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História "a presença dele" - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Primeiramente, é de EXTREMA IMPORTÂNCIA dizer que algumas cenas nesse conto envolvendo a relação Renjun x Jisung podem ser desconfortáveis então não é recomendado que algumas pessoas leiam. Não é um romance, é um conto de terror e suspense, então não reclamem comigo. Leiam por sua conta e risco.

Frisando o que está na sinopse, isso aqui NÃO é um romance e quem eu vir romantizando a relação dos dois estará sujeito a [email protected]

Curtam. Perdoem qualquer erro.

Capítulo 1 - Primeiro, mas não o único.


1872, Norte da China,

Região desconhecida.


Viver isolado em um castelo no meio de uma densa floresta atrás da estrada que leva até a cidade grande em uma viagem de quase quatro horas, não era lá a melhor coisa do mundo, principalmente quando se despertava todas as manhãs e dava de cara com a mesma mata fechada e assustadora que circundava tudo o que os olhos podiam e não podiam ver. Especialmente porque era difícil viver em um lugar onde tudo se resumia a muita chuva e um verão escaldante. Papai costumava dizer que era o melhor lugar para se morar em toda a China, em especial porque era o lugar mais barato que sua aposentadoria conseguia pagar. Ele lutara ao lado do império durante a guerra do ópio, há doze anos, quando eu tinha apenas oito anos e não entendia muito o que acontecera. A única lembrança era a devastação deixada pelo conflito, que acabou também por nos fazer sair da capital para o isolamento completo, trazendo conosco nossos criados e minhas únicas companhias: Fan Bingbing, minha ama a quem eu devia tudo, quase uma mãe, e Hua Jia, uma dama de companhia que ajudara Bingbing a me criar. Minha mãe biológica morrera devido a complicações durante o parto, eu mal sabia o seu nome ou coisas do tipo, sua presença era algo pouco citado em nossa casa. Quase como se ela não tivesse existido, nunca.

Minha rotina era a mesma há vinte anos: eu acordava e ia para a sala de jantar, tomar meu café da manhã preparado pelas cozinheiras, ia passear no jardim, o único lugar onde me era permitido fazer isso, e então me recolhia para a sala de piano, ou para a biblioteca. Eu já tinha lido todos os volumes naquele lugar, e também tinha tocado todos os instrumentos dali, mas não era como se tivessem muitas opções de lazer. Meu pai, apesar de viver em casa, pouco era visto, estava sempre cuidando dos milhares de documentos que o imperador costumava mandar para cá, já que mesmo de baixa do exército, ele ainda os ajudava e ganhava um pouco mais do que os outros aposentados.

Eu não sabia o que poderia existir além da floresta ou da estrada, jamais pisara lá, mas a vontade não era algo que tinha, também. O lugar todo me dava arrepios e o castelo não tinha nada a ver com os que eu via ilustrados nos livros, muito menos com que eu vira na infância, onde o imperador e sua família viviam. Era um lugar que dava arrepios e parecia amaldiçoado. As janelas e portas sempre ficavam abertas quando era verão, estio ou primavera, sendo fechadas durante o outono e o inverno para impedir que as chuvas e tempestades de neve invadissem o lugar. Naquele momento, estávamos passando pelo fim do estio e início do outono, mas nada estava trancafiado e a brisa fresca adentrava todos os cômodos, aliviando o calor infernal que fizera durante os últimos meses.

Eu conhecia cada canto do castelo e também conhecia todos que trabalhavam ali, incluindo Liu Wangjing, o homem que só vinha uma vez por semana para cuidar do jardim. Todos ali me viram crescer, apesar de Bingbing sempre me dizer que não deveria sair por aí conversando com qualquer um, pois nem todos eram autorizados a ter contato comigo. Isso era como o inferno.

Para ser sincero, eu tinha uma vida bastante solitária, sem conhecer parentes ou ter amigos, e isso às vezes custava caro. Minhas únicas companhias eram o castelo, Bingbing e Hua Jia. Eu passava horas encarando a estrada pela varanda de trás no segundo andar, imaginando que à quatro horas dali, moravam outros rapazes da minha idade que muito certamente viviam uma vida totalmente diferente, que nem mesmo poderia ser comparada à minha. Podiam ser filhos de soldados, comerciantes, ou de alguém bem mais importante, ter seus amigos, seus objetivos de vida e tudo mais o que lhes era permitido. Era tudo muito estranho, sem muito o que dizer. Eu mal sabia interagir com outras pessoas que não fossem Bingbing e Jia, ou meu pai, por isso permanecia trancado em meu quarto quando ele recebia visitas, o que era bastante raro e só aconteceu exatamente sete vezes em doze anos. Huang Lanjun não era um homem de muitos amigos, e também não tinha muito contato com sua família. Eu não tinha avós, tios ou primos. Era quase um ninguém.

E eu não era o único que estava ciente de minha solidão deprimente. Certo dia ouvira Bingbing conversar com uma das cozinheiras, sobre como ela estava preocupada ao me ver cabisbaixo em um dos muitos momentos que ficava observando a estrada. A mulher, bem mais velha que ela e de uma personalidade esquisita, lhe disse que aquilo tudo era culpa de meu pai, que me impedia de viver, e que esse isolamento quase que completo do resto do mundo poderia acabar me enlouquecendo, como já fizera uma vez. Eu sabia do que ela estava falando, assim como quase todos os outros criados que costumavam passar a noite no castelo. Sempre notei os olhares estranhos que me lançavam, a maneira penosa como encaravam-me as costas sempre que eu passava, provavelmente se perguntando qual seria o futuro do pobre Huang Renjun, tão novo e já tão atormentado, sozinho, quase abandonado. Isso acontecia desde os meus nove anos, quando uma faísca de horror se acendeu em meu peito desolado, sem a intenção de cessar.

Fora no verão de mil oitocentos e sessenta e um.

Eu não sabia, mas a partir daquele ano, minha vida estava marcada para sempre, mesmo que eu tentasse expulsar o terror que se apossou de todo o meu ser naquele momento.

Lembrava cada detalhe, como se tudo tivesse acontecido na noite anterior…

Meu quarto era amplo, comportava tranquilamente meu banheiro particular, quatro guarda roupas lotados e bem no centro estava minha cama. Ao lado desta estava a cama de Bingbing, menor e mais baixa, porque eu simplesmente não conseguia dormir sozinho. Eu gostava de dormir ali, era seguro e era bonito, principalmente com meus brinquedos espalhados pelo chão e minha mãe estava ao lado. Entretanto, em uma noite fria e amaldiçoada, uma chuva forte acabou me acordando, e assim que abri os olhos, dei de cara com uma das quatro janelas que iam do chão ao teto aberta, deixando que a chuva entrasse.

Assustado, sentei-me na cama e olhei para o leito ao lado, procurando desesperado por Bingbing e me perguntando como ela poderia estar dormindo enquanto o mundo caía do lado de fora. Levantei apressado ao notar que ela não estava lá, deitada, como deveria, então corri por todo o quarto, procurando qualquer sinal de onde ela poderia estar. Entrei no banheiro, olhei para todos os cantos, até mesmo dentro dos armários, cestos e embaixo das camas, mas ela não estava lá. Não havia um mísero sinal de Bingbing. Meu coração parou.

Um estrondo horrendo soou ao fechar rápido e violento da janela, fazendo-me soltar um grito de horror e correr desesperado até a cama, encolhendo-me sob os lençóis, sentindo meu coração acelerar, as mãos suarem e todo meu corpo tremia. Eu implorei mentalmente para que Bingbing aparecesse de uma vez e acabasse com tudo aquilo, porque ela era a única pessoa que me protegia naquele mundo, então eu chorei estridentemente. Foi quando eu ouvi. Passos arrastados, fazendo um barulho estranho enquanto se aproximavam lentamente da cama. Meu corpo pequeno se encolheu ainda mais, como se fosse possível, enquanto eu segurava o choro. Não era Bingbing caminhando, seus pés não eram pesados e ela nem estava no quarto. Tentei ficar em silêncio, espremendo os olhos e torcendo para que tudo acabasse de uma vez.

Uma mão tocou o lençol e me descobriu, fazendo-me gritar, mas o som foi abafado pela mesma mão, enquanto a outra ia me puxando para perto da pessoa estranha. Mesmo com a luz escassa, pude ver bem aquele rosto pálido, os olhos incrivelmente azuis, como o céu sem nuvens, e a boca avermelhada. Os traços eram finos e os olhos bem puxados, pequenos, mas ainda assim marcantes. Ainda me lembrava perfeitamente de cada detalhe. Os cabelos negros eram muito lisos, bem arrumados; aquele homem era aterrorizante. Eu queria Bingbing, queria fugir dali e correr para bem longe, porque aquele homem me fazia sentir muito, muito medo. No entanto, ele apenas me abraçou.

“Não precisa chorar, criança. Sua ama já vem.”, foi o que ele disse, enquanto parecia tentar me acalmar. Mesmo aterrorizado, deixei com que ele me pegasse no colo e passeasse pelo quarto comigo, cantarolando uma música estranha, mas que me deixou bastante relaxado. Eu não tinha forças para lutar, afinal. Era como se ele estivesse me consolando. “Sabe, criança, você pode ficar feio se continuar a chorar, então pare de uma vez por todas.”, ele dizia, então voltava a cantarolar.

Quando pensei que finalmente ia voltar a dormir, senti uma dor fora do normal em meu ombro. Eu comecei a gritar, vendo o homem me jogar no chão, notando então sua boca ensanguentada e seus olhos outrora azuis, agora estavam avermelhados. Comecei a gritar e implorar por ajuda, já tão novo e sentindo a vida se esvair aos poucos do meu corpo. Minhas mãos tremiam e eu só queria que aquilo acabasse.

O homem sumiu, ao mesmo tempo em que a chuva parou de repente e a porta do quarto fora aberta, revelando Bingbing e Jia, acompanhadas também de meu pai, correndo até mim.


Eu só lembrava até aí. Bingbing, na manhã seguinte, dissera que não tinha mordida em meu ombro e que ela só passou cinco minutos fora, para beber água. Ela também disse que não choveu na noite anterior e que as janelas estavam bem trancadas, que tudo o que eu vira era apenas um pesadelo que parecia muito real, não tinha nada com o que se preocupar. Aquilo me deixou em profundo estado melancólico, implorando para que não passasse de uma alucinação ou de pesadelo como Bingbing dissera, por mais que às vezes sentisse um ardor em meu ombro, exatamente naquele ponto e lembrasse com bastante clareza daqueles olhos ora azuis como o céu, ora escarlates e daquela voz grave, tentando me consolar. Eram coisas que aterrorizavam há onze anos e não desapareceriam tão cedo.

Era por isso que eu sabia que os criados cochichavam quando passava, provavelmente se lamentando por tamanha solidão ter resultado em um louco amedrontado, mas eu nada poderia fazer. Era o único que sabia o horror que havia passado naquela noite e o quanto aquilo ainda iria me atormentar pelo resto da vida, era também quem mais queria enterrá-la.

Minha solidão era um problema, mas aos vinte anos, tudo o que eu mais desejava era alguém para dividir minhas angústias. Quando meu pai entrou em meu quarto certo dia, no entanto, acreditei fielmente que meus anseios teriam uma resposta positiva.

“Teremos visitantes e eles ficarão por dois meses!”, anunciou animado, fazendo-me largar o livro que lia sobre a escrivaninha em frente à janela. Arregalei bem os olhos, então encarando o homem à minha frente, deixando clara a minha incredulidade diante do que dissera. “É verdade!”, reforçou suas palavras, “Meu amigo de longa data, o general Qian Kun, está à caminho, e trará com ele seu sobrinho, o jovem Zhong Chenle! Acredito que você e ele tenham idades próximas.”, ele completou.

Sorri largo para o homem à minha frente. “Isso é muito bom, meu pai.”, concordei, vendo seu sorriso crescer. Eu quase nunca o via sorrir, era algo raro e quando acontecia, então realmente boas notícias viriam. “Espero me dar bem com ele.”

Eu estava me sentindo no paraíso, para falar a verdade. Assim que meu pai saiu do quarto, fechando a porta, eu dei um pulinho de felicidade e alarguei ainda mais o sorriso, mal conseguindo acreditar que aquela seria a minha primeira e talvez única chance de finalmente ter contato com alguém que pudesse chamar de amigo, assim como meu pai tratava o tal general Qian Kun. Enquanto caminhava pelo quarto, não conseguindo conter tamanha alegria, nem mesmo notei quando a porta fora aberta e alguém adentrou o cômodo, só me dando conta disso quando finalmente olhei para a porta e dei de cara com Fan Bingbing fitando-me como se eu fosse um ser de outro mundo.

Eu ri para ela. Falei alto demais, quase gritando, correndo até a mulher para um abraço, “Mamãe, eu terei um amigo!”

Meus cabelos, um pouco longos demais, quase a sufocaram, mas a mulher apenas riu e me abraçou.

“Eu ouvi o senhor Huang comentar sobre isso na sala de estar. Fico feliz por você, mas contenha sua animação e fale baixo, sabe que o senhor Huang odeia quando me chama de mãe. Não quero ir para o calabouço de novo tão cedo.”, ela comentou, sorrindo de modo entristecido.

Eu apenas dei de ombro e voltei a caminhar pelo quarto. “Só queria que a senhora soubesse que terei um amigo, finalmente.”, tornei, olhando-a e forçando um sorriso. Bingbing fez o mesmo.

Sentei-me sobre a cama e ela fez o mesmo, ocupando o espaço ao meu lado.

“Fico feliz por você, digo isso sinceramente.”, ela então analisou todo o meu rosto, puxando-me para um abraço inesperado, mas onde pude me acalmar. “Você é o meu filho, Huang Renjun, não esqueça disso. Só peço que tenha cuidado, apenas.”, sussurrou. Eu mesmo apertei o enlaço, buscando um conforto. “Agora vamos logo para a sala de jantar, está na hora do seu lanche da tarde e eu não quero que fique sem comer só porque está animadinho.”

Os dias se passaram rapidamente, sem muita calma, e meu pai dissera que o General Qian e seu sobrinho deveriam chegar em uma semana, então os preparativos para receber novos e únicos hóspedes que ficariam por mais que uma semana logo se apressaram. Todos no castelo exerciam suas funções com vigor, querendo deixar tudo perfeito para recebê-los. Bingbing e Jia passavam horas na cidade, fazendo compras e contratando novos ajudantes sob as ordens de meu pai. Até mesmo as maçanetas e dobradiças estavam sendo limpas, assim como os candelabros e as mesas que nós não usávamos. Papai andava mais feliz e dizia que há muito não via seu amigo, o último encontro fora em uma das suas viagens à trabalho, quando o imperador o pedira para ir até a capital.

Eu estava ainda mais feliz e animado com a ideia de ter um amigo, chegando a passar noites em claro, imaginando tudo o que poderíamos fazer pelo castelo e até mesmo nos jardins e na floresta. Talvez o tal Zhong Chenle pudesse me contar como era a vida na cidade e como as pessoas de lá costumavam se comportar.

Como tudo não costuma dar muito certo quando se anseia demais, no dia da tão esperada chegada, ao invés de dois homens, acabamos recebendo o carteiro e uma correspondência, escrita pelo próprio General Qian. Papai foi o primeiro a ler, então vi o terror e a incredulidade passarem a dominar seu semblante. Ele logo passou a carta para Bingbing e Jia, que pareciam ainda mais aterrorizadas ao ler o que continha naquele papel. Já impaciente e desejando saber o que de tão assustador poderia ter naquela carta, fui até as duas e comecei a ler o relato.

Tamanho fora o meu horror e surpresa ao me deparar com as palavras escritas:


“Estimado amigo Huang Lanjun

Sei que lhe prometi esta visita e também jurei levar uma certa companhia para seu filho solitário, pois imagino o quanto o rapaz deve sofrer sem alguém com quem compartilhar seus segredos. Estávamos muito bem, Chenle estava ansioso e acredito eu que Huang Renjun também, pois eram jovens parecidos, de boa vivência. Entretanto, caro amigo, nunca nos preparamos para os empecilhos que a vida pode nos trazer. Enquanto arrumávamos tudo e nos preparávamos para nossa tão esperada viagem, acabei recebendo em minha casa uma visita surpresa. Maldição! Maldito! Isto é uma lástima! Meu amado sobrinho, um dia tão cheio de luz e alegria, numa noite amaldiçoada não era nada mais que um corpo sem vida, atormentado, jogado sobre a própria cama. Foi ele! Aquele monstro a quem confiei minha hospitalidade e tão cruelmente traiu minha cega simpatia! Creio que quando esta carta chegar até você, eu já estarei longe, buscando minha vingança contra aquele ser endemoniado. Mas juro que daqui a quatro meses, nesta mesma data, irei visitá-lo, caro amigo.

Com muito pesar, de seu amigo,

General Qian Kun.”


Mesmo sem os conhecer, após ler o triste relato naquela epístola, não conseguindo digerir todas aquelas informações, quis chorar. Minha única esperança de ter um amigo fora arrancada, Zhong Chenle estava morto, e de acordo com o General Qian, algum ser sobrenatural, um monstro, era o culpado por isso. Meu peito apertou ao pensar naquilo, como um pressentimento ruim. De repente, as lembranças de onze anos atrás vieram à tona, e eu precisei me afastar das pessoas ali, seguindo rapidamente para meu quarto, não realmente prestando atenção no caminho.

Permaneci pelo resto do dia trancado em meu quarto, não fazendo muito além de encarar a vista através daquela mesma janela, encarando a floresta à minha frente, imponente e sem muitos atrativos além do mistério que a rondava por simplesmente existir. Uma garoa começou a cair pela parte da tarde, mas eu ainda observava a mata densa, no fundo me perguntando se aquele homem ainda vagava por ali, talvez amedrontando e tentando assassinar outras crianças. Ou talvez estivesse me observando, do mesmo jeito que eu fazia com ele, como eu sentia que fazia.

À noite, após sair do banho e colocar minhas roupas para dormir, pude ver a lua cheia se impor nos céus, embelezando ainda mais a noite. As noites vistas do castelo eram sempre muito bonitas, e isso era um ponto positivo. Eu estava tendo uma noite no mínimo tranquila de sono, apesar da frustração anterior, mas assim que deitei minha cabeça no travesseiro, uma agitação do lado de fora me chamou a atenção, seguida de uma gritaria e então correria. Assustado, calcei meus sapatos, peguei um casaco e saí correndo dali, encontrando Jia no corredor, dizendo-me para eu me apressar, então a segui para fora dali, para os fundos. Assim que chegamos aos portões do jardim, vi meu pai indo apressado com alguns criados em direção à estrada, então acabei por segui-lo. Assim que chegamos à estrada, vimos um riquixá com uma das rodas quebradas. Os outros se aproximaram e eu fiquei para trás, sentindo uma mão em meu ombro, e então a voz de Bingbing me dizendo para ficar longe.

“Foi grave?”, ouvi alguém atrás de mim perguntar, mas nem me dei o trabalho de virar para ver quem poderia ter sido, ocupado demais em encarar o veículo.

Assim que os criados saíram da frente, pude ver um homem desconhecido conversando com o meu pai, enquanto um dos criados carregava uma pessoa desacordada até o castelo. Aquilo me intrigou e eu os segui, nem mesmo querendo saber do homem machucado falando com meu pai.

“Senhor Huang Renjun, espere!”, ouvi Jia gritar, mas não dei ouvidos a ela, continuei a seguir o criado até o castelo, vendo-o levar a pessoa até um dos quartos de hóspedes, onde era suposto para Chenle ficar.

Adentrei o recinto como um furacão, já vendo algumas mulheres com remédios ao redor da pessoa. Assim que me aproximei, pude prestar atenção no rosto. Era um rapaz.

O horror tomou conta de mim ao notar que era ele.

O mesmo que me atormentava há onze anos, estava ali, deitado sobre a cama recebendo cuidados, com um corte bem aberto na sobrancelha. Afastei-me rapidamente da cama, tentando fugir daquela imagem e dizer a mim mesmo que estava mesmo enlouquecendo, pois era praticamente impossível ser a mesma pessoa. Olhei para todos ao redor, sentindo meu peito apertar e minhas mãos começarem a suar e tremer, exatamente como fora em 1861. Era como se estivesse revivendo aquela noite de maneiras diferentes. Saí correndo dali, indo em direção à sala, já encontrando meu pai e o homem machucado sentados no sofá, conversando. Precisei ficar alguns minutos longe, buscando uma maneira de me acalmar e prender o choro que quase saíra naquele quarto, também querendo organizar meus pensamentos e sentindo uma imensa vontade de descobrir mais sobre aquele rapaz. Aproximei-me cautelosamente, não querendo deixar que meu medo transparecesse, mas foi difícil fazer isso quando os olhos acastanhados daquele homem encontraram rapidamente os meus, como se ele soubesse o que acontecera.

“Sinto muitíssimo por ter incomodado sua noite, senhor Huang.”, o homem falou, enquanto eu me sentava ao lado de meu pai. Jia então apareceu na sala com algumas xícaras e chá. A dispensei rapidamente. “Meu filho, Jisung, acabou passando mal e eu me distraí. Acabamos batendo em uma árvore e ele desmaiou. Anda com a saúde fragilizada nos últimos dias.”, relatou. Sua voz não me soava sincera, mas tentei dizer a mim mesmo que era apenas coisa da minha cabeça, por não estar acostumado a interagir com outras pessoas, e por isso não sabia dizer se mentiam ou não.

Meu pai sorriu fraco para ele, “Não se preocupe, senhor Park, fico feliz em tê-los ajudado.”

“Se puder abusar um pouco mais de seu tempo, gostaria de saber se conhecem alguma boa pousada onde eu possa deixá-lo por alguns meses até que um novo riquixá me seja feito pela região.”, o tal senhor Park pediu, enquanto nos olhava esperançoso.

Foi quando uma ideia pareceu estalar em minha cabeça, fazendo com que eu o olhasse rapidamente e então passasse a encarar meu pai. Apesar do medo, aquela poderia ser a minha grande oportunidade para ganhar finalmente um amigo. Antes que meu pai respondesse, toquei seu ombro, recebendo dele um olhar surpreso e questionador.

“O que houve, Renjun?”, perguntou ele.

Suspirei e sorri fraco, “Meu pai, acho que o filho deste homem pode ficar aqui. Já estávamos prontos para receber hóspedes mesmo. O rapaz pode ficar e ele pode ir até a cidade com alguns criados para encontrar uma boa oficina para o seu riquixá, podemos ajudá-lo a se recuperar do acidente.”, propus, alternando os olhares entre meu pai e o senhor Park, cujos olhos agora estavam banhados em um brilho desconhecido, arrepiante, e aquele mesmo pressentimento ruim voltou a se apossar de mim. Meu pai pareceu não crer muito em minhas palavras, mas talvez ele estivesse com o mesmo pensamento que eu: era a minha chance de ter companhia, apesar do susto anterior.

“Bom, se é o que meu filho deseja, creio que temos um acordo, senhor Park?”, meu pai disse, fazendo-me sorrir ainda mais diante disto. O Senhor Park também sorriu, mas diferente de meu pai, seu sorriso não era acalorado e receptivo, pelo contrário: causou-me calafrios e o pressentimento ruim que já estava quase se tornando comum naquele dia.

“Acredito que sim, senhor Huang. Posso deixar Jisung aqui por três meses, mas peço que não o façam perguntas sobre sua origem ou família. É um assunto delicado, como bem entendem.”, respondeu o desconhecido, fazendo com que minhas desconfianças diante de suas palavras apenas aumentassem, “Virei buscá-lo assim que tudo estiver pronto. Agradeço imensamente por sua ajuda.”

Na manhã seguinte, após a partida do senhor Park para a cidade, os pertences de seu filho foram colocados no quarto em que ele estava. Bingbing aparecera na biblioteca avisando que eu poderia visitá-lo antes do almoço, caso desejasse.

Suspirei, “Irei assim que ele acordar.”

Pensei que o rapaz fosse acordar pelas dez horas, mas fora pego de surpresa ao esperá-lo para o almoço e ser avisado de que ele ainda dormia. Estranhei, mas nada falei, apenas tive minha refeição em silêncio e me retirei para meus aposentos, pensando em como poderia chegar no rapaz e conversar sem soltar a informação de que ele era o homem que invadiu meu quarto. Meus devaneios foram interrompidos quando Jia apareceu no quarto e disse que nosso visitante já estava acordado e que eu poderia ir ao seu encontro. Enquanto caminhava até o quarto, senti minhas mãos suarem e tremerem, e todas as outras sensações anteriores voltaram, como uma enxurrada de nervosismo misturada com uma avalanche de medo. Não sabia muito bem o que poderia encontrar assim que parei em frente à porta, mas reuni minhas forças, respirei fundo e finalmente entrei, dando de cara com o quase completo breu. Se não fosse pelas lanternas acesas, a luz seria quase extinta ali. Todas as janelas e cortinas estavam devidamente fechadas, enquanto que a iluminação escassa apenas me permitia ver parte da cama, onde eu podia ver o rapaz sentado, encarando a porta como se me esperasse. Prendi a respiração rapidamente por instinto, mas me aproximei um pouco mais.

“Olá.”, cumprimentei, tentando soar amigável, encarando o rapaz à minha frente. Seus olhos eram castanhos, pareciam quase pretos naquela luz, e me encaravam firmes. Era ele. Eu tinha certeza que era ele. “Sou Huang Renjun, filho de Huang Yixing. Seu nome é Park Jisung, certo?”

Após longos minutos em silêncio, eu já não mais esperava uma resposta vinda do meu visitante, imaginando que minhas chances de ter um amigo haviam sido jogadas fora, mas tão cortante como seu olhar observador, era a sua voz grave e baixa, rouca, soando quase que como uma ordem em cada palavra: “Está certíssimo. Creio que já nos conhecemos. Sonhei com você certa vez.”, disparou ele, pegando-me totalmente de surpresa. Se ele havia sonhado, então queria dizer que o que acontecera a onze anos atrás também tenha sido um pesadelo, por mais que eu quisesse acreditar que não. Parecia real. Seu olhar passou pelo rosto, certamente imaginando o que se passava em minha cabeça, “Sinto que você também pensou que tudo fosse real, certo? Pois saiba que eu também, por um bom tempo, até entender que tudo não passava de uma peça do destino.”

Franzi o cenho, genuinamente confuso diante de suas palavras. “Destino?”, perguntei sem querer, vendo-o se levantar e ir até uma das velas apagadas, acendendo a mesma e fazendo com que eu pudesse ver seu rosto com mais clareza. Jisung então voltou a se sentar, pedindo silenciosamente para que eu fizesse o mesmo, então, hesitante, ocupei o lugar à sua frente.

“Estávamos predestinados a nos conhecer e virarmos amigos, Huang Renjun.”

Suas palavras fizeram um calafrio percorrer por todo o meu corpo, fazendo meus pelos se eriçarem e me causando um certo receio de me aproximar um pouco mais. Entretanto, sem aviso prévio, senti uma mão gélida até demais segurar a minha, então encarei as duas, vendo a pele pálida de Jisung em contraste com a minha, logo focando minha atenção em seus olhos. Só naquele momento, à luz fraca das lanternas, percebi o quanto o rapaz era bonito, com os traços finos, o rosto bem delineado e os olhos intensos. Não eram azuis, mas passavam a mesma frieza e rigidez, dividindo espaço com um certo carinho e acolhimento.

“Acho bom darmos um passeio, não?”, perguntei despretensiosamente, levantando-me. Queria aproveitar o tempo que teria com Jisung ali, até que seu pai voltasse para buscá-lo, coisa na qual, eu jamais diria em voz alta, não confiava muito.

Ouvi sua agitação atrás de mim, sabendo que o mesmo se levantava.

“Creio que podemos esperar o sol baixar, sinto que a luz pode me fazer algum mal enquanto ainda me recupero.”, respondeu ele. Olhei-o rapidamente, entendendo sua preocupação e sorrindo largo. Estava gostando dele.

O grande armário ao lado de sua cama estava trancado com as chaves, que estavam em um colar ao redor de seu pescoço. Sorri fraco.

“Creio que guarda muitas coisas neste armário.”, comentei, divertido, sorrindo ainda mais. 

“Nada muito importante.”, ele foi seco, quase mal educado.

Poucos dias se passaram e nossos encontros em seu quarto eram frequentes, já que ele nunca descia para fazer as refeições e pedia que levassem até o quarto. O estranho era que na maioria das vezes elas voltavam quase intactas, mesmo ele dizendo que comera muito bem e estava satisfeito. Ele também quase nunca abria as janelas do quarto, muito menos as cortinas, deixava tudo à penumbra e gostava de passeios noturnos. Eu quebrei o acordo com seu pai e acabei perguntando sobre sua mãe, mas ele apenas fechou a cara e me disse para não fazer muitas perguntas, o que certamente me deixou bastante chateado.

“Às vezes sinto que você apenas esconde coisas de mim.”, comentei certa vez, já frustrado de tantos segredos da parte de Jisung, “Parece que não confia em mim.”

Ele suspirou. Estávamos sentados na varanda que dava vista para a estrada, sentados em um dos sofás e conversando. Jisung ajustou sua postura, parecendo desconfortável com o que eu dissera, fazendo com que eu me arrependesse no mesmo instante, mas me mantive em silêncio. Fui pego de surpresa quando sua mão tocou a minha e ele se aproximou ainda mais, aumentando levemente o aperto e aproximando seu rosto até nossos narizes se tocarem, deixando-me extremamente nervoso e me perguntando se aquilo era realmente normal entre amigos, se os garotos da cidade também faziam aquilo.

“Eu o adoro, Huang Renjun.”, afirmou ele, depositando alguns beijos nas laterais do meu rosto, enquanto sua mão apertava a minha.

Aquilo, apesar de ser constrangedor em alguns momentos, era extremamente comum. Jisung por muitas vezes gostava de segurar minha mão, beijar meu rosto e passar horas abraçado comigo em sua cama, repetindo diversas vezes que me adorava. Aqueles ataques inadequados de romantismo me deixavam confuso. Gostava de estar em seus braços, ouvindo sua voz cantarolar canções desconhecidas e algumas muito antigas, e gostava de quando beijava meu rosto, mas sempre que ele fazia isso, eu me sentia exausto, física e espiritualmente, como se todas as minhas forças estivessem sendo sugadas, e isso fazia com que às vezes eu quisesse manter distância dele e de seus toques, chegando a passar horas trancado em meu quarto, onde me sentia seguro e longe de todas aquelas coisas.

“Você é somente meu, Renjun.”, disse Jisung na primeira vez em que seus lábios tocaram os meus, “Você é meu e será meu para sempre.”, ele me beijou mais uma vez e eu me deixei levar por tudo aquilo, sentindo sua boca ir aos poucos descobrindo e aproveitando cada espaço da minha, enquanto ele me deitava no jardim e se posicionava sobre mim, entre as minhas pernas, “Não esqueça de mim jamais, caro amigo.”, sussurrou mais uma vez, apertando minhas coxas. Eu definitivamente jamais o esqueceria, mas meus pressentimentos diziam que isso não era algo bom.

Uma coisa estranha e macabra começou a acontecer exatamente uma semana e meia depois da chegada de Jisung: Xu Minghao, o filho do maior comerciante da região, o sr. Xu, fora encontrado morto na estrada, saindo da cidade. E depois dele, o filho de um dos guardas da cidade também, bem em seu quarto, deitado sobre o chão frio. Logo após esses dois casos, mais alguns corpos de outros rapazes também apareceram, apresentando os mesmos sinais que os anteriores: tiveram alucinações, febre alta, grande perda de sangue e morriam num intervalo de três dias após o início dos sintomas.

Papai recebera a visita de um dos médicos da cidade, um homem renomado. Wen Junhui, se não me engano, era o seu nome. Eu estava lendo na sala de piano com Jisung, que tocava esplendorosamente bem o instrumento, quando papai nos chamou para irmos conhecer o doutor. O homem era alto e não aparentava ser muito mais velho, apesar de eu suspeitar que era sim.

“Não acha que pode ser um princípio de alguma epidemia, dr. Wen? Algo como aquelas que assolam a Europa?”, perguntou meu pai, enquanto nós quatro caminhávamos pelo castelo, eles iam à frente, guiando o caminho, e eu ia atrás, com Jisung ao meu lado, parecendo interessado demais na conversa dos dois homens à nossa frente. Aquilo era estranho, mas resolvi fazer o mesmo que ele.

“Sabe, sr. Huang, é muito difícil que tais doenças cheguem a nos afetar nesta região.”, o médico dizia, parecendo pensativo enquanto falava, às vezes chegando a olhar para o chão, “Acredito que uma força bem além de nossa concepção está por trás de tantas atrocidades, pois não há explicação humana para tais.”

Força além da concepção. Provavelmente o doutor Wen imaginava que era algo sobrenatural, mas o que poderia estar por trás de tudo aquilo, se não a própria crueldade em forma de gente? Era muito possível que sim, uma pessoa fosse a responsável por tudo aquilo, era o que eu pensava. Jisung permaneceu em silêncio, ora me olhando, pra desviando sua atenção para qualquer outro ponto, mas seus ouvidos sempre atento aos dois.

“Acha que tenha sido alguma entidade?”, papai perguntou, parecendo interessado no ponto de vista do doutor.

“E das mais demoníacas. Aquelas mais perversas.”

Após a resposta do doutor Wen, pensei ter ouvido uma risada ao meu lado, mas ao virar o rosto para Jisung, sua expressão gritava seriedade e dificilmente teria sido ele. Franzi o cenho para o nada e voltei a ouvir os outros.

Alguns dias após a visita do doutor Wen Junhui, a lua cheia estava de volta. Iluminava o céu naquela noite e me deixava estranhamente contente, apesar de sentir um certo peso em meu peito sempre que sorria, o que chegava a ser incômodo. Bingbing entrou em meu quarto antes da hora de dormir.

“Como está sendo com o seu primeiro amigo, Renjun?”, perguntou ela, trancando a porta atrás de si e caminhando até mim, que ainda me encontrava em frente à janela, observando a floresta. Olhei rapidamente para a densa mata, logo fixando meu olhar no dela. Era a minha mãe ali, não podia mentir, mas também não podia dizer a ela tudo o que assolava minha relação confusa e conturbada com o meu visitante. 

Suspirei e deitei a cabeça em seu ombro, virando meu rosto para a lua cheia, “Estão ótimas, mamãe. Não sabia que era tão bom ter alguém além de você e de Jia para conversar.”

Ela riu do meu comentário, fazendo-me rir fraco também.

“Já faz quase um mês que ele está aqui, você tem sorrido mais. Espero que isso continue quando ele se for. Agora preciso ir, senhor Huang não gosta de me ver aqui por muito tempo.”, foi tudo o que ela falou antes de beijar minha testa e se afastar, saindo do quarto tão rápido quanto havia entrado.

Naquela noite, Jisung não pedira para irmos passear nos jardins, o que fora estranho, mas nada com que eu me preocupasse. As criadas disseram a Bingbing que ele havia comido quase tudo, e ela me repassara a informação. No entanto, antes de dormir, meu pai mandou que me chamassem em meu quarto, para que fosse até a sala de visitas. Ao chegar lá, dei de cara com um homem desconhecido, que trazia consigo algo parecido com um quadro.

“Este é Wang Chengcheng, ele é o filho do restaurador de quadros da cidade. Lembra dos quadros que encomendei? Chegaram.”

Virei-me para o rapaz, sorrindo largamente para o mesmo, não entendendo o porquê das encomendas serem entregues àquela hora, mas resolvi não questionar.

“É um prazer, Wang Chengcheng. Sou Huang Renjun, espero que tenha feito uma boa viagem da cidade até aqui.”, cumprimentei-o.

“Boa noite, senhor Huang, é um prazer.”, respondeu.

Ele e meu pai conversaram mais uma alguma coisa e ele logo foi para perto do primeiro quadro, para mostrar como havia ficado o resultado final. Assim que Wang Chengcheng retirou o pano de seda, fiquei boquiaberto ao dar de cara com um belo retrato de um antepassado, datado de 1657. O homem, meu pai dissera, era Fu Chengjie, um dos braços direitos do imperador, o que explicava o tamanho prestígio que todos os governantes pareciam ter com nossa família. O mais impressionante e, talvez, aterrorizante sobre a pintura, era a semelhança gritante entre Fu Chengjie e Park Jisung, apesar dos olhos do homem serem mais amenos e suaves, além de terem um tom mais claro do que o quase preto dos de Jisung. Se pareciam tanto que chegava a me tirar o fôlego, tamanho encantamento. Fiquei fascinado pela pintura, poderia passar horas admirando.

“Posso pendurar este em meu quarto? Fu Chengjie se parece demais com meu grande amigo.”, perguntei de repente, chamando a atenção dos outros dois e sorrindo largo para eles. Meu pai pareceu pensar, mas logo chamou alguns criados para ajudar. “Obrigado, meu pai.”, agradeci, ainda encantado com a obra.

O quadro fora posto em frente à minha cama, no centro da parede. Não me parecia uma má ideia passar a noite o observando, admirando o quanto era semelhante ao meu amigo, mas o sono logo me abateu e eu fui dormir.

Um certo incômodo começou a tomar conta de mim. Meu peito doía, apertava e era como se eu estivesse preso em uma caixinha minúscula, sem chances de me mexer para sair. Meus olhos estavam fechados, mas queriam se abrir a qualquer custo. Minha respiração estava ofegante e era como se todas as forças estivessem sendo arrancadas de mim. Quando finalmente consegui abrir os olhos, estava deitado de lado, ofegante, trêmulo, ainda sem conseguir me mover, como se estivesse sendo preso por alguma força maior, algo prendia meu corpo e ia sufocando. Mesmo que me esforçasse, nem mesmo conseguia mexer um músculo sequer. De repente, minha visão ficou turva, e assim que consegui focá-la, no quase breu, a luz da lua iluminou o ponto onde minha atenção estava fixada, fazendo-me quase gritar de horror ao dar de cara com uma cobra bem maior que o normal, preta e com algumas escamas esverdeadas, vindo lentamente em minha direção. Finalmente consegui gritar, no momento em que o animal simplesmente subiu na cama e mordeu meu ombro, no mesmo lugar de antes, fazendo-me urrar ainda mais e então tudo se apagou.

Achei ter sido só um pesadelo quando voltei a acordar naquela madrugada, já sem as mesmas sensações das horas anteriores, mas ainda sentindo dor no ombro, onde não havia nenhum sinal de mordida. Quando levantei o olhar, ao me sentir observado, dei de cara com uma silhueta masculina parada próxima à cama, exatamente como há onze anos. Prendi a respiração e peguei a vela ao meu lado para focar no rosto do homem, mas assim que voltei a olhá-lo, ele simplesmente atravessou a superfície da porta, sumindo entre a penumbra, deixando-me aterrorizado para trás. Sentia o suor frio descer do meu rosto, enquanto minha respiração descompensada fazia uma junção ao meu coração palpitando e meu corpo tremendo. Parecia que eu estava vivendo todo aquele horror outra vez.

As semanas se passaram do mesmo jeito, só que os toques de Jisung e seus beijos escondidos ficaram mais frequentes. Meu convidado gostava de me beijar quando ninguém estava por perto, dizendo que era muito comum que amigos fizessem aquilo quando estavam a sós. Eu acreditava nas coisas que ele dizia, porque por mais que ele parecesse drenar todas as minhas energias boas, eu ainda gostava de estar com ele e de saber que finalmente eu tinha um amigo e alguém com quem contar. Minha mãe também estava contente com tudo, mesmo que Jia dissesse que Jisung era amedrontador, eu sempre o defendia e não deixava que nenhum outro criado falasse sobre ele ou criticasse sua personalidade sem conhecê-lo. Papai gostava da nossa amizade e dizia que era bom me ver feliz daquele jeito.

Por outro lado, ao dormir, apesar de não mais acordar no meio da noite, eu ainda tinha pesadelos com a cobra e seus olhos avermelhados me encarando intensamente. Era difícil acordar e olhar para Jisung em alguns momentos, porque era como se ele me fitasse com semelhante intensidade, parecendo penetrar cada centímetro do meu ser, tomando para si cada mínimo pedaço do que eu tinha, e não era como se eu tivesse forças para fazê-lo parar, pois sentia que sempre que acordava, todas as minhas energias haviam sumido aos poucos, e muitas vezes não conseguia levantar, tamanha era a fraqueza que parecia se apossar de mim. Foi também quando uma extrema melancolia me assolou, sendo Jisung, meu amigo e hóspede, o único que ainda me mantinha com vontade de sair do quarto para nossos passeios noturnos, por mais que também parecesse que ele era o responsável por todo aquele sofrimento repentino. Às vezes eu sentia repulsa ao estar perto dele, mas em outros, era como se apenas ele importasse nesse mundo, até mesmo antes de meu pai, Bingbing e Jia.

Ele era um pensamento recorrente, o que fazia que também acabasse aparecendo em sonhos meus, até mesmo os mais estranhos.

A chuva tamborilava lugubremente contra as vidraças da janela, mas naquele momento, eu não estava em minha cama, mas sim jogado no chão do quarto, sentindo uma dor terrível no ombro, mas o que mais me assustou não foi minha situação. Quando olhei para a frente, dei de cara com Jisung, totalmente ensanguentado, parado aos pés de minha cama, com o sangue escorrendo de sua boca, olhando-me com aqueles olhos escarlate, parecendo... Uma cobra, prestes a dar o bote.

Acordei sobressaltado, olhando ao redor do quarto escuro, procurando por algum sinal de alguém, dando de cara com o vazio. Meu coração estava apertado e eu pensei que Jisung pudesse estar em perigo, então saí correndo do quarto e segui para o quarto onde meu visitante estava.

“Jisung!”, gritei, batendo na porta e já chamando a atenção de outras pessoas, enquanto alguns criados apareciam por ali. Eu continuava a quase espancar a porta. “Jisung, por favor, abra a porta!”, supliquei, empurrando o ombro na direção da superfície, numa falha tentativa de abrir. Somente quando alguns criados me ajudaram que pude finalmente adentrar o cômodo vazio, banhado na penumbra e sem nenhum sinal do meu amigo. Comecei a entrar em pânico, totalmente desesperado para encontrá-lo. Bingbing estava acordada, e junto a ela, todos os outros olhavam surpresos para o quarto. “O que fazem aqui? Vamos atrás de Park Jisung agora mesmo!”

Nem mesmo notei quando meu pai acordou e começou a ajudar na busca, com uns indo para os jardins ao mesmo tempo em que os outros e eu procurávamos pelo castelo, buscando em cada canto, em cada fresta, algum sinal de Jisung. O medo e a apreensão já tomavam conta de mim naquele momento, meu coração parecia prestes a sair pela boca e eu só queria encontrar o rapaz de uma vez por todas.

Já passava das cinco da manhã, o sol começava a dar sinais de que ia nascer, mas nenhum sinal de Jisung.

“Iremos encontrá-lo, meu filho.”, Bingbing dizia, passando a mão em meus cabelos. Eu já estava ficando sem esperanças, até que algo pareceu sussurrar em meu ouvido, como se me dissesse para voltar ao quarto dele.

“Mãe, preciso fazer uma coisa.”, foi o que falei antes de correr até lá. Ao abrir a porta, sem muitas dificuldades daquela vez, encontrei meu amigo ajoelhado próximo a cama, parecendo fraco. “Jisung! Por Deus, onde você esteve?”

Papai e eu estávamos em seu quarto, observando enquanto Jisung tomava o chá que eu fizera, quase que à contragosto, mas não era como se eu ligasse, realmente; o rapaz estava fraco, precisava beber alguma coisa.

“Não se lembra onde esteve na noite passada, Park Jisung?”, meu pai perguntou, parecendo igualmente preocupado com meu amigo, assim como eu. Alternei os olhares entre os dois, mas logo os fixei apenas no rapaz sentado sobre a cama, acabando por sentar próximo a ele. Novamente seus olhos castanhos e intensos me fitaram. O quadro de Fu Chengjie já não estava mais em meu quarto, pois ocupava a parede da sala, mas ainda assim era como se eu sentisse sua presença sempre que Jisung me olhava daquele jeito, quase arrancando meu fôlego à força.

Ele balançou a cabeça negativamente, finalmente olhando para meu pai, “Não, senhor Huang.”

Meu pai passou a mão pelos cabelos negros, suspirando e então olhou para o rapaz, “Entendo, meu jovem.”

Ele saiu do quarto em seguida, lançando-me um olhar que eu sabia muito bem o que significava.

“Quero que me perdoe, Huang Renjun.”, ouvi Jisung dizer e virei o rosto para ele, confuso com suas palavras, “Não quis causar um alvoroço. Creio que deve estar chateado, não quis ser um estorvo–”

“Pare de dizer coisas sem sentido, Park Jisung!”, cortei sua fala imediatamente, enquanto ele se aproximava lentamente e segurava meu rosto com ambas mãos.

Pensei que fosse beijar meus lábios, mas ele apenas ficou ali, encarando-me com um ar de quase adoração.

“Eu fiz o que deveria fazer por um amigo, não se sinta um estorvo por isso.”, sorri largo, tentando passar segurança em minha fala, querendo que ele confiasse em minhas palavras.

Foi aí que ele grudou nossas bocas, e eu simplesmente não consegui parar por ali, deixando que suas mãos descessem para a minha cintura e apertassem a carne com uma força que não parecia ser dele. O beijo era diferente daquele vez, senti isso quando ele me deitou sobre a cama e se posicionou entre as minhas pernas, começando a me beijar afoito. Eu não sabia o que estava acontecendo, entretanto deixei-me levar mais uma vez pelo meu convidado, sem muita coragem de pedir para parar, e também sem muita vontade de o fazer. Acordei dolorido algumas horas depois, cansado e novamente com aquela sensação de melancolia e fraqueza. Saí de seu quarto torcendo para que ninguém tivesse ouvido nenhum dos gemidos e alguns quase gritos que soltei nas horas anteriores, enquanto Jisung parecia possuir o meu corpo para si.

Assim que adentrei o escritório de meu pai, após um bom banho para tirar o suor e o cheiro de Jisung que parecia impregnado em mim, o encontrei pensativo, enquanto encarava a janela que dava vista para o jardim. Aproximei-me com cautela, vendo que ele parecia divagar em seus próprios devaneios. Toquei-lhe o ombro rapidamente, apenas para lhe mostrar que estava ali. Ele se virou para mim, sorrindo fraco.

“Não pensei que fosse demorar.”, falou simpático, mas imaginei que poderia ser mais uma repreensão do que qualquer outra coisa. Envergonhado por tê-lo deixado esperando, senti um rubor tomar conta de mim, “Seu visitante... Sua situação me preocupa, entende o que quero dizer?”

Suspirei pesado, desviando o olhar do rosto dele e focando-me no canteiro de rosas que haviam no jardim. Só a menção de Jisung me deixava daquele jeito, agitado e com o coração apertado, quase desesperado, querendo sair correndo para longe.

“Entendo.”, respondi, cabisbaixo, “Acha que ele pode ter algum problema?”, perguntei soando mais apreensivo do que deveria.

Meu pai também suspirou, “Para ser sincero, sim.”, disse ele, parecendo distante, como se sua mente o estivesse levando para um lugar bem longe dali. “Teremos que ter mais cuidado ainda. Acredito que este seja o motivo para que ele durma com as janelas e portas trancadas. Sonambulismo.”

“Não tem como livrá-lo de tamanho sofrimento, estou certo? Sinto que preciso ajudá-lo, meu pai. Park Jisung é meu primeiro e único amigo. Sinto que algo maior o trouxe até mim.”

Meu pai me olhava enquanto eu falava, analisando meu rosto então sorriu fraco mais uma vez, deixando mais evidente as covinhas que tinha nas bochechas, tocando meu ombro.

“É bom ver essa determinação que ele plantou em você. Ajude-o no que puder, estarei lhe apoiando em tudo o que for preciso.”, falou, apertando meu ombro e então afastando-se rapidamente, “Agora, Bingbing o está aguardando na cozinha, vá até lá.”

Meu pai nunca parecia contente ao falar de Bingbing, mas esse era um assunto no qual eu jamais tocava, não querendo atrair sua raiva e deixar que a tratasse mal. Normalmente, caso ele nos visse juntos de mais, ou quando me via a tratando como uma mãe, – o que ela era –, ele normalmente a mandava passar um dia no calabouço e me trancava em meu quarto, para aprendermos a separar as coisas.

Saí de seu escritório, passei pela cozinha para um lanche rápido e voltei para o meu quarto, sentindo que finalmente poderia dormir naquele dia.

Minha situação piorou com o passar dos dias, após todo o ocorrido no quarto de Park Jisung. Várias tosses, uma fraqueza sem igual e imensa melancolia tomaram conta de mim, enquanto parecia que tudo estava ruindo. Meus pesadelos ficaram mais intensos e as dores também, como se realmente aquele animal peçonhento estivesse me mordendo, arrancando meu sangue e drenando junto todas as minhas forças, minha vida.

Papai certo dia resolveu chamar o doutor Wen Junhui, pedindo para que o mesmo me examinasse. Depois da consulta, e os vi indo para o escritório, talvez buscando uma conversa mais reservada e sem interrupções, então resolvi ir atrás para tentar descobrir do que falariam sobre mim que não poderia ser dito em minha frente.

Ao parar em frente à porta trancada e aproximar minha orelha da superfície, eles já se estendiam no assunto, principalmente o médico, que no momento dizia:

“Senhor Huang, creio que para isto seja bom não deixar o senhor l Huang Renjun sozinho por muito tempo. Acredito que ele tenha um amigo, certo? Será bom se passarem mais tempo juntos.”

Foi a partir daí que meus momentos sozinho com Jisung aumentaram ainda mais.

“É bom saber que sou o único capaz de lhe fazer bem.”, ele dizia, beijando-me os lábios mesmo que eu não quisesse, enquanto me abraçava e apertava minha coxa. Estávamos em sua cama, depois de mais algumas horas em que ele fazia aquilo de parecer possuir o meu corpo enquanto ia adentrando-me e fazendo-me sentir coisas que nunca pensei serem possíveis. Senti vontade de dizer que era perto dele que minha fraqueza, repugnância e melancolia se tornavam mais frequentes, mas guardei tais pensamentos para mim. Na noite em que Jisung tivera seu ataque de sonambulismo, o dono de um templo um pouco fora da cidade fora encontrado totalmente dilacerado, com os olhos para fora e sufocado, como se tivesse algo enrolado ao seu corpo. Fora difícil não pensar naquela grande cobra preta, com algumas escamas em um verde reluzente.

Naquela mesma noite, voltei a ver a cobra parada ao pé de minha cama, enquanto o pânico se alastrava por todo o meu corpo. Seus olhos eram profundos e intensos, então ela me mordeu ainda mais, fazendo-me gritar e me debater, tentando tirá-la dali o mais rápido possível. A noite estava iluminada pela lua cheia outra vez. Eu desmaiei novamente, logo então despertando, como da primeira vez, e vendo aquela mesma silhueta parada próxima à cama. Pensei que o ser fosse embora como da outra vez, então não me dei o trabalho de pegar a vela. Todavia, quando menos esperei, em meio a penumbra do quarto, aquele homem pulou sobre mim e a lua iluminou apenas seus olhos, de um escarlate gritante. Eu não queria admitir, mas suas íris me lembravam a de Jisung.

Ele agarrou minhas pernas e se posicionou entre elas.

“Você é meu, Renjun, só meu. Eu o adoro. O adoro.”, disse ele, e antes que eu pudesse reconhecer aquela voz rouca, aproximou o rosto do meu pescoço e cheirou, inalando o cheiro do sais de banho, distribuindo beijos por ali que me causavam repulsa, nojo, querendo o afastar de mim, mas não conseguia.

Parecia uma fera cheirando sua presa, vendo qual poderia ser o melhor lugar para devorar e foi o que fez: mordeu meu pescoço e pareceu sugar meu sangue. Comecei a me debater, tentando implorar para que parasse, mas já não tinha forças para isso. Sentia a vida me ser arrancada. Ele apertava meus braços acima da cabeça e prensava seu corpo ao meu, impedindo-me de me mover, ao mesmo tempo em que sua mordida ia banhando o leito em sangue. Quando tudo pareceu acabar, abrir os olhos rapidamente, vendo que estava sozinho no quarto e não haviam sinais de sangue, apesar da dor fora do normal em meu pescoço, mas ao passar a mão por ali, não havia sinal de mordida.

“Estamos quase lá, meu Renjun.”, ouvi alguém sussurrar e me virei para todos os cantos, dando de cara com aquele maldito ser parado ao lado da porta.

“O que quer de mim?!”, perguntei em um quase grito, já desesperado para que todo aquele horror acabasse.

Ele aproximou-se um pouco, deixando a luz da lua iluminar apenas seu tronco, então ergue uma das mãos para levá-la até a boca e lamber o sangue que eu vira ali.

“Estamos quase lá.”, e atravessou a parede.

Na manhã seguinte, fomos acordados por um grito de puro horror. Todos, menos Jisung, que talvez devesse estar dormindo ainda àquela hora, corremos para o jardim, de onde viera o som. Os criados estavam ao redor de alguma coisa no chão, alguns desesperados, tremendo e chorando.

Afastei todos que estavam à minha frente, parando no exato momento em que meus olhos encontraram a pior visão de todas: minha ama e mãe, Fan Bingbing, estava deitada no chão, sem vida, parecendo ter sido devorada por alguém, enquanto sua pele estava pálida e seu corpo banhado em sangue. Soltei um grito totalmente aterrorizado, sentindo minhas pernas fraquejarem e então fui ao chão, implorando para que aquilo não passasse de mais um pesadelo. Alguém tocou meu ombro, julguei ser meu pai mas nem me dei o trabalho de ver quem era, apenas comecei a chorar, sentindo um aperto no coração, diferente de tudo o que havia sentido em toda a minha vida.

“Mamãe!”, gritei, pouco me importando se meu pai iria ouvir ou não. Aproximei-me de seu corpo morto, abraçando Bingbing pela última vez. “Mamãe, por favor, acorde!”, eu falava, sabendo bem que isso não aconteceria. Ela parecia estar sendo sufocada, apertada por alguma coisa qualquer, o que me deixava totalmente em pânico e com raiva. Monstro maldito. “Não me deixe desse jeito, mamãe, eu imploro!”, gritei, mas alguém me afastou dela, dizendo que tirariam o corpo dali e chamariam a guarda do império para investigar. À força, meu pai me tirou do jardim, enquanto eu gritava e me debatia, querendo entender quem ou o quê poderia ter feito aquilo com a minha mãe.

Assim que me trancou em meu quarto, papai disse que me tiraria dali e me levaria para a fazenda abandonada dos Fu, tentando buscar algum sossêgo. Ele disse que alguém levaria Jisung assim que este acordasse. Durante a longa viagem, que duraria bem mais de sete horas até a fazenda, as imagens do corpo de Bingbing não saíam de minha mente, indo e voltando a todo momento. Mas além disto, outra coisa deixava-me preocupado e desconfortável: eu sentia que estava sendo observado, esse sentimento se intensificando sempre que olhava para a floresta, como se a mata densa tivesse aqueles malditos olhos escarlate, vigiando meu caminho.

Paramos em um vilarejo distante, pois meu pai queria tomar um chá antes de seguirmos. Assim que chegamos, entramos na primeira casa de chá que vimos, então os olhos de meu pai fitaram ao redor, parecendo surpreso ao dar de cara com um homem ali.

“General Qian!”, disse ele, parecendo animado, então o homem se virou para nós, sorrindo e mostrando sua bela farda do exército do imperador, que eu julguei ter sido muito judiada nos últimos dias. Estava imunda, com alguns rasgos e parecia maltratada ao extremo. Foi quando lembrei que ele ainda caçava o ser que matara seu sobrinho. Os dois sorriram e se aproximaram, abraçando-se rapidamente.

Ocupamos uma das mesas e então começamos uma conversa, onde eles participavam mais que eu, e foi naquele momento que desejei que Jisung chegasse logo. Meu pai já havia relatado ao amigo o que acontecia comigo, dizendo que estava preocupado. O General Qian Kun me analisou da cabeça aos pés, como se procurasse alguma coisa.

“Vou lhes contar com mais detalhes, meu amigo, o que aconteceu.”, o homem disse, ganhando por fim minha total atenção, “Em um dos muitos bailes que o exército costuma dar, mais ao sul, Chenle e eu e conhecemos um rapaz muito elegante, Fu Chengjie, e seu pai, um homem misterioso. Eles pareciam querer um lugar para ficar, para o rapaz no caso, enquanto o pai resolvia assuntos ligados à morte de sua amada esposa. O jovem Zhong estava encantado com o visitante, até mesmo planejando levá-lo para nossa viagem até você, contando a ele tudo o que já sabia sobre vocês dois, parecendo genuinamente feliz. Era bom vê-lo daquela maneira, então permiti todas as suas vontades. Foi quando os sintomas, os mesmos de Renjun, começaram. Após a visita de um médico, cheguei à única conclusão plausível”, então ele deu uma pausa no relato, para beber um pouco de chá, “Chenle estava sendo visitado por um vampiro. Mais uma das pragas que os povos além do oceano trouxeram para nós. Quis pegar o monstro demoníaco no flagra, então acabei por me esconder em um dos armários, empunhando minha espada. Foi então que eu vi, juro meu amigo, surgir da escuridão, uma cobra gigante, toda preta e com os olhos vermelhos como sangue. Ela se aproximou sorrateiramente do jovem Zhong e estava pronta para lhe morder o pescoço, então saí de meu esconderijo e pulei em cima do animal, querendo matá-lo de vez, mas o mesmo se afastou e quando menos esperei, tomou a forma do nosso visitante. Mal pude acreditar no que meus olhos viram, caro amigo! Tamanho era meu horror diante de tudo aquilo. Ele fugiu. Diante de meus olhos assustados, o demônio atravessou a parede e sumiu. Quando finalmente fui até meu sobrinho, já era tarde demais, seu corpo já não tinha sinais de vida.”

O General Qian seguiu viagem conosco, dizendo que precisava achar o túmulo de Fu Chengjie, para enfim acabar com aquilo. Para ser sincero, o medo diante de seu relato estava começando a me deixar alucinado, pensando em Jisung e em como tudo poderia ter acontecido. Eu jamais desconfiaria de meu amigo, mas ainda sentia uma certa apreensão naquele momento, após ouvir toda a história de Qian Kun e do pobre Zhong Chenle. Nossa viagem foi silenciosa, sem muitas surpresas, enquanto eu imaginava que talvez, àquela hora, meu amigo já estivesse vindo ao meu encontro.

“Com licença, o senhor poderia me informar onde fica o túmulo do senhor Fu Chengjie? Foi um fazendeiro, mão direita do imperador e que tinha terras nesta região.”, o general perguntou a um homem que passava ao nosso lado. Estávamos parados no meio da estrada.

O homem nos analisou, fitando-me intensamente.

“O túmulo mudou de lugar, senhor General.”, começou a responder, ainda me olhando, “O caçador de vampiros, Dong Xiaosi, o transferiu para uma das ruínas da fazenda, mas eu não lhe dizer qual seria ao certo.”

Aquilo bastou para o General Qian, que apenas nos disse para seguir nosso caminho. Papai avisou que apenas nos deixaria ali e voltaria para o vilarejo, querendo ajudar o amigo, indo atrás do tal caçador. Ao nos deixar na fazenda, ele nos disse para esperá-lo no templo, e foi para lá que seguimos, em um caminho silencioso. Meus olhos vagavam por toda a extensão da propriedade abandonada, ainda não conseguindo me livrar das lembranças e daquela maldita sensação de ainda estar sendo observado. Eu contei ao General Qian sobre minha mãe, relatando a ele os horrores que vivi naquela manhã e como tudo ainda estava vivo em minha memória. Ele confirmou que ela fora atacada por um vampiro, mas resolvi não dizer nada. Esperava também que Jisung aparecesse.

“Esse seu amigo parece ser importante para você, senhor Renjun.”, observou ele enquanto eu caminhava de um lado para o outro. Olhei para o General e então para o lado de fora.

“Jisung é meu primeiro e único amigo, General Qian.”, falei, “Creio que saiba como é este sentimento. Ele irá me ajudar a superar a morte brutal e injusta de minha mãe, tenho fé nisso.”, confirmei, finalmente olhando para o homem. Antes que ele pudesse responder, ouvimos passos se aproximando, deixando-me inexplicavelmente nervoso ao pensar na possibilidade de que só poderia ser meu amigo. Virei animado para a porta, vendo se fazer a silhueta magra dele. Entretanto, antes que eu pudesse correr em sua direção para abraçá-lo, ouvimos a voz do General e o Qian logo se pôs à minha frente, gritando cheio de raiva:

“Você! Seu demônio maldito!”, enquanto encarava Jisung.

Não entendi o que acontecia.

“Por favor, General, controle-se! Este é meu amigo, Park Jisung!”, tentei intervir, mas o homem mais velho me empurrou.

“Não vê o que acontece, senhor Renjun? Este é Fu Chengjie, vampiro nojento que tirou a vida do meu sobrinho e que está fazendo o mesmo com você!”, gritou ele.

Foi como um estalo em minha mente, e todos os acontecimentos vieram à tona, como um jogo de peças se resolvendo sozinho, revelando uma verdade que estava estampada todo esse tempo, mas que fui cego demais para enfim perceber, enquanto meus olhares pousavam em meu amigo, parado com um ar arrogância na porta do templo.

Jisung era gélido demais para uma pessoa normal, sua pele era muito pálida e ele vivia na escuridão, pouco se alimentava e era misterioso, evitava falar sobre sua família ou suas origens. Ele também era encantador demais, chegando a ser atraente ao extremo. A maneira como ele me tratava, seus sumiços na madrugada... Por Deus. Estava tudo em minha cara e eu me fiz de cego. As visões, as aparições em meu quarto, a fraqueza e o horror que ele me causava. Não eram alucinações. Era tudo real, e ele conseguiu me manipular de tal maneira que me fiz de cego até o último segundo. Vagando em meus pensamentos, nem notei quando já estava seus braços, apenas voltando à realidade quando o General Qian gritou, dizendo que me tiraria dali.

Quando menos esperei, Jisung me puxou pela mão e fugiu comigo, atravessando a parede e me deixando horrorizado ao fazer aquilo. Ele corria como um animal selvagem por entre a mata, e eu apenas o seguia por estar sendo puxado, não tendo forças para lutar contra e voltar para perto do general.

“Estamos quase lá, meu Renjun. Quase lá.”, ouvi aquele mesmo sussurro, parecendo arrastado e era como se a cobra falasse comigo. Foi a primeira vez em que tentei lutar, livrar-me dele, puxando meu braço para longe do aperto de seu pulso, mas isso apenas o fez para no meio da mata e me encarar, colando nossos corpos e apertando minha cintura de um jeito que eu sabia que ficaria roxo por dias.

“Fique bem quieto, ou então serei obrigado a fazer o que não quero.”, murmurou o vampiro, então vi seus olhos tomarem um tom escarlate, e seus dentes parecia se transformar em presas. O pânico era naquele momento o meu companheiro.

Ele correu mais um pouco, mas parou bruscamente, dizendo que algo estava errado.

“Sabe aquele caçador de vampiros? Ele já é um de nós. Apaixonou-se por uma e ela o transformou. Agora é seu filho, Dong Sicheng, que nos caça, então precisamos fugir agora mesmo. Quero que fique comigo, Renjun.”, ele dizia coisas ao vento, de repente, aproximando-se e começando a cheirar e lamber meu pescoço. “Você é quase meu, completamente. Nós fizemos amor tantas vezes e foi tão gostoso. Não é possível que não queria ficar comigo por toda a eternidade, como Dong Xiaosi e Camila.”

Meu corpo todo tremia, eu sentia que estava prestes a ter um ataque, sentindo um medo seu igual quando o ser me prensou contra a parede. As lágrimas caíram sem que eu pudesse impedir. 

“Estão quase exumando meu corpo.”, avisou ele, então me puxou e nós fizemos o caminho de volta. 

Eu estava exausto, queria me livrar de Park Jisung e voltar a viver normalmente. Minha saúde não ajudava, muitas vezes eu precisava para tossir e tentar recuperar as forças que já não tinha. Jisung não ligava, ele apenas seguia seu caminho, apertando minha mão e não me libertando em nenhum momento. Já me sentia fraco, prestes a desabar, quando de repente sua mão se soltou da minha.

Olhei para Jisung e ele estava jogado no chão, agonizando em dor.

“Maldição!”, gritou o vampiro, parecendo queimar por dentro. Seus olhos vermelhos se tornaram dois buracos fundos e negros, enquanto sua pele queimava aos poucos, parecendo uma tortura sem igual. Ele se debatia e eu, amedrontado com aquela cena, fiquei jogado no chão ao seu lado, vendo o ser demoníaco sofrer. “Eu vou, Renjun, mas juro que você será meu, nem que para isso eu gaste mil anos lhe perseguindo!”

Algum longo tempo depois, o corpo em chamas se tornou cinzas, sendo estas absorvidas pelo chão seco da floresta. Já sem forças para levantar e correr, apenas me entreguei à exaustão, caindo desacordado no chão. A última coisa que ouvi foram vozes e passos se aproximando.

Após o fim de tanto sofrimento e horror, meu pai decidiu que deveríamos tirar um ano de repouso, longe de nossa casa e da fazenda em ruínas, então partimos para fora do país, com a autorização do imperador, que permitiu que fôssemos para a Inglaterra e ficássemos hospedados em Rosings Park, uma propriedade secreta que ele mantinha com quase duzentas mil libras anuais, o que parecia ser muito realmente, considerando o porte da residência. Hua Jia viera conosco, trazendo alguns pertences de minha mãe que eu exigi que fossem colocados em meu quarto. O trauma e a saudade ainda me assombravam, mas eu lutava contra tudo para me recuperar o mais rápido possível, torcendo para que em breve todo aquele terror vivido nos últimos meses se tornassem lembranças distantes. Ainda sentia o aperto de Jisung queimar em meu pulso e em minha cintura, como se a qualquer momento sua mão fosse voltar a envolver a região e me levar para dentro da floresta. Também lembrava de suas palavras. Fizemos amor.

Agora eu entendia tudo o que se passara em entre nós.

Mas não eram essas as únicas palavras que me assombravam: ainda haviam suas últimas. “Você será meu, nem que para isso eu gaste mil anos lhe perseguindo.”

Os pesadelos se seguiram por alguns meses, até que finalmente tive paz, não mais sendo aterrorizado por aqueles olhos escarlate e aqueles dores agonizantes em meu ombro e pescoço. Uma das coisas que eu exigi também fora que pintassem um belo quadro de minha mãe, inspirado em um dos esboços que um criado pintor mantinha. Era um quadro dela cuidando do jardim, comigo bem pequeno ao seu lado. 

“É bom vê-lo sorrir após tanto tempo, senhor Renjun.”, ouvi alguém dizer, enquanto cuidava das rosas vermelhas do jardim. Virei o rosto, sorrindo fraco ao ver Jia com uma cesta cheia de flores em suas mãos.

“Sinto que agora sim estou bem, Hua Jia. Mamãe não gostaria de me ver triste para sempre.”, respondi, voltando a me focar em minha tarefa.

Naquele dia em questão, aquela rápida sensação de estar sendo observado surgiu, mas apenas dei de ombros para o nada. A floresta de Rosings Park tinha um caminho que levava até um belo lago que também pertencia à residência, além de ser habitada por alguns animais como pássaros e algumas espécies de primatas pequenos, talvez fosse algum deles ali perto.

“Espero que tente dormir bem hoje, já que não estarei aqui.”, papai dizia enquanto caminhávamos até a carruagem que o aguardava nos portões de Rosings Park. Sorri fraco para ele, tentando lhe passar alguma segurança, “Volto em quatro dias.”

“Tenha uma boa viagem até Londres, meu pai, não esqueça que estarei o esperando.”, falei, alargando o sorriso enquanto o via entrar na carruagem, logo então partindo.

Papai tinha que fazer aquelas rápidas viagens à capital quase sempre, já que era para lá que os documentos que o imperador queria analisar eram mandados, sendo sigilosamente guardados. Jia se tornara a minha única companhia na vida durante aquele ano, principalmente porque meu pai ainda não queria que eu tivesse novos amigos ou que mantivesse contato com os criados daquela residência. Eu não os conhecia e eram completos estranhos para mim. Cuidar das rosas vermelhas do canteiro atrás da casa era o meu passatempo, pois me fazia distrair a mente de pensamentos que insistiam em ainda me atormentar, e minhas noites de sono também se tornaram tranquilas, bem diferente das que eu costumava ter no início.

Foi em uma dessas noites, enquanto meu pai ainda viajava, que novamente senti aqueles olhos me observando, como se aquele ser demoníaco ainda estivesse ali, guardando meu sono e esperando o momento perfeito para atacar.

Ao abrir os olhos abruptamente, no meio da noite, pude ver a silhueta pular a janela. Assustado e sentindo-me totalmente angustiado, corri até lá apenas para vê-lo seguir para a estrada. Para a minha surpresa, ele não foi muito longe. Ficou parado abaixo da janela do quarto, logo então se virando para mim, revelando um Jisung inteirinho, como se nada tivesse acontecido, encarando-me com um belo sorriso de lado.

“Eu lhe disse que iria atrás de você. Você irá pertencer a mim. Estamos quase lá, meu Renjun.”, sua voz sussurrou para mim, enquanto eu tremia em puro terror, torcendo para que fosse um pesadelo, enquanto o via sumir pela escuridão.


Notas Finais


corram de vampiros tradicionais.

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