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História A Memory Of His Life - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Capítulo IV


... A culpa é minha, entende? Ela não escolheu o coração à toa, atirou ali porque eu já tinha quebrado ele antes e por isso ela me abandonou...
No fundo, eu sabia. Eu sabia que aquilo era errado, que não podia ser certo, não fazendo mal como fazia, mas... Eu não podia deixar ela fazer aquilo sozinha... Eu não queria-! Fazia eu me sentir horrível, mas não podia deixá-la fazer aquilo sozinha! E... ela morreu. Tirou a própria vida! Ela-, ela morreu!...
 
Eu-, eu saí correndo dali. Sem nada além das roupas do corpo e aquela... maldita imagem, gravada à ferro em mim! Eu só saí correndo!... Não tinha pra onde ir, eu sabia que não tinha, mas não podia-, simplesmente não podia ficar lá!...
... Nem mesmo sei o que foi do corpo dela. Se o enterraram e, se sim, onde. Eu nunca consegui pedir perdão a ela! Mesmo naquela noite, mesmo chorando entre seus braços e chamando por ela, eu não disse. Ela nunca, nunca soube como eu sinto por tudo. Nunca.
E é horrível Di, não ter nem onde chorar e pedir perdão! Ela morreu como viveu, como uma indigente, com o coração transpassado, sem ser ninguém para todo o mundo.
Ela não merecia isso... Deus, ela não merecia...
 
... Acho que já deu pra entender não é mesmo...? Que essa é a história que nunca foi dita. Que era isso que você sempre quis de mim e que eu nunca quis dar. 
Entende agora Di? Porque?... Compreende que a dor que causa, reviver isso tudo, nunca valeria à pena?

Isso não é um mural de lamentações...

Ou pelo menos não era para ser, mas pelo que deu pra ver, nem de longe eu tenho a sua classe pra contar sobre a minha vida, meu loiro. Você não tem medo de nada Di, eu que tenho por você, não é mesmo?
Eu temo a dor...
 
... Preciso contar o meio termo? O que houve antes de te encontrar, perambulando perdido, faminto, parecendo um anjo caído, com esses seus olhos de tempestade e aquela expressão infeliz que eu conhecia mais do que eu queria? Porque não sei o que posso contar sobre isso. Não porque, sei lá, exista algum grande segredo por trás dessa omissão, mas porque... Não tenho o que contar.
Você sabe como as ruas são. A sujeira, o frio, a fome e o perigo...
Sabe aquela parte que você fala que viu assaltos e apanhou por nada? E que ‘sempre queria chorar’, mas que ‘não era sensato’ se dar esse direito?... É isso.

Cheguei a tentar ir a albergues, mas eu simplesmente tinha tanto medo de qualquer alma que fosse, que nunca ficava. Detestava qualquer lugar onde eu ficasse exposto, qualquer tipo de contato humano que não fosse o mais superficial possível, mesmo que eu não tivesse como sobreviver sozinho.
 
Qualquer olhadela mais detida me assombrava.

Devo ter circulado por meia cidade nessa época, sem rumo, sem teto e sem nada. Comecei a roubar antes mesmo de voltar a me vender Di, consegue imaginar? Pois você sabe como eu sempre odiei fazer isso também, mas eu tinha tanta vergonha, tanto nojo daquilo ainda, porque pra mim, sexo era só algo repulsivo, humilhante e baixo e não queria ter que despertar para aquilo, me sujeitar àquilo novamente, mesmo que eu soubesse tão bem quando alguém olhava pra mim daquele jeito, com aquele brilho predador nos olhos.
E era tão fácil encontrar algum possível interessado, que me dava medo.

Vivi uns tempos numa praça mal frequentada. Um ponto de drogas, aliás, onde não conseguia dormir em paz, aterrorizado com aqueles homens que me encaravam com os olhos arregalados, xingando e ameaçando toda vez que achavam que estava me intrometendo nos ‘negócios’ deles... Mas não durou muito. A polícia foi acionada em menos de 3 meses e tive que dar no pé, antes que eles me pegassem como pegaram aqueles caras. Como pegaram o mendigo cego que dormia por lá também, mesmo que ele nem tivesse nada com o assunto.
Depois disso penei pra encontrar lugar. Tentei em todos eles. Dormi em frente a estabelecimentos comerciais e fui expulso à vassouradas bem mais de uma vez. Procurava lugar na sarjeta, à mercê das intempéries, do asco das ‘pessoas normais’ e até mesmo, por vezes, das demonstrações gratuitas de violência de que elas são capazes. E eu via, mesmo amedrontado, que essas pessoas, as que não fingiam não me ver, que elas pareciam ter medo de mim. Ou talvez ódio, não sei. E sempre achei isso meio engraçado, porque eu via as crianças brincando na rua, acompanhando seus pais ou parentes, responsáveis e amigos e elas não pareciam ter mais braços ou pernas, mais olhos, nariz e bocas do que eu e por nunca ver nada mais diferente do que talvez a sujeira na minha pele, não conseguia entender porque eles mereciam rir e eu não. Porque elas mereciam ser amadas enquanto eu... Ah, que seja.
Só... Foi um inferno, essa época. Não tinha pra onde ir e sabe como é quando se para num lugar marcado, né? 

No fim, acabei parando atrás de um posto policial então, mas daí, isso já é relevante de algum jeito. Foi o gancho de retorno pra minha ‘velha vida’.

Tinha um tira meio esquisito que ficava me encarando toda vez que eu passava roto e sujo por lá. No começo eu achei que ele tivesse de olho em mim, achando que eu era o tal trombadinha que andava atacando a região e que eles andavam perseguindo, mas num dia que eu finalmente tinha conseguido um banho e umas roupas menos sujas e esfarrapadas, ele me abordou com toda aquela pinta de guarda mesmo, sabe?
Mas não precisei de ‘revista’ pra sacar qual era a dele. Eu conhecia o significado daquele brilho pervertido no fundo dos olhos. E quando ele ameaçou me prender, eu entendi onde ele queria chegar, engoli tudo que eu pudesse vir a sentir a respeito daquilo e me ofereci descaradamente mesmo.
Acho que tava com uns 8 anos naquela época, talvez um pouco mais e, sabe? Foi naquele dia que eu entendi o que significava de verdade, fazer aquilo em troca de benefícios.
De repente não pareceu só nojento e assustador mais. Tornou-se útil também, apesar de tudo, e me finalmente garantiu um lugar pra dormir, mesmo que aquela dor estivesse de volta pra me lembrar de como era se sentir sujo por dentro também. Mas eu já me sentia normalmente. No fim nem foi uma grande mudança.
Não foi difícil como eu achava que seria.
Como eu queria que fosse.
 
Ele tentou me passar pra trás, claro. Queria me levar pra algum lugar e me apresentar seus ‘amigos’, mas eu já sabia o que sairia daquilo. Não cairia mais na mão de ninguém e por isso fugi de lá também.
Acho que cresci mais nessa época do que fiz em todo o resto da minha vida. Tive de aprender a me defender, aprender a correr não importava pra onde ou quanto, e a ser discreto pra não levantar rebuliço quando levava alguma coisa embora com os dedos leves. Tive que aprender a dissimular e a manipular também, senão qualquer cliente que aparecesse me levaria embora debaixo do braço. Talvez eu até mesmo fosse melhor nisso naquela época do que sou hoje em dia, aliás. O que você acha?
 
Engraçado, essa parte sai fácil. Não dói. Não me importa. O que eu tinha de importante já tinha sido quebrado de qualquer forma, talvez por isso mesmo quando te conheci, te arrastei pra isso com tanta naturalidade.
Logo já estava num ponto fixo. Nossa garagem, lembra? Fui mais rápido tomando o lugar antes que qualquer outro o fizesse e mais esperto pra manter também, porque marcado ou não, sempre existem aqueles folgados que tentam lhe arrancar o que conseguiu. Mas eu já tinha clientela fixa e é pateticamente fácil conseguir proteção quando você joga uns contra os outros.
Acho que alguns daqueles doentes realmente achavam que me amavam, Di, e não consigo nem sentir pena. Porque eles iam buscar favores sexuais com uma criança como se aquilo fosse natural e quase me fizeram acreditar que era.
Eu odiava todos eles. Sempre odiei. E odiava o que faziam comigo, mesmo quando eu sorria aquele sorriso vazio e cretino e chamava eles daquele jeito vulgar que fazíamos pra atrair cliente. Odiava e não conseguia me importar mais com isso.
 
Eu acreditava que todo mundo era assim. Que o mundo era sujo assim, imoral e sem princípios. Que tudo estava errado e tudo era a perfeita síntese do que minha mãe sempre me ensinou a não fazer. Não ser. Por isso mesmo que nunca aceitei esmolas. Se tudo tem um preço, não queria pagar pra ver o que essa aparente bondade poderia vir a me custar também.
 E no fim, tudo o que fizeram de mim, eu fiz com você.
Tudo o que me quebrou, que destruiu aquele menino doce e inocente que eu tinha sido e que ainda insistia em querer viver dentro do moleque sem-teto e vadio que eu era, tudo... Eu fiz exatamente igual com você.
Será que já pensou nisso, meu loiro? 
Que fui eu que te arrastou praquele lixo? Que o coloquei nas mãos daquele viado filho da puta daquele empresário, direta ou indiretamente?  Você me retratou tão bonito na tua história Di... E às vezes não consigo deixar de pensar como pode ver tudo assim, mesmo com tudo que acabei te fazendo. Todo esse apoio mútuo que descreveu, e a força que tirou de mim, como eu tirei de você. Tudo... 
E no fim acho mesmo que não mereço que me ame nem que acredite no tanto que eu te amo cara, não mesmo. Então por quê?...
Por que você insiste em me fazer a sua luz como você é a minha?...
 
Naquele dia... Quando te vi ali, tremendo de frio, tão pequenininho e bonitinho, senti algo esquentar dentro do meu peito sabe? Sei que achou que tive dó e, ok, eu tive também... Mas não foi só isso. Tinha alguma coisa em você. Alguma coisa doce, mesmo no seu rosto sofrido. Uma coisa sincera e de uma candura que eu não conseguia acreditar que existia, sabe?
Não te chamei só porque percebi que tinha fome e porque eu tava com um pãozão bem ali na tua cara, isso já tinha acontecido antes com outros vagabundos por aí e se tinha uma coisa que eu tinha aprendido na rua, é que quando se dá a mão, se perde o braço.
Chamei-o, porque senti que precisava de você.

(TBC)



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