História A Praga Vermelha - Capítulo 2


Escrita por:

Postado
Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Armas, Catástrofe Conquista, Darkfic, Guerra, Hentai, Horror, Internet, Luta, Mídia, Morte, Mundo, Sado, Sangue, Sobrenatural, Terror, Vampiros
Visualizações 34
Palavras 4.564
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Hentai, Literatura Feminina, Luta, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Canibalismo, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Aqui está o capítulo dois e algumas surpresas, desculpem-me pela demora.
Espero que gostem!

Capítulo 2 - Número 13


Fanfic / Fanfiction A Praga Vermelha - Capítulo 2 - Número 13

 

“Pois os mortos viajam depressa. ” – Bram Stoker, Drácula.

 

Washington, EUA

 

- A madrugada erguia-se fria e traiçoeiramente silenciosa ao redor da construção de mármore outrora tão claro. A lua estava quase cheia, beirando o seu ápice imperioso e brilhante que iluminava as janelas daquele salão em especial, criando ondas de luz espectrais. O caminhar resoluto e pesado pelos macios tapetes persas adquiridos há mais duzentos anos espalhados milimetricamente pelo piso, revelava o modo austero e implacável do qual o dono dos passos movia-se prestes a declarar seus novos e atrozes desejos a sua especial e mais ofensiva criação que permanecia tão imóvel a sua frente quanto uma escultura de pedra. O único som que ressoava no gabinete presidencial quebrando a paz monótona era a voz grave e profunda, de sílabas bem pronunciadas com um sotaque desconhecido, cuja rouquidão diminuta criava uma atmosfera intimidante e gélida que reverberava pelas paredes totalmente modificadas. A casa branca, há muito deixara de ter aquela cor.

- Não quero que sobre nada. Nenhum governante, nenhum miliciano, nenhum manifestante, nada e nem ninguém que possa atrapalhar ou criar uma espécie de movimentação contrária ao meu querer. - Moveu a cabeça para o lado em um movimento veloz e impossível para olhos humanos captarem em sua totalidade. A luz da lua criava uma aura gélida e marmórea na expressão rígida e temperamental. - Daremos novas diretrizes e governantes aos países que entraram em acordo, todavia nada deve permanecer como está. Reúna todos os presidentes que ainda se negam a concordar, e faça deles o mesmo que foi feito com Ginger Harper, ou pior. Nenhum desses insolentes passará pelos meus olhos sem que pereça, e quero que o mundo todo presencie o que acontece com quem se nega a cooperar.

- Sim, meu senhor. – O vulto assentiu submisso e obediente em um movimentar de cabeça mínimo. O uniforme vermelho recoberto pela sua pesada capa cor de vinho contrastava de forma exuberante com seus cabelos e rosto à vista. – Será feito.

- Eu sei que sim. – Sorriu em desdém comedido enquanto caminhava lentamente para as costas da figura rubra, parou a poucos centímetros da nuca parcialmente descoberta segurando o ímpeto obsessivo de sua natureza de encostar suas presas longas e afiadas naquele pescoço pálido e de pele quase translucida cujo sangue frio ao contrário de seus outros servos estava maculado com o seu próprio. As pupilas amarelo-douradas brilharam em resposta a negação interna do seu desejo. – Irá fazer isso por mim, não é mesmo?

O hálito frígido roçara como uma espécie de brisa fria e morta por sob sua pele de alabastro. Todavia, não houve qualquer reação.

- Estou aqui para cumprir as suas ordens, meu senhor. – A resposta imediata sem o menor titubear ou razão de pensamento crítico o fez sorrir, porém havia um certo descontentamento que só ele, de certo, sabia.

- Sob qualquer circunstância? – Perguntou movendo uma mecha de cabelo pesada e brilhante para o lado apenas atiçando as memórias trancafiadas e exiladas da mente alheia em seu controle. A sua querida e estimada praga, nada mais era do que uma marionete comandada por um sádico e cruel ventríloco. Criada para ser uma implacável adversária ao que quer que pudesse desafiá-la. Um monstro que quebrasse a visão de que o mundo será salvo por um herói qualquer usando capa. Todavia, havia mais do que isso na mente torpe e conquistadora do novo Kaiser. Sempre havia algo a mais.

- Sim, meu senhor. – Não havia falhas na voz dura e vazia.

A risada fantasmagórica repercutiu melódica nos ouvidos apurados Dela. Teve a vaga impressão física de que sentira algo mais ao ouvir o seu mestre rir. A sensação de formigamento que crescia pelas suas costas, chegava os seus braços como um veneno injetável, cuja origem estava na presença belicosa e invulnerável próxima a sua jugular. Sabia que se ele quisesse a morderia e ultrapassaria a sua pele como nenhum objeto metálico por mais duro que fosse conseguiria. Entretanto observava que talvez fosse uma mera ilusão criada pela sua mente entorpecida pelas alternativas que teria de cumprir e pela proximidade.

- Não, não é uma ilusão, minha querida. – Tracejou com os dedos da mão esquerda pelo seu pescoço, cruzando os tendões que ficaram tensos ao toque, e parando na sua garganta erguendo o seu queixo para cima com o indicador de modo que sua cabeça viesse para trás. Poderia sentir aquele cheiro peculiar do sangue dela sem o mínimo problema, o aroma que apesar de sua mudança de espécie não a deixava, característica essa que o perturbava em vários momentos quando ela já não estava mais em sua presença de forma servil e silenciosa. – Eu controlo a sua mente, sei de cada recôndito e de cada desvio em seus pensamentos, a sua conduta e seus juízos anteriores, de cada sentimento que tomei de você e tranquei longe de seu alcance. Todavia... – Em um movimento rápido virou-a de modo que ficasse tão próxima a ela que a sua única alternativa fosse encará-lo, e aquilo novamente gerou outros reflexos físicos que a fizeram ficar confusa, único sentimento passível de ser estampado visivelmente em seus orbes vermelhos e brilhantes como um líquido incandescente. - .... Seu corpo continuará sentindo a mesma coisa, os mesmos estímulos, mas de um modo cruelmente separado do que seria normal. Mais primitivo, eu diria. No entanto, ainda me pergunto se resta algum parecer racional além do que eu mesmo permito.

Sorriu ao ver pela primeira vez em semanas as sobrancelhas finas e bem-feitas fecharem-se em uma expressão cuja dúvida era quase como um ente palpável ao seu tato. Estava visivelmente confusa, e era nesse estado que ele pretendia deixa-la. Sua mente era uma fonte de inúmeras incógnitas que apesar de conhecidas, ainda tinham nuances ignoradas para serem exploradas.

- Vá, cuide das minhas ordens sem a mínima dúvida ou hesitação, mas... volte para mim o quanto antes. – Sussurrou voltando a caminhar em direção a janela, já distraído com novos rumos em sua própria cabeça, ouvindo os passos apressados com o peso da morte saírem do recinto.

♠ ♠

 

- O terror funesto caminhava a passos largos e velozes com direções múltiplas e bem definidas como em um mapa marcado por uma extensa mancha de sangue, em uma marcha inexorável rumo as conquistas regadas a dor e sofrimento. O vizinho acima do novo país controlador do novo império, Canadá, havia sido usurpado em um período extraordinário e curto de tempo, questão de horas especificamente. Seu governante não ousara titubear covardemente em entregar o país nas mãos de seu vizinho truculento, tendo em vista a forma como tudo estava sendo feito e destruído. Todavia não obtivera o final esperado ao entregar-se, sendo deposto em frente ao congresso nacional onde todo o mundo presenciara a sua sumaria eliminação como um verme qualquer cujas entranhas banharam o festival de horror que brincava nas telas nos quatro cantos do mundo.

O México havia sido dominado sem o menor obstáculo em questão de dias por um dos grupos mais vigiados pelas televisões e suas emissoras sensacionalistas que sempre repassavam duramente as imagens obtidas em momentos críticos. Desde então, seu presidente não se era sabido onde poderia estar ou o que acontecera de fato a sua pessoa com a passagem do que as mídias agora denominavam como “A Mancha Vermelha”, o rastro de destruição deixado pela Praga e seu contingente inúmero de bestas incontroláveis que matavam e destroçavam o que estivesse em seu caminho sem o menor resquício de piedade. Perguntavam-se erroneamente quem ou o que estava por trás daquele manto rubro, e que se ainda era humano para ser destruído por alguma arma já criada.

Todavia obter a resposta contundente de que nada realmente abateria aquele símbolo da aquisição violenta e absolutista, gerava cada vez mais pânico e horror a cada nova catástrofe. A destruição total de quase todos os países da América Central amedrontou drasticamente os países da América do Sul, porém, não tiveram tanto tempo para planejar reuniões acerca da segurança de seus territórios até então tido como seguros. O final batia a porta enquanto o fim do dia caia em uma penumbra nunca antes vista, e andava a passos quase tão largos que se igualariam aos rastros de um fantasma movendo-se em uma velocidade aterradora por entre os corredores do edifício que abrigava o então contingente de vereadores, deputados, congressistas e o presidente da atual República falida, Federativa do Brasil.

O som ensurdecedor de capsulas deflagradas de bala de vários tipos de calibre tocando o chão retinindo em sua sinfonia metálica, parecia acontecer em uma espécie de câmera lenta. Rápido demais aos olhos de cada policial que jurara defender aqueles tidos “cidadãos”, mas que sequer conseguiam registrar com precisão o avanço súbito e feroz das criaturas que a cada segundo ficavam mais fortes ao sentir o anoitecer chegar; lento demais aos olhos do vulto que se aproximava após seus companheiros voarem, e andarem pelas paredes e teto, desviando de balas e seus ricochetes e viajando pelo ar até cair sobre jugulares e braços estendidos. Os escudos foram lançados para trás retirando o resto de proteção que poderiam ter, iniciando uma rodada a mais de gritos e sangue sendo espalhado e salpicando pelos corredores como tinta fresca a pintar uma tela tenebrosa cuja morte tinha em suas mãos o pincel. O manto rubro seguiu sem parar, percorrendo o caminho que faltava enquanto os outros ficavam atrás para comer e adiantar o seu jantar da forma como pretendiam.

Mais outro grupo de policiais, mais outra barricada.

Mais mortes que poderiam ser evitadas.

Todavia, sua presença ali nada dizia sobre evitar, e sim sobre destruir até não restar nada. Aquele último grupo, tinha em suas mentes servis que poderiam proteger o presidente, deixa-lo longe daquele monstro. Pensavam que suas armas tão nobremente humanas teriam poder de fogo mais do que suficiente para pará-la e ganhar aquela batalha que já se findava em poucos minutos desde seu início. No entanto ao recomeçarem o mesmo ruído de balas saindo de seus canos preparados, um movimento veloz fora executado ao mesmo tempo, como se as dimensões de tempo-espaço para ela fossem inexistentes. As trajetórias retas tinham como por destino certo o coração do vulto vermelho, mas não contavam que após chegarem em milímetros perto, a sua capa se fechasse contra si deixando de ser fluída e leve como um tecido e tornando-se tão espessa e grossa como aço reforçado, asas ferrenhas a adejarem à frente do corpo a ser protegido. Os projéteis bateram e foram defendidos, e assim mais e mais deles eram sendo desviados e ricocheteados pelas asas vermelhas e duras como uma parede de pedra a cada novo passo.

Mas, Ela não esperaria demais para acabar com aquela defesa fraca.

O presidente e seus congressistas estavam ali, naquela antessala, rezando como pobres pecadores ao ver a sombra lúgubre da morte assentar-se por sobre seus ombros os mostrando o futuro tão breve. O som mortal de gritos agudos atrás da porta que era empurrada a cada baque por corpos sendo arremessados arrepiava as suas peles deixando todo e qualquer poro aturdido. O sangue não demorara a dar seus indícios ao deslizar pela fresta da porta, molhando o chão livremente, o que fez a maioria dos homens cujo ego inflado e sua suposta retidão agora jazia aos pés das paredes tentando debilmente escaparem do destino tão lacônico. O tão excelentíssimo líder ignóbil daquela nação, há muito havia se escondido embaixo de sua escrivaninha, roendo suas unhas como um rato que seria apanhado pelo gato em hora mais do que oportuna. Como último ato de sua tamanha ignorância, havia afirmado que o Brasil nunca se renderia ao horror e a decadência que se espalhava pelos países ao seu redor, e que tudo ficaria a salvo. Entretanto como se já esperassem por mais outra falácia, o próprio povo recolhera-se em seus lares apenas à espera da queda daquele velho decrépito que nada fizera de bom pelo seu tão “amado” país.

- Nós vamos morrer! Nós vamos morrer! – Exclamou um de seus ministros recolhendo-se a um dos cantos da sala, como se pudesse passar despercebido quando a hora que acabava chegasse. O suor frio pingava em sua face horrorizada, banhando-o do mesmo áspero e pavoroso medo.

- Eu disse que deveríamos ter cedido! É o fim, senhor presidente, é o fim! – Outro chorava visualizando a que estado chegaria ao térreo se seguisse o seu intento de se jogar pela janela.

A porta abriu-se em uma fração de segundo escancarando a cena que havia se passado no corredor. O odor ocre dos fluídos vitais espalhados pelas botas pesadas adentraram pela última vez as narinas daqueles senhores. O presidente encolheu-se ainda mais em seu esconderijo, mas fora surpreendido ao ser revelado quando a sua escrivaninha fora segurada e arremessada na parede imprensando vários dos seus ministros deixando-os inconscientes e um deles morto. Escorregou gritando para as janelas como se a ameaça de se jogar fosse ter qualquer efeito em sua carrasca implacável.

- Eu tenho dinheiro! Milhões, bilhões! Posso fazer o que o Kaiser mandar, mas não me mate! Não! Eu imploro! – As veias oculares saltavam em seus orbes em puro pânico, quando ousou levantar-se e tentar jogar seu próprio peso contra os vidros das janelas, mas foi segurado pela cabeça e erguido do chão ficando com seus pés a balançarem. Sentiu o ar faltando, e o peso de seu corpo ser apenas segurado pelo seu pescoço que ardia como se fosse romper-se enquanto podia ouvir o som de passos velozes e rosnados chegando cada vez mais perto pelo corredor. – Por.... favor... podemos... barganhar... não...

Mas ao contrário do que esperava como resposta, houve apenas um aceno da mão desocupada do manto rubro. O sinal para que aquela situação fosse sinalizada pelos outros.

. . .

 

O aglomerado de pessoas em frente ao Palácio do Planalto crescia como uma massa desordenada, procurando espaços e lugares privilegiados para observarem o que aconteceria. Muitos ali presentes estavam curiosos para saber o que significava a cena estranha e macabra que se descortinava à frente de tudo e todos, grupos de manifestação aproveitavam para bradar os seus gritos de ordem como se em apoio a deposição do presidente. Outros, porém, tinham medo o suficiente para não ousar chegar tão perto quanto a maior parte dos jornalistas e emissoras de TV chegavam para obter o melhor ângulo a fim de mostrar com exclusividade o desfecho da situação.

- Estamos aqui ao vivo pela Globo News para transmitir a situação terrível em que se encontra o nosso presidente, e mais outros doze presidentes que foram trazidos até aqui e que agora temos a certeza de que estavam sendo feitos como reféns, pelo grupo e pessoa ou ser de codinome conhecido como “Praga Vermelha”. Entre todos, estão os governos da Argentina, Bahamas, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, Jamaica, México, Panamá, Peru, Uruguai e Venezuela, totalizando treze presidentes que estão sobre o poder das forças do novo Kaiser. Foi informado a nossa equipe de reportagem por um dos zeladores que chegaram após o ocorrido que todos os congressistas, senadores e deputados que se encontravam aqui no Palácio do Planalto foram executados e seus corpos empilhados em uma das salas principais reservadas as decisões do país. Ao que tudo indica, toda a América do Norte, Central e agora do Sul, foi dominada pelas tropas ofensivas comandadas pelo Kaiser no coração dos Estados Unidos. Não há notícia alguma de quem seja ou quem possa ser esse novo governo ditatorial e absolutista, e provavelmente não cheguemos a descobrir já que a política de controle midiático voltou a ter força em todos os territórios conquistados, e não sai ou entra informação alguma sem que aja permissão dele. Voltaremos em breve com mais informações.

A expressão de calma repassada pela repórter de falsos cabelos loiros, caiu assim que a transmissão fora cortada. Encolheu-se em seu casaco tentando afastar o frio enregelante e estranho que recaía em todos os presentes, fazendo-os recuarem ainda mais de seus lugares. Os ventos alcançavam velocidades nunca vistas ali, uivos altos de cachorros por ali podiam ser ouvidos sem problemas, e a noite parecia ficar cada vez mais escura contrastando com a vivacidade da lua cheia em sua plenitude. As doze figuras ajoelhadas na entrada principal do palácio sentiam em seus próprios ossos o peso do próprio mal, a sombra que a maior parte dos humanos gosta de apenas denominar como a escuridão, o lugar onde nada e tudo há.

O espetáculo iria começar.

A multidão regrediu a passos rápidos e todas as câmeras presentes voltaram-se para a rampa da entrada principal ao verem o vulto rubro atravessar com sua capa farfalhando alto pelo vento, trazendo pelos ombros o presidente brasileiro, cujo rosto vermelho, estava inchado, revelando um intenso pânico e cansaço. Os cabelos brancos estavam desgrenhados, e todo o jeito floreado de falar e andar sumira, assim como a sua esperança de sair dali sem sofrer nada. Caminharam até uma parte mais à frente dos que estavam ajoelhados, deixando bem a vista que era ele para todos que estavam ali. Não havia som algum a não ser dos flashes e dos repórteres novamente reportando as suas emissoras as novidades. O senhor cambaleou descalço sentindo o chão como gelo nas solas de seus pés enquanto o vento desgrenhava seus cabelos, e sem a menor cerimônia, suas roupas foram rasgadas de cima a baixo pelas mãos fortes Dela como se fossem tiras de papel molhado de modo que nada nem mesmo um cêntimo de tecido cobria mais seu corpo. A vergonha e a humilhação inundavam o seu rosto como nunca em sua própria vida. A sensação de querer sumir era enorme o que retorcia seu rosto em uma expressão desagradável. As mãos o fizeram ajoelhar, e puxando os tufos de cabelo para trás de modo que seu rosto ficasse na linha de visão de todos, houve um momento de silêncio.

Todos pareciam atordoados por ver aquela cena grotesca e assombrosa, de modo que as reações iam de um pavor extremo ao asco. A presença da Praga causava arrepios e a sensação de que a felicidade acabaria tão logo piscassem os olhos. A destruição que carregava em tão pouco tempo era motivo de causar pânico até no dito mais corajoso dos homens.

- Comece. – A voz ordenou metálica e dolorosa em seus ouvidos.

Ele engoliu em seco, e sentindo a brisa esfriar todo o seu corpo, começou.

- Eu.... Venho aqui neste último pronunciamento... para dizer que... – As palavras travavam em sua garganta como ácido junto com o seu ego ferido. - .... Sinto muito por ter causado todo esse caos no país, por ter.... acabado com vários dos direitos providos por lei de vocês cidadãos, por passar por cima de tudo com minhas habilidades de jurista sempre procurando me safar de todas as ações e inquéritos movidos contra mim... por deixar a parte mais necessitada do povo sofrendo com medidas que só beneficiariam as pessoas da camada mais rica, e por.... afundar o país cada vez em dívidas e projetos de lei que apenas fariam o dinheiro público vir para o meu bolso e o dos deputados... Mas...

Aquela palavra veio de forma perigosa, todavia o vulto rubro permanecia imóvel.

- .... Eu nunca entregaria meu país de bandeja a um líder sórdido e cruel quanto este que agora domina a América.

Sentiu quando seus cabelos foram soltos, e quanto o som de uma lâmina reverberou em seus ouvidos. Em um movimento aberto, uma espada longa foi surgindo por entre as mãos da Praga, tomando forma e mostrando seu gume duplo extremamente afiado. Respirações do público e dos que também estavam ajoelhados foram presas em suas gargantas, à espera do momento. Este que não tardou a vir.

Em um movimento rápido e sem titubear, a lâmina deslizou no ar feroz cortando parte da cabeça do presidente que gritou de dor, debatendo-se enquanto o sangue jorrava sujando o piso branco. Outro movimento seguido sem pausa e a outra parte oposta de seu pescoço fora cortada derramando mais sangue ainda, e por final o golpe que soltou sua cabeça pela rampa que desceu, rolando lentamente como uma bola em direção ao país que ele amava e ao povo cujas expressões não poderiam ser descritas.

O mesmo destino se abateria em cada um daqueles presidentes, banhando o chão e o mundo com o que era resultado das recusas em concordância com o avanço do novo Império.

♠ ♠

 

Em algum lugar acima da América Central

 

- O jato particular erguia-se quase invisível nas nuvens e alheio ao que se passava embaixo das cidades destruídas e malfadadas pelas más escolhas de seus líderes. O manto encarnado repousava em sua poltrona bebendo uma escassa reserva de sangue colocada em uma taça de vidro cujo som retinia estridente toda vez que a unha afiada batia do lado. Afastada do resto do grupo, deixou distraidamente retirar o capuz que sempre encobria seu rosto observando pela janela as nuvens passarem por eles como algodão. Sua mente voltava não ao que tinha feito há momentos atrás, mas a confusão gerada pela sua conversa com seu mestre, dias antes. Tinha uma noção vaga do controle dele sobre sua mente, tanto que se procurasse saber quem era no recôndito de seus pensamentos as memórias lhe pareciam cobertas por um véu negro que a deixava incapaz de saber o que, ou por que era daquele modo, ou o que de fato poderia tê-la feito chegar até onde estava. Somente ele sabia, e não lhe diria se isso garantisse que ela continuasse seguindo-o.

Contudo, sabia que em vários momentos ele gostava de brincar com este fato, confundindo-a com suas ações ambíguas e cheias de significados. Estimulando coisas que ela não poderia acessar graças a sua mão de ferro centrada em suas memórias e o seu sangue comandando seus atos pelas suas veias. Fazendo-a permanecer independente do que suas ações para com ele significassem. Às vezes chegava a ter a impressão de que deveria fazer algo mais e responder as suas provocações, mas não sabia e nem tinha ideia do que contrapor ou se aquilo se adequaria a sua posição. Aquela confusão racional versus física a atordoava em vários momentos, e aquele era um dos.

- Deveria usar menos este capuz, senhorita Praga, é bela demais para guardar isso apenas para o nosso mestre.

A voz rouca e estranhamente quente apareceu perto de sua poltrona, todavia não respondeu mantendo-se imóvel. Yates, se não lhe falhava o que lembrava de ter sido citado sobre ele, era um dos seguidores de seu mestre, muito antes mesmo dela sequer pensar em surgir em seu caminho. Ao contrário do resto do grupo, ainda conservava o caráter racional e sensato, mesmo que isso lhe custasse muita coisa. Sua aparência polida destacava-se do bando desgrenhado e sempre sujo de sangue até a raiz das unhas e cabelos, cuja única preocupação era matar e comer as suas refeições e seguir os comandos do seu Senhor. Os cabelos castanhos escuros e olhos de um azul quase branco, o faziam chegar a ter sua certa dose de beleza exótica combinada com seu queixo forte e mandíbulas bem estruturadas, mas não tanto quando chegava a abrir a boca e despejar suas inúmeras fanfarronices pelos lábios finos e arrogantes.

- É uma pena. Poderia ser uma garota agradável se fosse possível. Mas, temos mais alguém no controle, e provavelmente odiaria que você desse atenção a este velho vampiro.

Como se movida as palavras dele, uma espécie de irritação e fúria apareceu dentro de si, apossando-se de todas as suas veias como um veneno que acabara de ser injetado de uma vez em seu corpo. Porém reconhecia bem que estes sentimentos capazes de a deixar imobilizada pela força não eram Dela. Ela não podia sentir nada além do físico, e suas dúvidas nada mais eram do que o seu racional limpo funcionando de alguma forma, mesmo que tolhido. Aquelas sensações de emoção em pura Ira, deviam vir de seu mestre, e isso a fez cobrir novamente o seu rosto mesmo sabendo que era tarde e não entendendo bem o por que fazia aquilo.

- Ele é sempre cuidadoso. – Riu amargo. – Cuidadoso demais.

. . .

 

Washington, EUA

 

- O grupo chegara rapidamente ao Hall de entrada minutos após ter ordens diretas de irem diretamente para lá. Em fileiras dispostas e retas, todos esperaram o seu Senhor chegar no grande saguão e lhes dizer qual era o motivo para o chamado tão urgente. A Praga ocupou o seu lugar à frente de todos, como era de praxe, esperando com suas dúvidas guardadas em sua mente, com sua postura ereta e impassível.

Não demorara nem quinze segundos quando o caminhar pesado e austero se fez presente, e cuja capa negra flutuava as suas costas indicando a velocidade em que se movimentava. Um peso gigantesco caíra sobre os ombros dos presentes, como se o próprio ar estivesse pesado demais para ficar sem apoio. As mãos pálidas e pétreas estavam fechadas fazendo os tendões de todos os seus dedos aparecerem em relevo sobre sua pele. A sua altura parecia se ressaltar ainda mais em seu estado de raiva incontida.

Parou a menos de um metro de onde estavam e caminhando em linha reta para o lado esquerdo parou a frente de Yates que mantinha um sorrisinho convencido em seus lábios, pois sabia bem como eram os modos do seu mestre. No entanto, não sabia que o seu fim tinha chegado mais cedo do que planejara em seus duzentos anos.

- Yates. – O tom cortante foi o suficiente para fazer a maioria se encolher. – Acho que não lhe eduquei desta maneira.

- Perdão, meu senhor, mas a que se refere? – Perguntou fazendo uma reverência mínima.

A resposta foi ter a pesada mão em sua garganta apertando-a com tal pressão que um humano teria morrido de imediato. Ele debateu-se por alguns momentos tomado de um assombro reconhecível.

- Yates, o que lhe fez pensar que poderia vê-la sem consequências?

- Nada... meu Senhor... apenas....

- Que isto fique bem claro a todos. – O tom de voz aumentou reverberando alto pelas paredes e corredores criando ecos espectrais. – Não ousem sequer tocar ou ver a face da Praga. Não é do domínio de vocês ver a minha obra suprema, e que isto, sirva de aviso a qualquer outro néscio que cometa o mesmo erro.

Em um movimento com a outra mão, abriu a boca de seu servo tão fiel por tantos anos, e segurando a sua língua com força puxou-a arrancando-a e trazendo tecidos de dentro de sua cabeça que foram se soltando para fora. Yates esperneou sentindo dor, mas que foi aplacada quando Ele arrancou sua cabeça de seu corpo jogando-a contra uma das paredes, em pleno acesso de uma fúria que não devia sequer sonhar em ser despertada. O grupo estava imóvel, pasmo, assustado.

- Não sou o senhor de desacato a ordens, nem dos mais passivos e coniventes com ações que não são do meu agrado. Portanto espero que isto sirva de lição aos desavisados, e aos que possam ter um espírito de coragem maior do que seja devido em me enfrentar.

O rosnar ainda era audível quanto virou-se e voltou a caminhar em direção ao gabinete. Sua última fala foi dirigida diretamente a Ela, que o entendeu acompanhando-o sem pensar em nada que pudesse significar aquilo.

- Venha comigo. Temos o que conversar. 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...