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História A senhora das Sombras - Capítulo 50


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Notas do Autor


Olá! Voltei, com novidades nas notas finais, nos vemos lá!

Capítulo 50 - Capítulo L


Eu estaria mentindo se dissesse que não esperei por esse momento, sabia que aconteceria, mais cedo ou mais tarde ele viria me procurar. Até então não sabia ao certo como reagiria, deixei para decidir isso quando estivéssemos frente a frente. E veja só, tudo o que consigo sentir por ele se resume a pena e raiva.

— Filha? — Questionei fria. — Eu não sou sua filha.

Completei sentindo a raiva crescer no passar dos segundos. Se este homem, do qual herdei o sangue, tivesse feito o favor de ao menos deixar claro para a minha mãe que ele é, quem eu poderia ser, isso teria me poupado uma série de problemas, pois eu tenho certeza que se a mamãe soubesse que eu poderia ser uma licantropa teria me contado isso, já que a magia é algo relativamente fácil de esconder, mas a licantropia não é. Ter esses genes, em sua forma dominante é ter um destino manchado de sangue. E tenho certeza que ele sabe disso, pois teve o seu próprio.

— Gisela, imagino que deva estar confusa e...

Ele falou disposto a prosseguir no assunto. Seu ajudante permaneceu atrás da cadeira, calado.

— O meu nome é Giselle. — Corrigi ainda presa ao sentimento de raiva, assim como, no momento, ele estava preso àquela cadeira. —  E não, eu não estou nem um pouco confusa em relação ao senhor.

Sua expressão era contida, devo dizer que os olhos pareciam marejados. Como se estivesse resignado, também pudera, está em uma situação que não pode controlar. Não só isso, seu emocional parece afetado, é fácil ver, basta olhar para ele, franzino, o rosto que quando mais jovem poderia tranquilamente estar em algum comercial sobre estética em um canal de tevê agora carregava olheiras profundas, estava tão magro que a pele começava a grudar nos ossos, seu tom de pele indicava que não tomava sol há muito tempo.

— Entendo a sua raiva, mas por favor, me deixa explicar.

Ele pediu calmamente. Senti pena de sua condição, mas um crescente desprezo por sua presença. Era patético, vir até aqui para me dar uma desculpa qualquer. Desculpa nenhuma que pudesse me dar seria crível. Dezoito anos não são dezoito dias, e ele sabia da possibilidade e das consequências.

— O que vai me dizer? — Desafiei com certo desdém. Mina me olhava como se estivesse vendo outra pessoa. Mas sou eu aqui, simplesmente sou, com o sangue fervendo de raiva. Não pelo abandono em si, mas por desconhecer essa maldita herança genética. — Que sabia da possiblidade de eu ser sua filha e ignorou isso por dezoito anos? Que agora sente algum tipo de peso na consciência? Não precisa, eu estou muito bem sem você.

Desdenhei. Não, agora de fato não adianta ter crise de consciência, nem nada disso. Eu não quero reviver essa história. Não o quero na minha vida. E seu olhar apático não me convenceu de que isso de fato é o remorso lhe corroendo as vísceras. Sinto que há algo maior, um motivo mais crível para a sua visita. Ninguém acorda da noite para o dia e decide ser pai depois de dezoito anos sem conhecer a filha.

Ele levou às mãos ao peito e fez uma careta de dor. Foi realista, devo admitir, mas não confio nem um pouco, não diria que foi ou não uma simulação para me comover.

— Por favor, moça. Ela está muito mal, pelo menos ouça o que ele tem a dizer.

Pediu o ajudante. Olhei para a rua, estávamos sendo assistidos por pelo menos cinco pessoas, minhas vizinhas e sua incontrolável mania de procurar por fofocas. Abri a porta e os convidei a entrar. Tive uma vontade súbita de ver até onde esse homem iria. Que desculpa me daria para ter vindo aqui depois de tanto tempo, o que me diria para justificar o fato de só ter procurado saber se eu tenho ou não o sangue dele quando sua vida ficou por um triz.

Mina cochichou um “tem certeza?” para mim, assenti. Já que ele veio até aqui, que tenha a chance de me dizer o seu discurso perfeitamente ensaiado, eu imagino que tenha um pronto.

— Eu quero que saiba que só aceitei que entrassem para evitar um vexame lá fora, sei que seu quadro é estável e que apesar de ainda estar muito fraco, não vai morrer. Não me trate como se eu fosse uma criança.

         Avisei de antemão assim que entramos na sala de estar. O ajudante guiou a cadeira para perto do sofá e se manteve calado atrás do sofá de camurça da mamãe. Mina foi para o corrimão e lá ficou, sem se intrometer. Me sentei no sofá e cruzei as pernas esperando suas desculpas ensaiadas.

— Está bem informada. — Comentou ele segurando o rosto com a mão esquerda apoiada no braço da cadeira, parecia realmente cansado.

— Te doei sangue, é lógico que eu ia ligar para o hospital para saber se tinha ou não dado certo.

Repliquei. Todos observavam minha reação, pareciam surpresos. É verdade que se ele estivesse morrendo eu faria o possível para evitar, passando por cima de todo o rancor, afinal, tenho o seu sangue, mas não é o caso. Ele está fraco, mas não morrendo. Não é como se depois de tudo isso eu fosse correr para abraçá-lo e chamá-lo de papai.

Sr. Licaux correu os olhos pela sala com um certo desdém, sutil, porém, perceptível se prestasse atenção. Ele é milionário, minha mãe havia me dito quando mostrou a foto dele, naturalmente esta casa lhe parece bem pouco. Olhou para tudo, principalmente para os porta-retratos, sua atenção se voltou para um que estava em cima da mesinha lateral. Ele o pegou, eu tinha seis anos quando aquela foto foi tirada, mamãe tinha me levado para o aeroporto, estávamos esperando o papai, ele ainda era investigador nessa época. Tinha chegado com a mala dele e uma boneca na mão para mim, uma Barbie de vestidinho rosa, coincidentemente a mesma cor do vestido que a mamãe pôs em mim naquele dia. Minha mãe foi quem havia tirado aquela foto, do papai comigo no colo segurando a caixa com a boneca que eu tinha acabado de ganhar.  

— Me arrependo muito, foi uma pena não ter visto uma criança tão bonita crescer.

Sr. Licaux comentou devolvendo a foto.

— Por quê? Se eu fosse feia não teria sido uma pena perder a minha infância?

Devolvi. Queria que ele parasse de rodeios e dissesse logo o que o trouxe aqui, tenho muito o que fazer hoje.

— Não foi o que eu quis dizer, só quis fazer um elogio, não sabia que eu tinha uma filha tão bonita. — Respondeu com um sorriso um tanto quanto forçado.

— O senhor veio de Jacksonville até aqui só para dizer que eu sou bonita? Está atrasado, eu sei perfeitamente disso.

Falei apontando para a parede atrás dele, ele mesmo virou a cadeira com o controle. Lá estava o mural que a mamãe fez para mim, tinha as duas faixas de miss, cada uma posta do lado do quadro correspondente aos anos que ganhei. Tinha partes de revistas também e de propagandas que fiz como modelo. Não estou com humor para elogios vazios.

 — Puxou a personalidade da sua avó, pelo visto nada da sua mãe. — Ele disse simulando não ter se ofendido com o meu comentário. — Quer ir direto ao assunto, não é?

— Me faça esse favor, tenho compromissos.

Concordei. Ele pensou um pouco, depois fez o que pedi.

— Descobri que a vagabunda da minha mulher me fez criar os três filhos do amante. Joguei ela na rua, claro, mas ela se foi com metade do meu dinheiro e levou os filhos. Estou sozinho.

Sussurrou de cabeça baixa, fitando o assoalho como se estivesse envergonhado. Continuei sentada onde estava, na mesma posição.

— Eu deveria estar comovida?

Desdenhei. O ajudante enfim resolveu se sentar no outro sofá, ainda que tenha permanecido calado. Mina continuava em sua expressão de surpresa.

— Minha família me deu as costas, Giselle. Você é a única filha que ainda me resta. — Insistiu Sr. Licaux. Me levantei e fui até ele, peguei de volta o porta-retratos e mostrei novamente.

— Já disse que não sou sua filha, esse que está nessa foto comigo, esse sim é o meu pai, o senhor é apenas o meu progenitor.

Queria ter sido mais firme, mas minha voz falhou. É difícil demais descobrir que de certa forma, vivi uma mentira, estar frente a frente com um desconhecido que a genética diz que é o meu pai biológico, enquanto passei a vida toda acreditando que fosse outro, e simplesmente não consigo aceitar que não é. Não, nem a ciência e nem o tempo podem me roubar a certeza que eu tenho de que Phin Robellis, o homem que realmente me criou é o meu pai. Nada que digam vai mudar isso.

— Eu não tinha certeza! — Exclamou ele deixando sua aparente calma de lado. — Além do mais, sua mãe voltou com o Phin, o que queria que eu fizesse?

Questionou. De fato, não está no controle da situação, e não poderia estar mais longe dele, isso o irrita, eu sei.

— Se quer conversar à sério comigo mande o seu ajudante te esperar no carro.

Falei. Queria que de uma vez ele falasse seus motivos para vir, crise de identidade não era, pelo menos não é só isso, de alguma forma sinto que não. E quero forçá-lo a acabar com esse teatro. Aliás, tenho um bom palpite do que ele quer, e apostaria todas as minhas fichas nesse palpite.

— Ele é meu braço direito, pode dizer. — Falou ele insistindo para que o outro ficasse.

— O significado do seu sobrenome é do conhecimento dele? — Quis me certificar.

— Sim, eu sou seu primo, Giselle. — Disse o ajudante finalmente reencontrando a própria voz.

 Não pareciam fisicamente, nem se as fotos de Sr. Licaux fossem postas lado a lado com esse homem. A tonalidade escura da pele, os traços do rosto, os cabelos crespos, se ele não tivesse dito que eram parentes eu não saberia.

— Que seja. — Bufei cruzando os braços e me afastando um pouco. — Se você fosse humano eu não queria que fizesse nada, se queria ser um crápula que fosse. Mas você não é um humano comum, portanto extrapola o limite da canalhice!

Disparei com toda a raiva reprimida durante esses dias. Minha mãe eu consegui perdoar, mas ele não, ele nem que eu tentasse conseguia chegar perto de realmente perdoar. Ao que parecesse os genes da licantropia são recessivos em mim, mas isso não anula o fato de que poderiam não ser. Se fossem dominantes a minha vida teria sido um inferno desde cedo, eu havia pesquisado essa parte quando descobri, não gostei nada do que li e muito menos do que ouvi da Evangeline quando falei com ela dias atrás.

— Queria que eu exigisse um teste de DNA? — Perguntou ele como se essa fosse uma ideia idiota.

Imagino que na cabeça de alguém tão despreocupado quanto ele parecesse mesmo. Minha mãe havia voltado com o papai, estavam bem, foi só um caso, que ficasse por isso mesmo. Só que esse caso, poderia ter gerado um monstro, e esse monstro seria eu. Exatamente por não saber como lidar.

Pelo que descobri, licantropos de berço são muito diferentes dos transformados. Naturalmente só podem ser gerados por outros licantropos, por serem considerados perigosos suas famílias tomam uma série de medidas para evitar que causem danos e acabem por revelar o segredo. Minha mãe saberia disso tarde demais se eu fosse assim. Ela disse não saber desse sobrenome até abrir o resultado dos exames, disse que na escola ele usava só o primeiro e o nome do meio, como não estudavam na mesma sala e mal se conheciam ela não percebeu.

— Queria. — Disse mais alto do que gostaria. — Queria que você tivesse sido homem e perguntado a minha mãe se eu era ou não sua filha, não precisa me amar, não precisava me criar, só precisa falar quem você é. Você não sabe o que eu passei por desconhecer a minha herança genética, principalmente de sua parte. Eu poderia me transformar, poderia matar pessoas e você nem para me alertar disso!

Acusei. A transformação completa dificilmente acontece com mulheres, segundo minha tia e Evangeline, na maioria das vezes adquirimos a força e a fúria assassina guiada pela lua se não tomarmos as precauções. Eu quis esquecer dessa parte, mas não consegui.

— Eu estou fazendo isso agora!

Ele rebateu. Eu ri, é uma situação patética demais. Eu esperava ao menos uma desculpa mais criativa.

— Agora é tarde! Agora eu definitivamente não preciso do senhor para nada na minha vida.

Falei prestes a mandá-lo ir embora.

— Eu coloquei você como única herdeira no meu testamento, ainda me resta muito dinheiro.

Ele falou olhando para mim, quase que implorando.

— Pois queime esse testamento. — Falei retribuindo o seu olhar, só que o meu, não era imploratório, era decepcionado. — Não ache que vai apagar os últimos dezoito anos com o seu dinheiro, Sr. Licaux. Vão embora, os dois!

— Eu irei, mas não em definitivo, filha.

Foi o que ele disse antes de guiar a cadeira para fora, meu primo foi com ele e o ajudou a sair. Me sentei no sofá, com as mãos apoiando a cabeça. Na tentativa de conseguir entender tudo o que estava acontecendo. Era demais, simplesmente é coisa demais para assimilar. Não sei se vou conseguir muito tempo mais. Não vi quando Mina saiu da sala, só a vi me estender um copo com água e se sentar ao meu lado.

 

 

Depois de algum tempo, finalmente consegui reunir alguma força para sair daquela casa. Mina acabou não vindo comigo, havia recebido um telefonema da tia que mora na Romênia, ela estava no aeroporto, veio ver como as coisas estão. Achei que talvez isso fosse um foco na vida de Mina, ao menos a tia parecesse ter mais juízo do que a mãe dela.

Quando cheguei Sua Alteza estava me esperando na porta, com sua expressão convencida de sempre.

— Pronta para a primeira aula? — Perguntou ele com seu deboche de praxe.

Assenti. Na verdade, nem sei se estou pronta para alguma coisa, só o que sei é que estou cansada de ser sempre a última a saber das coisas, e principalmente, de ser tão fraca, tanto em habilidade quanto em questões emocionais.

— Dê o seu melhor, professor. — Retribuí.

Vlad sorriu e me estendeu o braço. Entramos.

...

 


Notas Finais


Pois bem, andei relendo A Senhora das Sombras e decidi que dá para melhorar, assim sendo, a estou reescrevendo de forma mais detalhada e em 3ª pessoa (porque agora sei melhor o que estou fazendo com ela), enfim, gosto muito dessa história e quero fazer um trabalho digno de vocês, minhas queridas. Contudo, não irei excluir essa, continuarei normalmente até o fim dela, a nova será escrita paralela a esta, não se preocupem. ^^
Eis aqui o link da nova versão.
https://www.spiritfanfiction.com/historia/reescrita-a-senhora-das-sombras-18761465


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