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História A Megera e o Indomável - Capítulo 6


Escrita por: MiaLehoi

Notas do Autor


O trecho do capítulo faz parte da música "Meninos e Meninas", da banda Legião Urbana.

Boa leitura!

Capítulo 6 - Me deixa ver como viver é bom


— Eu não faço ideia de como me vestir para isso. — Carmem reclamou ao telefone e Mônica lhe deu uma risadinha em resposta. Toni estava certo: a amizade entre a anja e a diaba da mídia era um dos assuntos mais comentados do momento e nos últimos dias elas já haviam sido flagradas na praia junto com Denise, passeando pelo belíssimo calçadão da Cidade do Limoeiro, fazendo compras no shopping com Magali e visitando a casa de praia uma da outra. Iria a indecente Carmem Frufru corromper a boazinha Mônica Sousa, ou seria o contrário? O Brasil queria saber. O mais estranho é que da conveniência estava surgindo uma espécie de amizade ali. Na maior parte do tempo trocavam dicas. Mônica falava tudo o que considerava importante sobre Do Contra, Carmem lhe dava um milhão de dicas fashion, mas de vez em quando elas se pegavam simplesmente… Conversando como jovens adultas normais. Quem poderia imaginar? Agora falavam sobre a missão de se preparar para o show da TMJ que abriria a temporada de shows do novo ano, recomeçaria os programas de verão da MTV e atrairia centenas e centenas de turistas para a cidade. Como a imprensa estaria lá em peso, era importante que estivessem impecáveis.

— Vamos trocar de estilos pela noite. — Mônica sugeriu, de brincadeira, porque acreditava que jamais funcionaria.

— Não acredito que vou dizer isso Ritinha, mas é uma ideia genial! — a loira exclamou do outro lado da linha, usando o nome da personagem da novela com a outra, como tinha criado o hábito de fazer. — Você em um vestido de couro super colado e sexy e eu de jeans e blusinha com estampa fofa? — ela riu animadamente — Os paparazzi nem vão saber o que atingiu eles! 

— Ai, não! Eu não vou ficar bem com uma roupa assim! — choramingou.

— Para de ser boba! Não precisa confiar totalmente em mim. Nós chamamos a Magali e a Denise e nos arrumamos juntas, desse jeito elas vão opinar de ficamos ridículas. — a Frufru continuou, subitamente mais animada — Só traga coisas pra comer porque eu não tenho dinheiro suficiente para dar conta do estômago da Magali. As bebidas eu patrocino. — combinou, animada, logo ouvindo o sinal de outra chamada no telefone. — Tenho outra ligação aqui, mais tarde te ligo de novo pra confirmar! — despediram-se brevemente e ela atendeu o telefonema, que era de seu agente. Dessa vez Carmem esperava notícias boas, pois as propostas que andava recebendo… Eram extremamente desanimadoras. 

— Boneca, tenho uma notícia muito boa. — Toni começou, antes mesmo de cumprimentar direito.

— Por favor não me diga que o produtor do Brasileirinhas te ligou, porque ele anda me infernizando e não aguento mais. — fez uma careta, desdenhando da produtora de filmes pornográficos que não parava de tentar contato com ela.

— Relaxa. Ele me ligou e eu ameacei pedir uma ordem de restrição, então acho que você vai ter uns dias de paz. — ele respondeu — Mas a boa nova… Você vai no Programa Livre! E na mesma noite que os Mamonas Assassinas. — anunciou, de um jeito que Carminha pôde até imaginar o rapaz estufando o peito orgulhosamente.

— Marco Antônio, como você conseguiu isso?! — ela exclamou, depois de dar um gritinho animado e literalmente pular na cama segurando o aparelho de telefone e quase puxando o fio da tomada sem querer. — O Serginho Groisman vai me entrevistar? É isso mesmo?

— É! — a confirmação veio junto de um riso alegre — Vai ser bom. O Serginho com certeza vai fazer uma ótima entrevista, ele passa longe desses entrevistadores sensacionalistas. Enfim, as gravações são na próxima quarta, então se prepara pra vir pra São Paulo. Acho que pode ser uma porta pra conseguirmos outras coisas… 

— Espero que sim! — ela não conseguia conter a animação. Era um programa animado e jovial, mas que falava de assuntos diversos com leveza e bom humor. Além de que iria conhecer os Mamonas Assassinas! — Isso é incrível, não sei que mágica você fez, mas obrigada!

— Você tá na mídia, né… Mexi uns pauzinhos e a oportunidade veio. — deu uma pausa — Vou desligar, ainda tenho umas coisas pra resolver hoje.

— Okay, baby. Vou continuar de fofoquinha com a Mônica pelo telefone… Vamos até nos arrumar juntas pro grande show do verão!

— Se vocês acabarem se tornando amigas de verdade eu vou rir da sua cara para sempre. — disse, referindo-se a todos os deboches que a modelo faziasobre a atriz. 

— Impossível. Mal posso esperar para acabar esse teatrinho ridículo. 

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Do Contra tocava animadamente na passagem de som, que talvez fosse seu momento favorito das tours. Podia ver o local vazio, juntar a banda e fazer brincadeiras no palco sem a pressão de toda a gente assistindo. Nos últimos dias ele tinha sentido muito medo de estar com os colegas de banda, porque se não aceitassem seu irmão, era uma sentença de que ele não gostaria mais de estar naquele ambiente também. Então teve medo de eles agirem estranho, de fingirem aceitar só porque sabiam que o deixaria a banda caso não acontecesse ou, pior, de tratarem mal seu irmão. 

No primeiro dia a casa ficou silenciosa, cada um em seu quarto, em seu mundo. Mas de repente… Tudo parecia estranhamente normal. Xaveco não queria fingir que nada aconteceu, então chamou todos para a sala no fim da noite e eles conversaram por horas, tanto tempo que a manhã quase raiou. Muitas coisas foram ditas, mas no final era certo: não fazia diferença nenhuma Nimbus ser gay ou não, se era irmão de DC era deles também. Claro que ainda havia muito a ser aprendido e a rotina heteronormativa do grupo ainda estava um tanto balançada, mas esperava que tudo corresse bem.

Agora, horas antes do primeiro show que fariam em muito tempo, Cebola estava de cueca boxer no palco, imitando Axl Rose, Cascão e Jeremias tocavam uma versão meio zoada de uma das músicas da TMJ e DC e Xaveco acompanhavam. Nem mesmo durante os ensaios dos últimos dias tinham se sentido tão relaxados, mas ali estavam prontos para o show bombástico que apresentariam dali a pouco.

Para Nimbus aqueles dias foram estranhos. Ele ainda sentia uma enorme dose de culpa por ser homossexual, mesmo que tivesse certeza de sua sexualidade desde pequeno. A conversa com os rapazes da banda foi quase terapêutica, eles falaram sobre isso, lhe asseguraram que se esforçariam para que ele se sentisse em casa. Honestamente? Eram rockstars em uma época em que muitos ídolos não eram heterossexuais. Amavam Cazuza, Renato Russo, Cássia Eller. Já tinham conhecido fãs e pessoas em festas que não sabiam nem dizer a qual gênero se designavam (e naquela época identidade de gênero estava longe de ser um assunto compreendido ou discutido). Nimbus tinha crescido com eles, assistido ensaios quando eram nada, os ajudado a espalhar panfletos quando tocavam em bailinhos das escolas, acompanhado toda a trajetória. Por que não seria bem-vindo na casa da banda?

Claro que o jornalista não era burro e percebeu certas mudanças de comportamento, hesitaçoes na hora de decidir a maneira de cumprimentá-lo, constrangimentos quando começavam a falar sobre mulheres (o que era frequente), porém acreditava que isso acabaria se ajustando. 

O mais estranho é que o Hiromashi não os culparia se também o colocassem para fora, assim como não culpou os pais. Era culpa dele ter nascido assim, errado. E ninguém sabia, mas foi essa a razão das lágrimas de Do Contra. Ao entrarem no carro na noite em que vieram ao Limoeiro, Mauro externalizou esse pensamento e Maurício lhe disse com a maior rudeza que ele já viu 'nunca mais repita isso na minha frente, a culpa é deles.' e então dirigiu o caminho inteiro visivelmente segurando o choro. 

Nimbus quis chorar também, mas já havia passado tantas noites em silêncio no quarto chorando escondido, que não lhe restavam mais lágrimas. Mas agora ele tinha uma casa (ainda que temporária) e um verão inteiro para decidir o que fazer. Daria tudo certo.


Mais uma vez o novo quarteto contraditório da mídia brasileira chegou junto a um evento. Mônica, Carmem, Magali e Denise desceram juntas do carro da família Frufru e logo foram guiadas pela staff ao camarote, que ficava um pouco acima da lateral do palco. Todas seriam comentadas na semana seguinte por seus looks: Denise estava com uma sainha branca cheia de botões na frente, uma camiseta curtinha com um coração enorme estampado e sapatinhos Mary Jane sem salto com meia soquete. Magali, como sempre com seu estilo mais colorido, usava uma calça jeans cor de rosa bebê e uma camiseta da TMJ, junto com botinhas brancas. Já Mônica, estava a surpresa em pessoa. Ela levou para a casa de Carmem um vestido preto de alças, tendência entre todas as celebridades, que comprou e não tinha coragem de usar pois marcava a barriga. As meninas a convenceram, ela o colocou, as alças, o decote e a maquiagem avermelhada que Carmem havia feito em seus olhos e que combinava com o batom Ruby Woo da MAC contrastavam totalmente com seus looks sempre mais discretos. Ela levou uma jaqueta jeans, mas a noite estava quente, então nem usou. E Carmem estava com uma calça estilo mom jeans, uma camisetinha branca com um nó feito na barriga para que ficasse mais curta, uma jaqueta de couro cor de rosa e coturnos militares. Seus cabelos estavam bem mais cacheados e volumosos do que ela costumava usar, causando uma impressão meio garota da casa ao lado que não lhe era comum. A maquiagem era leve, sem muitas cores, apenas com um batom rosinha bem discreto. Ela e Mônica tinham acabado trocando de estilo de fato e a loira mal podia esperar para ver o que seria dito nos programas de fofoca.

O camarote era patrocinado pela revista Caras, então todos tinham botons da mesma nas roupas, garçons circulavam servindo drinks e havia outras personalidades da música, modelos e estrelas de TV por ali. Ainda assim era um evento bem exclusivo e os fotógrafos aproveitavam o máximo para registrar as pessoas, ainda que sem dúvida o maior foco fosse a amizade improvável entre a ex estrela decadente e a atual estrela em ascenção. 

O local do show ficava na Praia dos Cajueiros, nomeada assim porque o caminho que levava até ela (e que só podia ser feito a pé, carros só eram permitidos em casos excepcionais) era todo cercado de belos cajueiros que ficavam carregados naquela época do ano. O palco era grande e havia uma pista montada sobre um tablado, além de um espaço para os que queriam pisar na areia. O mar estava cercado por fitas de proteção e muitos seguranças, mas dava o ar perfeito para o fim da tarde. A multidão estava ansiosa e entrou em frenesi quando as luzes começaram a piscar, anunciando o início do show.

Muitas bandas tentavam se alavancar naquela época e a TMJ facilmente poderia ter sido uma das que caíram rapidamente no esquecimento. Quando assinaram com a Som Livre, a gravadora estava apostando em muitos grupos jovens e crus, tentando moldá-los ao estilo do que o mercado queria. A maioria foi esquecido tão logo as tendências dos anos 80 foram se tornando demodê, mas foi bem nesse momento que a Tramóias Jurídicas voou feito um foguete. O primeiro disco da banda realmente foi tudo o que a gravadora pediu: rapazes bonitos cantando sobre amor e rebeldia, com instrumentais de rock característicos da época. Fizeram um certo sucesso, mas se o segundo disco não fosse inovador como a década que começava, de nada adiantaria, então eles fizeram o que até hoje faziam de melhor e pensaram em conjunto. Jogaram fora quase todas as composições sugeridas pela gravadora, refizeram demos sem autorização e mostraram para os produtores dizendo que ou era aquilo ou nada, mesmo sabendo que agir assim era ousadia demais para um grupo de iniciantes. Numa reunião em que chefões da empresa foram convocados para lidar com a ousadia daqueles pirralhos, chegaram até a decidir desfazer o contrato, o que trouxe pânico aos olhos de quatro deles e um brilho malicioso ao olhar de um. Do contra, como sempre com um de seus cigarros nos lábios, soprou a fumaça, suspirou como se estivesse entediado e disse — Lança o disco do nosso jeito, bota a gente em tour pelo país todo e se não vender pelo menos o dobro do primeiro e lotar metade dos shows eu corto minhas bolas fora. — Todo mundo na mesa olhou horrorizado — Tô falando sério, faço um contrato dizendo que minhas bolas são propriedade da Som Livre. A gente chama um advogado e eu assino agora. — continuou, como se fosse uma proposta que fizesse total sentido. Num momento de esperteza Jeremias o olhou com as sobrancelhas arqueadas e quando pensaram que ele dispersaria a fala do outro, o guitarrista continuou com — Que isso DC, isso aqui é a Som Livre! Tá achando que essa reunião é piada? — repreendeu — Eu peço desculpas pela ousadia do meu amigo, ele às vezes fala umas besteiras. Mas como eu sei o valor do nosso trabalho e da gravadora, proponho que a gente continue o acordo, mas nós cinco mandamos as bolas pra vocês. — falou com uma seriedade bizarra. Titi, vendo que o estrago já estava feio, enxergou a oportunidade, debruçando-se sobre a mesa de reuniões enquanto mastigava o palito de um pirulito já terminado. — Vamos falar como homens aqui, e como artistas, claro. Vocês sabem a importância da virilidade para cada um de nós. Artistas prometem mundos e fundos, mas esses caras aqui não, eles tem certeza do potencial deles que sabem que conseguem deixar uma platéia de milhares de pessoas com cara de tacho igual vocês estão agora. Me diz uma banda que tenha entrado nessa sala e surpreendido vocês nesse nível, porque é isso que eles vão fazer com o público. — deu de ombros — Mas beleza, se quiserem brincar de colecionar bolas, coloco as minhas no contrato também. — disse, demonstrando a mesma naturalidade. Só então Cebola, Cascão e Xaveco se recuperaram do choque, concordando com as cabeças mesmo que não estivessem entendendo nada. — Vocês podem tacar a gente pra fora daqui a fazer nossa caveira pra todo mundo que é importante no meio… Ou podem ganhar dinheiro à beça.

Se você está aqui hoje descobrindo essa história, já sabe qual foi a opção escolhida. A forma com que isso aconteceu é literalmente prosa para capítulos futuros, o que importa no momento é que a grande carta na manga desses meninos sempre foi a ousadia e foi naquela primeira tour nacional, depois do lançamento do infame segundo disco, que eles aprenderam a usar isso no palco. Hoje, mais maduros e muito mais versados musicalmente, os shows estavam ainda melhores, porém muitos fãs nostálgicos se agarravam àquela tour antiga e a proclamavam como os melhores shows de suas vidas.

Carmem não sabia de nada disso, porém ainda assim se surpreendeu quando Cebola entrou no palco aos saltos, entoando gritos animados que arrancaram uma reação incrível da plateia. A modelo nunca tinha os visto ao vivo, mas as outras já sabiam que as próximas duas horas seriam uma grande jornada. Era difícil desgrudar os olhos deles e um arrepio correu todo o corpo da jovem quando os instrumentos entraram. Mesmo não sendo o sucesso mais recente, eles sempre abriam o show com "Sem Sol", o primeiro grande sucesso da banda lá no finalzinho da década passada, que se iniciava com guitarras aceleradas e uma linha de baixo intensa, acompanhada da bateria que fez o chão do camarote tremer. Já nos primeiros 30 segundos Carminha entendeu porque suas amigas eram tão obcecadas com o quinteto, já que no palco eles pareciam muito mais interessantes, rebeldes e até mais bonitos. A canção em si não era a melhor de todas, mas era acelerada e energética o suficiente para colocar o público numa espécie de transe. Era como se a banda fosse feita para aquele cenário de fim de tarde, o sol quase começando a deixar o céu enquanto a multidão cantava alucinada e convidados de honra gritavam na mesma sintonia. A modelo ficou tão distraída assistindo-os que nem notou a entrada de mais dois homens no camarote, nem mesmo quando eles se acomodaram bem ao seu lado. Enquanto eles cumprimentavam as outras meninas, ela buscou o baterista lá no palco, já que nunca tinha lhe dado muita atenção antes. DC tocava um kit verde-bandeira que contrastava com sua camisa de botões cinza com as mangas arrancadas. Os cabelos estavam espetados e só quando ele parou de tocar entre a primeira e a segunda músicas é que a loira pôde ver o sorriso quase presunçoso em seu rosto. Ele era um homem bem mais bonito do que ela tinha previsto. Claro que imaginava que não era feio, afinal, se todo o Brasil parecia virar a cabeça para onde os meninos da TMJ estavam, algum charme os cinco deveriam ter. Mas bandas tem dessas, às vezes individualmente são todos esquisitos, mas quando em grupo e envoltos pela atmosfera encantadora da alcunha de rockstars parecem incríveis. Ela era cética (Denise preferia chamar de preconceituosa) com músicos, achava a maioria arrogantes demais para seu gosto pessoal, assim como modelos e atores. Preferia se envolver com homens anônimos, mas estes às vezes tiravam proveito da fama dela, o que era um problema. Daquela vez tinha que dar o braço à torcer, cada um dos rapazes era bonito à sua maneira, mas seu alvo tinha um quê especial que provavelmente morava nos olhos que praticamente se fechavam quando ele riu da piada contada pelo guitarrista antes de começarem a tocar de novo.

— Não acredito que nesse tempo todo você nunca viu eles da plateia. — o rapaz ao seu lado exclamou e Carmem o olhou com as sobrancelhas arqueadas, achando que era para ela.

— É meu trabalho ficar no backstage… — o outro respondeu e a loira o reconheceu como o infame agente da banda, famoso no meio por ser galinha e convencido. 

— Ver a reação do público também é. Quer dizer, você tem que entender o que as pessoas sentem quando assistem eles pra saber se estão indo na direção certa. — o que estava ao seu lado argumentou. Carmem não o conhecia de lugar nenhum, mas reparou que ele tinha olhos puxados como os de DC e que apesar de ser alto era vários centímetros mais baixo que Titi (ela não fazia ideia de qual era seu nome, mas não conseguia confiar em alguém com mais de doze anos que saía por aí se apresentando como Titi). — Não concorda comigo? — o rapaz de olhos puxados jogou a conversa para ela e a loira arregalou os olhos um pouquinho, pega de surpresa. 

— Entendo a preocupação dele de querer estar ao alcance caso algo dê errado, mas também acho que ver o efeito da banda na plateia é importante. — deu de ombros — Quem é você mesmo? Desculpe, mas não estou reconhecendo. — perguntou. Se estava no camarote VIP devia ser alguém importante e devido à semelhança física ela presumiu que estivesse ligado ao baterista.

— Mauro, mas pode me chamar de Nimbus. — ele abriu um sorriso amistoso que imediatamente garantiu a simpatia da loira — Sou irmão daquele meliante ali. — explicou, apontando a bateria.

Ao olhar para o rapaz a atenção dela ficou presa a ele, e ao show em geral por alguns segundos. Quando acordou do transe e olhou em volta percebeu que as meninas cantavam animadamente e que a maioria dos convidados também o fazia, ou pelo menos dançava com seus conhecidos. — Eles são bem hipnóticos. — comentou, sem saber se Nimbus ainda prestava atenção, mas ele voltou o olhar para ela imediatamente, indicando que sim. — Nunca tinha assistido ao vivo e estou impressionada.

— O show fica melhor ainda lá pela metade, baby! — Denise praticamente gritou pendurando-se em seu ombro — Eles ficam mais loucos no palco e até tiram as camisas! — riu — Só espero que tenha Irene na setlist, é minha música favorita.

A conversinha fiada durou por alguns minutos, porém era sempre interrompida pelas músicas, já que a atenção de quem falava sempre era roubada pelo palco. Era muito difícil não se contagiar pela energia. Eles ainda carregavam um pouco do hard rock dos anos 80, porém se divertiam com músicas mais curtas e simples, características do ressurgimento do movimento punk e do grunge que tomava conta das rádios de rock. Misturaram canções de todos os álbuns e justo na metade do show pararam para um cover especial. Isso também já era costume e os fãs adoravam especular quais seriam as canções homenageadas da vez. 

— Aí galera! — Cascão começou, com a camisa já perdida em algum lugar do palco há muito tempo e o suor demonstrando o quanto de esforço que já tinha feito em mais de quarenta minutos de show. Ainda assim, ele parecia pronto para continuar ali por horas. — Nosso primeiro cover da noite é um sucesso da nossa querida banda RPM. — anunciou, dando uma risadinha.

— Essa a gente dedica a todas as mulheres do nosso Brasil. — Jeremias emendou, olhando para trás e parecendo compartilhar uma piada interna com DC, que riu junto com ele. 

O coração de Carmem acelerou com a simples menção da RPM, afinal era sua favorita de todos os tempos, e ela soltou gritos enlouquecidos quando as guitarras soaram junto ao sintetizador do começo de Olhar 43. Queria ver se a TMJ conseguiria segurar a barra. A versão deles acabou sendo mais acelerada e pesada, como era característico da banda, mas boa parte do público sabia cantar e o camarote estava em festa. A loira gritava todas as palavras, dançando e jogando os cabelos, não se importando nem um pouco se estava no ritmo correto. Só lá pelo meio que ela parou, ofegante, e riu sozinha enquanto se perguntava se o rapaz misterioso da festa veria aquilo. Cebola de fato fazia sua impressão sexy no palco, com uma bandana vermelha amarrada na bermuda preta a lá Eddie Vedder, a camisa de manga curta com todos os botões abertos e um par de coturnos. Ele fazia dancinhas, apontava para as meninas na plateia que iam ao delírio e pulava de um lado pro outro. Era um cara bonito, a loira tinha que admitir, mas com muita pose de metidinho, não fazia seu tipo. Seus olhos se grudaram nele apenas porque queria provar sua teoria de que ele bancava o amante profissional no palco, simplesmente porque pensar nisso a fazia lembrar do homem que não saía de sua mente. Ah se descobrisse quem ele era… Em sua imaginação ele estava ali em algum lugar, lembrando-se dela durante daquela música. Quando acabou eles deram uma pequena pausa e Xaveco tomou conta do microfone. — Curtiram essa, Praia dos Cajueiros? — disse, recebendo gritos animados em resposta — Muitos já conhecem a gente, mas é sempre bom relembrar! Nos vocais temos este que é o terror da mulherada, Cebola Menezes! — o rapaz fez uma reverência — Nas guitarras a dupla dinâmica Cascão Araújo e Jerê Nascimento! — os dois começaram a melodia da próxima música nas guitarras enquanto ele falava, numa espécie de intro prolongada — Na bateria o japa mais gostoso desse Brasil, DC Hiromashi! — continuou, tirando o microfone do pedal para subir no tablado da bateria e dar um beijo desajeitado na cabeça do outro, que lhe empurrou aos risos e tomou o microfone.

— E no baixo, senhoras e senhores, o galego mais chavequeiro que vocês já conheceram: Xavier Ximenes! — Do Contra falou, enquanto o baixista fazia uma fazia uma reverência, pegava o microfone e saía correndo de volta para sua posição. A nova música começou, mas Carmem ficou hipnotizada por alguns instantes, sem entender por que razão a voz do baterista lhe deu um arrepio quando soou nas caixas de som. Mas não importava, ela precisava começar a agir logo.

Sem pensar duas vezes ela puxou a camiseta de Titi, que tomou um susto e quase derrubou sua cerveja na modelo com quem conversava. — Titi, não é? Vocês já tem algum plano pra depois daqui? — perguntou, com seu melhor sorriso de convencimento e olhar encantado, virando a cabeça um pouquinho em direção ao palco. — É que gostei muito do show e queria conhecer os meninos… Tenho um chalé super discreto aqui no Limoeiro. — à essa altura ela já enrolava os cachos loiros com o dedo e a atenção do agente era toda sua. — Adoraria uma festinha com vocês. Aposto que vocês vão adorar também. — piscou — E posso chamar umas amigas, claro!

— Isso… Carminha, não é? — ele começou, lhe jogando charme — Não temos planos, a menos não que eu saiba.

— Agora tem então, gato! — ela riu, pegando um guardanapo de um dos garçons que passava e uma caneta no bolso da camisa de Timóteo. Usou uma das mesinhas usadas para apoiar os copos para escrever o endereço, dobrou o papel cuidadosamente e o enfiou no bolso de trás da calça do rapaz. — Só se certifiquem de não ser seguidos por paparazzi e quando chegarem a segurança vai ligar pra mim. Não me deixe esperando, hein? — sorriu alegremente, colocando a caneta em seu lugar no bolso da camisa alheia e voltando a curtir o show como se nada tivesse acontecido.

A TMJ tocou algumas músicas originais, agitou a galera e perto das oito da noite, com o céu já escuro anunciaram o segundo cover da noite e também penúltima canção. Escolheram Meninos e Meninas da Legião Urbana, que quase todos no camarote sabiam cantar. Era uma surpresa para Nimbus e Titi passou o braço sobre seus ombros, sacudindo-o enquanto cantavam "Acho que eu gosto de São Paulo, gosto de São João, gosto de São Francisco e São Sebastião e eu gosto de meninos e meninas" com uma ênfase pessoal e carinhosa. Nimbus sentiu vontade de chorar, mas não de tristeza. Sabia muito bem o que era aquilo: um recado para seus pais. A apresentação seria televisionada na MTV, comentada em vários programas de TV, nos jornais e revistas. Para o Brasil todo era uma homenagem a uma grande banda do país, para os Hiromashi era um grande foda-se para o pensamento conservador da família. 

Ainda cantaram mais uma música, o último single, que era trilha sonora da novela das oito, saíram, deixando uma sensação de vazio. Depois de gritos e pedidos voltaram para um encore e cantaram mais duas canções curtas com o mesmo entusiasmo do show inteiro.

E aí deixaram o palco definitivamente. As pessoas começaram a se dispersar e na confusão Titi colocou a mão no ombro de Carminha. — Temos algumas burocracias pós show, mas chegamos na sua casa lá pelas dez, pode ser?

— Claro! — ela deu um pulinho, como se fosse uma fã excitada com a notícia. — Obrigada por aceitar o convite! — continuou, virando-se para Nimbus, que observava a cena. — Você tá convidado também, ok? Convidado de honra. — piscou. — Agora tenho que ir, se não perco o carro que vai nos levar até meu motorista. — suspirou, já acenando animadamente.

Quando virou de costas ela voltou às feições normais, deixando a falsa tiete de lado. Precisava admitir que a banda era bem melhor do que ela imaginava, mas aquele convite tinha o objetivo único de colocar o plano em ação. Tinha muito o que fazer, como avisar as meninas, dar um jeito na casa, encontrar Toni para que ele buscasse bebidas, arranjar mais convidados e, lógico, se arrumar, porque não receberia ninguém com a mesma roupa com que ficou suando por duas horas. 



Notas Finais


Olá meus amores! Voltando do hiato com um capítulo basiquinho, mas que amei de escrever. Passou a energia caótica da banda (mais pra frente teremos momentos falando mais sobre as músicas deles em si, digamos que vocês vão conhecer a TMJ junto com a Carmem!) Eu estou bem melhor de saúde, mas precisei fazer uma cirurgia (nada de recuperação demorada, amém), então tô escrevendo e postando pelo celular, coisa que não estou acostumada. Então me perdoem se esse capítulo tiver mais errinhos que o normal!!

Agora vamos falar um pouco das nossas queridas referências?

Primeiramente toda a questão dos paparazzi seguindo a Carmem e a Mônica... Naquela época isso era bem mais abusivo do que hoje, já que por conta de casos como o da Britney Spears e de outras celebridades hoje existem legislações sobre isso, então mesmo que os fotógrafos estejam lá é um pouquinho menos invasivo. Porém antigamente tínhamos as colunas de fofoca nas revistas que eram basicamente Instagrams de fofoca impressos. Hahahaha a MTV Brasil tinha uma SUPER programação de verão com programas especiais, shows exclusivos... Tomei um pouco a liberdade aqui nesse sentido, mas o canal ainda vai aparecer bastante, porque em 96 estar na MTV era a coisa mais descolada (ainda se usa essa palavra?) do mundo. Em terceiro temos o Programa Livre, que era exibido de segunda a sexta, das 15:30 às 16:30 e apresentado pelo Serginho Groisman. Hoje Serginho apresenta o Altas Horas na Globo, nas noites de sábado, e os dois programas tem uma pegada bem parecida. São programas de auditório, com vários convidados entrevistados, plateia composta por jovens estudantes, atração musical e vários quadros. E Brasileirinhas é a maior produtora de filmes pornôs brasileira, que foi inaugurada em 1996, então no tempo da fic tava nascendo ainda. Nessa época com a internet engatinhando eles vendiam os filmes por VHS.

E um detalhe: na reunião da banda, imaginem que TODO MUNDO estava fumando dentro da sala, porque era sempre assim. Gente, o mundo antes das leis antifumo era um pesadelo pra quem não fumava, falei, tô leve hahahaha

ACHO que repassei tudo de hoje. Muito obrigada por continuarem aqui comigo, cada favorito e comentário me enche de alegria e me dá ainda mais vontade de continuar! Já estou ansiosa para essa festinha no chalé dos Frufru, pro encontro de milhões do nosso casal e para as interações dos demais personagens. A questão de como o Brasil tratava sexualidade, racismo, misoginia entre outras coisas vai aparecer recorrentemente como plano de fundo da história porque não acho justo esconder o que conheci do país nos anos 2000 (e o que me contam sobre os 90, já que só peguei o finalzinho). A gente precisa lembrar dessas coisas pra não retroceder.

Um grande beijo, que te deixem ver como viver é bom! ❤️
Mia Lehoi


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