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História A senhora das Sombras - Capítulo 53


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Notas do Autor


Oláaa!
Era para eu ter postado dia 15 (meu aniversário), mas estou sem notebook e pelo celular demoro mais ainda 😹. Desculpem, o Cap é grande pra compensar 🍷💅🏻💖.
Espero que gostem 💋💋💋

Capítulo 53 - Capítulo LIII



    Eu tinha consciência de estar sonhando, mas parecia tão real. O incêndio tinha atingido proporções colossais, as chamas azuis iam aos poucos se tornando verdes, do exato tom dos meus olhos. Eu não saberia dizer que lugar era aquele e nem quem eram aquelas pessoas porque minha visão ficava embaçada toda vez que eu tentava olhar para o rosto de alguém, só sei que algumas delas eram afetadas pelas chamas, agonizavam e quando arremessadas dentro do fogo, eram incineradas em questão de segundos. Outras pareciam não sentir absolutamente nada. Entre eles haviam uns com feições humanas, outros lupinas e haviam aqueles em que eu estava agradecendo por não conseguir mesmo ver direito.

    A tempestade era a pior que eu já havia visto. Os clarões dos relâmpagos eram tão frequentes e o barulho dos trovões era tão alto que parecia sacudir o chão. A chuva caia em gotas tão pesadas que por si só já seriam armas. Foi surreal ver como a chuva não apagava o fogo, como se trabalhassem juntos. Tanto o fogo quanto a tempestade igualmente, enfraqueciam e debilitavam tornando a maioria dos oponentes um alvo fácil. Alguns raios atingiam o chão e a descarga elétrica eliminava na hora quem estivesse no local de impacto.

    Aquele lugar já tinha sido uma rua, porém, agora estava muito arrasado, casas haviam sido destruídas, haviam tantos buracos no chão que quase não dava mais para ver o asfalto, o som de grunhidos, uivos, gritos e gemidos de dor ecoavam e excitavam o combate cada vez mais feroz. Haviam partes desmembradas de corpos, tanto "humanas" quanto animalescas. As chamas se tornavam cada vez mais intensas, atingido dezenas de uma só vez.  

    Um dos lados parecia tentar manter uma posição, o outro nenhum empenho fazia para tal, apenas atacava com tudo. Os socos dados eram tão fortes que alguns dos atingidos voavam a metros de distância, outros eram simplesmente dilacerados, seja por garras, espadas, lanças ou o quer que fosse.  No sonho, eu estava um pouco distante dali, em uma sala bastante iluminada. Eu estava sentada em um círculo de fogo, e mesmo estando longe e de olhos fechados, sabia de todos os detalhes que estavam acontecendo no campo. De alguma maneira eu controlava aquele fogo tão bem, que poderia direcioná-lo para alvos em específico, sem causar prejuízo para quem estivesse fora da minha mira. 

    Poderia incinerar alguns alvos em questão de segundos, outros de minutos e alguns deles eu só conseguia atordoar. A minha cabeça doía tanto pelo esforço de manter o feitiço funcionando quanto por manter minha mente fechada quando mais de uma pessoa tentava controlá-la ao mesmo tempo. Ao contrário de mim, Vlad estava liderando bem no meio do campo, não dava para ver seu rosto, mas pelo físico, as roupas e a pompa de se manter no fronte com certeza era ele. 

Abri os olhos, me sentindo um pouco zonza e por alguns segundo me mantive quieta, apenas olhando ao redor, tentando assimilar o que tinha visto.

O cheiro de café e pão quentinho melhorou bastante a tensão do sonho.

     Vlad estava sentado na ponta da cama, de costas para mim. Vestido e talvez achando a chuva fina que caia muito interessante já que não desviava os olhos da janela de vidro, cuja cortina vermelha tinha sido aberta um pouco. Segurei o lençol e me sentei na cama, sentindo a tontura diminuir aos poucos.

     Notei que tinha uma bandeja apoiada no criado mudo, com alguns pães, maçãs e café. Tinha também uma jarra de suco. Meu estômago pareceu se recuperar mais cedo do que meu cérebro.

— Bom dia, minha rainha.

     Ele disse quando me inclinei para lhe dar um beijo na bochecha, segurou a mão que eu havia repousado em seu ombro por alguns instantes. Tentou disfarçar, mas estava tenso demais para conseguir.

    Suspirei, ontem definitivamente tinha ficado no passado e esse não foi o despertar que planejei. 

— E por que esse dia não parece assim mais tão bom?

    Minha pergunta saiu como uma aguda reclamação. Vlad se virou para mim, um sorrisinho malicioso se abriu por eu estar coberta apenas pelo lençol, porém, passageiro demais para eu poder ter alguma esperança de que problemas não estariam a caminho.

     Ele me deu um selinho e se afastou.

— Precisamos conversar depois, seriamente. — sua voz saiu baixa e suave por puro esforço. Algo o estava incomodando bastante — Por hora se vista e tome o seu café, amor meu.

— O que aconteceu? 

     Perguntei só agora notando que tinha um peça de roupa estendida na poltrona perto da porta, junto com uma mala de mão. 

— Vista-se e desça, lá embaixo te mostro — repetiu me dando um beijo na testa e se levantando — Acredito que não vá entender se eu apenas falar e já é hora de você saber certos detalhes.

     E com isso estava claro que o dia não estava bom, nada bom. Vlad parecia pensativo demais, ouso a dizer preocupado demais.

— Estarei te esperando no corredor do segundo piso.

Ele completou desaparecendo porta afora. 

       Bufei. Mas, decidida a saber o que estava acontecendo, me levantei e fui explorar o que tivesse na mala, torcendo para que Vlad tivesse o bom senso de lembrar que me disse que iríamos a um baile, não que iríamos dormir fora. Teve, na mala tinha roupa íntima de um lado e uma bolsinha de higiene pessoal de outro.

      Depois de um banho rápido, notei que Luciana deve ter providenciado aquela roupa para mim, pois Vlad prefere me ver de vestido e aquilo era uma calça, o tecido de linho era de um rosa quase branco, um único tom mais escuro do que o esmalte das minhas unhas, elegante sim, mas ainda uma calça. Além de que, um homem não faria essa combinação linda de peças e cores. Peguei ela, a blusa branca lisa e de gola alta, o cinto cuja fivela tinha o formato de uma borboleta e vesti. 

      Luciana tem muito bom gosto há de se admitir. O par de Peep toes eram uma graça, uns sete ou oito centímetros, branco e combinando perfeitamente com a calça. Dei um jeito no meu cabelo e passei um pouco de batom e pó, seria pecado estragar aquela roupa de cara lavada. 

       Minha arrumação durou menos de vinte minutos. Peguei uma maçã da bandeja e desci. Ouvi Vlad me chamar na primeira porta do corredor. 

     Entrei, a sala mais parecia pertencer ao governo de tão bem aparelhada. O monitor que Vlad estava vendo poderia muito bem ter saído de algum filme de espionagem. Tomava boa parte da parede e mostrava a imagem do Globo Terrestre em alta definição. Abaixo dele estava um painel de controle tão imenso quanto o próprio monitor. 

   Alguém não é assim tão apegado ao passado.

— Vai me dizer agora o que houve?

   Perguntei deixando a surpresa de lado. Em resposta, Vlad me convidou para olhar mais de perto a imagem do monitor. Foi quando me aproximei que vi que haviam alguns pontos em vermelho por todo o Globo, grandes e pequenos, ele aproximou mais a imagem.

— Os pontos vermelhos são os Polos?

— Sim. 

   Ele concordou. Alguns dos pontos piscavam lentamente. Cinco deles para dizer a verdade, o da França, da Itália, Romênia, Grécia e dos Estados Unidos.

— E por que alguns oscilam?

Indaguei. Isso deveria ser o tal problema, ou ao menos parte dele.

— Observe — pediu mudando novamente a imagem. Agora mostrava apenas os cinco países cujos Pólos piscavam. Então deu para notar que haviam pontinhos vermelhos menores piscando dentro desses cinco países. A imagem tremia um pouco e embaixo da tela estava escrito "abalos sísmicos de baixa magnitude" — Há algo no subsolo tentando romper o lacre. 

    Ele disse e começou a explicar detalhadamente. Como se aqueles pontinhos piscando fossem um problema grave. 

— Pense nisso como "fendas" que ligam a superfície e o "andar de baixo", — ele deu um sorriso maquiavélico quando viu minha cara de espanto — as maiores você conhece como "Polos".

    Vlad segurava um pequeno controle com um laser, o qual usou para destacar cada um dos cinco Polos dispostos na tela.

— Vampiros, bruxos e licantropos não são os únicos seres imortais, Li… Giselle — ele se corrigiu ainda tentando parecer calmo, embora a tensão estivesse ganhando de seu teatro. — Se fossemos, não seria tão ruim para os humanos.

   "Abalos sísmicos", terremotos então? Terremotos estavam fazendo os Polos se abrirem?

— Está dizendo que as portas do inferno estão se abrindo? 

     Quase engasguei quando disse aquilo. Não acho improvável que eu tenha ficado tão branca quanto meus sapatos.

— Estou dizendo que há quem esteja tentando. — corrigiu como se isso melhorasse alguma coisa — Veja bem, não é como se alguns dos que estão lá não saíssem, se leu sua Bíblia direito sabe que saem sim. Mas o lacre limita essa passagem em grandes proporções, de modo que é possível diminuir o estrago no mundo humano.

     "Diminuir o estrago no mundo humano" se o mundo já é do jeito que é com os Polos lacrados, quantos dias mais duraria com eles abertos? Não é como se fosse surpresa para mim saber que existia muito mais para se descobrir do que eu já tinha visto até então, porém, quando isso bate à porta, o choque é inevitável.

— Com os lacres e as criaturas daqui da superfície "sob controle", os humanos podem fingir que somos lendas ou algo que nunca vai lhes atingir. A população mundial explodiu em crescimento porque a "caça" diminuiu. 

Enfatizou ainda tentando ser didático.

— Acha que César está lá embaixo? 

— Não necessariamente onde você pensa. Mas sim, está no subsolo, e não só ele. É por isso que ainda vivem. Não estão dentro de um Polo, apenas no subterrâneo propriamente dito. Ainda assim, de alguma forma estão agitando os Polos de longe.

— E como paramos isso? Se não sabemos em que lugares estão, se perto ou longe das tais "fendas"?

     Vlad desviou os olhos da tela e me encarou por alguns instantes, como se não tivesse digerindo o "nós" oculto na frase. Seu olhar também demonstrava algo diferente, talvez receio, medo. Não, ficou claro logo depois. Era culpa.

— Giselle, saiba que se tivesse um meio de te fazer nunca ter despertado teus poderes e nem ter te encontrado novamente agora eu usaria sem hesitar. Seria bem melhor para você.

— Não respondeu a minha pergunta. — retruquei — Eu não quero abrir mão dos meus poderes e não quero esquecer que nos reencontramos aqui.

— Deveria querer. — ele insistiu voltando a sua falsa calma. — Errei demais contigo por egoísmo meu, agora não dá para voltar atrás.

— Quer falar em meu idioma, por favor?

Pedi. A conversa tinha mudado totalmente de foco ao meu ver.

— Você é o alvo principal, como antes. É um pouco menos indefesa que antes, mas não o suficiente ainda. É inexperiente demais, mesmo que tenha poder para rivalizar com César ou comigo de igual para igual.

Analisei suas palavras por alguns segundos, depois devolvi suas queixas.

— Meus poderes iam despertar de um jeito ou de outro. Não acho que reencarnei para fazer turismo no século XXI — ele riu "turismo" com certeza não era por isso. Não dei importância a seu riso e continuei — Há um motivo para eu estar aqui, do contrário eu não estaria. E sim, você poderia ter sido mais educado comigo em vários momentos.

      Concordei franzido o cenho. Ele ouviu calado enquanto eu prosseguia com meu discurso.

 — Ainda guardo remorso por você ter simplesmente sumido com o Tyler, não que eu morresse de amores por ele, mas você não me deixou ser livre. — achei que ele fosse reclamar, ou tentar se justificar de alguma forma. Não o fez, por isso acrescentei. — Entretanto, cobrarei isso depois. Não vem ao caso agora.

— Agora não vem mesmo ao caso. — Vlad concordou, mas não pareceu debochar, pareceu falar sério — Giselle, quero te propor uma coisa. Em compensação por ter cortado suas assinhas.

Agora sim ele riu e desdenhou fazendo o gesto de uma tesoura com os dedos.

— Tenho até medo de ouvir.

Murmurei o olhando de soslaio. Ele então respondeu compassadamente:

— Quando essa guerra acabar, te deixo voltar para sua vida humana se você ainda quiser. Do jeito que você quiser, sairei definitivamente dela se pedir.

— Está pedindo para levar a ponta daquela adaga bem na jugular. — ameaçei, mas minha voz falhou um pouco então tirou parte do brilho — Eu não quero mais que você vá, eu não sou normal, nem humana sou direito. Tenho "ambições tolas" sim, ainda quero fazer jornalismo e outras coisas que sei que você acharia perda de tempo, mas isso não significa que eu não tenha me encontrado aqui. Oras, qual a parte do "eu te amo" que Vossa Suprema Inteligência Real não entendeu?!

   As palavras simplesmente saiam, talvez sem muita lógica, porém, saiam enérgicas. Afinal, não era isso que eu queria estar discutindo.

— Eu disse isso, porque até essa guerra acabar, a sua vida não pode mais ficar do jeito que está. Amor meu, eu não vou te deixar para morrer de novo, nem que isso atrase tudo. Só que também preciso liderar os meus, preciso fiscalizar de perto e garantir que os Polos continuem com o selo. Por isso, não dá mais para ficar em Ottaro.

    Vlad disse depois de muitos rodeios. Desde ontem venho imaginando essa possibilidade, a guerra estava declarada já a um bom tempo. Mais cedo ou mais tarde os embates aconteceriam novamente, ainda assim, era duro admitir. Guardei isso para mim e assim como ele fingiu estar calmo, eu fingi não me importar.

— Quanto tempo acha que isso vai durar?

— Impossível prever. — disse se pondo na minha frente em um piscar de olhos. — Giselle, eu não subia a sua janela quase toda noite para te ver dormir, apesar de não poder reclamar da visão. 

   Seu olhar se iluminou um pouco e ele riu enquanto acariciava meu rosto com cuidado.

 — Amor meu, você começou a ser um alvo ainda na Romênia. Até tentei te poupar dos detalhes para você brincar de humana, só que agora não dá mais. Radu não vai conseguir liderar o fronte, ele tem outras obrigações, isso sou eu quem tem que fazer e sozinha em Ottaro você não fica até César estar morto.

Decretou sem estar disposto a negociar aquilo.

— Para onde vamos? — perguntei lembrando do meu sonho, iria com ele, mas não para ficar provando vestidos enquanto a minha vida e o falho, duvidoso e injusto, todavia único, equilíbrio entre o Mundo Humano e o Mundo das Sombras corriam sérios riscos.

— Para muitos lugares, Itália primeiro.

Depois de sua resposta, foi minha vez de decretar algo inegociável.

— Já que vou ser a rainha de tudo isso, quero dar agora a minha primeira ordem — falei tomando emprestada sua pompa de praxe, ele assentiu — Minha família virá conosco.

— Sabe no que isso implica?

Ele me testou.

— Sim, estou disposta a conta parte da verdade a eles.

  Eu falei tentando soar firme, parece ter funcionado já que a direção da conversa voltou a pegar o rumo do início.


                            


     Vlad estava no primeiro andar a umas duas horas em uma "reunião" que não acabava mais. Me cansei uma hora atrás e subi para a biblioteca. Havia descoberto que essa mansão pertence a Sua Alteza Real, porém, é de uso do Suserano daqui, no caso, Meredith. E sendo ela uma bruxa surtiu a biblioteca com livros de magia. 

     Tirei um deles da prateleira. Parecia bem antigo, de capa dura, marrom e desbotada. Não tinha detalhes na capa a não ser o título "Um guia de iniciação a encantamentos de repulsão" em tinta dourada. Comecei a folhear a gama diversificada de formas de se repelir algo ou alguém, tinha um feitiço de repulsão diferente para cada necessidade. 

    Ao que parece, dava para repelir uma pessoa por sete dias, no sentindo de que nesse período ela não te procuraria de jeito nenhum, dava para mandar objetos e pessoas a metros de distância, dava até para escolher a forma como isso acontecia e quanto tempo deveria durar. Podia se criar uma barreira mágica, ou desnortear os sentidos do alvo que deveria ser repelido por meses a fio.

     A maioria deles só servia em humanos. Escolhi um que me pareceu promissor, era uma barreira mágica, um escudo, que não apenas repelia quem se aproximava demais como mantinha sua localização em segredo se funcionasse direito. 

      Tirei uma foto da página com o celular, depois tentei memorizar as palavras. Era um versinho escrito em grego, com uma tradução embaixo que dizia "dentro apenas um ficará, a exceção do conjurador, essa barreira todos os outros repelirá, em segredo um apenas estará enquanto sua energia durar".

      Haviam duas questões fundamentais para o feitiço funcionar. A primeira era que doze velas brancas fossem acessas e dispostas em trios exatamente direcionadas para Norte, Sul, Leste e Oeste. A segunda era que a pronúncia em grego do encantamento deveria ser perfeita. Essa era a parte mais difícil ao meu ver, já que não sei quase nada de grego. Guardei o feitiço, aprenderia a pronunciar depois, provavelmente com Mina ou a minha tia. De resto, era segurar o feitiço, o preço dele era a energia que era drenada do conjurador. Havia gostado bastante daquele encantamento, combinava bem com os meus poderes e falta de competência para um combate físico.

   Eu poderia usar o escudo para controlar o fogo a longa distância. Sem ter que me preocupar em me defender, apenas em mirar direito. Talvez um pouco covarde de certo modo, ou não, bruxos não têm a força física de seres como vampiros ou lobisomens, temos que nos valer do que está a nossa disposição.

— Olá, cunhadinha. — levantei a cabeça e vi Luciana na porta, com a mesma cara de tédio que estampava lá embaixo quando Meredith começou a falar que deveria ser feita uma "varredura" nas proximidades dos Polos, sugestão que a fez revirar os olhos e que Vlad respondeu apenas com "Radu, você a pôs aqui, então ela é SUA dor de cabeça, se vire" — Tem um minuto?

     Sua pergunta nada mais foi do que palavras ao vento, já que rindo, ela se sentou na ponta da mesa onde estou e cruzou as pernas.

— Tenho vários.

    Respondi fechando o livro enquanto ela batia um de seus saltos vermelhos no chão e olhava para mim com alguma expectativa.

— Ontem você foi a mulher que mais brilhou naquele salão, disso não tenho dúvidas. Mas tanto eu quanto os Suseranos temos várias em outros aspectos.

        Luciana disse por fim. Hoje ela parecia até calma para os seus padrões. Os cabelos estavam presos no alto, seu batom era de um rosa escuro e o vestido não era tão revelador quanto os que costuma usar. Ouso a dizer que por alguma razão ela está feliz.

— Que seriam? — Perguntei por praxe, era óbvio que nenhum deles achava que eu servia para ser "sucessora" e nem eu quero ser, quero mostrar que posso ajudar, não ficar aqui sozinha.

— Vlad te declarou como sucessora dele. É claro, que fez isso para garantir que as coisas entre nós permanecessem as mesmas caso ele suma por uns tempos. — ela deixou a frase no ar por um curto momento e só então acrescentou — Você como rainha seria a nossa certeza de que mais cedo ou mais tarde ele voltaria, além de claro, você ficar segura entre nós já que juramos lealdade a ele com nossas vidas, e não, isso não é liberdade poética.

    Na última frase ela riu. Não parecia tensa, ao contrário, quem a visse diria que tudo estava na mais perfeita ordem. Para quem estava entediada lá embaixo, imagino que o fim da reunião tenha sido de seu agrado.

— Continuo sem entender a sua dúvida, minha futura cunhada.

   Eu falei compartilhando de seu sorrisinho. Ela olhou para mim como se avaliasse alguma coisa e sem meias palavras perguntou:

— Que tipo de rainha você será para nós? — parou de bater o pé, mas não esperou eu responder absolutamente nada, foi logo acrescentando — Afinal, nunca tivemos uma de verdade. A Valáquia teve a Lilly, claro, mas não me refiro àquele contexto.

— O que Alexia é para vocês?

    Questionei já que ela ignorou completamente a existência dela. Não que eu ligasse muito, porém, queria entender porque nem Vlad e nem ela pareciam ao menos suportar Alexia, eles a toleravam a muito contragosto.

      Como esperado ela revirou os olhos e suspirou fundo, pensando se sua outra cunhada valia ou não o esforço de ao menos ser lembrada. Depois de um momento ela decidiu que sim, mas não o fez sem notável desdém.

— A prova que a idade não te faz mais maduro. — disparou desgostosa — Alexia não tem poder nenhum aqui porque seu casamento foi um jogo tolo, Radu resolveu replicar o bom e velho casamento por conveniência, só que foi muito mais conveniência dela do que dele.

    Um sorriso cínico se formou discretamente ao falar de Radu, parecia que lhe tirava o amargor de ter que tolerar a cunhada.

— Como assim?

— Ela era uma alfa, cuja a alcatéia estava em guerra declarada com outra tão problemática quanto. Estavam as duas alcateias nesse joguinho chato até começar a chamar a atenção dos humanos, Radu interviu, mas de maneira bem estúpida, foi ao encontro dos Thanasi e em menos de três dias voltou para Itália anunciando que se casaria com Alexia. Não é difícil deduzir o quanto a outra alcateia ficou insatisfeita com tal notícia. 

    Seu resumo foi breve, todavia já dava para se ter uma ideia de que aquilo tudo era um grande jogo que deu errado. Mais um, que novidade.

— Então ela não pode ter poder para que essa outra alcateia não se sinta prejudicada?

     Fazia sentido. A família ou o clã da rainha naturalmente seria beneficiado já que estaria bem mais perto da corte. E se estavam em guerra, significava dizer ao inimigo que a derrota era inevitável, afinal, teriam o aval da rainha. Me peguei pensando no quão complexos eram os joguinhos da corte, uma simples atitude poderia desencadear uma longa série de conflitos. 

     No caso em questão, um casamento poderia desencadear não somente a rivalidade entre duas alcateias, mas também entre os aliados dessas sua acaso houvessem ou outros mais que se sentissem prejudicados com aquilo. E uma vez que cada "aliado" que se transformasse em inimigo era uma ameaça em potencial, o que dirá caso se revoltassem em larga escala por conta da escolha da rainha.

— Isso e porque ninguém além dos Thanasi tem motivos para confiar nela. — Desdenhou Luciana sem a mínima vontade de mascarar sua antipatia pela cunhada. — Eles não são os mais queridos entre nós. Radu foi pelo caminho mais fácil e criou um problema maior, afinal, dá para ter um harém, mas só dá para ter uma rainha e temos inúmeros aliados que se sentiriam prejudicados. 

     Luciana acabou confirmando minha tese. Era mais difícil escolher uma rainha do que parecia. Não era uma simples questão de casar e pronto, tinha todo um contexto que implicava na escolha. Talvez tenha sido por isso que Vlad não quis se casar novamente. Não duvido que ele conseguisse convencer os outros de sua escolha, porém, talvez não lhe valesse o desgaste. 

— Ele poderia brincar de sultão, claro, e ter as subdivisões "a esposa favorita", "a mais bonita",  "a mais talentosa", "a mais inteligente". Com isso agradaria uma parcela, — ela disse isso com tanto desdém que parecia visualizar o rosto de cada uma dessas esposas fictícias que cheguei a pensar que não fossem fictícias.

— mas essa é uma ideia "otomana demais" para o Vlad permitir. Então, ele simplesmente disse "se vai mesmo insistir nessa tolice, saiba que ela será uma consorte" pronto. Não fala mais pelos Thanasi e não os pode beneficiar, aposto que se arrepende amargamente desse casamento já que o tiro saiu pela culatra e na verdade, só aconteceu por que ela deu algo que fez o Vlad "esquecer" que estava deixando uma alfa se meter na família.

— E o que foi esse algo?

   Perguntei antes que ela pudesse prosseguir. Luciana exibiu sadicamente os perfeitos dentes de marfim.

— Um livro que, dentre outros feitiços, poderia trazer uma alma de volta a vida em um corpo terreno e habitável.

    Ela esperou por um choque que não viria, eu já sabia que foi essa a primeira intenção de Vlad quando me  conheceu, a única surpresa era como ele tinha mudado quando ficou sabendo do tal feitiço, ao ponto de ignorar as queixas de sua irmã favorita, pois tenho certeza que ela não aceitou de bom grado. Luciana prosseguiu depois de se cansar de esperar.

— Todo mundo baixou as espadas depois disso. Aguardo o momento em que ela sairá porta afora, nem sei como ainda não o fez.

    Ela gargalhou achando alguma graça escondida ali. Eu apostaria que tinha mais coisa escondida além do que ela falava já que nem ela nem Alexia perdem a oportunidade de atormentarem uma a outra.

— Que cara é essa? — ela desdenhou quando não a acompanhei em sua crise de risos — Não há amor nem de um lado e nem de outro. Radu queria uma solução fácil e ela queria se dar bem, os dois se ferraram. É a coisa mais normal do mundo na realeza, desde os primórdios.

    Respondeu como se estivesse falando do clima, para ela deveria mesmo ser igual. Quem viveu tanto tempo na corte talvez pense assim.

— E nisso tudo, o que você ganha?

    Indaguei ainda a achando feliz demais para alguém que sabia muito mais do que eu sobre a gravidade da situação.

— A diversão. Você não faz ideia do quanto a minha vida humana foi tediante. Agora eu tenho tudo o que quero, sou eternamente bela e livre para fazer o que me der vontade. Só não sou eu a usar a coroa no lugar do Radu porque minha personalidade e a do Vlad são semelhantes demais, gosto de ação, a monotonia me irrita.

— É notável o quanto parecem. 

    Comentei enquanto ela se acomodava melhor na mesa. Então seu interesse voltou-se para mim.

— Agora me responda. Você não é um jogo político já que seu clã está praticamente acabado. — Luciana disse abertamente sem diminuir uma só palavra — Não é a porta voz deles, ninguém se incomodou com você já que seu casamento com meu irmão não vai beneficiar aliado nenhum. É claro que muitos acham um desperdício, mas nenhum é louco de dizer isso em voz alta perto do Vlad sabendo o quanto você é idêntica a Lilly. Acontece que para eles te vejam de forma diferente da Luciana você terá que se portar diferente. É por isso que quero saber, que tipo de rainha você será.

    Tanto seu olhar quanto suas palavras eram firmes. Não sei por qual motivo, mas ela estava realmente interessada na resposta. Dei-lhe um sorriso convencido e respondi, também firme:

— Uma que quer aprender a governar.

     Ela não se contentou apenas em rir, teve que bater palmas enérgicas. Era como se tivesse acertado os números da loteria tamanha a sua comemoração. Acredito que seja muita vontade de se vingar de Alexia através de mim ou algum outro interesse oculto.

— Finalmente uma cunhada que preste. — aprovou — Eu decidi te ajudar a conseguir, de novo, Lilly. 

   Sua voz saiu tão convencida que parecia não haver nenhum resquício de dúvida sobre a afirmação dela. Sorri e aplaudi, tal como ela fez.

— Ele já saiu espalhando? 

— Depois de ontem nem precisa. Eu vi a cara de idiota que ele fez quando percebeu. São iguais em tudo, não tem como.

    Seu riso não era debochado, era de cumplicidade. Ela me estendeu a mão e me lembrei que isso já tinha acontecido em minha outra vida, quase no mesmo contexto. Aceitei novamente sentindo que por mais que ela tivesse seus próprios interesses, eles não me prejudicavam, não éramos rivais antes e nem o somos agora, tranquilamente poderíamos ser amigas.

                            


     Descobri que Luciana e o rapaz que estava com ela durante o baile e na primeira vez que vi o Jonathan tinham reatado. Além disso, ela tinha ficado temporariamente com o Polo dos Estados Unidos e Meredith passou a ser só um símbolo já que até o prazo de seu "contrato" acabar ela não poderia ser demitida ou coisa pior. Era por isso que minha futura cunhada estava tão alegrinha.

         Outra que ficou bastante contente foi Mina quando contei que ela estava intimada a vir comigo para a Itália, Dylan por outro lado, reluntou um pouco, mas acabou cedendo depois de saber que seu "mentor", Abraham, estaria longe de Ottaro em pouco tempo. Tia Sarah parecia bem preocupada ao telefone, não fez objeções. Restava meus pais, eu esperava inventar algo na hora ou ao menos arrumar coragem para contar um terço que fosse daquela bagunça toda.

       Jonathan estava pronto, acordou mais tarde do que eu e ainda assim, estava sonolento. Achei-o uma gracinha tentando se manter desperto, vez ou outra bocejava e esfregava os olhinhos. Desci as escadas segurando a mão dele, seus amigos já haviam ido embora. E nós não demoraríamos a ir também. 

     Vlad estava a repassar alguma coisa para Luciana. Mirela estava impaciente no sofá e acredito que por isso ele fizesse questão de demorar. Radu e Alexia tratavam algo com Meredith.

— Nós vamos agora?

John perguntou sonolento.

— Logo. — Vlad respondeu — Você sabe quem é, não sabe Meredith?

   A Suserana se encolheu, tentava disfarçar o mal estar e mesmo tendo a pele escura, dava para notar o quanto ficou em choque.

— Eu devo me manter próxima do Polo.

Ela disse praticamente correndo até as escadas. A chuva ainda caia, fina, mais caia.

— Como se fizesse grande diferença — Vlad desdenhou — Não vai receber sua convidada?

     Perguntou apreciando o medo que parecia se alastrar por Meredith a cada segundo. Não só ele, como todos os outros.

— Quem está vindo?

   Perguntei para no momento seguinte sentir uma energia tão familiar se aproximando que quase me juntei a Meredith em sua expressão de quem estava vendo um fantasma, eu não estava vendo um ainda, porém  sentia. 

         Do lado de fora ouvi uma voz feminina dizer aos gritos:

— Eu vim falar com o rei, com a Meredith eu não vim falar nada, vim apenas fazer o corpo daquela ordinária se dividir em um nível atômico!

     Não houve resposta, a porta se abriu como se um vento forte a tivesse soprado, ninguém se mexeu, todos a exceção de Meredith e eu pareciam se divertir ao máximo. Eu simplesmente não acreditava naquilo, a dona daquele energia não poderia ser…

— Não imagina o prazer que é para mim te reencontrar, minha amiga.

    Uma mulher ruiva falou e em seguida, com um simples aceno de mão, lançou Meredith para trás com força como se ela fosse feita de papel. A Suserana se levantou, mas a mulher a estava sufocando só com o poder da mente.

      A visitante sorria o tempo inteiro, um sorriso de sadismo, magoa e muito ódio reprimido. Ninguém levantou um só dedo para impedir, Luciana até se sentou para apreciar melhor. A mulher só soltou Meredith quando Jonathan me perguntou o que estava acontecendo, ela então olhou para o lado e me viu. Pareceu tão surpresa quanto eu, e, eu já estava a beira de um colapso nervoso. Como podia? Aquela mulher era… a minha avó!


Notas Finais


Olha só quem voltoooou!
E agora? Como será o acerto de contas? E o reencontro de avó e neta? Gih vai ajudar na guerra? Vai aprender a governar?
Mina e Dylan agora vão ter que ficar no mesmo ambiente... quem sabe 🤔😏.
Vcs acham que o Vlad cumpriria a promessa de sair da vida da Gih? 😹
Lucy e Gih amigas 💖
Nos vemos em breve, vou atualizar logo a versão reescrita 😘😘😘😘💖🍷💅🏻


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