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História A ponta da minha faca seria sua catarse mais linda - Capítulo 1


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Notas do Autor


theres a honey - pale waves

Capítulo 1 - (muito, sinto muito)


acordei com um suspiro alto de decepção. 

por um momento minha psique (que já não era um exemplo de estabilidade) me fez enxergar, ainda de olhos fechados, pelo menos três exatas dezenas de pessoas que poderiam ter entrado na minha sala e estariam ao pé do sofá me observando dormir. meu iminente blecaute por excesso de entorpecentes ou simplesmente o quase-coma-alcóolico, não foi o suficiente pra me poupar do salto assustado meio doloroso aos neurônios restantes — os últimos guerreiros que sobreviveram. 

era ela.

— ah, deus. — resmunguei, tateando minha testa. tudo girava mas ao menos a cabeça parecia estar no lugar. 

ela sorriu com descaso, bufou umas três palavras e atravessou a sala em direção ao quarto. carregava uma mochila preta (que eu tenho quase certeza que era minha) e uma mala azul pequena na mão.

minhas sinapses fizeram questão de mostrar com argumentos visuais incontestáveis o fato errôneo, um pouco impulsivo, da memória episódica exata daquele dia que entreguei a chave do meu apartamento nas mãos dela. precisei de dois anos, vários porres, centenas de discussões idiotas e uma última despedida boçal pra perceber que foi um erro: ela poderia entrar e sair a hora que quisesse do meu lugar particular, e sempre deixava uma bagunça no seu rastro.

meu olfato não era um exemplar de perfeição, mas tive quase certeza de que ela fedia a cigarro de outra pessoa, fumado por outra boca. a camiseta também não era dela. 

—...não vai mudar nunca. — ouvi quando, cambaleante pela ressaca desgraçada, entrei no meu quarto. 

ela socava cheia de fúria as roupas dentro da mala, seu celular novo tocava alguma do cazuza estourando nos fones, os tênis amarelos sujos de areia molhada. eu sabia por onde ela tinha andado só pela rápida observação. 

então eu ri. tava bêbada, inabalável. ela acabaria voltando depois daquilo só não consegui entender se eu a queria de volta. 

— opa, essa daí é minha. — apontei para uma das camisetas amassadas na mala. 

— não, você me deu.

— é, mas a gente tava junto. — encostei na parede, cruzei os braços — agora você que compre a sua.

haha!, ou algo do tipo inundou o quarto, ela queria gargalhar com descaso mas não conseguia esconder o quanto sentia raiva de tudo aquilo, sua indignação a sufocava mais que as palavras idiotas que não saíam. grunhiu qualquer coisa e jogou a >m i n h a< camiseta na cama até que de repente parou, subitamente como um robô colocou as mãos na cintura, olhou pra baixo pensativa, mostrando os dentes enquanto o odor prévio das lágrimas acabavam com o cheiro do meu novo perfume. ou desodorante.

— por que você fez isso? — me encarou pela primeira vez — por que me contou a verdade? — o anoitecer em seus olhos estavam molhados, no entanto ela não ia chorar de se descabelar — eu nem to perguntando o motivo da mentira, eu só… cara, eu só não queria saber a verdade. você fodeu até meu senso crítico a ponto de eu preferir viver na merda da mentira. por quê?

engoli a saliva, tinha gosto de remédio de morango. torci para que as mesmas sinapses de antes pudessem me mostrar o que foi que eu tomei junto da vodca pra deixar aquele gosto hospitalar, meio azedo. fiquei uns momentos longos confabulando acerca disso, ainda acredito que era a balinha mas e se eu tivesse me confundido e tomado o xarope pra tosse? eu definitivamente teria um problema, tava complicado encontrar aquela marca em específico na farmácia perto de casa, e andar uns metros até a outra lá no centro não era uma opção, tem muita gente pelo caminho. gente, eca. aliás, se eu tivesse misturado as duas coisas provavelmente teria um coma alcóolico e acordaria com uma dor de cabeça maldita… ah sim. então tava explicado.

— puta merda, você ao menos poderia fingir que está me ouvindo? 

gaguejei algo inaudível, me recompus só não me lembrava qual era o assunto.

— posso. — eu realmente teria que andar até o centro da próxima vez. ah, cara... — fingir. ou ouvir, desculpa qual era mesmo a pergunta?

ela se abaixou novamente, o peso da frustração encurvando suas costas. a garota se magoava demais, contudo suas atitudes permaneciam um enigma autodestrutivo, eu não conseguia sequer interpretar seus gestos, quanto mais entende-la.

— você tem mil maneiras de estragar tudo. por que eu ainda me surpreendo? — riu. enquanto chorava e ria. não exatamente nessa ordem. 

— ah, foi essa a pergunta? — tentei genuinamente analisar a questão, cheguei a conclusão de que: também não sei. se nem ela se conhecia, quem dirá eu.

pensei em responder com a palavra coringa que uso pra qualquer coisa, como se justificasse minhas ações, algo como “tédio, né”, mas ela provavelmente reviraria os olhos daquele jeito irritante, soltaria uns risos de nervoso pelos vãos dos dentes e falaria qualquer palavrão sobre o quanto aquilo não era resposta pra nada, não tapava lacuna nenhuma. 

— sabe, a gente podia ta junto se você não fosse tão cruel. 

— sei. — disso eu realmente sabia.

e também sabia que podia empurrar alguma frase pronta, pedir pra ela esperar até eu passar um café, assar um bolo de limão, aqueles massa pronta, então a gente sentaria na mesa e conversaria sobre aquilo até divergir acerca das visões que temos da vida, eu realista, ela alice no país das maravilhas. mas eu tava com dor de cabeça e o isolamento ainda era mais atraente, o pó de café tava acabando, de qualquer forma o mercado tava quase em quarentena. 

o cerne de tudo é que animais selvagens como eu não podem ser domados, uma hora ou outra cedem aos instintos sem pensar duas vezes e simplesmente caçam por motivos egoístas. tipo aquela frase do animal planet sobre crocodilos matando qualquer porcaria só por diversão e chorando superficialmente: sobrevivência do mais forte, blá blá blá. eu só não tinha ideia de até que ponto continuava o predador da história porque ela, tão frágil como era, parecia mais viva que eu. e ela podia começar tudo de novo, estava quebrada mas ainda tinha algo concreto atrás das costelas porque conseguia sentir, muito. sentia muito, a todo momento. sentia e nem sabia o quê. só sentia muito. e sentir muito nem era um sentimento de verdade.

enquanto eu não carregava nada dentro do peito.  

ela se sairia bem. feliz até onde a vida permite, encontraria alguém que faria questão de não cometer os mesmos erros que eu (algo que não era tão dificil já que eu me esforcei pra ver o espetáculo terminar em catástrofe), e finalmente voltaria a sorrir de verdade, sem descaso nem nervosismo, ou tristeza. eu a esfaqueei pelas costas mirando o coração no entanto a ponta da minha faca seria sua catarse mais linda. 

ela esbarrou no meu ombro quando saiu do quarto. me encarou por segundos e desviou o olhar, eu conseguia ouvir o enjoo em seu estômago e as batidas aceleradas do seu coração, mas eu não merecia sua atenção e ela não merecia as minhas desculpas mentirosas. as marcas que deixei na psique dela me tornariam imortal, a levariam até o âmago da satisfação pessoal afinal, não se conhece a felicidade sem ter ido ao fundo da melancolia.

— parabéns, você estragou tudo. — disse, e foi-se embora ser feliz.

inveja,

eu sinto

muito.


Notas Finais




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