História A Ordem da Serpente - Capítulo 2


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Capítulo 2 - 1.0 - Kaya Askook


Fanfic / Fanfiction A Ordem da Serpente - Capítulo 2 - 1.0 - Kaya Askook

Da torre do relógio, localizada no lado sul do pátio central, o badalar dos sinos anunciavam outro início de hora e nos corredores uma única dupla – que carregava um passe livre em seus uniformes por terem sido previamente designados para certa tarefa – acelerava os passos em direção aos jardins do castelo antes que os outros alunos começassem a sair para o tempo livre antes do jantar. Seus uniformes, especialmente a saia azul plissada da garota, voavam com o vento e a poeira insistia em entrar nos olhos do garoto.

— Ande mais rápido! — Ordenou a garota de cachos castanho-dourado tão curtos que não se permitiam a queda para além do comprimento do pescoço. Sua vantagem em relação a ele eram os óculos que protegiam olhos esverdeados sem intenção.

— Estamos atrasados! — Protestou irritadiço se esforçando para vencer a falta de vontade de seguir a garota. — Que diferença fará?

No entanto, a garota parecia não dar a mínima para seus murmurinhos e seguia falando pela milésima vez aquilo que ele não. — A bandeira já deveria ter si...

Nem mesmo conseguiu terminar de se pronunciar sobre o assunto. Sua respiração não conseguia manter o ritmo de seus passos. Difícil mesmo era lembrar que o movimento de seus pulmões era essencial para manter a oxigenação de seu cérebro.

— Senhorita Hale e senhor Scarrow! — A voz estridente da diretora chegou aos ouvidos dos dois jovens quando eles cruzaram dos corredores para o gramado. — Quantas vezes terá de ser dito sobre correr nos corredores?

Malibu Hale parou quase imediatamente ao ver a figura feminina que surgia em sua frente, caminhando com graciosidade sobre o gramado com saltos tão altos – o que só era possível graças a um feitiço que impedia que ele afundasse na terra – e o garoto que estava pouco para trás quase chocou-se com ela.

— Professora Spellcaster, nos perdoe... — Implorou, deixando bem claro o desespero em sua voz. Tudo o que não precisava naquele momento era problemas para sua casa, ou melhor, problemas para si mesma. — Estamos atrasados para...

— O recolhimento da bandeira? — Perguntou com um sorriso de escárnio que assustava o pobre menino.

— Como é que... — As palavras de Eoin Scarrow desapareceram no ar quando a mulher de lábios azuis inclinou a cabeça e guiou seu olhar para o mastro onde a bandeira dos Estados Unidos continuava a balançar em seu topo. — Ah, .

— Bom, acho melhor se apressarem. — A diretora avisou, dando um passo para o lado. — E gostaria que fossem a minha sala assim que terminassem.

— Está bem. — Malibu preferiu não protestar. Pior do que estava com certeza poderia ficar.

Ambos passaram pela mulher sem mais problemas, mas pelo menos um deles sabia que o pior estava guardado para depois. Eles não estavam sendo convidados para a sala da diretora com intuito de tomarem uma xícara de chá e comer biscoitos. No fundo de seu amago, a jovem Hale sabia muito bem que receberiam uma pequena aula sobre a importância do patriotismo e depois a punição adorável de participar de uma aula de detenção com o velho fantasma da lei que também era conhecido como o fantasma acorrentado.

Ao olhar para o garoto que carregava o símbolo da Pukwudgie no peito, Malibu reparou que não era a única chateada por ali. Na verdade, Eoin estava completamente emburrado e isto estava irritando todo seu ser. Ele era o maior culpado por aquela situação por não ter comparecido ao ponto de encontro no horário exato e agora parecia querer bancar a vítima.

— Guarde esta cara emburrada para depois, Scarrow.

— Não estou com cara emburrada. — Resmungou.

— É claro que não. — Seus olhos rolaram por baixo dos óculos.

— É por isso que ninguém gosta dos alunos de Horned Serpent.

— O que? — Cruzou os braços, parando no meio do caminho, e encarou o rapaz que ousava falar mal de sua casa.

— Vocês todos são assim...

— Assim como?

Eoin preferiu ignora-la naquele momento e prosseguiu andando. — Vamos! Ainda temos uma bandeira para recolher graças ao patriotismo americano.

— Como se você não fosse americano.

— Eu não sou. — Certamente irritado, o garoto apressava o passo. — Sou irlandês.

Com um erro daquele, preferiu permanecer quieta pelo resto do tempo que teria com o rapaz. Não conhecia ele o suficiente. Seu único contato com ele até então havia sido apenas nas aulas de Herbologia, a única classe obrigatória que Horned Serpent dividia com Pukwudgie.

Chegaram ao mastro em perfeito silencio e logo dividiram seus afazeres. Eoin ocupou-se em puxar a corda, fazendo com que a bandeira descesse e assim que a altura ficou baixa o suficiente, Malibu soltou-a e cuidadosamente colocou-se a dobra-la.

— Por que não usa a varinha? — O rapaz sugeriu.

— Facilidade não resulta em qualidade. — Respondeu, lembrando-se perfeitamente do conselho de seu pai. — Além disso, eu não estou com minha varinha.

— Em que aula você estava? — Perguntou assombrado com a informação.

— Estudos No-maj.

— Quem ainda estuda isso? — Obviamente, não queria magoar os sentimentos de ninguém com aquele comentário, mas bruxos deveriam manter distância do mundo no-maj. — Na verdade, não sei como Dollanganger ainda não tornou isso ilegal.

— Porque isso seria ferir os Direitos Universais dos Bruxos estabelecidos por...

Eoin bocejou, preparando-se para ouvir um discurso bem elaborado sobre defender os No-Majs, seus decentes e sua cultura. Poderia até mesmo dizer que ela era filha de um, mas não havia quem não soubesse sobre os pais de Malibu Hale. Eles eram basicamente celebridades do mundo bruxo. A mãe, Nicola Kolsch, atualmente uma famosa bailarina bruxa, descendia de uma poderosa família puro-sangue dos países baixos na Europa e havia engravidado logo após se formar em Ilvermorny. Já o pai, Eugene Hale, um famoso jogador de Quadribol, se tornou um verdadeiro escândalo após assumir um relacionamento com Thomas Fitzgerald, um jornalista do The New York Ghost. Com uma família sempre em alta, era uma surpresa que Malibu fosse completamente ninguém.

Quando a menina finalmente terminou seu torturante processo de dobra, os dois voltaram a caminhar para dentro do castelo. A neblina vinda do Lago do Nevoeiro já cobria seus pés e as luzes exteriores da escola já começavam a acender. Eoin adorava aquela sensação fria e úmida. Era quase como andar por entre fantasmas.

De repente, algo chamou a atenção do rapaz. No portão principal, o único do muro leste, estava a mulher que haviam visto alguns minutos atrás. Não era algo cotidiano ver a diretora parada em frente ao portão como se estivesse esperando alguém.

— O que a Professora Spellcaster está fazendo ali? — Perguntou com curiosidade, mais para si mesmo do que para sua atual companhia.

Malibu ainda não havia percebido que havia alguém nos portões. Seu olhar era fixo no chão, pois esperava não tropeçar na hora que o gramado fosse substituído pelo paralelepípedo que levava ao portão de entrada. Mesmo assim, precisou levantar a cabeça para entender o que o rapaz estava querendo dizer e ficou surpresa com o que viu.

— Aquela não é Kaya Askook? — O espanto dos dois foi tanto que acabaram por fazer a mesma pergunta juntos.

— Thomas escreveu um artigo sobre o drama família Askook recentemente. — A jovem ajeitou o óculos em seu rosto. — Não esperava que ela voltasse para Ilvermorny depois de tudo que aconteceu.

— Acho que ninguém esperava por isso.

— Sinto muito por ela. — Suspirou e voltou a andar. — Esse ano, ela vai conhecer o que O Berrador é capaz de fazer com uma pessoa.

E não demorou muito para a profecia de Malibu se cumprir. Durante seu caminho para a sala da diretora e observaram as corujas e outros tipos de pássaros-correio invadirem os corredores com pedaços de pergaminhos em suas patas. Dois minutos depois, toda e qualquer alma vivente que estava em seu caminho comentava espantada a volta da garota Askook que havia sido internada após um surto psicológico no ano anterior.

— O que será que deve estar escrito? — Eoin estava curioso.

— Não quero nem imaginar. — Respondeu com tristeza. Uma única vez, em seu terceiro ano, havia sido alvo das palavras ruidosas daquele jornal graças ao novo affair de seu pai e, honestamente, nunca havia sido tão humilhada em toda sua vida. — Todos viram o que ela fez ano passado. Quase foi expulsa da escola por atacar outra aluna. Sorte que seu avô faz grandes contribuições para o mundo bruxo e tem influência suficiente para evitar esse tipo de coisa...

Finalmente chegando ao ponto de acesso a diretoria, os dois jovens encontraram uma garota bem conhecida entre eles. Era Marvena Khumalo, a favorita ao trono de Presidente do Conselho Estudantil do próximo ano, cujo as tranças pareciam prestes a atacar alguém que desrespeitasse as normas escolares.

— Não sei por que não estou surpresa. — Sua voz de desdém chegou aos ouvidos dos jovens de maneira assustadora. — Eu disse a Professora Thorne que não era uma boa ideia colocar o senhor Scarrow na lista da bandeira, mas infelizmente as pessoas hoje em dia acreditam em integração social dos imigrantes ilegais.

— Eu não sou um imigrante ilegal! — Eoin protestou.

— Bom, eu realmente espero que a ação disciplinar não seja tão ruim para você, Scarrow. — Marvena se virou, ignorando a raiva que se iluminava no rosto pálido do rapaz, e tocou o nó céltico na parede. — E quanto a você, Hale, sinto muito por estar a desagradar seus dois papais.

Malibu corou e abaixou a cabeça enquanto os tijolos se movimentavam.

— Retiro o que eu disse sobre os Horned Serpent. — Eoin sussurrou para a jovem ao seu lado esperando que Marvena se afastasse o suficiente para não ouvi-lo. — Os Wampus são bem piores.

Se a ocasião fosse outra, Malibu certamente teria deixado escapar uma boa gargalhada, porém os bustos dos antigos diretores pareciam encarar sua vergonha de ter cometido um erro.

Pouco menos de um minuto, a porta da diretoria se abriu e o estômago da garota quase escapou-lhe pela boca. Precisou respirar fundo duas ou três vezes para dar um passo para dentro do corredor que levava aquela sala e ainda mais quando chegaram próximos a sala, mas somente quando os olhos castanhos da Presidente de Classe a encarou que criou coragem para entrar.

— Já leram o Berrador hoje? — A morena perguntou, erguendo uma sobrancelha enquanto abria a pequena revista de fofoca que trazia em seu bolso. — Está verdadeiramente intrigante. E sabem qual a melhor parte? Graças aos dois anjinhos, vou poder ser uma das primeiras pessoas a encarar...

— Me desculpe pela demora, senhorita Khumalo. — A diretora irrompeu a sala jogando os sapatos altos para um canto e apontando a varinha para algum lugar no topo de uma estante de livros. — Ah, os senhores também estão aqui! Ótimo, ótimo...

— Professora Spellcaster, eu gostaria de saber se posso...

— Ah, não! Não mesmo... — Os lábios curvaram-se para baixo ao ver que o feitiço de convocação não trouxera o que esperava. — Isso pertence a outra pessoa... Onde foi que enfiei?

— Professora... — Marvena insistiu.

— Aqui está! — Uma caixa retangular, não muito grande, desceu de uma das estantes até a diretora que agora já colocava outros sapatos de salto. — Enfim, onde estávamos? Claro! Eu preciso conversar com vocês dois, mas o senhor Askook precisa conversar comigo antes de partir e ele tem pressa... Será que podem esperar do lado de fora?

— Professora Spellcaster, eu...

— Senhorita Khumalo, pode lembrar ao senhor Dollanganger que o conselho será este domingo?

— Claro, mas...

— E peça para o senhor Askook entrar.

Marvena não pareceu contente por não ser ouvida e saiu com pressa da sala. Eoin, que estava sentado em uma confortável poltrona, precisou de forças vindas do além para se levantar e sair daquele local estranhamente bagunçado.

— Antes que eu me esqueça, senhorita Hale, pode entregar a senhorita Askook a varinha dela?

Malibu se aproximou da diretora e tomou em mãos a pequena caixa que guardava a varinha da garota e saiu dali em passos rápidos. Eoin a atacou assim que atravessou o batente, pegando a caixa de sua mão quase no mesmo momento em que o Senhor Askook passou por eles.

— Tire as mãos disso, Scarrow! — Protestou. — Não é seu!

— Eu só quero dar uma olhada antes que...

— Com licença? — Uma garota sentada em um banco a esquerda deles chamou a atenção ao perceber sobre o que discutiam. — Será que podem me devolver isso?

— Kaya Askook? — Eoin pareceu espantado e sua distração resultou em ter a caixa arrancada de suas mãos.


Notas Finais


Quadribol: Esporte bruxo, cujo objetivo é conquistar a maior quantidade de pontos até o final da partida. Os jogos são disputados por duas equipes de sete jogadores em um campo oval com três aros de altura diferente em cada extremidade.

Herbologia: Matéria de estudo bruxo semelhante a biologia. Seu foco é o estudo plantas mágicas.

Pukwudgie: Uma das quatro casas de Ilvermorny, representada pela criatura magica de mesmo nome. Essa casa representa o coração dos bruxos.

Horned Serpent: Uma das quatro casas de Ilvermorny, representada pela Serpente Chifruda, uma criatura mágica dotada de grande sabedoria. Essa casa representa a mente dos bruxos.

Wampus: Uma das quatro casas de Ilvermorny, representada pelo Pumaruna, criatura magica se assemelha a uma pantera negra. Essa casa representa o corpo dos bruxos.

The New York Ghost: Jornal mais popular da colônia bruxa nova iorquina. Assemelha-se ao Profeta Diário, jornal bruxo da Inglaterra.


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