o perfil de Sasuke por alguns segundos. 

Itachi sempre havia detestado a vida shinobi. Era irônico que fosse tão habilidoso quando tudo que dizia respeito aos deveres de um ninja lhe era simplesmente indigesto: sentia-se mal ao ter de matar, não odiava seus inimigos, acreditava que o diálogo era capaz de resolver problemas de forma muito mais efetiva, desprezava conflitos, não buscava poder e, acima de tudo, temia a guerra. Verdadeiramente, Itachi não era nenhum covarde, mas sempre teve medo e repulsa da destruição e da tragédia da guerra. Deveria ter sido um péssimo shinobi, mas por algo fora de seu controle - talento, destino, ou qualquer outra razão do cosmos - acabou por ser o extremo oposto.

Já Sasuke, por um suceder incontrolável de tristes eventos, havia se tornado um shinobi perfeito: calculista, poderoso, eficiente e mortal. E agora se via diante de um futuro em que suas habilidades quase não tinham mais serventia. Itachi não podia afirmar que o irmão amava ser um ninja: simplesmente nunca havia conhecido outro caminho. Era claro que estava confuso e inseguro, e que não se sentia no direito, ou sequer otimista diante da perspectiva de viver uma vida de paz.

A vida ninja havia traumatizado cada um dos dois à sua própria maneira.

— Não sei o que significa ter uma vida normal. — Sasuke falou. Contemplou as próprias mãos calejadas após tantas batalhas. — Não sei o que farei com meu tempo. Não sei o que farei com meu corpo. Não sei se serei capaz de ter uma família outra vez.

Fechou os dedos com força.

Sentia como se tivesse sido lançado para fora de um barco em movimento e que nadava no mar imenso e escuro da incerteza, vendo a embarcação se afastar.

Observou a kunoichi que dormia tranquilamente.

Seu coração desejava Sakura. Do fundo do coração, daquele lugar que ele nem acreditava ser mais capaz de alcançar, desejava Sakura. Amava Sakura. Amava aquela criança que ainda nem conhecia. Como era maravilhoso poder amar alguém tão intensamente. Sasuke sentia aquilo depois de muito tempo, uma sensação quente e reconfortante capaz de preencher o vazio em seu interior. 

Naturalmente, nem tudo era maravilhoso. Havia, ao mesmo tempo, uma dor no peito e uma sensação sufocante. Havia medo e um retrocesso sombrio. E se tudo desse errado? E se ele não fosse capaz de fazê-la feliz? E se fosse um marido ruim, um pai ruim? Mas até esse sofrimento era agora parte importante da afeição. Ele não queria jamais perder o sentimento daquele momento.

Se o perdesse, talvez nunca mais encontrasse esse calor novamente. Preferia perder a si mesmo do que deixar aquelas emoções irem embora.

Ao mesmo tempo, não sabia como vivê-las, não sabia lidar com elas.

— Sasuke… Só porque o passado foi doloroso, não significa que o futuro também o será.

As palavras de Itachi o fizeram erguer a cabeça de supetão.

— Você precisa deixar para trás toda a infelicidade que viveu. Precisa achar um lugar onde possa construir algo novo, onde possa construir sua própria vida. E vivê-la. — falou. — Não pode vagar para sempre. Mesmo que se ache incapaz, terá que criar raízes… por Sakura, pela criança e por você.

Sasuke sentiu seus olhos arderem. Eram lágrimas? Engoliu com dificuldade, sentindo a garganta seca e dolorida. A sensação estranha de algo úmido acumulando em seus cílios fez sua visão nublar e uma gota pingou no chão de terra, criando um círculo escuro, e depois outra.

Seus lábios tremiam.

— Como? — indagou num sussurro. Talvez mais para si mesmo, do que para o irmão. — Não sei se serei capaz de me adaptar. Faz muito tempo desde que tive algo pelo que viver de verdade. — confessou. Sua garganta doía.

A mão de Itachi tocou seu ombro com um aperto reconfortante.

— Você só saberá se tentar.

————

 

— … e aqui ficam organizadas as fichas dos pacientes diagnosticados com doenças contagiosas de terceiro grau, atrás daquele imunossuprimidos, ao lado dos imunodeprimidos por processos quimioterápicos… — Shizune explicou mais sobre a organização dos arquivos e das fichas do hospital.

— Shizune-chan. — Ino falou. A morena virou a cabeça rapidamente em sua direção. — Estou com dor de cabeça, preciso respirar um pouco. Podemos dar uma pausa?

Oh. Claro…

A assistente da Godaime anuiu e Ino agradeceu silenciosamente, começando a se retirar do gigante arquivo. Sua cabeça doía, não por toda a informação absorvida, não, mas pelos sentimentos que a assolavam. Cada explicação de Shizune, cada passo no hospital, cada olhadela a um paciente a lembrava de Sakura.

Mesmo após a conversa franca com Tsunade, raiva e tristeza ainda pareciam apoderar-se de seu corpo. Caminhou pelos corredores rapidamente e, quanto mais se aproximava da saída, mais parecia que seria incapaz de controlar as lágrimas. Elas faziam seus olhos arderem, seu nariz se comprimir e a respiração sair entrecortada. Quando escancarou a porta de serviço e saiu para a viela atrás do hospital, já chorava sem conseguir se controlar.

Agradeceu mentalmente por não haver ninguém ali e permitiu-se soluçar à vontade, sentando-se sobre uma caixa de madeira no chão, empilhada junto a outras caixas que iriam para o lixo eventualmente. Afundou o rosto nas mãos, sentindo o corpo tremer como um todo e o hálito quente soprar contra a própria pele.

Sakura era sua irmã. Não de sangue, mas de coração. Era a família que havia escolhido. Ao longo daqueles anos de convivência, mesmo com todos os estranhamentos, afastamentos, competições e brigas, haviam criado uma amizade sólida, íntima e verdadeira.

Era incapaz de conceber sua traição e sua ausência, que dirá aceitá-las.

Havia Naruto com quem poderia conversar, que provavelmente entenderia sua dor, porém Ino evitava o loiro ativamente. Não que ele tivesse feito algo errado: Naruto sempre havia sido e sempre seria extremamente amável e compreensivo, mas a mera visão do homem trazia à tona todas aquelas lembranças ruins e Ino simplesmente se via incapaz de encará-lo. Fora isso, ele estava tão ou mais deprimido que ela, e talvez acabassem por fazer mais mal um ao outro do que qualquer outra coisa.

Com Tsunade-shishou fora da vila, ela estava sozinha para lidar com as emoções que a assolavam. Não sentia que alguém poderia ampará-la pela dor daquela perda, pois todas as pessoas que amavam e conheciam Sakura como ela estavam ocupadas demais, ausentes ou piores do que ela.

Parou de soluçar, fitando a copa das árvores altas, retomando o controle da própria respiração.

— Olá, “linda”.

Ino voltou-se para a voz rapidamente, deparando-se com Sai. O apelido, usado com deboche desde a primeira vez que haviam se encontrado, sempre a deixava sem jeito. Corou involuntariamente, passando as mãos rapidamente para disfarçar as lágrimas e ele pareceu consternado ao percebê-la naquela situação.

— Desculpe, Ino. — falou rapidamente. — Está tudo bem? 

— O que está fazendo aqui? — perguntou e sentiu sua voz ainda fanha e chorosa.

— É o meu atalho preferido para a torre do Hokage. — ele explicou, apoiando uma mão na cintura enquanto a estudava. — E você? Por que está sentada em uma caixa de madeira que deveria estar no lixo? E pior, chorando?

Ino sentiu o calor inundar-lhe a face ainda mais. Sutileza não era exatamente o forte de Sai. Desviou os olhos azuis para o pequeno bosque adiante.

— Estou apenas estressada.

— Muito trabalho no hospital?

— É.

Ele permaneceu parado ali, sem tirar os olhos escuros da figura feminina. Claramente não estava satisfeito com a resposta. Ino, irritada com aquela presença que a instigava, esquadrinhou-o com olhos afiados.

— O que você quer?

— É por causa de Sakura? — viu-a enrubescer mais, de constrangimento e raiva. Ino abriu a boca para refutar, mas ele foi mais rápido. — Sabe, eu também conhecia Sakura muito bem. Talvez não como você ou Naruto, mas tive o prazer de conviver com ela pelo tempo em que integrei o time 7 e posso chamá-la de amiga com convicção.

Ela o fitou, lábios entreabertos, intrigada com onde aquela conversa estava indo.

— Sei que você está triste. Sei que Naruto está triste. E tantas outras pessoas. — Sai comentou. — Gostaria de poder ajudá-los. Sei que não somos próximos e você claramente está desconfortável, mas se quiser desabafar comigo, eu posso escutar. E digo isso com sinceridade… Como falei, eu também conheço Sakura.

Não havia qualquer traço de deboche ou provocação nas palavras. Sai, ela sabia, havia se tornado muito mais humano e respeitoso com a convivência normal e interação com outros shinobis. Sakura o tinha em alta conta, mesmo após a separação do time 7 que acabou por afastá-los devido aos cronogramas tão diferentes.

— Eu… — Ino começou, mas não terminou a frase. Baixou os olhos, estudando as próprias mãos, esfregando-as uma na outra lentamente.

— Venha tomar um café comigo. — o homem falou de supetão, estendendo a mão na direção da loira para ajudá-la a se erguer.

Ino fitou a mão estendida diante de si.

— Eu-eu estou em treinamento… no hospital.

— Não vai conseguir fazer nada nesse estado. — Ele falou. — Vamos, é só um café.

Ofereceu um sorriso amável.

Ino o encarou. Sorriu de volta e aceitou o gesto.

————

 

Ela estava ali.

Estava conversando com Kiba e Shino em frente à pequena lojinha, ao lado de um dos muitos andaimes que ainda tapavam as fachadas. 

Naruto andou, e voltou, e andou, e voltou.

Ia até a esquina, espiava. Sua coragem, sempre pulsante e inabalável, parecia se esvair quando ele punha os pés na rua principal, vendo os longos cabelos negros da kunoichi. “Ela está interessada e você é um idiota” dissera Kakashi. Sobre a segunda parte, ele não tinha qualquer dúvida, já sobre a primeira…

Respirou profundamente. Ele jamais havia pensado que Hinata nutria qualquer interesse por ele. Era óbvio que a achava atraente: ela era inquestionavelmente linda, mas os dois quase não se falavam e, pior, a morena sempre parecia desconfortável e inquieta em sua presença, o que o deixava incerto sobre como se aproximar.

Porém, após a conversa com Kakashi, estava disposto a viver sua vida de forma diferente.

"Olhe aqueles ao seu redor, olhe os que escolheram ficar.”, dissera ele, além do óbvio ultimato para chamá-la para sair. Naruto costumava ser distraído, pouco versado no entendimento das relações que travava, apesar de sentir tudo com muita intensidade e profundidade. Foi apenas com o comentário de Kakashi que finalmente começou a repensar suas interações com a kunoichi: Hinata repetidamente oferecera apoio, de seu jeito tímido e recatado é claro, mostrando-se preocupada com ele e amável em todas as conversas.

Sentia-se até envergonhado, chucro, por não ter percebido nada antes.

Esfregou o próprio rosto, enfiou as mãos nos cabelos bagunçados. Aquele nervosismo lhe era estranho. Assemelhava-se à vontade de ir ao banheiro, mas sabia que não era o caso. Caminhou de um lado para o outro, chegou ao encontro daquela viela com a rua principal outra vez. Ela se despedia dos amigos, abraçada a uma sacola de compras. Parecia feliz.

Naruto sentiu o estômago afundar. 

Achava mais fácil derrotar a Akatsuki inteira com um braço preso nas costas do que abordá-la como Kakashi havia sugerido. Fitou-a à distância enquanto a acompanhava andar tranquilamente pela rua vendo as vitrines. Hinata era tão bela, assemelhava-se a uma fada. E ele era… bem, ele era Naruto. Por Kami, o que ela tinha visto nele, de qualquer jeito?

Achou tudo aquilo estúpido. O sensei provavelmente nem sabia do que estava falando.

Bufando irritado, desistiu. 

Enfiou as mãos nos bolsos, tomando o caminho oposto dela. Apesar da reconstrução não estar finalizada, as atividades cotidianas eram retomadas, as lojas colocavam suas decorações e produtos para fora. As lanternas laranjas lançavam uma luz quente, começando a ser acesas pelos lojistas com o cair da noite.

Chutou um pedrisco no caminho, cabisbaixo.

Enfiou-se em um pequeno restaurante. Desanimado como estava, não queria voltar para casa, mas tampouco tinha algo para fazer, então resolveu jantar. O estabelecimento estava vazio ainda, tendo acabado de abrir para a última refeição do dia. Ele se acomodou em um dos muitos lugares disponíveis e se apoiou desanimadamente na mesa, contemplando seu fracasso como possível consorte: morreria sozinho, pois era um covarde.

— Naruto-kun? 

Tão distraído, não havia visto a kunoichi entrar no mesmo restaurante algum tempo depois dele. Empertigou-se imediatamente, saindo de sua posição desleixada e, pela primeira vez, era ele quem estava corado e não Hinata.

— H-Hinata-chan. — cumprimentou-a com certo assombro.

— Está s-sozinho?

Eh… sim. — Estudaram um ao outro por alguns segundos. Naruto, então, deu-se conta de que deveria dizer algo. — Estou sozinho, sim. Você vai jantar aqui?

Hum. — ela confirmou com um aceno de cabeça. — Otou-san está em reunião com o clã e, b-bem, n-não quero participar. Decidi que v-vou voltar mais tarde.

— Ah… — Ele a estudava fixamente com os olhos azuis, sentia suas mãos suarem.— … Não quer jantar comigo, então? Vamos fazer companhia um ao outro. — Seus tempos de resposta eram péssimos, pensou. Hinata devia achá-lo um idiota, ainda assim, ele ofereceu um sorriso tímido. Não ia desistir no meio daquela batalha.

O rosto dela se iluminou imediatamente, bochechas tingidas pelo tom carmim do sangue sob a pele.

— S-sim. Obrigada. — aceitou o convite com prontidão, sentando-se em frente a ele em seguida.

Naruto contemplou aquele acontecimento curioso. Talvez fosse um sinal.

Seus olhos acompanhavam os cabelos negros que se remexiam enquanto ela se ajeitava, absorvendo a beleza brilhante e misteriosa que a Hyuuga emanava. Quando o fitou de volta, ela ofereceu um sorriso amável e ele sentiu como se algo se esquentasse em seu interior. 

A garçonete apareceu e pegou os pedidos, deixando-os a sós outra vez. Naruto limpou a garganta suavemente.

— … Mas, então, por que não quer voltar para a reunião? É muito chata?

Ela riu com a pergunta e logo engataram uma conversa descontraída.

Pela primeira vez desde que tudo havia acontecido, naquela noite Naruto deitou para dormir e sua mente não pensou em Sakura ou Sasuke automaticamente. 

Tudo que viu ao fechar os olhos foi o doce sorriso de Hinata.

————

 

Com a chegada de Itachi, o trio passou a viajar com mais rapidez. Como sugerido pelo primogênito, pararam de se hospedar em vilarejos, optando por mais discrição em prol do conforto, dormindo em acampamentos improvisados enquanto percorriam grandes distâncias, colocando-se cada vez mais longe do País do Fogo.

As terras do País da Terra acabavam em um litoral recortado, em formações montanhosas e promontórios que se projetavam para o mar. Do topo era possível avistar numerosas ilhas rochosas, espalhadas pela água mesclada de azul. 

Sakura estudou a bela paisagem, o vento salgado remexendo seu cabelo e suas vestes. Estavam muitos metros acima do nível do mar, mas de onde estava, podia ver o sinuoso e íngreme caminho que descia até a praia lá embaixo, onde um pequeno e rústico porto abrigava alguns poucos barcos.

Ao seu lado, Sasuke e Itachi observavam igualmente atentos as ondas irem e virem na praia.

Por mais irônica que fosse a expressão, aquele era, de fato, um divisor de águas.

Cruzariam o mar estreito em direção à Mitsu no Kuni, o País do Mel. Situado longe, muito longe de Konoha, o pequeno e pacífico país era o destino marcado no mapa do Uchiha mais novo. Lá começariam nova vida, ainda que não soubessem exatamente o que os aguardava. Era um tiro no escuro, como tudo que vinham fazendo até então, mas Sakura encarava como uma oportunidade. Uma oportunidade de parar de fugir e criar raízes, de viver em paz.

Estendeu a mão e tocou os dedos de Sasuke, sentindo os seus roçarem na manga do manto antes de encontrá-los.

— Nós vamos cruzar o mar estreito. — ele anunciou, ainda que já soubessem, como se comprovando para si mesmo a veracidade daquela decisão. Lá embaixo, o mar se quebrava incessantemente contra as rochas. — Precisamos descer até o porto.

Fizeram henges os três, ocultando suas verdadeiras aparências para não deixar rastros.

Não houve qualquer objeção. Desceram a longa trilha até encontrarem a praia, pés afundando sobre a areia branca, o vento abafado chicoteando os rostos expostos. A praia era estreita, rochosa e vazia com um porto de madeira antiga que rangia com o movimentar da água. Havia apenas algumas poucas embarcações atracadas, pilotadas por marinheiros com olhos cansados e pele queimada de sol. Algumas palavras trocadas e tudo estava combinado para a partida.

Do convés, Sakura fitou a praia. Seu estômago revirava - de nervosismo e alívio ao mesmo tempo e ela apertou a madeira sob seus dedos como forma de aliviar a tensão. Estava deixando Konoha para sempre. Debruçou-se na amurada para o derradeiro adeus, sentindo contra seu ventre a madeira aquecida pelo sol e os cabelos balançarem com o vento.

Os marinheiros levantaram a âncora, incrustada de craca, e soltaram as velas. A seguir, tomaram seus lugares nas bancadas de remos que ladeavam o convés como cílios, esperando a ordem do capitão, que logo veio. Sentiu a movimentação do barco, chacoalhando com o movimento das ondas, rapidamente ganhando velocidade, deixando um rastro branco atrás de si.

A praia ficava cada vez mais e mais distante, o píer, os barcos, as pessoas diminuindo pouco a pouco até se tornarem minúsculos pontos aos seus olhos.

E assim disseram adeus ao continente onde haviam nascido.

————

 

— É muito quieto aqui. — Sakura comentou, olhos voltados para cima.

Dividia o saco de dormir com Sasuke. Deitado ao seu lado, ele tinha o rosto próximo ao seu e a fitava fixamente, estudando seu nariz pequeno que era como um botão de flor.

— Estamos no meio do nada. — foi a observação dele, seu tom de voz desprovido de qualquer emoção.

Ela riu, uma risada que escapou como um sopro. A fogueira crepitava nas proximidades, lançando luzes que oscilavam constantemente. Naquela noite, Itachi ficaria de guarda, o que significava que ela poderia ter o moreno para si e aproveitar o momento. Na realidade, nem sequer precisariam de alguém de uma sentinela, ela acreditava, mas era de praxe que alguém vigiasse os arredores.

O País do Mel era, claramente, um lugar muito pacífico. Não havia qualquer sinal de batalha, guerra ou ameaças. Os transeuntes que encontravam pelo caminho não passavam de mercadores que os cumprimentavam brevemente e seguiam seus caminhos sem se incomodarem ou, talvez, sem sequer se darem conta de que eram estrangeiros.

— Sasuke, qualquer lugar longe de uma capital pode ser considerado o meio do nada. — ela comentou. — Se estivesse em uma floresta no meio do País do Fogo, não seria também o meio do nada?

— Não.

Sobrancelhas cor-de-rosa se franziram, criando um vinco no meio da testa.

— A vila de Toshiko no meio da montanha—

— Não me fale desta mulher. — Sakura riu do comentário ranzinza e Sasuke bufou, passando a mão pelos cabelos. — E também não é a mesma coisa.

Sakura teria refutado, mas estava achando o aborrecimento muito engraçado.

Verdade fosse dita: não fosse pela vegetação, composta sobretudo por bétulas, pinheiros e abetos, aquele lugar lembraria muito o País do Pássaro. O que comprovava sua teoria de que qualquer lugar irrelevante e pouco habitado poderia ser o meio do nada, ainda que Sasuke parecesse relutante em aceitá-la. O País do Mel nem sequer existia em alguns mapas: governado por uma dinastia milenar e pouco poderosa, era uma simples faixa de terra que seguia existindo desde tempo remotos, insignificante, sem qualquer relação com os acontecimentos do entorno.

Acampavam na robusta floresta, descansando em meio às peregrinações.

Viajaram por semanas, cruzando planícies, vales e montanhas, observando os povoados cheios de pequenas casas de onde a fumaça brotava lentamente das chaminés. As paisagens eram bucólicas, provincianas. O trio não tinha planejado um lugar para ficar, apenas seriam andarilhos até que alguma localização se provasse suficientemente conveniente para se tornar sua morada e, então, parariam. Quanto ao lugar que “buscavam”, bastava que fosse longe dos povoados para garantir-lhes privacidade, mas perto o suficiente para terem acesso a provisões e mercadorias se precisassem.

Sasuke não havia entrado em detalhes, mas Sakura sabia que ele não tinha qualquer intenção de habitar um povoado. Morariam separadamente e sós, indo à civilização apenas quando necessário. Talvez fosse algum tipo de trauma que os irmãos Uchiha carregavam após tantas tragédias, traições e desgraças, pois pareciam completamente alinhados diante da ideia de viverem isoladamente. Não confiavam em ninguém e não desejavam chamar a atenção de maneira alguma. Buscavam apenas anonimato e paz.

Com esse pensamento percorriam o pequeno país por dias a fio.

Ela levantou uma mão e acariciou lentamente a parte do peitoral de Sasuke exposta pela blusa entreaberta. Podia sentir o hálito quente dele contra sua pele devido à proximidade.

— Mesmo que seja o meio do nada… é bem bonito aqui. — escutou-o concordar com um murmúrio, quase como se ronronasse, fechando os olhos para aproveitar a carícia que recebia. Suas mãos alisavam o corpo firme do moreno e aconchegou-se um pouco mais a ele. — Quero que nossa casa tenha uma varanda, para eu poder sentar ao lado de fora e observar a paisagem. — sussurrou, um sorriso tomando seus lábios.

Hmm. — ele não abriu os olhos, apenas passou o braço ao redor da cintura feminina, enfiando a mão por baixo da blusa justa, acariciando sua costas lentamente. — O que mais?

— E uma grande janela na sala…

— Estou ouvindo. — ela riu com a afirmação feita sem qualquer tentativa de levá-la a sério, olhos preguiçosamente cerrados.

— Quero um tapete felpudo na sala e cortinas de linho…

Hn. Só isso?

— Um terraço para eu poder tomar sol… também quero canteiros de flores sob as janelas. — a todas as suas requisições Sasuke anuía obedientemente, sem abrir os olhos. Sua mão fazia lentos círculos sobre a pele da kunoichi. — Ah, poderíamos ter também uma banheira no quarto—

Olhos negros se abriram.

— Sakura.

— O que foi?

— Seja realista. — a mão dele havia parado de se movimentar. 

Observou-a enquanto um sorriso surgia no rosto feminino, mostrando os dentes brancos sob a pele rosada. Ela mordiscou o lábio inferior, sapeca.

— Esqueça tudo o que eu falei. — murmurou, colando-se a ele, plantando um beijo suave nos lábios fechados, crispados em reprovação. — Quero apenas um quarto com uma cama bem grande… e você deitado nela comigo. — suas bochechas se avermelharam e acompanhou os lábios dele se curvarem em um meio sorriso.

— Assim está melhor. — respondeu, e as bocas se uniram novamente.

————

 

Deitado no morrote, Naruto observou as nuvens se moverem lentamente no céu azul.

Há quatro meses sua vida havia virado de cabeça para baixo. Havia presenciado uma guerra civil que praticamente destruiu a vila e perdido os melhores amigos… não que Sasuke já não estivesse afastado há anos, mas sentia como se, agora, o homem tivesse escapado entre seus dedos definitivamente, levando Sakura consigo. 

Pensar naquilo causava-lhe desconforto, uma dor estranha e incômoda no lado esquerdo do peito, por isso, havia escolhido não pensar. Ao menos, não naquele momento. 

Havia escutado a mesma conversa tanto de Kakashi-sensei, quanto de Tsunade-baa-chan, antes da sannin deixar a vila. Viva sua vida, corra atrás de sua própria felicidade, eles diziam. O conselho soava piegas, batido e raso, tão raso, mas realmente não havia outras palavras a serem ditas. Era isso, ou pensar ininterruptamente, sentindo-se afundar em desânimo e impotência com uma obsessão infrutífera.

Escolhi não pensar, repetiu consigo mesmo. Seu mantra diário.

Suspirou longamente e fechou os olhos. Aquilo era relaxante, observar as nuvens. Shikamaru sabia, de fato, aproveitar um momento de paz. A grama pinicava suavemente seu rosto, pescoço e as costas da mãos, braços abertos sobre o chão.

Ouviu o barulho suave e abafado de passos, mas não abriu os olhos. Apenas deixou seus lábios de curvarem em um sorriso sutil, ouvindo-os se aproximarem cautelosamente e, quando a pessoa estava ao seu lado, o perfume de lavanda inundou seu olfato. Ele apenas escutou enquanto ela se ajoelhava próximo de sua cabeça, pousando um objeto sobre a grama. Em seguida, mãos macias taparam seus olhos, frias e delicadas.

— Adivinhe quem é.

Sentiu os lábios se separarem involuntariamente, revelando seu sorriso largo. Tateou as mãos que cobriam seu rosto.

Hmm… a kunoichi mais bonita de Konoha? — indagou, escutou-a ofegar. Não precisava olhar para saber que estava corada, nos últimos tempos havia gravado suas reações na memória como só os apaixonados são capazes de fazer.

— … Hm… n-não sei…

Seu sorriso cresceu mais.

— A princesa do byakugan? — Suas mãos circundaram os pulsos finos, apertando-os gentilmente.

— V-você sabe que eu odeio esse apelido. — ouviu-a responder e riu. — Vou considerar que n-não acertou-Ah!

Ela exclamou quando ele subiu o aperto, tomando-a pelos antebraços e rodou para o lado, invertendo as posições. Hinata sentiu sua costas tocarem a grama com um som abafado, cabelos espalhados por todos os lados, e, quando deu por si, via a cabeça loira acima da sua.

— É claro que eu acertei… Princesa do byakugan. — ele cantarolou. 

Viu-a corar e abaixou-se lentamente na direção da Hyuuga.

Os lábios se tocaram devagar. Hinata sorriu contra os lábios do Uzumaki e sentiu-o sorrir também. Quando se afastaram, ela tinha as bochechas muito vermelhas. Ergueu-se, sentando-se em frente ao loiro, fitando seus olhos azuis enquanto tirava as pequenas folhas emaranhadas no cabelo.

— D-Desculpe a demora. Otou-san me parou b-bem n-na hora que ia sair. — explicou.

— Sem problemas. — o Uzumaki falou, deitando-se novamente no chão, mão casualmente cruzadas atrás da cabeça. — Algum problema?

— Ele está… desconfiado.

Naruto congelou.

Há algumas semanas, ele e Hinata tinham começado a se encontrar. 

Impelido pelas palavras de Kakashi e livre da paralisante vergonha inicial após o jantar no pequeno restaurante, Naruto havia reunido coragem o suficiente para chamá-la para sair de verdade.

Houve, é claro, a inicial timidez e uma certa estranheza. Mas Naruto era um perito em quebrar o gelo, de forma que rapidamente estava tagarelando e, melhor ainda, deixando Hinata suficientemente à vontade para falar também. 

Antes que pudesse se dar conta, estava deslumbrado pela Hyuuga. Por trás da camada superficial de timidez e boa-educação, Hinata mostrava-se cada dia mais interessante e amável. Com todos os ninjas confinados à vila, encontravam-se com frequência e pouco a pouco os dois se aproximavam. Não tinham passado dos estágios iniciais por assim dizer, mas, para Naruto, pensar na mulher fazia seu coração disparar e seu corpo se esquentar como um todo de um jeito esquisito e novo.

Sobretudo, quando estava com Hinata, seus problemas pareciam tão, tão longe. Não precisava entoar aquele mantra que havia estabelecido para si mesmo: os pensamentos ruins simplesmente desapareciam rapidamente como numa nuvem de fumaça. 

Tudo estava bem, muito bem.

O único problema? Hiashi-sama.

Hinata era, por mais que detestasse o apelido, a princesa do Byakugan. Tinha sua vida toda seguido regras estritas de comportamento, bons modos, obrigações. Respeitava tradições ancestrais e tinha um pai absolutamente controlador. Naruto não fazia nem ideia de como era viver assim, tendo crescido como um órfão, mas entendeu e respeitou quando ela pediu que mantivessem a relação em segredo. Aparentemente, Hinata não poderia simplesmente ter um namorado como qualquer pessoa normal.

Estudou o rosto tão perfeitamente desenhado dela, como uma pintura romântica.

Ergueu os dedos instintivamente, acariciando o queixo delicado.

— Desconfiado? — indagou. Ela tomou a mão na sua, fechando-a entre seus dedos. Anuiu silenciosamente. — Ele perguntou alguma coisa?

— N-não… por enquanto… mas eu sinto. — estreitou os olhos perolados. — Eventualmente… t-terei que contar.

Pairou um silêncio entre eles.

— Não tem problema. — ele falou.

— Você terá que conhecê-lo.

Naruto arquejou. Endireitou-se outra vez, sentando-se em frente a ela e passou a mão nos cabelos nervosamente.

— É mesmo?

— S-sim.

Estudou a mulher ao seu lado. Hinata tinha a expressão muito preocupada, lábios comprimidos, sobrancelhas franzidas. Lutar contra a Akatsuki inteira com os dois braços presos nas costas era menos assustador do que aquilo. Ainda assim, estudando a expressão consternada, ele sentiu que jamais seria capaz de negar qualquer coisa para ela. Falou:

— Sem problemas.

Havia mais convicção nas palavras do que ele realmente sentia, ainda assim, manteve-se firme. Inclinando-se na direção dela, tomando o rosto redondo e delicado entre as mãos calejadas, plantou um beijo no lábios da Hyuuga.

Hinata arregalou os olhos, surpresa com a carícia repentina, mas logo relaxou, fechando os olhos. Lábios se tocaram mais uma vez e depois outra e outra…

— Naruto-kun. — ela falou, sentindo a pressão dos lábios dele sobre os seus, olhos semicerrados involuntariamente. — Eu t-trouxe comida.. p-para o piquenique…

Uhum… depois… — ouviu-o murmurar enquanto descia os beijos para o pescoço alvo.

————

 

Foi dali algumas semanas que o trio encontrou o lugar ideal.

Próximo de um pequeno povoado, uma clareira se abria para uma lagoa no sopé da montanha, troncos finos e claros das árvores a cercando gentilmente. Era o perfeito retiro.

Itachi estava no telhado e, puxando uma corda grossa, içava uma viga de madeira.

— Ainda faltam mais três. — falou enquanto fazia força, puxando a corda para trás. Embaixo, Sasuke erguia a tora, até que ela ganhou altura e escapou de seu alcance. Ele acompanhou enquanto o volume subia. Ouviu Itachi continuar: —  Se continuarmos nesse ritmo, terminaremos até o final da semana. — a voz saiu como um grunhido no final, ao concentrar a força.

Sasuke passou a mão na testa, secando as gotas de suor. Seus cabelos estavam molhados.

— Espero que sim.

Esfregou as mãos, sentido-as grossas de pó e suor, cheias de arranhões e farpas. Trabalhavam incessantemente, pois a chegada do inverno tornava imperativo que conseguissem construir um lugar decente para ficar antes que o frio chegasse de uma vez. Apesar do clima ser ameno no país, não significava que poderiam continuar dormindo ao relento. 

— Está ficando muito bom. — Sakura falou, alguns metros para trás. Pousou no chão várias tábuas de madeira que carregava, soltando um suspiro. Tapou os olhos do sol da tarde, fitando Itachi no telhado com um sorriso no rosto. — Acho que amanhã já poderemos dormir no andar de cima.

— Sakura, eu já falei para você não fazer esforço. — Sasuke a fitou por cima dos ombros, ares de repreensão em seu rosto.

— São só algumas madeiras… — ela falou, dando de ombros. — Não faz mal.

A kunoichi, grávida de cinco meses, era constantemente desencorajada pelos irmãos a participar do trabalho pesado.

— Você é muito teimosa. — ouviu Sasuke repreendê-la antes de se abaixar para arrastar outra tora de madeira e começar a amarrá-la.

— Sakura-chan, escute meu irmãozinho. Ele pode estar errado sobre muitas coisas, mas nisso está certo. — Itachi comentou, sentado no beiral. O resmungo que Sasuke soltou apenas o fez soltar uma risada em um sopro. — Não deveria ficar se abaixando, principalmente.

— Ora, e o que vocês dois sabem sobre gravidez? — ela falou, pousando as mãos na cintura. Sua barriga se projetava para a frente consideravelmente. — A médica aqui sou eu, a mulher também sou eu.

— É pura especulação nossa. — Itachi respondeu com seu humor sempre sagaz, começando a içar mais uma das toras.

— Apenas pare de fazer esforço desnecessário. — a voz de Sasuke também soou carregada pelo esforço. — Médica ou não, você continua sendo teimosa demais.

Hmph. 

Sakura desistiu da discussão e acompanhou enquanto a outra viga era erguida. Um agradável e simples bangalô de madeira e pedra estava sendo erguido, próximo da conclusão. Tinham conseguido fazê-lo em tempo recorde graças às habilidades ninjas, das quais usufruíam sem preocupação, já que ninguém se aventurava por aquelas bandas.

Era tudo muito modesto. O andar térreo estava finalizado, tinha ambientes espaçosos e bem iluminados, mas sem nenhuma decoração ou luxo. No segundo andar ficariam os quartos, para ela e Sasuke, para Itachi e para o bebê. A casa contava apenas alguns poucos utensílios e mobília adquiridos por Sakura, quando não por Itachi, em ocasionais idas ao vilarejo mais próximo. Sasuke dizia não ter qualquer aptidão para aquele tipo de serviço - e Sakura concordava. 

De qualquer forma, o Uchiha mais novo evitava idas até a cidade, pois simplesmente não tinha paciência para conversas banais e assim as compras e interações sociais costumavam ficar a cargo da esposa e, nas raras vezes que ela não podia ir, Itachi se oferecia para resolver as pendências.

Quando chegaram àquela região, ocultaram os sobrenomes para se apresentarem no povoado, usando o mesmo disfarce de sempre: uma família de forasteiros vinda do Leste, dois caçadores e uma curandeira. A explicação pareceu convencer os camponeses facilmente, pois até então, ninguém havia feito muitas perguntas ou tentado bisbilhotá-los. Parecia que, desde que a paz cotidiana não fosse alterada, ninguém realmente se incomodava deles estarem ali. Eram recebidos pelos habitantes com gentileza toda vez que precisavam de alguma coisa.

Sakura deixou os dois ali trabalhando e perambulou pela clareira. 

Fora a pequena casa, um santuário havia sido erguido para os pais dos Uchiha e para Shisui, lápides simbólicas para entes queridos. 

Sakura não tinha ninguém para homenagear. As pessoas que amava estavam todas vivas, apenas irremediável e dolorosamente distantes, por escolha sua.

Ao contrário de Sasuke e Itachi, ela havia deixado muito para trás.

Não sabia dizer exatamente como se sentia. Por mais incrível que parecesse, o tempo passava muito rápido, e Sakura se impressionava com a facilidade com que tinham se adaptado ao novo estilo de vida. Às vezes se esquecia de tudo que havia acontecido, tinha a sensação de que estavam naquele lugar desde os primórdios do mundo… outras vezes, nem tanto.

————

 

Sakura acordou sobressaltada, sentando-se na cama enquanto respirava de forma errática.

Estava coberta de suor, pegajosa e fria. Apertou o lençol entre as mãos. Ao seu lado, Sasuke acordou e lentamente também se ergueu. Sentiu-o tocar seu ombro suavemente, estudando seu perfil e os lábios entreabertos por onde a respiração escapava descompassada.

— Sakura. — murmurou.

Aquilo acontecia com certa frequência.

Várias vezes havia acordado no meio da noite tendo pesadelos. Era sempre o mesmo, variando minimamente: Konoha queimava em fogo vivo, labaredas dançando como seres vivos, famintas e destruidoras. As casas queimavam e ruíam, as pessoas gritavam e caíam mortas, atingidas por golpes rápidos demais para serem vistos ou defendidos. Alguém a condenava. Sempre havia alguém, e era a parte mais dolorosa.

Tsunade e Kakashi. Naruto. Ino. Sai. Tenten. E muitos outros. Às vezes todos juntos, às vezes separadamente. Ora resfolegavam, corpo ferido, o sangue vazando por feridas imensas e impossível de ser estancado; ora já mortos, olhos vidrados e opacos, corpos frios. Alguma voz dizia o quanto ela era egoísta e imunda, a culpa a assolava. Caía de joelhos no chão e chorava tanto que sentia-se paralisada, impotente.

O desespero era tanto nessas ocasiões que acordava sobressaltada, respirando fortemente.

— O mesmo sonho? — ele indagou com a voz rouca.

— … Sim. — sua voz saiu como um sussurro.

Como sempre acontecia, sentiu os braços fortes de Sasuke a envolverem e a puxarem para si. Deitaram-se novamente, e chorou um pouco mais junto a ele. A presença tinha sobre ela uma influência quase sobrenatural, de modo que, passado um curto intervalo, as batidas do coração tinham se acalmado novamente.

Ela enxugou o próprio rosto, fungando. Ele tinha os olhos fechados, mas estava acordado.

— Talvez… talvez você devesse procurá-los. — ela falou. Sasuke abriu os olhos negros e, por ser uma noite de lua cheia, pôde observá-lo sob a luminosidade azul que entrava da janela. — Suigetsu, Karin e Juugo. Eu não posso falar com ninguém, mas você poderia…

Abaixou os olhos. Não parecia certo deixá-los para trás, quando podiam estabelecer contato. Se Sakura pudesse, teria procurado seus amigos sem titubear. Não entendia porque Sasuke não tinha feito qualquer menção de contatar o antigo time Hebi.

Ele a estudou longamente.

— Não sei onde estão.

— Você pode procurá-los. — ela falou. Tinha a voz fanha e chorosa ainda, mas sua respiração havia se normalizado.

— Talvez. — ele respondeu. Parecia receoso.

— Eles foram bons companheiros para você, não foram, Sasuke? — ela indagou. — Por que não procurá-los?

— Vou pensar.

Dizendo isso, fechou os olhos novamente. Após alguns segundos, abriu-os novamente, contemplando Sakura que continuava assustadiça sob seu abraço.

— Eu vou pensar sobre isso, Sakura. Fique tranquila. — falou, enxugou o rosto molhado dela, colocando os cabelos cor de rosa para trás. — Tente voltar a dormir.

Ela concordou com um murmúrio.

No dia seguinte, Sasuke invocou seu falcão e ordenou que vagasse à procura dos antigos integrantes do time. 

Não fazia a mínima ideia de onde eles estavam, então a ave poderia peregrinar livremente: se encontrasse qualquer um deles, deveria entregar-lhes a mensagem. 

A chance era mínima, mas não custava nada.

————

 

Juugo gostava das galinhas.

Elas eram sim, barulhentas e escandalosas, porém eram animais curiosos e ligeiros, e o homem se divertia ao observá-las. Estava com um grande pote de milho nos braços e lançava os grãos adiante, acompanhando os animais se aproximarem, ávidos para se alimentarem, e se afastarem rapidamente ao ver uma nova onda cortar o ar como uma chuva de migalhas. O movimento se repetia toda vez que Juugo enchia a mão e lançava o alimento.

Um pio alto se fez audível, uma sombra passou ligeira pelo chão e Juugo acompanhou enquanto os animais saíam correndo para longe, independente do alimento disponível. Estranho. Ergueu os olhos para o céu: um grande falcão negro voava em círculos, batendo suas longas asas lentamente. A cada volta ele perdia altura, espiralando através do céu.

O nukenin permaneceu imóvel, estudando a ave até que ela plainou sobre sua cabeça e agitou as asas lentamente, colocando as garras adiante como se quisesse se empoleirar. Ele ofereceu um local de pouso e imediatamente as patas com unhas afiadas se fecharam ao redor de seu antebraço.

O falcão de Sasuke.

A ave piou mais uma vez e coçou as próprias penas, enfiando o bico entre elas agilmente. Carregava uma mensagem presa a uma das pernas. O ruivo a desamarrou cuidadosamente, um selo brilhando e desaparecendo ao desamarrar a corda, sustentando o grande animal enquanto tomava o pedaço de papel entre os dedos. Estava sujo de terra e um pouco amarelado, como se estivesse preso ali há um bom tempo.

Seus olhos leram o texto rapidamente.

“Karin, Juugo e Suigetsu.

Espero que esta mensagem os encontre vivos, onde quer que estejam. 

Já faz muito tempo desde a última vez que estivemos juntos e, dadas as circunstâncias, entenderei se ignorarem esta carta. Estou no País do Mel com Sakura e Itachi, onde pretendo habitar daqui em diante. Escrevo pois gostaria de poder revê-los uma última vez.

Abaixo deixo minhas coordenadas.

Este pergaminho se auto-destruirá em uma hora.

U.S.”

Havia algumas direções após a assinatura.

Não soube o que fazer daquilo, coçando a cabeça, confuso. De súbito, tendo cumprido sua tarefa, a ave levantou vôo, soltando-se de seu braço e Juugo acompanhou-a subir novamente para o céu. Retirou-se do galinheiro pelo pequeno portão de madeira, fechando-o atrás de si para que os animais não escapassem, e andou rapidamente até a estalagem.

Karin, naquele dia, trabalhava no bar da taverna. Estava lavando os copos e toda a louça antes que o estabelecimento abrisse e ergueu os olhos da pia para ele ao ouví-lo entrar. Ele provavelmente tinha o semblante tenso, pois ao colocar os olhos nele, a Uzumaki expressou certa surpresa.

— O que é, Juugo? Parece que viu um fantasma.

— Recebemos uma mensagem de Sasuke.

Ele praticamente vomitou as palavras. Onde estava, a mulher paralisou. Talvez, a expressão em seu rosto fosse exatamente a que Juugo portava, pois ele achou, mesmo, que ela parecia ter visto um fantasma.

— O que ele falou? — indagou. Juugo esfregou o papel entre os dedos. — Ande, Juugo, diga logo. O que ele disse? — sentia a ansiedade tomá-la.

— Ele—

A porta foi escancarada naquele momento. Suigetsu voltava de suas obrigações, carregando uma caixa cheia de mercadorias sobre um dos ombros.

— Karin, Juugo. — cumprimentou-os enquanto colocava a caixa no chão com um resmungo, limpando as mãos afetadamente em seguida. Diante da ausência de resposta, estudou-os. — O que foi? Que caras são essas?

Permaneceram em silêncio alguns instantes. Karin e Juugo trocaram olhares e foi o ruivo quem falou.

— Recebemos uma mensagem de Sasuke. — repetiu.

A expressão de Suigetsu foi um misto de assombro e questionamento. Ele se aproximou a passos lentos e, quando chegou perto do gigante, fitou o papel que ele segurava, apoiando as mãos na cintura.

— O que está escrito aí?

Juugo abriu o papel diante dos olhos, começando a lê-lo lentamente.

— Dê-me isso aqui. — Suigetsu, impaciente como era, tomou-o das mãos do outro, ao que Juugo protestou com um resmungo. Leu rapidamente. — Ele está com Sakura e… Itachi. Ele quer que nós o encontremos. — Resumiu.

— O quê?! Mas— Karin estudou o nukenin da névoa e então Juugo. Seus olhos voltaram para Suigetsu. — Mas… Itachi? Isso não faz nenhum sentido. 

— Não… Talvez… Hm. Parece que muita coisa aconteceu desde que nos separamos… — Juugo comentou. — Talvez eles tenham se reconciliado enquanto estávamos na prisão em Konoha?

A ideia parecia-lhe completamente estapafúrdia. Karin apertou a própria têmpora, massageando-a. 

Aquilo não fazia nenhum sentido. Era típico de Sasuke não explicar nada direito.

— Onde ele está? — ela indagou.

— No País do Mel.

— País do Mel? — Ela nem sequer sabia que aquele lugar existia. Que nome estúpido. — Onde fica isso?

— Longe, muito longe. — Foi tudo o que Suigetsu respondeu.

Foram alguns minutos em que reinou um silêncio tenso e desconfortável entre eles. Os pensamentos corriam soltos nas mentes dos três shinobis. Suigetsu apoiou o bilhete no balcão e sentou-se desleixadamente em uma das banquetas altas, passando as mãos nos cabelos lisos.

— País do Mel… — Juugo murmurou.

— É realmente muito longe. Acredito que fique do outro lado do mar ocidental. — o nukenin da névoa comentou. — Nunca fui até lá, tampouco conheço alguém que tenha ido. Apenas já ouvi falar.

— Ele realmente… foi muito longe… — Juugo murmurou. — Para fugir de Konoha?

Suigetsu deu de ombros, deixando evidente próprio desconhecimento da resposta. Passado mais algum tempo, foi o primeiro a se posicionar:

— Bom, por mim tanto faz. Como já falei, estou com vocês. — Passou os olhos de Juugo para Karin, fitando a última intensamente. — Onde quiserem ir, eu irei. Se não quiserem encontrá-lo também, não farei qualquer objeção.

Juugo e Karin se entreolharam. O gigante fez um beiço, como se dissesse também que, para ele, tanto fazia. Os dois pares de olhos pousaram sobre Karin.

Ela enrubesceu.

— Ora, vocês não podem deixar essa decisão nas minhas mãos. — ela esbravejou. Jogou o pano de prato sobre a pia e apoiou as mãos na cintura, irritada. — Nós somos um grupo, não somos? Todos devem opinar.

Suigetsu soltou um riso abafado ao ouvir suas próprias palavras serem repetidas.

Mais uma vez, ficaram em silêncio, pensativos.

Juugo ergueu a mão lentamente, lábios crispados. Karin e Suigetsu o fitaram, esperando pacientemente que falasse.

— Eu… gostaria de encontrá-lo. Se tudo bem por vocês. — falou. — Sinto falta de Sasuke, apesar de tudo.

Sua franqueza era capaz de desarmar qualquer um.

— Você, Karin? — Suigetsu incitou-a a falar.

— Ora, opine você primeiro. — a kunoichi cruzou os braços em frente ao corpo, esboçando leve irritação. Suas bochechas ficaram vermelhas.

Suigetsu ponderou por instantes e retomou o bilhete, dobrando-o lentamente entre os dedos. Era curioso receber aquela mensagem de Sasuke, acima de tudo, era inesperado. Achou que nunca mais o veria ou saberia qualquer coisa de seu paradeiro após todos os acontecimentos, mas, para sua surpresa, o próprio Uchiha os havia procurado. Sua reconciliação com o irmão assassino, acima de tudo, era um mistério, e não era do feitio do nukenin da névoa deixar suas dúvidas passarem sem uma resposta decente.

— Eu acho que devemos ir. — falou finalmente. Olhos vermelhos e âmbar se arregalaram em surpresa. — Agora, você poderia, por favor, dar sua opinião, Karin? — provocou.

Ela cruzou os braços diante do corpo, passado os olhos entre os shinobis. Sentia seu coração batendo forte contra o peito, sua coragem de se expressar vacilando.

Finalmente, suspirou longamente antes de dizer:

— Eu preciso pensar.

————

 

Neji parou no vão que separava a sala do corredor externo que circundava todo o perímetro da residência Hyuuga.

Tenten e Hinata estavam de costas para ele, observando o jardim enquanto conversavam algo particular.

— Ele está atrasado.

Ambas se viraram parcialmente, fitando-o por cima dos ombros.

— E-eu sei, Neji-niisan. — foi tudo o que Hinata falou.

— Hiashi-sama vai ficar bravo.

O rosto de Hinata corou e ela desviou os olhos para o chão, incapaz de sustentar o olhar inquisidor do primo.

— Neji, não seja um chato. — Tenten o repreendeu. Alisou o braço de Hinata amigavelmente, tentando animá-la. — Naruto provavelmente só teve algum problema no caminho, é só isso. Logo mais ele estará aqui, não se preocupe. Não é, Neji? — olhos castanhos se voltaram para ele, reprovando-o.

Hmph. — ele cruzou os braços diante do corpo. — É bom que chegue logo, ou causará uma péssima primeira impressão. Francamente, Hinata-sama, por que você foi escolher logo o Na—

O sino da porta principal tocou, desviando as atenções dos três que participavam da conversa.

— E-eu vou atender! — Hinata disse com animação e tom de voz que lhe eram atípicos, e saltitou pela casa até a porta de entrada. Chegou antes que qualquer um dos criados pudesse alcançar as maçanetas. — N-Naruto-kun.

O loiro estava parado na soleira, arrumado e sério como quase nunca era. O nervosismo era evidente em seu semblante e ele mal respondeu Hinata, soltando apenas um murmúrio. Sentiu-a agarrar seu pulso e puxá-lo para dentro, após plantar um beijo rápido e afoito em seus lábios crispados.

Otou-san estava só e-esperando você. — ela falou.

Naruto sentiu seu estômago afundar. Enquanto era arrastado para dentro da imensa residência em estilo tradicional, sentia o nervosismo em ebulição dentro de si. Teria apreciado a madeira nobre dos ripados, os jardins impecavelmente  podados, os pedriscos imaculadamente brancos no chão, mas não conseguia focar em nada.

Quando deu por si, estava em uma sala ampla com um longo chabudai central. Na mesa baixa, um homem de longos cabelos escuros estava sentado e silencioso, expressão dura em seu rosto. Mais atrás, estavam Neji e Tenten.

— Naruto. — Neji foi o primeiro a falar, quebrando aquele silêncio sepulcral que parecia ter se instalado. Ofereceu um sorriso amistoso com um leve esgar de lábios. — Que bom que veio.

— N-Naruto-kun, Neji-niisan e Tenten v-você já conhece… e este é otou-san… Hiashi-sama. — Hinata fez as apresentações.

O homem ergueu os orbes claros para ele, mas na face sisuda, eles lhe causavam uma impressão completamente diferentes dos doces olhos de Hinata.

Naruto percebeu que todos os fitavam. Apertou os dedos de Hinata sob os seus, sentindo a palma das mãos suarem.

Er… Prazer? — cumprimentou, a voz vacilante.

Engoliu em seco.

Passado o que, para ele, pareceu uma eternidade, os lábios de Hiashi se curvaram em um pequeno sorriso.

— …Seja bem-vindo à nossa casa, Uzumaki Naruto.

————

 

— Acho que você deveria, sabe… falar com ela. — Juugo falou. O olhar de Suigetsu era questionador, sentiu necessidade de se explicar. — Vocês estão… se entendendo. Não?

Pela primeira vez desde que o conhecia, Juugo viu Suigetsu ruborizar. O nukenin da névoa crispou os lábios em um claro sinal de constrangimento, sobrancelhas franzidas.

— Tá, tá… falarei com ela. — ao seu lado, o ruivo sorriu docilmente. — Mas nada desse papo por aí, hein? Nós só… estamos respeitando um ao outro.

Okay… — Juugo falou, fazendo um bico logo em seguida, contendo o sorriso que insistia em se espalhar por seus lábios.

— Está rindo do quê, palhaço?

— Vá logo falar com ela. — Juugo falou, o riso finalmente escapando e empurrou o outro adiante com sua mão avantajada.

Suigetsu soltou um resmungo, cambaleou para frente alguns passos e parou. Karin continuava na mesma posição, sentada sobre os degraus de pedra, contemplando a sutil movimentação da água. Olhou por cima dos ombros. Emoldurado pelo batente da porta, Juugo indicou que se movesse adiante com um movimento da mão.

Suspirou longamente. Desde a conversa sobre o possível encontro com Sasuke, a Uzumaki havia se tornado reclusa e monossilábica. Tanto ele quanto Juugo acharam melhor dar a ela o espaço que desejava, mas após alguns dias sem qualquer mudança de comportamento, indagavam se ela não gostaria de conversar com alguém. Era isso que mulheres costumavam fazer, não era? Contar os problemas, dar conselhos e essas coisas… a ausência de qualquer experiência relacional com o sexo oposto tornava-os inaptos a entender verdadeiramente o que se passava na cabeça da kunoichi.

Ainda incerto, andou até a mulher contemplativa. Sentou-se ao lado dela sem dizer nada, sentindo os olhos vermelhos sobre si, ciente dos lábios entreabertos em surpresa. Ela aspirou o ar como para dizer algo, mas desistiu em seguida, apoiando o rosto nas mãos e voltando a fitar o lago.

— Karin. Conte para mim o que está havendo.

Ela permaneceu imóvel. Os cabelos escarlates remexiam com a brisa, mas fora isso, tudo que se movia eram as pálpebras com cílios longos e avermelhados quando piscava.

— Sabe, se não quiser encontrar Sasuke, nós não precisamos ir… Eu não sei direito o que houve entre vocês naquela missão com o time de Konoha, mas…

A frase morreu nos lábios. Sem resposta, fitou a porta da casa: Juugo tinha entrado, deixando-o sozinho para resolver aquele desafio.

— Eu não sei o que quero. — ela falou sem fitá-lo. Não havia raiva, nem pesar, nada. Apenas um tom de voz curioso e contemplativo. — Sasuke me desprezou e atacou quando o encontrei. Apesar disso, não consigo odiá-lo. Faz sentido? — seus olhos inteligentes fitaram o nukenin. 

— É, não muito… mas coerência nunca foi seu forte. — viu as sobrancelhas se unirem em desafio. — É brincadeira. Olhe, Sasuke realmente nunca foi muito amável, por assim dizer… E nem por isso nós o odiamos.

— Não sinto raiva, nem rancor, apenas… lembrar da situação é humilhante. Eu fiquei aliviada por saber que ele está bem, mas…   

A bem da verdade, sentia-se insegura e aflita com a possibilidade de ver Sasuke após tudo que havia acontecido naquele reencontro, mas não achava certo cortar relações àquela maneira. De qualquer jeito, a notícia de que ele vivia tirava um peso de suas costas.

— Na verdade, tudo é humilhante… tudo… todo aquele comportamento, o tempo todo. — as bochechas dela coraram involuntariamente. Ao seu lado, Suigetsu tinha os braços apoiados sobre os joelhos. Fitou-a de escanteio, interessado. — Toda… obsessão… ter ficado longe dele, passado pelo que eu passei, parece ter colocado tudo em perspectiva.

— O que quer dizer?

— Que eu estava deslumbrada. Na verdade, por mais que preze por Sasuke, não o conheço, só… ele exercia uma força. E hoje me arrependo de muitas coisas. — Ela esfregou as mãos nervosamente. — A perspectiva de reencontrá-lo é estranha.

Hm. 

O nukenin refletiu um instante, digerindo as palavras.

— Então você se sente envergonhada por tudo que aconteceu antes e tem medo de vê-lo novamente?

— É. — ela anuiu. — Tenho receio. Agora tudo está muito claro, não quero que Sasuke nuble tudo outra vez.

— Não vai acontecer, Karin.

— Por que você sempre fala de tudo com tanta convicção? — indagou e havia certa irritação no semblante feminino. 

— Porque acho que você amadureceu.

A resposta a pegou de surpresa. Abriu a boca tentando procurar as palavras para responder, mas elas desapareciam de sua mente. Limitou-se a fechar os lábios, sentindo o calor subir para o rosto.

Seus olhos se voltaram inconscientemente para o ninja ao seu lado.

Suigetsu vinha se provando um amigo compreensivo e presente. Não sabia porque havia demorado tanto tempo para perceber suas qualidades, talvez fosse aquela obsessão que lhe anuviava a vista, mas nos últimos tempos, o jeito divertido e tranquilo dele vinha sendo uma verdadeira benção em sua vida.

Estudou-o longamente.

— Não precisa me olhar assim, em choque. Estou dizendo isso porque realmente acho—

As palavras dele foram interrompidas pelos lábios tépidos que tocaram os seus em um beijo roubado.

— Se é o que todos querem, vamos. — ela aceitou, tinha um sorriso no rosto. 

Levantou-se sem dizer mais nada e adentrou a estalagem. 

Deixou para trás o ninja da névoa completamente estupefato.

No dia seguinte, o antigo time Hebi angariou todos os seus pertences e partiu em direção ao País do Mel.


Notas Finais


SAKSAKSJSAJSAHS
AIIII ESSE CLIMA DE ROMANCE!!!!!!
QUEM SOU EU?! O QUE FIZERAM COMIGO??? EU MORRI E FUI SUBSTITUÍDA?

Itachi e Sasuke trabalhadores braçais gostosos construindo uma casa alguém me seguraaaAAaaargh

AGUARDANDO AS OPINIÕES.
BEIJÃOZÃO EM TODOS VCS, ESTOU MUITO AMOROSAH!!!
Até a próxima. Que vai ser a última de verdade.
bjs


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