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História A Sereia dos Olhos de Safira - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Capítulo 4


O ato ainda ficava rebobinando na sua cabeça. O gosto dos lábios de Lara lembrava o salgado do mar; o corpo dela era macio e completamente úmido – era tão doce tocar e se sentir tocado por aquela pele, que mesmo fria, aquecia-o da cabeça aos pés, fazendo-o eriçar os pelos.

Ao acordar, já no ar da manhã, percebia que seu corpo inteiro parecia ter ido ao nirvana recentemente.

Virou o rosto no travesseiro, percebendo que ela não estava ali.

Para onde foi?

William pulou dos lençóis e colocou a roupa rapidamente.

 

Após três minutos de caminhada, encontrou Lara na piscina externa da casa. Estava com o vestido negro de sua mãe, sentada nas extremidades, batendo os pés nas águas.

Suspirou, abrindo a porta que dava acesso ao local.

“O que está fazendo, Lara?”.

Lara ficou em silêncio encarando a piscina. Parecia perdida em pensamentos. William se aproximou, sentando ao seu lado, e então lhe questionou:

“Comeu algo? Até onde lembro, dormimos de barriga vazia”.

“Eu não estou com fome, senhor Mendes” respondeu calmamente.

William assentiu. Pensou que talvez tivesse a magoado com sua incerteza naquela madrugada, e por um momento ficou se lamentando por ter sido tão ridículo.

Eu a tratei negativamente por ter visto algo que minha mente inventou. Agora vejo com mais clareza: está sendo caçada por engano, sente-se mal por pensarem coisas erradas de si. Certamente se decepcionou por ver minha confiança em si se abalar tão rapidamente.

Seguindo o comportamento de Lara, William colocou os pés na água, balançando-os. Foi então que ela o encarou.

“Olha, o que aconteceu...” ele tentou dizer.

“Estou tão preocupada com você” interrompeu ela. “Quando meu corpo se conectou ao seu, só pude sentir vazio no seu coração”.

William estranhou. De fato andava cabisbaixo naqueles tempos, mas não era para tanto. Como Lara media o vazio de cada um? Já era a segunda vez que vinha alegando ver tristeza em si.

“Eu... não sei se entendi. Por que meu coração é vazio, afinal?”.

“Porque você mesmo o esvaziou, meu caro”.

William cerrou as sobrancelhas, e então tocou no ombro dela.

“Lara, acredite em mim, estou bem. Não acho que podemos entender a vida de uma pessoa apenas por toques ou olhares”.

Lara fez um meio sorriso.

“E como você entenderia uma pessoa, senhor Mendes?”.

Naquela altura as falas estranhas de Lara já não o estranhavam nem um pouco. Certamente ela devia ser seguidora de alguma filosofia mística para dizer aquelas coisas.

William suspirou, pensando por alguns segundos. Ficou observando dois pássaros entrando em um ninho de uma árvore perto dos muros do jardim, e foi dali que tirou sua metáfora.

“Quando deixamos uma pessoa entrar em nossa vida, quando abrimos mão do orgulho e mostramos nossas imperfeições. Na realidade, eu nunca acreditei que pudéssemos realmente entender alguém, senão por teses vagas daquilo que percebemos”.

Sentiu Lara assentir.

“Então o que sente e entende de mim com tudo o que percebeu até agora, senhor Mendes?”.

William a encarou. De tudo o que havia visto e experienciado, aquela noite trouxe algo diferente: seu coração parecia ter encontrado uma calmaria que há tempos esquecera da existência.

Deus, como é bela e misteriosa. Uma joia em pessoa.

“Eu...” tentou encará-la nos olhos, mesmo que estranhamente tirassem seu fôlego “eu não sei nada, não consigo deduzir nada. Apenas sinto, Lara” aproximou-se “sinto tudo”.

Lara olhou para o céu nublado, e então fechou os olhos, inspirando profundamente.

“Pode sentir a chuva?”.

William encarou as nuvens.

“Não há uma gota sequer”.

“Elas não têm pressa para cair”.

O ambiente foi ficando mais congelante, e o ar parecia mais puro. Deliciou-se com o aroma refrescante de grama molhada, embora não houvesse chuva alguma ainda.

“É bom, mas creio que devemos entrar”.

Lara fez um gesto, impedindo-o de levantar.

“Apenas sinta, senhor Mendes” segurou a sua mão. “Quero te mostrar uma coisa”.

William estranhou, mas aceitou o convite. O que quer que fosse, sentiu que estava para ser fascinado.

A garoa começava a tocar a sua pele, e deixou que a sensação fosse tomando seu corpo. Imitando Lara, olhou para os céus, fechando os olhos e inspirando fundo. Foi sendo tomado então por um prazer interno que se espalhava por todas as partes do seu corpo – até dimensões que nunca pensou sentir alguma coisa.

Abaixando os olhos, encarou-a novamente. Ela o observava naquela estranha e doce maneira que ele adorava se sentir encarado. Aqueles olhos pareciam ter mais brilho, e por um prazeroso momento poderia jurar que estava de frente para a mulher mais linda do mundo.

Lembrou-se então do momento em que encarou a safira ainda criança, na sala de sua casa.

“Olha como brilha, William” disse seu pai. “Não vai encontrar algo que roube mais luz!”.

William mexia a pequena joia em seus dedos, maravilhado.

“Pois eu acho” riu o garoto “que ela é a própria luz”.

Voltando da lembrança, percebeu que mal sentia as gostas caindo do céu.

Ah, sim...

Ela era a própria luz.

 

Don Onofre

Estavam todos os marujos sentados no chão do salão de refeições. No piso elevado de três degraus, Miguel estava ao lado de Don Onofre, que estava sentado em uma cadeira de frente para todos.

“Meus companheiros” iniciou o capitão “a mulher que carregávamos em nosso navio, Lara, parece estar sendo perseguida por algum culto estranho e sombrio. Não sabemos quem são, tampouco o que querem com ela. A questão é que, de alguma maneira, encontraram esta residência, e acharam que poderiam tirar de mim respostas sobre o paradeiro da moça” levantou-se, inspirando fundo. “Iremos chamar as autoridades, mas antes queria deixar claro que aqueles homens provavelmente não voltarão. O que eles queriam eram respostas, e disto parecem terem se satisfeito”.

“Eles irão matá-la?” perguntou Lúcio, o mais jovem dentre os membros do navio.

Don Onofre ficou em silêncio, e então encarou Miguel, buscando alguma ajuda.

“Provavelmente sim” disse Miguel. “Não há o que negar. Lara escondia segredos, mas o que devemos nos preocupar é que não têm nada a ver conosco. Iremos voltar para Barcelona, e vocês poderão dormir sossegados de volta às suas famílias”.

“O que nos dá segurança de pôr os pés nas ruas agora, meu capitão?” gritou alguém.

“Depois de apontarem armas e ameaçarem nossas vidas, o que lhe garante que ainda não nos vigiam?” perguntou outro em algum canto.

Don Onofre suspirou.

“Meus amigos, vocês sabem que minha experiência no mar não mente. Trabalhei para a polícia de Catalunha por anos caçando e interrogando homens com as mentes mais sujas e imundas que podem imaginar, desde os mais tolos aos mais perspicazes. Os que vieram aqui hoje não parecem ser do tipo que atacam pelo egoísmo de atacar; houve uma razão, e eles queriam algo em troca. Demos o que pudemos pagar, e assim se foram” fez uma pausa, respirando fundo. “Mas não vamos ficar aqui parados. Se há algum local menos seguro nesta cidade, claramente é aqui onde fomos atacados. Devemos partir agora, antes que estes homens tenham mais dúvidas para tirar conosco”.

E foi então que o som de uma porta se abrindo ecoou pelo ambiente. Don Onofre ignorou o som, mas...

...que porta poderia fazer aquele barulho?

Espantando, lembrou-se: era a entrada da casa. Alguém estava chegando.

“Capitão?” sussurrou Miguel.

Don Onofre o silenciou com os dedos.

“Irmãos” disse o capitão em voz alta “fiquem atentos”.

Em vez de um coro de espanto, os marinheiros levantaram, giraram os corpos e se mantiveram atentos a qualquer sinal. Estavam em silêncio, fechando-se em um círculo.

“Você disse que provavelmente eles não voltariam” disse Miguel.

“Provavelmente”.

E foi então que passos começaram a ser escutados. Seja lá quem fosse, estava se movendo devagar, e o som de suas pegadas era acompanhado de um toque semelhante a de um objeto se chocando contra o chão.

Ninguém movia de sua posição.

Passado alguns segundos, a figura finalmente apareceu: um senhor de barba longa e cabelos grisalhos com um cajado ornamentado. Vestia um sobretudo escuro cheio de listras douradas. Parou frente aos homens, apoiado com as duas mãos no cajado, encarando o capitão de longe.

“Donatello di Onofre, presumo?” perguntou o velho em voz alta.

Don Onofre estranhou, procurando nas feições do sujeito qualquer imagem que o lembrasse alguém, mas de fato nunca vira aquele velho na vida.

“E quem seria? Como entrou aqui?”.

O velho começou a examinar o ambiente, olhando para os quatro cantos.

“Quanto maior uma casa, mais brechas você abre para alguém se esgueirar. Foi assim que eles entraram aqui” se pôs a andar então a uma mesa próxima, puxando uma cadeira. Sentou suspirando um ar aliviado, cruzando as pernas como se estivesse em sua própria residência. “Chamo-me Agnos, líder e grão-mestre da Ordem dos Guardiões de Apolo. Até onde sei, você se encontrou com alguns dos nossos nesta madrugada”.

O capitão ficou ainda mais sério.

“E o que você quer, não teve o que precisa?”.

Agnos puxou o cajado, apoiando mais uma vez as duas mãos.

“Não tenho para onde ir. Há traidores onde antes eu conhecia como lar”.

Don Onofre e Miguel se encararam.

“Como sabe meu nome?” perguntou o capitão.

“Que você é Don Onofre, filho do banqueiro de Barcelona, Vincenzo, este um ex-soldado e afiliado da família Loanghein?” e então apontou o cajado para Miguel. “Que coisa o destino nos faz, não é mesmo senhor Angeli? Membro dos Cruzados do Exílio, seu rosto se espalhou em Viena depois de nos roubar um artefato valioso”.

Don Onofre viu o rosto de Miguel ficar pálido rapidamente.

“Aqueles homens então eram vocês?!” disse o rapaz.

“Em todos os lugares, em qualquer parte do mundo” disse Agnos.

“Eu não sou mais membro daquele grupo de ladrões!”.

Agnos assentiu.

“Ainda bem que a ética é moldável, não é mesmo? Mas veja, não estou aqui para discutir nada disto. Sei sobre vocês porque a Guarda de Apolo possui inúmeras conexões pelo mundo. Somos uma rede de informações, trabalhando para proteger a humanidade de um perigo que vocês felizmente desconhecem. Venho até aqui porque, infelizmente, há alguns dentro da Ordem tramando contra a vida de pessoas inocentes, como as suas. Eu não viria até aqui se não estivesse precisando de uma ajuda urgente, de alguém como o capitão Onofre”.

Don Onofre riu.

“Vocês profanam os vidros da minha casa, ameaçam nossas vidas e agora pedem ajuda? Se é realmente líder de alguma coisa, o que aconteceu com seu poder, por que não impede por conta própria as ações de seus membros?”.

Agnos suspirou.

“Eu sou um líder, não um rei ou autocrata. Sou a mente, mas não a obrigação. A Ordem move com seus próprios pés, apenas mostro a direção”.

“E que raios de ajuda você precisaria, afinal?” perguntou Miguel.

Agnos se levantou, e então caminhou mais perto. Estava ainda mais próximo dos marujos quando parou novamente, e então direcionou o olhar a todos no salão.

“Há uma pessoa atrás de todos nós, vindo de muito longe. Seu objetivo é recolher algo que estava em posse de Lara. Esta pessoa, se assim posso chamar, tem sede por destruição e conseguiria acabar com cada tijolo desta imensa mansão, só para se ter ideia. Lara é responsável pela guarda de um segredo extremamente valioso, o que faz com que vocês, que a salvaram no mar e a protegeram consigo, sejam as primeiras pessoas as quais este inimigo venha perseguir para conseguir informações”.

Os marujos se entreolharam.

Miguel se aproximou do capitão:

“Não sei, este velho não parece estar em posição para nos ameaçar”.

Don Onofre assentiu.

Aquele discurso não parecia um blefe, e julgando pela noite anterior, de fato estava enfiado em algum problema profundo.

“Eu não tenho nada a ver com esse inimigo. Iremos ir embora hoje mesmo, e em questão de horas já estaremos longe desta cidade” disse o capitão.

Agnos sorriu.

“É aí que você se engana, capitão. O mar é justamente o lugar para onde você não deve ir”.

O capitão cerrou os olhos.

“O que quer dizer com isso?”.

“Capitão, eu juro por tudo o que é mais sagrado neste mundo, que se você virar as costas agora, sangue será derramado. Eu sei que você tem influência em famílias poderosas na cidade, em destaque os Loanghein, pessoas com armas e fogo o suficiente para proteger vidas inocentes. Se usar isto a seu favor, podemos impedir que os membros cegos da minha Ordem baguncem ainda mais o que já está bagunçado”.

Don Onofre abanou a cabeça. De fato não seria um problema pedir ajuda à guarda particular de alguma família, mas que tipo de inimigo estavam falando? Se era uma única pessoa, como conseguiria ter tamanho poder?

Encarou Miguel, este que encarava Agnos seriamente.

“Sabe, capitão” disse Miguel “eu já lhe disse que sinto o perigo antes de ele aparecer? Pois alguma coisa me diz que deveríamos fazer alguma coisa quanto a isso”.

Respirando fundo, Don Onofre olhou novamente para Agnos.

“O que aconteceu com a polícia?” perguntou o capitão ao velho.

Agnos balançou a cabeça.

“A Ordem controla cada departamento, provavelmente já subornaram as entidades para fazer vista grossa a este caso”.

Don Onofre então começou a caminhar em sua direção.

Estava decidido.

Vou esmagar o crânio dos homens que me ameaçaram e desrespeitaram o nome desta família.

“Gustavo Loanghein” disse o capitão. “É a ele que devemos recorrer”.

Gustavo

Estava descansando em seu sofá perto do grande pavão empalhado, bebendo uma dose de uísque, quando sua esposa o surpreendeu por trás com as mãos em seus ombros. Era costume de Cristina aparecer naquelas formas, de maneira sutil, pois temia incomodá-lo.

Mas naquele momento, só pensava em como queria ser interrompido de pensar.

“Por onde andou essa noite, meu querido?” perguntou ela.

Gustavo bufou.

“Estava no meu escritório, meu bem. O governador está preocupado com a construção de uma nova ponte, que porventura passa por áreas minhas, e implora por minha colaboração” riu. “Acha que vai conseguir mais algum trocado desta vez para financiar algum esquema particular, é claro”.

“Ah, sim” ela começou a massageá-lo. “A política é sempre uma burocracia, não é mesmo?”.

De tudo aquilo que sua mulher poderia ser, boba estava longe da lista. Aquelas falas compreensivas e seu jeito doce já denunciavam: havia descoberto alguma coisa. A questão era até quando iria manter o seu cinismo.

“O seu amigo Donatello” continuou ela, “como está? Fiquei sabendo que pode estar ligado ao terrível assassinato no bar perto das docas”.

É claro que você investigou isso.

“As pessoas dizem muitas coisas, Cristina”.

“Pois é, palavras são coisas tão manipuláveis”.

Gustavo tocou sua mão, interrompendo a massagem em seus ombros. Foi então que girou o corpo, encarando-a:

“Pode me dar um momento a sós com meus próprios pensamentos? Foi uma noite mal dormida naquele escritório”.

Cristina mostrou um sorriso.

“Certamente, meu senhor” e se retirou.

Lembrou-se das dicas de seu pai naquele momento, e naquela noite evitaria beber qualquer coisa que não fosse água – quando se tem uma fortuna, existe um momento na vida que você passa mais tempo confiscando comidas, bebidas e o paradeiro das facas da cozinha, do que a sua própria riqueza.

Cristina definitivamente não o amava. Aquele casamento já estava morno e beirava ao incômodo, mais parecendo dois colegas de longa data que se envergonham de lembrar que um dia já foram apaixonados.

O alarme da portaria então tocou, quem seria?

Gustavo se levantou e andou em direção ao parapeito de seu quarto. Avistou apenas um carro escuro parado do lado de fora. Cerrou os olhos, não esperava a presença de alguém.

Para sua surpresa, o portão se abriu. Isso significava que era alguém de confiança. Gustavo então apertou seu camisolão e desceu as escadas.

“Quem é, Francisco?” perguntou Gustavo ao mordomo enquanto descia as escadas.

“Lamento, estava indo agora mesmo checar”.

Gustavo bufou.

“Fique aqui, então. Dê uma recepção digna a quem quer que seja”.

“Sim, senhor”.

Alguns segundos se passaram, e então a porta cristalina do hall se abriu.

Gustavo se espantou.

Como infernos ousa aparecer na minha casa?

Agnos o observava com um sorriso.

O que ele estava pensando com aquela chegada?! O grão-mestre estava definitivamente fora de si se expondo naquela maneira.

Gustavo andou apressadamente em sua direção:

“Você?!”.

Agnos fez um gesto para que esperasse.

Como se não pudesse ficar mais estranho, de trás de si apareceu Donatello e um rapaz loiro. Ambos estavam sérios, como dois agiotas atrás de uma dívida.

“Seu amigo concordou em nos emprestar sua influência” disse o grão-mestre. “Agora cabe a ti, Loanghein; queremos saber se irá colaborar igualmente com seus homens”.

Maldito, pensou. Usou Donatello como escudo para chantageá-lo a usar sua guarda privada. Mas como Donatello se enfiou naquele assunto? O que deu na cabeça de Agnos para tomar aquela decisão, colocando uma pessoa comum dentro dos assuntos da Ordem?

O mordomo olhava confuso.

“Os senhores... aceitam um chá?”.

“Francisco, por favor, vá ver se as orquídeas tomaram água. Deixe que eu cuido desses aqui”.

Francisco assentiu e se retirou.

Ao sentir que o mordomo já estava distante, respirou fundo e dirigiu o olhar exclusivamente a Donatello:

“Don... o que você está fazendo?”.

Donatello deu um passo à frente:

“Eu que tenho mais perguntas. No caminho o velho acabou me contando sobre seu envolvimento nesse culto esquisito. Como pode, Gustavo, ser do mesmo feitio dos homens que me atacaram nesta madrugada?”.

“Feitio? Todos sabem que isso é coisa do Montez. Não tivemos qualquer plano de envolvê-lo nesta situação, mas os infelizes seguidores daquele maluco são imprevisíveis. Nossa estratégia, até onde sei, é a casa de William Mendes” direcionou o olhar para Agnos. “Ele sabe disto também?”.

Donatello encarou Agnos.

“Está vendo, capitão?” disse o grão-mestre. “É por isto que precisamos de ajuda. Montez e os outros mestres concordaram em atacar a casa às duas horas de hoje. Estão cercando o perímetro e planejam matá-los”.

“Então aquele garoto tinha alguma relação com Lara esse tempo todo?” perguntou Donatello.

“Não sabemos, mas tudo indica que sim” virou então para Gustavo. “Senhor Loanghein, você sabe que há algo muito maior do que Lara neste jogo, sei que pode sentir isso. Temo que o caixão de Azgorv esteja atraindo a atenção indesejada de uma criatura que evitei tocar no assunto até hoje”.

“Ah, então agora há mais segredos? Sabe, eu até acredito que Lara não possa ser alguém ruim, mas às vezes é difícil manter fé nas suas palavras, meu grão-mestre. Que criatura estamos falando aqui?”.

“Espera” interrompeu o rapaz loiro “podem nos explicar qual a história de Lara e por que tudo isso está acontecendo?”.

Gustavo se espantou, olhando para Agnos:

“Ora, meu grão-mestre, não contou este detalhe tão importante?”.

Agnos suspirou:

“Esperava que juntos tornaria mais fácil convencê-los”.

Gustavo dirigiu o olhar a Donatello:

“Don, você realmente não sabe no que se meteu. A mulher que apareceu em seu navio, há uma razão para ter sobrevivido daquela maneira, e por seus olhos serem tão cristalinos. Acontece que aquela mulher, Lara, não é uma mulher, e sim o que popularmente conhecemos como... sereia”.

Donatello e o homem loiro se encararam.

“Uma... sereia?!” disse o rapaz loiro.

Gustavo revirou os olhos:

“Não é possível que realmente não tenham estranhado que Lara não era uma pessoa comum. Sereias são criaturas sanguinárias que vivem nos oceanos, podem transformar as pernas em uma calda para nadar, e respiram tanto pelo nariz quanto por brânquias que se escondem por baixo da pele. Elas enganam suas vítimas se passando por pessoas comuns, alimentando-se daqueles que se submetem a si”.

“Um demônio muito intrigante, isso sim” complementou Agnos. “Encontrei-me com poucas na minha vida, e são sempre fascinantes”.

“E você confia nessa... criatura?” perguntou Donatello.

“Com a minha própria vida!” disse o grão-mestre com convicção. “Há muito tempo eu a conheci por conta de uma pequena sereia chamada Sara, esta que por um breve período cuidei como se fosse uma filha. Infelizmente outra sereia apareceu em nossas vidas, uma irmã de Sara, que ao descobrir que eu mantinha a garota comigo, caçou-me em todos os cantos. Ela queria me matar, mas felizmente fui salvo por um alguém inesperado: Lara, outra irmã da garota. Lara me salvou de sua irmã por ter visto no meu zelo pela garota uma prova de que homens e demônios não eram diferentes. Quando Sara...” fez uma pausa, suspirando por pensar na tragédia “se foi, Lara manteve a irmã e seus planos malignos longe da Ordem, e juntos trabalhamos em novas formas de proteger a nação contra perigos das mais variadas naturezas. Lara era o braço, eu a mente. Nossa última reunião foi referente ao túmulo que ela havia encontrado em Roma, e deixou as pistas aos guardiões do país para que encontrassem, sem que estes soubessem que fora ela o tempo todo quem os auxiliou”.

“O túmulo de Azgorv” disse Gustavo aos outros dois. “Um dos demônios mais antigos que caminharam neste planeta”.

Agnos assentiu:

“E agora ele está longe, e Lara aparece como um alguém recém-chegado de um campo de batalha. Tudo isso indica que algo aconteceu, Gustavo, e ela é a única que pode nos ajudar”.

Gustavo suspirou:

“Você mencionou que estávamos chamando a atenção indesejada de uma criatura, mas não respondeu quem”.

Donatello e o jovem rapaz apenas observavam a conversa, ambos com sobrancelhas arqueadas de desconfiança. Certamente era uma história muito complexa para se engolir tão rapidamente, mas eles pareciam mais compreensivos do que o esperado.

Ou estavam fingindo?

“Não lhe parece óbvio, depois do que lhe contei agora há pouco?” então Agnos se virou para os dois. “A irmã de Sara e Lara, a responsável por várias tentativas de acabar com a Guarda Brasileira de Apolo, a serpente sanguinária que sempre me odiou com todas as forças” e então encarou Gustavo, “e temo que é a responsável por atrapalhar nossos planos de trazer o caixão de Azgorv, possivelmente tendo atacado Lara. Estou falando de Iara”.

 

Montez

“O que o move, Montez?” perguntou Ferraz atrás de si. Montez estava observando uma das estatuas de Aquiles no grande salão de reuniões, enquanto esperava os guardiões terminarem de juntar as armas e corretas.

Montez não se virou para encará-lo, continuando a observar a figura imponente de Aquiles apoiado em uma espada apontada para o chão.

“Lembra-se da pequena sereia, há dez anos atrás?” perguntou Montez.

“A protegida por Agnos?”.

Montez assentiu:

“Ele se corrompeu com os olhos dela, isso sim. Eu sei de algo que ele escondeu. Há um motivo pelo qual ele se aproximava tanto de Lara às escondidas: é a irmã da garota. Temo que o amor paternal ao qual Agnos se submetera vem contribuindo para que ele se esqueça do perigo que nos cerca. Há homens, Ferraz, que na sua ilusão de ver luz onde sempre houve escuridão, acabam se acostumando com o escuro, e não conseguem mais ver o sombrio. O amor que Agnos achava existir no coração da sereia fez com que ele se cegasse da natureza sangrenta a qual a menina era destinada”.

Ferraz ficou por alguns segundos em silêncio. Montez viu de soslaio que o mestre estava pensativo, até que o encarou novamente:

“Como sabe tanto?”.

“Desde que Sara morreu, eu o investiguei. Ele andava estranho demais. Infelizmente não pude acompanhá-lo nas viagens que ele fazia. Eu achava curioso que de repente o mentor tivesse tantos negócios para resolver fora do estado” então se virou para Ferraz. “Antes de Agnos partir pela primeira vez, encontrei em sua mesa seu diário aberto. Lá estava escrito que uma mulher o esperava na Argentina, a qual se referia apenas como a irmã. Escondi a informação comigo desde então, pois nunca foram provas o suficiente para derrubá-lo. Criei meu próprio grupo, meus próprios credores, avisando que havia traidores dentro da Guarda que almejavam simpatizar com demônios. Foram dez anos apenas pegando fragmentos que confirmavam as mesmas coisas. Eu esperei por um momento decisivo, um momento em que o grande Agnos estivesse frágil o suficiente para cair com apenas um dedo; um dia que ele não cairia por mim, mas por conta de sua própria ilusão. Foi então que, ainda este ano, encontrei-o nas docas de Santos, conversando com a sereia que mencionara. Eu já estava preparado. Meus homens tomaram conta do porto e investigavam qualquer aparição da sereia”.

“Até que Donatello di Onofre apareceu dias atrás, e o caso da mulher de olhos cristalinos chegou em seus ouvidos” compreendeu Ferraz. “Você foi o primeiro a nos contar, e lembro ter estranhado como a informação chegou em sua mesa tão rapidamente. Você soube antes mesmo de Loanghein ter recebido o próprio Donatello em sua residência, e ter contado o estranho caso”.

Agnos não sabia de Donatello até então. Antes de arranjar a reunião onde poria as cartas sobre a mesa, convenceu os dois mestres a não comentar com o grão-mestre o fato de uma mulher chamada Lara ter aparecido em uma embarcação espanhola. Contaram apenas que encontraram uma sereia chamada Lara em Santos. Queriam ver a reação do mentor quando este ouvisse que sabiam que Donatello e Lara viajaram juntos. Mas a expressão que Agnos deu na reunião, não sabendo de Donatello, confundiu Montez por alguns momentos. Pensava que Donatello era alguém trabalhando para o mentor, mas não era o que parecia.

Então de fato Lara havia aparecido na embarcação sem ser convidada, assim como dito por Loanghein.

“Ele diz que ela apareceu do nada, carregada pelo mar” lembrou Loanghein dizer.

“Talvez seja alguma mentira para abafar o caso de que a trouxe voluntariamente” respondeu Montez.

“Não há motivo para Donatello mentir para mim”.

“Não se ele não soubesse para o que você trabalha. Se estivermos falando de um agente trabalhando para o mentor, ele sabe sobre você”.

“Vamos ver na reunião. Mas creio que você está obcecado com suas próprias teorias”.

“A morte de Sara não fez bem a ele mesmo” lamentou Ferraz.

Montez suspirou.

“Sim, mas agora tudo está para ser resolvido”.

Susan

A tarde não poderia ser pior: tomando o seu café, ouviu pelo rádio que havia acontecido um assassinato na noite passada perto do porto de Santos.

“De acordo com conhecidos da região” dizia o radialista “um funcionário conhecido pelo local, William Mendes, fugiu da cena do crime acompanhado por uma moça. Policiais alegaram que o casal andava sofrendo uma perseguição dos mesmos homens que assassinaram um sujeito ainda desconhecido, que aparentemente tentava proteger os dois”.

Susan deixou a xícara de café cair no chão.

Sem mais nem menos, arrumou-se às pressas.

 

William

“Sinto o perigo chegando, William. Quero saber se confia em mim” disse Lara.

William ficou sério.

“Eu não duvido mais de você, Lara” tocou em sua mão. “Pela primeira vez em tanto tempo, sinto-me vivo. Você fez eu me sentir bem de uma maneira que mal lembrava”.

Ela sorriu.

A chuva ainda corria, mas os dois não davam a mínima.

Como era linda, pensou consigo mesmo. Era como se naquele instante, enquanto a água a banhava, seu corpo parecia brilhar em beleza. Tudo o que William via parecia fruto de um sonho.

Ela realmente estava diferente, ou estava delirando?

“Consegue ouvir o mar?” perguntou ela em um sussurro, encarando-o profundamente.

Sem entender o que de fato aquela pergunta representava, fez que sim, pensando se tratar da boa sensação que aquele momento o proporcionava.

“E você aceitaria navegar comigo neste oceano, senhor Mendes?”.

Ele riu.

“Que barco é esse, Lara?”.

“É o suficiente para nós dois”.

Tudo o que conseguia pensar era como queria beijá-la novamente naquele instante.

“E para onde iríamos?”.

Lara sorriu.

“A graça é o destino ser uma surpresa”.

Aquelas coisas não tinham qualquer nexo. Suas frases eram uma metáfora apaixonadamente sem sentido.

Ela colocou a mão em seu rosto.

“Feche os olhos, querido” disse ela.

E William assim o fez.

 

Don Onofre

Haviam chegado a tempo. A chuva já havia se dissipado, e não via qualquer movimentação estranha, embora Agnos assegurasse que havia sim guardiões por perto.

“Apenas esperando a hora certa” disse o velho.

Estava ali Gustavo, Miguel, dez guardas treinados da família Loanghein, Agnos e ele mesmo.

Os guardas não questionavam qualquer detalhe, instruídos apenas a proteger a vida de uma moça que estava para ser atacada. Não falavam nada além de sim ou claro.

A casa de William Mendes era luxuosa. Possuía dois andares, com duas colunas na entrada, de frente para uma pequena fonte cuja água saía da boca de um golfinho. Toda a casa era cercada por muros altos e tomados por trepadeiras; em alguns locais, a mata parecia tão densa que mal se lembrava haver tijolos. Havia cinco degraus que levavam à porta, com três janelas nos lados da entrada.

O portão estava destrancado, e os guardas foram os primeiros a entrar.

“Se em dez minutos ninguém aparecer, vamos embora” sussurrou Don Onofre a Miguel.

Miguel ficou em silêncio.

Os homens abriram a porta enorme da entrada, revelando um hall recheado de plantas mortas e quadros de paisagem. Havia um quadro em especial, maior que os demais, destacado na parede direita. Nele havia a pintura de um homem e uma mulher de cabelos negros e pele clara, sendo o homem de olhos azuis e a mulher com olhos negros, segurando juntos um bebê de cabelos negros ondulados.

Adolfus IV, William e Lisa Mendes dizia a descrição em dourado.

“Devemos chamá-los?” sugeriu Miguel.

“Não” respondeu Agnos, “os homens de Montez podem estar aqui dentro. Vamos procurar primeiro, silenciosamente”.

Miguel, Don Onofre e mais um guarda foram juntos ao andar de cima. Tudo parecia calmo, sem qualquer sinal de habitação. Ao subir as escadas em espiral, se encontraram com um corredor, este com duas portas em cada lado. Abrindo porta por porta, viu que todos os quartos estavam vazios, exceto um.

“Creio que este é o quarto dele” disse Miguel.

Era o quarto mais diferenciado, com um parapeito que dava vista para o jardim. A cama estava desarrumada, com uma garrafa de bebida aberta na mesa ao lado.

“Parece estar estragado” notou Don Onofre ao sentir o cheiro.

Foi então que o capitão notou um pequeno cofre vermelho com várias listas douradas, destrancado ao lado da garrafa. Ao abrir, ficou impressionado:

“Uma joia” disse Don Onofre.

Miguel girou o corpo, encarando:

“Uma safira. Deuses, como é pura!”.

A joia estava encrustada em um colar prata.

“Isso vale mais do que a minha casa” disse o capitão, então colocando o objeto de volta no cofre.

 

Agnos

Estava Loanghein, um guarda e Agnos dentro de um quarto no andar inferior, aparentemente um cômodo de visitas.

“Ela dormiu aqui” disse Loanghein.

A cama estava desarrumada e havia uma mistura de algas e sal em suas narinas. Uma porta do guarda-roupas estava aberta, mas nada incomum encontraram de lá de dentro. Entraram então no banheiro do quarto, no qual encontraram uma banheira ainda cheia.

“Isso é sangue?” notou Loanghein.

Gotas de sangue diluídas na água, notou Agnos.

“Ela estava se curando, presumo. Lembre-se do estado que chegou no navio”.

Não havia um guardião sequer na casa, notou. Já estava na altura de serem recepcionados por qualquer membro, caso contrário.

Foi então que um disparo ecoou pelo ambiente.

Agnos e Loanghein se entreolharam. Sem dizer uma palavra, os três correram ao segundo andar.

 

Miguel

Aquilo só podia ser uma assombração...

Miguel estava sem ar frente ao que estava vendo. Ficou por alguns segundos tentando raciocinar qualquer explicação plausível, mas nada além do relato de Agnos aparecia em sua cabeça.

Do parapeito do quarto, dando vista ao jardim e a piscina externa, encontraram quem estavam procurando.

Sem motivo aparente, a imagem o remeteu a Meliandre e em como se sentira assustado algumas vezes, como um fantasma assombrando suas memórias.

A piscina estava coberta de sangue. A cabeça de William jazia ao lado de Lara, separada de seu corpo.

Então tudo era real, sereias realmente existiam.

Lara se virou, encarando-os com um sorriso. Sangue escorria da sua boca até os pés. A maior parte do corpo de William havia desaparecido, restando apenas as pernas e a cabeça. Lara terminava de se alimentar de um dos braços do rapaz.

“Atire!” ordenou Don Onofre ao guarda.

O homem, igualmente espantado, sacou o revólver sem jeito, mas atirou sem qualquer hesitação para a criatura. Lara estava indiferente às balas que a acertavam; os furos entravam em seu corpo, mas logo desapareciam.

O guarda então parou, encarando-os, sem saber o que fazer.

Lara apontou um dedo para o sujeito.

“Olhe para mim, homem” ela chamou a atenção.

Gustavo Loanghein e outro guarda apareceram no quarto, batendo a porta com um estrondo. Para um homem cambaleante, provavelmente Gustavo quase perdeu o fôlego.

O guarda a encarou. E foi então que as coisas ficaram ainda mais estranhas...

...o que estava havendo com o corpo dele?! O guarda estava imóvel.

Lara abaixou o braço, encarando então para Don Onofre:

“Como é bom te ver novamente, meu bom capitão!”.

 

 

 

 

Agnos

Não precisou subir ao segundo andar para entender o espanto. Os outros guardas que montavam vigília na entrada logo correram para dentro da casa, movidos pelo som da bala.

“Onde devemos ir, senhor?” perguntou um deles ao se encontrarem com Agnos no hall.

Agnos apontou para que o seguissem.

Loanghein e o guarda que os acompanhava subiram para o segundo andar. Agnos, por outro lado, foi com os outros oito homens em direção à área externa da casa, por onde o disparo parecia ter vindo.

Da porta de vidro da cozinha, após um pequeno corredor, testemunhou e confirmou uma de suas piores hipóteses: aquela não era Lara.

Enfurecido, abriu a porta que dava acesso à piscina, onde “Lara” se alimentava de William Mendes.

“Cuidado!” gritou Miguel acima de si.

Agnos o ignorou.

Ficaram se encarando por alguns segundos. A sereia andou em direção à piscina e ali se agachou na borda, limpando o rosto de sangue. Ao terminar, virou-se novamente para Agnos, suspirando:

“Você realmente é imprevisível, velho. Realmente me pegaram na hora errada” disse ela.

“Iara!” vociferou Agnos. “Onde está Lara?!”.

 

Don Onofre

Iara?! Então ela era Iara?!

“Deve estar ainda boiando pelo oceano, velho” disse ela a Agnos. “O navio que ela protegia para o senhor? Atacado em algum lugar do Reino Unido. Eu teria conseguido colocar as mãos no caixão se não fosse por aquela criatura imbecil”.

“Elas são gêmeas” Miguel disse ao seu lado, compreendendo a situação. “Iara se passou por Lara esse tempo todo!”.

Quem diria, carregou uma assassina em seu navio que poderia tê-los devorado a qualquer momento.

Mas por que não o fez?

Olhou então para Agnos, que parecia espantado.

“Que criatura?!” perguntou ele.

Iara apenas abanou a cabeça:

“Ah, isso deixo para sua mente criativa deduzir”.

“Onde o caixão está?!”.

“Quando eu soube do plano de Lara, descobri que planejavam embarcar na Inglaterra. Trocaram de navio três vezes desde que saíram de Roma. Ela soube que eu estava atrás do caixão. Bom, a história foi meio complicada quando nos encontramos: quando aquele monstro, o guardião da lua, atacou a nós duas... Lara não sobreviveu ao ataque, e eu quase fui morta. Felizmente consegui fugir, viajei o mais distante possível, e fiquei dependendo da boa vontade do oceano desde então” olhou então para Don Onofre. “O mar cura feridas, mas não aquelas. Estive desacordada, sendo carregada pelo Atlântico, até que encontrei o seu navio. Eu o persegui com as poucas forças que eu tinha. Aquela tempestade fora estranha demais, não é mesmo, meu capitão?” riu. “Você pode ser o dono do navio, mas eu sou a rainha do oceano”.

Um animal, é tudo o que você é pensou em dizer, mas Iara estava diferente naquele momento. Não conseguia mais ver a mulher frágil que conhecera.

“Onde está Azgorv?!” perguntou Agnos.

Iara abanou a cabeça:

“Que vergonha para uma Ordem com tantas ligações no mundo, se ver sem fontes para descobrir o paradeiro de algo tão grande como um navio”.

Agnos sacou um revólver.

Iara gargalhou com os lábios selados:

“Balas banhadas a Mitra? Você definitivamente não brinca em serviço, velho”.

Todos os guardas mantinham-se imóveis esperando qualquer ordem. Notou que Gustavo e o outro guarda já estavam perto de si, observando a situação; a forma como seu amigo encarava era a de alguém perdido naquilo que olhava. 

Don Onofre então olhou novamente o homem que os acompanhava: seu corpo estava realmente petrificado.

Parece uma maldição.

“Você pode sobreviver, mentor” disse Iara. “Mas o restante, não. Não os coloquem em risco. Certamente essas balas irão me machucar, mas veja bem, estou bem alimentada. Se você não abaixar essa arma, transformo todos esses pobres seres que você trouxe aqui em pedras para decoração”.

Don Onofre se afastou, agarrando Miguel:

“Temos que cair fora daqui!”.

Miguel assentiu.

Don Onofre olhou então para Gustavo, que continuava paralisado:

“Não é possível que queira fazer parte disso, Gustavo” disse o capitão.

Gustavo não disse uma palavra sequer, engolindo em seco. Don Onofre olhou para Agnos, que mantinha a arma apontada para Iara em silêncio, aparentemente indeciso.

“Acho que já vimos o suficiente, capitão” disse Miguel agarrando o seu braço.

Quantos mistérios escondia a família Loanghein? Aquele pensamento ficaria gravado na sua cabeça por um bom tempo. Nunca imaginou Gustavo ocupando uma posição como aquela, subordinado a cultos ideológicos com hierarquias.

Sem dizer qualquer palavra, Gustavo sacou de seu casaco uma arma estranha: assemelhava-se a uma pistola, mas seu cano era apenas um pouco mais espesso que um lápis. Ficou mirando em Iara.

“Seremos apenas eu, Agnos e você, Iara!” gritou Gustavo.

 

Agnos

Suspirando, olhou para os oito guardas:

“Vão embora”.

Os homens se entreolharam.

“Vão, agora!” ordenou Loanghein do parapeito, e então os homens obedeceram.

Iara lambia os dedos, girando o pescoço para Agnos e Loanghein:

“Vamos falar logo sobre o que nos interessa, velho. O navio está nas mãos do destino, e você não pode fazer qualquer coisa para encontrá-lo sem pagar o preço de um tempo que você não tem. Há apenas vocês dois aqui, mas creio que a resposta já é clara, não? Obviamente vocês não vão me entregar a chave, é uma pena. Eu esperava te livrar do sofrimento, velho, mas parece que a vida é um emaranhado de imprevistos”.

“O que você quer com o caixão de Azgorv?” gritou Loanghein de cima.

Iara manteve a atenção em Agnos, suspirando:

“Você sabe, não é? Você sabe tudo”.

Agnos ficou sério, não sabia era de nada. Os interesses de Iara em abrir o caixão e retirar a espada representariam um perigo até para ela. Será que ela sabia disso?

“Não, eu não sei, Iara. Tampouco sei o que você acha que Azgorv representa. Por acaso sabe por que aquela espada está lá?”.

O sorriso de Iara era de uma gargalhada iminente:

“Se eu sei o que ele representa?!” tentou se aproximar.

Agnos recuou, apertando ainda mais o revólver.

“Fique onde está!” gritou Loanghein. “Uma dose de Embrortis é o que te aguarda no próximo passo!”.

Iara se fixou na direção da voz dele:

“Loanghein, certo? Eu posso sentir o cheiro de uma Embrortis genuína de longe, meu nobre, e posso lhe garantir que o você tem carregado na arma é uma fórmula mal executada. Vai me fazer uma coceira terrível se apertar o gatilho” então virou-se para Agnos. “Grande mentor, eu não só sei quem é Azgorv, como sou uma de suas escudeiras”.

“Você o conheceu pessoalmente?!” Agnos ficou boquiaberto.

“Ah, sim, há quinhentos anos atrás. Minha irmã e eu andamos por este mundo desde o século IV”.

“Mas Azgorv foi derrotado antes disso”.

Iara riu:

“Agora eu que pergunto o que você sabe sobre ele. Não, mentor, Azgorv caminhou por muito mais tempo neste planeta”.

 

Montez

Donatello di Onofre e Miguel Angeli saíam da casa quando o mestre e seus homens já estavam a postos do lado de fora. Os dois encararam as armas e lâminas carregadas pelos guardiões por alguns segundos, sem saber como reagir. Montez emergiu então do amontoado, destacando-se, sem qualquer sinal de ameaça.

Um de seus homens que estava vigiando o local alertou: um disparou ecoou por aquele ambiente. Alguns vizinhos ousados bisbilhotavam entre janelas e varandas, mas ninguém colocou sequer um pé na rua. Certamente a chegada de três carros carregados de homens com sobretudos no portão da residência Mendes geraria uma boa capa no jornal do dia seguinte, mas nisto Montez pouco importava – haviam muitos guardiões dentro dos veículos de comunicação.

“E então?” perguntou Montez aos dois. “Agnos arriscou a vida de vocês levando-os até aqui, e as feições em seus rostos não me enganam. Que pressa é essa que os leva a sair dessa casa?”.

“Agnos estava enganado” disse Donatello. “A mulher que ele pensava ser Lara, na realidade, era Iara esse tempo todo. Ela tem se passado por sua irmã desde quando a mesma fora morta durante um ataque envolvendo essa embarcação esquisita que vocês tanto falam. Quando chegamos, encontramos Iara e William... bom, pelo menos o que restava de William em sua boca”.

Iara?! Quem diabos é Iara?!

Sem dizer uma palavra sequer, fez um gesto para que os guardiões entrassem:

“AGORA!” gritou Montez.

Balas de Mitra, de Ancircundatus e de prata, e lançadores de Embrortis. Os guardiões entraram apressadamente, empunhando bestas, revólveres e lâminas cintilantes.

“Não queremos mais fazer parte disto!” disse Donatello. “Eu não sabia, eu juro, eu apenas pensei...”.

Montez os ignorou, seguindo seus homens.

 

Gustavo

Já podia escutar os passos dos outros guardiões entrando na casa, sem a mínima discrição. Agradeceu por Montez não ter demorado tanto tempo.

“Acabou, Iara” disse Agnos.

Iara olhou aparentemente preocupada. Viu alguns homens escalando os muros, enquanto outros entravam por trás da casa, cercando-a.

“Sua viagem termina aqui” continuou ele.

Antes que pudessem hesitar, com apenas um único olhar, Iara petrificou momentaneamente os homens atrás de si. Foi então que todo o restante começou a atirar. Com uma velocidade surpreendente, a sereia saltou para dentro da casa, quebrando a vidraça.

“Eu quero a cabeça dessa criatura agora!” ouviu Montez gritar.

O choque entre Embrortis e balas de Mitra era como fogo e álcool, gerando leves chamas pelas paredes. Gustavo correu, mesmo com a sua perna em mau estado, descendo as escadas.

“No salão interno!” ouviu alguém de algum canto.

Gustavo correu na direção do som, percorrendo um pequeno corredor.

“Não olhem para os olhos dela!” gritou Gustavo.

Um corpo voou da entrada do salão. O guardião levantou, aparentemente tonto, tentando mirar para alguma coisa.

“Como ela conseguiu toda essa força?!” perguntou o rapaz.

Está alimentada pensou. Era ainda mais perigosa, apenas as Embrortis fariam efeito no estado em que ela estava. As balas de Mitra no máximo causariam arranhões. Praguejou, lembrando que sua poção estava mal executada.

Ou ela estava blefando?

Gustavo entrou no salão, e dali encarou a coisa mais absurda daquele dia.

Meu deus!

Com dois metros de altura, Iara metamorfoseou-se em uma criatura com garras enormes. Seus ombros eram ligeiramente largos, com escamas acinzentadas por todo o seu corpo. Duas presas destacavam-se em sua face, enormes, indo para além dos lábios.

Ela então rugiu, quase ensurdecendo a todos.

“Atire!” ordenou Gustavo em um grito, com uma mão no ouvido.

Iara jogou uma mesa próxima em sua direção como se fosse um objeto leve, e os dois automaticamente saltaram para os lados de dentro, evitando serem atingidos. Ao tirar o olhar da mesa e voltar-se novamente à sereia, assustou-se...

...ela estava bem ali na sua frente.

Olhou então para o outro guardião. Apenas com a força do vento em suas garras, Iara jogou a arma do sujeito para o canto quando este já a empunhava novamente.

Foi então que cinco ou mais outros guardiões apareceram atrás de si. As garras de Iara estenderam, e com apenas um único golpe, dilacerou rostos e troncos. Algumas balas de Mitra a acertaram, mas obviamente nada fez efeito.

 

Agnos

Quase que Loanghein se tornava um homem morto. Ao entrar no salão, a sereia, em seu estado mais puro, o encarava com as garras já erguidas. Agnos impediu com uma bala de Mitra, que mesmo inútil, foi o suficiente para que a distraísse do mestre. Três guardiões entraram consigo, atirando, e as Embrortis penetraram nas escamas de Iara como fogo sobre a pele. Sete guardiões – que haviam entrado segundos antes – jaziam no chão, com tripas e órgãos à mostra, em decorrência do ataque das garras de Iara.

Entrando por outra porta no salão, Montez apareceu. Sem hesitar, atirou contra a criatura, que se remexia em uma tentativa paliativa de evitar as doses da poção mortífera.

Os ataques então se cessaram. Já era o suficiente.

Iara contorcia seu corpo para todos os lados, como uma cobra tentando se livrar de um incômodo. Embora estando na presença de dois mestres e de vários guardiões, sentiu a atenção exclusiva da sereia em si, que o encarava fixamente enquanto se mexia.

“Agnos...” a voz de Iara era grave e lenta, ecoando pelo salão. Percebeu que as paredes estavam todas danificadas em rachaduras devido ao grito recente da sereia.

“Dê-me a chave!” disse ela.

Com sua vida se esvaindo, em que posição pensava estar? Agnos se aproximou, sem o mínimo medo. Enquanto se aproximava, mais a metamorfose desaparecia, dando lugar novamente a uma mulher com um olhar queimando de ódio.

Agnos se agachou ao seu lado.

“Onde o navio parou, Iara?”.

Iara estava então deitada no chão com seu vestido negro em farrapos, ofegante, sem mexer qualquer parte do seu corpo senão a boca e os olhos. Ela ainda o encarava firmemente. Era um cão que não largaria o osso tão facilmente.

“Vonz’Argnys” ela respondeu, “ainda posso ouvir seus suspiros de tão longe”.

Agnos ficou sério.

“Então você realmente o conhece. Diga-me como podemos encontrar o caixão, e podemos te livrar de uma morte dolorosa”.

Iara riu.

“Vonz’Argnys... ainda posso ouvir seu coração” continuou ela.

Agnos então compreendeu, e logo se afastou.

“O que ela está falando, Agnos?” perguntou Montez.

Agnos podia sentir a presença da escuridão cercando aquele ambiente com uma atmosfera esmagadora. A energia o repelia. Iara então se erguia para a surpresa de todos, enquanto as manchas de sangue iam voltando para seu corpo.

“Atirem!” ordenou Montez.

Não havia qualquer arma que pudesse a impedir naquele momento. Os olhos de Iara estavam completamente negros. Agia indiferente às balas e poções que a acertavam, caminhando normalmente.

Então ela ergueu as palmas de suas mãos, e com o choque de ambas, um som ensurdecedor dominou o ambiente.

Impossível, pensou consigo mesmo, era impossível.

“Você vai viver, velho” disse ela.

“Agnos, o que está acontecen...” tentou perguntar Montez.

O rosto de todos estava congelado no tempo. Agnos encarou Montez, que mantinha-se parado e inexpressivo, olhando com preocupação para Iara; seu cabelo já não se movia frente aos ventos das janelas do salão. Todos os seres vivos, com exceção de Agnos, estavam petrificados.

Espantado, Agnos esbarrou em uma mesa próxima, e foi sentindo seu corpo perder o equilíbrio, e logo estava agachado novamente. Olhava Iara dominado de fúria, mas ao mesmo tempo seus olhos pediam clemência.

“Ele vive em mim!” disse Iara.

Então ela era de fato sua escudeira. Iara usou do antigo ritual Hiénneischy para armazenar um pouco da força de Azgorv dentro de si; apenas os seres mais confiáveis ganhavam um pouco do poder do lendário demônio, que podia ser usado em momentos de emergência.

“Não vai conseguir nada de mim!” disse Agnos duramente.

Iara sorriu:

“Eu vou abrir aquele caixão de uma maneira ou de outra. O Selo de Apolo não é impenetrável, você sabe disso. Eu pesquisei por muito tempo uma forma de conseguir libertá-lo, mas esperava que vindo até Santos eu pudesse ter uma solução mais simples” ela então se agachou. “Mas nada é tão simples, não é mesmo, mentor? Pode levar meses, anos, mas eu conseguirei. Sei onde está o caixão, é só uma questão de tempo”.

Guardião da lua, Reino Unido, uma embarcação cheia de mortos... apenas aquelas informações não o ajudariam.

“E o que planeja fazer depois? O que se passa na sua mente imunda almejando retirar a espada?!”.

“Ah, velho, isso é um assunto muito antigo para o senhor”.

“Os escudeiros de Azgorv falharam em sua principal missão, o que mais há de se lutar?!”.

“Pelo contrário” ela se aproximou, encarando-o com o rosto próximo ao seu “o plano de Azgorv vai muito além da vida”.

Os escudeiros mais próximos de Azgorv, como narrado nos contos, continuaram seus objetivos ao carregarem consigo um pedaço da alma do demônio. Isso lhes garantia um poder que se expressava de maneiras muito diferentes, concedendo diferentes formas de arquitetarem estratégias para a consolidação dos objetivos. Frans, um dos escudeiros a participar do Hiénneischy, conseguiu a habilidade de ver o futuro, assim ajudando a mudar o curso da história; Yvis, outro demônio escudeiro a participar do ritual, teve o poder de influenciar mentes. Apenas esses exemplos, ainda do século VI, eram conhecidos entre a Guarda de Apolo, mas era estimado que havia mais três demônios agraciados com os dons da energia de Azgorv.

Iara se levantou:

“Recupere-se, mentor. Esta majestosa dança não termina assim. Você vai respirar para me levar até a chave, ou até eu conseguir sozinha abrir o caixão” e então caminhou, já partindo.

O que ela planejava para abrir o caixão? Era claro que o selo não era impenetrável, afinal foi feito pelas mãos de guardiões antigos, que mesmo tão sábios, não fugiam da desvantagem de serem apenas humanos. Se havia alguma brecha, certamente se tratava de algo relacionado à mesma era e linguagem do selo.

Virou-se então para os corpos, vendo que suas peles já se transformavam em pedra em alguns cantos. Era incrível como a maldição estava agindo tão rapidamente.

“É melhor correr, velho” Iara parou no caminho até a porta. “A petrificação está agindo”.

Era tarde demais. Não estava em seu laboratório, não havia qualquer poção consigo para salvá-los.

Eu não posso fazer nada... me resta apenas ver a queda que a minha cegueira me levou.

Dois mestres e mais de cinco outros guardiões foram petrificados no mesmo instante. Uma perda gigante e irreparável. A petrificação de uma sereia, ao contrário do que costumava se acreditar, não era como a morte – a pessoa ainda ficava consciente, mas insensível. Tardando para salvá-los, estavam condenados a uma eternidade presos naquela mesma posição, a não ser que alguém os livrasse do sofrimento destruindo-os de uma vez por todas.

“Há um detalhe que eu esqueci de mencionar” Iara estava então parada na porta. “Há falhas na sua lenda, mentor”.

Agnos se levantou.

“O que está dizendo?!” perguntou sem encará-la.

“Não é uma espada que está cravada no peito de Azgorv, deveria saber disto. Aço, ferro, ouro... nada disso surtiu efeito. Entendo que uma espada é mais emblemática nos contos, mas aquilo que está cravado no peito dele, meu querido mentor, é uma estaca”.

 

 

Susan, duas horas depois

Quando finalmente chegou aos arredores da residência de William, uma multidão de guardas e moradores locais já tomava o ambiente. A casa era a primeira alternativa para investigar o paradeiro de seu amigo, mas não sabia que acertaria tão de primeira.

“Com licença” disse Susan a um guarda, “sou amiga de William Mendes, quero saber o que aconteceu”.

O homem a guiou gentilmente por entre as pessoas que se reuniam na frente do portão, como corvos em cima de uma curiosidade. Fez um esforço para não prestar atenção em qualquer fala, ocupando sua mente com pensamentos diversos.

“Ela diz conhecer o morador” disse o guarda a um outro homem.

Ele a olhou duramente com um suspiro, aparentemente pensando no que dizer:

“Qual sua aproximação com o morador desta casa?”.

“Sou uma amiga muito próxima”.

Ele balançou a cabeça compreensivamente, pegando uma caderneta.

“Nome?”.

“Suzana Alcântara de Barros, senhor”.

Enquanto ele anotava em um papel, Susan pôde ver agentes do Departamento Médico Legal carregando sacos escuros para uma van, e seu coração apertou.

“Sabe de algum familiar por perto?” perguntou o guarda.

Mesmo tendo o escutado, Susan ficou levemente paralisada ao ver os sacos. De repente o mundo parecia ter parado, e sentiu uma fina gota escorrendo do seu olho direito.

O homem colocou uma mão em seu ombro:

“Lamento, madame. Nós o encontramos já morto. A casa parece ter sido atacada; moradores dizem ter avistado um grupo de homens de sobretudo entrando, e ouviram disparos e gritos que duraram por cerca de dez minutos. Há corpos dilacerados destes mesmos homens dentro da casa, e tudo indica ter sido obra de algum animal, mas até agora não encontramos um rastro sequer de sua presença”.

A única coisa que conseguia pensar era na mulher que ouvira no rádio, que havia fugido com William do bar.

“Julgando pelas vestes, aparentemente são os mesmos homens que o atacaram ontem à noite” continuou o guarda.

“Eu ouvi dizer que ele estava com uma mulher quando fugiu. Por acaso encontraram o corpo dela?”.

O guarda fez que não:

“Os sete corpos dilacerados eram todos de homens. Por acaso sabe algo sobre essa mulher?”.

Susan fez que não.

E então que, impossível de controlar as lágrimas, ela chorou ali mesmo.

Que absurdo havia acontecido naqueles dias?!

 

Miguel

Não sabia como processar tudo aquilo, e provavelmente nunca em sua vida encontraria uma explicação plausível para aqueles acontecimentos.

Era noite. Junto ao capitão, estava sentado nos bancos da grande mesa de refeições da mansão Onofre. O capitão se manteve em silêncio desde que chegaram, com um olhar distante, aparentemente traumatizado.

Um homem sendo comido por uma criatura que petrificava pessoas... pensou em como a Guarda de Apolo conseguia manter membros sãos vendo coisas daquele tipo. Como alguém enxergava aquela situação e a tomava com naturalidade?

Notou que o copo de uísque estava intacto. Não tinha qualquer vontade de virar aquela bebida, sempre se esquecendo que, desde que enchera o copo, seu objetivo era tentar esquecer o que havia acontecido naquele dia.

Já era mais de três horas que estavam simplesmente sentados sem dizer uma palavra sequer.

“Por que ela não nos matou?” Don Onofre quebrou o silêncio.

Miguel mexeu a cabeça.

“Como se entende as razões de uma criatura sobre-humana, capitão? Talvez não estejamos em seu cardápio”.

Don Onofre deu um gole. Ao contrário de Miguel, o capitão estava empenhado em se embriagar de fato, até os acontecimentos daquele dia serem banalizados por sua imaginação.

Miguel então colocou a mão em seu bolso, sentindo a safira que havia furtado da casa dos Mendes.

O único pagamento à altura para o que passamos hoje. Ainda assim, sinto-me no prejuízo.

“Minha mãe já dizia que não se deveria deixar impressionar frente à capacidade com que o mundo te deixa de queixo caído. Há sempre mais alguma coisa para descobrir. Hoje descobrimos coisas que dificilmente alguém no mundo irá entender, e a única coisa que consigo pensar é no que pode haver de mais absurdo enquanto damos as costas para tudo isso” olhou então para Miguel firmemente. “Eles mencionavam um caixão, Miguel, e mencionavam com preocupação”.

“Creio que estejamos falando de coisas que estão além do nosso alcance, capitão. Eles, e ninguém além de eles próprios, conhecem as únicas formas de reverter essa situação. Não podemos ajudá-los”.

“Ainda assim estivemos lá, somos testemunhas de tudo isso. Como toda testemunha, temos chances de ser perseguidos”.

Miguel suspirou.

“Não há motivos para sermos perseguidos, Donatello. Somos meros ninguéns. A rixa é entre Iara e a Ordem, não temos nada a oferecer”.

“Não” levantou o capitão, segurando o copo de uísque, “não temos nada a oferecer, apenas a perder”.

Estaria Iara morta? Sua morte representaria alguma diferença?

Azgorv lembrou este nome... o ser que jaz no caixão que Agnos procurava. Se não me falha a memória, o paradeiro do navio que carrega o caixão é incerto, uma vez que foi atacado. O que será que aquele cadáver, se assim o for, representa? Por que o medo?

Então lembrou que a Guarda de Apolo estava espalhada pelo mundo inteiro. Se a Ordem fosse realmente grande como Agnos deixava transparecer, então o navio seria reconhecido por alguma entidade. Àquela altura o navio já deveria ter sido encontrado, e provavelmente alguém já se preparava.

Don Onofre não está errado, provavelmente estaremos metidos nisto em algum momento novamente. Somos cúmplices da tragédia, temos um peso em nossas costas com o segredo que carregamos. Deveríamos fugir ou esperar Agnos aparecer novamente, se é que está vivo?

Afastando as perguntas, Miguel virou a bebida em sua boca.



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