História A procura da Sereia - Capítulo 1


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Categorias Once Upon a Time
Personagens Emma Swan, Regina Mills (Rainha Malvada)
Tags Mistério, Red Wicked, Romance, Swan Queen, Swanqueen, Wicked Red, Wickedwolf, Yuri
Visualizações 19
Palavras 5.317
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Mistério, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Bissexualidade
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Essa história é adaptação, por isso terão personagens Originais. Só estou passando para SwanQueen

Capítulo 1 - Capítulo 1


Capítulo 1

Minha irmã Ruby sempre acreditou que a melhor maneira de lidar com o medo do escuro é fingir que ele é passageiro. Anos atrás, ela tentou pôr a teoria em prática enquanto estávamos deitadas — cada uma em sua cama — rodeada pela escuridão. Protegida por uma fortaleza de travesseiros, eu tinha certeza de que o mal se escondia nas sombras, esperando minha respiração desacelerar para poder atacar. E, toda noite, Ruby — um ano mais velha, porém, décadas mais sábia — tentava pacientemente me distrair.

— Você viu o vestido lindo que a Belle estava usando hoje? — ela perguntava, sempre começando com uma pergunta fácil para avaliar o tamanho do meu medo.

Eram raras as ocasiões — geralmente quando íamos tarde para a cama depois de um dia atarefado — em que eu estava cansada demais para ficar com medo. Nessas noites, eu concordava ou discordava e, tínhamos uma conversa normal até cairmos no sono. Mas, na maioria das noites, eu sussurrava algo do tipo: “Você ouviu isso?” ou “Você acha que a mordida de um vampiro dói?” ou “Os monstros conseguem farejar o medo?” Nesse momento, Ruby passava para a segunda pergunta.

— Está tão claro aqui! — ela dizia. — Dá para ver tudo: minha mochila, minha pulseira azul cintilante, nosso peixinho dourado no aquário. O que você consegue ver, Emma?

E, então, eu me forçava a imaginar nosso quarto exatamente como ele estava antes de a mamãe apagar a luz e fechar a porta. No fim das contas, eu conseguia esquecer que o mal estava à espreita e caía no sono. Toda noite eu pensava que isso nunca daria certo, mas toda noite dava. O método de minha irmã era bom para combater meus diversos outros medos. Mas, muitos anos depois, em pé no alto de um penhasco com vista para o oceano Atlântico, eu soube que ele não era totalmente eficiente.

— Regina não parece diferente neste verão? — ela perguntou, aproximando-se de mim e torcendo os cabelos. — Mais velha? Mais bonita?

Concordei sem responder.

A transformação física de Regina foi a primeira coisa que notei quando ela e a sua irmã, Zelena, bateram à nossa porta mais cedo. Mas essa era uma discussão para outro momento, quando estivéssemos nos aquecendo em frente à antiga lareira de pedra em nossa casa do lago. Primeiro, tínhamos que conseguir voltar para casa.

— Zelena também — ela tentou novamente. — O número de meninas com o coração partido em Maine deve ter... Tipo, quadruplicado este ano.

Tentei concordar com a cabeça, meus olhos fixos no redemoinho na água e na espuma quinze metros abaixo. Ruby enrolou uma toalha no torso e deu um passo em minha direção. Ela ficou tão perto que pude sentir o cheiro do sal em seus cabelos e exalando de seus poros e, o frescor de sua pele úmida como se estivesse pressionada contra a minha. Gotículas de água lhe caíam da ponta dos cabelos, batiam na pedra quente e lançavam gotas ainda menores em cima dos meus pés. Uma súbita rajada de vento espalhou gotas sobre nós e ao nosso redor, transformando meu tremor em calafrio. Em algum lugar lá embaixo, Regina e Zelena riam enquanto se esforçavam para subir o caminho íngreme que os levaria à floresta e de volta a nós.

— É só uma piscina de mergulho — ela disse. — Você está em um trampolim meio metro acima dela.

Concordei com a cabeça.

Foi nesse momento que fiquei pensando na viagem de seis horas de Boston, o momento que imaginei pelo menos uma vez por dia desde o último verão. Eu sabia que parecia mais assustador do que de fato era. Nos dois anos, desde que havíamos descoberto a placa da trilha antiga indicando este lugar isolado — longe de turistas e aventureiros —, Ruby, Regina e Zelena haviam saltado dezenas vezes e nunca tinham ido embora com mais do que um arranhão. O mais importante era que eu sabia que, se eu nunca mergulhasse, sempre me sentiria inferior em nosso grupinho de verão.

— A piscina está aquecida — Ruby continuou. — E, quando estiver dentro dela, tudo o que você tem de fazer é chutar duas vezes e logo vai estar nos degraus que levam à sua confortável cadeira de descanso.

— Será que uma gatinha vai me trazer alguns drinques nesta confortável cadeira de descanso?

Ela olhou para mim e sorriu. Nós duas sabíamos como era. Se eu fosse coerente o bastante para fazer uma piada, era porque já tinha desistido.

— Desculpe, eu esqueci os abacaxis em casa — disse Zelena atrás de nós. — Mas a gatinha está aqui e pronta para o serviço.

Zelena virou-se para ela.

— Até que enfim. Estou congelando!

Quando ela se afastou da beira do penhasco, eu me inclinei para frente.

Todo o alívio que senti naquele momento foi temporário e, minha decepção por não ser capaz de fazer o que havia prometido durante todo ano só aumentaria quando fôssemos embora dos penhascos de Chione. Naquela noite eu ficaria acordada na cama, sem poder dormir por causa da dor que sentiria por ser, mais uma vez, uma banana, uma criancinha.

— Sua boca está ficando roxa — disse Zelena.

Eu me virei e a vi sacudindo sua toalha de praia preferida — a única que já vi com ela, com o desenho de uma lagosta de óculos escuros e sunga — e a colocando em volta de Ruby. Ela puxou minha irmã em sua direção e esfregou os braços e os ombros dela.

— Sua mentirosa! — ela sorriu para ela debaixo da capa felpuda.

— Você tem razão. Seus lábios estão mais para púrpura ou lilás... Pois uma boca como essa, é bonita demais para ficar com aquela cor azul cansativa e desbotada. Em todo caso, eu poderia aquecê-la.

Revirei os olhos e fui buscar meus shorts e minha camiseta. Ruby havia feito sua própria promessa para o verão: não se prender a Zelena de novo, como havia feito no verão passado e no anterior.

“Ela não passa de uma moleque” , ela dizia. “Eu já terminei o ensino médio, e ela ainda tem o ano todo pela frente. Além disso, tudo o que ela sabe é tocar aquela guitarra caindo aos pedaços quando não está jogando videogame. Não dá para perder nem mais um segundo com um lance que nunca vai passar de horas intermináveis de amassos... Por melhores que elas sejam.”

Quando perguntei por que ela não saía com Regina, que estava no segundo ano da Bates College e, consequentemente, tinha mais a ver com ela em termos de idade e mentalidade, ela franziu a testa.

— Regina? — repetiu. — O canal do tempo ambulante que fala sem parar? A gênia que está usando a faculdade como desculpa para estudar a formação das nuvens? Não, acho que não.

Ruby não levou mais do que trinta minutos — tempo suficiente para tirarmos as malas do carro, fazermos um lanche e pularmos para dentro do velho Subaru de Regina — para quebrar a promessa que fez a si mesma. Ela não pulou em Zelena de imediato, embora estivesse claro que era isso que queria fazer — a julgar pelo modo como seus olhos se iluminaram assim que a viu.

Esperou estarmos dentro do carro e na estrada para lançar os braços em volta do pescoço dela e apertá-la tão forte a ponto de deixar a garota com o rosto vermelho.

Enquanto ela se aninhava no peito de Zelena naquele momento, vesti minhas roupas e peguei uma toalha. Embora o sol tivesse saído e eu nem estivesse molhada, ainda tremia de frio. No extremo norte em Maine, as temperaturas no meio do verão não passavam muito de vinte graus e, o vento cortante sempre dava a sensação de uns cinco graus a menos.

— É melhor irmos embora — Regina disse de repente, saindo da trilha.

Ela podia ser a mais velha das irmãs Mills, mas mais quieta, mais estudiosa, características antes complementadas por um corpo magro e má postura, mas algo havia acontecido no ano passado. Seus braços, pernas e peito ganharam volume e, quando ela tirava a camiseta, eu podia de fato ver seu abdômen chapado e sua cintura milimetricamente perfeita, bem fina. Ela até parecia mais alta, mais ereta. Parecia mais mulher do que menina.

— A maré está mudando e as nuvens estão aparecendo.

Ruby olhou para mim. Eu sabia o que ela estava pensando: canal diferente, mesma previsão.

— Mas a gente acabou de chegar — disse Zelena.

— E o pôr do sol? — perguntou Ruby. — Todo ano a gente diz que vai ver daqui e nunca vemos.

Regina vestiu rapidamente uma camiseta que tirou da mochila, sem se preocupar em secar-se com a toalha.

— O sol ainda vai se pôr muitas vezes. Hoje vai ficar ofuscado por causa daquela tempestade que está vindo nessa direção.

Segui o sinal que ele fez com a cabeça em direção ao horizonte. Ou eu fiquei muito concentrada na água a ponto de não notar o céu ou o cobertor de nuvens escuras apareceu do nada.

— Eu vi a previsão antes de sairmos. Segundo a estação meteorológica, o céu ficaria claro até mais tarde hoje. Mas, ao que parece, temos apenas uns vinte minutos para descer a montanha antes de começar a relampejar. — Regina balançou a cabeça. — Eu queria que a professora Jasmine pudesse ver isso.

Antes que eu pudesse perguntar o motivo, Zelena e Ruby começaram a cochichar e Regina agachou-se ao meu lado. Eu estava sentada com os joelhos contra o peito para tentar me aquecer.

— Tudo bem? — ela perguntou.

Fiz que sim com a cabeça e tentei sorrir. Com o passar dos anos, Rehina se tomou a irmã mais velha e protetora não só para Zelena, mas para Ruby e para mim também.

— Com um pouco de frio e desejando que a sola de borracha do meu tênis fosse mais grossa, mas fora isso, tudo bem.

Ela me entregou uma blusa de lã marrom que tirou da mochila.

— O mundo não vai acabar por causa disso, sabe. É só um dia. A gente tem o verão todo. E o próximo verão e o verão depois do próximo...

— Obrigada — desviei o olhar, envergonhada. Ela foi sincero, mas eu não precisava de nada para me lembrar do meu fracasso logo depois que ela aconteceu.

— É sério — ela disse com a voz baixa, porém firme. — Quando você estiver pronta, ou se nunca estiver, tudo bem.

Coloquei a blusa, feliz com a distração.

— Novo plano — Ruby anunciou.

Segurei na mão que Regina havia estendido e fiquei de pé. Ruby e Zelena conseguiram se desgrudar, mas só tempo suficiente para Ruby deixar as toalhas caírem no chão. As duas agora estavam de mãos dadas e de costas para a beira do penhasco.

Ruby sorriu.

— Só porque o tempo é curto não significa que a gente não possa comemorar o primeiro dia oficial do que, com certeza, será o melhor verão de todos.

— Voltando para casa e tomando um belo chocolate quente? — sugeri.

— Vai nessa bobinha! — Ruby me mandou um beijo. — Zelena e eu vamos dar mais um salto.

— Com um giro — Zelena acrescentou.

Enquanto elas trocavam olhares, eu olhei para Regina. Sua boca estava aberta, como se estivesse esperando que o cérebro encontrasse as palavras que causariam o maior impacto no menor espaço de tempo. Os músculos não muito exagerados que acabara de ganhar nos braços enrijeceram-se sob a fina camiseta de algodão. Suas mãos, livres ao lado do corpo depois de me ajudarem a levantar, ficaram apertadas e geladas.

— Salto para trás! — Ruby exclamou.

— Não — disse Regina. — Sem chance.

Não pude deixar de sorrir. Era exatamente isso o que eu mais adorava — e invejava — em Ruby. Enquanto eu ainda dormia com a luz acesa — não conseguia ler Stephen King e era fisicamente incapaz de saltar com perfeição e  segurança de um penhasco — Ruby vivia para a adrenalina que eu, a todo custo, tentava evitar. Aqui estávamos nós, a poucos minutos de ficar encharcadas e exaustas e, ela queria garantir a chance de descarregar sua energia saltando de costas em direção a um redemoinho.

— Vai levar dois minutos — Zelena disse. — Vocês podem descer assim que saltarmos e nos encontramos no caminho.

— Vocês sabem que a maré fica estranha quando o tempo está assim — Regina disse. — A água já está bem mais rasa do que estava no último salto.

Ruby olhou para baixo por cima dos ombros.

— Não pode ser assim tão ruim. Vamos ficar bem.

Fiquei observando minha bela irmã mais velha, com seus cabelos castanhos e mechas vermelhas, agora secos o suficiente para esvoaçar em longas mechas de um lado para o outro. Não havia nada que eu pudesse dizer; uma vez decidida, Ruby não dava espaço para negociação. Enquanto sorria para mim, seus olhos brilhavam em contraste com as escuras nuvens que pareciam engolir o que restava do céu.

Um raio de neon branco rasgou o céu de repente, caindo perto o suficiente para fazer o chão tremer. O vento ganhou força, arrancando folhas das árvores e levantando poeira do chão. Um longo galho veio em minha direção como uma flecha saindo de um arco. Cobri a cabeça com as mãos e ele caiu no chão. A chuva começou, caindo suavemente no início e depois mais forte — a ponto de a blusa de lã de Regina ficar grudada nas minhas costas e a água fria escorrer pelo meu rosto. Fiquei imóvel, esperando que o forte ataque cessasse da mesma forma rápida como começara, mas o ar ficava cada vez mais frio, o vento mais forte e o trovão mais alto.

A rocha estremeceu debaixo de mim, me fazendo tremer ainda mais do que eu já tremia. Vários metros de distância, Regina se curvou com a força do vento, usando todo o seu peso para permanecer de pé enquanto passava para o outro lado do penhasco, carregando as toalhas e roupas de Ruby e Zelena. Gritei por  ela, mas minha voz se perdeu no meio da chuva torrencial e das rajadas de vento.

Arrastando-me com dificuldade, mas permanecendo próxima ao chão, tentei olhar para a beira do penhasco em meio à escuridão e aos entulhos arrastados pelo vento. Quando outro raio dividiu o horizonte ao meio, pude ver tudo como se o sol brilhasse acima de mim.

Ela se foi.

Protegendo o rosto com os braços, corri em direção à beira do penhasco.

Um terceiro raio caiu em minha frente e pude ver como estava perto de completar minha missão: sair correndo das rochas em direção ao ar rarefeito.

Tentei parar, mas o chão estava escorregadio. Caí de costas e uma perna foi para frente. O detalhe prateado do meu tênis reluziu com o clarão de outro raio e vi meu pé voando sobre o penhasco. Aos gritos, pus as mãos para trás e agarrei-me ao chão.

Um, dois... Trovejou e o penhasco estremeceu debaixo de mim. Contar os segundos entre os raios e suas inquietantes consequências normalmente me  acalmava durante fortes tempestades, mas isso porque a maioria deles não caía diretamente na minha cabeça.

— Eles estão bem!

Regina.

Ela agarrou minha cintura, me puxando para cima e para longe da queda.

Em seguida, pegou minha mão e deu um passo em direção à beira do penhasco.

Depois de vários longos segundos, ela apertou minha mão e apontou.

O relâmpago então veio mais rápido, fazendo com que fosse mais fácil ver a água. O mar se revolvia enquanto pequenas ondas batiam nas rochas ao redor.

Árvores finas que pontilhavam a margem se inclinavam para um lado e depois cediam bruscamente, os troncos estreitos pareciam como palhas flexíveis ao vento. Balancei negativamente a cabeça, certa de que Regina estava vendo coisas e, então, avistei uma lasquinha branca avançando em meio à escuridão. O braço de Zelena estava em torno dela enquanto eles meio que corriam ou meio que se arrastavam pelas rochas em direção à trilha.

Ela estava bem. É claro que estava bem.

Regina olhou para mim para ter certeza de que eu os tinha visto e depois me puxou para trás. De algum modo, meus pés conseguiram se mover eu saí correndo atrás dela pela clareira, para dentro da trilha coberta de vegetação. Os galhos e as raízes que erguemos e nos quais pisamos durante a subida agora batiam em nós e nos faziam tropeçar, mas não diminuímos o ritmo. Meu coração batia forte e eu tentava ignorar a sensação de que, enquanto corríamos pela floresta, algo ou alguém corria ainda mais rápido atrás de nós. Depois de descermos quase quinhentos metros, nosso caminho se juntou a outro que eu não havia notado na subida. E, não teria notado agora se não fosse Regina virar para trás e à esquerda. Parei de repente quando vi a razão para o desvio inesperado.

Ruby.

Ela estava nos braços de Zelena e um espesso rastro de sangue escorria de um corte no joelho que descia lentamente pela panturrilha e parava no pé. É só sujeira, ou uma alga...

— Gina! — enquanto Regina a tirava dos braços de Zelena, ela pegou minha mão e a beijou. — Estou bem, eu juro. Eu poderia ter feito o passeio sozinha, mas alguém quis bancar a herói.

— Tenho algumas coisas no carro — Regina disse, seguindo na direção da trilha principal com Ruby nos braços.

Olhei para Zelena. Seu rosto estava tão tenso enquanto ela olhava os dois na trilha que era difícil imaginar a menina risonha e convencido que estava de namorico com Ruby havia alguns minutos.

— Sua irmã... — ela balançou a cabeça e olhou para mim.

— Eu sei.

Nós dois sabíamos. A culpa não era dela. Nem minha, nem de qualquer outra pessoa. Se Ruby quisesse passar nua por um círculo em chamas, ela passaria. Você poderia esperar por perto com um roupão e um extintor de incêndio, mas isso seria o máximo que poderia fazer.

Seguimos a trilha atrás delas. Quanto mais corríamos, mais leve a chuva caía. Os trovões ficaram mais suaves e, os segundos entre os estrondos, mais longos. Até o vento diminuiu, passando de fortes rajadas para uma brisa normal de verão. Quando chegamos ao velho Subaru verde de Regina estacionado ao lado da estrada de terra, as nuvens diminuíram o suficiente para revelar pedaços de céu azul.

— Viram? — Ruby gritou enquanto corríamos na direção delas. Ela estava sentada no porta-malas aberto, balançando as pernas para frente e para trás enquanto Regina fazia um curativo na perna machucada. — Foi só um arranhão.

— Não foi só um arranhão — Regina disse. — Mas não vai ser preciso ir ao pronto-socorro.

Zelena colocou a mão no pescoço dela e beijou sua testa.

— Querida, você precisa ter cuidado.

Ela abriu a boca, mas a fechou em seguida, quando Zelena pôs a mão em seu rosto. Enquanto o polegar da ruiva acariciava delicadamente sua pele, Ruby inclinou a cabeça e seus olhos se derreteram.

— Você sabe que eu topo uma aventurazinha, mas eu ficaria arrasada se alguma coisa acontecesse.

— Eu sei — ela tirou a mão dela do rosto e lhe beijou a palma. — Sinto muito. Eu sei.

Eu assistia a essa troca de palavras com um misto de alívio e perplexidade.

Eu estava feliz de ver que ela estava bem e achei bonitinho Zelena estar tão preocupada, mas elas não se viam desde a nossa última viagem para o norte, no Natal. Sem dúvida, para duas pessoas que saíam de vez em quando, elas pareciam muito ligadas emocionalmente. Isso me fez pensar que os amassos eram excepcionalmente bons ou que emocionantes experiências de quase morte uniam as pessoas. Eu não saberia dizer quais eram os defeitos de nenhuma das duas possibilidades.

— Você vai precisar lavar a ferida — Regina disse, fechando o curativo de Ruby. — Mas isso vai ajudá-la a chegar em casa.

— Muito obrigada, Dr. Mills — Justine pegou a mão de Zelena e saltou no chão, caindo sobre o pé bom. — Vou ganhar um pirulito?

Regina deu uma olhada para ela, o que levou Zelena a prontamente conduzi-la para a lateral do carro e colocá-la no banco de trás. Ajudei Regina a guardar a gaze e o esparadrapo.

— As coisas realmente começaram cedo este ano, hein?

Com as mãos congeladas, ela empurrou o kit de primeiros socorros para baixo e fechou a caixa. Olhou para mim com os olhos fixos nos meus, como se quisesse dizer algo, mas sem saber se devia. Finalmente, estendeu a mão para apertar meu ombro.

— Se quiser se secar, tem um cobertor velho no banco da frente.

Ela fechou o porta-malas e foi para o banco do motorista. Olhei mais uma vez para o céu, que agora estava tão azul como quando havíamos chegado, depois dei a volta no carro e me sentei no banco do passageiro. Ali, tirei a blusa de lã enquanto Regina relaxava em seu banco e Zelena e Ruby faziam sabe-se lá o que em silêncio no banco de trás.

— Então... — eu disse, já que ninguém se mexeu ou falou depois de alguns minutos. — O que foi aquilo?

Regina olhou para mim e depois para o para-brisa, na direção da trilha. Ela riu uma vez e deu um longo e profundo suspiro.

— Foram os penhascos de Chione dando boas-vindas.

Mudei de posição, sabendo o que encontraria quando olhasse por cima do ombro para o banco de trás. Ruby, encolhida debaixo do braço de Zelena e com a perna machucada escorada em um cobertor de lã dobrado, estava sorrindo de orelha a orelha.

— Que emoção! — ela disse, alegre.

— Que fraude!

— Fraude? — Ruby levantou o prato quando nosso pai apareceu com outra travessa de bife grelhado. — O que significa isso?

Ele espetou dois pedaços de carne com um garfo, depois olhou para a grade do terraço, em direção ao lago Kantaka. 

— Fraude. Um ato de engano sagaz, geralmente com a intenção de não ser pego.

— Eu sei o que a palavra significa, pai. Mas você acha mesmo que eu arranhei a perna escalando rochas na praia para escapar de um sequestro? Será que os sequestradores perdem o interesse por causa de um pouco de sangue? E quem está fazendo os sequestros? Salva-vidas malucos? Caçadores de conchas pirados? O abominável homem das neves?

Sorri com a caneca de chá quente na boca. Havia uma pessoa que provavelmente sequestraria Ruby se tivesse a chance e, levando em conta minhas observações anteriores, ela provavelmente iria por livre e espontânea vontade. No entanto, eu não podia fazer piadas sobre isso em voz alta, uma vez que nossos pais ainda achavam que Zelena e Regina eram as mesmas “meigas meninas Mills” que conheciam desde bebês. Eles sabiam que passávamos muito tempo juntos no verão, mas, definitivamente, não sabiam o que metade de nosso grupinho havia feito a maior parte do tempo nos últimos anos. E Ruby havia deixado claro que queria deixar as coisas assim.

— O abominável homem das neves, hein? — papai pôs um bife no prato de Ruby e colocou a travessa novamente sobre a grelha. — É disso que eles me chamam agora?

Ruby e eu olhamos uma para a outra, cada uma em um lado da mesa e rimos. Papai tinha um metro e oitenta de altura. Sua estrutura física era desleixada, mas imponente, mas os cabelos lidos loiros e a barba feita não lembravam nem um pouco a lendária criatura.

— O que aconteceu com o querido papai? Com o melhor pai do mundo. O superpai? — ele se sentou e serviu-se de outro copo de vinho tinto. — E qual foi o mais recente? Enorme alguma coisa?

— Paizão — Ruby disse, fingindo estar irritada, como se não pudesse acreditar que ele havia se esquecido de um dos apelidos carinhosos ela criara para ele.

— Certo. Eu ainda não sei se deveria me sentir ofendido com esse — ele esfregou a barriga redonda. — Mas pensei em outro quando estava chegando em casa e acho que deveríamos incluir o mais rápido possível em nosso bate-papo diário.

— Vamos pensar no assunto — disse Ruby.

Ele pegou um pãozinho de dentro de uma cesta no centro da mesa, arrancou um pedaço e o enfiou na boca.

— Rei.

— Rei? — Ruby perguntou. — Rei o quê?

Ele encolheu os ombros.

— É isso. Apenas Rei.

— Nada mal... Mas isso, tecnicamente, faria da mamãe Rainha. E, falando sério, não acho que ela aceitará numa boa ser a segunda no comando, nem que seja só pelo título — Ruby olhou para nossa mãe para confirmar.

Mamãe — que estava cortando seu bife com uma faca como se ele fosse de aço e não de carne — fez uma pausa.

— Não posso acreditar que você ainda faz isso.

— As meninas estão crescendo — ele admitiu, — mas sempre serei o paizão delas, até a idade me pegar e eu começar a encolher. Aí eu vou ser... O pequeno paizão? O paizão médio? O pequeno grande paizão?

— Você pode ser o Grande Mestre do Universo para sempre. A questão não é essa.

Ele ergueu as sobrancelhas, considerando o título sugerido e não o fato de  nossa mãe não ter achado graça. Não que isso fosse fora do normal, já que ela raramente se divertia. Ela sempre foi a mais séria dos dois, a disciplinadora. Ela era presidente da Franklin Capital, uma empresa de serviços financeiros em Boston e, meu pai, escritor e professor de literatura norte-americana na Newton Community College. As qualidades exigidas para as respectivas profissões normalmente expressavam a vida deles em casa.

— Então qual é o problema, querida? — Inclinando-se sobre a mesa, ele tirou com delicadeza o garfo e a faca das mãos dela e assumiu a tarefa aparentemente árdua de cortar o bife.

— Você tem 18 anos — mamãe fez cara feia para Ruby. — Você é adulta. Os erros que comete agora contam de verdade.

— Então talvez eu fique com uma pequena cicatriz para o resto da vida — Justine disse. — Grande coisa!

— Você tem sorte de ter saído dessa só com isso.

Justine olhou para mim e, o sorriso que tinha no rosto desde que subiu no Subaru de Regina, desapareceu.

— Mãe, uma tempestade pegou a gente e nós escorregamos em algumas pedras. Acidentes acontecem.

— Acontecem. E se você tivesse oito anos e estivesse mesmo na praia, eu beijaria seu joelho e tudo ficaria bem.

— Uau! — exclamei, apontando para o lago. — Os Beazley finalmente conseguiram uma canoa nova. É tão... Comprida.

Ao terminar de cortar o bife da mamãe, papai colocou a faca e o garfo de volta no prato dela e se inclinou em minha direção.

— Nota dez pelo esforço, mocinha.

Ruby balançou a cabeça.

— Estou confusa.

Tentei chamar a atenção da mamãe para poder pedir em silêncio que ela não dissesse o que estava prestes a dizer, mas não adiantou. Ela estava em uma missão e prestes a me deixar em sérios apuros com a pessoa que eu sempre queria deixar feliz.

— Vocês não estavam na praia, Ruby. Estavam nos penhascos de Chione.

Prendi a respiração. As palavras foram seguidas pelo silêncio.

— Impossível — Ruby finalmente disse, pegando o guardanapo que estava em seu colo. — Nunca ouvi falar desse lugar.

— Sério? Então, que penhasco perigoso é esse que sua irmã mencionou?

Fechei os olhos e me recostei na cadeira. Eu não precisava olhar para Ruby para saber que ela agora me encarava, com uma expressão de espanto, dúvida e mágoa.

— No último verão — mamãe continuou, — você saiu e a Emma ficou aqui, chateada. Perguntei qual era o problema e ela me contou como você tinha achado o penhasco, que vai lá todos os anos e que ela se sentia mal por causa do medo terrível que tem de pular.

— Falando nisso, talvez devêssemos dar um mergulho rápido no lago depois do jantar — disse papai, despreocupado. — O que acham?

— A gente combinou que não contaria — Ruby me falou, como se fôssemos as únicas à mesa. — Dissemos que era uma coisa nossa. Era isso que a  tornava tão especial.

Olhei para cima.

— Eu sei, eu...

— Não culpe Emma — mamãe disse.

Enquanto Ruby se largava desanimada na cadeira, papai passava manteiga em um pãozinho e mamãe esvaziava sua taça de vinho, revirei meu cérebro freneticamente à procura das palavras que melhorariam a situação. Eu queria dizer a Ruby que não tive a intenção de contar nada, que só estava frustrada comigo mesma depois de nossa ida ao penhasco no verão passado e que o que me deixava frustrada era o fato de ter medo de tudo nos últimos dezesseis anos.

Eu queria dizer a ela que mamãe estava no lugar errado na hora errada e ela prometeu não dizer nada — contanto que eu fizesse o possível para impedir Ruby de saltar sempre que fôssemos ao penhasco de novo e eu não tinha feito isso porque não gostaria de impedir minha irmã de fazer algo que a deixasse feliz. E eu queria dizer a ela que sentia muito, muito mesmo, por tudo isso. Mas eu não podia. Eu não podia dizer nada. Talvez porque estivesse com medo de que tudo desse errado, mas as palavras simplesmente não vieram.

— E quais são seus planos com essa menina Mills? — Mamãe perguntou.

Meus olhos se arregalaram quando deixei de olhar para a mamãe e olhei para Ruby. Eu definitivamente não havia dito uma única palavra a ninguém sobre Zelena.

O rosto de Ruby ficou vermelho.

— Meus planos?

— Entre saltar de penhascos e fazer sabe-se lá o que com uma menina bonitinho que não saberia a diferença entre um videogame e um laptop, você está arriscando todo o seu futuro. Dartmouth. Faculdade de medicina. Anos de sucesso e felicidade.

— O bife não está uma delícia? — papai perguntou. — Nem muito mal passado nem muito seco.

— Não acho que um pouco de diversão vá arruinar minha vida — Ruby empurrou a cadeira para trás, soltando faíscas pelos olhos azuis no cinzento anoitecer. — E, além disso, existem coisas mais importantes do que estudar em uma das melhores universidades do país e ganhar dinheiro.

— O Paizão aqui tem uma ideia — ele disse, lambendo os dedos. — Que tal deixarmos isso para lá por enquanto e retornarmos amanhã, depois de uma boa noite de sono?

Ruby se levantou, batendo com o joelho bom na mesa e balançando os pratos e copos. Ela se inclinou em minha direção quando passou por mim, com os olhos ainda mais brilhantes do que o normal, como se estivessem iluminados lá no fundo. Virou a cabeça para que a mamãe e papai não pudessem ver o seu rosto e disse uma palavra, alto o suficiente para que eu ouvisse.

— Buuuuuuu!!!

Lágrimas quentes brotaram em meus olhos. Atordoada, eu a vi atravessar o terraço e entrar em casa, deixando a porta de tela bater assim que passou por ela.

— Só quero que ela ande nos eixos — mamãe disse depois de uma pausa.

— E eu só quero que alguém me ajude a pintar a varanda da frente — papai disse. — Eu estava zombando do lance de ela ter usado o arranhão como um artifício para se safar, mas agora eu vou ter que fazer tudo sozinho.

Ignorando os dois, olhei para o lago.

Buuuuuuu!!! Nada de “muito obrigada” ou “dessa vez você realmente conseguiu” ou mesmo “agora você está por sua própria conta e risco”, o que provavelmente teria trazido lágrimas aos meus olhos, mas não teria feito a minha pele formigar como aquela única palavra fez.

E, naquele momento eu não tinha como saber, mas aquela seria a última palavra de Euby para mim. Nos dias e semanas que se seguiriam, eu ficaria repassando o momento várias vezes na cabeça, vendo seus olhos azuis, ouvindo sua voz suave e, por alguma razão, sentindo o cheiro de água salgada, como se ela ainda estivesse ao meu lado no alto do penhasco, com a pele e o cabelo molhados pelo mar.



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