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História A mentira perfeita - Capítulo 35


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Notas do Autor


Desculpa pela demora! Amanhã vou postar mais tarde também!!
Obg por tudo gente, vcs são incríveis <3


Boa leitura e comentem <3

Capítulo 35 - Júlia


— Precisa de alguma ajuda? — Justin perguntou, parado sob o umbral da porta, todo prestativo.

— Não fale comigo.

— Só queria dizer que, se precisar de qualquer coisa, é só me chamar.

Peguei uma trouxa de roupas e a joguei na gaveta de qualquer jeito, pressionando os lábios para não gritar. Não acreditava que estava arrumando as minhas coisas e as da tia Berenice no quarto de hóspedes do pequeno apartamento de Justin. Só podia ser um pesadelo.

Não. Devia ser carma, isso sim.

— Até quando você pretende ficar brava comigo? — ele quis saber.

— Até os meus olhos funcionarem normalmente. Ah, espera. Isso não vai acontecer. —

Soquei mais uma batelada de roupas na cômoda.

— Você não está sendo justa, Júlia — reclamou, chateado.

Ele estava aborrecido? Ele?

Parei o que estava fazendo e o encarei, os punhos pendendo ao lado do corpo.

— Ah, e você foi justo?

— Claro que fui. Dei duas opções para a sua tia. A culpa não é minha se ela é uma mulher sensata. Pensei que você ficaria feliz, já que é o melhor para ela agora.

Isso era o que mais me irritava. Por causa da piora na saúde de tia Berê, eu teria que voltar a conviver com Justin. Justo agora, que eu tinha dito a ela que não estávamos mais juntos. Ela faria de tudo para tentar nos juntar de novo.

Sendo franca, Justin mexia comigo como ninguém jamais conseguiu. Se eu já tinha sido idiota e me apaixonado por ele quando ficávamos juntos por curtos períodos, como seria agora, vivendo sob o mesmo teto?

Onde estava o bendito coração novo? Por que ele não aparecia logo?

— Eu só estou tentando ajudar, Júlia — ele murmurou.

— Eu... eu sei, droga! — Fechei a gaveta com mais força do que pretendia, e voltei a encará-lo. — Mas como vai ser, Justin? O que vai dizer para a sua família? Quando o Max aparecer e vir a gente aqui? Como vai explicar a nossa presença?

— Quer parar de se preocupar tanto com os detalhes? Vamos resolver uma coisa de cada vez.

Já pensei em tudo.

— É mesmo? — Cruzei os braços.

Ele, com seu pouco bom senso, entendeu aquilo como um convite e entrou no quarto, fechando a porta sem fazer barulho.

— Ah, sim. Vou falar com o porteiro. Ele só vai liberar a entrada da minha família depois que eu autorizar. Posso dizer que o quarto foi ocupado pela minha cuidadora. Não tem por que eles desconfiarem.

— Exceto se o Max ou a Alicia me virem.

— Júlia, pode vir aqui um instantinho? — tia Berenice gritou.

— Estou indo. — Baixei a voz ao me dirigir a Justin. — Eu não quero te trazer problemas,

Justin, por mais que essa situação me desagrade. Então, se você pensar em alguma coisa, me diga, tá?

Ele fez uma careta.

— Já disse que vou dar um jeito neles. Relaxa.

Deixei o quarto e fui procurar tia Berenice. Eu a encontrei na cozinha, sentada em uma cadeira encaixada no balcão sob a pia, lavando alface.

— É extraordinário! Simplesmente extraordinário! — exclamou, animada. — Todas as casas deviam ser assim. Olha só! Eu posso preparar uma salada sozinha!

— Muito legal, tia. Precisa de ajuda?

— Não! Isso não é maravilhoso? — Ela riu gostosamente. — A Magda está vindo pra cá me fazer companhia. Então, será que você e o Justin poderiam ir ao mercado pegar umas coisinhas pra mim? Não tem quase nada na despensa, só porcaria. Esse menino não pode viver à base de miojo e Doritos!

— Eu vou sozinha. A senhora fez uma lista?

— Fiz, mas acho melhor ele ir com você. É muita coisa pra trazer no ônibus. O Justin não vai se importar de me fazer mais esse favorzinho, vai, meu querido? — ela falou mais alto.

Se eu tinha alguma dúvida quanto aos planos dela, sobre juntar Justin e eu, elas teriam acabado ali.

— De maneira nenhuma, dona Berê — ele devolveu da sala.

— A lista está aí na mesa. Ah, e se puder me trazer um daqueles pãezinhos de coco, eu iria adorar.

— Nada de pão doce. — Passei a mão no papel e o guardei no bolso da calça. — Não por enquanto.

— Não custava tentar a sorte. — Ela suspirou, tristonha. — Agora vão, vão! Senão o almoço não sai hoje.

— Vou só esperar a Magda...

A campainha tocou.

— Então não vai esperar mais nada — falou, contente. — Sumam daqui! Tenho umas coisas pra contar pra minha amiga e não quero ouvidos enxeridos por perto.

— Tem a ver com um certo médico que tem uma bunda no queixo, não tem? — Justin surgiu sob o batente.

Ela ficou vermelha.

— Que ideia, meu querido. Imagine se a essa altura eu iria pensar nesse tipo de coisa. Meu pobre coração não aguentaria aquela loucura despertada pela paixão. — Mas seu olhar perdeu o foco por um instante. Ela então piscou, balançando a cabeça, como se acabasse de despertar de um sonho. — Agora, vão logo! Preciso dos ingredientes para fazer um cozido de legumes.

Mordi o lábio inferior para não gritar de tão frustrada. Já podia imaginar todas as técnicas e estratégias de tia Berenice para fazer ele e eu passarmos o maior tempo possível juntos, e isso era péssimo, já que eu pretendia esquecê-lo.

Peguei a mochila em cima da mesa enquanto Justin deixava Magda entrar.

— Por que eu tenho a impressão de que a sua tia escondeu as compras que eu fiz ontem de manhã? — ele perguntou, enquanto o elevador descia.

— Porque ela escondeu mesmo. Ou fingiu não ver. Ela está tentando juntar a gente. Não percebeu, não?

— Eu desconfiei que ela pudesse tentar algo parecido. — Abriu um meio-sorriso. — Mas não foi tão ruim assim.

Ele não tinha entendido ainda.

— Foi só o começo, Justin. O que me assusta é o que ainda está por vir.

 

 

(...)

 

 

O mercado não ficava longe da casa de Justin. Eu já estava pegando um carrinho, mas ele me deteve.

— Não vamos precisar de um desses. Vem.

Ele foi para a parte administrativa, logo ali na entrada, e uma garota de cabelo crespo preso no alto da cabeça sorriu largamente assim que o viu.

— Ei, delicinha! — ela foi dizendo. — Já vou trazer ela pra você. Só um segundo.

— Obrigado, boneca.

Rindo, ela desapareceu atrás de uma porta.

— Você já tentou sair de casa e não paquerar ninguém? — comentei, irritada.

— Eu só estava tentando ser gentil.

— É claro...

A srta. Cachinhos voltou com uma espécie de cadeira de compras. Olhando bem para a base vermelha, achei parecida com uma scooter. Justin subiu nela e a srta. Cachinhos levou a cadeira dele para os fundos da loja. Ele regulou a altura do banco antes de experimentar o acelerador e sorrir de leve, como se tivesse acabado de ganhar um brinquedo novo.

— Por onde quer começar? — ele perguntou.

Retirei a lista do bolso.

— Acho melhor deixarmos os laticínios para o final. Então... precisamos de purê de tomate.

Ele começou a me guiar para o corredor certo. O sorriso de menino não deixava seus lábios.

A srta. Cachinhos realmente tinha um belo efeito sobre ele. E, tá, ela era bonita, mas eu imaginei que as mulheres que o atraíam fossem mais parecidas com a Charlize Theron ou a Angelina Jolie...

— Que foi? — ele perguntou, me estudando.

— Nada. Por quê?

— Você bufou pelo menos cinco vezes nos últimos trinta segundos.

— Eu não bufo. Nunca.

— Você bufa o tempo todo, Pin.

— Para de me chamar assim. Eu não bufo coisa nenhuma. No máximo eu... expiro um pouco mais forte.

— Ou seja, bufa. E acabou de fazer de novo.

Peguei duas embalagens de purê de tomate e as joguei de qualquer jeito na larga cesta presa ao guidão da scooter.

— E não tem nada te incomodando... — ele resmungou, achando graça.

— Tive uma ideia. Por que você não fica lá na frente com a srta. Cachos Sorridentes enquanto eu faço as compras?

— A Ana Cláudia está te incomodando? — Seus lábios se esticaram, revelando seus dentes brancos perfeitos.

— Não. Mas, pelo tamanho do seu sorriso, você está muito a fim de incomodar a moça. Pode ir. Eu termino tudo rapidinho.

Os cantos de sua boca tremeram e um brilho sedutor surgiu naqueles olhos impossivelmente âmbar.

— Eu não quero incomodar ninguém além de você.

— Deus me ajude... — E... bom, eu meio que bufei.

Dei uma espiada na lista e comecei a procurar os temperos de que precisava. Orégano. Peguei um pote na prateleira mais alta.

— Eu gosto dela — Justin comentou.

— Bom pra você. — Fixei os olhos no pote com mais intensidade do que deveria.

— Não estou falando da Ana Cláudia, Pin. É da scooter. Eu gosto dela. Me sinto menos estranho nela. Mais como eu era.

Levantei os olhos para Justin. Ele corria o indicador pelo pequeno painel da moto.

— Eu adoro dirigir, Júlia, mas carro não tem tanta graça. E, como você pode imaginar, desde que eu me acidentei não subo numa moto. Exceto aqui, ainda que seja uma scooter esquisita. É por isso que eu venho tanto neste mercado. Já até pensei em pegar o carro uma noite dessas e vir roubá-la. — Sorriu, mas era um sorriso fraco demais para chegar aos olhos.

— Justin, eu...

— Não. Não faz isso — ele me cortou secamente, o rosto inexpressivo, como se fosse feito de mármore. No entanto, ele não conseguiu afastar a mágoa profunda da voz. — Você não.

— Eu só ia dizer que não acho boa ideia roubar uma dessas de carro. Seria melhor se você alugasse uma picape. — Mas meu coração tropeçou dentro do peito, também magoado. Justin estava habituado a receber palavras e olhares repletos de piedade. E os odiava, com razão. Era tão injusto, porque, apesar de tudo, ele era a última pessoa que merecia esse tipo de tratamento. Justin era um homem forte e independente, lutando contra as adversidades que a vida lhe impusera, como a maioria das pessoas. Como eu.

A tristeza se esvaiu aos poucos, dando lugar ao alívio, e uma risada gostosa lhe escapou.

— Por que é que eu não pensei nisso antes?

— Porque o gênio nesta dupla sou eu.

— É verdade. — Ele me admirou por um minuto inteiro, o meio-sorriso lançando fogo dentro de mim, fazendo minhas faces se incendiarem. Desviando o olhar, ele se ajeitou na scooter como se estivesse procurando uma posição melhor. — O que mais tem aí? — indicou com a cabeça a folha em minhas mãos.

Relanceei o papel, satisfeita por ter conseguido fazer a melancolia ir embora.

— Tem um pouco de tudo. Vamos aos cereais.

— Ok, mas antes vem aqui. — E me puxou pela blusa, de modo que quase caí sobre ele. Suas mãos grandes e fortes envolveram minha cintura. — Quero que você experimente.

— O quê? A scooter? — perguntei, aflita, quando ele me fez virar de costas e me puxou para seu colo.

Assim que me sentei sobre suas coxas, Justin se inclinou para o lado, mexeu em alguma coisa e o banco começou a abaixar.

— O que você está fazendo, Justin?

— Deixando na altura certa. — Pegou minhas mãos e as posicionou no guidão. — Acelerador, freio. Acelerador, freio. — Alternava os apertos em meus dedos paralisados. — Agora vai. E devagar. Esta coisa não passa de dez quilômetros por hora, mas a gente não quer terminar o dia dentro de uma prateleira.

— Justin, eu não posso! Alguém vai ver a gente e...

— Então vai logo, Pin.

— Não! Vão acabar ficando bravos com a gente e nunca mais vão te deixar usar a scooter!

— Meu Deus, mulher, você pensa demais! — Colocou a mão sobre a minha e pressionou com firmeza. Começamos a nos mover. Tá, devagar e tudo o mais, e mesmo assim eu tinha um pouco de dificuldade para manter o guidão reto, de modo que serpenteamos pelo corredor.

Eu evitava olhar para as poucas pessoas que estavam por ali e tentava não bater em nenhuma delas nem nas prateleiras. Com a ajuda de Justin, fizemos a curva e nos arriscamos na seção de pet shop. Só havia um homem por ali, colocando um saco imenso de ração sobre o ombro.

— Já te ocorreu que eles podem pensar que a scooter é minha? Relaxa um pouco, Júlia. Tenta se divertir.

— Mas nós estamos fazendo uma coisa errada!

— E daí? Nem sempre fazer a coisa certa é divertido. Acredite em mim, eu sei o que estou falando.

— Acho difícil acreditar nisso. Que você já tenha feito alguma coisa certa, quero dizer.

Ele gargalhou.

— Bom, fico feliz que minha reputação se mantenha intacta. Mas, desde que eu conheci você, ando fazendo uma porção de escolhas que eu normalmente não faria. — Ele estava tão próximo que seu hálito quente acariciou meu pescoço, me causando arrepios por toda parte. — Acho que você está pegando o jeito. Me deixa ver o que mais tem nessa lista. — Ele soltou uma das minhas mãos e deslizou dois dedos para dentro do meu bolso traseiro, pescando o papel. — Tudo bem, precisamos ir para a seção de enlatados de novo. Reto e à esquerda.

— Certo.

Eu me concentrei em manter a roda o mais alinhada possível e não tombar ao fazer a curva.

Assim que voltamos para o corredor dos enlatados, Justin contornou minha cintura com o braço e aproximou a boca da minha orelha.

— Você está dirigindo — sussurrou.

— Eu sei!

— Estou orgulhoso, Pin.

Eu sorri, mas mantive a cabeça voltada para a frente para que ele não pudesse ver quanto aquele comentário havia significado para mim.

 

 

(...)

 

 

Justin estacionava o carro na garagem do prédio quando meu celular tocou. Franzi a testa.

Américo me ligando num domingo não podia significar boa coisa.

— Júlia, preciso de você na L&L em dez minutos.

Merda.

— O que aconteceu, Américo?

— Quem dera eu soubesse!

— Tudo bem. Estou indo pra lá agora.

— Me ligue assim que arrumar tudo. E preste atenção no que está fazendo dessa vez. —

Desligou antes que eu pudesse argumentar.

— Droooooooga! — Fechei os olhos e deixei a cabeça pender no encosto do banco.

— Outro bug? — Justin perguntou, já dando partida.

— Parece que sim. Um que não existia até sexta-feira. Mas preciso entregar as compras da tia Berê e avisar que vou sair. Volto em dois minutos.

Peguei as sacolas e corri para o elevador. Ele estava no décimo segundo andar, e parou no décimo primeiro. No décimo. Nono. Oitavo.

— Molecada — praguejei, abrindo a porta de emergência. Subi os dois lances aos pulos e estava sem fôlego ao entrar na casa de Justin. Tia Berê e Magda estavam sentadas à mesa da cozinha e pareceram surpresas ao me ver entrando toda esbaforida. Minha tia não precisou de muitas explicações para entender o que havia acontecido, de modo que, depois de me certificar de que a comida que ela pretendia preparar com a ajuda da amiga era adequada para sua dieta, voltei para o estacionamento e entrei no carro, que Justin manteve ligado.

Levamos menos de vinte minutos para chegar à empresa. Como eu conhecia o porteiro, consegui que deixasse Justin me acompanhar. Não perdi tempo apresentando o local a ele ao alcançarmos o andar de TI. Fui direto para minha máquina, abrindo o sistema e procurando até encontrar o erro. Levou um tempo, mas ali estava. Não era à toa que Américo estava tão furioso. O estoque não estava dando baixa. Diversos produtos estavam cadastrados pelo preço de um centavo.

— Humm...

— O quê? — Justin quis saber, logo atrás de mim.

— Isso é muito estranho. Tenho certeza absoluta que cadastrei os valores certos. E a baixa nos estoques estava normal até ontem.

— Você já parou para pensar que isso pode ser mais do que estranho? Que esses problemas estão aparecendo sempre nos seus horários de folga?

— Já. — Porque eu sabia que havia feito tudo certo. Aqueles erros não eram exatamente erros.

Eram propositais. Por quê? E, o mais importante, quem era o responsável?

Abri o histórico do programa e dei uma zapeada.

— Cacete.

Alguém havia entrado no sistema na noite passada, usado minha máquina e feito as modificações. E essa pessoa obviamente não era eu.

Alguém estava me sabotando.


Notas Finais


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