História A Regra da Exceção - Capítulo 6


Escrita por: ~

Postado
Categorias Noragami
Personagens Bishamonten, Daikoku, Iki Hiyori, Kofuku, Yato, Yukine
Tags Hiyori, Noragami, Yato, Yatori
Visualizações 37
Palavras 4.577
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Hentai, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Survival, Universo Alternativo
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


OLÁ GENTE.

MEU DEUS, FAZ MAIS DE UM ANO QUE EU NÃO ATUALIZO ESSA FANFIC. EU TÔ PEDINDO PERDÃO AJOELHADA.

Mas a verdade é que é um saco passar um texto de primeira para terceira pessoa. Sério, eu tenho muita preguiça de fazer isso, por isso nem terminei ainda. Porém, achei melhor postar logo esse capítulo que já está em terceira pessoa. Até a sinopse ainda está em primeira, vou altera-la logo.

Enfim. Para os que não lembram mais o que está acontecendo, Yato apareceu no capítulo passado. Aqui temos a continuação, mas me perdoem se estiver chato, ok? Após tanto tempo sem escrever essa fanfic eu estava meio perdida na estória. Vou tentar me achar, prometo.

Desculpem qualquer erro.

Boa leitura!!!

Capítulo 6 - Instabilidade


Viver naquele lugar era angustiante por vários motivos, mas Hiyori considerava como o principal deles o fato de tudo parecer estranhamente normal e comum, enquanto a situação era o completo oposto. Na verdade, somente a expectativa de que algo fosse acontecer já seria o suficiente para enlouquecer qualquer pessoa ali, mas, como se isso já não fosse ruim o bastante, um enorme painel eletrônico com um chamativo número dezoito foi instalado no salão não muito tempo depois que haviam chegado. Naquele lugar infernal o tempo parecia passar mais devagar, se arrastar como se propositalmente quisesse tortura-los, mas, a partir daquele momento, o receio do que poderia significar aquilo fazia os números diminuírem como se horas fossem minutos.

No início, o efeito negativo foi quase instantâneo em todos, e até mesmo surgiram diversas especulações, das mais prováveis às mais sem sentido, como a ideia de que só dezoito deles teriam a chance de sair dali vivos. Porém, no dia seguinte, ao lado do um, havia o número sete ocupando o lugar do oito. E depois, um seis. Quando no terceiro dia apareceu um cinco, ninguém teve mais dúvidas de que aquilo era uma contagem regressiva, mas então todos passaram a se perguntar o que aconteceria quando o cronômetro zerasse. Talvez aquilo fosse o tempo que ainda permaneceriam vivos. Talvez fosse o pouco que faltava para o fim do mundo.

Não era difícil encontrar alguém encarando o aparelho com uma ruga no meio da testa, enquanto parecia refletir profundamente se aquilo seria algo como um aviso do dia da própria morte. Hiyori classificaria a cena, como, no mínimo, bizarro. E isso só tornava tudo mais assustador. Os mais covardes, grupo do qual ela sentia que facilmente se incluiria, ou talvez, os mais otimistas, preferiam ignorar e somente esperar, já que, de qualquer forma, ninguém poderia fazer nada. Mas era incrivelmente difícil fazer isso quando não se tinha nada utilizável para distração, então ela passou a considerar a situação como um jogo de vida ou morte, em que a mente mais criativa venceria.

Por azar, ou apenas por ser uma figurante inútil perante o destino, Hiyori tinha ideias tão boas quanto uma pedra. Provavelmente teria morrido afogada no próprio tédio se, por algum motivo totalmente desconhecido, Kofuku não tivesse ido com a sua cara. A mulher, sim, se estivessem em um filme de terror, teria grandes chances de ser uma das últimas sobreviventes, da mesma forma que Veena, ou Daikoku. Talvez até mesmo Yukine se saísse bem já que era realmente inteligente. Mas Hiyori não tinha dúvida alguma de que Yato seria aquele que, naturalmente, é o único que sobrevive, mesmo que fosse apenas para "contar a história".

Ele tinha uma personalidade que cativava as pessoas, como se fosse um imã puxando-as para perto. Muitas vezes até mesmo aparentava ser um completo idiota, mas, quando se distraía ou sentia que ninguém observava, Hiyori podia perceber a expressão séria e totalmente diferente que assumia o lugar do sorriso largo. E aquilo a dava calafrios ainda piores que o cronômetro que talvez anunciasse o fim de sua existência, porque parecia que, diferente do painel que estava visível a qualquer um que tivesse olhos, ela era a única a enxergar a outra face do garoto, e ele também parecia saber que ela via isso. Talvez ele simplesmente tivesse problemas, como a maioria das pessoas tem, ou passaram a ter desde que tudo começara. Mas, ainda assim, não achava ser capaz de ignorar o sentimento de incômodo sempre que estava em sua presença.

Mesmo que precisasse ser julgada por todos, ainda descobriria se estava certa ou não sobre Yato. Porém, depois de uma noite completamente mal dormida, junto ao fato de que ninguém a acordara para que tomasse o café da manhã e, passado o horário, ela precisaria ficar com fome até a hora do almoço, Hiyori não tinha disposição alguma para pensar em outra coisa, além de achar seu irmão e esgana-lo. Afinal, se fosse ao contrário, ela com certeza o procuraria, caso não aparecesse para comer. Yukine também poderia ser legal com ela de vez em quando, aquilo não o mataria.

A transição pelos corredores não era totalmente livre, mas os guardas costumavam fazer "vista grossa" durante a manhã e no período entre o final da tarde e começo da noite. Porém, aquela atitude não era por um mínimo sentimento sequer de pena ou compaixão, eles apenas confiavam demais na própria segurança. E, no fim, estavam certos. O lugar em si era um labirinto capaz de intimidar qualquer um que não o conhecesse com propriedade, além de que todas as portas, que pareciam realmente importantes ou que poderiam os levar a algum lugar fora dali, eram perfeitamente trancadas.

E Hiyori acreditava que trancadas de uma forma impossível de serem abertas por pessoas que não tinham o cartão de acesso. Mas, isso, só até ouvir sons estranhos atrás de uma delas. Inicialmente ela imaginara que eram guardas, enfermeiros, cientistas, pesquisadores, ou qualquer pessoa que trabalhasse ali, mas não demorara muito para reconhecer as risadas inconfundíveis. Aquilo só a deixou ainda mais alerta e ela se aproximou cautelosamente, enfiando o rosto no pequeno vão da porta o mais discretamente possível.

A sala estava parcialmente escura, e parecia infinitamente menor do que ela pensara, mas, o que mais a assustara, fora encontrar Yukine sentado no chão com uma caneta girando a sua frente. Claramente aquilo representava perigo e seus olhos arregalaram-se um segundo, antes de, involuntariamente, suas mãos fecharem-se em punhos, enquanto invadia a sala com toda a sua indignação de irmã mais velha responsável e chata, visível. Agora que seus pais não estavam ali alguém tinha que fazer aquele papel, e agradecia por Yukine já estar acostumado, porque, no fundo, ela sempre fora um pouco certinha de mais. Não era como se estivesse fora de sua zona de conforto naquele momento, mas também era fato que o garoto não ligava muito para a autoridade natural que deveria ter.

Seis rostos pálidos e assustados, então, viraram-se em sua direção, e Hiyori quase se sentiu ofendida quando um suspiro de alívio escapou da boca de cada um deles, como se toda a sua irritação fosse insignificante. Tinha quase certeza de que, naquele momento, a careta estampada em seu rosto piorou ainda mais. Devia ser uma imagem realmente horrível, mas ninguém pareceu afetado com isso. Desde pequena ela nunca fora alguém considerada intimidante e para adquirir até mesmo um pouco de respeito perante seu irmãozinho mais novo, na época, com seis anos de idade, a garota precisara se esforçar bastante.

O que é isso? – perguntou apenas para confirmar, mas, antes que algum deles pudesse responder, Hiyori já avançava em direção a caneta, recolhendo-a com pressa antes que parasse.

Em sua época de rebeldia havia visto muito daquele tipo de jogo. Até mesmo havia participado algumas vezes e, exatamente por isso, sabia muito bem que as coisas nunca terminavam bem.

– Nós estamos jogando. – Yato ergueu as sobrancelhas, como se estivesse confuso. – Pode juntar-se a nós, se quiser.

– É claro que eu não quero! É o que eu estou pensando, não é? Como vocês podem deixar uma criança participar disso?! – Tinha certeza que as palavras haviam saído um pouco confusas, pela rapidez com que falara, mas ela não se daria ao trabalho de repetir.

Estava nervosa. Encarou-os o mais furiosamente que pudera, mas todos permaneceram com a mesma expressão. Hiyori queria berra e perguntar quantos anos eles achavam que Yukine tinha, mas sabia que o garoto ficaria extremamente bravo caso o envergonhasse ainda mais. Se terminasse aqui de uma vez evitaria mais problemas, com certeza. Quase ficara satisfeita pelo silêncio, reflexivo, imaginava ela, na sala, até ver sua ilusão de ter finalmente conseguido passar um sermão descente, desmoronar.

– Você é a criança, Yukine – Yato murmurou inclinando-se na direção dele, aparentemente esclarecendo algo muito inacreditável.

Imediatamente a expressão desentendida do seu irmão se desfez e ele encarou-a verdadeiramente irritado, o que surtiu efeito imediato em sua postura já vacilante.

– Hiyori, você está passando vergonha. Vamos, sente-se e jogue, ou então fique quieta e não atrapalhe!

Aquilo raramente acontecia, mas ela sentiu um de seus olhos tremer. Se havia um pouco de semelhança entre ela e Yukine, com certeza isso ficava visível ao irritarem-se.

– O que disse, irmãozinho? – Sua mão se moveu vagarosamente, encontrando o interruptor próximo da porta.

Ele tinha medo do escuro, provavelmente estava incomodado com a iluminação fraca do local, mas não queria demonstrar aquilo na frente dos outros. Seria maldade desligar a luz e Hiyori não faria aquilo realmente, mas precisava, de alguma forma, virar a situação a seu favor.

– Nada. – Yukine bufou. – Senta logo.

– Você não vai jogar isso.

– Tá, tudo bem. Mas devolve a caneta, eles querem continuar.

Hiyori revirou os olhos e sentou no espaço rapidamente aberto entre Kofuku e Veena, depositando a caneta no espaço aberto no chão. Yukine estava emburrado, mas a garota não se ateve a isso, e, somente passado seu, aparentemente, insignificante e superável surto de raiva, ela percebeu que, naquele quartinho de vassouras poeirento e menor do que o recomendável, tinha seis pessoas. E ela só conhecia cinco delas.

Então, como medida para não ser obrigada a se pronunciar novamente, visto que ainda deveria manter sua posição de indignação, Hiyori encarou o indivíduo "extra" profundamente, com esperança de que alguém notasse o impasse em que estavam. Seu irmão conversava algo com Daikoku. Mas, por sorte, Veena era menos distraída que Kofuku e bem menos displicente que Yato.

– Vocês não se conhecem ainda. Kazuma, está é a Hiyori, irmã mais velha do Yukine. – Ela virou para a garota e apontou para o homem. – Hiyori, este é Kazuma, um amigo de infância.

Ainda que uma postura séria fosse importante naquele momento, aquele indivíduo não era exatamente o culpado pelo que acontecera, então seu bom senso impedia-a de descontar nele qualquer coisa. Hiyori sorriu levemente e ele retribuiu com um aceno de cabeça, mas sua expressão simpática se desfez ao pousar os olhos nas roupas que Kazuma vestia.

– Mas...

– Ele trabalha aqui. – Veena a interrompeu, antes que ela conseguisse reproduzir em palavras toda a sua confusão.

– O quê?

– Faço parte da área de pesquisa – ele falou pela primeira vez, ajeitando os óculos de armação grossa na ponte do nariz. Ao ver sua expressão cada vez mais desconfiada, Kazuma se apressou em explicar. – Eu não sou imune, mas nem por isso quero me aproveitar de quem é. Eu não sou o inimigo.

Ele não parecia ser muito mais velho que ela ou Yato, que, segundo Kofuku, era apenas um ano mais velho, porém, sendo amigo de infância de Veena e um pesquisador, provavelmente somente tinha uma aparência mais nova.

– Kazuma trabalha para o meu pai, na verdade, ele entrou como estagiário, dois anos atrás, no laboratório de pesquisas da minha família e, após todo esse surto, eu pedi para que não saísse. Aqui ele está seguro.

Hiyori estava cada vez mais confusa, mas Yukine e até mesmo Yato, que havia chegado há tão pouco tempo, não pareciam surpresos.

– Então, seu pai...?

– Meu pai é o idealizador do projeto da criação de antídotos a partir do sangue dos imunes.

Depois daquilo a garota ficou sem saber o que falar, ou até mesmo se deveria falar alguma coisa, já que aquela situação era algo que ela nunca imaginara. Afinal, como todos eles, Veena também estava presa naquele lugar.

– Você não precisa se preocupar, Hiyori. Kazuma está do nosso lado. – O olhar da mulher transmitia uma profunda confiança, parecia até errado desconfiar daquilo, mas também não era o suficiente para que o novo desconforto que passara a sentir com aquilo sumisse.

Hiyori gostaria de ter certeza onde, no fim, ela e Yukine acabaram se metendo. Todos eles pareciam, de alguma forma, se conhecer. Ela e o irmão eram os intrusos ali, porém, àquela altura, também não poderiam simplesmente se afastar do nada. Então, a solução era analisar a fonte de tudo e descobrir se aquelas pessoas realmente eram confiáveis. Por sorte, o motivo de estarem juntos ali era Kofuku, e, ela, como clara responsável por interligar todos eles, teria respostas para todas as suas perguntas.

– Como a Hiyorin entrou agora, acho justo ser a vez dela de girar a caneta! – Kofuku anunciou, intervindo, parecendo indiferente ao clima estranho que seu silêncio proporcionara.

Lógico que aquele não era o momento certo para abordar a mulher, então Hiyori ficara tão aliviada pela mudança de foco, que nem ao menos percebera o que fazia até girar a caneta no chão e observar, horrorizada, uma das pontas parar em sua direção. Aquilo era um tremendo azar, mas ainda existiam desfechos piores. Ela não precisara de um segundo sequer para decidir que já era hora de sair do jogo, mesmo que mal tivesse entrado, e se preparava para noticiar sua desistência quando a pessoa a qual fora selecionada pela outra ponta da caneta tomara a frente.

– Está pensando em desistir, certo? Não tenha medo, as regras não incluem desafio, apenas verdade. – Yato sorriu.

– Acontece que eu não aceitei entrar no jogo e, que eu saiba, eu não sou obrigada.

O sorri se alargou.

Algo naquele repuxar de lábios a dizia que ela estaria em maus lençóis caso o garoto pudesse realmente desafia-la a algo. Ele não seria piedoso.

– Yukine não pode sair no meio do jogo também, é contra as regras abandonar o barco no meio do caminho. Se ele sair alguém precisa entrar no lugar. – Deu de ombros. – Você escolhe, ou joga ou o deixa jogar. Se estiver muito assustada...

– Eu não tenho medo – interrompeu-o, bufando.

– Você já jogou antes ou eu preciso te ensinar as regras?

– Apenas vá logo com isso – resmungou, encarando-o sem desviar, com esperança de que aquilo transmitisse uma onda de energias negativas que o fizesse amanhecer com dor de estomago no dia seguinte.

Yukine soltou um sorrisinho lateral.

– Você não conheceu os tempos de trevas da Hiyori, Yato. Se eu fosse você tomaria cuidado – cochichou, alto o suficiente para todos ouvirem, mas em tom de brincadeira.

Hiyori sentiu seu rosto esquentar em uma mistura de irritação e vergonha, mas permaneceu calada, fuzilando o irmão com os olhos, como se dissesse que aquilo teria volta.

– Se é assim... – Yato alisou o queixo, como se estivesse pensando em algo. Ela sabia que ele já tinha plena consciência ao que iria expô-la. Estava fazendo aquilo apenas para deixa-la mais nervosa. – Qual a pior coisa que já fez na vida Hiyori?

– O quê? – Franziu o cenho. – Como assim?

– Fez bullying com alguma menina da escola, traiu o namorado, roubou dinheiro dos pais... Qual a pior coisa que já fez na vida?

Franziu o cenho, analisando-o por um instante, antes de fechar os olhos e respirar fundo.

– Nada.

– É mesmo?

– Sim. Eu não sou a merda de uma delinquente.

Yato estalou a língua.

– Eu também não, mas ainda assim tenho uma listinha de coisas as quais me arrependo de ter feito. Ninguém é perfeito, todo mundo faz merda, mas, aparentemente, temos aqui uma exceção, não é mesmo?

– Eu não sou perfeita, não disse isso.

– E então? Se esforce, tem certeza de que não consegue pensar em nada?

Respirou fundo, puxando o cabelo para trás da orelha. A pior coisa daquela situação era saber ser o foco da profunda atenção de todos, assim como ela, eles também queriam saber com quem estavam lidando. Hiyori se ergueu nos joelhos, apoiando uma mão no chão e esticando a outra para agarrar a camisa de Yato. Quando o garoto estava perto o suficiente, ela se inclinou, colando a boca em sua orelha para ter certeza de que mais ninguém ouviria.

– Eu deixei meus pais para morrer e fugi com o meu irmão. Mas, se isso não for suficiente, eu também já furei o pneu do carro do professor de história.

{...}

Talvez tivesse feito merda. Não. Com certeza tinha feito merda. Mas a culpa não deveria ser exatamente toda jogada em suas costas, e, apesar de que Hiyori realmente não pensava coerentemente ao ser pressionada, o peso dos fatos ficaria em seu encargo, obviamente. Ninguém ligava se Yato a havia colocado contra parede, o foco seria direcionado apenas para a forma como fugira da sala. Correra do depósito de vassouras mais rápido que seu irmão corria pela casa quando quebrava algum vaso de sua mãe por estar jogando bola na sala, assemelhando-se profundamente a uma fugitiva, a alguém que tinha algo a temer. E esse não era o caso.

Nem ao menos conseguia imaginar como encararia todos os outros de novo, após sua atitude tão vergonhosa. Não era mais uma criança, não poderia fugir como se aquilo fosse resolver todos os seus problemas, deveria ter ficado e lidado com o fato de que em alguns míseros instantes havia revelado tanto de si mesmo para Yato. Talvez ele até mesmo contasse aos outros agora que não estava mais lá, e então Yukine também ouviria e ela não sabia se poderia conviver com a decepção dele. Existiam coisas dentro de si que nem mesmo Yukine tinha acesso e, caso ele descobrisse uma delas daquela forma, Hiyori teria dificuldades para se perdoar.

Se tivesse ficado na sala pelo menos não estaria se remoendo em dúvidas, mas não conseguiria continuar encarando Yato. Não conseguia confiar nele, mas também não tinha provas de que ele era alguém suspeito. Suas conclusões eram muito baseadas em preceitos pessoais, para os outros talvez não tivesse fundamento algum, e então sua imagem seria manchada diante deles. Poderia afirmar que Yato não era quem demonstrava ser, mas não tinha como provar, e qualquer idiota sabe que acusações tão graves não podem ser desferidas sem argumentos plausíveis. A outra opção que tinha era contradizer os próprios pensamentos, agindo como se não tivesse nada contra ele, mas aquilo seria como estapear seus princípios, afinal, mesmo que não houvesse acontecido nenhum confronto direto com palavras, até então, era nítido que algo no garoto a incomodava. Que ficava desconfortável em sua presença e sempre evitava qualquer contato.

Sua relação se resumia em algo como “desconfiança à primeira vista”. Algo que se provara totalmente recíproco. Talvez manter algum tipo de distância ajudasse a apaziguar a má impressão que tinham um do outro, e, com um tempo, quem sabe até mesmo passassem a agir normalmente. Mas, o principal e mais urgente fato era que Hiyori precisava se acalmar, controlar a raiva sem sentido que a consumia. Demonstrar que aquilo a havia afetado, apenas a prejudicaria, então, antes de qualquer coisa, precisava se recompor.

Nunca tivera tempo para explorar todos os corredores daquele lugar, que poderia facilmente denominar como sua prisão, e, mesmo que quisesse conhecer um pouco mais do labirinto que a rodeava, sabia que não era permitido transitarem por ali. Apenas o fato de estar andando sem o acompanhamento de algum enfermeiro ou segurança já era motivo suficiente para ser jogada novamente naquela enfermaria, onde voltaria a ser acorrentada em uma maca. Se isso acontecesse, talvez nem mesmo conseguisse sair de lá pela segunda vez.

Pensando nisso, Hiyori cessou seus passos apressados e, consequentemente, barulhentos, respirando fundo. Seu peito doía e a garota percebeu que estava prendendo a respiração desde que saíra do depósito de vassouras. Poderia ter morrido por insuficiência respiratória e nem ao menos notaria. Sua barriga também reclamava de fome, mas não se sentia disposta a caminhar até o refeitório e implorar comida a algum guarda. Talvez seu sangue fosse precioso o suficiente para que eles não a deixassem morrer de fome, mas tinha certeza que eles também sabiam que conseguiria facilmente sobreviver até o horário do almoço. Apenas sofreria, mas isso já não era da conta de ninguém.

Fechou os olhos, apoiando o corpo na parede e tomando respirações longas, soltando o ar pela boca devagar, enquanto tentava controlar os batimentos cardíacos acelerados. Sua cabeça estava quente e podia ouvir o próprio coração pulsar nos ouvidos. Só tivera noção do quão nervosa estava, quando soltara a camisa de Yato e percebera que seus dedos estavam tremendo. Aquele fora o momento desesperador que, em uma atitude impulsiva, se erguera e saíra do quartinho, ignorando os rostos confusos e o ambiente silencioso que ficava atrás da porta. Caso não fosse uma pessoa completamente saudável, segundo os exames anuais que sua mãe obrigava a família toda a fazer, poderia jurar que estava à beira da morte.

Sempre agradecera pelo fato de ter uma imunidade alta, mas talvez fosse a hora de considerar que, se fosse o contrário, provavelmente seria descartada como cobaia para testes ou bolsa de sangue ambulante, e poderia viver tranquilamente na civilização comum, tendo como agradável companhia uma horda de pessoas enlouquecidas. Olhando por aquele lado, era compreensível toda aquela maluquice autorizada pelo governo para que encontrassem uma cura, mas eles estavam fazendo a coisa certa por meios errados. E por mais que a desumanidade nisso fosse óbvia, ninguém se importaria com pessoas como ela.

O mundo estava ruindo e, quando se sentem ameaçados, a humanidade é a primeira coisa que os humanos jogam fora. Ela e os outros seriam usados e depois descartados, não tinha dúvidas.

Hiyori suspirou, precisava sair dali. Não exatamente daquele corredor, que nem ao menos sabia qual era, mesmo que também fosse uma boa ideia sair dali antes de ser pega, mas sim daquela prisão. A situação parecia gritar que não gostaria de descobrir o que aconteceria quando o cronômetro gigante no salão zerasse.

Aos poucos conseguiu retornar pelo mesmo caminho que seguira, mas desviara sua rota um corredor antes de chegar à porta do lugar de onde fugira correndo, e onde talvez os outros ainda estivessem. Seguiu para o salão principal, já que o horário em que os seguranças os levavam para o grande refeitório onde almoçariam estava próximo. A dor incômoda na barriga, graças ao fato de que não comera nada aquela manhã, aumentava a cada segundo e sua boca estava seca por culpa da pequena maratona que correra para fugir da própria vergonha.

Por sorte, diferente do que imaginara, Yukine não estava mais no armário de vassouras e conseguira achar ele em um momento em que estava sozinho. O simples fato de que puxara o mais novo para o mais longe possível do centro da sala, onde os outros provavelmente estavam, fora o suficiente para ele perceber que Hiyori precisava evitar por algum tempo a companhia de outras pessoas que não fosse ele. Talvez a garota estivesse atordoada com tudo que estava acontecendo. Primeiro a morte do pai de ambos, logo depois o fato de que haviam sido obrigados a se separar da mãe e levados até ali onde, provavelmente, não passariam por boas experiências. Isso sem incluir, é claro, o importante detalhe de que as pessoas ao redor do mundo pareciam estar enlouquecendo.

Ele sabia daquilo tudo simplesmente porque sentia o mesmo, já que, se dependesse da garota, Yukine sentia que seria totalmente poupado de toda realidade que fosse dura, porém, de alguma forma, Hiyori conseguia se sobrecarregar ainda mais. Como se ela se preocupasse até mesmo com as coisas que nem ao menos haviam acontecido. Às vezes parecia que ela estava a ponto de explodir, e então momentos depois ela voltava ao normal. Ele não sabia bem o que fazer, mas pelo menos poderia tentar não ser motivo para mais uma preocupação, enquanto esperava que ela voltasse à estabilidade e parasse de oscilar como uma bomba.

Hiyori se sentou no chão, encostando as costas na parede e acenando para que fizesse o mesmo. Estavam no mesmo lugar para onde foram quando se encontraram ali pela primeira vez. Os cantos das paredes eram os lugares menos ocupados, já que as outras pessoas pareciam batalhar por um lugar nas cadeiras, poltronas e sofás espalhados pela sala. Sua irmã parecia gostar mais da ideia de sentar no chão frio do que esperar durante tempo indeterminado uma vaga nas cadeiras surgir, mesmo que fosse improvável. Depois que conseguiam um lugar para sentar a bunda ninguém se levantava por nada, porque bastava um segundo de distração para que perdessem o espaço.

– Por que você saiu correndo daquele jeito? – fora a primeira coisa que Yukine perguntara, mal havia acabado de se acomodar no chão. Talvez aquela não fosse uma boa ideia, mas precisava saber o que estava acontecendo para poder ajuda-la.

Hiyori sabia que ele a questionaria algo parecido, mas não deixava de ser uma situação incômoda. Ela suspirou, erguendo o braço para tirar a própria franja dos olhos. Não cortava o cabelo há algum tempo e os fios estavam começando a atrapalhar sua visão.

– Eu não sei explicar porque, mas... eu não confio nele. – Deu de ombros, como se fosse algo banal e sem importância, mesmo que houvesse se tornado uma de suas maiores preocupações desde que o vira pela primeira vez.

– O Yato? – Yukine franziu o cenho. – Ele é meio estranho, mas não acho que seja uma má pessoa.

– Não é que ele seja alguém mal. Apenas sinto que ele pode nos causar problemas. Devíamos ficar longe dele – disse, com visível esperança de que Yukine concordasse consigo sem contestar.

– Bem, eu não sei você, mas não quero me afastar de todos. Kofuku, Veena, Daikoku, e até mesmo Kazuma, têm sido bem gentis conosco.

– Eu sei. Gosto da companhia de todos eles e agradeço pela forma como têm nos tratado, mas isso não inclui o Yato, ele...

– Ele não parece desgostar de você, talvez se você tentasse ser um pouco mais gentil veria isso. – Yukine suspirou, esfregando a testa. – Eu realmente não consigo entender de onde veio todo esse receio, você sempre foi tímida, mas era simpática com as pessoas Hiyori.

– As coisas mudaram! Olhe onde estamos!

– Isso não é motivo para agir assim. Sabe, na situação em que estamos, não ficar sozinho é o primeiro passo para sobreviver. Olhe ao seu redor. – Ele moveu a cabeça, fazendo-a seguir seu olhar. – Nós somos imunes ao vírus, mas não a loucura – murmurou, enquanto observava diferentes tipos de pessoas que tinham apenas duas coisas em comum. A expressão vazia no rosto e o fato de que estavam sozinhas.

Hiyori percebeu, um pouco assustada, que a quantidade delas era bem maior do que poderia imaginar.

– Não estamos sozinhos, nós estamos juntos. E, se sairmos daqui, talvez nós consigamos encontrar a mamãe ou a tia.

Yukine abaixou a cabeça, com um sorriso fraco no rosto. Hiyori sentiu vontade de chorar ao ver o quanto ele parecia mais velho do que era. Quase como se estivesse obrigando-o a crescer antes da hora, e, na verdade, era exatamente aquilo. E ela estava falhando em melhorar as coisas para ele e tentar ser o apoio dos dois. Não importava o fizesse era como se no fim apenas estivesse tornando tudo pior.

– Não sei se quero sair daqui. Você se lembra do mundo lá fora? Está tudo diferente, nós não temos um lugar para voltar. – Respirou fundo. – Nada nunca mais vai ser como antes, certo?

Hiyori queria negar, falar algo para dar esperanças ao irmão mais novo e convence-lo a sair dali, exatamente como estava em seus planos. Mas não conseguia pensar em nada para dizer, porque absolutamente tudo o que Yukine dissera era verdade. Ele era quase uma criança, mas havia amadurecido tanto em tão pouco tempo que já não sabia mais se, mesmo sendo a mais velha, era a pessoa certa para tomar decisões ali.

Apenas queria proteger o irmão e tornar sua vida o melhor que pudesse enquanto tudo não se ajeitasse. Mas, talvez, tentar engana-lo fosse ainda mais cruel do que o silêncio que lhe dera como resposta, e que ele, aparentemente, entendera perfeitamente.


Notas Finais


Não sei quando o próximo sai, nem sei se sai, não prometo mais nada, mas rezem por mim, meu tempo, minha coragem e minha criatividade. Se tudo der certo eu volto ainda esse ano. <3

Aos que não desistiram da fanfic ainda: obrigada, que Yato abençoe vocês (não o da fanfic, porque esse, coitado, nem deus é).

Espero que tenham gostado.
Até o próximo. o/


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