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História A Professora IV - Capítulo 38


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Capítulo 38 - Águas profundas


“O excesso de demência causa mortes também, por imprudência. ” William Shakespeare


RREGINA


Minhas mãos tremiam, minha boca estava seca, apesar da chuva que me molhara por completo, meu coração

parecia que sair do meu peito. Eu estava desesperada.

Correr até a garagem foi apenas uma reação. Eu não fazia ideia do que fazer. Não sabia que direção

seguir nem com quem falar. Tinha medo de voltar ao Rio de Janeiro apenas para descobrir que ela havia

deixado a cidade. Ela tinha que estar lá, em algum lugar, com o meu filho, no meio daquela chuva

absurda.

Meu Deus!

— Ela está por perto. Sua mãe deixou Lipe sozinho apenas por alguns minutos. Foi o tempo de ir até a

cozinha, fazer um chocolate quente e voltar para o quarto. Logo em seguida ela nos procurou. Marian deve

estar uns vinte minutos a nossa frente. Se ela pegou o Lipe tem que estar aqui na propriedade — Emma

falava atrás de mim fazendo a minha cabeça dar um nó.

— Se ela estiver de carro já deve estar longe. — Procurei minha chave e não encontrei.

— Regina , pense um pouco. Emma está certa. Eu fechei o portão assim que saí de casa. Se Marian entrou

não foi de carro e, com certeza, ela não conseguiria sair com Lipe pela entrada principal sem chamar a

nossa atenção. Ela não contava com o portão fechado. — Meu pai tentava me chamar para a realidade,

mas eu estava quase enlouquecendo.

— O que ela pretende? — Senti que o desespero começava a querer me dominar. — Como ela pode

afirmar amar o menino e tirá-lo de casa assim, no meio desta chuva, mesmo sabendo de todos os

problemas que ele tem?

— Não tem ninguém na casa. — Minha mãe voltou com Doroteia, a mulher que a ajudava com a casa e

um dos homens que administravam a propriedade. — Nós procuramos em todos os lugares, dentro de

todos os cômodos e armários. Se essa mulher pegou o meu neto eles estão fora da casa.

— Na merda da chuva — rosnei.

— Tem um carro encostado na estrada, há uns trinta metros daqui, logo na virada. Não tem ninguém nele.

— Outro funcionário informou.

— Só pode ser ela. Temos que nos garantir que ela não vai alcançar aquele carro. — Emma começava

a esquematizar um plano. — Se ela não conseguiria sair pela frente qual outro caminho poderia tomar?

— Provavelmente desceria em direção ao rio. Seguindo a margem ela consegue achar um caminho para

voltar à estrada. Isso se ele não transbordar, que é o que provavelmente vai acontecer com essa chuva. —

O outro homem acrescentou.

— Ela tem que estar no meio do caminho. Andando e com Lipe no colo não deve ter chegado lá ainda. —

Entrei no modo operante. — Preciso da chave do meu carro.

— Vamos no meu. — Emma sacou a chave dela e imediatamente destravou o carro. Não era muito

adequado para o que enfrentaríamos, mas eu estava com pressa.

— Eu dirijo. É melhor você ficar e aguardar por alguma novidade. — Passei por ela pegando a chave em

sua mão e abrindo a porta do carro.

— De jeito nenhum! — Emma rosnou correndo para o lado do carona.

— Emma!

— Ele é meu também, Regina ! — Foram poucos segundos nos encarando, mas suficientes para saber que

ela não desistiria.

Entramos no carro e partimos em direção ao rio.




EMMA


— Dirija mais devagar, Regina — alertei com o estômago embrulhado.

Regina corria apesar da chuva torrencial nos impedindo de enxergar direito o que havia do lado de fora.

— Preciso encontrá-los.

— Se ela estiver por perto vai se esconder. Precisamos ter condições de observar tudo, encontrar

qualquer pista. — Ela freou bruscamente e eu quase vomitei.

— Merda! Eles podem estar em qualquer lugar.

— Seu pai já ligou para a polícia e eles estão a caminho. Os outros estão na estrada. Se Marian tentar

voltar ao Rio com Lipe nós vamos saber.

— Puta merda! Puta merda!

— Ela não vai fazer nada, Regina!

— Como não? Ela quase matou o meu filho apenas para me jogar contra você. Ela quase matou meu bebê eu meu Deus.

— Deus! Não podemos nos desesperar. Já estamos perto do rio?

— Provavelmente, se ele realmente transbordou.

— É tão rápido assim?

— Não está lembrada?

Mais uma vez senti um frio anormal. Eu não consegui voltar, Regina quase morreu atravessando, Marian e

Lipe não teriam a mínima chance.

Não precisamos procurar muito. O barulho da chuva estava alto, mas o do rio estava ainda maior. Regina

reduziu sabendo que era arriscado demais continuar. Olhamos ao redor, ainda sem sair do carro e meu

coração congelou. Seguindo a correnteza eu vi primeiro o movimento anormal para uma noite de chuva e

alagamento, rapidamente eu entendi do que se tratava.

Ela corria com Lipe no colo, se valendo da escuridão para fugir de nós duas. Ela estava muito próxima da

margem e qualquer vacilo poderia pôr um fim a tudo. — Regina ! — Eu não conseguia gritar, não conseguia

sequer sair do lugar.

O pavor que me mantinha presa naquele banco me impedia de agir. Eu tinha medo de ela escorregar, de

ela entrar em desespero e decidir arriscar. Se Marian entrasse naquele rio tudo estaria acabado.

Perderíamos Lipe para sempre. Eu não suportaria.

Meu Deus, eu não suportaria!

Regina não pensou como eu. Assim que seus olhos avistaram a fonte do meu desespero ele abriu a porta e

correu na direção do vulto que seguia sua corrida desesperada.

— Marian! — Ouvi ela gritar. Ela parou. Olhou para trás e seguiu correndo.

Regina continuou correndo na direção deles dois. Era lógico que ela os alcançaria. Marian estava em desvantagem por estar correndo a mais tempo e carregando uma criança.

Ela sabia que perderia e poderia tentar qualquer coisa.

Abri a porta do carro e corri na direção deles. Regina precisaria de ajuda. Eu não sabia como iria ajudá-la,

mas não entregaria a vida de Lipe sem antes lutar por ela.

Foi quando vi Regina reduzir. Marian estava perto demais da margem. A correnteza deixava claro que

tragaria qualquer coisa que conseguisse alcançar. Ela sabia que a ameaça era real e estava disposta a

conseguir se livrar. Regina parou, próximo o suficiente para ouvir o choro do Lipe. Céus! Era

desesperador.

— Não se aproxime! — ela gritou. Nós sabíamos o que ela faria se não fizéssemos o que pedia.

— O que está fazendo? — Regina gritou de volta tentando conter a raiva e o pânico. — Isso é sequestro, Marian.

— Você não me deu escolha — ela rebateu dando mais um passo para trás.

— Marian, por favor, não! — Dei um passo à frente e ela girou Lipe como se fosse jogá-lo no rio.

Gritamos desesperadas. — Não faça isso, por favor — implorei sem nenhum receio.

— Ele não vai resistir. — Minhas lágrimas se confundiam com a chuva.

— Marian deixe Lipe vir para mim. — Regina estendeu a mão. — Eu deixo que você vá embora. É melhor ir

o quanto antes. Meu pai já chamou a polícia logo você estará em uma situação muito complicada.

— Olha o que você fez comigo! — Pela sua voz percebemos que ela estava chorando. — Você destruiu a

minha vida, Regina.

— Você sabe que não é verdade.

— É verdade! — gritou girando um Lipe desesperado que se debatia tentando se livrar dela. — Você

tirou a vida da minha prima e agora quer tirar o Lipe de mim.

— Marian, vamos conversar. — Regina deu um passo mínimo e eu entendi o que deveríamos fazer. Enquanto

ela prestava atenção nela eu me aproximei um pouco mais. — Vamos encontrar uma solução, fique calma.

— Solução? Você é uma mentirosa, egoísta, hipócrita! Eu estive com você esse tempo todo. Eu cuidei do

Lipe e o amei como mãe e o que você fez? Você destruiu tudo quando ela resolveu voltar. Você não levou

em consideração o que eu fui e tudo o que fiz. Eu fui a única que te ajudou e apoiou, mas nada disso foi

importante. Quando esta menina entrou em sua vida nada mais existia para você, nem eu, nem mesmo o

Lipe. — Dei outro pequeno passo, aproveitando da oportunidade.

— Você não respeitou a minha decisão, Marian. Eu sustentei o seu direito como madrinha até o último

momento, você que pôs tudo a perder quando resolveu interferir no meu relacionamento com Emma.

— Porque você estava cega!

— Você colocou a vida do meu filho em risco — Regina gritou descontrolada e eu vi que Marian recuou um

pouco mais. Tínhamos pouco tempo.

— Regina , calma! — Vi minha namorada chorar desesperada, mas respirar fundo. A chuva não cedia e o rio corria com fúria.

— Era para ser um susto. — Sua voz mudou de tom, como se estivesse se desculpando e realmente

estivesse arrependida. — Eu só queria que você enxergasse que Emma não podia ser a mãe dele. Que

ela não tem responsabilidade para tanto e nem direito de assumir tal cargo.

— Eu não entendo. — Regina demonstrava o seu medo em cada palavra. — Por que você fez isso? Você

não é apaixonada por mim.

— Você não é o motivo, Regina . — Ela olhou para mim como se quisesse que eu morresse com apenas

aquele olhar. Antes de focar meus olhos nela consegui ver que Regina se aproveitou da situação e chegou

mais perto. Ela conseguiria segurá-la se corresse. — Ela não pode ter tudo o que quer.

— Emma não tem culpa de nada. Eu sou a única culpada aqui. — Ela voltou a olhar Regina permitindo

que eu desse mais um passo. — Eu errei.

— Você sempre tenta tirar a culpa dela. Você está sempre justificando as infantilidades dessa menina,

passando a mão pela cabeça e agindo como se ela nunca tivesse a intenção de fazer mal. — Lipe chorava

com as mãos estendidas em minha direção. Meu coração estava machucado. Eu queria poder arrancá-lo

das mãos daquela louca, mas não podia arriscar.

— Marian deixe o Lipe. Ele está assustado. — Tentei convencê-la e também dar a Regina a chance de se

aproximar ainda mais.

— Quem você pensa que é? Você não é a mãe dele. Tiffany morreu por sua causa. Você tirou tudo dela.

Tudo — ela gritou segurando Lipe com mais firmeza. — Você não pode ter tudo, Emma ! Tiffany

perdeu a Regina para você, perdeu o seu lugar na editora, perderia o público dela, perdeu a vida e agora,

não satisfeita, você quer ficar com o filho dela também? Pois não vai. Lipe tem mãe , não é a Regina e muito menos você, e você não vai

apagá-la de sua vida apenas por um capricho. Eu não vou deixar. — Ela deu um passo para trás e

escorregou.

Corremos em sua direção, mas ela levantou desajeitadamente, ainda mantendo Lipe nos braços. Ele

tossia e chorava muito. Paramos assim que vimos que a água estava quase neles. Teria que ser uma ação

conjunta e certeira. Estávamos muito perto, só teríamos uma chance.

Como arriscar?

— Marian não dê mais nem um passo — Regina ameaçou. Mesmo com tanta chuva eu pude ver o sorriso

perverso em seus lábios. Sim, ela seria capaz.

— Não se aproxime. — Ela inclinou o corpo em direção ao rio e respirar ficou mais complicado.

— Não seja burra — eu comecei a falar para que Regina conseguisse agir. — A polícia está vindo, você

está encrencada, o que vai fazer? Vai tirar a vida do menino? Que culpa ele tem dos nossos erros. Ele é

só uma criança e está assustado demais.

— Ele não está assustado. — Ela o abraçou ainda mais. — Vocês é que estão assustando ele. Vão

embora.

— Não sem ele, Marian. — Ela olhou para Regina com um olhar assassino. Era como se dissesse que não

importava o quanto sofreríamos.

Ouvimos a sirene e conseguimos enxergar os faróis ao longe. Não daria tempo. Olhei para Marian e vi a

determinação em seu olhar.

— Não se aproxime. Eu estou avisando… E foi quando vi a minha oportunidade. Quando Regina tentou

chegar mais perto Marian puxou Lipe para o meu lado. Sem pensar duas vezes segurei a criança com toda

força possível e puxei. No mesmo instante Regina se jogou contra ela impedindo-a de reagir ao meu ataque.

Impossibilitada de segurar o menino, ela desequilibrou e eu finalmente consegui segurá-lo, afastando-o

dela.

Com a força acabamos caindo no chão. Agarrei-me a Lipe para impedir que ele fosse retirado dos meus

braços e levantei como pude para acompanhar a situação deles. Mas o que vi me deixou em choque. Elas


não estavam em lugar algum. Por um segundo pensei que meu mundo estava parado. Nada fazia sentido.

Onde eles estavam?

No segundo seguinte eu me dei conta. Regina e Marian caíram nas águas revoltas do rio. Eu não conseguia

chorar. Minha reação foi segurar Lipe com mais força e gritar. Gritar o mais alto possível.

— Regina ! — continuei gritando, esperando que ela respondesse.

Eu não queria acreditar no que estava acontecendo. Não podia acreditar. Ela conseguiria sair do rio.

Regina conseguiu uma vez. Abraçada a Lipe eu me prendia a esperança

que seguia o fluxo das águas, afastando-se de mim cada vez mais.

— Regina ! — gritei inúmeras vezes até minha voz ser abafada pela sirene, o barulho do motor e a chuva

que, de maneira implacável, ficara mais forte.

— Emma ! — Era Adriano. Ele me segurou pelos ombros. Eu não conseguia deixar de olhar o rio e

nem de segurar Lipe. — Onde Regina está?

Se eu estava em choque não sabia, as palavras não saiam da minha boca simplesmente porque se eu as

falasse tudo se tornaria real e eu não queria acreditar.

— Vão pela margem. Olhem para todas as pedras, troncos caídos e fiquem atentos ao outro lado. Elas
podem estar agarrados a alguma coisa. — Ouvi Adriano dando as ordens e alguém me puxou fazendo-me

andar.

— Vamos, moça. A criança precisa sair da chuva. — Era um homem. Eu não olhei para ele. Agarrada a

Lipe eu me mantinha firme com o olhar no rio.

Lipe chorava baixinho, a cabeça apoiada em meu ombro. Eu precisava cuidar dele, certificar-me de que

não estava machucado. Ter certeza de que aquela chuva não havia causado muitos danos e principalmente

acalmá-lo. Ao mesmo tempo eu precisava ficar ali, esperando que Regina aparecesse, que alguém gritasse

que eles estavam bem e do outro lado, ou presas a alguma pedra, qualquer coisa.

— Moça, o menino precisa de cuidados — o homem falou tentando me fazer entrar no carro.

— Emma , vá com ele. Lipe precisa de cuidados. Eu vou ficar aqui. — Adriano se voltou para mim, os

olhos preocupados, cheios de medo.

— Regina … — Eu tentei, mas não consegui.

— Ela está bem, eu tenho certeza. Regina já conseguiu uma vez, vamos ter fé.

Era o pesadelo se repetindo.

— Enan— Lipe falou baixinho. Pela primeira vez consegui desviar minha atenção do rio e encarei o menino em meu colo, com a pequena mão em meu rosto. Ele estava gelado, os lábios roxos e os olhos

vermelhos.

— Vai ficar tudo bem, Lipe. Eu vou cuidar de você.

— de mamãe...


Lipe chorava e eu me deixei ser levada.




REGINA



Inacreditavelmente eu caí na água com Marian.

Primeiro eu pensei que, como estávamos na margem, conseguiria levantar facilmente, mas percebi meu

engano ao tentar levantar e ser arrastada muito rápido. Eu não conseguia me segurar, rolei e em alguns

momentos acreditei que não conseguiria colocar o rosto para fora da água.

Marian foi levada com muita facilidade, desaparecendo rapidamente do meu campo de visão. Tentei me

segurar nas pequenas pedras que ficavam no raso, no entanto a verdade era que não existia mais o raso e

sim a correnteza que me levava sem piedade.

Nadar contra era impossível, eu só me cansaria. Me deixar levar até onde o rio desejasse também era

arriscado demais. Então me concentrei em manter minha cabeça fora da água o máximo que pude, só que

até isso era arriscado, já que as águas arrastavam o que encontravam pela frente.

Depois de um tempo que me pareceu uma eternidade, quando eu sentia meu corpo cansar e aumentar o

desespero para me manter viva, choquei-me com uma estrutura flutuante, que parecia ser o lastro de uma

cama, já reduzido a pedaços. Segurei-me nele me esforçando para ficar em cima e não precisar mais

gastar energia para manter a cabeça fora d’água.

Com o corpo parcialmente flutuando consegui ter uma visão melhor do local e o caos estava

estabelecido. A chuva não cedia, o rio parecia possuído pelo demônio, ganhando força e proporção de

uma maneira absurda. Era inacreditável.

E mais inacreditável ainda foi ver, agarrada em um arbusto preso entre duas pedras, Marian, tentando se

salvar. Eu sabia que aqueles galhos finos não suportariam e ela logo seria tragada outra vez.

Eu deveria deixar Marian se virar e me preocupar com a minha própria vida. Graças a ela estávamos

naquela situação. E poderia ser muito pior. Lipe poderia ter caído também. Virei o rosto para ignorá-la,

no entanto eu sabia que nunca seria capaz. Por pior que Marian fosse eu nunca conseguiria carregar aquela

morte em minhas costas. Mesmo que a tentativa de salvá-la pudesse custar minha própria vida.

Com cuidado me equilibrei na ponta do lastro. O medo do material não me aguentar e afundar não foi o

suficiente para me impedir de continuar. Eu estava perto e passaria por ela rapidamente, então ela só

teria uma chance.

— Marian— gritei sentindo minha garganta arranhar. — Marian! — Ela me olhou com pânico, mas logo

entendeu minha intenção. — Quando eu passar deixe a água te levar. — Faltava pouco. Ela parecia não

entender. E estava cada vez mais perto. — Solte o galho!

— Não! — Ela se segurou com mais força.


— Solte e venha que eu te seguro — gritei quando já estávamos equiparados. Ou ela soltava ou não daria

mais tempo. — Você vai morrer! — Ela estava apavorada. — Eu vou te segurar, juro! É agora ou nunca.

Sem esperar por mais nada Marian se soltou e a água a empurrou com toda força em minha direção. Ela se

chocou contra mim e afundou. Segurando na madeira agarrei o corpo dela com as pernas e tentei levantá-

la, mas ela estava embaixo do lastro. Afogaria em pouco tempo.

Desesperada segurei com apenas uma mão e me abaixei para tentar puxá-la, descobrindo que a nossa

única chance seria afundar e tentar sair na frente do lastro, para nos segurarmos outra vez. Era isso ou eu

assistiria Marian morrer sem poder fazer nada para impedir.

Sem querer pensar no que faria, afundei empurrando meu corpo para frente. A água me levou com

facilidade. Em uma manobra cinematográfica, segurei Marian pela cintura e me projetei para frente da

madeira, levantando a tempo de segurar e nos apoiar.

Com a chuva forte eu não fazia nem ideia do que vinha pela frente, por isso, assim que consegui colocá-la

presa entre meu corpo e o lastro, apoiando-me para equilibrar nós duas, não prestei atenção na pedra

grande as minhas costas e senti todo o ar ser arrancado de mim quando chocamos contra ela.

Era o meu fim.



EMMA



Lipe teve febre. Nada assustador. Tudo o que ele apresentava, como os tremores fortes e

espirros, eram consequência da forte chuva que havia tomado. O medo era que evoluísse enquanto ainda

aguardávamos por notícias.

Eu tentava me concentrar, pajeando a criança adormecida ao meu lado, no chão da sala, em frente à

lareira. A cada minuto eu conferia se os cobertores estavam no lugar certo, ou se a temperatura

continuava controlada, além de averiguar a respiração dele.

Contudo a minha mente estava lá fora, na chuva fina que cedia aos poucos, no frio que só aumentava, e

nas vozes que não chegavam.

Cora estava comigo, sentada no sofá, uma xícara de café nas mãos, os olhos fixos no fogo que crepitava e

a mente, provavelmente, vagando pelo mesmo lugar que a minha.

Ninguém aparecia para nos dar notícias e, quanto mais demoravam, mais minha esperança perdia a força.

Se Adriano tivesse achado elas nós já saberíamos e se não sabíamos ainda era porque Regina e Marian ainda

estavam na água.

Ou não.

Elas poderiam estar do outro lado, na cabana, se protegendo do frio e da chuva, como aconteceu comigo.

Deus! Eu nem conseguia sentir ciúme de algo assim. Para mim bastava que Regina estivesse viva. Eu já

seria grata apenas por isso.



O tempo parecia não passar e a escuridão da noite deixava tudo ainda mais sinistro, mas o tempo passara

e, se eu olhasse mais atentamente para o céu através da janela de vidro que resistira ao vento daquela

madrugada, poderia ver as finas listras alaranjadas que riscavam o horizonte de maneira quase

imperceptível.

Perguntei-me como a minha mãe se sentiu quando foi a minha vez de desaparecer. Provavelmente ela

deve ter ficado como Cora naquele momento, encarando o fogo e orando em silêncio, implorando pela

vida da filha. Meu coração doía só de olhar para ela.

E Lipe? Ele estava tão assustado. Às vezes choramingava enquanto dormia e eu me inclinava sobre ele,

abraçando-o e sussurrando que estava tudo bem, até que ele se acalmasse e voltasse ao sono profundo.

Regina tinha que voltar. Ele precisava estar lá para me ensinar a ser mãe do Lipe como ela. Ela sabia que sozinha eu

nunca conseguiria, então ela tinha que voltar. Nós dois precisávamos dela.

Ouvi o barulho dos passos e levantei imediatamente. Cora só percebeu quando eu já estava de pé,

encarando a porta que se abria lentamente. Vi meu pai entrar e depois Graham, seguidos de dois homens

com rostos que não me pareciam estranhos, só não me recordava de onde os conhecia.

Eles estavam estranhos, com aparências cansadas e ensopados. Os quatro juntos pareciam seguir um

cortejo. Meu corpo enregelou no instante em que minha mente me enviou esta informação.

— Pai? O que faz aqui? — Ele me olhou com pesar e depois olhou para Graham como se buscasse apoio.

— Acharam elas.

Minhas pernas fraquejaram. Eu não estava pronta para ouvir o que ele iria me dizer.



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