História A sereia - SwanQueen - Capítulo 28


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Categorias Once Upon a Time
Tags Romance, Swan Queen, Swanqueen, Swen, Yuri
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Palavras 2.063
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, LGBT, Musical (Songfic), Poesias, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Bissexualidade, Intersexualidade (G!P)
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 28 - Capítulo 28


ÚRSULA EXAMINAVA CADA DETALHE de todas as pinturas de sereia que encontrava, revirando toda a história da humanidade para achá-las. Ela ampliou alguns e pendurou na parede. Em um caderno, analisava cores, simbolismo e contexto histórico. Procurava descobrir quem eram os donos das obras, para saber se tinha sido feita por encomenda ou se era apenas fruto da inspiração do artista.

Por muito tempo não entendi por que Úrsula fazia aquilo. Como a arte nos ajudaria?

— Talvez alguém tenha visto uma de nós — ela tentou explicar. — Quem sabe por acaso ou um sobrevivente que Ela não pegou. Talvez exista um registro. Não sei. Estou aceitando qualquer coisa.

Ariel encontrou referências a nós em alguns filmes a que assistiu repetidas vezes à procura de semelhanças. Para mim, aquilo parecia tão irrelevante naquele momento como tinha sido quando eu mesma tentara pesquisar sobre sereias. Mas Ariel não era estudiosa; era uma lutadora. E na falta de alguém contra quem lutar, aquilo era o melhor que podia fazer.

E Kristin… A doce Kristin começou a ler cada mito, fábula e conto de fadas. Muita gente ignorava as verdades contidas nos livros infantis.

Mantive minha pesquisa anterior sobre sereias em segredo. Não queria que minhas irmãs soubessem que eu estivera em busca de uma rota de fuga. Mas talvez eu devesse ter falado alguma coisa. Ao ver todas nós amontoadas, aprendendo coisas sobre nós mesmas que a Água jamais ensinara… Fazia tempo que não ficávamos tão próximas, e senti vontade de chorar ao pensar que talvez só tivesse chegado a amar minhas irmãs à beira da morte.

Com elas descobri muito mais do que conseguira sozinha. Lemos sobre as rusalki eslavas, que eram almas de mulheres que se afogavam em rios ou córregos e os assombravam. Sobre as ondinas dos romanos, que não tinham alma mas podiam ter se casassem com um mortal. Sobre as melusinas de cabelo comprido e caudas encantadoras. Sobre as náiades, que só viviam em água doce, além dos vários deuses gregos dedicados exclusivamente à Água. Ainda assim, não importava o quanto avançássemos e nos perguntássemos se algum daqueles mitos seria uma referência a nós; não encontramos nada capaz de explicar minha doença.

Eu lia entre os acessos de sono irresistíveis. No começo, fiquei tão frustrada quanto no passado. Havia trechos que eu sabia que eram verdade: a quantidade de sereias, o canto, a morte inevitável. Mas o resto parecia ficção, coisas inventadas pelos homens para nos descrever como mulheres sem coração que existiam para seduzi-los, ideia que aparecia nos mitos sobre outras criaturas aquáticas também. Sempre mulheres, todas com desejos destrutivos.

Mas eu tinha um coração. Eu tinha um coração que estava se desmanchando.

Era nisso que estava pensando quando peguei uma antologia de contos. Reconheci o título, embora nunca tivesse lido. O livro tinha sido publicado mais ou menos na época em que eu fora transformada. Abri no texto de Franz Kafka chamado “O silêncio das sereias”. Tinha menos de duas páginas, mas mesmo assim eu não conseguia parar de pensar nas palavras, na ideia de que o silêncio de uma sereia era mais mortal que sua voz.

Zombei do conto no começo, mas depois não conseguia tirá-lo da cabeça.

Como meu silêncio podia ser mortal? Meu silêncio era a única coisa que mantinha as pessoas vivas! Terminei a história e fui fazer outras coisas, mas o pensamento não parava de voltar à minha mente, embora não soubesse muito bem o motivo.

Meu silêncio não tinha matado ninguém. Se a ausência da nossa canção era tão mortal, então qualquer pessoa com quem tivéssemos contato deveria estar como Emma.

Repassei todos os laços que tinha com ela, preocupada por talvez não estar agindo com a rapidez necessária. Não foi culpa do nosso beijo, disso eu tinha certeza. Ariel havia ultrapassado a cota de beijos em humanos sem o menor efeito colateral. Não era o meu amor por ela, porque senão Ruby nunca teria conseguido rever Tova ou a bisneta. Então o que era? O que diferenciava Emma das outras pessoas?

— Úrsula — chamei. Minha voz estava tão rouca que me perguntei se meu canto surtiria efeito naquele exato momento.

— O quê? Está com fome? Enjoada? — ela perguntou, deixando tudo de lado para vir até mim.

— Você pode ler isso? É curto, mas algo me diz… — disse ao entregar o livro para ela, que o examinou brevemente. — Alguma coisa te ocorre?

Ela tomou o livro das minhas mãos frágeis e leu o conto muito mais rápido do que eu.

— Como nosso silêncio pode ser mais mortal do que nosso canto? — ela desdenhou.

— Exatamente.

Ela devolveu o livro.

— Vou pensar nisso.

— Deu sorte com a arte?

Ela bufou.

— Não. Na maioria dos casos somos demonizadas ou sexualizadas.

— Percebi.

— E pelo que deu pra perceber, ninguém viu uma sereia e viveu para contar a história.

— Deve existir alguém… — resmunguei ao me enrolar ainda mais nos cobertores. — Senão, como o mito teria começado?

— Bom, seja lá quem for, morreu há milhões de anos e deixou pouco mais do que já sabemos.

Suspirei. Minha mente estava exausta e senti meu coração esmorecer junto com ela.

Úrsula pôs as mãos nos meus ombros. O calor era bem-vindo, mas me fez tomar consciência de como eu estava fria.

— Vamos decifrar isso, Regina — ela garantiu. — Sinto que estamos muito perto.

Concordei com a cabeça, embora não tivesse tanta certeza. Estava preocupada. Emma estava ficando sem tempo, e seu corpo frágil era bem mais vulnerável do que o meu. Não conseguia parar de pensar no que aconteceria com o meu coração se o dela parasse de bater, já que a nossa doença estava interligada…

Ariel surgiu da sala.

— Não adianta. Não sou uma devoradora de homens — ela disse, apontando para a televisão.

— Bom, se fosse para apontar uma de nós… — Úrsula começou em tom de piada.

Ariel esboçou um sorrisinho. A sensação de que podíamos brincar uma com a outra me ajudou.

Abri o maior sorriso que pude, que não foi muito grande, e senti uma dor aguda no canto da boca. Levei a mão até lá, na esperança de amenizar o ardor. Quando tirei a mão, havia algo vermelho brilhante na ponta dos meus dedos. Observei o sangue horrorizada. Tinha sido pega desprevenida pela náusea e pelas febres, e a exaustão e as dores no corpo me deixavam chocadas. Mas aquilo era praticamente esfregar a mortalidade na minha cara. Pensava que ainda era incapaz de sangrar.

As garotas trocaram olhares nervosos, sem saber o que falar ou fazer.

Kristin trouxe um papel-toalha da cozinha e limpou minha mão e meus lábios.

Todas lidávamos com o novo golpe em silêncio.

— O que não estamos enxergando? — Ariel perguntou desesperada. — O que não sabemos? Assistimos a todos os filmes, vimos todas as pinturas, lemos todos os livros… Já não sabemos todas as histórias?

— Bom, não — Kristin disse como se o que tínhamos pulado fosse óbvio demais. — Não conheço a história dela — ela disse, apontando para mim.

— Fui transformada do mesmo jeito que você — comecei, dando de ombros. — Foi em 1933 e…

— Não, não! — Kristin riu. — Estou falando da sua história com essa garota. O que aconteceu entre vocês exatamente? Como vocês se conheceram?

— Na Flórida. Ela trabalhava na biblioteca. Nos encontramos algumas vezes. Na última vez, fizemos um bolo.

— Então vocês perderam contato?

Baixei os olhos.

— Gostei demais dela. Quando percebi que estava me apaixonando, decidi que precisava ir embora pelo bem de nós duas.

— E?

— Arrastei as garotas de Miami para Pawleys Island. Não estávamos lá havia muito tempo quando você chegou. — Fiz uma pausa para recuperar o fôlego. Estava ficando difícil respirar. — Pensei que eu estava indo bem, mas você viu o que aconteceu quando cantamos e a Água engoliu um cruzeiro com uma festa de casamento a bordo. Não consegui lidar com aquilo. Tudo o que mais queria era ser aquela noiva, e tirar a vida dela no dia em que ela conseguia o que sempre sonhei… Foi demais. Então abandonei a Água e fui para Port Clyde, onde Emma mora. Acho que fui conduzida até lá por alguma coisa dentro de mim. Não esperava que ela estivesse lá ou que me encontrasse recém-saída do mar.

— Você passou bem pouco tempo com ela — Emma comentou ao se aproximar e apoiar a cabeça na mão para absorver aquilo tudo. Foi então que me dei conta de que Úrsula tinha pegado o caderno para anotar tudo.

— Um dia. Pouco mais de vinte e quatro horas.

— Muito bem, descreva tudo — Úrsula pediu. — Ela levou você para a casa dela?

Contei a ela sobre Alice e Robin, sobre como abriram a própria casa para mim. Contei sobre Emma me fazendo café da manhã, sobre como descobri que nós duas quase morremos junto com nossos pais.

— Será que é isso? — Ariel perguntou. — É um ponto em comum bem estranho.

— Acho que não, mas vou anotar — Úrsula disse. — E depois?

Falei da livraria, da história em língua de sinais e do sorvete.

— Vocês usaram a mesma colher ou algo assim? — Kristin perguntou. — Será que isso espalharia um pouco daquele líquido que Ela pôs em nós?

Úrsula balançou a cabeça.

— Vou anotar, mas é pouco provável. Se fosse simples assim, Ariel já teria matado dezenas de homens.

— Dezenas não! — ela protestou. — Mas é, já troquei muitos, hum, fluidos com humanos. E outras sereias fizeram o mesmo antes de nós. Nada como essa doença foi consequência.

— Como você pode ter certeza? — perguntei. — Não é como se alguma de nós tenha tido um relacionamento mais longo para saber.

— Eu… — Ariel gaguejou. — Havia um garoto que eu achava bem bonito. Voltei a sair com ele, meses depois do nosso primeiro encontro, e ele estava bem saudável.

— Muito bem. Registrado. Você sabe que a Água vai querer saber de tudo isto, né? — Úrsula afirmou hesitante.

Ariel chegou a urrar ao pensar nisso.

— Tudo bem. O que mais?

Comentei da nossa breve tarde na casa dele, de como Robin estava grata pela minha presença e do nosso jantar.

— E como você foi embora?

Tive que fazer uma pausa. Pensar naquilo era quase tão doloroso quanto aquela doença desgastante.

— Ela me levou para a casa dela — comecei. — Não a de Alice, mas a que era dos pais. Ela sabia… Não sei como ligou os pontos, mas ela sabia que havia algo diferente em mim. Em vez de ter medo, se ofereceu para me proteger. Pediu que eu ficasse, e de repente achei que conseguiria ficar mesmo. Vivemos entre humanos o tempo todo, que diferença faria?

Nesse momento comecei a piscar para tentar conter as lágrimas, mas elas já rolavam bochecha abaixo.

— E então ela me beijou. Foi isso. Um beijo perfeito, atemporal. E depois, num momento de burrice completa, eu disse: “Uau!”. — Balancei a cabeça. — Os olhos dela ficaram estranhos e ela partiu para a Água. Tentei segurá-la, mas ela ia cada vez mais para o fundo. Supliquei para Ela, prometi levar outros no lugar dela. Fico com vergonha de admitir, mas acho que faria isso se Ela pedisse. Qualquer coisa para mantê-la viva.

Sequei as lágrimas, envergonhada pela rapidez com que eu entregaria outras pessoas se fosse para salvar Emma.

— Ela a deixou viver… Não era para eu contar isso a vocês, mas Ela a deixou viver. Eu a levei para a praia, dei um beijo na bochecha dela e voltei para a Água. Não a vejo desde então.

— Hum… Então nada muito bizarro, só um erro — Kristin comentou.

Concordei com a cabeça.

— Esperem… O que vocês estavam falando sobre silêncio? — Ariel perguntou. — Vocês não estavam falando de um texto um pouco antes de eu entrar?

— Era um conto que dizia que o silêncio de uma sereia era mais mortal do que o seu canto, o que é bizarro se você…

Ela ergueu a mão para que eu me calasse e disparou:

— E se for isso?

— O quê?

— O seu silêncio.

Ariel estava incrivelmente empolgada, mas franzi a testa, sem conseguir acompanhar o raciocínio.

— Ela pode ser a única pessoa no mundo a ouvir a voz de uma sereia e sobreviver — ela explicou. — E se for esse o motivo da doença? O seu silêncio?

— Mas eu não poderia falar com ela o tempo inteiro — argumentei. — Aí sim ela morreria!

— Ainda que seja isso, não explica por que Regina também está doente — Úrsula argumentou, agarrando o caderno. — Isso pode não significar nada.

Ariel deu de ombros.

— Mas é a nossa primeira pista de verdade.



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