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História A mentira perfeita - Capítulo 5


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Notas do Autor


Boa leitura e comentem <3

Capítulo 5 - Júlia


Já passava das nove quando entrei no sobradinho verde onde cresci. A pequena sala estava arrumada como eu a deixara pela manhã, e o cheiro de comida no ar fez meu estômago roncar. Nossa casa era simples, mas aconchegante.

— Júlia? — chamou tia Berê, da cozinha.

— Sou eu, tia.

Eu a encontrei tirando um assado do forno. Corri para pegar a travessa.

— A senhora não devia estar descansando?

— Vou descansar bastante quando eu morrer. Fiz seu prato preferido. Bisteca de porco na cerveja com batatas coradas. Na verdade, foi a Magda que fez.

Aquele não era o meu prato preferido, e nós duas sabíamos. Às vezes tia Berenice se comportava como se tivesse três anos.

— Eu acho que estou mais a fim de uma salada. Quer também? — sugeri.

— Você não vai me deixar comer um pedacinho, Juju? — Sua voz era de partir o coração.

Droga!

Peguei um prato, separei uma lasca um pouco menor que meu dedo mindinho e entreguei a ela. Depois despejei a comida em um pote de plástico e, na pressa, deixei cair um pouco de caldo e duas batatas sobre a pia. Enfiei o pote no freezer, grudando as costas na porta.

A tia Berenice riu.

— Você parece um soldado que acabou de jogar uma granada.

Bem, e não era quase isso? Ao menos para aquele coração doente?

Ela se esticou, puxou para perto o prato com a lasca de bisteca e o aproximou do nariz, inalando profundamente.

— Bem, agora só preciso comer esse fiapo bem devagar e fazê-lo durar para sempre.

Acabei rindo enquanto abria a geladeira, em busca de folhas e legumes para preparar uma salada.

— Como foi o seu dia? — ela perguntou quando coloquei os ingredientes sobre a pia. Abri a torneira e comecei a lavá-los.

— Bem. Tive que ir até a fundação levar uns papéis para a Alicia. Depois voltei e consegui colocar mais uma parte do site no ar. E a senhora, o que fez?

Ela balançou a cabeça e sorriu.

— Depois eu conto. Você foi de ônibus?

— De táxi. A empresa que pagou.

— Tem certeza que não quer ir para a autoescola, meu amor? Facilitaria muito pra você se soubesse dirigir. Além de não chegar sempre tão tarde em casa.

O que ela não entendia era que de nada adiantaria ter carteira de motorista se eu não tivesse um carro. Meu salário era ótimo, mas minhas despesas eram altas. A tia Berenice tinha uma pequena poupança, e eu não pretendia mexer nela. Eram os sacrifícios de uma vida inteira, seu pezinho de meia. Ela ainda não tinha conseguido se aposentar legalmente, então eu ajudava nas contas da casa. Entre isso, seus remédios e o plano de saúde, acabava não me sobrando muito. E eu estava guardando uma grana para o transplante. Não sabia que tipo de despesa teria quando ele acontecesse. Era melhor estar prevenida.

— Vou pensar no assunto, tia. Cadê a Magda? — Terminei com as folhas, coloquei-as em um escorredor e parti para os tomates.

— Foi pra casa. Ela estava meio desanimada porque o Dênis não reparou que ela pintou o cabelo. Tem que ser muito desatento para não perceber a mudança de castanho-amêndoa para castanho-avelã.

— A Magda mudou a cor do cabelo? — Tá, eu não era uma observadora muito boa.

— Faz quase um mês, Juju! — Ela jogou o guardanapo em mim, mas errou o alvo e ele caiu caprichosamente sobre o vasinho com a begônia no peitoril da janela. Amaya e o namorado,

Paulo, haviam levado a flor para ela no hospital.

— A Magda me disse que você queria fazer uma coisa hoje. — Olhei fixamente para o tomate sob o jato de água.

Silêncio. Algo realmente peculiar quando tia Berenice estava presente.

— Fiquei tentando adivinhar o que poderia ser... — Coloquei o tomate no escorredor também. Peguei o aipo e encarei a mulher do outro lado da cozinha.

Ela mantinha a boca pressionada em uma linha apertada, o rosto adquirindo cor, o fiapo de carne esquecido no prato.

— Ah, que se dane! Não aguento esperar! — Ela se esticou para pegar a bolsa que havia deixado sobre a mesa e de lá retirou uma pasta marfim perolada. — Vai, abre! — Deslizou-a sobre o tampo branco da mesa.

Senti um arrepio percorrer minha coluna enquanto secava as mãos para pegar a pasta. “Allure Eventos” estava impresso em alto-relevo na capa.

Desconfiada, abri-a e encontrei um contrato. As palavras “bufê”, “quarteto de cordas”, “flores” e “bolo personalizado” saltavam das páginas. Endireitei os óculos para ter certeza de que não estava lendo errado.

Não, eu não estava.

— O que é isso?

— Ora, é o seu casamento!

— O quê?!

— Arrisco dizer que vai ser o casamento mais lindo de todos os tempos! — Ela bateu palmas como uma menininha, o rosto corado como eu não via fazia muito tempo. — Eu sei que devia esperar o pedido ser oficializado, mas você disse que o seu namorado pretendia te pedir em casamento quando eu melhorasse. Aí, eu fiquei pensando... Pra que esperar? Ah, Júlia, os pajens de aluguel são umas fofurinhas. Sabia que isso existe?

Esfreguei a testa.

Eu falava inglês, alemão, mandarim e me virava no espanhol. Mas, naquele instante, não entendi uma palavra do que ela disse. Nenhuma!

— Isso me preocupava muito, sabe? — ela prosseguiu. — Porque nós não temos crianças na família. Todas já cresceram. Um casamento que se preze tem pelo menos três pajens, todo mundo sabe disso. Duas meninas e um principezinho para carregar as alianças. Barato não saiu.

Tive que gastar todas as minhas economias, mas, ah, vai valer a pena. Contratei o casamento mais perfeito do mundo pra você!

— A senhora fez o quê? — Eu me segurei no encosto da cadeira para não cair. A pasta perolada não teve tanta sorte. — A senhora gastou as suas economias nesse contrato? — Por favor, diz que não! Por favor, por favor, por favor!

— Cada centavo. Você vai ficar encantada com tudo o que eu escolhi. — Ela levou a lasca de carne à boca e a chupou. — O aluguel de uma carruagem de verdade não é nada barato. Já falei isso? Você vai chegar na igreja em uma carruagem, igualzinho à lady Kate Middleton! Dá pra acreditar? Só falta avisar a data para a agência. O ideal seria que ele te pedisse em casamento nas próximas semanas...

Era oficial. Tia Berê havia perdido o juízo de vez.

Não, uma vozinha em minha cabeça gritou. Ela não ficou louca. Só acreditou no que você disse.

— A senhora não podia ter feito isso — consegui dizer. — Suas economias...

— São minhas e eu gasto como bem entender. Nem adianta fazer essa cara de quem comeu e não gostou. Vocês, jovens, acham que têm todo o tempo do mundo. — Ela ficou de pé, chegou mais perto e passou os braços por minha cintura. — Mas eu não tenho. Além disso, se eu deixasse tudo por sua conta, sua festa de casamento acabaria sendo só um almoço sem graça em um restaurante qualquer.

Eu me inclinei e peguei a pasta do chão. Tudo bem, não havia motivo para pânico só porque ela tinha ficado louca e contratado... relanceei as páginas... uma dúzia de pombas? Leques personalizados para as convidadas? Um...

— Cupido de dois metros de altura esculpido em gelo? — Meus olhos se arregalaram.

Tá bem. Sem pânico.

Contratos são cancelados todos os dias. Milhares deles. Tudo o que eu tinha que fazer era ir até a agência, pedir o cancelamento e pegar de volta o dinheiro de tia Berê.

E depois contratar uma babá para ficar com ela enquanto eu ia para o trabalho. Porque, obviamente, Magda era sua comparsa naquela loucura toda.

— Eu sei! Nem sabia que dava para fazer isso no Brasil, mas a Melissa me garantiu que consegue. Ah, Jujuba, vai ser inesquecível! Estou guardando dinheiro para isso faz anos! E agora finalmente vou ver você entrando na igreja, com um vestido feito por mim, ao som de Vivaldi. Quer conhecer a capela que eu escolhi? Você poderia fazer umas fotos e enviar para o seu futuro noivo. Vamos ver se ele gosta. Aliás, você ainda não disse o nome do meu futuro sobrinho-genro.

E com isso tia Berê fez o problema daquele contrato se tornar insignificante.


Notas Finais


comentários??


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