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História A Reação Adversa do Caos - DEGUSTAÇÃO - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capítulo 2


Luna já assistira a filmes de ficção científica o suficiente para saber que essas coisas nunca terminam bem. O mais sensato a fazer seria dar meia-volta e avisar as autoridades o mais rápido possível, antes que algo que fosse capaz de destruir o planeta Terra saísse de dentro da coisa misteriosa vinda do céu.

Mas ela resolveu descer para olhar. 

O objeto de metal era quase do seu tamanho e poderia muito bem ser uma peça de arte contemporânea decorando a casa de algum milionário. Ele ainda faiscava quando Luna se aproximou, o que a fez voltar para o carro em busca de um guarda-chuva para tocar naquela cápsula. Assim que o fez, o objeto começou a se abrir.

Ingenuamente, Luna abriu o guarda-chuva, como se isso fosse protegê-la da criatura verde e gosmenta que provavelmente sairia de dentro daquilo para tentar comê-la viva. Torceu para que não colocassem a foto da sua identidade no jornal quando reportassem a notícia de sua morte. Odiava aquela foto.

No entanto, a suposição de Luna estava errada; havia apenas uma pedra dentro da cápsula. E não era uma pedra qualquer. Possuía formas geométricas estranhas e era do tamanho de uma mão adulta. Seus vários tons de rosa e azul apresentavam pequenos pontinhos brancos cintilantes semelhantes a estrelas em seu interior. Era simplesmente a coisa mais bonita que ela já vira em toda sua vida.

Luna não fazia a mínima ideia do que aquilo era, de onde vinha ou a quem pertencia, mas não podia deixá-la à deriva no meio da estrada.

 

***

 

Com o carro do seu tio parado em frente à livraria, Luna estava esperando a música terminar para desligá-lo quando ouviu batidas no vidro. Olhou para o lado e seu coração quase parou ao ver uma garota de cabelos brancos vestida de noiva com sangue escorrendo por sua pele negra.

— Onde você estava? Eu te liguei mais de quinze vezes e seu celular só deu desligado! Eu já estava começando a achar que você tinha morrido! — disse Amy.

— Ai, meu Deus, você quase me matou de susto! — gritou Luna, saindo do carro.

— O que aconteceu com nossos planos de nos arrumarmos juntas e eu fazer sua maquiagem de caveira mexicana? A festa já começou há horas!

— Desculpe, meu celular descarregou e meu tio me obrigou a ir de última hora no aeroporto, e… — Luna inspirou profundamente, depois tentou forçar um sorriso. — Obrigada por me esperar, mas eu não vou. Você está linda, não perca a festa. Tempestade pós-divórcio, certo? — Amy apenas a encarou seriamente. — Tempestade noiva-zumbi? — Luna tentou mais uma vez decifrar a fantasia da amiga.

— Luna… — Amy suspirou. — Você vai, sim. Nós combinamos essa festa há meses. Eu já te esperei até agora e coloquei até cílios postiços! Ah, você vai, sim.

— Eu estou tão cansada da viagem… — Luna forçou um bocejo.

— Beba um energético.

— E amanhã eu tenho que acordar cedo…

— Despertador. Café.

Luna contorceu os lábios.

— Eu não… estou com muita vontade de ir. Eu acho que é melhor eu não ir.

— Luna, você não pode ficar trancada em casa para sempre. Você tem que… tocar sua vida.

Luna abriu a boca, mas as palavras não vieram. A melhor coisa que conseguiu pensar para responder foi:

— E… eu não tenho fantasia. 

Amy ergueu a sobrancelha.

— Sério que essa é sua melhor desculpa? — Luna deu um sorriso sem graça. — Espere aqui, vou em casa correndo arranjar algo para você vestir. E nem ouse fingir que adormeceu quando eu voltar, ok?

Luna concordou com a cabeça e, quando Amy saiu, correu para seu quarto e tirou a pedra de dentro da bolsa. Ficou olhando para ela, hipnotizada. Era tão fascinante… Aqueles pontinhos cintilantes, aquelas cores vibrantes… Onde ela já vira algo assim? 

Luna sentiu uma estranha vontade de erguê-la para ver como ficaria sua tonalidade estando mais próxima da luz. E, sim, ela pareceu ainda mais mágica. A respiração de Luna ficou até presa no peito enquanto a contemplava.

— O que… diabos… você está fazendo? — Luna foi desperta do transe em que se encontrava pela voz de Amy vindo da porta de seu quarto.

— Onde está a fantasia? — Luna perguntou rapidamente, escondendo a pedra embaixo do travesseiro.

Amy estreitou os olhos, mas, para a sorte de Luna, ignorou o que ela estava fazendo antes e abriu a sacola que carregava.

— Aqui.

Luna abriu a boca.

— Essa… é a fantasia?

— Esta é a fantasia.

 

***

 

Quando Luna e Amy entraram na festa, os olhares dos convidados se voltaram para elas, como quando a garota excluída volta para a escola depois de passar por uma mudança radical proporcionada pela avó perdida que a transformou numa princesa. Só que, no caso de Luna, era porque, bom, ela era ela, e para completar estava usando um pijama do Pikachu que era basicamente um macacão amarelo com orelhas e rabo.

— Eu não devia ter vindo — Luna sussurrou para Amy enquanto adentrava o salão, ouvindo as pessoas cochichando entre si.

Uma garota apontou o celular na direção de Luna enquanto fingia tirar uma selfie, mas o flash saiu. Àquela altura, a única coisa que Luna conseguia fazer era revirar os olhos.

— Ninguém mais deve se lembrar do que aconteceu, relaxa — Amy disse, sorrindo e acenando para algumas pessoas. 

— Claro — Luna murmurou.

As duas se sentaram no balcão do bar e pegaram bebidas. Luna deu uma olhada por cima dos ombros e percebeu que, apesar de ser uma festa de reencontro do seu colégio, havia muitas pessoas de fora.

— É, talvez você tenha razão, talvez todos tenham… — Luna começou, mas foi interrompida:

— E aí, Amy?! Oi, Luna, ainda ouvindo vozes? Felipe está aqui — disse Carlos, um garoto que foi da sala delas na escola.

Luna apenas mostrou o dedo do meio, e ele seguiu seu caminho. Ela e Amy se entreolharam, depois imediatamente começaram a rir.

— Ok, eu retiro o que disse. Mas falando em Felipe… Você viu as fotos que ele postou com a namorada nova? Meu Deus, eles são tão melosos que eu tenho vontade de vomitar.

Felipe era o ex-namorado de Luna. E era um idiota. 

— Não. Eu o bloqueei. — Luna fez uma careta, depois deu um gole na bebida.

— Nossa, quanto rancor. Você deveria desbloquear só para rir. Sério, é ridículo. E não estou dizendo só porque sou sua amiga e tenho o dever de falar mal da atual do seu ex. Mas, nossa, é sério, você precisa ver. — Ela foi tirando o celular da bolsa, mas Luna a interrompeu:

— Não, eu não quero ver — disse com a voz firme. — Eu decidi não perder mais tempo com coisas que eu não gosto. — Luna decidiu cortar logo, antes que Amy começasse a tocar em assuntos mais desagradáveis ainda.

— Ah, é mesmo, você está certa. Um professor meu sempre diz isto, acho que foi Nietzsche que falou: “seu tempo e o que você faz com ele é a coisa mais importante que você tem”.

Amy estava cursando Direito e, por conta de uma matéria de Filosofia, vivia postando nas redes sociais frases de filósofos, algumas até em latim. 

— Credo, não! Foi Gandalf que falou isso. Quer dizer, tecnicamente foi Tolkien…

Luna odiava Nietzsche devido à sua afirmação sobre não existirem verdades absolutas, pois discordava completamente disso. Acreditava que todos precisam acreditar em alguma coisa, nem que seja naquelas correntes ridículas de internet que dizem: “se você enviar essa mensagem para dez pessoas, uma coisa boa acontecerá”.

Como forma de protesto para essa afirmação, Luna decidiu criar suas próprias verdades absolutas. Era um enorme acervo de frases feitas, as quais ela costumava repetir nas mais peculiares situações.

— Sério? Eu podia jurar que ouvi algo desse tipo na aula sobre os filósofos pré-socráticos. — Amy franziu a testa.

— Não, ele era da Terra Média.

Na verdade, a frase correta era: “tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado”. O que pode ser interpretado por: seu tempo e o que você faz com ele são as coisas mais importantes que você tem. E Luna tinha isso como sua maior verdade absoluta.

— Mas como está a universidade? — Luna decidiu mudar de assunto.

— Ah, está ótima! Cara, é tudo tão diferente da escola, você ia amar… Os garotos, as festas, o ambiente, os professores… até as aulas são legais. Sério, pelo menos uma vez ao dia eu penso: Luna iria amar isso aqui… — Amy falou com empolgação, até perceber o olhar cabisbaixo de Luna. — É uma droga que aquilo tenha acontecido e feito você perder o vestibular, você estava num ritmo de estudo tão bom, todos tinham certeza de que você ia ficar em um dos primeiros lugares… — disse, talvez com intuito de melhorar a situação. — Você pode tentar de novo este ano.

    — Na verdade, eu decidi não fazer.

    Amy piscou os olhos por alguns instantes.

    — Como assim? Por quê? E… o que você vai fazer?

    — Bom, continuar trabalhando na livraria. Quem sabe juntar algum dinheiro para viajar, não sei. — Luna deu de ombros.

    — Mas… você tem que fazer alguma coisa. Todo mundo precisa fazer alguma.

    — Não. Ninguém é obrigado a nada. E eu realmente não quero falar sobre isso agora. — Nem nunca, Luna pensou. Amy deu um gole na sua bebida, depois se calou. — Mas vamos falar de você. E os namoradinhos? — Luna mudou de assunto novamente.

    — Ah, você não vai acreditar! Sabe aquele cara que eu tinha falado que estava na minha aula de Sociologia? Então, ele… — Amy continuou a falar, e Luna até prestou atenção por um momento, mas começou a olhar para o enorme laço rosa que sua amiga usava na cabeça e se lembrou da pedra.

    De onde será que ela veio? Luna não sabia o motivo, mas tinha uma leve impressão de que já vira algo semelhante. Estava morrendo de vontade de ir para casa tentar descobrir qualquer coisa.

    — Amy, eu sei que você vai achar que eu estou inventando uma desculpa, mas amanhã eu realmente tenho que acordar cedo e não estou com uma relação muito boa com o meu tio ultimamente…

    — Ah, Luna, por favor, eu quase nunca venho aqui! Mande seu tio ir pastar! Você não precisa mais ficar aturando essas coisas dele, sério. Pode ter certeza de que ele será a primeira pessoa que irei processar quando eu me formar. Primeiro, por danos morais a você por sempre te buscar atrasada no colégio e te deixar lá plantada, esperando. Depois, por danos morais a mim por ele sempre mentir que você não estava em casa quando eu ligava e você ainda morava na casa dele. Enfim, vai ser o processo mais longo do mundo. Mas, agora, vamos tomar pelo menos mais um drinque.

    Luna ficou pensativa. Ok, a pedra não criaria pernas e sairia andando.

    — Só mais um.

***

 

Quatro horas depois, Luna voltou para casa correndo, tentando fugir da chuva, mas escorregou e caiu de bunda no meio da rua. Entrou cambaleando e derrubou alguns livros de uma estante enquanto tentava encontrar algum deles para pesquisar sobre a pedra. No dia seguinte, acordaria cedo e arrumaria tudo antes que seu tio visse a bagunça, mas, naquele momento, realmente precisava descobrir mais sobre aquela pedra.

    Pegou as coisas que estavam espalhadas sobre a cama, que mal cabia naquele minúsculo quarto, e as colocou em cima da escrivaninha, igualmente bagunçada. Era difícil manter a organização num lugar tão pequeno quanto aquele, mas viver naquele quartinho nos fundos da livraria ainda era melhor do que viver na mesma casa que seu tio. 

    Luna se sentou na cama e começou a folhear o livro que escolheu. Depois de um tempo, se deu conta de que o livro não era sobre pedras, mas sobre sapos.

    O mundo parecia girar um pouco mais rápido, mas mesmo assim ela se levantou e pegou o notebook. Digitou “pedra rosa com azul”, depois clicou em “pesquisar”. Deu uma olhada por cima, mas parecia que existia uma banda de rock dos anos 1980 com esse mesmo nome.

    Luna continuou a pesquisa, entrou na página da banda, depois entrou em outra sobre acontecimentos marcantes dos anos 1980, que a levou a outra sobre a migração das andorinhas do Ártico, após outra que informava para qual ex-namorado era cada música de uma cantora country americana.

Saiu entrando em tantas páginas que, quando se deu conta, estava cortando a própria franja, seguindo um tutorial de vídeo do Youtube. Ao perceber o que estava fazendo, já era tarde demais e sua franja estava na metade da testa. E estava horrível.

    Ela se levantou e foi até o guarda-roupa ver se encontrava sua antiga chapinha da época em que se importava com a aparência de seu cabelo, mas, ao abrir as portas, quase ficou soterrada por tantas coisas que caíram. Luna se abaixou para pegar algumas e, ao ver o que estava à sua frente, teve um estalo. A caixa.

    Luna pegou, limpou a poeira que havia sobre ela e aos poucos foi retirando as coisas de dentro daquela pequena caixa de madeira: fotos do seu pai e outras coisas da sua infância. Ele e sua mãe haviam morrido em um acidente de carro quando Luna tinha apenas dois anos. Não tinha nenhuma foto da sua mãe, pois sua falecida tia, que era irmã do seu pai, nunca a conhecera. Na verdade, até com seu pai sua tia tinha tido pouquíssimo contato depois de criança. Ele era jornalista, essa era a única informação que Luna tinha, o que no começo considerava extremamente frustrante, mas, àquela altura, já estava conformada.

    Foi então que Luna achou o colar. Ela costumava usá-lo todos os dias, mas passou a deixá-lo guardado porque certa vez, quando era criança, quase o perdera na escola. Aquela era uma das poucas lembranças que tinha dos seus pais; não se lembrava de ninguém ter lhe dado, simplesmente sempre tivera aquele colar. 

    Sabia que já vira aquela pedra em algum lugar. Era uma estrela com oito pontas, no meio havia uma pequena pedra, tão pequena que quase não dava para enxergar, mas que era feita do mesmo material da pedra que encontrara.

    Luna o colocou no pescoço e pegou seu antigo diário. Como havia abandonado o sonho de seguir os passos do pai, o diário não era usado desde que fora expulsa do colégio, em parte também porque não tinha nada de bom para relatar.

    Ela escreveu:

 

    Eu não sei como é o começo, mas o final ainda não foi escrito.

 

    Depois corrigiu:

 

Eu ainda não sei como é o começo, mas o final ainda não foi escrito.

 

Ficou olhando para o que escrevera, sentindo seu peito se aquecer.

    Então ouviu um barulho incomum vindo da porta da entrada, como se alguém estivesse tentando arrombar a fechadura. Quem poderia ser naquele horário? Seu tio tinha a chave, mas ele jamais iria lá de madrugada.

    Luna foi verificar e, sim, de fato alguém estava tentando entrar. Calculou que a pessoa já estaria dentro da livraria antes que ela pudesse voltar para pegar o celular e ligar para a polícia. Precisava pensar rápido.

    Pegou a coisa mais pesada que viu à sua frente, uma edição especial da trilogia O Senhor dos Anéis, e ficou atrás da porta, esperando o ladrão entrar. Assim que aquele vulto atravessou a porta, Luna golpeou sua cabeça com o livro, fazendo-o cair no chão imediatamente.

    Mas ele não parecia ser o homem do machado.

 



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