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História A Seleção - Limantha - Capítulo 33



Notas do Autor


Finalmente a festa que Samantha fez apenas para a Lica.

Capítulo 33 - A Elite - 08


A FESTA DE HALLOWEEN FOI TÃO INCRÍVEL quanto Samantha tinha prometido. Quando adentrei o Grande Salão, com Tetê ao meu lado, fiquei pasma com toda aquela beleza diante de meus olhos. Tudo era dourado. Enfeites de parede, joias brilhantes sobre os candelabros, copos, pratos, e até a comida: tudo tinha toques de ouro. Nada era menos do que magnífico.

Um aparelho de som tocava música pop, mas, no canto do salão, uma pequena banda aguardava o momento de tocar as danças tradicionais que tínhamos aprendido. Câmeras — de foto e vídeo — espalhavam-se pelo ambiente. Sem dúvida, a festa seria o destaque da programação de Illéa no dia seguinte. Impossível existir uma comemoração como aquela. Imaginei por uns instantes como seria se eu estivesse aqui até o Natal.

As fantasias estavam maravilhosas. Keyla estava de anjo, dançando com o soldado Woodwork. Sua fantasia tinha até asas — pareciam feitas de papel brilhante — que pendiam das suas costas. Katiane usava um vestido curto feito de penas; a pluma comprida na parte de trás de sua cabeça indicava que a fantasia era de pavão.

Ellen estava ao lado de Anderson, e ambos pareciam ter combinado: o paletó de Anderson estava coberto de flores abertas, ao passo que a calça era azul. O vestido de Ellen era dourado como o salão e recoberto com camadas e camadas de folhas. Chutei que estavam fantasiados de primavera e outono. Uma ideia fofa.

A herança asiática de Matheus foi explorada ao máximo. Seu terno de seda era um exagero perto das roupas discretas que ele costumava usar. Matheus não era de chamar a atenção, mas naquela noite estava lindo, com um ar de rei.

Espalhados pelo salão, estavam parentes e amigos, também fantasiados, e mesmo os guardas estavam bem-vestidos. Vi uma jogadora de beisebol, um vaqueiro, alguém de terno com um crachá em que se lia RONEY ROMANO. Um dos guardas ousou ao ponto de botar um vestido de mulher; estava rodeado por um punhado de meninas que morriam de rir. Muitos dos outros guardas, no entanto, estavam com a versão de gala de seus uniformes, que consistia simplesmente em calças vincadas brancas e casaca azul. Usavam luvas, mas não chapéu, o que ajudava a distingui-los dos guardas em serviço que rondavam o salão.

— Então, o que você está achando? — perguntei a Tetê, mas quando me virei ela já tinha desaparecido na multidão para explorar o lugar.

Comecei a rir sozinha enquanto tentava identificar seu vestidinho bufante no salão. Quando ela me disse que queria ir à festa fantasiada de noiva — “tipo as da TV” —, achei que era piada. Mas ela ficou simplesmente ótima de véu.

— Olá, senhorita Heloísa — alguém sussurrou em minha orelha.

Voltei à realidade e ao me virar para responder deparei com Katharine ao meu lado com seu uniforme de gala.

— Você me assustou! — reclamei, com a mão no coração como se isso fosse diminuir seu ritmo. Katharine apenas riu.

— Gostei da fantasia — ela disse, com um tom simpático.

— Obrigada. Também gostei.

Anne tinha me transformado em uma borboleta. Meu vestido, bem ajustado, era de um material esvoaçante, com a barra preta ondulando à minha volta. Uma máscara minúscula imitando asas de borboleta me cobria o rosto e criava um ar misterioso.

— Por que você não se fantasiou? — perguntei. — Não conseguiu pensar em algo? Katharine sacudiu os ombros.

— Prefiro o uniforme.

— Hmm.

Me parecia triste desperdiçar esse ótimo pretexto para uma extravagância. Aliás, Katharine tinha menos oportunidades nesse sentido do que eu. Por que não aproveitar?

— Só vim para dar um “oi”, ver como você estava.

— Legal — repliquei. Me sentia tão estranha.

— Ah — ela disse, descontente. — Tudo bem, então.

Talvez ela esperasse uma resposta melhor depois do que dissera no outro dia, mas eu ainda não estava preparada para dizer nada. Katharine se despediu com um aceno e saiu para falar com outra guarda, que a abraçou como uma irmã. Comecei a pensar se o fato de ela ser uma guarda lhe dava uma sensação de pertencer a uma família, como a que eu tinha adquirido na Seleção.

Logo em seguida, Keyla e Matheus me encontraram e me arrastaram para a pista de dança. Enquanto eu balançava o corpo — com cuidado para não acertar ninguém —, avistei Katharine no canto da pista, conversando com minha mãe e Tetê. Minha mãe passou a mão na manga da camisa dela, para ajeitá-la, talvez, e Tetê estava radiante. Podia imaginar as duas dizendo a ela como estava bonita de uniforme, como sua mãe ficaria orgulhosa se a visse. Ela devolveu o sorriso, e dava para notar que também estava muito contente com os elogios. Katharine e eu éramos duas raridades: uma Cinco e uma Seis arrancadas de suas vidas monótonas e colocadas no palácio. A Seleção transformava tanto a minha vida que eu me esquecia de apreciar esses momentos.

Dancei num círculo com algumas das outras pessoas e com outros guardas, até que a música parou e o DJ começou a falar:

— Senhores e senhoritas da Seleção, cavalheiros e damas da guarda, amigos e parentes da família real: por favor, deem as boas-vindas ao rei Edgar, à rainha Malu e à princesa Samantha Lambertini!

A banda explodiu em notas musicais, e todos reverenciamos e inclinamos a cabeça para a passagem da família real. Aparentemente, o rei estava vestido de rei, só que de outro país. Não captei a diferença. O vestido da rainha era de um azul tão escuro que parecia preto, e ainda estava enfeitado com brilhantes de alto a baixo. Parecia o céu de noite. E Samantha, beirando a ridícula, estava de pirata. Sua calça estava cheia de rasgões, e ela usava uma camisa colada com um colete por cima e uma bandana na cabeça. Para impressionar mais ainda, ela estava com uma maquiagem fraca de pirata.  

O DJ nos pediu para abrir espaço na pista para o rei e a rainha terem sua primeira dança. Samantha se afastou e permaneceu ao lado de Ellen e Anderson, sussurrando coisas para ambos, que riam. Por fim, notei que ela estava como que inspecionando o salão. Não sei se procurava por mim, mas não queria ser pega olhando para ela. Ajeitei a saia do vestido e voltei os olhos para os pais de Samantha. O rei e a rainha pareciam bem felizes.

Pensei sobre a Seleção, sobre a loucura de tudo aquilo, mas não podia contestar seus resultados: o rei Edgar e a rainha Malu pareciam feitos um para o outro. Ela parecia enérgica, e ele compensava isso com sua natureza calma. Ele era um ouvinte silencioso, ao passo que ela sempre parecia ter algo a dizer. Embora tudo aquilo merecesse ser considerado arcaico e errado, funcionava.

Será que, durante a Seleção deles, tinha existido algum momento em que eles se distanciaram, como eu sentia Samantha se distanciar de mim? Por que ela não tinha feito sequer uma tentativa de me ver em meio aos encontros com todos as outros? Talvez seja esse o motivo de ela ter falado com meu pai: explicar por que ela precisava me mandar embora.

Samantha era uma pessoa educada; certamente faria uma coisa assim.

Corri os olhos pela multidão, à procura de Katharine. No meio desse gesto, vi que meu pai tinha acabado de chegar; estava de braços dados com a minha mãe, no outro lado do salão. Tetê estava ao pé de Keyla, que a abraçava por trás, como uma irmã; os vestidos brancos de ambas brilhavam ainda mais com a luz. Não me surpreendia o fato de as duas se darem tão bem em menos de um dia. Respirei fundo. Onde estaria Katharine?

Olhei para trás — era minha última tentativa — e lá estava ela, bem atrás de mim, sempre à minha espera. Quando nossos olhos se encontraram, ela piscou para mim, e esse gesto levantou meu astral.

Assim que o rei e a rainha terminaram, todos fomos à pista de dança. Os guardas passavam de lá para cá e logo arrumavam um par. Samantha permanecia em pé, no canto, com Ellen e Anderson. Fiquei na esperança de que ela me tirasse para dançar. Eu é que não queria chamá-la.

Controlei os nervos, ajeitei o vestido e andei em direção a Samantha. Decidi ao menos lhe dar a chance do convite. Abri caminho pela pista de dança com a intenção de entrar na conversa dos três. Já estava perto o bastante para dizer algo quando Samantha olhou para Anderson.

— Quer dançar? — ela perguntou.

Ele riu e inclinou a cabeça para o lado como se sua resposta fosse a coisa mais óbvia do mundo. Já eu, passei reto por eles, com os olhos cravados na mesa de chocolates, como se ela fosse meu destino desde o começo. Fiquei de costas para todos enquanto comia aqueles doces maravilhosos, com a esperança de que ninguém reparasse em minhas bochechas vermelhas.

Depois de umas seis músicas, o soldado Woodwork surgiu. Como Katharine, ele escolhera usar seu uniforme.

— Senhorita Heloísa — disse ele, inclinando a cabeça —, posso ter a honra desta dança?

Sua voz era alegre e terna. Me senti contaminada por seu entusiasmo e não pensei duas vezes antes de pegar em sua mão.

— Com certeza, senhor — respondi. — Devo preveni-lo, porém, de que não sou muito boa.

— Não tem problema. Iremos devagar.

Seu sorriso era tão convidativo que eu nem me preocupei com a minha péssima aptidão para dança. Me deixei levar alegremente para a pista.

A música era animada, assim como a personalidade dele. Ele falou o tempo todo e foi difícil acompanhar seu ritmo.

— Você parece completamente recuperada da nossa trombada do outro dia — brincou Woodwork.

— Foi uma pena você não ter me machucado — repliquei. — Se estivesse de muletas, pelo menos não precisaria dançar.

Ele riu.

— Fico feliz em ver que de fato você é engraçada, como todos dizem. Falam também que você é a favorita da princesa — disse, como se a opinião da princesa fosse de conhecimento comum.

— Não estou sabendo disso.

Parte de mim ficava com muito ódio quando as pessoas falavam isso. Outra parte ansiava para que ainda fosse verdade.

Olhei por cima do ombro do soldado Woodwork e vi Katharine e Katiane dançando. Senti um nó no estômago.

— Parece que você se dá bem com quase todo mundo. Alguém me disse até que durante o último ataque você levou seus criados consigo para o abrigo da família real. É verdade?

Ele parecia maravilhado. Para mim, tinha sido completamente normal naquele dia proteger as garotas que eu adorava, mas todo mundo considerava meu ato como ousado ou estranho.

— Eu não podia deixá-los para trás — expliquei.

Ele balançou a cabeça, espantado.

— Você é uma verdadeira dama.

— Obrigada — respondi, corando.

Fiquei esbaforida depois da música e fui sentar em uma das muitas mesas espalhadas pelo salão. Me servi do ponche de laranja e comecei a me abanar com um guardanapo enquanto observava as pessoas dançarem na pista. Vi Samantha com Matheus. Pareciam felizes em meio aos rodopios. Ela já tinha dançado duas vezes com Matheus e nada de vir atrás de mim.

Levei tempo para descobrir onde Katharine estava no salão; havia várias pessoas de uniforme. Por fim, a encontrei em um canto, conversando com Katiane, que piscava para ela com um sorriso charmoso nos lábios.

Quem ela pensava que era? Me levantei para mandá-la parar, mas tomei consciência do que esse gesto acarretaria para Katharine e para mim, antes de dar o primeiro passo. Me sentei novamente e voltei a bebericar meu ponche. Quando a música acabou, andei rapidamente na direção de Katharine. Queria ficar próxima o bastante para que ela pudesse me tirar para dançar.

Foi o que ela fez. E foi bom, porque acho que eu não teria conseguido segurar meu gênio. — Mas que diabos foi aquilo? — perguntei em voz baixa, mas claramente indignada.

— Aquilo o quê?

— Katiane esfregando as mãos pelo seu corpo!

— Alguém está com ciúmes — cantou ela em meu ouvido.

— Ah, sem essa! Ela não pode agir assim. É contra as regras!

Olhei ao redor para me certificar de que ninguém, principalmente meus pais, notaria o tom íntimo da nossa conversa. Vi minha mãe sentada, conversando com a mãe de Anderson. Meu pai tinha sumido.

— Isso vindo de você? — disse Katharine em tom de gozação, jogando a cabeça para trás. — Se não estamos juntas, você não pode me proibir de falar com ninguém.

Fiz uma careta de raiva.

— Você sabe que não é assim.

— Como é, então? — ela sussurrou. — Quando penso em você, nunca sei se devo insistir ou deixar pra lá — depois balançou a cabeça. — Não quero desistir, mas se posso ter esperanças, me diga.

Dava para notar o esforço que fazia para manter o rosto tão calmo, para esconder a tristeza na voz. Aquilo também me machucava. Pensar em pôr fim em tudo era como uma facada no peito.

Respirei fundo e confessei.

— Ela tem me evitado. Diz oi e tal, mas tem dado muita atenção às outras pessoas ultimamente. Acho que cheguei a pensar que ela gostava de mim de verdade.

Katharine parou de dançar por uns instantes, chocada com minhas palavras. Se recuperou logo e passou a contemplar meu rosto.

— Não tinha percebido que era esse o problema — disse, calmamente. — Você sabe que quero ficar com você, só que não quero ver você magoada.

— Obrigada — agradeci, encolhendo os ombros. — Me sinto a mais idiota.

Katharine me puxou para si, mantendo ainda uma distância respeitosa ente nós, embora eu soubesse não ser esse o seu desejo.

— Acredite em mim, Lica: qualquer pessoa que deixe passar a chance de ficar com você é uma idiota de verdade.

— Você tentou deixar passar essa chance — lembrei a ela.

— É por isso que sei — afirmou, com um sorriso. Fiquei feliz de termos podido fazer piada sobre o assunto.

Olhei por cima do ombro de Katharine e vi Samantha dançando com Ellen. De novo. Por acaso, ela não me chamaria nem para uma dança?

Katharine falou no meu ouvido.

— Você sabe o que essa festa me lembra?

— O quê?

— O aniversário de dezesseis anos de Fern Tally.

Olhei para ela como se fosse louca. Me lembrava da festa de dezesseis anos de Fern. Fern era uma Seis, e às vezes ajudava minha família quando a mãe de Katharine estava ocupada demais para nos atender. Seu aniversário de dezesseis anos foi uns sete meses depois de Katharine e eu termos começado a namorar. Nós duas fomos convidadas, mas não foi bem uma festa. Um bolo e água, o rádio ligado porque ela não tinha discos, sob a luz fraca do porão inacabado. O diferencial foi essa ter sido a primeira festa em que estive, a não ser pelas festas de família: a garotada do bairro sozinha naquele lugar. E como foi empolgante. Mas não dava para compará-la ao esplendor do que acontecia ao nosso redor no grande salão.

— Como esta festa pode ser parecida com aquela? — perguntei, cética.

Katharine engoliu em seco e falou:

— Nós dançamos. Lembra? Fiquei tão orgulhosa de ter você em meus braços na frente de outras pessoas. Mesmo parecendo que você estava tendo uma convulsão — ela concluiu, piscando para mim.

Aquelas palavras agitaram meu coração. Eu me lembrava daquele dia. Vivi aquela festa na minha cabeça por semanas.

E, de repente, milhares de segredos que Katharine e eu tínhamos construído e guardado entre nós inundaram minha mente: os nomes escolhidos para nossos filhos imaginários; nossa casa na árvore; o lugar atrás do pescoço onde ela sentia cócegas; os bilhetes escritos e escondidos; minhas tentativas fracassadas de fazer sabão caseiro; as partidas de jogo da velha que jogávamos num tabuleiro invisível em sua barriga e usando o dedo para marcar as jogadas...

As partidas em que esquecíamos nossas jogadas invisíveis... Os jogos que ela sempre me deixava ganhar.

— Me diga que vai esperar por mim. Se você esperar por mim, Lica, posso aguentar qualquer coisa — sussurrou ela.

A música seguinte foi uma canção tradicional, e um soldado que estava próximo me chamou para dançar. Eu estava arrasada. Deixei tanto Katharine quanto eu própria sem respostas.

A noite continuou, e mais de uma vez me peguei caçando Katharine com o olhar. Embora eu tentasse parecer natural, apostaria que qualquer pessoa atenta teria notado, em especial meu pai, se estivesse no salão. Mas ele parecia mais interessado em passear pelo palácio em vez de dançar.

Tentei me distrair com a festa e provavelmente dancei com todos do salão, exceto Samantha. Me sentei para descansar meus pés exaustos, e foi nesse momento que ouvi uma voz ao meu lado.

— Senhorita?

Me virei, e Samantha continuou:

— Posso ter a honra desta dança?

O sentimento, aquela coisa impossível de definir, percorreu meu corpo. Por mais rejeitada que me sentisse, por mais vergonha que tivesse passado, quando ela me ofereceu aqueles instantes com ela, tive de aceitá-los.

— Claro.

Ela tomou minha mão e me conduziu à pista. A banda começou a tocar uma música lenta.

Senti uma pontada de felicidade. Ela não parecia irritada ou incomodada. Pelo contrário, Samantha me puxou para tão perto de si que pude sentir seu perfume e seu cabelo contra minha bochecha.

— Fiquei imaginando se conseguiria ao menos uma dança com você — comentei, tentando soar brincalhona.

Samantha deu um jeito de me puxar ainda mais para si.

— Eu estava guardando este momento. Passei um tempo com todos os outros jovens para acabar logo com minhas obrigações. Agora, posso desfrutar do resto da noite com você.

Corei, como sempre acontecia quando ela me dizia coisas assim. Às vezes, suas palavras eram como poemas de um verso só. Não me lembro de tê-la ouvido falar assim comigo ao longo da semana anterior. Meu coração acelerou.

— Você está perfeita, Heloísa. Linda demais para estar nos braços de uma pirata desleixada.

Achei graça e comentei:

— Mas que fantasia você usaria para combinarmos? De árvore?

— No mínimo, de algum tipo de arbusto.

— Pagaria para ver você vestida de arbusto! — falei, entre risos.

— Ano que vem — ela prometeu.

Olhei para ela. Ano que vem?

— Você gostaria? Gostaria de outra festa de Halloween no próximo mês de outubro? — perguntou Samantha.

— E eu estarei aqui no próximo mês de outubro?

Samantha parou de dançar.

— Por que não estaria?

Encolhi os ombros.

— Você me evitou a semana toda. Saiu com outras pessoas. E... vi você e meu pai conversando. Pensei que talvez você estivesse lhe contando que teria de dar um pé na filha dele.

Engoli em seco. Não ia chorar ali.

— Lica.

— Entendi. Alguém tem que sair. Eu sou uma Cinco, Keyla é a favorita do povo...

— Lica, chega — ela protestou com a voz serena. — Eu sou uma idiota. Não fazia ideia de que você veria as coisas assim. Pensei que você estava segura na sua condição.

Havia algo aí que ainda não fazia sentido para mim. Samantha respirou fundo.

— Você quer saber a verdade? Eu estava tentando dar uma chance para os selecionados competirem. Desde o começo, só olhava para você, só queria você.

Ao ouvir essas palavras, corei mais uma vez. Samantha prosseguiu:

— Quando você me revelou seus sentimentos, fiquei tão aliviada que parte de mim não acreditou. Ainda me esforço para aceitar que aquilo foi real. Você ficaria surpresa se soubesse como é raro eu conseguir algo que eu queira de verdade.

Os olhos de Samantha escondiam alguma coisa, uma tristeza que ela não estava preparada para expressar. Ela afastou aqueles pensamentos e continuou sua explicação:

— Tinha medo de estar errada, de você mudar de ideia a qualquer minuto. Procurei uma alternativa adequada, mas a verdade é... — Samantha me olhou firmemente nos olhos — que só existe você. Talvez eu não esteja procurando de verdade, talvez eles não sirvam para mim. Não importa. Só sei que quero você. E isso me assusta. Esperava que você fosse voltar atrás, implorar para sair.

Levei uns momentos para recuperar o fôlego. De repente, todo aquele tempo afastada dela me pareceu diferente. Compreendia essa sensação: de que era bom demais para ser verdade, bom demais para confiar. Me sentia assim todos os dias em que estava com ela.

— Sammy, isso não vai acontecer — sussurrei, com a boca próxima ao pescoço dela. — No máximo, você vai perceber que não sou boa o suficiente.

Os lábios dela chegaram ao meu ouvido.

— Você é perfeita.

Puxei-a contra meu peito, e ela fez o mesmo. Ficamos mais próximas do que nunca. No fundo da minha mente, uma voz me dizia que estávamos em um salão lotado, que ali, em algum lugar, estava minha mãe, provavelmente desmaiando com a cena. Mas nada importava. Naquele momento, parecíamos ser as únicas duas pessoas no mundo.

Afastei um pouco o rosto para ver Samantha, e percebi que para isso teria que limpar as lágrimas dos olhos. Só que eu gostava daquelas lágrimas.

Samantha explicou tudo.

— Quero que as coisas aconteçam no tempo certo. Logo que eu anunciar o dispensado de amanhã, para a alegria do povo e de minha mãe. Não quero apressá-la, de forma alguma. Quero que você veja a suíte de quem se casará comigo, que fica bem ao lado da minha — ela disse, em voz baixa.

Fiquei um pouco zonza só de pensar que ficaria tão perto dela o tempo todo.

— Você deveria começar escolhendo o que vai querer dentro dela. Quero que você se sinta completamente à vontade. Você também terá que escolher mais alguns criados, e decidir se vai querer sua família no palácio ou em uma casa aqui perto. Vou ajudá-la em tudo.

Uma batida fraca do meu coração me sussurrava: “E Katharine?”. Só que eu estava tão entregue a Samantha que mal a escutei.

— Em breve, quando eu encerrar a Seleção, quando pedir sua mão em casamento, quero que isso seja tão fácil quanto respirar para você. Prometo fazer tudo que estiver ao meu alcance para que as coisas sejam assim. O que você precisar, o que você quiser: basta dizer, e farei tudo que puder para ajudá-la.

Fiquei chocada. Samantha me entendia tão bem. Sabia como eu estava nervosa com aquele compromisso, como me amedrontava a perspectiva de ser princesa. Ela estava disposta a me dar até o último segundo que podia e, até lá, me encher de todos os presentes possíveis. Tive outra vez a sensação de que era impossível crer que aquilo estava acontecendo.

— Isso não é justo, Samantha — eu murmurei. — O que eu seria capaz de dar em troca?

Ela abriu um sorriso.

— Tudo o que quero é que você prometa ficar comigo, ser minha. Às vezes, você não parece real. Me prometa que vai ficar.

— Claro que prometo.

Depois disso, apoiei a cabeça sobre seu ombro e dançamos agarradas uma música atrás da outra. Houve um momento em que meu olhar e o de Tetê se cruzaram; ela parecia prestes a morrer de felicidade por nos ver juntas. Minha mãe e meu pai também nos viram, sendo que meu pai sacudia a cabeça como se dissesse “e você achando que ia ser mandada embora”.

E então algo me veio à cabeça.

— Sammy? — chamei, levantando os olhos para ela.

— Sim, querida?

Ser chamada daquele jeito me fazia sorrir.

— Por que você estava conversando com meu pai?

Samantha achou graça na pergunta.

— Ele sabe das minhas intenções. E saiba que ele as aprova de coração, desde que você seja feliz. Foi essa a única condição dele. Assegurei a ele que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para vê-la feliz, e disse que você já parecia feliz de estar aqui.

— E estou.

Senti o peito de Samantha inflar.

— Então ele e eu já temos o que precisamos.

A mão de Samantha deslizou para o fim das minhas costas, me incentivando a não me afastar dela. Seu toque me revelava tantas coisas. Eu sabia que aquilo era real, que estava acontecendo, que eu podia acreditar. Eu sabia que abriria mão das amizades feitas no palácio se necessário, embora tivesse certeza de que Keyla não se importaria nem um pouco com a derrota. E sabia que teria que extinguir a chama que mantinha acesa para Katharine em meu coração. Seria um processo lento, e eu teria de contar para Samantha. Ainda assim, eu a apagaria.

Porque então eu era dela. Eu sabia. Nunca estive tão certa.

Pela primeira vez, eu via. Via o corredor, os convidados se levantando, e Samantha de pé, na outra ponta. Graças àquele toque, tudo fazia sentido.

A festa avançou pela madrugada, até Samantha arrastar nós seis para a sacada na frente do palácio para que pudéssemos ter a melhor visão dos fogos de artifício. Katiane tropeçava pelos degraus de mármore, enquanto Anderson tinha arranjado um chapéu de algum guarda infeliz. O champanhe rolava solto, e Samantha comemorava antecipadamente nosso noivado com uma garrafa apenas para ela.

Assim que os fogos iluminaram o céu, Samantha ergueu sua garrafa.

— Um brinde! — exclamou.

Nós erguemos as taças e esperamos ansiosos. Notei que a taça de Ellen estava manchada com o batom preto que ela tinha usado. Até mesmo Keyla levantava sua taça, discretamente, bebericando em vez de dar goles grandes.

— A todos vocês, belos jovens. E ao meu futuro conjugue! — Samantha puxou.

As pessoas vibraram; cada uma pensou que o brinde era para si. Só que eu sabia a verdade. Quando todas baixaram as taças, vi Samantha — minha quase noiva — me dando uma piscadela antes de beber mais um gole de champanhe. O brilho e a emoção ao longo da noite inteira eram estonteantes. Era como se uma fogueira de felicidade me engolisse por completo.

Não podia imaginar nada forte o bastante para roubar aquela felicidade.


Notas Finais


Fico 100% desestabilizada com esse momento delas na festa de Halloween!!!!!!!


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