1. Spirit Fanfics >
  2. A Serpente do Caos >
  3. Escuridão Profunda

História A Serpente do Caos - Capítulo 1


Escrita por: vampirine

Notas do Autor


Escrevi esse primeiro capítulo de madrugada, eu sequer dormi ainda, de tão animada que fiquei. 'ASDC' foi inspirada, obviamente, na música do aespa, assim como em alguns filmes e livros que retirei poucas inspirações.

Antes de fazer a leitura, alguns avisos importantes:

― Esse é um universo fictício e todos os atos aqui descritos não são reais.
― Essa é uma história recomendada para maiores justamente por conter gatilhos e assuntos sensíveis. Irei listá-los daqui a pouco.
― Ao decorrer da história aparecerá mais integrantes de ambos os grupos.
― Essa história não tem intuito de difamar nenhuma religião!
― Esse capítulo não foi revisado.

AVISOS DE GATILHO NO CAPÍTULO!

― Nudez.
― Menção a suicídio.
― Menção a estupro.
― Menção a ferimentos.

No mais, é isso! Desejo boa leitura pra vocês <3

Capítulo 1 - Escuridão Profunda


O gotejo da pedra era constante. Karina já não mais se interessava em contar quantas gotas caíam no chão, formando uma poça do outro lado da cela. Todos os dias, aquilo acontecia. Durante a parte da manhã, ela ponderava, já que era entre a primeira e segunda refeição do dia. Alguns guardas eram solícitos, lhe diziam que dia era, pelo calendário lunar. Certas vezes ela agradecia, quando lembrava de que tinha voz.

As correntes em seus pulsos se transformavam em punhos de ferro, prendendo suas mãos e, consequentemente, todo o poder que continha ‒ Karina não o conhecia, sendo bem sincera, então aquilo não a incomodava tanto, apesar de ainda querer fazer tarefas simples, como coçar sua perna, sem ter que pensar em pedir alguém. As correntes em seus calcanhares, por outro lado, eram presos entre eles. Para evitar fuga, ela imaginara.

A goteira pararia em algum momento. Não sabia o que tinha acima dela, se era mar ou lago ou simplesmente uma pia com defeito, apenas sabia que era pontual. Sempre. Desde que se lembrava.

Apesar de não saber como eram os anos passados. Se lembrava de alguma coisa? Todos os dias eram iguais. Não sabia seu sobrenome, sua verdadeira face em detalhes. Não teve chance de conhecer as próprias mãos nem medir os próprios passos. Aquilo deixou de atormentá-la. Karina também não sabia se sonhava. Era possível sonhar, quando se estava numa espécie de coma eterno, dormindo o tempo inteiro? Será que ela ainda era real?

Então as dores musculares lhe lembravam que sim. Os machucados das correntes que se abriam e se cicatrizavam, de novo e de novo, lhe lembravam que sim.

Seu corpo era real, mas não sabia até que ponto sua consciência também era.

De tempos em tempos, guardas lhe traziam notícias do mundo lá fora. Sua Majestade se casou. Teve um filho. Outro. Batalhas civis aconteceram no norte. A batalha virou uma guerra contra um outro reino da fronteira. O reino inimigo, de pouco em pouco, avançava para o sul em movimentos lentos e, ao que parecem, planejados. O filho mais velho morreu lutando. O verdadeiro exemplo de guerreiro.

Tudo uma grande perca de tempo e só falaria. Pra que Karina gostaria de saber o que acontecia lá fora, se ela nunca poderia ver e presenciar aquilo com os próprios olhos?

Sua mãe morreu aqui, a mãe dela morreu aqui, e assim seria. Chegaria um ponto de sua vida que lhe mandariam um homem para que a engravidasse, para manter a linhagem viva, de algum modo.

Karina prometeu que, assim que esse dia chegasse, ela arranjaria um jeito de morrer.

Não era burra, tola ou ingênua. Sabia o que aconteceria, como aconteceria.

Antes de morrer, sua mãe fez questão de contar tudo o que ela sabia. E o que a avó passou para ela, assim como a mãe da avó passou para ela também. Contou histórias sobre o mundo exterior, contos sobre animais que voavam, animais que nadavam em mares sem fim, criaturas que lhe aterrorizariam durante a noite caso dormisse sem uma fogueira por perto... Haviam muitas, mas eram poucas das quais Karina realmente se lembrava.

A única tocha na cela era apagada depois do último guarda sair do corredor, após o término da última refeição. 

Uma vez, ela suplicou para que deixassem acesa, para que ela não precisasse ficar em terror puro durante horas, até pegar no sono. Se é que ela pegava no sono realmente. Não lhe responderam, ignoraram-lhe, então ela chorou enquanto lhe restava lágrimas nos olhos e dor no coração.

A escuridão profunda e eterna machucava Karina, pois sempre que ela chegava, algo acordava. Dentro de Karina, algo serpenteava para fora dela, e a olhava, o tempo todo. 

Aquela coisa esperava na escuridão, consumindo Karina. 

Aquela coisa sorria para ela, mesmo que Karina não visse seus dentes, sua face ou seu corpo. Mas sorria, como se soubesse que, quando Karina morresse, a criatura ganharia, a comeria e manteria sua alma num inferno ainda mais escuro, mais frio e mais apavorante do que esses túneis sem fim.

Era viver em agonia constante, desejando o mundo lá fora por meio de lembranças embaçadas, querer morrer quando um certo dia chegar, e querer evitar a morte para aquela criatura que lhe aguardava silenciosamente na escuridão.

 

Hoje era dia de tomar banho. A guarda que acompanharia Karina desprendia as correntes da parede para que pudesse prender os punhos de ferro quente dela; aquilo a enfraquecia ainda mais do que um ferro normal, certas vezes queimava no mesmo local que o de dois dias atrás. Era doloroso, mas apenas a dor conseguia lembrá-la de que aquilo não era um sonho, ou de que não havia perdido a batalha para a criatura da escuridão.

Não era retirada a corrente dos pés.

A guarda a levava para uma pequena queda d'água que tinha entre rochas. Não era como a goteira de sua cela, pois era maior e constante o tempo todo. Lá, Karina era despida pela guarda e era deixada debaixo da água corrente. Uma certa vez, uma guarda que Karina julgou ser uma novata, se ofereceu para desembaraçar aqueles enormes cabelos e passar um sabão nela.

Karina lhe disse que não existia sabão ali. Ou escova.

A novata nunca mais voltou para levá-la ao banho.

Eles a privavam de socialização, por isso trocavam de guardas o tempo todo. Ela nunca chegava a conhecer algum.

Agora, quando lhe retiraram a roupa maltrapilha ‒ um simples pedaço de pano pesado ‒, houve algo que nunca aconteceu antes: a chegada de um novo guarda.

― Deixe comigo. Ficarei com ela agora. ― Era um homem. A voz reverberou por aquelas rochas úmidas gravemente, um tom que Karina jamais havia ouvido antes.

A guarda não discordou ao olhar por cima do ombro. Saiu calada, apressada, como se agradecesse o livramento.

A roupa estava aos seus pés, Karina estava nua e respingos da cascata em suas costas lhe arrepiavam. Muitas caíam nos punhos quentes, e chiavam.

Karina apenas se virou e entrou debaixo da água fria. 

Passou um tempo lá embaixo da água corrente, mesmo que começasse a bater o queixo depois de poucos minutos. Gostava desse momento e de como a água escorria por seu corpo e "levava a sujeira embora" ‒ ela gostava de acreditar que ficava realmente limpa depois do banho ‒, de como sua mente parava um pouco.

― Hoje é lua nova. ― O guarda disse, sua voz fazendo Karina se arrepiar mais do que a água gélida conseguia. Ela permaneceu de costas e não disse nada. ― Dia quatro. 

O silêncio que se seguiu a deixou mais confortável na medida do possível, pois era isso que estava aocstumada.

― É primavera lá fora. ― Ele continou. ― As plantações estão fartas e...

― Pare. ― Karina disse, abruptamente. 

O guarda ficou calado por poucos segundos antes de indagar:

― O que houve? ― Sua voz, ainda reverberante, se tornou cautelosa e um pouco apreensiva, ao ouvir Karina falar pela primeira vez.

― Pare de falar. De fora. Não pode conversar comigo.

Formar frases inteiras não era algo que Karina se considerava boa. Nunca teve chance para isso. Mas transmitiu o recado, o que era o objetivo.

Mesmo que gostasse de saber os dias, ele começou a aguçar a curiosidade dela, e aquilo a machucava, pois era um constante e doloroso lembrete que ela jamais veria como as flores brotavam.

― Sobre o que quer falar então?

Karina se virou para o guarda, ainda debaixo da água corrente, e olhou para os pés dele. Mesmo que ali estivesse escuro e tochas iluminavam apenas no final do corredor, viu que elas brilhavam um pouco mais do que deveriam. 

― Nada. ― Ela respondeu.

Saiu da água e evitou ficar perto demais dele. Com os pulsos conseguiu se vestir da maneira que achava plausível e, mesmo ensopando a roupa, começou a seguir de volta para a cela, os cabelos ainda grudado as costas, a causando arrepios.

Quando ele retirava os punhos de ferro quente e a amarrava de volta nas paredes, ela se ajoelhou para que pudesse dormir de uma maneira mais confortável. A água fria havia lhe consumido mais força do que ela imaginara; ou talvez tenha sido a inesperada conversa com o novato de botas brilhantes.

Ela não o ouviu sair. Ao levantar o olhar, ele olhava para ela. Como estava de frente a tocha, ela não conseguia ver suas feições. Aquilo a deixava desconfortável.

Será que finalmente chegara o dia de sua procriação?

― Posso... ajeitar o seu cabelo? ― Seu tom não era de timidez, e sim de, talvez, expectativa.

Agora que a possibilidade daquele homem a forçar algo havia invadido sua mente, ela não soube como reagir. 

― Se veio continuar a linhagem de Mamba Negra, vá embora ou me matarei. Agora.

Um silêncio retumbante fixou-se na cela. Karina surpreendeu-se pela maneira como disse: forte e determinada. Foi a maior força de vontade que já teve em toda sua vida.

― Por que acha que eu vim para isso? ― O guarda indagou.

― Você é homem. Guardas homens não costumam me dar banho. E não ficam na cela comigo.

Ele se ajoelhou e retirou o elmo da sua cabeça. Manteve talvez um metro e meio de distância, mas Karina engoliu em seco pelo movimento.

Os cabelos dele eram limpos e laranja ‒ pelo menos era o que dava para ver pela luz já quente da tocha. Os fios escorriam como ouro escuro.

― Acha que todo homem quer procriar com você? ― A pergunta, mesmo que um pouco perturbadora, fora dita com verdadeira curiosidade, com um toque de condescendência. Pena.

Karina não respondeu.

Ele levantou a cabeça e começou a fita-la de novo. Esperando uma resposta.

Depois de algum tempo, disse:

― Não. Mas todos podem. Todos tem o poder.

― Isso assusta você?

Karina abaixou a cabeça e fechou os olhos, ignorando a pergunta. Os joelhos doíam pela posição que estava, mas era melhor que dormir em pé. 

Karina o ouviu suspirar, ele levantou e então seu braço caiu junto com a corrente.

Ele estava a soltando.

Karina o olhou com um desespero velado.

Ele atravessou a cela e fez o mesmo com o outro braço.

― Sou o descendente do Imperador Kai Ingyun II. Tomarei o trono em duas semanas. Fui enviado para lhe tirar daqui.

As paredes ficaram ocas. Karina sentiu que o chão já não era mais tão rochoso, e que ele havia começado a ficar molenga e instável. 

Ela não teve coragem de perguntar, mas quando ele viu seu rosto, continuou:

― Há muito tempo foi discutido o futuro da linhagem escondida de Mamba Negra na Península das Almas. Tecnicamente essas ilhas fazem parte do reino de Mullgra, o que me dá poder sobre elas. Escolhi que farei de você parte da minha corte defensiva.

Karina engoliu em seco.

― Isso significa...

― Significa que tirarei você daqui, e a única coisa que peço em troca, é que defenda a mim e o que prego. Manterei-a ao meu lado e lhe darei uma vida digna. 

Ela piscou, sem saber o que fazer ou dizer.

― Sem mais correntes. ― Ele continuou. ― Sem mais roupas sujas, sem mais comidas ruins, sem mais frio...

― Sem mais escuridão? ― Karina o interrompeu, finalmente encontrando a emoção em seu coração. A euforia que sentia, ela não sabia o que aquilo significava. 

Era... felicidade? O que a mãe contara havia anos atrás? Era assim que era senti-la?

Seu coração saltava. 

O príncipe não mais olhava para ela, e sim para seus machucados, a única tocha na cela; seus ombros vacilaram um pouco pela pose treinada e deixou transparecer... algo que Karina não sabia dizer o que era.

― Sem mais escuridão, Karina.

Ela chorou. Tanto por aquele sentimento que apenas crescia em seu peito e ela não sabia como lidar, pois ele lhe amassava os pulmões e o coração; chorou pois não conseguia sequer imaginar que seus sonhos mais intrínsecos foram atendidos; chorou pois aquela foi sua primeira conversa verdadeira com alguém.

E chorou pois aquela foi a primeira vez que alguém disse seu nome.


Notas Finais


E aí? Gostaram?!
Me contem aqui o que vocês esperam! Qualquer crítica construtiva também ajuda.
Beijinhos e até o próximo capítulo.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...