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História A Seleção - Limantha - Capítulo 32



Notas do Autor


Oi, famíliaaaaaaaaaa!!!
Como estão?

Capítulo 32 - A Elite - 07


LÁ ESTAVA EU , enfileirada com as outras pessoas no imenso foyer do palácio, mexendo os pés de um lado para o outro.

— Senhorita Heloísa — sussurrou Benê. E foi o bastante para eu entender que meu comportamento estava sendo inaceitável. Como ela era a nossa principal tutora na Seleção, levava muito a sério tudo o que fazíamos.

Tentei sossegar. Invejava Benê, os empregados e o punhado de guardas a passar de um lado para o outro, pelo simples fato de eles terem autorização para andar. Sabia que me sentiria mais calma se pudesse fazer o mesmo.

Talvez, se Samantha já estivesse aqui, não fosse tão ruim. Mas talvez eu ficasse mais ansiosa. Ainda não compreendia por que, depois de tudo, ela não tivera tempo para mim nos últimos dias.

— Eles chegaram! — veio a voz pelas portas do palácio. Não fui a única a soltar um suspiro aliviado.

— Muito bem, jovens! — gritou Benê. — Hora de caprichar nos modos! Mordomos e criados, perto da parede, por favor.

Tentamos ser os jovens adoráveis e nobres que Benê desejava, mas tudo ruiu no instante em que os pais de Ellen e Keyla entraram pela porta. Eu sabia que ambas eram apenas crianças, e era óbvio que seus pais estavam com saudades demais para se importarem com o decoro. Eles correram aos berros, e Keyla saiu da fila sem parar para pensar.

Os pais de Katiane foram mais comedidos, embora tenham ficado claramente emocionados aos ver a filha. Katiane também saiu da fila, mas de um modo muito mais civilizado que Keyla. Sequer notei os pais de Anderson ou Matheus, porque uma figura baixinha de cabelos negros esvoaçantes brilhava ao pé da porta com olhos inquisitivos.

— Tetê!

Ela ouviu meu chamado, viu meu braço acenando e logo correu para mim. Minha mãe e meu pai a seguiram, enquanto eu ajoelhei para abraçá-la.

— Lica! Não acredito! — ela gemeu, com a voz repleta de admiração e inveja. — Você está tão, tão linda!

Não consegui falar. Mal podia vê-la. Eu chorava tanto.

Momentos depois, senti os braços firmes de meu pai envolvendo ambas. Em seguida, minha mãe — deixando de lado sua costumeira reserva — se juntou a nós, e logo formávamos um todo, abraçados no palácio.

Ouvi alguém bufando e percebi que era Benê, mas nem me importei com isso àquela altura. Falei, assim que pude voltar a respirar:

— Estou tão feliz de vocês estarem aqui.

— Também estamos, gatinha — retribuiu meu pai. — Não dá para dizer o quanto sentimos sua falta — e concluiu as palavras com um beijo em minha cabeça.

Me virei para abraçá-lo melhor. Até aquele momento, ainda não tinha percebido o quanto eu precisava vê-los.

Abracei minha mãe por último. Eu estava chocada por ela estar tão quieta; era incrível que ainda não tivesse exigido um relatório detalhado do meu progresso com Samantha. Mas quando nos afastamos, notei as lágrimas em seus olhos.

— Você está tão linda, querida. Parece uma princesa.

Sorri. Era bom não ouvir somente perguntas e ordens dela, pelo menos uma vez. Naquele momento, ela estava apenas feliz. E isso significava muito para mim, porque eu também estava.

Reparei que Tetê olhava para alguma coisa por cima do meu ombro.

— É ela — cochichou.

— Hein? — perguntei, me inclinando para ela. Quando virei para trás, Samantha nos observava detrás da grande escadaria. Com um sorriso maravilhado, ela abriu caminho para onde estávamos. Meu pai se endireitou rapidamente.

— Vossa Alteza — disse ele, com a voz carregada de admiração.

Samantha foi ao seu encontro com a mão esticada.

— Senhor Gutierrez, é uma honra. Ouvi tanto a seu respeito. E é uma honra conhecê-la também, senhora Gutierrez — continuou Samantha, dirigindo-se à minha mãe, que também se aprumou e ajeitou o cabelo.

— Alteza — ela desafinou, um pouco atarantada. — Nos perdoe por tudo isso — disse, apontando para o chão, onde Tetê e eu permanecíamos abraçadas.

Samantha riu.

— Não é nada. Não esperaria menos entusiasmo de qualquer pessoa que seja ligada à senhorita Heloísa.

Com certeza minha mãe ia querer explicações sobre isso mais tarde.

— E você deve ser Tetê? — continuou Samantha.

Tetê corou ao estender a mão a ela; esperava um aperto de mão, mas ganhou um beijo.

— Nunca lhe agradeci por não ter chorado — brincou a princesa.

— O quê? — perguntou Tetê, corando ainda mais pela confusão.

— Ninguém disse a você? — falou Samantha, radiante. — Graças a você, ganhei meu primeiro encontro com sua irmã. Estarei sempre em dívida com você.

— Bom, de nada, acho — respondeu Tetê, entre risos.

Samantha juntou as mãos na frente do corpo, como se sua formalidade tivesse voltado.

— Receio ter que conhecer os outros, mas por favor aguardem aqui por um momento. Farei um breve pronunciamento ao grupo. Espero conseguir falar mais com vocês logo. Estou muito feliz por terem vindo.

— Ela é ainda mais bonita pessoalmente — Tetê cochichou alto; e eu pude notar que Samantha ouviu, pelo leve chacoalhar de sua cabeça.

Ela passou à família de Matheus, de longe a mais refinada do grupo. Seus irmãos mais velhos pareciam mais rígidos que os guardas, e seus pais fizeram uma reverência quando Samantha se aproximou. Fiquei imaginando se tinha sido Matheus que os tinha mandado agir assim ou se era mesmo o jeito deles. Davam a impressão de ser tão polidos, com seus cabelos negros, os rostos parecidos entre si que se sobressaíam em relação às roupas bonitas.

Ao lado deles, Anderson e sua lindíssima irmã mais nova cochichavam com Ellen enquanto seus pais se cumprimentavam. O foyer inteiro estava repleto de uma energia entusiasmada.

— O que quer dizer isso de ela esperar entusiasmo de nós? — minha mãe perguntou em voz baixa. — É porque você gritou com ela quando se encontraram? Você não fez mais isso, fez?

Soltei um suspiro.

— Na verdade, mãe, a gente discute quase sempre.

— O quê? — ela perguntou, de queixo caído. — Pois pare com isso!

— Ah, e eu dei uma joelhada na perna dela uma vez.

Ficamos em silêncio por uma fração de segundo, até Tetê explodir numa gargalhada. Ela cobriu a boca e tentou parar, mas as risadas continuaram a sair, fazendo uns sons estranhos e agudos. Meu pai apertava os lábios, mas dava para notar que ele estava a ponto de também deixar escapar gargalhadas.

Minha mãe estava mais branca que a neve.

— Lica, me diga que isso é piada. Me diga que você não atacou a princesa.

Não sei por que, mas a palavra “ataque” foi a gota d’água: Tetê, meu pai e eu começamos a rir até doer a barriga, enquanto minha mãe nos encarava.

— Desculpe, mãe — falei.

— Ai, meu Deus.

E, de repente, minha mãe pareceu superanimada para conhecer os pais de Keyla, e eu não a impedi.

— Então ela gosta de mulheres que não baixam a cabeça — disse meu pai, assim que sossegamos. — Já passei a gostar mais dela.

Meu pai correu os olhos pelo lugar, contemplando o palácio; eu permaneci ao seu lado, tentando entender suas palavras. Quantas vezes meu pai e Katharine estiveram na mesma sala durante os anos do nosso namoro secreto? Uma dúzia pelo menos. Talvez mais. E nunca imaginei que ele não fosse aprovar Katharine. Sabia que seria difícil conseguir seu consentimento para me casar com alguém de uma casta abaixo, mas sempre parti da ideia de que no final teria sua permissão.

Por algum motivo, me senti mil vezes mais estressada. Apesar de Samantha ser Um, e capaz de sustentar todos nós, de repente percebi que existia a possibilidade de meu pai não gostar dela.

Meu pai não era um rebelde, não saía por aí queimando casas e tal. Mas eu sabia que ele não gostava do jeito como as coisas eram feitas. E se seus problemas com o governo incluíssem Samantha? E se ele dissesse que eu não deveria ficar com ela?

Antes de eu me perder em pensamentos, Samantha subiu alguns degraus na escada para poder ver todos nós.

— Gostaria de agradecer a todos por terem vindo. Estamos muito contentes de recebê-los no palácio, não apenas para comemorar o primeiro Halloween em Illéa após décadas, mas também para nos conhecermos. Sinto muito por meus pais não terem podido cumprimentá-los também. Vocês os conhecerão em breve.

“Vocês estão todos convidados a tomar um chá com meu pai esta tarde, no Salão de Beleza. Pediremos a um mordomo que os levem, de modo que ninguém precisa ter receio de se perder.”

“Os criados os acompanharão aos quartos que vocês ocuparão durante a estadia. Eles também vestirão vocês adequadamente para a visita e a festa de amanhã à noite.”

Samantha encerrou com um aceno e saiu. Uma criada surgiu ao nosso lado quase que imediatamente.

— Senhor e senhora Gutierrez? Estou aqui para acompanhá-los com sua filha até seus aposentos.

— Mas eu quero ficar com a Lica! — protestou Tetê.

— Lindinha, tenho certeza de que o rei nos deu um quarto tão bonito quanto o de Lica. Você não quer vê-lo? — minha mãe encorajou-a.

Tetê se virou para mim.

— Quero viver exatamente como você. Pelo menos por um tempinho. Posso ficar com você?

Respirei fundo. Então eu teria de abdicar da minha privacidade por uns dias. E daí? Não tinha como dizer não para aquela carinha.

— Tudo bem. Talvez, com nós duas lá, meus criados terão algo para fazer de verdade. Ela me abraçou tão forte que já valeu a pena.

— O que mais você aprendeu? — perguntou meu pai.

Passei meu braço pelo dele, ainda desacostumada com seu terno. Se eu não o tivesse visto milhares de vezes com suas calças sujas de tinta, poderia jurar que ele nascera para ser Um. Ele parecia jovem e bonitão naquelas roupas formais. Estava até mais alto.

— Acho que já lhe contei tudo o que ensinaram sobre a nossa história, sobre como o presidente Wallis foi o último líder do antigo Estados Unidos e depois governou o Estado Americano da China. Eu não sabia nada sobre ele, e você, sabia?

Meu pai fez que sim com a cabeça.

— Seu avô me falou dele. Ouvi dizer que era um cara decente, mas ele não teve saída quando as coisas pioraram daquele jeito.

Apenas no palácio pude conhecer a verdade definitiva sobre a história de Illéa. Por algum motivo, a história da origem do nosso país era quase sempre transmitida oralmente. Ouvi várias coisas diferentes, e nenhuma delas era tão completa como a educação que recebi nos últimos meses.

Os Estados Unidos foram invadidos no começo da Terceira Guerra Mundial, quando não conseguiram pagar sua exorbitante dívida com a China. Por não receberem o dinheiro — que os Estados Unidos não tinham —, os chineses instalaram um governo aqui, criando o Estado Americano da China e usando os Americanos como força de trabalho. Um dia, os Estados Unidos se rebelaram, não apenas contra a China, mas também contra os russos, que tentavam roubar a mão de obra conquistada pelos chineses. Os Americanos juntaram-se ao Canadá, ao México e a vários outros países latinos para formar um único país. Essa foi a Quarta Guerra Mundial. E embora tenhamos sobrevivido e formado um novo país, a guerra devastou a economia.

— Samantha me disse que pouco antes da Quarta Guerra Mundial as pessoas não tinham quase nada.

— Ela tem razão. Esse é um dos motivos de o sistema de castas ser tão injusto. Ninguém tinha muito a oferecer para ajudar no começo, e é por isso que tanta gente acabou nas castas inferiores.

Não estava a fim de discutir esse assunto com meu pai; sabia que ele se empolgaria. Ele não estava errado — as castas eram injustas —, mas era uma visita alegre e não queria desperdiçá-la em conversas sobre coisas que não poderíamos mudar.

— Além de um pouco de história, a maior parte das aulas é de etiqueta. Temos estudado um pouco mais de diplomacia agora. Acho que em breve vamos usá-la para alguma coisa. Eles estão forçando bastante a matéria. Bem, vai ser útil para as pessoas que ficarem, em todo o caso.

— Ficar?

— Acontece que alguém voltará para casa com a família. Samantha deve eliminar depois de conhecer todos os pais.

— Você não parece muito feliz com isso. Acha que ela vai mandar você para casa?

Dei de ombros.

— Vamos, filha. A essa altura você já deve saber se ela gosta de você ou não. Se gosta, você não tem com que se preocupar. Se não gosta, por que vai querer ficar? — Acho que você está certo.

Ele parou de andar.

— E qual das duas opções é a certa?

Era meio vergonhoso falar disso com meu pai, mas também não falaria disso com minha mãe.

— Acho que ela gosta de mim. Ela diz que gosta.

Meu pai riu.

— Então você está indo bem.

— Mas ela tem estado um pouco... distante esta semana.

— Lica, querida, ela é a princesa. Provavelmente ela esteve ocupada aprovando leis e coisas assim.

Eu não sabia como explicar que Samantha parecia ter tempo para todas, menos para mim. Era humilhante demais.

— Acho que sim...

— Por falar em leis, você aprendeu algo sobre legislação? Sobre como escrever propostas?

O assunto não me empolgou nem um pouco, mas pelo menos não havia pretendentes em discussão.

— Ainda não, apesar de lermos muitas delas. Elas são difíceis de entender às vezes. Mas Benê, a mulher que estava no foyer, é um tipo de guia, tutora, sei lá. Ela tenta explicar as coisas. E Samantha sempre ajuda quando faço perguntas a ela.

Meu pai pareceu se animar.

— Ajuda?

— Ah, sim. Acho que para ela é importante todos nos sentirmos capazes de ter sucesso, sabe? Por isso, ela é ótima para explicar as coisas. Ela até...

Refleti um pouco. Eu não devia falar da sala dos livros. Mas estava com meu pai.

— Veja — continuei —, você tem que prometer que não vai falar nada para ninguém.

Ele achou graça.

— A única pessoa com quem converso é sua mãe, e todos sabemos que não podemos confiar um segredo a ela, de modo que prometo não contar a ela.

Eu ri. Era impossível imaginar minha mãe guardando um segredo.

— Pode confiar em mim, gatinha — disse ele, com a mão em meu ombro.

— Há uma sala aqui, secreta, cheia de livros, pai! — confessei em voz baixa, olhando para os lados para ver se alguém estava por perto. — Lá eles guardam livros banidos e mapas múndi antigos, de como os países eram antes. Pai, eu não sabia que havia tantos países naqueles tempos! E também tem um computador lá. Você já viu um na vida real?

Ele balançou a cabeça, chocado.

— É fantástico — prossegui. — Você digita o que procura e ele busca em todos os livros da sala até encontrar.

— Como?

— Não sei, mas foi assim que Samantha descobriu o que era o Halloween. Ela até...

Olhei para os dois lados do corredor novamente. Tinha certeza de que meu pai não contaria a ninguém sobre a biblioteca. Mas talvez fosse demais eu revelar que estava com um dos livros secretos.

— Ela até?

— Emprestou-me um deles, só para ver.

— Ah, isso é muito interessante! O que você leu? Pode contar?

Mordi os lábios.

— Um dos diários de Gregory Illéa.

O queixo de meu pai caiu antes de ele ter tempo para absorver a notícia.

— Lica, isso é incrível. O que diz lá?

— Ah, eu não terminei. A maior parte tenta descobrir o que era o Halloween.

Ele ponderou minhas palavras por um momento e balançou a cabeça.

— Por que você está preocupada, Lica? Está claro que Samantha confia em você. Soltei um suspiro, sentindo-me idiota.

— Acho que você está certo.

— Fantástico — sussurrou ele. — Então há uma sala escondida em algum lugar por aqui? — disse, enquanto observava as paredes de um modo todo novo.

— Pai, este lugar é maluco. Há portas e painéis por toda parte. Pelo que sei, se eu empurrasse este vaso, poderíamos cair em um alçapão.

— Hmm, então serei cuidadoso ao fazer o caminho de volta para o meu quarto — concluiu, maravilhado.

— O que você provavelmente precisa fazer logo. Tenho que aprontar Tetê para o chá com o rei.

— Ah, sim, vocês e seus chás — brincou. — Tudo bem, gatinha. Vejo você à noite no jantar. Agora... qual é o melhor jeito de evitar uma portinhola secreta? — ele perguntou-se em voz alta e saiu com os braços esticados, para se proteger.

Assim que meu pai chegou à escadaria, apoiou-se no corrimão, bem devagar.

— Só para você saber, este é seguro.

— Obrigada, pai.

Acenei com a cabeça e tomei o caminho do quarto. Era quase impossível não dar pulos de alegria pelos corredores: estava tão feliz de ter minha família aqui que mal podia me conter.

Se Samantha não me mandasse embora, seria mais difícil do que nunca me separar deles.

Dobrei a esquina para o quarto e vi a porta aberta.

— Como ele era? — ouvi Tetê perguntar, enquanto me aproximava.

— Bonito. Pelo menos para mim. Seus cabelos eram meio ondulados e nunca assentavam.

Tetê riu, e MB fez o mesmo ao terminar de falar.

— Às vezes, eu corria os dedos por eles — continuou o criado. — Penso nisso de vez em quando. Não tanto como antes.

Andei na ponta dos pés para não atrapalhá-los.

— Você ainda sente saudades dele? — perguntou Tetê, sempre curiosa sobre garotos.

— Cada dia menos — MB reconheceu, com um quê de esperança na voz. — Quando cheguei aqui, pensei que fosse morrer com a dor. Vivia pensando em formas de escapar do palácio e voltar para ele, mas isso nunca daria certo. Não podia abandonar meu pai, e mesmo que eu chegasse do lado de fora, não haveria como encontrar o caminho de volta.

Eu sabia pouco do passado de Michel, de como sua família concordou em servir uma família de Três em troca do dinheiro de uma operação para a mãe de MB, que acabou falecendo. Depois, quando a mãe da família de Três descobriu que seu filho estava apaixonado por Michel, vendeu MB e o pai para o palácio.

Espiei pela porta e lá estavam Tetê e MB sobre a cama. As portas da sacada estavam abertas, e a brisa de Angeles soprava quarto adentro. Tetê tinha ficado muito natural com o visual palaciano: o caimento de seu vestido de dia estava perfeito mesmo com ela sentada na cama fazendo tranças no longo cabelo de MB, que estava solto. Nunca vi Michel deixar o cabelo assim. Ele ficava lindo assim: parecia jovem e despreocupado.

— Como é amar? — perguntou Tetê.

Parte de mim ficou magoada. Por que ela nunca tinha me perguntado isso? Depois, me lembrei: para Tetê, eu nunca tinha amado.

MB abriu um sorriso triste.

— É a coisa mais maravilhosa e terrível que pode acontecer com você — afirmou com simplicidade. — Você sabe que encontrou algo incrível e quer levá-lo para sempre consigo. E um segundo depois de ter aquilo, você fica com medo de perder.

Deixei escapar um suspiro. Ele estava completamente certo.

O amor é um medo belo.

Como eu não queria pensar muito sobre perder coisas, entrei no quarto.

— MB! Olhe para você!

— Gostou? — perguntou ele, com a mão nas tranças delicadas.

— Está maravilhoso. Tetê costumava fazer tranças em mim o tempo todo. Ela é muito talentosa.

Tetê deu de ombros.

— O que eu podia fazer? Como não podíamos comprar bonecas, eu brincava com a Lica.

— Bem — disse MB, virando-se para Tetê —, enquanto você estiver aqui, será nossa bonequinha. Anne, Mary e eu vamos deixar você linda como a rainha.

Tetê chacoalhou a cabeça.

— Ninguém é linda como ela — protestou para em seguida virar-se rapidamente para mim. — Não conte para a mamãe que eu disse isso.

— Não conto — falei, rindo. — Agora, porém, temos que ficar prontas. É quase hora do chá.

Tetê bateu palmas, empolgada, e se sentou diante do espelho. MB puxou os cabelos para trás, mas conseguiu prende-lo sem bagunçar as tranças. Depois, pôs seu lenço sobre a cabeça e cobriu quase tudo. Eu não o culparia por querer que seu cabelo ficasse assim por um pouco mais de tempo.

— Ah, a senhorita recebeu uma carta — disse MB, entregando-me o envelope com cuidado.

— Obrigada — agradeci, incapaz de esconder o espanto na voz.

A maior parte das pessoas que me escreveria estava no palácio. Rasguei o envelope e deparei com um bilhete, escrito de propósito com uns garranchos que eu conhecia bem.

Lica,

Descobri tarde demais que as famílias da Elite foram há pouco convidadas para conhecer o palácio e que o papai, a mamãe e Tetê partiram para visitá-la. Sei que Clara está com a gravidez muito avançada para poder viajar, e que Tonico é criança demais. Estou tentando entender por que o convite não se estendeu a mim. Sou seu irmão, Heloísa.

Só consigo imaginar que nosso pai decidiu deixar-me de fora. Espero muito que não tenha sido você. Nós dois — tanto você como eu — estamos próximos de grandes conquistas. Temos condições de ajudar um ao outro. Se qualquer outro privilégio especial for concedido à sua família, você tem que se lembrar de mim, Heloísa. Podemos ajudar um ao outro.

Por acaso você falou de mim para a princesa? Só por curiosidade. Escreva em breve. 

Nem

 

Pensei em amassar a carta e jogá-la no lixo. Tinha a esperança de que Nem tivesse deixado de lado seu alpinismo de castas e aprendido a contentar-se com o que já tinha. Parece que não dei sorte. Enfiei a carta no fundo de uma gaveta, com a intenção de esquecê-la completamente.

A inveja dele não iria estragar a visita.

Michel chamou Anne e Mary, e nós todos nos divertimos muito enquanto nos aprontávamos. O jeito efervescente de Tetê nos animava; eu até cantei enquanto me vestia. Logo chegou nossa mãe, perguntando se estava bonita, por garantia mesmo.

E é claro que estava. Ela era mais baixa e cheinha que a rainha, mas estava tão nobre quanto ela em seu vestido. Ao descermos as escadas, Tetê agarrou meu braço, com uma cara triste. — O que há de errado? Ansiosa para conhecer o rei?

— Estou. É que...

— O quê?

Tetê soltou um suspiro.

— Como posso voltar a usar calças cáqui depois disso?

[...]

As pessoas estavam animadas, todas explodindo de energia. A irmã de Anderson, Lacey, tinha quase a mesma idade de Tetê; as duas se sentaram em um canto e ficaram conversando. Eu via como Lacey era parecida com o irmão. Na aparência, os dois eram magros e bonitos.

Mas no ponto em que Tetê e eu éramos opostas, Anderson e Lacey eram idênticos. Porém, eu descreveria Lacey como menos caprichosa. Menos sem noção que seu irmão.

O rei passeava pelo salão e falava com todos. Ele fazia perguntas com seu jeito doce, como se alguém ali pudesse ter uma vida mais impressionante que a dele. Eu estava em um grupinho ouvindo a mãe de Matheus falar sobre sua vida na Nova Ásia, quando Tetê puxou meu vestido e me chamou de canto.

— Tetê — falei, cerrando os dentes. — O que é isso? Você não pode agir assim, especialmente quando o rei está perto!

— Você precisa ver! — ela insistiu.

Ainda bem que Benê não estava. Eu não me surpreenderia se ela censurasse Tetê por algo assim, apesar de ela não saber de nada.

Fomos até a janela, e Tetê apontou para fora.

— Veja!

Estiquei o olhar para além dos arbustos e vi duas figuras. A primeira era meu pai, que falava e gesticulava com as mãos como se perguntasse ou explicasse alguma coisa. A segunda era Samantha, que fazia pausas para pensar antes de responder.

Olhei para trás. As pessoas permaneciam entretidas com a situação, mesmo o rei, e nenhuma parecia prestar atenção em nós.

Samantha parou em frente ao meu pai e falou de uma maneira franca. Não houve agressão ou raiva, mas ela parecia determinada. Depois de uma pausa, meu pai estendeu a mão a ela. Samantha sorriu e a apertou com entusiasmo. Logo em seguida, ambos pareciam mais relaxados, e meu pai deu um tapinha no ombro de Samantha, que ficou um pouco tensa com o gesto; ela não estava acostumada a ser tocada. Mas então meu pai deixou a mão no ombro de Samantha, como costumava fazer comigo. E Samantha pareceu gostar muito.

— O que quer dizer isso? — perguntei em voz alta.

Tetê encolheu os ombros.

— Parece importante.

— Parece.

Esperamos para ver se Samantha conversava com o pai de outra garota. Se conversou, não foi no jardim.


Notas Finais


E, aí? Estão gostando da família Gutierrez no palácio?
Tetê muito fãzoca da princesa Lambertini.


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