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História A mentira perfeita - Capítulo 29


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Notas do Autor


Boa leitura e comentem <3

Capítulo 29 - Júlia


Notei algumas mudanças no apartamento de Justin logo de cara. Ele havia instalado uma espécie de puxador no lado oposto à fechadura da porta, e eu me perguntei a razão daquilo. A bagunça de caixas havia desaparecido.

— Quer comer alguma coisa? — ofereceu assim que passou a chave na porta.

— Não, mas adoraria tomar um banho, se não tiver problema.

— Por quê? — Seu rosto estava impassível, mas eu detectei um ínfimo apertar de olhos.

Desviei o olhar, sem coragem de dizer que o cheiro daquele homem parecia ter se grudado em cada centímetro de minha pele. Eu não conseguia sequer pensar em me sentar no sofá de

Justin com toda aquela imundície impregnada em mim.

No entanto, mesmo que eu não tenha dito nada, sua sintonia com meus pensamentos permitiu que ele compreendesse.

— Odeio que ele tenha tocado você. Odeio que ele te faça se sentir suja. Odeio saber que ele ainda respira. — Ele chegou mais perto, ficando a pouco mais de quinze centímetros de mim. — Júlia, olha pra mim.

— Não. — Encarei minhas sandálias.

— Por favor, Júlia. Olha pra mim.

A doçura e o desespero se misturavam em seu tom, e isso me pegou desprevenida. Ergui a cabeça, me deparando com sua expressão obscura, a mão fechada em punho, a raiva que eu testemunhara no corredor do cinema retornando como uma avalanche.

— Não foi sua culpa. Jamais seria sua culpa — ele falou, entredentes.

— O vestido é meio curto...

Justin proferiu uma porção de palavrões e socou a roda da cadeira com força, me fazendo dar um pulo.

— Seu vestido não é curto! Ainda que fosse, mesmo se você estivesse pelada, não seria sua culpa! Aquele monte de lixo é doente! Não. Foi. Sua. Culpa. Repete isso, Júlia.

— Mas, Justin...

— Agora! — ordenou.

— Não foi minha culpa — murmurei.

— Mais alto. Eu não te ouvi.

— Não foi minha culpa.

— De novo.

— Não foi minha culpa! — gritei. — A culpa não é minha. A culpa não é minha! A culpa não é minha!

As emoções que eu vinha mantendo sob rédea curta saíram de controle. Meu soluço ecoou pela sala, alto e dolorido. Enterrei o rosto nas mãos e, antes que pudesse pensar no que estava fazendo, me joguei sobre Justin, me aninhando em seu colo e escondendo o rosto em seu pescoço.

— Não é culpa minha — solucei.

— Não, não é. — Ele hesitou, os braços imóveis enquanto eu o abraçava mais forte, como se não estivesse certo de que me tocar fosse uma boa ideia.

Mas era. Naquele momento, eu não conseguia pensar em nada de que precisasse mais.

Ele pareceu entender, e seu braços por fim me envolveram. Delicados e receosos a princípio.

Fortes e firmes instantes depois, me segurando junto ao peito de maneira que meu coração se grudou ao dele, suas batidas se misturando às minhas.

— Shhhh. Está tudo bem — sussurrou, apoiando a bochecha no topo da minha cabeça. — Você está segura. Não vou deixar ninguém te fazer mal. Eu prometo, Júlia.

E eu acreditei nele, mesmo sabendo que não devia, que as pessoas viviam quebrando promessas. Acreditei porque naquele instante, com seus braços ao meu redor, nada parecia poder me atingir.

Não tinha sido minha culpa. Eu era inteligente o bastante para entender isso. Mas não pude deixar de me perguntar se, caso eu tivesse optado por um moletom velho e surrado em vez do vestido, aquele monte de lixo teria agido da mesma forma.

É claro que teria. Talvez não comigo. Provavelmente teria buscado outra vítima, e talvez ela também não soubesse nenhum golpe para se livrar do ataque nem tivesse a sorte de ter um

Justin por perto. Assim aconteceu com aquelas garotas do jornal. O problema não estava em mim ou nas minhas roupas, mas naquele doente pervertido.

— A culpa não é minha. Aquele sujeito é um monstro e deveria ser trancafiado em uma jaula. A culpa não é minha!

— Essa é a minha garota. — Ele beijou minha testa.

Sua garota.

Ele não falou sério. Estava apenas me confortando como podia. E foi isso que trouxe um pouco de lucidez a minha mente perturbada. Saltei sobre meus pés, esfregando os olhos por entre as lentes dos óculos. Justin suspirou, parecendo muito cansado.

— Vou pegar alguma coisa pra você vestir. — Ele foi para o quarto e eu esperei na sala.

Quando retornou, tinha uma pequena pilha de roupas no colo. — Isso deve dar em você.

Agradeci, mas então reparei no corte próximo a sua sobrancelha. E me aproximei dele.

— Você precisa de um curativo. — Toquei o canto de sua testa, a crosta quase negra de sangue ressecado.

— Vou sobreviver — ele brincou. — Vem.

Justin foi na frente e eu o segui, um pouco hesitante. Entrou no banheiro, acendendo a luz e deixando a pilha de roupas sobre a bancada da pia. Empurrou a cortina do boxe para o lado e puxou uma cadeira branca dali de dentro, então se esticou para abrir o chuveiro.

— Demora um pouco pra esquentar. Prédio antigo — explicou.

Eu me recostei na pia, sem saber onde colocar as mãos ou para onde olhar. Justin chegou mais perto, se movendo pelo banheiro espaçoso com muita agilidade.

— Me dá seu pé — ele demandou com delicadeza, parado bem a minha frente.

Fiz o que ele pediu, apoiando o pé direito em seu joelho. Justin soltou o fecho da minha sandália em questão de segundos, jogando o calçado no canto, perto da porta.

— Agora o outro.

Obediente, repeti o gesto e ele deu o mesmo destino à sandália esquerda.

Tocando minha cintura com delicadeza, ele me fez virar até que eu ficasse de costas para ele.

Empurrando meu cabelo para o lado, desceu o zíper do meu vestido. Fazia muito tempo que ninguém me tocava daquela maneira. Apesar de me sentir imunda, de não querer contaminá-lo com aquela podridão, por alguma razão que me escapava eu precisava do toque dele.

— Vou lavar — ele disse. — Amanhã você vai ter o que vestir.

Mas o amanhã parecia a anos-luz de distância. E eu não queria pensar nele. O agora era tudo o que me importava.

Olhei por sobre o ombro quando suas mãos deixaram meu corpo. Ele havia se virado, de maneira que ficasse de costas para o espelho e para mim. Sem saber ao certo o que fazer, deduzi que deveria tirar a roupa.

Joguei o vestido sobre o ombro dele, depois o sutiã e, por fim, a calcinha. Voei para dentro do boxe, cerrando a cortina, mas não havia motivo para tanto alvoroço, já que em momento algum Justin virou a cabeça. A água estava quente e pinicou minha pele de um jeito bom e... minha visão ficou embaçada.

— Droga!

— Muito fria? — ele quis saber.

— Não. Esqueci de tirar os óculos de novo. Vivo fazendo isso.

Rindo de leve, Justin segurou a cortina de encontro ao azulejo, para que ela não se abrisse, e serpenteou a mão por entre um vão minúsculo. Coloquei os óculos em sua palma e a mão desapareceu.

— Deve ter tudo de que você precisa aí dentro — ele disse. — Vou te esperar na sala.

Qualquer coisa é só chamar.

— Justin, espera! — A ideia de ser deixada sozinha com meus pensamentos me apavorou. A sensação era muito parecida com a que eu tinha quando, no meio da noite, despertava e percebia que havia acabado a luz. — Não... não quero ficar sozinha.

A quietude no banheiro era quebrada apenas pelo ruído da água caindo. Justin puxou uma grande quantidade de ar antes de responder:

— Tudo bem.

Anuí com a cabeça, embora ele não pudesse me ver. Comecei a esfregar o sabonete nas partes em que aquele maldito havia me segurado.

— Isso é novo pra mim — Justin comentou.

— O quê? Uma garota pedir para você ficar enquanto ela toma banho?

— Ter uma garota nua e molhada no meu banheiro e estar do lado de fora segurando as roupas dela... Ah, desculpa, Pin. Péssimo momento para brincadeiras.

— Não, tudo bem. — E estava mesmo. Eu precisava do seu bom humor para me ajudar a manter as sombras longe de mim.

Continuei a me ensaboar, esfregando com força. Quando desliguei o chuveiro, uma toalha foi lançada sobre a barra que segurava a cortina.

— Obrigada, Justin.

Eu me sequei ali dentro, passando o tecido pelos cabelos de qualquer jeito, e me enrolei com ele. Quando saí, Justin estava perto da porta, de costas. Peguei as roupas na bancada, vestindo depressa a camiseta e a cueca boxer preta. Ficaram enormes em mim.

— Tudo bem, pode se virar. — Pendurei a toalha no boxe.

Ele fez o que eu pedi, me examinando da cabeça aos pés. Seus olhos se prenderam em minhas mãos, retorcidas na altura do umbigo. Algo endureceu os traços de seu belo rosto. Com o olhar travado em meu pulso, Justin se aproximou e correu a pontinha do indicador em minha pele, agora quase em carne viva. Soltando um pesado suspiro, ele me puxou para seu colo e me abraçou com força. Eu me encaixei nele, me encolhendo, absorvendo seu calor. Justin era exatamente o que eu precisava naquele instante.

Ele tocou meu queixo, obrigando-me a olhar para ele, e por um momento pensei ter visto algo maravilhoso naquele caramelo profundo. Uma certeza, uma promessa, não sei ao certo.

— Seu cabelo está ensopado. — Estendendo o braço, puxou a toalha que eu havia pendurado e, me ajeitando melhor em seu colo, começou a friccionar minha cabeça com cuidado. Quando ficou satisfeito, jogou-a na bancada e correu os dedos pelos meus fios embaraçados. Apoiou uma mão em minha cintura e se esticou até pegar o pente dentro de uma caneca sobre a pia, para em seguida deslizá-lo pelas minhas mechas. Acabei rindo. — Faz cócegas? — ele quis saber.

— Não. É que ninguém penteia o meu cabelo desde que eu tinha uns sete anos.

Ele fechou a cara.

— Eu já disse que o idiota do wi-fi é um grande babaca? Pronto. — Jogou o pente em algum lugar. Soltei um longo suspiro quando ele deslizou a mão pelos fios agora sedosos e sem nós.

Ele me entregou os óculos, mas não os coloquei. Eu sabia que era hora de me levantar do seu colo. Sabia disso. Mas eu não queria. Estar assim perto dele era seguro.

Percebendo minha hesitação, ele me mostrou aquele meio-sorriso.

— Quer carona até a cama?

Aquiesci, lentamente.

Passando um braço em minha cintura, ele me acomodou melhor sobre suas pernas antes de girar as rodas. Deteve-se por um breve instante no corredor, parecendo deliberar sobre que direção tomar. Prendi a respiração. Não queria entrar no quarto de Justin, mas não podia ficar longe dele.

Não sei bem o que senti quando Justin tomou o rumo de seu quarto. Foi um misto de medo e alegria, pânico e felicidade. Ele parou ao lado da cama e eu pulei para o colchão.

— Tudo bem se eu for tomar um banho rápido? — perguntou.

Fiz que sim com a cabeça e ele não perdeu tempo, abrindo as gavetas da cômoda e tirando algumas roupas de lá. Eu me ajeitei melhor na cama quando fiquei sozinha, me recostando na cabeceira, examinando o cômodo. Justin era bastante organizado. Não havia nada fora do lugar. O guarda-roupa era muito alto, e presumi que ele não o aproveitava até em cima. Já a cômoda contava com oito gavetas largas, um aparelho de som antigo sobre ela. Encontrei um livro na mesa de cabeceira e espremi os olhos tentando ler. Não deu, é óbvio. Coloquei os óculos.

Ah. Jane Eyre.

Abri o livro na página que ele tinha deixado marcada. Um parágrafo fora grifado a lápis. O trecho que ele havia citado quando me pediu em casamento.

Devolvi o livro a seu lugar e precisei piscar algumas vezes.

Ah, caramba, eu odiava aquilo. Uma vez que eu começava a chorar, não conseguia mais parar, e até comercial de margarina me emocionava. Era uma maldição.

Esfreguei a mão no rosto para me recompor, bem a tempo, já que Justin voltou para o quarto, vestindo uma bermuda escura e uma camiseta branca que fez seus cabelos loiros úmidos reluzirem reflexos em tons de dourado. Tive que reprimir um suspiro. Era inconcebível alguém ser tão bonito.

Ele subiu na cama, ajeitou o corpo e se deitou de barriga para cima, os braços cruzados sobre o peito largo, os ombros se distendendo ainda mais. Foi impossível tirar os olhos dele, e eu me flagrei pensando que aquele homem mexia comigo de um jeito único: eu amava seu senso de humor, sua mente rápida, o som de sua risada. Adorava odiar suas piadas e sua implicância comigo. E desejava desesperadamente aquele corpo da maneira que ele era, uma mistura confusa de músculos rijos, cicatrizes e limitações.

— O que foi? — ele perguntou, franzindo a testa.

— Nada.

— Por que você está me encarando desse jeito? Pensei que quisesse companhia.

— Eu quero! E eu não estava encarando.

Ele mirou aquelas duas colmeias em mim. Um fogo silencioso crepitou em minhas veias.

— Está sim, Pin.

Puxei o lençol na altura do peito e fixei o olhar no teto.

— Odeio quando você me chama de Pin.

— Eu sei. — Pude ouvir o sorriso em sua voz.

Ele apagou a luz. A escuridão recaiu sobre mim, como um manto pesado e sufocante. Os pesadelos de sempre, misturados aos horrores daquela noite, fizeram meu coração disparar, minhas mãos tremerem, a respiração ficar curta.

Justin acendeu o abajur.

— Melhor? — Ele me encarou com preocupação e eu me perguntei como ele fazia aquilo.

Como conseguia entender o que eu precisava sem que eu dissesse uma única palavra?

Fiz que sim com a cabeça e ele voltou a se deitar, ficando de frente para mim. Eu o imitei, segurando a ponta do travesseiro para não correr o risco de esticar a mão e acariciar aquele queixo teimoso. Agora limpo, percebi que seus ferimentos não eram tão graves como eu tinha imaginado.

— Boa noite, Júlia.

— Boa noite, Justin.

Fechei os olhos e tentei mantê-los assim, mas o que eu podia fazer? Eles se abriram por vontade própria depois de um tempo. Graças à parca luz fornecida pelo abajur, pude admirar o rosto de Justin, como se pudesse absorvê-lo e guardá-lo dentro de mim.

— Você continua me encarando — ele acusou, as pálpebras ainda cerradas.

— Não continuo!

Justin abriu um dos olhos e deu aquele sorriso de canto de boca que fazia meu estômago dar uma cambalhota.

— Tá legal, eu quero te ensinar um truque. Posso?

— Que tipo de truque? — perguntei, desconfiada. E ridiculamente excitada com as possíveis respostas.

— Defesa pessoal. — Ele se sentou na semipenumbra, se recostando na cabeceira. — Preciso te ensinar alguns golpes, ou vou enlouquecer pensando que outro babaca pode... pode... enfim.

— Justin, desconfio que não sou muito boa com essas coisas. Você viu como eu me saí no boliche.

— Você não sabe. Vem aqui.

A contragosto, fiz o que ele pediu, me ajoelhando no colchão.

— Me mostra como você bate — ordenou, animado.

— Mas eu não bato!

— Se tivesse que bater — resmungou, impaciente. — Aqui. — Colocou o travesseiro na frente do corpo.

Fechei o punho e acertei o travesseiro. Justin fez uma careta.

— Isso só iria te machucar e fazer muito pouco, ou nada, com o seu agressor. Tenta assim. —

Pegou minha mão e dispôs os dedos de um jeito diferente, mantendo o polegar sobre as falanges do indicador e do dedo médio.

Acertei o travesseiro de novo, mas não percebi muita diferença.

— Os ombros, Júlia — corrigiu. — A força deve vir da lombar e dos ombros.

Experimentei mais alguns golpes, mas Justin parecia pouco contente.

— Eu falei que não sou boa nisso — reclamei.

— Tá legal, nova estratégia. Vamos usar o seu cotovelo. Você provavelmente vai ser menor que o agressor, então teria que usar muita força e vir de baixo para acertá-lo com um soco. O cotovelo pode ser mais fácil. Dobre o braço desta maneira.

— Assim?

— Quase. — Ele fez com que meu braço formasse um triangulo isósceles. — Agora trave e feche a mão. Perfeito, Pin. O segredo é usar a força do corpo todo, vindo lá do dedão do pé. Você precisa girar um pouco o tronco e vir com tudo. Não movimente o ombro. Deixe tudo travadinho ou você vai se machucar. Vai, tenta.

Dessa vez eu me saí melhor, mandando o travesseiro para o outro lado do quarto.

— Muito bom. De novo. — Ele pegou meu travesseiro e segurou com mais força dessa vez. —

O ponto ideal é acertar o indivíduo aqui. — Indicou a área entre a orelha e os olhos. — Isso vai deixar seu agressor tonto, ou pode até derrubá-lo. De todo jeito, vai te dar tempo de correr e pedir ajuda.

Assenti e continuei a golpear. Quando Justin achou que eu já havia surrado bastante o inocente travesseiro, eu me deixei cair no colchão, exausta.

— Molenga. — Ele deu risada, se esticando na cama por completo, numa posição ereta que parecia desconfortável. O travesseiro estava muito longe para que ele simplesmente esticasse o braço e o alcançasse.

Tomei fôlego e me levantei para pegá-lo para ele. Senti seu olhar me acompanhar pelo quarto durante todo o tempo. Quando voltei para a cama, podia jurar que seus olhos pareciam incendiar.

— Obrigado. — Ele envolveu seus dedos enormes na fronha, mas me olhava fixamente.

Não sei ao certo o que tinha de errado comigo, pois minha mão se recusou a soltar o travesseiro quando ele o puxou com delicadeza. Justin continuou me encarando, questionando. As labaredas agora eram reais, e não fruto da minha imaginação.

Então, como se lesse meus pensamentos, ele fez exatamente o que eu queria: se arrastou sobre o colchão, me dando espaço.

Sem hesitar, eu me deitei ao lado dele e meu corpo frio se colou ao seu, quente da cabeça aos pés. Estremeci quando sua mão repousou em minhas costas. Não sei ao certo como tudo aquilo que andara represando nos últimos tempos extravasou: talvez pelo modo carinhoso como ele me segurava, ou pelo fluxo de adrenalina que o exercício injetara em meu sistema, mas o fato é que tudo explodiu. O medo de perder minha tia, a vergonha e a culpa por mentir para ela, o pânico real do que poderia ter acontecido naquela noite se Justin não tivesse aparecido. A privação de sono, o esgotamento físico, a paixão por Justin e a consciência de que ele logo iria embora.

Porque ele iria. Era minha maldição. Toda vez que eu entregava meu coração a alguém, essa pessoa o jogava em um triturador de papéis.

Ergui a cabeça quando ele esticou o braço para que eu deitasse em seu bíceps. Eu me recostei devagar, apoiando a testa em seu ombro, e Justin imediatamente me envelopou com seus braços fortes enquanto meus soluços se tornavam mais audíveis, convulsivos. Ele não disse uma única palavra, apenas me deixou chorar outra vez, acariciando minhas costas, meus cabelos úmidos, beijando minha testa. A choradeira custou a passar dessa vez, mas seu cheiro era tão embriagante que aos poucos foi nublando meus pensamentos e sentidos, trazendo um pouco de alento a meu coração.

— Desculpa — falei, mortificada. — Acho que arruinei sua camiseta.

— Não seja boba. — Seus lábios tenros tocaram a lateral do meu rosto. — E não precisa se envergonhar, Júlia. Você é a mulher mais forte que eu conheço.

Eu ri sem humor algum, limpando o nariz nas costas da mão.

— Bom, não é o que parece agora.

— Até os mais fortes têm seus momentos de fragilidade. Ninguém aguenta bancar o durão a vida inteira. É preciso se entregar à fraqueza de vez em quando, para poder conhecer o tamanho da sua força.

Franzi a testa, erguendo a cabeça para ele.

— Muito poético. Quem disse isso?

— Eu disse.

— Você é poeta agora? — brinquei.

— Só se for necessário, mas não espalhe por aí. — Ele sorriu. Desta vez um sorriso inteiro, que atingiu diretamente o centro do meu peito. — Tenho uma reputação a zelar.

Acabei dando risada e fungando ao mesmo tempo.

— Júlia, eu queria que você soubesse... — ele pegou uma mecha do cabelo e começou a enrolar no indicador — que pode contar comigo sempre que precisar. Posso não ser um homem inteiro, mas quem quiser te fazer mal terá que me matar primeiro.

Eu me afastei dele, magoada.

— Não gosto quando você diz esse tipo de coisa.

— Eu só disse a verdade — ele respondeu, sério.

— Não, não disse. Posso parecer obtusa, mas não sou. Suas pernas não funcionam, e eu sei que isso te incomoda um bocado. Mas, olha, os meus olhos também são quase inúteis.

— É diferente.

Ele não entendia.

— Só estou querendo dizer que, se você caminha ou empurra uma cadeira de rodas, não faz diferença pra mim. Você é o Justin, o cara que aceitou me ajudar, que me salvou quando eu mais precisei. Duas vezes! Eu sempre me sinto segura com você. Você é... — o homem mais incrível que eu já conheci — ... uma das poucas pessoas em quem eu confiaria. E odeio que você não saiba disso. Entendo que deve ser complicado aceitar a mudança, que o mundo nem sempre facilita para você, mas você é mais inteiro do que muita gente que eu conheço, Justin. — Eu, por exemplo.

— Você não sabe o que está dizendo — falou, entredentes.

Soltei um pesado suspiro e comecei a brincar com a ponta do lençol.

— Acho que não sei mesmo. Tudo o que eu sei é que, se você não estivesse na cadeira de rodas, provavelmente estaria numa cova. E isso seria muito chato, porque eu nunca teria te conhecido. E você... você...

— Eu o quê? — Tocou meu queixo, me obrigando a olhar para ele.

Sob seu olhar profundo e curioso, me ouvi dizer a verdade:

— Você se tornou uma das minhas pessoas preferidas.

Um sorriso lento curvou seus lábios.

— Pode repetir essa última parte? Acho que eu não ouvi direito.

— É inútil tentar ter uma conversa séria com você... — Eu me virei de costas.

— Não, nada disso, Pin. — Ele se apoiou no cotovelo e me pegou pelos ombros, me obrigando a retomar a posição de antes. — Você não pode voltar atrás agora. Estava falando das minhas supostas qualidades.

— Você é um idiota. E o pior é que não enxerga isso.

Ele entendeu o que eu quis dizer, percebi pelo franzir de sua testa. Respirando fundo, se deixou cair no travesseiro na mesma posição que a minha.

— Júlia, eu... Não é algo em que eu possa simplesmente não pensar. Eu sei o que eu sou. Olha só pra mim. Sou uma confusão de membros inúteis e cicatrizes.

Aquilo me irritou e machucou mais que qualquer outra coisa que ele pudesse ter dito. Eu amava aquela “confusão de membros inúteis e cicatrizes”.

— Como alguém tão brilhante pode ser tão burro? — murmurei para o universo.

Ele virou a cabeça, me olhando feio.

— Ei, essa fala é minha!

— Então é melhor agir mais como você e menos como eu. Porque, no momento, você está sendo a pessoa mais idiota do mundo.

Eu lhe dei as costas outra vez, socando o travesseiro para afofá-lo — ou tentar destruir alguma coisa que não fosse a cara de Justin. Não podia acreditar que ele tinha uma visão tão distorcida de si mesmo. Tudo bem, eu não conseguia imaginar o tamanho de sua dor e sua frustração por ter ficado paraplégico, mas ele não percebia que aquilo não mudava nada? Que o movimento das pernas não define uma pessoa? Que para mim não fazia a menor diferença, porque o que eu realmente amava nele era... ele todo?

Era isso. Pronto. Ali estava. Eu o amava. Podia admitir isso pelo menos para mim mesma.

Ele ficou calado por um tempo, então inspirou fundo.

— Essa conversa toda é desnecessária. Vou voltar a andar. Estou fazendo tudo o que posso para que isso aconteça. Tenha fé em mim.

Soltei um longo suspiro e fechei os olhos. Ah, Justin...

Virei-me para poder encará-lo.

— Eu tenho, Justin. Você nem sabe quanto. — Toquei seu rosto. Ele inclinou a cabeça em direção à minha palma e fechou os olhos. — E torço muito para que o que você quer aconteça.

De verdade. Só queria que você entendesse que pra mim não mudaria nada. Você ainda seria você.

— E eu ainda seria uma das suas pessoas preferidas? — O sorriso que surgiu em sua boca era o mesmo de uma criança que acaba de ganhar sua primeira bicicleta e derreteu minha irritação.

— Ainda seria.

A diversão em seu rosto foi substituída por outra coisa. Seu olhar escureceu, como se uma tormenta estivesse a caminho. Eu sabia que não havia nada romântico em seu olhar. Era puro desejo, cru, primitivo.

Eu podia fazer aquilo? Me envolver com ele sabendo que não haveria nada além de atração física?

Não. Provavelmente não.

Por isso não entendi direito o que fez com que eu me inclinasse para a frente e o beijasse. Ele hesitou, ficou tão parado que mais parecia uma estátua, mas acabou cedendo com um gemido rouco quando minha língua penetrou sua boca, os dedos buscando sua nuca. Segurando meu rosto entre as mãos com uma delicadeza comovente, ele retribuiu o beijo.

Só que eu não queria delicadeza naquele momento. Queria que ele apagasse tudo o que acontecera naquela noite, que seu toque me fizesse esquecer o daquele monstro nojento, que ele atiçasse aquela tempestade dentro de mim até eu não ouvir nem sentir nada que não fosse ele. Eu precisava daquele caos, e foi por isso que me aconcheguei mais a seu corpo, correndo as mãos por seu tórax até encontrar a barra da camiseta. Enfiei-as ali dentro, experimentando o calor de sua pele na ponta dos dedos. As mãos de Justin deixaram meu rosto e se agarraram a meus pulsos, me detendo.

— Não, Júlia...

Eu me afastei dele abruptamente, o peito subindo e descendo depressa.

— Não posso fazer isso com você. — Seus olhos ainda estavam fechados, a mandíbula trincada.

Desejei perguntar por quê. Desejei ainda mais ser corajosa o bastante para ouvir a resposta.

Mas eu não era, e tudo o que fiz foi piscar algumas vezes, passar a mão nos cabelos e, sem olhar para ele, rolar para o lado, ficando de costas. Minha respiração ainda estava entrecortada. Lágrimas de rejeição se acumularam em meus olhos.

Eu havia entendido tudo errado. Justin não tinha me beijado porque estava a fim, mas por pena.

Fechei os olhos com força, desejando me dissolver até virar espuma e desaparecer.

— A última coisa que eu quero agora é te magoar, Pin — ele sussurrou. — Mas não posso fazer isso. Não esta noite. Júlia...

— Boa noite, Justin. — Fiquei feliz por minha voz não vacilar.

Eu o acusara de ser idiota, mas a burra ali era eu. Tinha passado a vida toda evitando aquele tipo de sentimento e me deixara levar justamente quando encontrara o único cara que eu sabia que não corresponderia.

— Não faz isso comigo, Júlia. Olha, deixa eu explicar. Eu só estou pensando no seu...

— Boa noite.

Ouvi um suspiro cansado seguido do ranger da cama, o ruído da cadeira. O colchão sacudiu de leve.

— Tudo bem. Vamos falar sobre isso amanhã. Vou estar na sala se precisar de alguma coisa.

Ele deixou o quarto sem fazer barulho. Esperei até ouvir a porta se fechar, para só então afundar o rosto no travesseiro, impregnado com o aroma dele, e deixar as lágrimas caírem.


Notas Finais


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