História A Professora IV - Capítulo 16


Escrita por:


Capítulo 16 - Que desenhá


“Um gélido temor passa pelas minhas veias e quase congela o calor da vida.” William Shakespeare





EMMA


Lana andava na minha frente completamente frenética. Estávamos a dois dias da Bienal e ela

parecia estar ligada na tomada. Era a primeira vez que ela participaria como a editora-chefe de fato em

uma bienal.

— Eu só queria que você pudesse conferir — ela dizia animada. — Vamos fazer algumas fotos e usar

para divulgação. Normalmente Ruby cuida disso para você, mas como ela está em lua de mel, achei

melhor que você estivesse aqui.

— Tudo bem, Lana. Thomas está em uma reunião e meu pai e Graham viajaram hoje cedo, então fiquei

sem ninguém e com nada para fazer — revelei, sentindo-me realmente só.

Depois do encontro na praia com Regina eu não conseguia parar de pensar nela. Imaginei que ela me

procuraria, que enviaria alguma mensagem, que fosse brigar ou qualquer outra coisa, mas não. Regina

simplesmente me ignorou e seguiu como se nada tivesse acontecido.

— Uma escritora nunca fica sem ter o que fazer. Por falar nisso: como está o livro? — Revirei os olhos.

Lana fazia o papel dela como editora-chefe, porém a pressão pelo livro novo estava acabando comigo.

Como ter cabeça para escrever enquanto eu ainda precisava resolver a minha vida com a minha ex-mulher

— Estou escrevendo — informei sem muito ânimo.

— Ótimo! Desculpe não estar muito presente. Você passou tanto tempo fora e agora a minha vida está

uma bagunça. Tem as meninas, a Bienal, a editora, Jefferson… Deus do céu! Nem sei como consigo dar

conta de tudo. Não sei o que seria de mim se Regina não tivesse voltado a trabalhar ativamente na editora.

Você sabia que ela parou de escrever outra vez? — Fiquei chocada, mas não quis demonstrar o quanto

aquela revelação me aborrecia.

— Não. Ela não me falou nada — continuei acompanhando os seus passos rápidos enquanto ela abria

uma das portas do corredor.

— Alguém sabe onde a Bela está? — Algumas pessoas olharam para Lana e negaram com a cabeça. —

Droga! Eu preciso dela para arrumar os livros antes de despachá-los. — Ela bateu a porta e continuou.

— Eu pensei que você e Regina estavam se entendendo, aí você aparece com Thomas e eu não entendo

mais nada.

— Você sabe que eu e Regina somos um caso complicado.

— São mesmo — ela riu. — O que não as impede de se agarrarem por aí. — Meu rosto esquentou e eu


nada respondi. O que eu poderia dizer? Nada. Principalmente depois do vexame no casamento da irmã

dela. — Amanda, eu preciso que encontre o Bela com urgência. Avise a assessoria que Emma já

chegou.

— Claro, Lana! Quer alguma coisa, um café, uma água?

— Um café, por favor! Emma ?

— Ah… — pisquei algumas vezes tentando espantar a vermelhidão em meu rosto. — Uma água.

Obrigada!

— Vamos aguardar aqui enquanto eles não aprontam tudo.

Lana abriu a porta e meus olhos rapidamente se instalaram na imagem no centro da sala. Sentada no chão,

e vários papéis ao seu redor, estava uma Regina concentrada entre fazer o

seu trabalho e dar atenção a sua miniatura, sentado entre as suas pernas, com papéis sobre a pequena

peça de centro e vários lápis de cor espalhados por cima dela.

— Ai que delícia! — Lana gritou indo em direção ao sobrinho. — O príncipe veio trabalhar hoje? —

Regina levantou os olhos sorrindo para a irmã e me viu. Foi perceptível o seu choque. Ela logo se

recuperou e o gelo que me deu fez até a minha alma congelar. — E a escola?

— Marta precisou faltar — anunciou para a irmã sem se importar com a minha presença. — E ele teve

um leve ataque de asma hoje. Nada grave. Achei melhor ficar por perto.

— Oh Deus! — Ela fez voz de criança e colocou a mão na testa do sobrinho. — Você está bem? — Lipe

balançou a cabeça confirmando e deixando os óculos descerem em seu nariz ainda muito pequeno. —

Quer um suco de laranja?

— Oba! — ele gritou e ela riu.

— Vou providenciar. — Lana levantou e só então percebeu a situação. — Ah, Emma ! Eu vou

providenciar o suco do Lipe, enquanto isso fique por aqui, leia uma revista, confira o seu e-mail… —

Deu de ombros e saiu, deixando-me sozinha com minha ex-mulher a que havia resolvido me desprezar e

aquele serzinho que já me olhava com ambição.

— “Que desenhá”? — Sua voz infantil preencheu o ambiente enquanto Regina fingia continuar o seu

trabalho.

— Eu… eu… — Olhei para Regina implorando para que ela me olhasse também e me ajudasse com aquela

situação, mas ela só acariciou os cabelos do filho e se voltou para seus papéis. — Eu não sei desenhar.

Desculpe! — Sentei no sofá me sentindo desconfortável. Lipe me olhou com atenção, entortando a cabeça

para o lado, como a mãe fazia.

— Tó. — Levantou o papel em minha direção. — Minha caja.


— Casa, filho — Regina corrigiu o filho e me olhou enquanto fazia carinho nele. — Como vai, Emma ?

— Be-bem — pigarreei me sentindo ridícula por gaguejar.

— Tó — Lipe insistiu e eu me vi pegando o papel da sua mão.

Nele tinha uma casa que se prestasse muita atenção dava para reconhecer como sendo a casa dele mesmo,

pelo menos no que se espera da arquitetura. Do lado de fora estava uma mulher com cabelos pretos que provavelmente era

Regina, uma criança e ao lado uma outra mulher de cabelos longos e loiros.

Respirei fundo e quando dei por mim ele já estava a minha frente. Encarei aquela criança que tanto me

assustava.

— Mamãe , Lipe e Enanan. — Meu coração disparou. Rapidamente Regina já estava junto do filho,

segurando-o pela cintura e o levando para longe de mim, como se eu fosse letal a criança.

Ele não entendia.

— É Emma — eu sussurrei ainda em choque. — Ou Emm, como os outros me chamam. — Regina parou

surpresa com a minha reação, apesar de ainda em alerta.

— Emme — Lipe testou e eu sorri sem querer.

— Mais ou menos isso. Lindo o seu desenho. — Estendi-me para colocar o papel sobre a mesa.

— Emme— ele brincou e riu, preenchendo o ambiente. Era gostoso de ouvir. — Emme vai desenhá?

— Não. Desculpe. Eu não sei desenhar — repeti me sentindo estranha.

— Desenhe um barco, filhão. — Regina o distraiu e assim que o filho iniciou o processo ele voltou a me

olhar.

— Ele está doente? — Tentei iniciar uma conversa assim que a criança voltou a se dedicar a seus

desenhos.

— Já está melhor — continuou séria, acariciando a cabeça do filho e me encarando.

Ela esperava que eu falasse. Eu sabia que não poderíamos conversar na frente do seu filho, então fiquei

sem saber o que dizer, entrelaçando os meus dedos e mordendo o lábio para me controlar.

— Prontinho! — Lana entrou na sala com uma bandeja nas mãos. Lógico que ela notou o clima estranho,

embora fingisse não ter percebido. — A titia conseguiu o melhor suco de laranja do mundo.

— Oba! — Felipe gritou, levantando para alcançar o seu suco.

—E aqui está a sua água, Emma . — Ela me entregou um copo, mas olhou para a irmã em uma

conversa muda. Com um aceno de cabeça ela concordou com algo e eu vi Lana respirar fundo. —

Conseguiu o que te pedi?

— Sim. Giovana está com todas as credenciais. Organizamos uma lista. Todo o nosso material de

trabalho vai ficar em um depósito próximo do Centro de Convenções, assim fica mais fácil suprir o

estoque.

— Você recebeu a sua, Emma? — Eu sabia que ela tentava me enrolar.

— Não — colaborei.

— Claro que não. Quem sempre cuidava de tudo para você era Ruby e ela está em lua de mel. Droga!

Zelena já devia ter voltado. Eu preciso dela para esta Bienal, não podemos esperar tanto.

— Lana, você está vendo problema demais onde não existe. Este ano até conseguimos um preço melhor

para os livros, mesmo com o aumento do valor do papel. Tudo já está organizado, agora é só executar. —

Regina agia naturalmente, com a calma e sabedoria de quem já havia feito tal tarefa muitas vezes.

— Executar é o grande problema. Eu vou tentar encontrar a credencial da Emma e procurar a Bela.

Lipe, quer passear com a titia? — Era isso. Ela queria nos deixar sozinhas e Regina concordou. Puxei o ar

com força, tentando me preparar para o que viria.

— Oba! — Lipe gritou outra vez e correu em direção a porta sendo seguido prontamente pela tia.

Ficamos em silêncio. Regina continuou o seu trabalho, olhando diversos papéis e colocando-os

separadamente em três pilhas perfeitamente organizadas. A conversa e cobrança que imaginei vir tão logo

fossemos deixados sozinhas não aconteceu. Eu aguardei, a ansiedade já começando a me dominar. Bati o

pé inconscientemente, enquanto esfregava meus dedos uns nos outros. Ela continuava ali, imune a mim,

sem sequer me dirigir um olhar.

— Vai continuar me ignorando? — Não aguentei. Se me deixar desesperada era o plano dela posso dizer

que cumpriu a sua missão com êxito.

Regina suspirou pesadamente, como quem quer tirar um peso das suas costas. Eu. Eu era o peso que ela

tentava se livrar. Meu coração acelerou de raiva e medo. Raiva porque aquela babaca deveria passar a

vida implorando pelo meu perdão. Ela dormiu com a inimiga, não eu. Que ódio!

Sim, eu estava com ódio porque estava com medo de que ela simplesmente desistisse de mim

justamente quando eu decidi que a queria de volta.

Que merda!

— Emma … — Ela fechou os olhos e passou a mão na testa. — Me diz o que exatamente você quer

que eu faça?

— Com assim?

— Você transou comigo. Foi ótimo! Maravilhoso! Agora você está com Thomas. Ele é o seu noivo. É

com ele que você está dormindo. Como quer que eu esteja nesta situação?

— Eu… — Abaixei a cabeça me sentindo confusa e envergonhada. — Thomas não… Ah!

E meu rosto queimou ao entender o motivo do desprezo de Regina. Ela achava que eu e Thomas estávamos

transando. Cara, eu podia fazer a dança da chuva. Posso ser injusta, infantil, idiota, o que quer que seja,

porém me senti vitoriosa por dentro, mesmo sabendo que o medo de Regina era uma bobagem Ok! Eu era

absurda.

— Olha, Emma — Ela deixou os papéis de lado e passou as duas mãos pelos cabelos. — Eu fui bem

clara com você naquele dia lá em casa. Eu disse o que queria, mas não pense que vou ficar como uma
imbecil esperando que Thomas termine de se divertir com você para ser a minha vez.

Porra!

— Como você é grossa!

— Desculpe, mas essa é a única forma que consigo te dizer o que penso sem que algo se perca em sua

cabeça confusa.

— Minha cabeça não é confusa — rebati indignada. — É você que já chega fazendo inúmeras exigências.

Aliás, você nem pode fazer nenhuma exigência. Você… — Ou você esquece essa história ou nem vamos

continuar esta conversa. — Ela me olhou com fúria me calando. Eu queria falar, até tentei, mas fui tão

surpreendida que não consegui falar nada. — Nós nos amamos, Emma. Eu não tenho dúvidas e você

também não. O que aconteceu foi uma merda, infelizmente aconteceu e não tem como voltar atrás. Não

existe maneira de voltar no tempo, então, ou vamos superar juntas e fazer dar certo, ou vamos colocar um

ponto final de verdade nessa história.

Fiquei incontáveis minutos olhando aqueles olhos cheios de expectativas. Meu coração acelerado

fazia meus tímpanos latejarem. Minha cabeça doeu.

Por Deus! Eu não tinha dúvida do quanto queria conseguir estar com ela sem os medos ou mágoas. Até

arriscaria tentar, recomeçar… sei lá! Um passo de cada vez, um dia após o outro. No entanto Regina queria

tudo e de uma vez. Ela queria uma resposta que eu não podia dar sem ter plena certeza de que eu seria

capaz de suportar.

Quando dei por mim ela já estava de joelhos na minha frente para que nos olhássemos nos olhos, seu

corpo entre as minhas pernas e suas mãos em meu rosto. Recuei assustada.

— Emma … — sussurrou muito próxima. Sua voz aveludada era como uma promessa de dias felizes.

— É comigo que você quer ficar. — Seus dedos massageavam minha nuca me fazendo entrar em transe.


— Não com aquele imbecil. Sou eu quem você ama. — Seus lábios roçaram os meus, apenas como uma

provocação.

Santo pai, eu queria aquele beijo. Queria poder contar a ela que eu era imatura a ponto de inventar um

noivado só porque fiquei com ciúme de Marian. Queria ter a certeza de que iríamos rir e não de que ela me

acusaria das piores coisas da face da terra e desistiria de mim por continuar sendo a mesma menina

mimada e maluca.

Onde eu estava com a cabeça quando inventei aquela merda? Não era muito mais digno eu dizer que

estava solteira por opção? Ou dizer que estava muito bem sozinha? Ou até mesmo tentar ser a moderna e

dizer: solteira sim, sozinha nunca.

Eu queria me bater.

— Não suporto imaginar que ele toca você, Emma — lamentou, colando a testa na minha. Meu peito

doeu e o nó em minha garganta me fez engasgar.

— Então você sabe exatamente como eu me sinto — confessei baixinho, deixando a dor me dominar. Uma

lágrima escorreu sem a minha permissão, mas não me importei.

— Não chore — ela implorou. — Eu sei como você se sente e isso me deixa fodida, amor! — Senti seus

dedos se fechando em meus cabelos. — Eu estou cansada, Emma ! — Sua voz ganhou mais vida, mais

energia. — Estou cansada de me autoflagelar. De me culpar pelo que aconteceu. Eu quero recomeçar.

Antes de você voltar eu não ousava imaginar a minha vida ao seu lado outra vez, mas agora… depois de

ter você me meus braços eu não quero que seja diferente, então vamos nos dar esta chance. Acabe de uma

vez com esse relacionamento ridículo e fique comigo.

— Meu Deus, Regina! — suspirei deixando que mais algumas lágrimas caíssem. — Eu não sei como fazer

isso — confessei.

— Mas você quer, não é mesmo? — Concordei com a cabeça sem conseguir fazer as palavras saírem. —

Então deixa que eu faço todo o resto.

— Regina … Fui puxada de encontro aos seus lábios e relaxei completamente. Regina me exigiu com firmeza,

colando sua boca na minha e selando o nosso acordo com um beijo que roubou de mim todos os

pensamentos.

Naquele momento eu queria apenas continuar sentindo os seus lábios nos meus e a sua língua atrevida,

possessiva e segura de si, que me dizia o quanto ele sentia a minha falta.

E eu queria mais.

Agarrei-me aos seus ombros forçando meu corpo a se moldar ao dela e fui presenteada com um gemido

maravilhoso da minha eterna professora. Senti suas mãos soltarem minha nuca e se apossarem das minhas

costas, ajudando no processo de estarmos completamente coladas.


Lembranças de momentos nossos naquele escritório povoavam minha mente, brincando com a minha

sanidade. Sim, eu lembrava de cada detalhe, de cada palavra. Joguei meu corpo para trás, forçando-a a

se projetar sobre mim, inclinado no encosto do sofá. Regina se afastou e eu tentei impedi-la de parar.

— Eles vão voltar logo — disse com os lábios ainda nos meus.

— Regina ! — gemi um protesto. Eu não queria parar. Em outro tempo ela trancaria a porta da sala e não se

importava com quem ficasse do lado de fora.

— Temos que parar, Emma. — Vi quando ela olhou apreensiva para a porta quando enrosquei minha

perna em sua cintura. Mesmo com medo ela não evitou apalpar minha carne e alisar minha pele exposta.

— Ah, menina! — O tesão em suas palavras fez o centro entre as minhas pernas vibrar. — Vamos parar.

— Afastou-se um pouco e me olhou ostentando um sorriso presunçoso. — Você continua a mesma menina

fogosa — mordi o lábio e esfreguei meus quadris nos dela. — Não me provoque, Emma.

— Você quem me provocou.

— Porque você me enlouquece. — Ela levantou sem me dar chance de persuadi-la.

— Tranque a porta. — Segurei em sua cintura. Regina sorriu e acariciou meus cabelos para logo em

seguida se inclinar e me beijar com devoção.

— Não posso. — Colou os lábios nos meus como se dissesse que era um ponto perdido.

— Vamos para algum lugar. — Segurei sua nuca para que ela não se afastasse.

— Lipe está doente. Não posso me afastar dele. — Fiz muxoxo, e, por mais incrível que pareça, achei

que ela estava certa. Era bom não descuidar da criança. —Venha passar a noite comigo. — Tenho certeza

que meus olhos esbugalhados já eram uma resposta para ela.

— Na sua casa? — Regina umedeceu o lábio inferior. — Com o Felipe?

— Ele mora lá — disse com ironia. Estreitei os olhos.

— Você não pode estar me chamando para transar em sua casa com o seu filho dormindo sob o mesmo

teto, não é mesmo? — Ela riu.

— Primeiro: estou te pedindo para dormir comigo e fazer amor… — ressaltou esta parte —, transar é

uma consequência. Segundo: casais com filhos possuem vida sexual. Ou você acha que foi por isso que

seus pais não tiveram mais filhos?

— Muito engraçado. — Empurrei-a para me livrar da sua tentativa de me ridicularizar. — E nós não

temos filhos. — Desviei o rosto para que ela não pudesse captar a mágoa por mais aquela verdade.

— Ainda. — Olhei para Regina e ela sorria. Não consegui fazer o mesmo. Pelo contrário. Minha cabeça


girou e eu senti o ar faltar. — Emma? O que foi? Emma?

— Nada — respondi tarde demais. O pânico já estava em meu rosto, em minha voz. — Não posso passar

a noite na sua casa. — O calor que antes fazia minhas veias arderem cedeu lugar para um frio gélido.

— Não posso passar mais uma noite te imaginado naquele flat com Thomas — ela foi firme. Mais uma

exigência.

— Não posso invadir o espaço do Felipe assim, Regina — tentei. — E eu ainda preciso de um tempo.

— Tempo para quê?

— Para mim — eu estava ofegando. — Tempo para organizar a minha cabeça, minha vida. Preciso me

acostumar, me adaptar… — Emma, Lipe é meu filho e isso não vai mudar.

— Eu sei. — Olhei fixamente em seus olhos para lhe garantir que naquele momento Lipe era o menor dos

meus problemas. — Só não quero fazer nada por impulso.

— Impulso? — Afastou-se indignada. — São três anos separadas.

— Por isso mesmo. Eu mudei, você mudou, tudo mudou, Regina! — Levantei me afastando ainda mais. —

Vamos com calma desta vez. Vamos ter certeza de estarmos fazendo a coisa certa. Ainda existe muito o

que conversar.

— Você vai me enlouquecer se passar esta noite com ele. — E eu vi em seus olhos que era verdade. Regina

não suportaria mais.

— Confie em mim. — Tive vontade de rir, contudo o desespero dentro de mim me impediu de achar

qualquer graça naquela situação.

Ela nem imaginava que Thomas dormia no quarto de hóspedes e que nem chegava perto do meu quarto.

Meu pai fazia questão de garantir essa parte. Porque sim, eu já fui casada, tive uma vida sexual ativa, o

que, na cabeça dele, não me dava o direito de transar quando, onde e com quem eu quisesse.

— Eu confio em você. O problema não é esse.

— E se eu te lembrar que David ainda é o mesmo homem do século XVIII? — Regina parou, pensou no que

eu disse, sorriu lindamente e coçou a cabeça.

— Eu adoro o seu pai ***




REGINA




— Então vocês estão juntas outra vez?

Olhei para Jeff sentado em meu sofá, bebericando uma cerveja enquanto curtia seu momento de paz,

observando as filhas brincando com Lipe um pouco mais afastados. Lana havia dado a ele a missão de

cuidar das crianças enquanto ela precisava trabalhar até mais tarde. Minha irmã estava louca com a

Bienal.



— Mais ou menos. Ela está insegura demais — suspirei, pensando no quanto seria bom uma cerveja, só

que não dava para descuidar quando estava com Lipe.

— Claro que está, porra! Você comeu a Tiffany — ele se encostou no sofá e riu. — Porra, você é uma
fodida.

— E você, um idiota.

— Por que não conta de uma vez o que aconteceu naquela noite? Você disse que em determinado

momento se deu conta que era Tiffany, então você traiu Emma realmente, e com intenção. Realmente

não sei como ela te perdoou.

— Vá se foder, Jeff! — resmunguei abaixando a voz para Lipe não me ouvir xingando. — Você não faz

ideia do quanto foi horrível.

— Ah, Claro! Tão horrível que fez você gozar.

— Jeff, por que você não cala a boca e bebe?

— É sério, Regina. O que aconteceu naquela noite? O que de tão grave aconteceu que se tornou um

pesadelo para você, dá para ver na sua cara e eu sei que não é só porque causou a sua separação.

Estremeci. Lembrar de como tudo aconteceu acabava comigo. Destruía-me como pessoa, e me fazia uma mulher
sem moral. Eu não queria contar. Era vergonhoso.

— Não quero falar sobre isso.

Levantei e caminhei até as crianças, que riam e faziam bagunça com os bloquinhos de montar. Abaixei e

verifiquei a temperatura de Lipe, mesmo tendo consciência que ele não teve febre o dia todo. Era apenas

mais uma fuga. Jeff ficou sério, aguardando-me até que eu voltasse para perto dele.

— Ela terminou com Thomas? — Fiz uma careta de desagrado.

— Ainda não. — Ele abriu um sorriso imenso.

— O que foi?

— Então Emma ainda pode mudar de ideia. — Tive que me controlar para não mandar meu amigo se

foder mais uma vez. — Calma — riu abertamente. — Só estou registrando os pontos. Se Emma está

insegura, noiva de outro cara, esse jogo ainda não está ganho.

— Jeff você é meu amigo ou não?

— Sou — continuou rindo.

— Então quando vai começar a parte em que você me diz coisas legais e me apoia para ajudar a diminuir

a minha insegurança?

— Quando você deixar de ser uma filha da puta trouxa. — Fiz muxoxo. Ele tinha conseguido me deixar


insegura. Porra! — Primeiro deixa eu te perguntar uma coisa: se você tivesse encontrado uma garota

legal, estivesse em um relacionamento seguro com ela, seu filho gostasse da garota e ela fosse como uma mãe

para ele, quando Emma aparecesse você largaria tudo para ficar com ela?

Respirei fundo. Minha resposta era clara: Sim. Se bem que sabia da minha resposta porque não havia

encontrado ninguém para me envolver a este ponto. E se eu estivesse com alguém. E se gostasse da

pessoa e ela amasse Lipe como um filho? Não respondi. Jefferson levantou um dedo e continuou.

— Emma não consegue nem respirar quando está perto do Lipe. — Engoli com dificuldade.

— Ela vai se adaptar — rebati, tentando convencer a mim mesmo.

— Ela fica em pânico, Regina.

— Por causa da situação, mas ela vai se adaptar — repeti e senti minha garganta secar.

— E se não se adaptar?

— Jeff, você sabe que Lipe é a minha prioridade, então por que está fazendo essas perguntas?

— Porque eu quero que você enxergue o que eu enxergo.

— O que? Que eu e Emma nos tornamos incompatíveis? Eu não quero acreditar mais nisso.

— Não, idiota. Estou te mostrando que este noivado não existe.

— O quê? Você… — Você traiu Emma.
"Organizou sua vida" adotou um bebê, Passou três anos longe. Onde um

relacionamento estável, um noivado, se dissolveria tendo tudo isso contra a sua volta, Regina?

— Ela me ama. — Minha respiração começou a ficar pesada.

— Ama. Veja uma coisa: Emma ainda tem mágoa.

Ela não consegue encostar no seu filho sem parecer

que está tendo um ataque cardíaco.

Ela te quer, mas foge. Ela está noiva do cara que esteve com ela nos

últimos três anos.

— E daí?

— E daí que se esse noivado fosse real ela não largaria algo bom, saudável, por algo falido.

— Falido? Nós nos amamos! — Ele fez uma careta de deboche.

— Tudo bem. Vamos ver por outro lado: Emma se tornou uma celebridade. Existem sites e mais sites

que acompanham a vida dela. O tempo todo temos paparazzi querendo uma foto dela. Ontem, por

exemplo, um site publicou sobre Emma comprando uma água no mercadinho do bairro dela.

— Tá de brincadeira!


— Claro que não. Faz parte da minha função acompanhar as notícias dos nossos autores. Há dois dias um

site britânico publicou uma foto dela andando no calçadão com Thomas e se referiu a ele como o seu

amigo de infância.

— Ele é amigo de infância dela.

— E se fosse noivo todo o planeta já saberia. — Parei, chocada.

— O noivado é recente. — Tentei me convencer e ele revirou os olhos.

— Eles nunca foram vistos juntos como namorados, como parceiros, ficantes. Nenhuma foto de beijos,

nenhuma foto de mãos dadas… — Emma não tem motivos para inventar uma bobagem dessas.

— Claro que tem. Ela é mimada e infantil. Pelo amor de Deus! Estamos falando de Emma Swan, a garota mais imatura com quem você já se relacionou.

— Não fale assim dela — repreendi meu amigo por não ter nenhum argumento contra a teoria da

conspiração que ele formulava. — Emma não tem motivos para mentir e sustentar a mentira.

— Ela é mulher. — Levantou um dedo enumerando. — Ela está magoada. — Levantou outro dedo. —

Mulheres magoadas tendem a ter necessidade de fingir estar bem para ex- — Levantou o

terceiro dedo.

— Você é um idiota, Jefferson ! Você as vezes esquece que sou mulher tambem seu imbecil por que olha não tem condições. SANTO CRISTO, Cale a boca e beba a sua cerveja.

Meu amigo riu e se calou. Eu fiquei perdida em pensamentos, tentando me convencer de que não era

verdade e que Jefferson tinha enlouquecido de vez. Poderia ser verdade? E se fosse? Eu ficaria feliz?

Sim, ficaria. Sem Thomas, Emma seria apenas minha. Ao mesmo tempo eu me sentiria péssima por

saber que ela mentiu para mim por tanto tempo só para provocar dor e ciúme.

Não. Emma não seria infantil a tal ponto.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...