História A Promessa (Drinny - DG) - Capítulo 7


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Categorias Harry Potter
Personagens Draco Malfoy, Gina Weasley
Tags Draco, Drinny, Gina, Ginny, Pos Hogwarts
Visualizações 28
Palavras 4.698
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 7 - Ella


Ginevra, agora.

A entrada da casa era uma típica de uma do subúrbio trouxa de Londres: havia uma mesinha lateral na qual embaixo eram colocados os sapatos, havia uma passadeira que apontava para o corredor, haviam fotos penduradas na parede ao longo da escada. Tirara os tênis que calçava ao entrar na casa, e só agora de meias já encardidas que percebia o pequeno chinelo ao lado do meu. Pisara em todo o tapete e só agora olhando melhor vira os pequenos blocos de madeira espalhados pelo chão. Não tive coragem de examinar as fotos que seguiam a do nosso casamento.

Uma filha, com ele. Uma filha da qual eu não lembrava.

"O nome dela é Ella." Malfoy disse, o toque leve em meu ombro me fazendo voltar a atenção para os olhos cinzas. "Ela tem quase três anos, e é muito apegada à você." Senti minhas mãos gelarem: três anos, eu tinha uma filha há quase três anos. Eu, que até onde lembro, nunca quis filhos em minha vida. Harry não queria filhos. Eu não fazia ideia de como cuidar de uma criança - não fazia ideia de como cuidar de uma criança, mas aparentemente cuidava e muito bem, era o que me dizia a segunda foto pendurada na parede.

Receber a notícia de uma doença não parecia mais tão ruim.

"Então eu preciso saber se você consegue fazer isso, Ginny." Qualquer lugar estava sendo melhor de olhar do que para o rosto do bruxo - meu marido. Meu marido. Respirei fundo, não, eu não conseguiria fazer isso, eu com certeza não conseguiria ser a esposa justo desse maldito e criar uma filha junto a ele! Junto a quem passou toda sua juventude chamando a todos de minha família dos piores nomes possíveis - claro que eu não falava com mais ninguém de minha família, eu me casei com um Malfoy! "Porque se você me disse que não vai conseguir, eu vou ter que fazer sozinho. Nossa filha precisa ser mais importante do que isso, Ginevra."

Como esse bruxo parecia ser um homem tão diferente agora?

Achei outra vez o segundo porta-retrato pendurado na parede. Não havia dúvidas quanto a garotinha ser nossa: em seus primeiros meses já mostrava tanto as sardas quanto os olhos claros, e o sorriso que os três davam na foto imóvel apenas reforçava a família harmônica que eu aparentava ter formado. Era mais difícil continuar odiando o bruxo ao ver provas do tipo de família que construímos: uma irritantemente feliz, uma de comerciais de margarina como dizia meu pai. Uma que havia sido completamente apagada de minha memória.

Os três me olhavam com certa esperança, será que eram inocentes o bastante para estarem esperando algum resultado diferente do de minutos atrás? Nem eu mais esperava conseguir qualquer traço de recordação - qualquer traço de esperança de acabarem com aquela pegadinha, de ser tirada dali, de acordar. Por mais que me esforçasse, não havia vestígio algum nem dela, nem de Malfoy, ou até da gata que olhava repousar nos últimos degraus da escada. Nada, em lembrança alguma. Merda.

O som da campainha me disse que precisaria decidir por uma resposta sem mais tempo para pensar. Merda, merda, merda.

"Gi-"

"Eu consigo." E com certeza era melhor parar de pensar, mais alguns minutos ponderando sobre tudo aquilo e a resposta teria sido diferente. Eu conseguiria fazer aquilo, já passara por coisas muito piores na vida, não? Um diário amaldiçoado, uma paixão não correspondida por anos, um relacionamento talvez-não-tão-feliz, uma guerra. O que era, depois de tudo isso, acordar casada com Draco Malfoy e ter uma filha? Eu consigo.

Tanto meu irmão quanto seu marido deram um passo a frente, Draco - precisava me referir a ele por seu primeiro nome, precisava ao menos tentar mudar minha visão desse bruxo - colocando um sorriso no rosto e abrindo a porta. E só quando a vi por entre os três que soube: eu não estava preparada para aquilo. Eu não iria conseguir. Eu queria sair correndo dali.

"Ei, casal!" a voz de Luna ainda era a mesma animada da qual me lembrava, e a pequena ruiva em seus braços compartilhava da animação, batendo as mãos e dando um pequeno grito estridente que fez meus ouvidos doerem. E meu coração apertou com o último pensamento: já estava incomodada e nem ao menos a segurara. "Tem uma pessoinha sentindo muita falta dos pais, não tem?"

"Papai!"

Mesmo com Percy e Blaise na minha frente, era possível ver Ella se jogar nos braços do pai, e foi no segundo em que a vi colocar os bracinhos ao redor do pescoço pálido que senti que sim, poderia haver uma esperança. Não de lembrar de algo, mas de ter uma mínima vontade de me adequar a minha nova vida, pois o sorriso sincero tanto de Draco quanto de nossa filha deu o mínimo necessário de calor em meu coração para eu não caçar minha varinha e aparatar para bem longe dali: era gostoso vê-los juntos.

"Oi, meu amor. Você se comportou, não se comportou?" ele perguntou encostando a testa na dela, as mãos grandes tirando dos olhos azuis mexas compridas de fios tão vermelhos quanto os meus - tão ondulados quanto os meus. Ella era a criança mais linda que já vira na vida, e rezava para aquele ser meu coração de mãe falando. "Se divertiu com a tia Luna?"

"Me diveti!" a pequena respondeu, os olhinhos por um momento parecendo procurar mais alguém naquele espaço mas logo voltando para os quase idênticos do pai. "Saudade!"

"Papai também morreu de saudade de você, raposinha."

Talvez minha expressão mostrasse muito bem o que eu sentia - eu era transparente até demais, Harry sempre falava -, pois Luna foi para meu lado no segundo em que colou os olhos em mim. Luna Lovegood era sim um rosto conhecido, mas não era exatamente uma amiga próxima como Hermione fora nos últimos anos. Onde estava Hermione, meu Merlin? Ela também havia desistido de mim quando me juntei ao bruxo que enchia a boca para chama-la de sangue-ruim?

"Virgínia," E outra vez o maldito nome, a loira cobrindo a visão que antes tinha de minha suposta família. "Vá pra cozinha se não estiver pronta para isso." a bruxa falou muito mais séria do que Percy antes falara - ela estava brava comigo por cair e perder a memória? "É sério." Pois era muito o que parecia.

Franzi o cenho, tentando fazer alguma palavra sair mas não havia uma resposta para aquilo. O que falar? O que fazer?

Com aquela idade uma criança já falava consideravelmente, já tinha suas inúmeras manias, já era muito, mas muito mais difícil de começar a cuidar do que um bebê - que apesar de ser muito mais dependente, não era tão observador a ponto de estranhar alguns comportamentos. Ali parada atrás dos dois bruxos, eu nem mesmo sabia que a chamávamos de raposinha antes de Draco abrir a boca. Eu nem sabia se a chamávamos mesmo de raposinha.

"Mama!" Foi no meu devaneio que os olhinhos dela me acharam, Ella se contorcendo nos braços do pai me fazendo ver que não, não havia mais muita escapatória sem talvez fazê-la chorar. Ela choraria se eu chorasse? Porque eu estava muito próxima disso. "Mama, mama!" E todos saíram de minha frente, Draco aproximando-se com Ella no colo de forma hesitante. Pare de ser idiota, Ginevra: medo de uma criança de dois anos beirava o ridículo. O quão difícil poderia ser interagir com um ser tão pequeno?

Muito, mas muito difícil, já soube após minhas primeiras palavras: definitivamente, não era só falar qualquer coisa.

"Oi pequena!" Para mim tudo dera errado, começando pelo timbre de minha voz: tão não maternal. Tão trêmula, tão sufocada, tão com medo. Será que a pequena notou? Será que era aquele soar errado o motivo do bico que se formava, o motivo do olhar sério - como uma criança de três anos conseguia ter aquele tipo de expressão? Ela era sem dúvida filha de Malfoy.

"Gande, mama." Ella falou, revelando a causa do aborrecimento. "Eu sou gande." E outra vez, nada saía.

"E o seu padrinho, não ganha um beijo não, ruivinha?" Foi a primeira vez que me senti agradecida pela presença de Zabini. O moreno tinha muito mais jeito com crianças do que eu, percebi ao vê-lo pegar Ella nos braços e começar a beijar o rostinho de forma exagerada. "Ai que delícia! A gente pode roubar você?" A risada não serviu para amolecer meu coração como aconteceu ao ver a cena minutos antes, e o calor que antes havia no peito deu lugar ao mais puro desespero. "Pode, pode?"

Eu tão não tinha jeito algum com aquela menininha.

"Nao!" Tão não tinha, e ela tão precisava de sua mãe não travada de volta, a atenção dela novamente se voltando para mim enquanto gargalhava e esticava os braços em minha direção. "Mama!"

E eu ali, paralisada - e Zabini, graças a Merlin, se afastando com a criança cada vez mais. Alguma coisa zumbia em meu ouvido, e as vozes pareciam tão distantes, por mais que as pessoas falassem do meu lado. Eu não conseguia focar.

"Ginny?" Talvez devesse ter dito que não, eu não estava preparada para mais aquele choque. Porque tinha certeza que era aquele que havia acabado comigo por completo.

"Eu preciso de um minuto, ok?"

Me afastei da mão que tocava meu ombro e comecei a recuar da entrada o mais silenciosamente possível, mal vendo meu irmão e Draco novamente fazerem uma barreira entre minha filha e eu. Só vi que entrara no lavabo quando a porta já estava trancada e eu encostada nela, as lágrimas enfim saindo enquanto minha mão tentava controlar um soluço alto demais.

E foi ali contra a madeira, sentada no piso frio de azulejo que eu, após quase um dia inteiro, desabei.

...

Ginevra, antes.

"Eu não penso em ter filhos, Gin." A confissão veio após quase três anos de relacionamento. "Eu não sou a melhor das pessoas para cuidar de um, e é algo que não tenho vontade alguma."

Crianças era uma coisa que a família Weasley sabia muito bem como fazer: na enorme família, era apenas um o bruxo que escolhera não passar para frente a linhagem mágica ruiva. Dos meus irmãos, Ronald ainda não tivera, mas eu via bem os olhares que ele trocava com Hermione cada vez que ficavam com Teddy. Percy com certeza acabaria com uma penca de filhos agora que seu relacionamento com Audrey estava a um passo do altar pelo que diziam. E George, eu tinha certeza, voltaria com uma novidade da lua de mel.

Suspirei, ajeitando-me no travesseiro, meus olhos encontrando um par de verdes quase temerosos. Eu seria tia de muitos - já era de dois. Eram muitas crianças na família para sentir falta de ter uma, e não era como se a profissão que estava escolhendo me desse muita chance de engravidar. Era uma escolha que faria: poderia viver sendo apenas tia, não poderia?

"Estou falando isso porque do jeito que as coisas andam entre nós dois-"

"Eu também não quero filhos, Harry."

...

Ginevra, agora.

Me lembrava da noite como se fosse a passada. Foi com dezenove anos que comecei a falar aquilo: não teria crianças. E não era que eu as odiava, ou que não tinha a menor habilidade em cuidar de uma, pelo contrário: era tão boa com bebês quanto suas mães. Só não queria os meus, só não gostaria de viver uma vida cuidando em tempo integral de um novo ser que seria tão, mas tão dependente por tantos, tantos anos. Não era egoísmo: egoísmo era ter apenas para ter, mesmo não querendo.

Não era a opinião de minha mãe, que tantas vezes brigara comigo quando eu respondia que estava feliz sendo tia nos almoços de domingo. Era quase irônico ela agora não conviver com Ella, talvez nem mesmo a vira alguma vez. Lembrando das tantas discussões - lembrando de nossas últimas discussões - fazia quase sentido a posição de cortar contato, por mais radical que fosse. Nossas brigas estavam longe de serem suaves, afinal.

Limpei uma última lágrima, a garganta já doendo de tão seca me dando a força necessária para levantar e destrancar a porta. Estava quase tão escuro fora do lavabo quanto dentro dele, a ausência de luzes acesas me avisando que todos que não moravam ali provavelmente haviam partido. Tomava o segundo copo de água quando o vi entrar pela porta, algo que parecia um celular só que muito, muito menor do que me lembrava sendo colocado sobre a bancada.

"Eu a coloquei para dormir e pedi a janta." Os olhos cinzas mostravam uma tonalidade de vermelho que ao mesmo tempo me faziam ter aflição e dó: os meus estavam naquele mesmo estado? Quanto tempo fiquei dentro daquele lavabo. "Já são quase dez horas Ginny." Draco respondeu como se lesse minha mente. "Você não comeu o dia inteiro, não dá para viver de melão e bolacha salgada." E sentou-se na mesma cadeira que ocupara antes, eu seguindo para uma ao seu lado.

"Não tem nem como negar que ela é minha filha." falei, lembrando-me de como Ella era igual as fotos que tinha de quando criança: era eu, tirando a cor dos olhos e a expressão séria. Nossos olhos inchados se encontraram, ambos vermelhos, ambos cansados. "Me conte quando eu mudei de ideia, Draco." pedi, o nome dito com mais facilidade do que fora há horas atrás. "Quando eu comecei a querer um filho?"

...

Draco, antes.

Nunca havia parado para pensar se gostaria ou não de ter um filho até uma de nossas manhãs. Era uma terça, e diferente de todos os dias Virgínia acordara antes do despertados das sete, seu espaço na cama vazio, a bruxa parada na frente da porta do banheiro com uma pequena caixa nas mãos.

"Eu estou enjoada."

Nenhum dos dois pensara, dava para ver na expressão da bruxa ao olhar para o exame ainda fechado nas mãos. Era quase ridículo: uma ano de casados, muitas vezes não usando sequer algum tipo de proteção, e ainda não havíamos tocado na palavra filhos. Para mim, isso muito mostrava o tipo de pai que eu seria - mas Virgínia seria, sem dúvida, a melhor de todas as mães. E uma ótima mãe compensaria um péssimo pai, não compensaria?

Lembro claramente do quanto ficamos desapontados com a listra positiva que nunca veio, por mais que ambos tenham fingido um certo alívio - eu sabia que era fingimento, de ambas partes. Lembro também que não tocamos mais no assunto, mas nunca mais usamos nenhum tipo de proteção. Passou um ano, e numa bela noite de sexta, cheguei em casa e achei minha esposa pintando um dos quartos de visita de amarelo.

"Estou redecorando." Claro.

E nenhum dos dois falou mais nada.

Mais um ano, e sobre a cama de casal que ali havia apareceram raposas de pelúcia.

"Estavam na promoção, não são lindas?" E eu apenas sorri, a puxando para um abraço e beijando sua testa.

Eu estava com trinta e ela com seus quase vinte e nove quando o berço enfim surgiu. Nos meus quase trinta e um tínhamos o quarto de bebê perfeito, com todos os itens necessários e desnecessários possíveis, com raposas e florestas pintadas na parede, com a poltrona mais confortável e as almofadas mais acolhedoras, faltava apenas o principal. E o principal parecia não chegar nunca, por mais enjoada que Virgínia se encontrasse em alguns meses. Por mais que sua família fosse a mais fértil do mundo mágico, senão de todo o maldito planeta.

Com os recém-feitos trinta dela, fomos a um médico especialista em fertilidade. Mais alguns meses, e fizemos um tratamento que não deu certo. E ambos desistimos. Adotar era a melhor coisa a ser feita, chegamos a conclusão ao lembrarmos que a criança que viria com certeza nos obrigaria a voltar para o mundo mágico: a carta de Hogwarts com certeza chegaria por uma coruja. E eu sem dúvida alguma colocaria nosso filho em qualquer escola, menos naquela.

Foi no primeiro dia do mês de abril do ano em que minha esposa faria trinta e um que decidimos sair para conversar sobre o processo, eu a levaria para um maravilhoso café da manhã e discutiria os procedimentos para enfim termos a nossa raposinha. Abri os olhos, meus braços procurando seu corpo na cama apenas para acha-la em frente à porta do banheiro com uma pequena caixa de papelão na mão, como esteve faz tantos anos atrás.

"Eu estou enjoada." escutei enquanto levantava, ainda sonolento.

"Quer um chá de gengibre?" Dei a opção, já colocando os chinelos e me preparando para ir para a cozinha, o relógio sobre o criado mudo me mostrando que era muito antes das nove horas da manhã.

"Draco," Virgínia deu um passo em minha direção, a mão me entregando a caixa. "Eu estou enjoada."

Demorou ainda um segundo para eu finalmente entender.

"É sério?" não teve como não perguntar, meus olhos dobrando de tamanho ao ver o teste feito em suas mãos mostrar duas tirinhas. "É sério, Virgínia? Você tá falando sério?" Duas tirinhas, e a puxei para mim, meus lábios sorrindo tanto quanto os dela. "Eu amo você. Eu amo vocês."

Nunca soube o quanto queria ser o pai de um filho dela até aquele maldito instante.

...

Foi num dia de inverno, 30 de dezembro, que nosso bebê resolveu vir para esse mundo. Até agora não acreditava em nossa sorte - até agora não acreditava que passamos nove longos meses sem saber o sexo de nossa filha. Ali sentado na cama onde minha mulher e filha deitavam, até agora não acreditava em muitas coisas, para ser totalmente sincero.

"Ela é tão pequena." disse pela talvez quinta vez ao olhar para o embrulho que repousava nos braços da ruiva.

"Graças à Deus, se fosse maior teria deixado ela lá dentro." Virgínia riu. "Ela vai ter os seus olhos."

"Ela já tem o seu sorriso - e o seu cabelo." falei passando a mão pelos muitos fios ruivos que já haviam na pequena cabeça. Nossa filha se espreguiçou, ameaçando acordar mas parando na melhor posição até agora feita. "Olha bem para esses bracinhos." toquei quase receoso em uma das mãozinhas penduradas, mas daquela vez ela não se mexeu.

"Parece uma raposinha." Parecia mesmo, como se tivesse escutado o apelido durante todos aqueles meses.

"Ela é perfeita." Todos os pais ficavam assim bobos com os filhos? "Ela é nossa." Será que Lúcio ficara assim no começo? "Ainda não consigo acreditar."

"Você vai ser um ótimo pai, Draco." a ruiva afirmou como se lesse meus pensamentos.

"Você acha?"

"Eu tenho certeza." E a mãozinha abriu e fechou em um de meus dedos. "Ela também tem." E estivesse observando os olhos castanhos, teria visto a leve expressão incomodada. "Não podemos chama-la de ela o tempo inteiro."

E meus pensamentos voltaram para os quase nove longos meses que passáramos sem saber se viria um menino ou uma menina. Sabíamos que viria apenas um, pelo menos - por ambos, poderiam vir pelo menos dois, depois de tantos anos tentando. Eu me considerava sim uma pessoa curiosa, muitas vezes até demais, característica que me rendera um bom punhado de problemas quando mais novo. Também não podia negar que apesar de tudo, havia um certo orgulho, e uma boa dose de teimosia em minha personalidade. Virgínia era pior - muito pior.

Tão pior que, após uma brincadeira sobre sua curiosidade, que não fora encarada muito bem por todos seus hormônios durante o primeiro trimestre da gravidez, foi decretado que o sexo seria surpresa. Virgínia sofreu muito, muito mais do que eu por não saber o que teríamos: nem mesmo suportava discutir nomes, e em alguns momentos temia que ela estivesse os escolhendo em segredo em sua mente. O mais certo era não comentar nem os que gostava, quanto mais os que detestava.

Aquele fora o primeiro dito em voz alta.

"Na verdade, podemos." E por um instante, ela me olhou confusa. "O que acha de Ella?"

A vi olhar para o pacotinho embrulhado no cobertor amarelo, uma das mãos tocando os fios vermelhos.

"Ella?" E houve um pequeno resmungo, como se a pequena concordasse com o nome.

Meses depois achamos um dos livros que Luna nos dera ao descobrir sobre a gravidez: os melhores nomes de bebês. Era na página 78 que estava Ella, e li em voz alta o significado enquanto a embalava no meio de uma das noites mais agitadas.

"Tudo. O que veio para completar."

Não poderia ter nome melhor.

...

Ella estava há dias de seu primeiro aniversário. Ella já falava uma palavra ou outra e era fissurada em imitar as poses de sua mãe pintando antes mesmo de dar seus primeiro passos. Ella estava, claramente, chorando no andar de cima.

Subi as escadas assim que abandonei as botas de neve no tapete da entrada, agradecendo pela temperatura agradável da casa, ainda mais quente do que nos anos sem nossa pequena. Pulei o pequeno cercadinho colocado no primeiro andar desde que Ella começara a engatinhar e fui direto para o cômodo onde sabia que encontraria as duas que ansiei ver o dia inteiro.

"Ela não está fácil hoje." foram com essas palavras que a vermelha me recebeu, o choro de nossa filha parando pela tosse por alguns segundos, voltando ainda mais inconformado. "Cada vez que a coloco no berço, acorda. Acho que não está conseguindo dormir deitada."

Por um momento olhei para o caos ao meu redor: sem dúvida havia sido um dia difícil. A fralda usada ainda estava sobre o trocador, haviam chupetas e mais chupetas espalhadas pelo chão, duas mamadeiras pela metade, um prato com restos de pão e o que parecia ser a fantasia de raposinha pela qual nossa filha era fissurada completamente suja de algo que um dia fora leite. Estava com Ella em meus braços no segundo seguinte, tentando ignorar o choro estridente no meu ouvido enquanto a embalava.

"Vai dormir, Vermelha." Saiu muito mais como um pedido do que uma ordem - não que Virgínia obedecesse muito qualquer coisa que eu falava quando não queria.

"Não é justo, você teve um dia insuportável na editora." ela se opunha, agora ambos tentando acalmar a pequena ruiva que só parecia gritar cada vez mais. "Ella está doente." a bruxa contou quando olhei estranho para o termômetro que segurava. "O médico disse que é apenas um resfriado, mas sua filha é a rainha do drama." ela continuou, e eu podia praticamente ouvir as palavras que não foram ditas: de quem será que ela puxou todo esse drama? Tão esperava que Ella ficasse ao menos um pouco de meu lado quando começasse a falar. "Nunca achei que fosse detestar tanto o inverno." A pequena só reclamou mais quando a mãe limpou o nariz que escorria com todo o choro.

"Ela está tomando algum remédio?" Virgínia acabou desistindo de deixar o rosto da filha seco.

"O pediatra deu gotas para aliviar o nariz, mas Ella só pode tomar amanhã pela manhã outra vez." ela me disse, apontando para onde estava a medicação. "São duas gotas por quilo, mas só pode tomar novamente depois das quatro da manhã. Pensei em fazer uma inalação, só que Ella não para de chorar. Jamais que ficaria quietinha para respirar vapor de-"

E Virgínia, como sempre fazia quando estava nervosa, começou a falar - e muito. Sobre como nossa filha não ficaria quieta, sobre como só estava conseguindo dormir em seus braços, o quão difícil havia sido o dia, o quanto tinha fome, precisava de um banho, queria dormir um pouco. Quando eu dizia que tinha uma esposa bonita pra caralho, eu não estava exagerando como um marido idiota e apaixonado: aquela ruiva era realmente maravilhosa, até nos dias mais caóticos. Podia ver todo o maldito vermelho deslumbrante que me prendia tanto a ela mesmo ao observar o rosto tão cansado.

Virgínia era uma das mulheres mais bonitas de Londres sem dúvida, e naquele momento, não duvidava também que fosse uma das mais exaustas.

"Gi," a cortei, a conhecendo o suficiente para saber que não pararia de falar tão cedo. "Se você não for dormir eu não vou ter só uma, mas duas meninas pra cuidar. E por mais que eu tenha prometido cuidar de você para o resto de minha espero muito longa vida, eu quero cuidar de você doente o menor número de vezes possível." E eu sabia que por mais que a expressão me dissesse o contrário, os olhos castanhos me agradeciam. "Vá deitar, é sério."

Foi com um roçar de lábios e mais nenhuma palavra que nos despedimos, a mãe beijando a cabeça da pequena que ainda soluçava antes de sair pela porta. Chequei se meu celular ainda estava no bolso traseiro, respirando aliviado ao sentir que sim, não o havia abandonado junto a carteira na mesinha do hall de entrada. A Vermelha odiava quando Ella pegava o celular, mas não havia muita alternativa para distraí-la hoje, havia?

"Ok raposinha, agora somos só eu e você." falei, indo sentar na cadeira e já procurando um dos vídeos favoritos da porquinha rosa. A ruivinha ainda chorava quando a sentei em meu colo, mas o volume diminuiu quando seus olhos azuis acharam a tela segurada pelas minhas mãos. "Foi um dia difícil, não foi?" perguntei, e depois de mais dois soluços e uma puxada de ar sofrida, conseguia ouvir a voz da Pepa Pig.

"Da." foi a resposta que veio.

"Eu imaginava que tivesse sido."

...

Ginevra, agora.

"Nós somos a família perfeita." saiu da minha boca assim que engoli o pedaço de frango. Chinês, eu adorava aquele tipo de comida, por mais que deixasse a casa cheirando o resto da noite - claro que ele sabia. Claro que eu mal conseguia sentir o gosto da comida.

"Nós temos problemas como todos os outros casais tem." Draco disse, comendo com uma vontade igual a minha. "Mas sempre nos esforçamos para resolve-los. Você sempre se esforçou, eu sempre me esforcei." ele continuava, com o mesmo desjeito de antes com as palavras. "E eu prometo que se você estiver disposta, nós vamos resolver esse também." Não era preciso palavra alguma: aqueles olhos cinzas me mostravam o quão desesperadamente o bruxo me pedia uma chance. O quanto tudo aquilo era real.

A verdade nos olhos que um dia eu tanto amei foi o que me fez quebrar ainda mais uma vez, as lágrimas dele caindo como as minhas.

"Isso é tão desesperador!" falei o mais baixo que pude, por mais que minha vontade fosse gritar. Era algum instinto materno me lembrar da criança que dormia no andar de cima? Minha criança, nossa criança! Puta que pariu, que Merlin me dê alguma força para conseguir digerir tudo aquilo!

"Calma, Gi." E a força veio na forma de braços quentes que me embalavam enquanto soluçava, e por um momento independente da pessoa que estava ao meu lado o abraço bastou. "Calma, vai ficar tudo bem." A voz era tão sufocada quanto a minha, e sim, eu conseguia me identificar no desespero do bruxo.

Eu quis um filho com ele. Eu quis um filho. Nós planejamos por anos e mais anos.

Saí de forma brusca da cadeira minutos depois, indo até a pia para tentar me recompor, jogando ali mesmo na cozinha água no rosto. Respira, Ginevra. Respira.

"Talvez seja melhor dormirmos." escutei pouco depois, a cadeira em que Draco estava sendo arrastada. "Talvez depois de uma noite de sono tudo fique mais-" Não houve término.

Mais claro?

Fiz que sim com a cabeça e voltei para a entrada escura da casa, olhando escada acima. Ainda era muito tentador sim pegar uma mala, encher de roupas e ir embora. Mas partiria para onde? Eu nem ao menos sabia quais eram minhas senhas de banco - o que provavelmente tinha e precisava providenciar saber, para conseguir viver aquela vida trouxa. Vivendo como trouxa, casada com Draco Malfoy, mãe: correria para o banheiro se continuasse a pensar naquela vida.

"Fique com a cama." ele disse, parecendo saber do dilema que surgiria em minha cabeça no próximo segundo. "Eu prometi nunca te deixar dormir no sofá, Vermelha."

Subi sem pensar duas vezes.


Notas Finais


Oi gente, td bem? Mais um capítulo, eles estão vindo mais rápido do que imaginava! O que estão achando? Ficou alguma dúvida, estão curtindo ler?

Já respondi cada uma de vcs em privado, muito obrigada pelas reviews meninas!

Um beijo grande,

Ania.


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