História A Princesa da Escócia - Capítulo 23


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Categorias Reign
Personagens Aloysius Castleroy, Antoine of Navarre, Catherine de Medici, Christian, Duke of Guise, Claude of France, Francis II of France, Greer of Kinross, Kenna, Leith Bayard, Lola, Louis, Prince of Condé, Mary, Queen of Scots, Nostradamus, Personagens Originais, Sebastian "Bash", Stéphane Narcisse
Tags Anne Boleyn, Bash, Elizabeth, Francis, Henry Viii, Mary, Medieval, Queen Of Scots, Reign, The Tudors
Visualizações 173
Palavras 5.089
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi!
Eu sei, eu sei, dois meses para um capitulo novo. DOIS MESES, ARIEL?!
Mas gente, o outro levou seis meses para ser atualizado! Significa que eu rui muito rápida até!
Desculpa, gente, de verdade! É que eu trabalho e estou estudando para o enem, minha vida está tão corrida que o pouco tempo que posso eu só passo escrevendo.
Mas digo e repito: não importa o tempo que eu devore para postar, eu nunca vou deixar de postar!

Esse capitulo NÃO é uma continuação do capitulo anterior. Eu sei que vocês queriam ver Charlotte tacar fogo na Inglaterra com a descoberta do capitulo 22. Mas eu tinha que contar a origem de Charlotte e porque seu amor por Elizabeth é tão forte. Então esse e o próximo serão capítulos de flashback. Esse será focado na Charlotte ainda na Escócia e o próximo será focado na Inglaterra.
Tudo bem? Ok? A gente conversa melhor lá embaixo, vocês querem saber de capitulo certo?
Então eu vos peço que escutem ao som da minha eterna banda favorita: Evanescence - Missing

Capítulo 23 - 23


Fanfic / Fanfiction A Princesa da Escócia - Capítulo 23 - 23

 

–É o príncipe da França? –Charlotte apontou para o quadro e torceu o nariz. –Parece uma menina.

–Parece mesmo – Mary também torceu o nariz analisando seu futuro marido.

O delfim era uma coisa pequena e pálida ao lado da irmã, pronto para ser engolido pelo vestido chamativo da princesa Claude. Se aquele quadro tinha o objetivo de animar Mary com o futuro que teria ao lado daquele garoto, o efeito foi inverso: serviu para arrancar gargalhadas das irmãs.

Como duas escocesas, estavam sempre ao redor de homens grandes e imponentes. Acostumaram–se a ter lordes gritando e brigando a sua volta e as vozes de trovões não as assustavam nenhum pouco. Agora aquele visual enfeitado e colorido da França lhes trazia uma visão de um conto ou fabula usada para arrancar risadas no salão principal.

Para Charlotte, principalmente, pois não foi ensinada à moda francesa como Mary tudo aquilo era um grande circo do qual nunca queria fazer parte.

–O outro é mais bonito, irmã – Charlotte comentou. Não que menino a interessasse, só que infelizmente era um assunto que já devia tratar quando se é herdeira de um país. Desde cedo mulheres eram moldadas para se preocupar com os homens que se casariam, sendo princesa ou não.

O outro pretendente que Charlotte se referia era Henry Tudor, príncipe da Inglaterra e primo delas. Mary estava prometida a ele até que em pouco tempo as coisas mudaram e seu futuro foi selado ao Delfim da França. Esse era o motivo pelo qual naquela tarde estava separando suas coisas favoritas e aproveitando um dos poucos momentos que tinha com a irmã.

Mesmo que Charlotte só tivesse cinco anos e mal soubesse o que estava acontecendo.

–Mamãe disse que não posso me casar com Henry – Mary deu ombros. Ela não sabia o porquê. –Talvez esteja guardando você para ele.

–Charlotte nunca será rainha – Charlotte fingiu que não se importava, porém sua voz triste a denunciou. – Não sou você, Mary.

–Não precisa ser eu para ser uma rainha – a mais velha embalou a menor em um abraço, e beijou sua cabeça. –Só precisa ser menos...

–Um menino? – Charlotte se soltou do abraço, olhando para a irmã. Aquela frase era a que mais escutava da mãe delas e a irritava profundamente. –Não gosto de bordar ou colocar livros na cabeça! Quero cavalgar me lutar com espadas!

–Isso não é ser uma rainha! –Mary riu do comentário. Charlotte era tão menino às vezes. Era nesses momentos que ela se parecia com James. 

–Não posso ser rainha e me divertir? –perguntou Charlotte emburrada.

–Receio que não. –Mary negou com a cabeça.

–Então não quero ser Rainha! –Charlotte cruzou os braços e bufou.

–Rainha ou não, é uma princesa –Mary foi ate a estante e pegou uma da suas tiaras brilhantes. Fingindo uma cerimonia corou Charlotte. – E sempre vai ser minha irmã.

Charlotte tocou no acessório e deu um sorriso iluminado a Mary.

–Mesmo sendo uma rainha chata eu te adoro –Charlotte segurou o vestido e começou a dançar pelo quarto, cantarolando sua balada favorita “A donzela e o urso”.

Mary assistia a cena, com lagrima nos olhos. Eram diferentes em muitos aspectos. Mary gostava das aulas de etiqueta e de tudo que envolvia suas lições de princesa, enquanto Charlotte sempre fugia para brincar no pátio com o irmão bastardo delas, James. Mas Charlotte e Mary pareciam–se bastante também, principalmente no amor pelo país e o orgulho de serem princesas. Charlotte por algumas vezes era mais vaidosa que Mary e adorava criar uma pequena competição de qual das duas tinha o vestido mais bonito.

Mary sentiria muita falta dela. A irmã mais nova era a única pessoa que gostaria de levar para sua nova vida na França. E ela precisava saber que Mary não voltaria tão cedo a Escócia, para ela.

–Charly,  eu vou... –começou a pequena rainha antes de alguém bater na porta e o meio–irmão delas adentrar.

–James! – Charlotte largou a tiara em cima da cama de Mary e correu para o irmão. – Vamos! Vamos! Hoje eu vou montar em um burro!

James revirou os olhos, sabendo que a irmã mais nova ficaria extremamente empolgada e insuportável com a nova aventura. Charlotte era tão fascinada em cavalos que aos dois anos de idade babava e beijava a pata de um potro que a levou para conhecer. Sorte a dele que a mãe dela não viu a cena e assim os dois puderam desenvolver o afeto e carinho que compartilhavam por cavalos.

–Agora é a minha vez de aturar a pestinha, Mary – James deu um aceno a Mary e bagunçou os cabelos de Charlotte. Ele adorava deixar ainda mais bagunçado os cachos rebeldes da garota.

–Te vejo no jantar, irmã! – Charlotte acenou para Mary e arrastou James para fora.

Mary recolheu a tiara da cama. Não, aquela ela não poderia dar para

Charlotte. Não naquele dia. Porque seria uma garantia que lhe presentearia no dia que voltariam a se ver. 

...

–Charlotte, tenha modos! – Exclamou Marie de Guise para a filha mais nova.

Era hora do jantar e a família real se reunia na mesa principal. Para o azar de Charlotte o seu lugar era exatamente na frente de sua mãe. Com Mary ocupando a cadeira da rainha na ponta da mesa, Charlotte à esquerda, e Marie na direita. Ao lado de Marie vinha  Lorde Armonstrog, padrinho de Charlotte e depois seguido por seus filhos. Ao lado de Charlotte estava seu irmão bastardo Jaime e logo vinha à família Boyd. Podiam revezar a família de lordes que os acompanhariam no jantar, porém a ordem da família real era sempre a mesma.

Como sempre, Charlotte comia como se um monstro estivesse acampado em sua barriga.

–Sim, mamãe! – A garota largou a coxa de frango no prato e passou a beber agua.

–Essa garota. Olhe para ela! –Comentou a rainha–mãe irritada.

 Lorde Armonstrog ao seu lado olhava para Charlotte com um sorriso nos lábios.

– Suas mangas estão sujas e seu vestido novo! Sabe quantos impostos foram recolhidos por esse vestido?

–Não – respondeu Charlotte. Isso fez a mãe ficar ainda mais brava, porém Charlotte não entendeu o porquê. Afinal só tinha respondido a pergunta da mãe.

–Ela é uma criança, vossa majestade – disse John Armonstrog com mansidão. – Deixe–a brincar. Como padrinho dela lhe darei uma coleção completa se for necessário.

–Obrigada, Lorde Armonstrog – Agradeceu a Rainha–mãe com má vontade.

–Está nervosa com a viagem, vossa majestade? – Perguntou Harold, filho mais velho do Lorde Armonstrog, a Mary.

–Sim, tenho medo do navio. –Respondeu Mary com as bochechas rosadas.

–Charlotte já viu um deles! São enormes monstros de madeira com bocas pronta para te colocar dentro da barriga! – contava Charlotte empolgada arrancando risada de todos da mesa.

Exceto da mãe.

–Quieta, Charlotte, preste atenção na comida –Marie nunca tinha paciência com as historias de Charlotte. Para a mulher, a filha sempre arrumava um jeito de chamar atenção e envergonhar a família com seus devaneios.

–Não precisa temer, querida – Disse Marie se direcionando a Mary. – A viagem é o mais fácil. O difícil será a corte francesa. No entanto não me preocupo tanto com você, se fosse Charlotte talvez – O olhar extraviado que a mãe lhe deu fez Charlotte se encolher. – Todavia minha Mary sempre foi educada, será uma boa hospede e quando menos espera será Rainha.  

–É uma pena que não queira deixar Charlotte ir também. Ela pode aprender muito com os franceses – Comentou Lorde Boyd, observando a dificuldade que a princesa tinha em levar comida a boca usando o garfo.

–Nada disso! Ela é escocesa demais para viver no meio daqueles almofadinhas! –Respondeu Armonstrog irritado.

Ele nunca concordou com a infecção francesa que se instalava na Escócia, esse foi um dos motivos por qual brigava com Jaime V constantemente. A Escócia já tinha uma Rainha Regente francesa, e agora ela mandaria a filha para se  tornar uma Rainha Francesa assim aliando os dois países com uma aliança quase inquebrável. Charlotte era a única da família real que tinha tanto a personalidade quanto o a proteção da Escócia. Muitos escoceses não queriam as mãos francesas nela.

–Mary também é! –exclamou Charlotte interrompendo os homens. – Ela vai voltar logo! E me prometeu trazer um presente! Conte a eles, Mary –a mais nova olhou para a irmã com esperança.

–Voltar? Ela não vai voltar. –Marie franziu a testa.

–Não? –Charlotte perguntou diretamente para Mary. Seu pequeno coração apertava em seu peito.

–Não, Charly. –a resposta de Mary quase não pode ser ouvida.

–Mary mentiu. –Charlotte largou o garfo no prato e suas lagrimas escorriam pelo rosto. Olhando para baixo, Charlotte não sabia se sentia–se triste por Mary ir embora e nunca mais se verem ou com raiva por ela não ter contado.

–Eu ia contar...

–Mary mentiu! –berrou com toda a força de seus pulmões.

–Charlotte! – Exclamou a mãe de volta. Aquela menina era uma desgraça.

Sem se importar com nada e ninguém Charlotte encheu sua mão de comida e lançou na direção de Mary, acertando seu rosto. Continuou a jogar a comida mesmo com todos os gritos de protesto de sua mãe. Todos estavam em silencio, assistindo o ataque da princesa.

–Charlotte pare agora mesmo! –A mãe então se levantou e acertou uma bofetada no rosto de Charlotte.

A menina tocou a própria face, sentindo queimar e doer. Múrmuros de indignação ressoaram pelo salão, e pela primeira vez Marie percebeu que a devoção dos escoceses era mais com Charlotte do que com Mary. Ela teria que corrigir isso.

Charlotte então limpou as lagrimas e fez mensura a todos na mesa. Sem olhar para mãe Charlotte afastou a cadeira, preparando para sair. Porém antes de ir parou ao lado de Mary, que estava estática na cadeira, e sussurrou: 

–Charlotte nunca mais vai falar com você.

 

– Venha, Charlotte, precisa se despedir de sua irmã! – Chamou Marie de Guise, impaciente. 

Charlotte negou. Estava escondida atrás de sua aia. Estava profundamente triste com Mary. A irmã iria para França, a deixando sozinha na Escócia. E sem a irmã ali para protegê-la, o que seria de Charlotte? Com quem iria exibir seus vestidos e devorar o hino da Escócia e dos clãs?

– Charlotte! – Gritou a mãe novamente. Mas a menina ergueu o queixo e tentou continuar firme em sua decisão de não se despedir de Mary.

Mary foi até a irmã com os olhos cheios d'água. Pediu para a mãe mil vezes e ela negou seu pedido. Aos olhos da mãe, Charlotte não tinha capacidade de se sair tão bem quanto ela. E Mary sabia que ali com a mãe, Charlotte iria sofrer duas vezes mais.

A pequena Rainha vira a irmã mais nova nascer. O reino todo lamentou por Charlotte ser uma menina, mas Mary não. As duas reinariam juntas, assim como faziam tudo juntas. 

– Charly. Vou sentir sua falta também – Mary alisou o rosto da irmã, limpando suas lágrimas.  

– Mary esquecer Charlotte – Respondeu triste. 

– Não. Nunca. Você é minha irmã, sempre será – A pequena rainha segurou as mãos da irmã, e beijou seus dedinhos. 

– Nunca mais vou te ver – Charlotte se agarrou a irmã mais velha com força. 

Mary era rainha. Rainhas fazem o que querem. Por que Mary não queria ficar com Charlotte? 

– Você e eu somos iguais. Tirando os olhos azuis. Se veja num espelho e vai me ver. – Mary alisou os cabelos cacheados da irmã. – Te amo, Charly. Prometo que irei te levar pra França um dia. 

A mãe chamou Mary, e com um beijo na testa Mary deixou a irmã e entrou na carruagem. O cocheiro após o cavalo a andar e todos acenavam. 

Charlotte começou a correr atrás da carruagem, mesmo sob os protestos da mãe. Por mais chateada que estivesse com Mary, ela não poderia ir embora sem estar ciente de que Charlotte a amava.

– Tchau, Mary! – Gritou acenando para a irmã através  da vidraça. – Também te amo.

 

(...)

 

 

 

–Vá, Adelaide! Você é o Rei Henry VIII!

Charlotte estava em cima da cama, vestida com as roupas do seu pai e com uma espada de madeira na mão. Ela e sua criada reencenava a batalha de Solway Moss. Adelaide era o tio avo de Charlotte, Henry VIII enquanto ela era seu pai, Jaime V o rei do povo. E Adelaide não estava sendo um rei Henry satisfatório para Charlotte.

Desculpa, vossa alteza. Eu não sei como agir como um rei, muito menos em uma guerra – Murmurou Adelaide remexendo na barriga falsa que Charlotte amontoou nela feita de panos.

–Não é difícil, veja – Charlotte ergueu a espada e empinou o queixo. Enchendo o peito a mesma começou a discursar: –  Eu sou Jaime V Stuart, Rei da Escócia. E você, seu pançudo, não ira invadir o meu reino! A Escócia é forte, dura como meus músculos. Se tentar me atacar vai dar com a cara no chão. Ah!

Adelaide e Charlotte gargalharam. A criada se ajoelhou aos pés da princesa e a mesma fingiu cortar sua cabeça. E mais gargalhadas vieram.

Até que a Rainha–Mãe apareceu na porta.

–A princesa já deveria estar dormindo – a rainha olhou para a criada com raiva.

–Desculpa, majestade. É que ela estava muito elétrica e bem... – ela receou um pouco. – É seu aniversario.

Marie se mostrou incompassiva.

–Não quero desculpas, Adelaide! Charlotte precisa ser disciplinada ou então vai achar que pode fazer tudo neste castelo!

–Sim, majestade. – A criada olhou para a menina com pena e a ajudou a descer da cama.

–Deixe-nos. – ordenou a rainha com um aceno de mão.

Com a saída da empregada Marie sentou em uma poltrona que havia no quarto e chamou a filha para sentar em seu colo. Charlotte ficou rígida e foi até a mãe com insegurança. Marie nunca demonstrava afeto a Charlotte.

–Eu não esqueci que era seu aniversario, só estava ocupada com o conselho – A mulher colocou uma caixa nas mãos da filha e acariciou sua cabeça. – Eu lhe trouxe um presente.

–Oh... Uma boneca – Charlotte estava tão surpresa que não conseguiu demonstrar a animação devida. A mãe nunca lhe dava nada.

–Sim, era minha. Eu a adorava quando tinha sua idade. Costumava costurar os melhores vestidos e até pedi aos meus irmãos para construir um forte onde ela pudesse reinar – Marie parecia distante, perdida em suas memorias de criança.

–James vai construir um pra mim também – assegurou Charlotte. Aquela boneca era especial para mãe, e fez com que pela primeira vez Charlotte sentir que também tinha valor para Marie. – Qual é o nome dela?

–Margareth.

–Como meu segundo nome? – O rosto da menina iluminou–se.

–Sim. Mas o seu segundo nome veio de sua bisavó, não da boneca. – Marie fez questão de comentar.

–Obrigada, mamãe – Charlotte continuou sentada no colo de sua mãe, aproveitando aqueles poucos momentos que Marie permitia–se ser mãe. Uma pergunta rondava na cabeça da criança e ela não podia mais ficar sem sua resposta.  –Mamãe, posso te fazer uma pergunta?

–Sim –Marie esperou que não fosse uma das perguntas estupidas de Charlotte. Geralmente a garota se interessava apenas com batalhas e lendas do monstro do Lago Ness.

–Por que você não me ama?

–Quem disse que eu não a amo? –Marie respondeu surpresa.

–Nunca me tratou como a Mary – Enquanto para Mary era reservados os melhores elogios, a Charlotte lhe dava as piores criticas. Charlotte não conseguia entender o que fazia de tão mal para a mãe não gostar dela, então chegou a conclusão que talvez a mãe simplesmente não a amava.

–Oras, porque você é difícil. Sempre tão teimosa e indomável! Cabeça dura como... – Marie fechou os olhos, sentindo um bolor em sua garganta. Lembrar de Jaime sempre era difícil. –Seu pai teria adorado você. São parecidos em muitas partes. E por mais que tenha minha aparência,  o seu olhar... 

–Você não me adora?

Mary não lhe respondeu de imediato. Era como se estivesse afogada nas lembranças. Suspirou forte e acariciou o rosto de Charlotte. Pela primeira vez na vida Charlotte viu os olhos da mãe cintilarem, como se estivesse pronta para chorar. Essa vulnerabilidade da mãe fez Charlotte ficar estática.

–É uma pena que não tenha nascido menino. Era sua última esperança – Marie enrolou um dos cachos de Charlotte em seu dedo. – Jaime queria partir sabendo que tinha  um herdeiro, um rei que não deixaria seu país vulnerável, e eu queria lhe dar um como último presente. Talvez a decepção foi tanta que não consigo ser melhor para você. Porque é uma lembrança constante da minha falha.

Charlotte não conseguiu dizer mais nada. Essa era a razão pelo qual a mãe nunca lhe demonstrou afeto. E como uma criança poderia se redimir por  algo que nunca poderá mudar?

–Bem, agora que teve sua resposta tenho que te dar uma notícia – A mãe tocou em seu queixo e Charlotte voltou a dar atenção a ela. – O príncipe Carlos vem à Escócia secretamente para conhecer você. E junto estará vindo Lorenzo, seu futuro marido.

–Marido? – Os olhos da menina se arregalaram. Ela nem pensava que um dia a mãe lhe casaria.

Mesmo que fosse uma realidade para todas as princesas serem uma barganha em favor de seu país Charlotte nunca pensou que um dia faria parte daquilo. A mãe parecia lhe desprezar tanto que Charlotte esperava casar com filho de algum lorde e viver em um castelo distante da Escócia, esquecida por todos da Europa e deixando o destaque para Mary.

Mas a mãe agora iria lhe casar com um dos herdeiros mais promissor da Europa? Qual era seu plano?

–Sim. Ele quer unir forças contra a Inglaterra e com a França e a Escócia ao seu lado a Inglaterra não terá chance – Marie parecia tão empolgada com a derrota da Inglaterra que era um dos raros momentos onde ela sorria ao falar de algo.

–Mas eu tenho que me casar? – Charlotte não queria sair da Escócia. Ela amava seu país tanto quanto eles a amavam.

–Não choramingue, Charlotte. Eu detesto quando choraminga. Você será a rainha mais rica do mundo, mais rica do que a sua irmã. Qualquer menina estaria festejando por isso. Principalmente você sendo como é. Tem sorte por poder ainda se casar com alguém – A critica em sua voz doeu fundo em Charlotte.

Foi naquele momento que percebeu que não importa o que fizesse sua mãe a veria como uma falha. Sempre viu e sempre será. Ela só ganharia respeito quando se tornasse Rainha da Espanha. E Charlotte pediu desapegadamente para que isso acontecesse logo.

–Sim, mamãe – A princesa assentiu lentamente tentando absorver tudo.

–Agora vá dormir. Amanhã seu padrinho ira levá-la a um passeio bem cedo. Não quero você caindo de sono e desatenta – Marie lhe direcionou até a cama e retirou o casaco do seu pai antes que Charlotte deitasse. A rainha pensou em guarda-lo novamente,  mas o deixou ali como um presente de Jaime a filha.

Charlotte esperou por um beijo de boa noite, como todos faziam quando a colocavam para dormir. Mas Marie lhe deu as costas sem dizer nada. Decepcionada, Charlotte só pode sussurrar:

–Boa noite, mamãe.

...

 Amanheceu e Charlotte foi levada até a área leste para se encontrar com o padrinho. Richard Asmotrong era o lorde mais rico da Escócia. Ninguém ameaçava o clã Armosntro e a coroa sempre os teve ao seu lado com bons companheiros. Richard e Jaime eram melhores amigos e enquanto Marie foi apadrinhada por um dos irmãos de Marie e Charlotte foi dada a proteção ao melhor amigo de seu pai. E Lorde Richard sentia–se muito orgulhoso e feliz por isso.

A vida tinha lhe dado muitos meninos, ao todo eram nove. Nove rapazes grandes e fortes, mas o seu coração envelhecido precisava de uma pequena luz para alegrar seu dia. E Charlotte era aquela luz.

 –Padrinho! – Assim que o viu Charlotte largou a mão da aia e correu com de braços abertos até o homem.

–Thistle – respondeu a recebendo. Eles se abraçaram apertado, tal como pai e filha.  Pois a adoração era bastante reciproca.

–Bom dia a todos! – Cumprimentou a princesa assim que o padrinho a colocou nos ombros.

–Boa dia, princesa. – respondeu seus aliados e alguns de seus filhos.

–Nós vamos caçar? Porque eu odeio! – A menina sempre deixou claro que tal habito era repudiado por ela. 

–Você é uma escocesa. Goste ou não terá que caçar – Ele caminhava com ela em seus ombros até o lugar onde iria lhe mostrar sua surpresa. – Mas hoje iremos fazer algo que você gosta, afinal ontem foi seu aniversario e eu não pude estar presente para lhe dar um presente.

–Então me de agora. Vamos, o que é?! – Charlotte bateu em seu braço e o homem a soltou de volta ao chão.

A menina começou a procurar em todo lugar. Seria uma espada? Uma armadura brilhante? Um vestido cheio de pedrarias?

–Tragam – Eles viraram-se e o filho do meio, Eliott trazia um pequeno potro negro. Os olhos de Charlotte encheram–se de emoção.

–Oh! É um cavalo! Meu próprio cavalo! Ele é tão lindo, olhem! – Sem cerimonias ela foi até o cavalo e beijou seu focinho. O cavalo relinchou e ela gargalhou com o ato. – Obrigada, padrinho.

–Esse presente não é meu. É do seu pai – Richard foi até ela e colocou a mão em seus ombros.

–Meu pai? – A garota encarou o padrinho.

–Quando você nasceu, Jaime já estava doente, perto da morte. Ele queria lhe presentear com algo que a fizesse lembrar-se dele. Então havia Storm, seu cavalo preferido. Storm foi dado a Jaime quando ele nasceu, e eles cresceram juntos. Jaime me fez então prometer que assim que Storm cruzasse com uma égua, o filho deles seria seu e assim você teria um companheiro para a vida também.

–O que é cruzar? – Uma risada levada saiu dos lábios de Charlotte. A palavra soava engraçada e já tinha a ouvido algumas vezes na corte.

–Essa parte você descobrira anos mais tarde. – o homem ficou vermelho. Conversar sobre aquele assunto com homens era fácil. Agora com garotas... Isso seria papel da mãe dela.

–Obrigada, papai. – Charlotte olhou para o seu e deu um sorriso.

Então saiu correndo, tirando a corda das mãos de Elliot e puxando o cavalo para todos os lados.

–Princesa, não se aproxime assim do cavalo..

–Me deixa ver seus dentes, cavalinho – cantarolava para o cavalo. A menina abriu a boca do animal e o bicho nem ao menos se esquivou. – Olha que dentões! Eu também tenho, olha! – depois abriu a própria boca e mostrou seus dentes de leite.

–Qual nome você quer dar para ele? – Perguntou Richard.

–Faísca! – disse sem ao menos pensar.

–Faísca? Cavalos tem que ter nomes fortes! – comentou Elliot franzino o cenho para a princesa.

–O cavalo é meu, e seu nome é Faísca! – A princesa mostrou a língua para Elliot e depois deu toda atenção ao seu novo amigo. – Eu já te amo muito Faísca, e você será meu companheiro de vida para sempre.

...

 Charlotte estava perto do lago, escovando faísca. O por do sol encantava o céu, porém os ventos da noites já mostravam sua força e bagunçavam o cabelo de Charlotte. Agora seus dias se resumiam em cavalgar em Faísca e fugir das aulas de etiqueta. A mãe tinha duplicado as aulas, ansiosa para que Charlotte andasse na linha e não a envergonhasse na frente dos príncipes espanhóis. Charlotte participava das aulas que ela gostava, como historia e línguas, agora as de etiqueta... Bem, mesmo sendo um potro Faísca corria mais que as suas professoras.

–Charlotte – James chegou até a garota, e cruzou os braços ao seu lado. – Está frio, vá para dentro.

–Não quero. Gosto de ficar aqui... Lá dentro, com a mamãe falando do casamento... – Tinha sido o assunto mais comentado por todos, e Marie estava tão eufórica que sua atenção estava totalmente  voltada a filha. Não como uma mãe amorosa, claro, mas com uma rainha que quer oferecer o seu melhor produto.

–Eu sei. – James só podia confortar a irmã mais nova.

A relação dos dois sempre foi muito profunda. James sempre foi mais ligado a Charlotte, talvez por seu jeito espevitado e aventureiro. Quem lhe ensinou a cavalgar fora ele, e os dois compartilhavam o amor por cavalos assim como o pai deles. James amava Mary também, porém a relação dele e de Mary nunca pode ser aprofundada pois a Rainha sempre estava exigindo que Mary participasse de todas as aulas e tivesse a melhor educação. Como Marie não se importava com a filha mais nova era fácil dela escapulir e passar as tardes aprontando com James por toda  Edimburgo. James adorava passar cada momento que tinha com ela pois era a família mais próxima que tinha. E também era sua melhor amiga.

–Sinto falta da Mary. – segredou sorrindo para ele. –Ela falava comigo, não ficava só parado como você.

–Não seja mimada. Eu pelo menos estou aqui. – James passou seus braços por cima dos ombros dela e encostou suas cabeças.

–Sim. Está. É minha família – Charlotte beijou seu rosto.

–Sim. Eu sempre estarei aqui. – os irmãos continuaram assim por muito tempo.

–Queria ser você James. Queria ser um bastardo. – Charlotte falou quase como um sussurro. 

–Por que? Você é a princesa! –James se exaltou. Ela não fazia ideia do que estava falando. –  Pode ser rainha, pode ser importante. Um bastardo nunca foi importante para alguém.

–Sou importante pra todo mundo, menos pra minha mãe. Isso é ser um pouco bastarda, não acha? –Charlotte segurava as lagrimas. Depois da conversa que teve com a mãe, Charlotte passou a se sentir pior que antes. Constantemente sentia que a mãe já não a reconhecia como filha, mas sim como arma. E isso doía mais do que qualquer coisa.

–Não importa o que sua mãe fale, ou os outros. Eu e Mary te amamos muito. E vamos cuidar de você pra sempre – Ele junto suas mãos e sorriu para a irmã mais nova.

James era fechado para o mundo, porém quando se trata de Charlotte ele era o mais devoto e amoroso irmão de todos. Beijou–a na testa, e voltou a abraça–la. E não importasse quem ela seria, ou pra onde iria, sua lealdade era primeiro com Charlotte e depois com a Escócia.

...

Charlotte acordou com tapinhas no ombro. Piscou algumas vezes até entender que estava em seu quarto, com a mãe em sua cama segurando uma vela em seu rosto. Pelo pouca  iluminação Charlotte não conseguia entender a expressão no rosto da mãe.

 –Mamãe? – perguntou coçando os olhos.

–Se arrume – ordenou Marie com uma voz cortante.

Charlotte a olhou confusa. A surpresa de ter Marie ali já era grande, mas Charlotte arrumar–se sozinha? Onde estava Adelaide?

–Por...

–Só... Se arrume, Charlotte –Marie levantou e jogou um vestido em cima da cama.

Charlotte levantou sem retirar os olhos da mãe. O que estava acontecendo?, queria perguntar em voz alta. Mas sabia que a mãe odiava quando a questionava demais. Então vestiu-se em silencio, tendo dificuldades para amarrar a parte de trás.

Foi a única vez que a mãe agiu. Deixou a vela no gabinete e abaixou-se para ajudar a filha. Lentamente passava a fita pelo espartilho, e assim que terminou deu um beijo rápido na cabeça de Charlotte.

Logo voltou a posse de rainha e ofereceu a mão para a princesa. Juntas desceram a escadas em silencio, e no salão todos da corte estavam presentes.

Chegando mais perto percebeu que eles tinham visitantes. Porém o visitante trouxe soldados com roupas de guerra, e seus estandartes eram o famoso leão inglês. Charlotte olhou desesperada para mãe. Por que ela estava recendo o seu maior inimigo em sua casa?

Ao centro havia uma mulher. Tinha cabelo escuro e olhos azuis. Suas roupas eram mais sofisticada do que se usava na Escócia e mesmo nunca a visto antes, Charlotte teve uma estanha sensação de que eram parecidas.

Mesmo não sendo anunciada, Charlotte sabia quem era ela. Mary Tudor, sua prima e recém coroada Rainha da Inglaterra.

–Aqui está ela. Como exigiu – Disse Marie empurrando a filha para frente. – Agora parem o ataque.

–Rainha, por favor... – Lorde Boyd deu um passo a frente.

–Silêncio. – Ordenou Marie erguendo as mãos. Ela abaixou até a filha e arrumou os seus cabelos para parecerem menos rebeldes.

–Mamãe, não estou entendendo – sussurrou Charlotte.

–Lembre–se de controlar sua língua. E de dormir cedo. Eu... mandarei cartas sempre que puder e quero saber de seus avanços –Dizia Marie olhando atentamente para Charlotte.

Ela não ficaria mais na Escócia? Estava sendo enviada para estudar em outro lugar? A cabeça de Charlotte era um turbilhão de perguntas.

–Mas pra onde eu vou? Ficar com Mary?

–Vai pra Inglaterra. –Respondeu fechando os olhos.

–Não quero ir! – Charlotte deu um passo para trás se afastando da mãe.

–Não tem que querer, prima –Mary Tudor se aproximou delas, segurando o braço de Charlotte com força. – Sua mãe sabe que a Escócia depende da sua vida e ela pagou um preço justo.

–Adeus, querida. Eu... – começou Marie tocando no rosto de Charlotte. A despedida estava em seu olhar, e por mais cruel que parece ser ela amava a filha, da sua própria maneira.

–Chega, Marie. Vamos, garota não quero ficar mais nesse país infernal nem por um instante.– No entanto Mary Tudor não deixou terminar seu discurso. Começou a arrastar Charlotte dali enquanto os guardas escoltavam sua saída.

–Não quero ir com você, sua rata velha! – Charlotte bateu no braço da rainha e a mulher intensificou o aperto. – Mamãe! Mamãe, não deixe ela me levar!

Os gritos ecoavam por todo castelo, talvez por toda Escócia. O olhar amedrontado procurava algum salvador, algum amigo que lhe ajudasse. Porém tudo que recebia era lagrimas e olhares de desculpas. Ninguém iria levantar a voz, ninguém iria impedir isso.

A Rainha havia dado sua permissão, e ninguém poderia desafiar uma mãe. Principalmente uma Rainha Mãe.

– James! James! – Ela procurou pelo irmão na multidão, mas ele não estava ali assim como seu padrinho. Os dois homens que poderia salvá-la – Padrinho! Ajudem-me! Socorro! Por favor! 

E os gritos continuaram, até que chegou a carruagem de Mary Tudor. Com um aceno, a Rainha ordenou que um dos soldados a segurar pelo braço enquanto outro tampava sua boca com um pano. O pano estava encharcado de algum liquido que desconhecia. Charlotte rapidamente ficou tonta e já não sentia forças para grita.

E sua ultima visão da Escócia foi o castelo onde nasceu, sendo consumado por gritos de Escoceses indignados.


Você não vai chorar pela minha ausência, eu sei
Você me esqueceu há muito tempo
Eu sou tão sem importância?
Eu sou tão insignificante?
Não tem algo faltando?
Ninguém está sentindo a minha falta?

 


Notas Finais


Que final triste para uma princesa amada.
Eu digo que esse foi um dos capítulos mais triste de escrever. Charlotte era amada por todos a sua volta, menos por quem ela mais precisava: sua mãe. A conversa com Marie foi muito difícil de escrever, porque eu sei que existem mães tão frias como ela e filhos tão desesperados por atenção como a Charly. Agora que a verdade foi a tona (para nós) e para Charlotte imagina ela lembrando da cena onde é "sequestrada" agora sabendo que a própria mãe a vendeu?
Foi duro. Foi doloroso. E espero que vocês comentem o que acharão, lembre-se que feedback é sempre importante ;)
Não vou dar spoiler mas o próximo está bem perto. Claro que com comentários ele sempre chega mais rápido.
Beijos a todos vocês, e bom final de semana <3


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