História A sereia - SwanQueen - Capítulo 23


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Categorias Once Upon a Time
Tags Romance, Swan Queen, Swanqueen, Swen, Yuri
Visualizações 289
Palavras 3.109
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, LGBT, Musical (Songfic), Poesias, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Bissexualidade, Intersexualidade (G!P)
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


eu disse que ja postei essa fanfic no wattpad mas eu exclui a conta entao vo pedir pra alguem postar lá pra mim depois

Capítulo 23 - Capítulo 23


— E AÍ, RAINHA DO BAILE DE FORMATURA? — ela começou, rindo.

Sorri mesmo sem querer.

— Essa piada não tem mais graça.

— Bom, mas pegou.

Rolei na direção dela. Estávamos deitadas sobre uma coberta no gramado entre a casa dela e a Água. O sol era ofuscante, mas o murmúrio da Água batendo na areia me tranquilizava.

Emma cheirava a algodão e a grama e a algo seco… talvez livros. Era um cheiro maravilhoso e único, que me inebriava.

— E então? O que você vai estudar? — ela perguntou erguendo um panfleto. — Letras? Comunicação social? Lembra de quando nos conhecemos? Você olhando todos aqueles bolos…

— Hum, bolo… — respondi sonhadora.

Emma riu da minha reação.

— Você podia estudar gastronomia. O que acha?

— Eu comeria todos os trabalhos. Não ia sobrar nada para o professor avaliar.

Ela me bateu de leve com o panfleto.

— Bom, então o quê? Quando eu voltar para a faculdade, você vai junto. O que quer estudar?

— Talvez história — reconheci.

— Parece que você sente vergonha.

— É que não parece tão empolgante quanto química ou direito. Eu provavelmente acabaria num museu ou coisa parecida.

Emma deu de ombros.

— E daí? O importante é você estar feliz.

— Eu posso lhe mostrar a história!

Sentamos imediatamente.

— Nossa!

— Você ouviu isso? — perguntei. Ela não deveria ter escutado nada. Nem eu, não mais.

— Posso te conduzir através dos séculos. Fique comigo.

— Mas eu já fiquei! — gemi. Não tinha esquecido. Tudo o que me prometeram era mentira.

— Quem é essa? Com quem você está falando?

— Fique. Posso te dar tudo.

Ela tinha ficado mais forte, muito mais forte, e eu A imaginei causando tsunamis e derrubando aviões apenas para ter energia suficiente para aquele momento. O vento me empurrava para a Água ao mesmo tempo que segurava Emma no lugar.

— Veja! Ela está segura. Como eu prometi. Agora volte para casa.

— Não! Não! Já servi o meu tempo!

— Regina! — Emma gritou, com a mão estendida para mim e o rosto em agonia.

Acordei sobressaltada. Pensei que dormir seria uma boa ideia, uma forma de passar o tempo sem decepcionar ou mentir para minhas irmãs. Por mais estranho que fosse, nos últimos dias houve momentos em que sentira necessidade de descansar. Mas era melhor evitar por ora. Eu não conseguia me desvencilhar do pesadelo em que Emma ouvia a Água, compreendia o chamado dEla… Me dava calafrios.

Quando meu coração desacelerou, fui atrás das garotas. Tinha acabado de amanhecer e o sol brilhava forte atrás das janelas. O cabelo castanho-claro de Ariel parecia ter um brilho dourado à luz da manhã.

— Oi — eu disse ao me aproximar. Ariel tinha apoiado uma tela larga no chão e trocado os pincéis por brochas. Kristin a observava em silêncio. Minha irmã mais nova falava menos a cada dia, mas parecia feliz com Ariel. Vi Ariel riscar a brocha pela tela e deixar um rastro azul grosso. — Acho que assim também vale — comentei.

Ela riu.

— Não sou tão talentosa quanto Úrsula. Não consigo fazer todos aqueles traços finos. Mas isto aqui tem mais a minha cara.

Contemplei as linhas bizarras, as cores aleatórias. Tudo parecia mero acaso, mas dava para sentir a arte na pintura.

— Com certeza — concordei. — Onde está Úrsula?

— Ah, ela saiu — Ariel disfarçou num tom estranho.

— Saiu para onde?

— Ela leu sobre uma floresta na Islândia com flores superespeciais. Se você moer as pétalas e misturar com óleo, teoricamente consegue uma tinta incrível e vibrante. Tipo, melhor do que qualquer coisa que você encontra nas lojas.

— Ah… E quanto tempo ela vai demorar?

— Uns dias, acho. A Água a levou até a Islândia, mas Úrsula tem que encontrar as flores por conta própria.

Corri os olhos pelas pinturas prontas espalhadas pela sala. Úrsula já tinha mais de uma dúzia, o suficiente para chamar de série e começar a vender.

— Bem que ela poderia ter nos levado. Um projeto me faria bem agora.

— Então pinte alguma coisa — Ariel sugeriu enquanto mergulhava a brocha num pote de tinta amarela.

— Não sei se tenho alguma coisa que valha a pena pintar no momento.

— Não seja tonta. É só encontrar o bilionário certo, aquele que compra um risco verde num fundo branco por dinheiro suficiente para pagar três meses de aluguel.

Com essas palavras, ela sorriu e voltou ao trabalho.

Sentei com os lápis de carvão e tentei. Tentei de verdade. Mas só saíam as ondas do cabelo de Emma quando dirigia de janela aberta ou suas mãos imóveis quando tirei seu corpo da Água. Evitei desenhar o rosto dela, mas Emma aparecia numa centena de imagens. Não passavam de esboços no papel, mas os deixei empilhados para Úrsula. Ela saberia o que fazer com eles.

Depois de quatro dias ela finalmente retornou, toda molhada, e fiquei contente com o potencial que viu nos meus rabiscos desleixados.

— Eles transmitem tanta honestidade, Regina. Se tivesse dinheiro, compraria na hora.

Dei um cutucão no braço dela.

— Para com isso. Gosto desses desenhos, mas não são tão bons assim. Nada perto dos que você faz.

— Bom, vou colocar na minha galeria mesmo assim.

— Junto com obras novas? Com a tinta da flor?

Ela franziu a testa.

— Hein?

— As flores da Islândia. Você não ia fazer uma tinta com elas?

Ela riu e abanou a mão, despreocupada.

— Ah, nem consegui encontrar as flores. Me senti uma idiota perambulando pela floresta tanto tempo. Acho que preciso pesquisar mais.

— Vou junto da próxima vez se você quiser.

Úrsula tocou meu braço.

— Que gentil da sua parte. Fico feliz que esteja voltando ao normal.

Dei de ombros.

— Não desista de mim. Estou tentando.

— Nunca.

Úrsula piscou para mim e fui para a cozinha. Talvez um pouco de comida levantasse o ânimo de todas. Talvez preenchesse o vazio no meu estômago que parecia uma fome estranha.

Quando me virei para abrir a geladeira, notei Úrsula acenar discretamente com a cabeça para Ariel. Ariel respirou fundo na tentativa de esconder um sorriso. Depois foi enxaguar as brochas enquanto Úrsula ia atrás de roupas secas, e a comunicação das duas parou por aí.

 

 

Umas semanas depois, Ariel saiu para uma viagem de compras de cinco dias. Kristin chorou, implorou para que ela não fosse, mas em vão. Ariel já tinha feito isso antes. Chegou a comprar tantas roupas que as mandou para casa por uma transportadora. Dessa vez, ela voltou com duas sacolas. Duas!

— O que posso dizer? A estação está lamentável — ela explicou ao jogar seus achados num canto como se nem importassem.

Depois disso, Úrsula passou uma semana no Japão para se reconectar às raízes em nome da arte. Durante todo o tempo em que ela esteve fora, Ariel não fez mais nada além de andar de um quarto para o outro, inquieta, como se não suportasse a ausência da irmã. Eu nem entendia o motivo da viagem para começo de conversa. Úrsula nunca quisera voltar para a terra natal antes, independente do motivo. E depois que voltou, sua arte parecia a mesma de sempre.

Nem tentei lembrar da desculpa que Ariel deu para sair depois, embora não tivesse entendido o motivo mais uma vez. Se ela tinha ficado tão aflita com a ausência de Úrsula e sabia como Kristin se inquietava com a sua partida, por que sair?

Quando voltou, pus as três contra a parede, determinada a botar um fim naquela história.

— Por que vocês não param de fugir? — exigi saber, com as mãos na cintura.

Úrsula cruzou os braços na defensiva.

— Não sei do que você está falando.

— Tenho a sensação de que já estou bem melhor, de que já está muito mais fácil me ter por perto. Então por que vocês ficam se revezando para sair e deixam Kristin como minha babá?

— Ninguém está sendo sua babá — Ariel argumentou antes de se jogar no sofá. — Só estávamos pensando que talvez fosse bom passarmos um tempo sozinhas de vez em quando. Como Ruby fazia.

Kristin concordou.

— É.

Meus olhos saltavam de uma para outra. Estava difícil acreditar naquilo. Havia décadas que Ariel e Úrsula eram inseparáveis, e Kristin parecia se encaixar às duas com perfeição. Por que estavam agindo daquela forma? O que tinha acontecido?

— Vocês estão brigadas? — perguntei incrédula.

— Não — Ariel respondeu, toda esparramada no sofá.

— Estão bravas comigo?

Úrsula se aproximou de mim com uma expressão afetuosa no rosto.

— Não, nem um pouco. Tínhamos curiosidade sobre o método de Ruby, só isso. Mas é estranho ficar longe por tanto tempo. — Ela se voltou para Ariel. — Não sei como ela aguentava passar meses longe.

— Nem eu. Eu seria infeliz sem vocês — Kristin concordou. Eu não quis comentar que ela nem parecia feliz para começo de conversa. Uma discussão de cada vez.

— Então… está tudo bem? — perguntei.

Levei a mão à testa, sentindo um pouco de tontura. Era a terceira vez na última semana que havia tido essa sensação e precisara ficar na cama até a cabeça clarear.

— Sim.

— Ah… — murmurei, recuando. Meu cérebro estava todo atrapalhado com a vertigem e a confusão pela ausência delas. — Desculpem. Não tenho estado muito bem nos últimos dias.

Úrsula sorriu.

— A gente sabe. E estamos aqui do seu lado.

— Ou lá do seu lado — Ariel acrescentou, apontando graciosamente para a Água.

Um calafrio percorreu meu corpo. Como ele não passava, me enrolei em um cobertor e me retirei para o quarto, decepcionada comigo mesma. Será que eu estava ficando paranoica?

Respirei fundo, tentando lembrar da minha promessa. Eu ia ser uma irmã exemplar. Não adiantava nada acusar as outras. Precisava de um passatempo ou coisa assim. Eu tinha muito tempo livre, espaço demais para a minha mente voar.

Se eu queria cumprir a promessa e tentar viver sem Emma, precisava pensar  em outras coisas.

 

 

Uns dias depois, fui obrigada a pensar em alguém que não Ruby. Todas tivemos que nos concentrar em Kristin, quiséssemos ou não.

— Ela ainda não esqueceu. Quer que o pai sofra como ela — Úrsula anunciou com uma expressão solene ao me encarar do outro lado da mesa.

Ao lado dela, lágrimas rolavam pelo rosto de Kristin. Ariel estava sentada do outro lado da irmã mais nova, com a mão delicada sobre seu ombro.

Me sentia péssima. Sabia que ela estava triste, mas não imaginava que estava tão mal assim. Fazia mais de um ano. Já tivéramos um segundo – e ainda mais melancólico – Natal juntas e assistimos a bola cair em Nova York no Ano-Novo.

Kristin desejara tristemente estar lá para ver. Já estavam passando comerciais do Dia dos Namorados e Kristin não era mais uma sereia iniciante. Nada daquilo fazia sentido.

— Por quê? — perguntei. — Todas esquecemos nossa vida passada. Como ela ainda consegue lembrar de tanta coisa?

— Porque ainda está com raiva — Ariel supôs. Recordei do nosso tempo em Nova York, quando tinha pensado numa teoria semelhante. — Úrsula perdoou a família, então não lembra de muitos detalhes, e você esqueceu quase tudo. Mas eu lembro de mais coisas que vocês, e Kristin passou por bem mais coisas do que todas nós…

— Tenho lembranças suficientes. Meus pais também não gostavam de mim — Úrsula reconheceu, encarando Kristin. — A minha situação não era horrível como a sua, mas chegava perto.

Kristin acenou com a cabeça.

— Talvez não tenham festejado a minha morte, mas duvido que tenham lamentado — Úrsula continuou. — Está enganada se acha que essa ideia não assombrou meus pensamentos. Todas temos nossas mágoas — ela disse, apontando para cada uma de nós.

Assenti. Eu sentia uma culpa incalculável pela perda da minha família, como se pudesse voltar atrás de alguma forma. E havia ainda as dezenas de milhares de vidas que tinha tirado com o meu canto ao longo dos anos. Eu as carregava como um peso em volta do pescoço.

E sempre haveria Emma, talvez por toda a eternidade.

— Mas você não pode querer vingança — Úrsula disse a Kristin, decidida.

Kristin suspirou e secou as lágrimas.

— É uma sensação de injustiça. Ele me matou. Minha mãe deixou. Ninguém vai procurar por mim. Nenhum policial vai atrás deles. Não é justo!

Ariel balançou a cabeça.

— O quê? — disparei. — Você acha que ela devia ir em frente, não acha?

Ariel deu de ombros.

— Se ela tivesse feito isso por conta própria, sem nos dizer nada, já teria se vingado e nunca saberíamos.

— A Água saberia — respondi. — Se Kristin tivesse pulado no mar e voltado à Índia, com certeza Ela leria seus pensamentos. A Água seria capaz de matar Kristin por isso — expliquei, apoiando a mão no braço de Kristin. — E morrer depois de tudo o que você sofreu? Seria a maior das nossas perdas.

— Ela conseguiria — Ariel resmungou.

Fechei os olhos, tentando conter a irritação.

— Sinto muito pelo seu sofrimento, Kristin. Você não faz ideia do quanto a sua história me dói. Talvez seja egoísmo, mas não preciso de mais um motivo para odiar esta vida. Se perdêssemos você agora… — disse a ela.

Eu não queria nem pensar na possibilidade.

— O que você quer dizer com “mais um motivo”? — Kristin perguntou. — O que mais aconteceu?

Úrsula me lançou um olhar rápido. Tinha guardado em segredo o que acontecera comigo – meu amor, o acordo que fiz com a Água – à espera de que eu estivesse pronta para contar às outras.

Engoli em seco.

— É uma vida difícil — eu disse, tentando desconversar. — Ferir as pessoas, perder quem amamos…

Ariel se inclinou mais sobre a mesa.

— Quem você amou?

— Amo A… — Quase deixei escapar. Eu sentia tanta falta dela. Todos os dias me perguntava o que ela estaria fazendo. Se pensava em mim. Se estava com outra. Se tinha voltado à faculdade. Se estava feliz. — Amei Ruby. E Zelena. No final, vamos acabar separadas. E eu amava a minha família — disse, sorrindo para mim mesma. — Eu era uma garota de sorte. Paparicada.

Ariel pareceu frustrada. Talvez estivesse esperando alguma revelação mais interessante, mas Úrsula falou:

— Você nunca contou muito sobre a sua família. Sei que você tinha irmãos, mas só.

Juntei os retalhos de lembranças que ainda tinha.

— Eu era parecida com a minha mãe. Lembro um pouco do rosto dela porque o vejo no meu. E meu pai tinha orgulho de mim, acho que mais porque eu era bonita. Mas ele sempre dizia como eu era esperta e boa de conversa. E eu era obediente — disse, assentindo. — Eles gostavam disso.

— Uma característica que você nunca perdeu — Ariel comentou.

Esbocei um sorriso.

— Bom, quase nunca. Já cometi minha parcela de erros, como você astutamente notou.

— E por que não cometer? — ela questionou, apoiando a bochecha na mão e me encarando. — O que você ganhou com essa obediência?

— Uma segunda chance, Ariel.

Ela balançou a cabeça.

— Imagino que a obediência fez você perder sua única chance.

As palavras dela despertaram em mim uma sensação vagamente familiar… O que senti quando caí na Água durante o meu naufrágio. Meu corpo estava tenso, aguçado, real demais.

Úrsula bateu no braço dela.

— Pare com isso. Caso você tenha esquecido, Regina tem mais cinquenta anos nas costas agora. Você sabe pelo que ela está passando.

Ariel fez uma cara de tédio como se aquilo não fosse nada.

— Desculpa.

— E se eu perguntasse à Água? — Kristin propôs. — E se Ela autorizasse a minha vingança?

Ariel bateu palmas.

— Agora sim uma ideia excelente! Pergunte à Água. Aposto que agradeceria se levássemos os corpos deles para Ela.

Depois de um instante de reflexão, Úrsula disse:

— É possível.

— Regina? Podemos ir? — Kristin perguntou.

Quem era eu para dizer não?

— Podem perguntar, mas temos que concordar com uma coisa: o que a Água disser é definitivo. Seja lá o que Ela decidir, vamos aceitar e parar de insistir.

— Você parte do princípio de que Ela vai dizer que não — Ariel reclamou.

— Parto mesmo. Não sei por que ela diria que sim.

— Então você tem que concordar em vir junto se Ela disser que sim. Não podemos deixar Kristin sozinha nisso.

Recuei, chocada.

— Isso é loucura. Me recuso a tirar qualquer vida se não for obrigada.

Ariel me fulminou com os olhos.

— Sempre pensei que estivéssemos juntas nesta vida. Era você quem pregava solidariedade e apoio. Agora vai deixar a mais frágil de nós se virar sozinha?

— Não vou deixar nada. A Água jamais vai concordar.

Ariel afastou a cadeira.

— É o que nós vamos ver.

Ela foi a primeira a sair da casa coberta de neve para ir até o mar, muito segura de si. Ela ficou ao lado da nossa irmã caçula quando Kristin confessou seu drama à Água, jurou tomar cuidado e prometeu levar os corpos dos pais para o mar se a Água lhe permitisse a vingança.

— Não.

— Por favor! — Kristin implorou. — Não percebe como isso é injusto?

— Percebo. Mas o segredo do nosso mundo vale muito mais do que a sua vingança. Um único passo em falso pode arruinar tudo. Você não pode ir.

Kristin começou a chorar e saiu às pressas da Água. Ariel a seguiu, balançando a cabeça.

— Não deixe que cometa nenhuma idiotice.

— Não vou deixar — prometi, ciente de que a ordem era para mim.

Úrsula segurou minha mão no caminho de volta. Ainda bem que morávamos num lugar isolado, porque os gemidos de Kristin eram estridentes.

— Estou arrasada — Úrsula comentou com os olhos cheios de lágrimas. — Houve tantos momentos em que quis mostrar aos meus pais que eu não era inútil, que era inteligente e criativa. Queria que soubessem do que eu era capaz. Assistir ao sofrimento de Kristin é tão doloroso…

— A Água disse que Kristin tem uma mente bondosa e que já se desapegou de muita coisa. Cedo ou tarde, não vai sobrar mais nada.

Úrsula balançou a cabeça.

— O que deixa tudo mil vezes pior. Se Kristin já se livrou de tantas lembranças, quantas devem ter existido para que ela ainda se sinta tão injustiçada?

 

 

Os dias passaram e as lágrimas de Kristin continuaram. Tentei me dedicar a outras coisas, mas fracassei. O pincel de Úrsula pendia sobre a tela sem que ela criasse nada. Ariel não conseguia se distrair.

Não foi o choro de Kristin nem a raiva de Ariel que me convenceram.

Foi Úrsula que, como sempre, encontrara uma verdade simples por trás de tudo.

Ela tinha razão: o passado de Kristin devia ter sido horrível para que ela continuasse daquele jeito. Ela merecia se vingar.

Então fui eu que pesquisei passagens para a Índia e escolhi um voo direto de Miami. Podíamos sair do aeroporto mais perto da nossa casa no estado de Washington em vez de ter que cruzar o país de carro, mas achei que teríamos mais chance de não sermos notadas pela Água se viajássemos por terra até o lugar mais distante possível de onde Ela achava que estávamos. Fui eu que aluguei o carro. E fui eu que supliquei a Kristin que se acalmasse para que pudéssemos chegar à Flórida sem que a Água soubesse.



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