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História A Máscara das Ilusões - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Prologo 1. Humanidade


Prologo

  Meu corpo tremia, ainda molhado pelas gotas de chuva que se derramaram da manhã até quase o fim da tarde. O cheiro da maresia ainda estava empregada na madeira bolorenta da caixa escura onde me encontrava e o som das pessoas do lado de fora fazia com que eu me apertasse ainda mais contra a caixa, eu desejaria morrer ali do que participar daquilo novamente.

  Todavia, talvez mesmo pelo medo incorporado a minha alma ou a falta de alimento a muitos dias corridos, meu corpo se entregou a um sono simples e negro até que com o solavanco barulhento dos pregos sendo retirados da caixa me fez acordar, a primeira luz refletida dos lampiões me cegou por o que me pareceu uma eternidade, percebi tarde demais quando os expositores me pegaram pelos pulsos. Eu tentei resistir, minhas pernas atrofiadas pela falta de uso sedaram. Minha boca, ainda costurada internamente, para que eu não mordesse os tratadores, encheu-se com um horrível gosto enferrujado quando tentei, em vão, gritar. Não por ajuda, não por alguém, apenas por que era aquilo que eu desejava fazer.

  Mais tarde veio a música, enquanto eu era empurrada no mostruário, passei por um longo corredor, meus olhos finalmente se ajustavam a claridade – apesar de ainda visualizar pequenos pontos luminosos que embaçavam minha vista – pude ver as outras peças do leilão: Uma jaula grande com várias pessoas de cabelos negros e olhos puxados, crianças deformes e homens e mulheres pretos, mais a frente algumas crianças mais velhas que eu, meninas bonitas no auge de seus 11 anos, essas muito bem tratadas – claro, altamente lucrativas tanto ao Monstro quanto para as casas de prazeres.

  O Monstro, com o fim da música e de uma sequencia exagerada de aplausos sua voz reverberou no palco, anunciando a próxima peça: Eu.

- Agora, algo peculiar.

  Ele disse enquanto os expositores me colocavam no meio do palco, pude ver fileiras e mais fileiras de homens vestidos de pretos, com máscaras igualmente escuras sobre seus rostos sorridentes.

- Esse adorável espécime veio das províncias de Munster. Como podem ver sua acromatose pode gerar muitos estudos interessantíssimos – então se aproximou e retirou de sua bota uma longa chibata para levantas meu rosto (talvez ele tenha aprendido ficar longe) – em minha ultima viagem ao continente dos negros, ouvi de um líder xamânico que essas criaturas amaldiçoadas são incrivelmente uteis no meio ritualístico. Seu sangue, dizem ter propriedades curativas formidáveis!

  Enquanto O Monstro fazia seu longo monologo os convidados se inquietavam e sussurraram um para os outros, menos um único homem na primeira fileira. Ele sorria enquanto olhava diretamente nos meus olhos, e eu, por instinto olhava diretamente para os dele, como um animal sendo desafiado.  Por um momento me perdi em uma lacuna escura em minha mente, quando pisquei algumas vezes, senti meus pulsos mais relaxados, como se as amarras que me prendiam ao mostruário fossem levemente soltas. O homem sorriu, e levou o indicador aos lábios ainda presos em um sorriso travesso.

  E como se incumbida de uma força fantasmagórica, não me sentia mais fraca ou hesitante, e ao olhar O Monstro, ainda se gabando de suas criaturas exóticas, não pude deixar de sorrir, meu corpo como se possuído por um desejo incontrolável de vingança e ódio, se projetou quase dois metros, até montar-se nas costas do Monstro que gritou como uma presa derrotada. Abri minha boca, ignorando o sangue escorrendo da minha gengiva costurada - agora rompida - e mordi sua orelha fortemente, a arrancando e a engolindo no mesmo instante, depois mordi seu rosto, mas os expositores me agarraram pelas ancas e me jogaram no chão, fazendo com que minha cabeça batesse forte contra a roda de meu expositor, me impedindo de me mover.

  O monstro chutou meu rosto com seus sapatos chiques, depois me amaldiçoo em sua língua nativa, cuja qual eu não entendia. Mas seu rosto ainda retorcido em uma carranca de dor ainda fazia sorrir a minha amargura. Ele limpou o sangue do rosto, e pressionou seu lenço de bolso contra o que restara de sua orelha. Assim abriu o leilão:

  O silencio reinou por um momento, os homens que cochichavam agora só se entreolhavam, percebiam que eu não valeria nada para eles. Então, o homem sorridente se levantou e disse alto e em bom tom:

- 5 mil Libras! – ele ainda olhava para mim – É metade do valor, mas não acho que mais alguém queira comprar um bicho tão agorento...

- Vendida para o senhor número 47, pode buscar seu produto no palco.

E assim ele fez, me pegando com apenas um braço e me colocando sobre seu ombro – como um saco de batatas – e se retirou do recinto silenciosamente.

- Bem vinda a família de La Insânia, ratinha.

 

Parte 1. O circo andante.

 

  Existem muitos fatos curiosos sobre circos: elefantes cagam montanhas inteiras, a carreira como encantador de serpentes é muito movimentada – talvez por que ninguém vive muito depois de ser mordido por uma cascavel – e por último, um circo sobre um trem é mais prático do que qualquer outro.

  La insânia, 360 vagões que viajam todo o Reino Unido, com o maior arsenal de aberrações – eu como uma das mais legais, é claro – a maior quantidade de cobras venenosas em um vagão já existente e com os melhores malabaristas chineses que os ingleses já viram.

  E finalmente, depois de longos seis meses viajando pelo norte do país, voltaríamos para a boa e velha Inglaterra, mais precisamente Londres, o que me deixava muito esperançosa, afinal, a menos de um ano terminaram a construção do grande relógio, e eu adorava relógios.

  Eu estava em pé em meu vagão pintando – não era comum um membro da trupe ter um vagão só para si,  mas Adrian garantia ser melhor para todo mundo devido aos meus talentos no show, eu acreditava que ele apenas gostava de me mimar mais que os outros – se falando de Adrian, o dono do circo, era de imaginar que estava muito ocupado na sala do maquinista, uma vez que o sino do trem apitava sem parar a mais de 3 minutos inteiros, e ele amava sinos tanto quanto eu amava relógios e tanto quanto Louis odiava pessoas.

  Eu me perdia em pensamentos enquanto dava as ultimas pinceladas em um quadro não planejado, as vezes eu apenas sentia a necessidade de deixar fluir o que é que estivesse em minha mente, eu mesma me surpreendia ao ver a obra finalizada. Dessa vez, um grupo de pessoas mortas queimavam sobre uma pira enquanto padres rezavam a sua volta. Meus quadros costumavam ser assim, não por nenhum motivo em especial, mas Louis – o companheiro de Adrian - adorava como eram eventualmente tão mórbidos e sempre me recompensava pelas pinturas, apesar de eu guardar algumas só para mim mesma.

- Ainda pintando, querida? – tão logo quando coloquei a tela de frente à janela para secar Louis entra.

  Ele é um homem alto de longos e cacheados cabelos castanhos que emolduram seu rosto anguloso e seus olhos verdes, ele sorriu a ver a tela de canto pronta, seu sorriso mostrava seus caninos ligeiramente saltados e covinhas marcadas em sua pele bronzeada.

- Adoro como usa o vermelho – ao dizer se aproximou da tela e respirou profundamente – tem um cheiro peculiar, a tinta...

- Eu tive que usar sangue para pintar o cabelo dela – e aponto uma jovem mulher com o rosto derretido como cera na pintura – acho que ficou mais dramático.

- O que é a existência sem o drama? Eleonor, me dê o braço – e sem decoro algum puxou para cima a manga esvoaçante de minha camisa escura.

Revelando assim um longo, porem superficial corte, por onde obtive minha tinta orgânica, seus dedos frios passaram sobre a ferida – fazendo com que ardesse – trouxe então seu rosto para perto, se curvando como uma pomposa saudação e lambendo em seguida – fazendo com que o ferimento perdesse o tom rubro da recém feita dilaceração.

- Se precisar desse tipo de tinta pode falar comigo, uma ratinha não deveria ter cicatrizes – e com um afago paternal beijou suavemente minha testa. Ah, querida, olhe o relógio!

Louis correu se debruçar sobre a larga janela e eu, o acompanhei em seguida, meus cabelos brancos teimavam em cobrir meus olhos usando a força do vendo, mas ali estava, a longa torre do relógio dourado.

 -Chegamos! 



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