História A Seleção - Capítulo 11


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Categorias A Seleção, Karol Sevilla, Ruggero Pasquarelli, Sou Luna
Personagens Karol Sevilla, Ruggero Pasquarelli
Tags A Seleção, Âmbar, Karol Sevilla, Luna, Matteo, Ruggero Pasquarelli, Simon, Sou Luna, Soy Luna
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Palavras 3.584
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS


Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 11 - Capitulo 11


NA MANHÃ SEGUINTE, não despertei com o som da entrada das criadas – elas já estavam lá – ou com o barulho da água sendo preparada para o meu banho – que já estava pronto. Despertei, na verdade, com a luz que atravessava aos poucos minha janela à medida que Yam puxava delicadamente as cortinas ricas e pesadas. Ela murmurava uma canção, absolutamente feliz com sua tarefa.

Já eu não estava pronta para me mover. Meu corpo custou a esfriar depois de tanta agitação e ainda mais a relaxar depois que compreendi o que aquela conversa no jardim acarretaria. Se eu tinha uma chance, precisava pedir desculpas. Seria um milagre se o príncipe permitisse isso.

— Senhorita? Está acordada?

— Nãããããão — grunhi do travesseiro.

Tinha dormido bem menos que o necessário e minha cama era confortável demais. Mas Yam, Delfina e Yim riram do meu grunhido, o que bastou para me fazer sorrir e decidir me mexer.

Aquelas três garotas provavelmente seriam as mais fáceis de lidar durante minha temporada no palácio. Eu me perguntava se elas se tornariam minhas confidentes, ou se o treinamento e a etiqueta as impediria de compartilhar até uma xícara de chá comigo. Embora tivesse nascido na casta Cinco, eu me passava por uma Três agora. E o fato de serem criadas significava que elas eram Seis. Mas eu não tinha problemas com isso. Gostava da companhia dos Seis.

Dirigi-me lentamente para aquele banheiro gigantesco, e cada passo ecoava na vastidão de azulejos e vidros. Pelo espelho dava para ver que Yim observava as manchas de terra na minha camisola. E os olhos cuidadosos de Delfina também as detectaram. Por último, foi a vez de Yam notar. Ainda bem que nenhuma delas fez perguntas. Pensei que elas tentavam se intrometer na minha vida com suas indagações do dia anterior, mas eu estava errada. Era óbvio que estavam extremamente preocupadas com meu conforto. Perguntas sobre o que eu fazia fora do quarto – quanto mais do palácio – seriam bem esquisitas.

Elas apenas tiraram minha camisola com cuidado e me acompanharam até a banheira.

Eu não estava acostumada a ficar nua com outras pessoas por perto – nem mesmo minha mãe ou Jasmin – mas aparentemente não havia como fugir disso ali. As três iam me vestir enquanto eu permanecesse no palácio, de modo que teria que aguentar até partir. Ficava imaginando o que aconteceria a elas quando eu saísse. Seriam destinadas a outras garotas que precisassem de mais atenção conforme a competição afunilava? Será que elas tinham outras funções no palácio e haviam sido temporariamente dispensadas delas? Não seria educado perguntar o que faziam antes ou sugerir que em breve eu sairia, então fiquei calada.

Depois do banho, Anne secou meu cabelo, prendendo metade dele no alto da cabeça com as fitas que eu trouxera de casa. Sua cor azul acentuou as estampas floridas de um dos vestidos que haviam criado para mim. Então escolhi usá-lo. Delfina fez minha maquiagem, leve como a do dia anterior, e Yim passou loção nos meus braços e nas minhas pernas.

Havia uma série de joias à minha escolha, mas resolvi pedir minha própria caixinha. Eu tinha um pequeno colar com um passarinho que era presente de meu pai. O pingente era prateado e combinava com meu broche. Acabei escolhendo um par de brincos do inventário real, mas provavelmente peguei os menores da coleção.

Yam, Delfina e Yim sorriram diante do resultado. Tomei isso como um sinal de que estava decente o bastante para descer para o café. Com reverências e sorrisos, as três me desejaram sorte antes de eu sair. As mãos de Yim ainda tremiam.

Fui para o vestíbulo no alto da escadaria onde todas havíamos nos encontrado. Fui a primeira a chegar, então me sentei em um pequeno sofá para esperar as outras. Aos poucos, elas começaram a dar as caras. Logo percebi a tendência: todo mundo estava fenomenal. Elas tinham tirado o cabelo do rosto, fazendo tranças e cachos intrincados. A maquiagem fora feita com esmero, e os vestidos tinham sido passados com perfeição.

Eu provavelmente tinha escolhido meu vestido mais simples para o primeiro dia. As demais, por outro lado, procuravam chamar a atenção. Vi duas meninas chegarem ao vestíbulo e perceberem que estavam com vestidos muito parecidos. Ambas deram meia-volta e foram trocar de roupa. Todo mundo queria se destacar e ia conseguir, à sua maneira. Até eu.

Todas pareciam ser Um. Eu parecia uma Cinco com um vestido bonito. Pensei ter demorado muito tempo para me arrumar, mas as outras garotas demoraram muito, mas muito mais. Quando Silvia chegou para nos acompanhar à sala de jantar, ainda tivemos que esperar Ambar e Julia, que, fazendo jus à fama, quiseram ajustar os vestidos de manhã.

Uma vez reunidas, começamos a caminhar na direção das escadas. Havia um espelho dourado na parede e demos uma última olhada no visual antes de descer. Vi meu reflexo ao lado de Marlee e Tini. Eu estava mesmo bem simples.

Pelo menos me sentia eu mesma, o que era um pequeno consolo.

Descemos as escadas na expectativa de ser levadas até a sala de jantar, onde faríamos as refeições, segundo tinham dito. Em vez disso, fomos guiadas direto para o Grande Salão, que estava preenchido com fileiras de mesas individuais, cada uma com pratos, copos e talheres. Mas não havia comida. Nem mesmo um cheirinho esperançoso. No canto da frente, encaixado na parede, notei um pequeno jogo de sofás. Um punhado de cinegrafistas espalhados pelo salão filmava nossa chamada.

Entramos em fila e sentamos onde queríamos, já que não havia lugares marcados. Nina estava na fileira em frente à minha, e Tini se sentou ao meu lado. Por mim, tudo bem.

Parecia que várias meninas tinham feito pelo menos uma aliada, e eu via uma em Nina. Tini escolheu o assento ao meu lado dando a entender que queria minha companhia. Ainda assim, não abriu a boca. Talvez ainda estivesse chateada por causa do noticiário do dia anterior. Mas de novo permaneceu em silêncio quando nos encontramos. Talvez esse fosse apenas o jeito dela. Percebi que o pior que podia fazer era não responder quando eu falava, então resolvi pelo menos cumprimentá-la.

— Tini, você está ótima.

— Ah, obrigada — ela agradeceu calmamente.

Ambas nos certificamos de que as equipes de filmagem estavam longe. Não que nossa conversa fosse particular, mas quem queria que eles estivessem em cima o tempo todo?

— Não é divertido usar todas essas joias? Onde estão as suas? — ela perguntou.

— Humm, eram pesadas demais para o meu gosto. Decidi vir mais leve.

— Elas são pesadas mesmo! Sinto como se tivesse um peso de dez quilos na cabeça. Ainda assim, não ia perder a chance. Quem sabe por quanto tempo vamos ficar aqui?

Era estranho. Tini parecia tranquila e confiante desde o começo. Sua aparência e seu modo de ser demonstravam que fora talhada para ser uma princesa de primeira. Era esquisito que duvidasse de si própria.

— Mas você não acha que vai ganhar? — perguntei.

— Acho — ela suspirou — mas é falta de educação dizer isso!

Tini deu uma piscadela, e eu ri. Isso chamou a atenção de Silvia, que tinha acabado de entrar.

— Tsc, tsc. Uma dama nunca ergue a voz além de um leve suspiro.

Todo e qualquer murmúrio cessou. Fiquei imaginando se as câmeras tinham captado meu erro. Minhas bochechas esquentaram.

— Olá mais uma vez, senhoritas. Espero que tenham tido uma noite de muito descanso após o primeiro dia no palácio, porque é agora que nosso trabalho começa. Hoje, começarei a ensinar a vocês etiqueta e comportamento. Será um processo que durará todo o tempo que as senhoritas ficarem aqui. Por favor, saibam que qualquer mau comportamento de sua parte será relatado imediatamente à família real. Sei que parece cruel, mas este não é um joguinho qualquer. Alguém desta sala será a próxima princesa de Illéa. Não é uma tarefa fácil. As senhoritas devem procurar se elevar, não importa sua condição prévia. Serão damas de alto a baixo. E, nesta manhã mesmo, receberão sua primeira aula. É muito importante ter modos à mesa, e antes de fazer uma refeição na presença da família real, as senhoritas devem conhecer a etiqueta. Quanto mais rápido terminarmos a aula, mais rápido as senhoritas tomarão seu café da manhã. Assim sendo, levantem o rosto, por favor.

Silvia começou a explicar que seríamos servidas pela direita, qual copo deveríamos usar para cada bebida e que nunca, jamais, deveríamos pegar um pedaço de bolo com as mãos. Deveríamos sempre usar o pegador. As mãos deveriam permanecer no colo quando não eram usadas, sobre o guardanapo. Não deveríamos falar a não ser que alguém falasse conosco. Claro, poderíamos conversar em tom baixo com as pessoas ao lado, mas sempre a uma altura adequada ao palácio. Ela me encarou com seriedade ao passar essa última instrução.

Silvia continuava a falar com seu tom de voz elegante, atiçando meu estômago. Eu estava acostumada a fazer três refeições em casa, ainda que a comida fosse pouca. Precisava de comida. Já estava ficando um pouco emburrada quando escutei alguém bater à porta. Dois guardas abriram caminho, e então o príncipe Matteo entrou.

— Bom dia, senhoritas — ele disse.

O alvoroço no salão foi evidente: umas endireitaram as costas, outras tiraram o cabelo do rosto e algumas ainda ajeitaram o vestido. Não olhei para Matteo, mas para Tini, cujo peito se movia em ritmo acelerado. Ela o observava de tal maneira que fiquei envergonhada de ter notado.

— Majestade — disse Silvia, com uma breve reverência.

— Olá, Silvia. Se não se importa, gostaria de me apresentar a essas jovens.

— Absolutamente — ela respondeu, inclinando-se mais uma vez.

O príncipe Matteo correu os olhos pelo salão e deparou comigo. Nossos olhares se encontraram por um instante e ele sorriu. Eu não esperava isso. Imaginava que já teria mudado de opinião sobre o modo que me tratara na noite anterior e que me daria uma bronca na frente de todas por causa do meu comportamento. Mas talvez ele não tivesse ficado nem um pouco irritado. Talvez tivesse me achado divertida. Com certeza ele ficava extremamente entediado ali. Não importava: aquele breve sorriso me fez acreditar que a experiência pudesse não ser tão ruim no fim das contas. Apeguei-me à decisão que tinha tomado na noite anterior e em minhas esperanças de que o príncipe ouvisse minhas desculpas.

— Senhoritas, se não lhes incomodar, chamarei cada uma de vocês para me conhecer individualmente. Estou certo de que estão com fome, assim como eu, de modo que não tomarei muito do seu tempo. Por favor, perdoem-me se demorar para gravar seus nomes. É que há muitas de vocês.

Houve uma explosão de risadas. Rapidamente, ele se dirigiu à garota na ponta direita da primeira fileira e a acompanhou até os sofás. Os dois conversaram por alguns minutos e se levantaram. Ele se inclinou diante dela, que devolveu a reverência. Ela voltou para sua mesa e falou com a garota ao lado, então o processo se repetiu. As conversas duravam poucos minutos e as vozes saíam abafadas. Ele queria conhecer as meninas em menos de cinco minutos.

— O que será que ele quer saber? — Nina perguntou virando-se para mim.

— Talvez a lista de atores que você acha mais bonitos. Faça uma lista mental agora — sussurrei de volta, e tanto Nina como Tini riram baixo.

Não éramos as únicas conversando. Por todo o salão podiam-se ouvir vozes crescendo como um ruído suave à medida que tentávamos nos distrair até que nossa vez chegasse. Isso sem falar nos cinegrafistas que zanzavam pelo salão para perguntar às garotas sobre o primeiro dia no palácio, se tinham gostado das criadas e coisas do gênero. Quando pararam perto de Tini e de mim, deixei que ela respondesse.

Eu observava o tempo todo o sofá enquanto cada uma das Selecionadas era entrevistada. Algumas permaneciam calmas e senhoris, outras pareciam nervosas de tanta emoção. Nina corou como um pimentão quando foi sua vez de ir até o príncipe e voltou radiante. Tini ajustou o vestido diversas vezes, num tique nervoso. Eu estava começando a suar quando ela voltou, o que significava que era minha vez. Respirei fundo e me preparei. Ia pedir um favor enorme.

Ele se levantou para ler meu broche conforme eu me aproximava:

— Luna, certo? — ele perguntou, com um sorriso brincalhão nos lábios.

— Sim, sou eu. E sei que já ouvi seu nome antes, mas poderia refrescar minha memória? — eu disse, pensando se era má ideia começar com uma piada, mas Matteo riu e me pediu que sentasse.

Ele se inclinou para a frente e perguntou:

— Você dormiu bem, minha querida?

Não sei a expressão que fiz quando ele me tratou assim, mas os olhos dele brilharam de entusiasmo.

— Ainda não sou sua querida — rebati, dessa vez com um sorriso. — Mas dormi. Assim que me acalmei, dormi muito bem. Minhas criadas tiveram que me derrubar da cama. Estava confortável demais.

— Fico feliz em saber que você estava confortável, minha... Luna — ele se corrigiu.

— Obrigada — respondi.

Minhas mãos nervosas torciam a saia do vestido enquanto minha boca se preparava para dizer as palavras certas:

— Mil desculpas por ter sido grossa. Enquanto eu tentava dormir, tomei consciência de que, embora a situação me pareça estranha, não posso culpá-lo. Não é sua culpa que eu tenha me metido em tudo isso, e essa história de Seleção não é ideia sua. Além disso, você me tratou com simpatia naquele momento de dor, enquanto eu fui, bem, péssima. Poderia ter me expulsado ontem mesmo, mas não o fez. Obrigada.

O olhar de Matteo parecia terno. Aposto que todas as garotas antes de mim se derreteram quando ele as olhou assim. Já eu tendia a ficar incomodada, mas era óbvio que aquele olhar era comum a ele. O príncipe abaixou a cabeça por um instante. Quando me olhou de novo, pôs os cotovelos nos joelhos e apoiou o queixo nas mãos, como se quisesse me fazer entender a importância do que estava por vir.

— Luna, você tem sido muito sincera comigo até agora. É uma qualidade que admiro profundamente. Vou pedir-lhe que responda uma pergunta, se não for um incômodo.

Concordei com a cabeça, um pouco receosa do que ele podia querer saber. O príncipe se inclinou ainda mais na minha direção.

— Você diz que está aqui por engano. Isso me faz supor que não quer ficar. Há alguma possibilidade de nutrir qualquer tipo de... sentimento amoroso por mim?

Não pude evitar um leve tremor. Eu não queria de forma nenhuma magoá-lo, mas também não podia enrolar.

— Vossa Majestade é muito gentil e atraente... e atencioso.

Ele sorriu ao ouvir essas palavras. Continuei, em voz baixa.

— Mas tenho motivos muito pertinentes para achar que não.

— Poderia explicá-los? — seu rosto não demonstrava, mas sua voz revelou a decepção causada por minha rejeição imediata. Imaginei que ele não estava acostumado a isso.

Eu não queria falar dos motivos, mas não consegui pensar em outro modo de fazê-lo entender. Abaixando ainda mais a voz, contei a verdade:

— Acho... acho que meu coração está em outro lugar.

Senti meus olhos marejarem.

— Por favor, não chore! — sua voz baixa estava cheia de preocupação. — Nunca sei o que fazer quando as mulheres choram!

Isso me fez rir, e a ameaça de lágrimas bateu em retirada. Era impossível não notar a sensação de alívio no rosto dele.

— Você quer que eu lhe deixe voltar para seu amado hoje? — ele perguntou.

Era evidente que minha preferência por outro o incomodava, mas em vez de escolher o ódio, ele demonstrou compaixão. Esse gesto me fez confiar nele.

— Esse é o problema... Não quero ir para casa.

— Mesmo?

O príncipe levou as mãos à cabeça, e eu não pude deixar de rir de seu ar perdido.

— Posso ser totalmente sincera com você? — perguntei.

Ele concordou.

— Preciso ficar aqui. Minha família precisa de mim aqui. Mesmo que me deixasse ficar apenas uma semana, já seria uma dádiva para eles.

— Você quer dizer que precisa do dinheiro?

— Sim.

Senti-me mal por admitir. Talvez tivesse dado a impressão de que o estava usando. Na verdade, acho que estava mesmo. Mas prossegui:

— Também há... certas pessoas na minha província — levantei os olhos para ele — que eu não aguentaria ver no momento.

Matteo assentiu com a cabeça como quem tinha entendido, mas não disse nada.

Hesitei. Pensei que o pior que podia acontecer seria mesmo ir embora. Então continuei:

— Se me permitir ficar, mesmo que por pouco tempo, podemos fazer um trato — propus.

Ele arregalou os olhos:

— Um trato?

Mordi os lábios:

— Se me deixar ficar... — eu estava prestes a dizer algo bem idiota, mas prossegui. — Tudo bem, veja só. Você é o príncipe. Fica ocupado o dia inteiro ajudando a administrar o país e tal, e agora tem que encontrar tempo para escolher uma entre trinta e cinco, ou melhor, trinta e quatro garotas. É pedir muito, não acha?

Ele concordou. Dava para notar que se cansava só de pensar nisso.

— Não acha que seria muito melhor se tivesse alguém aqui dentro? Alguém para ajudar? Tipo... uma amiga?

— Uma amiga? — ele perguntou.

— Sim. Se me deixar ficar, posso ajudar. Serei sua amiga.

Minhas palavras o fizeram sorrir. Retomei minha proposta:

— Não precisa se incomodar em correr atrás de mim. Já sabe que não sinto nada por você. Mas pode falar comigo a qualquer momento e tentarei ajudar. Ontem à noite você disse que estava em busca de uma confidente. Bem, posso ser essa pessoa enquanto não encontrar a definitiva. Se quiser...

Seu rosto demonstrava um afeto contido.

— Conheci quase todas as garotas deste salão e não penso em outra que seria uma amiga melhor que a senhorita. Será um prazer deixá-la ficar.

É impossível descrever o alívio que senti.

— Você acha — perguntou Matteo — que eu ainda posso chamá-la de “minha querida”?

— Sem chance — cochichei.

— Continuarei tentando. Não costumo desistir — garantiu, e acreditei em suas palavras. Ia ser muito chato se ele continuasse mesmo com aquela história.

— Você chamou todas de “minha querida”? — perguntei, voltando o rosto para o resto do salão.

— Sim, e todas parecem ter gostado.

— É exatamente por isso que eu não gostei.

Eu me levantei. Matteo ainda ria quando deixou seu sofá. Normalmente eu faria cara feia, mas era até divertido. Ele fez uma reverência. Eu a devolvi e voltei ao meu lugar.

Estava com tanta fome que o tempo que o príncipe gastou para entrevistar as moças das outras fileiras pareceu uma eternidade. Mas por fim a última garota estava de volta ao seu lugar, e eu já sonhava ansiosamente com meu primeiro café da manhã no palácio.

Matteo então caminhou até o centro do salão.

— Aquelas a quem pedi que permanecessem, por favor, fiquem em seus lugares. As outras podem acompanhar Silvia até a sala de jantar. Em breve vou juntar-me a vocês.

Ele tinha pedido que algumas ficassem? Será que aquilo era bom?

Levantei-me como a maioria das outras e comecei a caminhar. Ele  provavelmente só queria passar mais um momento com as que ficariam. Vi que Tini era uma delas. Sem dúvida ela era especial, tinha nascido com a aparência de uma princesa. Não cheguei a conhecer as demais. Não que elas quisessem me conhecer. As câmeras ficaram para trás a fim de capturar aquele momento – o que quer que fosse – que estava para ocorrer. O resto de nós seguiu seu caminho.

Entramos na sala dos banquetes e lá estavam, com um ar mais majestoso que nunca, o rei Clarkson e a rainha Amberly. Também estavam ali mais câmeras, prontas para captar nosso primeiro encontro com o casal real. Hesitei, pensando se deveríamos voltar para a porta e esperar que nos chamassem para entrar. Mas quase todas as meninas – também um pouco hesitantes – avançaram. Fui rapidamente para meu assento, na expectativa de não ter atraído a atenção de ninguém.

Silvia entrou segundos depois e dominou a cena.

— Senhoritas — ela disse — receio não termos chegado a conversar sobre isso. Sempre que entrarem em um cômodo onde o rei ou a rainha estiverem, ou se Vossas Majestades entrarem em um cômodo onde vocês estiverem, a atitude correta é uma reverência. Em seguida, quando lhes responderem, endireitem o corpo e tomem assento. Vamos fazer juntas agora?

Todas fizemos uma reverência na direção da mesa.

— Bem-vindas, garotas — disse a rainha. — Por favor, sentem-se em seus lugares e fiquem à vontade no palácio. É um prazer recebê-las.

Sua voz tinha um tom agradável. Era calma como a própria rainha, mas nem um pouco mecânica.

Como Silvia tinha explicado, as serventes encheram nossos copos com suco de laranja. Nossos pratos vinham em grandes travessas cobertas por uma redoma, que os mordomos retiravam na nossa frente. Meu rosto foi golpeado por uma nuvem de vapor perfumado vinda das panquecas. Felizmente, as exclamações de admiração em voz baixa abafaram o ronco do meu estômago.

O rei Clarkson abençoou nossa refeição e todas começamos a comer. Minutos mais tarde, Matteo entrou para ocupar seu lugar. Antes que pudéssemos nos mover, ele avisou:

— Por favor, senhoritas, não se levantem. Desfrutem do café da manhã.

Ele se dirigiu à mesa principal, beijou a mãe no rosto, apertou o ombro do pai com a mão firme e se sentou à esquerda dele. Comentou algo com o mordomo mais próximo, que riu discretamente. Por fim, passou a cuidar de seu prato.

Tini não tinha vindo ainda. Nem as outras garotas. Olhei para os lados, confusa, e contei quantas faltavam. Oito. Oito garotas estavam ausentes. Kriss, que se sentava à minha frente, respondeu à pergunta que eu fizera com os olhos.

— Elas foram embora — afirmou.

Embora?

Eu não conseguia imaginar o que poderiam ter feito em menos de cinco minutos para desagradar Tini, mas imediatamente fiquei grata por ter sido honesta.

Era simples assim, já éramos apenas vinte e sete.



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