História A Modelo - Capítulo 2


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Categorias Sou Luna
Personagens Ámbar Benson, Delfina, Juliana, Luna Valente, Matteo Balsano, Nico, Personagens Originais, Simón
Tags Simbar
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Palavras 4.795
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Heterossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 2 - Nosso Passado


Fanfic / Fanfiction A Modelo - Capítulo 2 - Nosso Passado

— Tem certeza de que eles não vão se importar? — Ámbar perguntou, terminando o esboço do retrato de sua amiga, enquanto o avião se preparava para pousar em Roma.

— Quem? — Delfina, mais interessada no comissário de bordo, mal ouvia o que dizia a amiga de escola.

— Sua família. Por eu ficar em sua casa.

Delfina deu de ombros.

— Eles nunca se importam com meus amigos. Nunca estão em casa. Papai está sempre viajando a negócios, e minha madrasta está em Paris, acho. Provavelmente, à procura de homens...

— Delfina! — Ámbar exclamou, horrorizada. — Você não pode estar falando sério.

— Claro que estou. — Delfina não escondia o rancor. — Meu pai é vinte anos mais velho do que minha madrasta. Ela gasta o dinheiro dele como água e flerta com qualquer homem.

— E por que ainda estão juntos? — Ámbar indagou.

— Por que ela é linda... — Delfina ficou algum tempo pensativa antes de prosseguir, agora com sua habitual ironia: — Portanto, resta só meu irmão mais velho, que é pior que um carcereiro. Mas, pelo menos, com você lá, vou ter um álibi.

— Álibi?

— Claro. — Os olhos de Delfina brilharam. — Ele sempre tenta me impedir de sair com meus amigos, por isso não lhe conto mais nada. E, se ele perguntar a você, diga que eu estava na igreja quando me viu pela última vez.

— Delfina! — Ámbar começava a ficar apreensiva. As vezes, não sabia se devia levar a amiga a sério. — Claro que não espera que eu faça isso.

— Passar as férias em casa vai ser uma chateação — Delfina resmungou. — Ainda bem que em Roma existem discotecas fantásticas. Tenho certeza de que vai gostar.

Ámbar meneou a cabeça em negativa.

— Não gosto muito de discotecas.

Delfina finalmente notou o esboço nas mãos de Ámbar.

— Ei... O que é isso? Sou eu?

— Gostou? — Ámbar sorriu.

— Muito. Posso ficar com ele?

— Claro.

O avião pousou. Logo, as duas estavam no banco detrás de uma limusine reluzente, com um motorista uniformizado, seguindo em direção à mansão dos Álvarez. Delfina falava sem parar, enquanto desmanchava as trancas de Ámbar, libertando os cachos maravilhosos. Ámbar, por sua vez, encantada com a paisagem espetacular, esquecera completamente o assunto do avião. As duas estudavam numa exclusivíssima escola suíça.

— Mais cedo ou mais tarde eles teriam de conseguir me educar — Delfina falou, com sua costumeira irreverência.

Era uma escola cara, freqüentada por filhas de ricos e nobres, algumas de famílias ilustres, mas falidas.

O pai de Ámbar morrera, deixando a mulher, um filho, uma filha e uma fábrica de automóveis, para a qual o irmão dela tinha planos grandiosos. O dinheiro andava curto, mas fora suficiente para pagar a caríssima educação da filha. Ámbar, porém, andava preocupada com o bem-estar da mãe. O irmão irresponsável, Nico, agora à testa dos negócios da família, também causava certa apreensão.

A mãe de Delfina morrera havia poucos anos, e o pai logo se casara outra vez. Um grande erro, segundo Delfina, que não parecia morrer de amores pela madrasta.

— E meu irmão a detesta! — Delfina disse. Não deveria ser exatamente um lar feliz, Ámbar pensou.

De repente, a voz de Delfina a trouxe de volta à realidade.

— Chegamos! — a amiga informou, quando o carro entrou por uma alameda que levava a um enorme e imponente casarão branco. — E lá vem Simón, meu irmão. — Sua voz agora não passava de um sussurro dramático. — Não se esqueça, se ele perguntar se saio com homens, diga que não tenho nenhum interesse neles.

Pela janela da limusine, Ámbar viu o homem mais bonito que já vira na vida e sentiu o coração bater mais forte dentro do peito. Piscou algumas vezes para ter certeza de que não estava sonhando.

Não estava.

Era alto, fantasticamente alto para um italiano. Tinha ombros largos e fortes, cintura estreita e nariz aquilino. Os olhos eram escuros e cintilantes. Para Ámbar, ingênua e inexperiente, a figura do irmão de Delfina parecia saída de um dos romances que ela costumava ler desde o início de sua adolescência. Ela ficou completamente apaixonada.

Mais tarde, viria a descobrir que teria se apaixonado por qualquer um. Ter sido Simón foi mera infelicidade.

Ele cumprimentou a irmã com dois beijos no rosto e, então, dirigiu um aperto de mão formal a Ámbar.

O sol parecia desenhar um halo dourado em torno dos cabelos dela, pelo menos foi o que Delfina lhe dissera mais tarde, quando o coração de Ámbar ainda batia de forma estranha.

O vestidinho branco de algodão que usava apenas sugeria os contornos de seu corpo, mas bastou para deixar Simón Álvarez em alerta. Segurando sua mão delicada, enquanto ela ainda o fitava, fascinada, ele estreitou o olhar e comprimiu os lábios, ao fazer uma primeira inspeção.

— Meu irmão parece ter gostado de você, a julgar pela forma como a olhou — Delfina disse à noite, quando ambas já iam dormir.

— Que bobagem! — Ámbar respondeu, corando.

Claro que era bobagem, ela se convencera disso ao mergulhar na piscina certa manhã, alguns dias depois de ter chegado. Ou ele não a ignoraria de uma forma que beirava a grosseria, nem falaria com ela naquele tom horrível. Certa vez, Simón teve a petulância de lhe dizer para parar de se envergonhar da própria altura!

Às vezes, Ámbar achava, nadando para lá e para cá, tentando se livrar do calor que não passava, que ele a detestava, considerando-se a forma como a tratava. Outras vezes... Ela estremeceu. Outras vezes, Ámbar o surpreendia observando-a, olhando-a de forma tão intensa que a assustava e a arrepiava ao mesmo tempo.

Provavelmente, a única coisa agradável que lhe dissera fora certa vez, ao encontrá-la desenhando no jardim.

Simón chegara em silêncio, ficara algum tempo olhando por sobre seus ombros, observando seus dedos desenharem a estufa repleta de samambaias.

— Muito bom — ele finalmente se manifestara. — Acho que poderia ganhar a vida desenhando.

Ámbar corara com o súbito elogio.

Ela virou de costas, e bateu os pés preguiçosamente na água fria. Aquela era mesmo uma família bem estranha, pensou. Delfina parecia passar o tempo todo maquinando formas de chegar a uma das discotecas da cidade, o que ainda não conseguira, pois Simón sempre a impedia.

— Você ainda não tem idade — decretara certo dia. Em seguida, olhando para Ámbar, como raramente fazia, perguntara, desconfiado: — Vocês iam a discotecas na Suíça?

— Não! — as duas responderam ao mesmo tempo.

Porém, Ámbar fora incapaz de não corar, ao ver a facilidade com que Delfina mentia. E sabia que Simón percebera tudo, a julgar pela expressão severa.

O pai deles, Ámbar quase nunca via. Apesar dos sessenta anos, ainda era um homem bonito, mas parecia passar o tempo todo trabalhando, como Delfina dissera. Só voltava para casa na hora do jantar. Geralmente, jantavam só os três, uma vez que Simón parecia ter sempre um encontro, provavelmente com uma das muitas mulheres que viviam telefonando para ele. A madrasta continuava em Paris.

Entretanto, naquele dia, Ámbar estava sozinha em casa. Simón estava trabalhando, e o sr. Álvarez estava em Nápoles. Delfina fora visitar a avó, que morava do outro lado da cidade. Convidara Ámbar, mas esta sabia que a velha senhora quase não falava inglês e achara melhor deixar Delfina ir sozinha. Além disso, era até emocionante ter aquela casa toda só para si.

A piscina estava ótima. Ámbar mergulhara fundo, nadava tranqüilamente na parte mais profunda. Estava prestes a voltar à tona para respirar quando sentiu uma dor aguda na panturrilha, uma cãibra.

Talvez não houvesse entrado em pânico se tivesse mais fôlego ou se não estivesse tão no fundo. Apavorada, ela fez justamente o que não deveria... engoliu água, debatendo-se desesperadamente.

A cabeça e o peito pareciam prestes a explodir, mas, de repente, alguém a segurou pela cintura. Instintivamente, Ámbar tentou se soltar, porém, fosse quem fosse, era bem mais forte do que ela.

O recém-surgido a levou à superfície, onde Ámbar finalmente pôde respirar. Em seguida, recostou-se no peito de seu salvador, um peito forte e musculoso. Ela não precisava olhar para saber quem era.

Ainda segurando-a pela cintura, Simón recostou a cabeça na dela.

— Dio! — ele exclamou e, em seguida, nadou na direção dos degraus que levavam para fora da piscina. Quando já podia ficar de pé, pegou Ámbar no colo, tirou-a da água e deitou-a no gramado.

Simón mergulhara de roupa, não tirara nem os sapatos. A roupa encharcada delineava os músculos de seu corpo. Seus olhos brilhavam com intensidade.

— Você é louca — ele disse, enquanto apalpava o corpo de Ámbar, como um médico, à procura de algum osso quebrado.

— Eu... sinto muito. — Ela tremia enquanto as mãos másculas percorriam seu corpo.

— Poderia ter se afogado! Está machucada? Ela tremia tanto que não conseguiu responder.

— Está? — Simón insistiu, num tom severo.

— Responda!

Responder era impossível. Ámbar sentia-se muito frágil. E fez o que não fazia desde que seu pai morrera, no ano anterior... começou a chorar.

Simón mudou de atitude. Parecia revoltado consigo mesmo ao abraçá-la, tentando confortá-la.

— Não chore, bella mia — sussurrou. — Não há motivo. Tudo já passou.

Mas pensar no que poderia ter havido se ele não aparecesse a fazia soluçar ainda mais. Simón a pegou no colo outra vez e a levou para a casa. Não havia nada que ela pudesse fazer, além de recostar a cabeça no peito dele e continuar soluçando. Envolta por aqueles braços fortes, sentia como se estivesse no paraíso. Seu corpo molhado tão perto do dele...

Ámbar poderia ter ficado ali o dia inteiro.

— Aonde está me levando? — ela perguntou, ao ver que ele agora subia a escada.

— Você precisa se enxugar. — O tom já não era gentil, era de novo severo, o que a fazia indagar a si mesma por que ele ainda parecia tão irritado com ela.

Simón a levou para o quarto dela, sentou-a na cama e olhou ao redor rapidamente. Seu olhar parou numa gaveta aberta, de onde pendia uma minúscula calcinha e um sutiã.

Ámbar corou.

— Você tem um roupão de banho? — ele questionou.

Ela meneou a cabeça, negando. Roupão de banho não era algo para levar à Itália em pleno verão. Só tinha um robe de seda.

— Espere um pouco. — Simón saiu do quarto. Voltou pouco depois, com o que, obviamente, era seu próprio roupão de banho. Era uma peça linda, aveludada, azul-marinho. Deixou-o sobre a cama.

— Tire toda a roupa — ele ordenou. — Depois, vista o roupão, enquanto preparo um banho para você.

Se qualquer outro homem lhe dissesse tal coisa, Ámbar chamaria a polícia. Mas, como era ele, simplesmente concordou. Simón saiu em direção ao banheiro conjugado, sem olhar para trás. Parecia tenso. Ámbar começou a fazer o que ele mandara.

Falar sempre foi mais fácil que fazer. Ela nunca imaginara que tirar duas peças de biquíni pudesse ser tão difícil, porém o tecido molhado grudara em sua pele, e suas mãos ainda tremiam de frio.

Quando Simón voltou, encontrou Ámbar ainda às voltas com o fecho do top do biquíni. Ficou embaraçado. Como se nunca tivesse visto uma mulher quase nua, pensou.

Delfina já contara a Ámbar algumas peripécias do irmão, como a forma que encontrara para fazer mulheres entrarem e saírem de seu quarto quando ainda estava no colégio interno. E bastava olhar para ele para saber que, certamente, era um especialista na arte de fazer amor...

Simón a olhava de um jeito estranho, com raiva. E mais alguma coisa... algo que mesmo a inocente Ámbar podia reconhecer como desejo. Então, murmurou algumas palavras em italiano, antes de se aproximar...

— Sinto muito — ela sussurrou. — Não posso... meus dedos estão...

Sem dizer nada, ele apenas abriu o fecho com uma competência que deixou Ámbar enciumada, ao imaginar as mãos bronzeadas despindo outras mulheres.

Rapidamente, Simón a envolveu com o roupão e amarrou o cinto em sua cintura. Depois, ajoelhou-se a sua frente, deslizou as mãos por suas pernas, chegando aos quadris. Ela parou de respirar, sentindo o calor daquelas mãos na pele fria, enquanto ele tirava a calcinha do biquíni. O frio passou completamente.

Algo poderoso, ardente, pareceu despertar subitamente dentro dela. Um frenesi incontrolável. Seu corpo estava sexualmente desperto pela primeira vez.

Será que Simón percebera? Por que seus olhos brilhavam daquela forma assustadora?

— Seu banho está pronto — ele informou finalmente, jogando a calcinha do biquíni, como se fosse algo contaminado. E, levantando-se, saiu em direção à porta, dessa vez, sem a habitual elegância no andar. — Não demore menos do que quinze minutos — ordenou. Em seguida, num tom quase divertido, acrescentou: — Também não vale dormir na banheira, combinado?

— Sim, Simón — Ámbar respondeu baixinho.

— Ótimo. Estou lá embaixo fazendo café.

Ela entrou no banheiro, confusa, envolta pela maciez do roupão. Hesitava em tirá-lo, embriagada pelo cheiro de Simón. Limpou o vapor do espelho. Observou o próprio rosto, as faces coradas, os olhos brilhantes...

Mas era bobagem achar que aquele contato fugaz causara nele o mesmo efeito. Simón Álvarez metido com uma colegial? Sem chances, ela admitiu a contragosto, tirando finalmente o roupão e entrando na banheira.

O banho a restabeleceu quase completamente. Ámbar lavou os cabelos e deixou-os soltos. Vestiu jeans e suéter de algodão brancos, antes de ir ao encontro de Simón.

Parou na porta da cozinha e ficou ali durante algum tempo, observando. Era curioso ver uma figura tão masculina completamente à vontade em uma cozinha.

— Está melhor? — ele perguntou, ao vê-la. Fisicamente, estava, claro. Mas ainda sentia a efervescência que o contato físico entre eles despertara.

— Bem melhor — ela respondeu, tendo um acesso de gratidão. — Obrigada, Simón, por... salvar minha vida.

Ele sorriu.

— É melhor esquecer o que houve.

Porém, Ámbar sabia que jamais esqueceria. A atração que sentia por Simón Álvarez agora era quase irresistível.

Estou apaixonada, ela pensou, com tranqüila certeza.

— Sente-se — ele disse, indicando-lhe uma cadeira.

Ámbar fez o que ele havia dito, procurando algo para falar que não aludisse ao fato de ele tê-la visto seminua minutos atrás. Sentada ali, com os cabelos ainda molhados, o rosto sem nenhuma maquiagem, ela se sentia uma criança.

— Parece se dar bem na cozinha — falou por fim. listou surpresa.

Simón arqueou as sobrancelhas, sem fazer nenhum comentário sobre o preconceito implícito naquela observação, apenas serviu café numa xícara de porcelana.

— Os homens italianos são famosos por várias coisas, mas não acho que habilidade culinária esteja entre elas — ele respondeu, ao lhe entregar a xícara.

Ela sabia disso. Sabia exatamente pelo que eles eram tão famosos. Por ser... amantes maravilhosos. Ámbar respirou fundo.

— E você resolveu quebrar a tradição?

Uma súbita tristeza obscureceu o brilho de seus olhos, enquanto ele punha açúcar na própria xícara.

— Infelizmente não é possível ter empregados por perto o tempo todo, e, quando minha mãe morreu... — Simón hesitou. — Bem, papai ficou desnorteado por um bom tempo, e Delfina era pequena...

— Oh, sinto muito, não pretendia...

Simón sorriu.

— O tempo traz certa imunidade contra a dor, Ámbar. Seu pai também não morreu de repente?

— Delfina lhe contou?

— Sim. — Fitou-a nos olhos. — Acidente de carro, não foi?

Se fosse qualquer outro, talvez ela achasse a pergunta uma intromissão grosseira, mas Simón a fazia parecer a coisa mais natural do mundo.

— É verdade.

— Estava pensando nele na piscina... quando começou a chorar?

— Como adivinhou?

— Conheço bem a diferença entre medo e pesar.

— Simón voltou a sorrir. — Agora, beba seu café, e depois vamos sair para almoçar. Será que isso pode consolá-la?

— Almoçar? — Ámbar sentia-se a própria Cinderela. — Tem certeza?

O sorriso dele agora era meio enigmático.

— Absoluta — respondeu. — Outra característica dos homens italianos é gostarem de ser vistos na companhia de jovens bonitas.

Ela achou que ele enfatizara a palavra "jovens" de propósito, mas não se importou. Simón a levaria para almoçar, e isso era tudo o que lhe interessava.

Na verdade, aquele almoço arruinaria a vida de Ámbar.

Foram a um restaurante adorável. A comida estava deliciosa, e o meio copo de vinho que Simón a deixou beber era excelente. Ele parecia à vontade no ambiente discretamente elegante, e Ámbar procurava parecer da mesma forma. O único motivo de desagrado foi o fato de pelo menos três mulheres irem cumprimentá-lo. Mais velhas, certamente mais experientes. Ámbar torceu para elas tropeçassem e caíssem dos saltos ridiculamente altos que usavam.

Eram mais de três horas quando voltaram para casa. Ámbar, já completamente recuperada do susto, tentava imaginar o que ele sugeriria fazerem o resto da tarde. Porém, ele nem saiu do carro.

— Divirta-se — Simón disse, antes de adotar uma expressão severa. — Mas, por favor, não volte a nadar... não hoje.

Não foi fácil disfarçar o desapontamento.

— Aonde você vai?

— Trabalhar. Por favor, diga a papai e a Delfina que chegarei tarde... e que não jantarei em casa.

Desanimada, Ámbar entrou sozinha na casa maravilhosa. Passou quase a tarde toda tentando escrever uma carta, mas estava difícil porque lá fora agora ventava e, a distância, ouviam-se trovões ameaçadores.

De repente, aquele lugar começou a parecer horrorosamente grande e vazio. Estavam em casa apenas ela e a cozinheira, ocupada na cozinha.

Delfina ligou às seis horas da tarde para dizer que dormiria na casa da avó.

— A tempestade está horrível aqui — explicou. — E está se dirigindo para esse lado da cidade. Simón e papai já voltaram?

Como não queria preocupar Delfina, Ámbar não lhe disse que Simón não jantaria em casa e que, do pai,' ainda não havia nem sinal.

Era melhor Ámbar se ocupar com alguma coisa. E sobrava o que fazer naquela casa. Havia vários clássicos do cinema na sala de tevê, inúmeros livros ingleses na biblioteca...

Então, ela passou o resto do tempo entretendo-se como podia. Fez as unhas das mãos e dos pés, e também deu uma ajeitada nos cabelos.

A cozinheira estava visivelmente preocupada com o temporal que se aproximava, e Ámbar lhe disse para ir embora mais cedo.

Momentos depois, na cozinha, comendo frango com salada, Ámbar ouvia o ruído da chuva lá fora, cada vez mais assustador. Estar sozinha naquela casa imensa, numa noite de tempestade, era mesmo bem desagradável.

Após a refeição, Ámbar verificou se as janelas estavam bem fechadas e foi para seu quarto. Estava sentada na cama, lendo um livro, quando as luzes se apagaram. Ela gritou, assustada, em meio à escuridão.

Ainda tentava dizer a si mesma que era apenas um momentâneo corte de energia, comum durante as tempestades como aquela, quando um galho trazido pelo vento atingiu sua janela. Gritou de novo.

Ela mesma não saberia dizer quanto tempo ficou ali, encolhida, tremendo de medo sob as cobertas, até que alguém a descobriu. Era Simón, estava com a roupa e os cabelos molhados pela chuva.

— Você está bem? — ele perguntou, pela segunda vez naquele dia.

— Sim — ela respondeu, ainda tremendo.

— Tem certeza?

— Sim, está tudo bem.

— Onde estão todos?

— Delfina passará a noite na casa da avó por causa da tempestade. Quanto a seu pai, não sei de nada.

— O aeroporto está fechado — Simón informou. — Estava com medo por ter ficado sozinha em casa?

— Não — Ámbar mentiu, ainda trêmula. Na verdade, olhando para ele, o mundo agora parecia bem mais seguro.

— Espere aqui — ele pediu. — Vou tentar dar um jeito na luz.

Como não pretendia mesmo ir a parte alguma, ela voltou a se recostar nos travesseiros, até ouvi-lo chamá-la na porta do quarto. Ámbar pulou da cama e foi correndo encontrá-lo. Ele trouxera um candelabro, com três velas, que iluminavam seu rosto de forma estranha e sedutora. Simón parecia alguém saído de uma pintura, alguém de outra época.

— Vamos descer — ele falou.

Ámbar o seguiu. Lá embaixo, Simón acendeu a lareira e foi buscar dois conhaques, que deixou mima mesinha em frente ao fogo. Trocara a roupa molhada por um suéter de lãzinha preta e um jeans, também preto. Estava descalço.

Ámbar não pôde deixar de observar os lindos dedos de seus pés. Que loucura, achar atraentes os pés de alguém! Ela devia estar maluca. Sua boca secou e o coração bateu mais depressa quando ele olhou do fogo para ela e, de maneira quase relutante, respondeu ao sorriso de Ámbar.

— Quer conhaque? — Simón perguntou.

Ela recordou que durante o almoço ele não a deixara beber mais do que meio copo de vinho, e, talvez, ele também houvesse se lembrado disso, pois logo acrescentou:

— Para fins puramente terapêuticos. Você ainda parece meio abalada. Teve um dia horrível.

Ámbar achou a ocasião péssima para informar que nunca tomara conhaque. Além disso, estava mesmo abalada.

— Sim — respondeu por fim, sentando-se no tapete e estendendo as mãos na direção do fogo.

Ao tomar um gole do conhaque, imediatamente, ela sentiu o efeito da bebida se espalhando por todo o corpo.

— Está se sentindo melhor agora? — ele quis saber.

— Hmmm... bem melhor. — Ámbar fechou os olhos e sorriu. Quando voltou a abri-los, percebeu que Simón a olhava de uma forma estranha.

— Hora de ir para a cama — ele disse de repente, num tom severo. — É tarde. Leve uma vela com você, mas não a deixe acesa.

Dormir, porém, era impossível. Lá fora, a tempestade rugia. Por dentro, Ámbar vivia sua própria tempestade. Lembrava-se da sensação de ter estado nos braços de Simón quando ele a trouxera da piscina, das mãos dele libertando seus seios ao tirar o top do biquíni.

Inquieta, Ámbar rolava na cama, até finalmente desistir de dormir. Resolveu buscar um fósforo para acender a vela e poder ler seu livro. Vestiu o robe de seda e foi até a cozinha. Não demorou a achar o que procurava.

Já voltava para o quarto, quando, no corredor, quase trombou com um vulto a sua frente. Era Simón.

Ele usava apenas a calça de um pijama de seda preto, e Ámbar não conseguia tirar os olhos do peito nu e dos pêlos encaracolados.

— O que está fazendo aqui? — ele indagou, num tom, ao mesmo tempo, gentil e perigoso. — Por que não está na cama?

— Eu... não conseguia dormir — ela murmurou. Fez-se um momento de silêncio.

— Nem eu — ele disse finalmente. — Está com medo do temporal?

— Um pouco.

— Não há motivo — Simón falou, levando-a de volta para o quarto. — São apenas os deuses batendo palmas. Ninguém nunca lhe disse isso quando era menina?

Nesse momento, o estrondo de um trovão pareceu estremecer os alicerces da casa. Ámbar deu um pulo.

— Para a cama — ele ordenou rispidamente.

Ámbar obedeceu, fitando-o com os olhos arregalados, num apelo silencioso. Simón meneou a cabeça.

— Não, Ámbar. Você não sabe o que está pedindo.

Ela nem percebera que estava pedindo alguma coisa, mas começava a compreender que queria que ele ficasse. Para protegê-la da tempestade que rugia lá fora.

E em seu íntimo também.

Simón suspirou, relutante.

— Tudo bem... fico aqui até você dormir — concordou, num tom estranhamente resignado.

Ámbar deslizou por sob as cobertas, ouvindo as batidas do próprio coração.

Simón sentou-se na beira da cama, tão longe dela quanto possível.

— Agora durma — insistiu. — Nada vai lhe acontecer enquanto eu estiver aqui.

Ámbar acordou nos braços de Simón, sob as cobertas. Ele ainda dormia, a julgar pela respiração compassada. Sonolenta, aconchegou-se no peito másculo. E ele a abraçou mais forte. Ámbar nunca se sentira tão segura.

Num impulso, ela beijou seu pescoço. Era impossível resistir. Ela simplesmente não pôde evitar. Simón suspirou, excitado. Sua mão, repousada sobre a cintura dela, deslizou devagar até o seio.

Ele beijava seu pescoço enquanto desabotoava a camisola de Ámbar, murmurando algo ininteligível em italiano.

Ela não entendeu o que Simón disse, mas pôde perceber a satisfação evidente em sua voz. Em seguida, ele começou a mordiscar o mamilo de um de seus seios, enquanto acariciava as pernas dela. Ámbar gemia, sentindo um desejo incontrolável, aproximando-se dele ainda mais.

Simón beijou seus lábios insistentemente, e ela abriu a boca, como se há muito tempo soubesse como ele queria ser beijado.

Então, segurando uma das mãos de Ámbar, Simón a conduziu até o membro rijo, sob o pijama, e gemeu de prazer, ao contato dos dedos delicados.

Cada vez mais excitado, ele tirou sua camisola, e Ámbar percebeu aonde aquilo levaria. Simón iria fazer amor com ela.

Com os olhos semi cerrados, ele a beijava sem parar. Oh, como ela o amava! Muito, muito, muito... Seria capaz de morrer por ele.

— Oh, Simón... Simón... — Ámbar murmurava.

Ele parou de repente, ao ouvir suas palavras, as primeiras que ela dizia. Fitou-a, com olhos arregalados, parecendo horrorizado. A expressão dele sugeria uma batalha feroz entre o corpo e a mente. Por um momento, Ámbar chegou a achar que a mente perderia, mas foi apenas um momento.

Simón se afastou, enojado, como se ela fosse algo repugnante.

— Sua descarada... — Agora falava em inglês, para assegurar que ela entendesse o que tinha a dizer. — Tentava me seduzir com esses olhinhos manhosos e esse corpinho perfumado. Sabe o que acho de mulheres como você? Ainda bem que percebi a tempo. Tem apenas dezessete anos. Quando começou a se comportar assim?

Ámbar não tinha escolha. Teve de ficar ali, ouvindo, calada, aquele sermão. Claro que ele não acreditaria se lhe revelasse que era virgem, principalmente depois da forma como procedera. Como explicar seu comportamento? Dizer que estava apaixonada só pioraria mais as coisas.

— E pensar que deixei minha irmã se aproximar de tal tipo de mulher! — vociferou. — Trazê-la para minha casa! Não admira que as notas dela tenham sido tão baixas. Não admira que ela pareça obcecada por discotecas e homens.

Ámbar abriu a boca para protestar contra aquele julgamento precipitado de sua influência sobre Delfina, mas fechou em seguida. Não queria envolver a amiga no assunto.

Além disso, lealdade à parte, ele não acreditaria mesmo. Como poderia?, Ámbar pensou, lembrando-se do que acabara de acontecer...

— Como é, não tem nada a dizer?

Ámbar não tinha, apenas desviou o olhar. Porém, Simón se aproximou dela, segurou seu queixo, forçando-a a olhar para ele, mantendo-a prisioneira daquele olhar hostil.

— Preste atenção — ele disse. — Arrume suas malas e esteja pronta para sair desta casa às seis horas da manhã.

— Mas eu...

— Cale a boca — ele a interrompeu. — Você vai fazer exatamente o que eu mandei. Um carro a levará ao aeroporto, e você pegará o primeiro avião para a Inglaterra, onde um outro carro a estará aguardando para levá-la para casa. Sua mãe está em casa, não está?

— Sim, mas... o que vou dizer a ela? Simón hesitou por um momento muito breve.

— Eu cuido disso. Vou ligar para sua mãe e dizer que Delfina e eu tivemos de viajar de repente. O que, aliás, é verdade — acrescentou. — Pretendo passar algum tempo com ela e lhe ensinar o que uma mocinha deve ou não fazer.

Já a caminho da porta, ele se voltou de súbito e prosseguiu:

— Gostaria de lhe dizer outra coisa... nunca mais procure minha irmã. Seu relacionamento com a família Álvarez terminou aqui. Entendeu?

Ámbar levantou a cabeça, demonstrando um orgulho que estava longe de sentir.

— Perfeitamente, Simón — respondeu num tom tão seguro que surpreendeu a si mesma. Agora, com ele a uma distância segura, era possível pensar com mais clareza. E ela pensava na falha estrutural daquela severa lição de moral. — Mas é óbvio que não sou a única responsável pelo que houve.

Ele enrijeceu, e Ámbar acrescentou:

— Como dizem... quando um não quer, dois não brigam. E foi você quem provocou isso tudo.

— Ah, você acha mesmo? — Simón ironizou.

Ela corou, porém não se esquivou da acusação no olhar dele.

— Se a idéia de fazer amor comigo lhe causasse tanto horror, teria desistido bem antes.

— Quando um homem é acordado daquela forma, geralmente não pára para analisar a situação. — Simón se voltou outra vez e abriu a porta. — Digamos que eu a tenha confundido com outra mulher — falou, antes de sair.

Que ódio! Olhando para a porta entreaberta, Ámbar percebeu que nunca sentira tanto ódio em toda sua vida.



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