História A Serva de Charlotte - Capítulo 17


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amor, Drama, Guerra, Homossexualidade, Lesbicas, Medieval, Reinos, Romance
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), FemmeSlash, Romance e Novela, Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 17 - Encontro entre irmãos


O som dos pássaros estava alto pela manhã. O sol mal tinha surgido ao horizonte quando todos deixaram sua casa temporária e partiram rumo a um lugar melhor para eles. Eles buscavam algo, não conforto, não um lugar onde pudessem ter mais lucros, mas um lugar onde pudessem viver do que sempre viveram, do modo que sempre viveram.

            Lucas estava um tanto quanto inconformado com a partida, pois com o recente sonho de se tornar um aspirante a cavaleiro, a saída da capital significaria começar um passo atrás do que poderia. Lucinda sentiria ainda mais saudades da irmã do que já sentia, e isso fez com que a alegria de seu aniversário se perdesse quase que por completa. Talvez fosse mimada demais para entender o que se passava, Leonard pensou. Maria era quem mais estava pronta para partir, pois se sentia velha demais para se adaptar a vida em uma cidade grande, e por mais que lhe doesse, ela sabia que tinha que deixar seus dois filhos mais velhos andarem com suas próprias pernas. Tanto Bernardo quando Jennifer tinham aceitado o caminho que surgiu em frente a eles, seja por suas escolhas ou pelas consequências delas. Então Maria decidiu aceitar. Aceitar seu filho mais velho entrar para o exército, aceitar sua filha como serva real. Só o que não podia aceitar, o que não era capaz de aceitar, era o fato de todo o modo como viveu até hoje mudar de um dia para outro.

            Ela nunca se acostumaria, assim como Leonard.

            E então partiram, em busca de uma cidade pequena que lhes desse uma vida mais tranquila, segura, com menos preocupações. Você pode criar um lobo desde pequeno na natureza e ele poderia se acostumar com a vida fácil de quando alguém o alimenta diariamente e o mantem abrigado, seguro e protegido. Mas crie um lobo como um animal doméstico desde seu nascimento e ele não irá sobreviver se deixado na floresta, onde é o seu lugar. Seus instintos já não serão os mesmos.

            Leonard e Maria tinham medo de se acomodar com a vida que levariam na cidade grande, onde eram sustentados basicamente pelo dinheiro que sua filha lhes conseguia. Eram como um lobo sendo alimentado. Os dois não queriam nada disso, queriam “caçar”, viver por eles mesmos, mesmo que em uma “floresta”, onde tudo era mais difícil. Pesquisaram por um tempo antes de partir, e encontraram um lugar onde julgaram ser um bom lugar para estabelecer um lar. A única coisa de que lamentavam era do fato de precisarem do dinheiro que Jennifer ganhava para eles, mas era temporário. Logo eles conseguiriam mais oportunidades como as que tinham em sua vila. A intenção de Leonard era de se estabelecer em uma cabana, um casebre, qualquer lugar digno e habitável, e então comercializar o que produziriam na cidade próxima de onde estavam indo, uma cidade comercial, mas que comercializava grãos e outros alimentos em sua maior parte. Seria um lugar perfeito para iniciar um minúsculo comércio de artesanato e tecidos, por não haver tão grande concorrência. E o nome dessa cidade era...

            Bergamo.

_

            Jennifer acordou do modo como acordou todos os dias nos últimos meses. Escovou seu cabelo, vestiu seu uniforme e foi até a cozinha, como sempre fazia. Após seu café, ela levou o café de Charlotte até seus aposentos. Bateu na porta, mas apenas se ouviu o sussurro do silêncio. Entrou, colocou a bandeja sobre a mesa de centro no quarto e foi até a cama, despertar do sono profundo a linda jovem que ali dormia.

            - Mestra, acorde – Disse ao tocá-la.

            Charlotte virou de um lado para o outro até ficar de rosto voltado para ela. Então esfregou os olhos e os abriu, como se despertasse de um sono milenar.

            - Bom dia, Jenny.

            - Bom dia, Mestra. Eu trouxe seu café-da-manhã.

            Foi como qualquer outro dia. Jennifer a ajudou a se vestir, Charlotte tocou café, as duas conversaram. Charlotte mastigava lentamente, de olhos baixos, deprimida, quase depressiva.

            - Aconteceu alguma coisa, Mestra?

            Silêncio. Um silêncio avassalador, mesmo quando os olhos da Rainha se voltaram para a serva.

            - Mestra?

            - Vai ser em três dias.

            - O quê?

            - O ataque a Bergamo. Nosso contra-ataque. O confronto. Tudo vai acontecer em três dias.

            Jennifer baixou o olhar até a mesa. Não sabia o que falar. Ou melhor, não tinha nada que pudesse falar. Ela queria conversar sobre como ela se sentia, tentar fazê-la sentir melhor por coordenar a defesa contra a investida inimiga, mas aquele assunto já tinha se repetido demais, e mesmo assim ela não entendia.

            Talvez nunca entendesse.

            E o dia passou. Tudo correu normalmente o dia todo, mas o normal ruim, de quando Charlotte estava deprimida por decisões que tinha que tomar independente de sua vontade real. De toda forma, agradável ou não, ruim ou bom, o dia passou, e passou rápido. Em certos momentos em que estavam sozinhas, Charlotte e Jennifer trocavam algumas carícias e beijos, cortesia de Jennifer, que tentava animar a mestra. Quando já estava anoitecendo, Jennifer foi dispensada. Por mais que Charlotte apreciasse sua companhia, havia momentos em que ela só precisava estar... sozinha.

            Jennifer não estava tão cansada por ter tido um dia mais tranquilo que o normal de certa forma, então resolver passear um pouco antes de voltar para seu quarto. Quando passou em frente a sala do trono, se lembrou de Samantha e de sua ameaça. Talvez a presença de Bernardo e seu duelo com Charlotte a tivessem irritada, mas era algo que Jennifer não queria pensar no momento. Quando pensou no irmão, decidiu ir vê-lo, pois não tinha muitas oportunidades de fazê-lo.

            Os aposentos dos cavaleiros eram enormes, uma sessão inteira do castelo dedicado ao conforto e descanso dos bravos defensores do reino. Não era tão adornado como as partes do castelo mais frequentadas pelos nobres importantes e pela Rainha, mas a própria estrutura em si era bela, forte, rígida, mas sem perder o tom de refúgio. Era uma sessão de fácil acesso, ou talvez que tivesse fácil acesso para qualquer outra ala do castelo, em caso de necessidade. Por essa razão os corredores eram amplos, capazes de suportar o transido de três ou quatro cavaleiros de armadura lado a lado durante boa parte deles.

            Para sua surpresa, pouco depois que entrou na sessão dos aposentos dos cavaleiros, ela encontrou Sir. Gerald, caminhando casualmente na direção dela ela.

            - Ora, o que uma jovem como você faz em um lugar rude como esse? – Disse ele, com um tom galanteador.

            Jennifer se constrangeu um pouco, abriu a boca para falar algo, depois desistiu.

            - Veio procurar seu irmão, não é? Família sempre em primeiro lugar – Sorriu.

            - Sim. Eu sei que ele vai partir logo, então gostaria de vê-lo. Passar um tempo a mais com ele.

            - Se não o achar, eu adoraria passar um tempo com você no lugar dele – Ele estendeu a mão até a lateral de seu rosto e deslizou os dedos sobre seus cabelos.

            - Eu... bem... -  Jennifer se constrangeu ainda mais, gaguejando e deixando as palavras fugirem da boca. Ela virou o rosto e juntou as mãos frente ao corpo.

            - Não fique assim – Disse ele, tocando seu queixo e puxando devagar para que o rosto dela se virasse para ele. – Quem sabe outro dia. Bem, melhor eu ir.

            - Es... está bem.

            Gerald sorriu novamente, fez uma reverência para ela e se retirou. Depois Jennifer se praguejou por ter se constrangido a ponto de não perguntar onde seu irmão estava alojado.

            Após perder alguns minutos procurando, depois perguntando, Jennifer finalmente achou os aposentos de seu irmão.

            - Bernardo? Está aí? – Disse ela, assim que bateu na porta.

            Levou um segundo para obter uma resposta. Quando a porta se abriu, Jennifer viu quatro ou cinco cavaleiros acomodados em camas, com suas armaduras em um dos cantos do quadrado rochoso. Talvez houvesse outras coisas interessantes no quarto para se ver, talvez algo curioso ou até constrangedor que os cavaleiros faziam quando estavam sozinhos e de folga, mas o corpo do irmão em sua frente atrapalhou a visão de qualquer outra coisa dentro do quarto.

            - Jennifer? O que faz aqui? – Ele perguntou.

            - Eu só quis ver você, já que logo você vai embora.

            Jennifer pareceu triste pelo modo com que ele perguntou. Bernardo soou rude, como se não a quisesse por ali, e então ela se encolheu entre os ombros. Quando percebeu, o irmão deu um passo à frente para sair do quarto e fechou a porta atrás de si, sorrindo de leve, parecendo um pouco forçado.

            - Desculpe, irmã. Eu acho que fui um pouco rude com você. É que eu não esperava sua visita, você parece sempre ocupada com a Rainha.

            - Está tudo bem... eu entendo – A voz dela soou um pouco mais suave e menos repreendida. – Então... se não for uma boa hora, eu vou embora. Posso voltar amanhã, antes de você partir.

            - Não, não, está tudo bem. Eu não estava fazendo nada demais. Vamos, vamos dar uma volta. Não é muito tranquilo aqui para conversar.

            Como se para confirmar o que Bernardo havia dito, um praguejar soou de um dos quartos.

            - MAS QUE MERDA!

            - O que foi isso? – Disse Jennifer, assustada.

            - Jeremy Mcgregor – Bernardo respondeu. – Também conhecido como Jerry apostador. Ele vive arrastando todos para jogos de cartas, e as apostas são até que bem altas. Sempre que perde ele xinga Deus e o mundo, depois amaldiçoa quem lhe arrancou algumas peças. Espere só um segundo e...

            - SEU DESGRAÇADO, FILHO DE UMA PORCA GORDA! – Gritou Jerry apostador.

            - Bem a tempo. Ele sempre perde. Nunca soube jogar direito, mas nunca desiste de apostar. Larry, Lionel, Barton e eu sentimos pena dele, então combinamos que depois que ele está quase sem dinheiro, deixamos ele vencer até recuperar tudo ou quase tudo que tinha. Pelo menos ele sabe parar quando não está mais perdendo e recupera tudo que tinha. É até divertido, se você conseguir ignorar um pouco da gritaria.

            Jennifer começou a sorrir. Ela estava encantada com a forma natural com que ele falava dos companheiros, como se os conhecesse a uma vida.

            - Eu estou feliz que tenha encontrado amigos assim. Não imagino você fazendo algo assim na vila. Se fosse um dos nossos amigos de lá, você provavelmente iria se aproveitar da situação e arrancaria cada peça dele.

            - Eu aprendi muita coisa enquanto estive no treinamento. Valores são algumas delas. Cada um desses sujeitos é como se fosse um velho amigo meu. Aprendemos a não chorar por todas as mortes, pois sempre haverá morte, mas também aprendemos a amar uns aos outros, e por isso nós aprendemos que devemos lutar para que nenhum de nós morra.

            - “Não se deve chorar todas as mortes, pois sempre virão, mas também não deve se conformar e ver quem ama simplesmente morrer”. Algo assim, eu acho.

            Bernardo sorriu.

            - Sim, mais ou menos isso.

            Os olhos de Jennifer brilharam, cintilaram. Ela abraçou o irmão, apertando-o forte entre seus braços.

            - Estou tão orgulhosa de você – Disse.

            Bernardo se surpreendeu e ficou sem saber o que dizer. Então refletiu, e lembrou-se de que até pouco tempo atrás nunca tinha falado sobre amor sem envolver garotas, nunca tinha falado com tanto sentimento sem que suas palavras fossem direcionadas a uma jovem a quem desejava cortejar. Ele já não era mais um jovem galanteador e cortês, era agora um homem de verdade.

            Bernardo sorriu, logo depois disse:

            - Vamos, vamos caminhar um pouco.

            E assim o fizeram.

            Conforme andavam, conversavam sobre assunto banais do cotidiano. Bernardo contou como era o árduo treinamento para se tornar cavaleiro. Treino com espadas, lanças, arcos e várias outras armas. Os dias começavam cedo, e todos os aprendizes eram instruídos a correr grandes distâncias com armadura, depois poderia tomar café-da-manhã. Eles eram treinamos em massa para se integrarem ao exército real, então o treino era rígido, o que colocava a prova tudo que eles conheciam e os forçava a aderir novas condutas e novos valores. A aptidão física era meramente um detalhe que selecionava os aprendizes para certas especialidades. Se alguém se mostrava ter um vigor para avançar grandes distâncias de armadura e ainda assim conseguir manusear sua arma, seja qual for, esse alguém era selecionado para o grupo de batedores, que tinha a função de percorrer distâncias rapidamente a pé para dar reforço ou atacar um flanco ou um ponto estratégico rapidamente. Caso alguém tivesse grande força e resistência física, esse alguém era mandado para a linha de frente para segurar a investida inimiga. E assim por diante, visando sempre a melhor posição para cada um dos aprendizes.

            Assim foram as primeiras semanas do treinamento de Bernardo, nada mais que uma espécie de seleção de cavaleiros, apesar que cada um tinha a liberdade de tentar aderir à função que desejasse e então se mostrar capaz dela ou ter que se contentar com outra função que lhe fosse mais indicada.

            Jennifer estava impressionada com o irmão, e ficou um pouco constrangida por não ter uma rotina tão animada para lhe contar. Basicamente toda a vida dela girava em torno da Rainha e do seu dever real. Ela cuidava da beleza, da alimentação, dos horários e a acompanhava as aulas e a alguns eventos como dama de companhia. Diferente do que Bernardo imaginava, em momento algum ela falou mal da Rainha. Muito pelo contrário, ela falava dela com orgulho e admiração, como se falasse da pessoa que mais respeitava no mundo, como se fosse alguém íntimo...

            ... o que de fato era.

            - A Mestra tem bons gostos para quase tudo, desde os vestidos até os adornos do castelo – Jennifer puxou um pouco o tecido do saiote de seu uniforme dos dois lados para exibi-lo. – Esse uniforme foi escolhido por ela.

            Quando tocou o peito, sentiu o metal de seu colar e parou de andar. Bernardo, ao perceber a súbita falta de palavras da irmã, perguntou:

            - O que houve?

            - O colar... a Mestra mandou fazer um colar igual ao meu para o aniversário da Lucinda. Eu fiquei de entregar da próxima vez que a visse.

            - Eles voltaram para casa antes do festival. Acho que não queriam ver o que ia acontecer no festival ou estavam com pressa para voltar para casa. Sabe como o pai e a mãe são.

            - Eu vou pedir permissão para entregar pessoalmente em casa. Seria mais especial.

            Jennifer parecia visivelmente triste por não ter entregue o colar antes, mas entendia bem o motivo de Charlotte ter lhe dado atrasado. Jennifer nunca recebeu sequer uma visita no castelo, e o colar parece ter sido “contrabandeado” para chegar às mãos de Charlotte sem que ninguém soubesse. Talvez ela só tivesse o adquirido quando Jennifer já estava com sua família, e Charlotte era muito ocupada para ir até ela ou não queria atrapalhar o reencontro com sua presença. Charlotte também não poderia confiar a ninguém a tarefa de entregar o colar para Jennifer, pois conhecendo-a bem, provavelmente ela estava fazendo questão de ver o belíssimo sorriso da serva quando recebesse o colar.

            De qualquer forma, não havia nada que ela pudesse fazer no momento, então levantou a cabeça e continuou andando.

            - Vamos – Disse a Bernardo. – Vamos a um lugar mais confortável.

            E voltaram a caminhar lado a lado.

            Chegaram até um dos lugares preferidos de Jennifer, as ameias do castelo. Havia pouca coisa de especial lá além da vista, mas já era noite, então não havia quase nada para ver além das luzes fracas e quase parcas das lamparinas e velas da cidade. O clima estava agradável, frio e a brisa noturna trazia o cheiro das flores que adornavam o castelo. Sim, havia sim muitas coisas que faziam aquele lugar especial para Jennifer além da paisagem.

            - Eu gosto daqui – Disse Jennifer.

            - É agradável. Da para ver boa parte da cidade durante o dia.

            - Não é isso. Eu falo do castelo. Sei que pode ser o sonho de toda garota morar em um castelo, mas isso é diferente. Eu gosto de trabalhar aqui, mesmo sendo um trabalho pesado. Lavar, limpar, cuidar. Isso é trabalhoso e ocupa a maior parte do meu dia, mas por algum motivo eu não odeio isso. É como se me fizesse sentir mais útil de verdade. A Mestra precisa de mim.

            Talvez um golpe de espada doesse menos no peito de Bernardo que aquelas palavras. Ele inclinou um pouco o corpo para frente e apoiou os braços sobre o espaço entre as ameias, desviando o rosto. Jennifer, por se sentir ignorada, tentou empurrar um pouco o assunto para o lado dele.

            - E você? Não está sentindo que está encontrando um lugar entre os cavaleiros?

            - Talvez. Nunca pensei bem sobre isso.

            - Eu confesso que não gosto muito da ideia de você se tornar um cavaleiro. Tenho muito medo de perder você.

            - Eu sei que sim – Ele finalmente virou o rosto para ela. – Sei que ficaria triste se eu morresse, e isso é mais um motivo para eu fazer de tudo para voltar.

            - Eu tenho medo, mas sinto muito orgulho de você...

            As palavras de Jennifer foram acolhedoras. Não, talvez não as palavras, mas a doçura em sua voz. Ainda assim, não muito além da doçura, Bernardo também sentia algo amargo.

            - O que você acha de eu me tornar um cavaleiro? Digo, acha que vou ser um bom soldado? – Bernardo perguntou mais para mudar o assunto que por curiosidade para saber da resposta da irmã, mas o assunto continuava a persegui-lo.

            - Eu acho que sim – Ela respondeu com um sorriso. – Você sempre foi muito valente e esforçado, ou talvez muito tolo. Chegou a roubar armas de cavaleiros experientes para enfrentá-los e tentar sozinho expulsá-los da nossa vila. Não acho que muitos cavaleiros tentariam fazer algo assim.

            - Acho que não faria algo assim novamente. Hoje eu sei melhor o que significa ser cavaleiro, e estou certo que eu não poderia fazer nada contra uma motivação como a deles. Do mesmo modo que aprendemos a não chorar pelas mortes dos nossos companheiros, aprendemos a não hesitar em causar a morte dos nossos inimigos.

            - Isso é meio cruel...

            - É sim. Mas é algo que tem que ser feito.

            - Eu imagino que Sir. Gerald lhe ensina bastante coisa, não é? Que tipo de homem é ele?

            Bernardo fechou os olhos e criou uma imagem do homem em sua mente.

            - Ele é um sujeito forte, determinado. Sempre que um grupo é castigado e forçado a fazer uma série de exercícios, ele sempre está lá, fazendo os exercícios conosco. “Eu não obrigaria ninguém a fazer o que eu mesmo não posso fazer”, berrava ele. No começo eu pensei que ele estava se exibindo, jogando na cara de cada um ali que ele era capaz de tudo, que nós é que éramos moles demais, mas não. Ele queria nos mostrar que era possível, que poderíamos fazer aquilo. Ele sempre ajudou cada um individualmente o máximo que pôde, e até mesmo mentiu uma vez ou outra nos relatórios que lia em voz alta quando o Conde Morgan vinha ver como os recrutas estavam se saindo. Meus colegas de treino são como uma segunda família para mim, e eventualmente Gerald é como um segundo pai. Um pai que odeio, mas amo. Um homem que desprezo, mas respeito.

            Jennifer olhou com fascínio para o irmão. Seus olhos cintilavam e brilhavam enquanto a admiração em sua voz se tornava mais notável.

            - Você fala do Sir. Gerald como eu falo da Mestra – Disse ela. – Imagino que falou de mim para ele também, não é?

            Bernardo quase deixou seu queixo cair de susto. Teria engasgado se estivesse bebendo alguma coisa.

            - Uma ou duas coisas – Disse ele, após se recompor.

            - Como todos os detalhes da minha vida, do meu caráter e da minha personalidade? Talvez seja por isso que ele esteja interessado em mim.

            Bernardo abriu a boca, mas não tinha palavras. Foi somente nessa hora que percebeu que falava da irmã pelos cotovelos com todos. Jennifer o olhou seriamente, depois sorriu.

            - Ele é um bom homem.

            - Sim – Bernardo concordou, sentindo uma onda de alívio percorrer seu corpo ao ver que a irmã não estava de fato irritada.

            - Já disse o que acho dele. Quero saber de você, agora. O que acha da Rainha Charlotte?

            - Não sei o que achar.

            Uma resposta fria, nenhum pouco pensada, tão automática quanto se ele a estivesse esperando.

            - Sei que não a conhece bem, mas deve ter alguma opinião sobre ela.

            - Não tenho. Não posso ter.

            Jennifer envolveu os ombros do irmão com seu braço e encostou sua cabeça em seu peito.

            - Você não gosta dela, não é mesmo? – Disse ela, com um meio sorriso forçado.

            - Não é isso. Eu só... não sei mais o que pensar.

            - Fala como se tivesse visto ela fazendo alguma coisa bem ruim.

            O tom de Jennifer foi de brincadeira, mas para Bernardo foi como uma facada. Ao se ver pressionado, o jovem olhou nos olhos da irmã enquanto segurava seus ombros.  Jennifer ficou paralisada pela surpresa, e foi quando o rapaz deixou a dúvida em sua mente escapulir por sua boca.

            - Você é amante da Rainha?

            Um golpe forte atingiu o estômago de Jennifer. Todo seu corpo estremeceu, e ela forçou um sorriso enquanto falava.

            - Sei que somos bem próximas... – Sua boca tremia, fazendo-a gaguejar. – Ao ponto de fazer surgir boatos, mas você não deve acreditar em tudo que escuta.

            - Eu vi. Ontem à noite. Ela beijou você. Nos lábios. E você permitiu. Você sorriu para ela como se não fosse a primeira nem a segunda vez. Eu não ouvi boatos. Estou dizendo isso porque foi o que meus olhos viram.

            Uma lágrima despencou pelo canto do olho de Jennifer. Não era tristeza, não era medo. Era algo que Jennifer não sabia explicar.

            - Você... nos viu?

            - Me diga, irmã. Você é a amante da Rainha?

            - Eu... eu... – As palavras entalaram em sua garganta.

            - Jennifer, eu... eu só quero entender. Me diga, o que está havendo?

            A jovem se afastou alguns passos, chorando mais intensamente agora. Ela nem ao menos sabia por que estava chorando. Apenas chorava. E então correu. Fugiu do irmão, correndo o máximo que suas lhe permitiram. Correu em meio a dores no peito, como se seu coração fosse explodir. Bernardo ficou parado, observando a irmã, com uma expressão vaga, triste, lamentando por ter falado o que falou.

Jennifer atravessou todo o castelo até chegar ao quarto de Charlotte, e bateu na porta desesperadamente, tanto que chamou a atenção de alguns guardas. Dois soldados com alabardas foram até ela, pronta para segurá-la, mas Charlotte abriu a porta do quarto e antes que pudesse dizer algo foi agarrada por Jennifer, em prantos. Quando um dos guardas fez menção de segurar e puxar o braço da jovem, Charlotte estendeu a mão.

- Deixem-nos – Disse ela.

E assim o fizeram.

Quando as duas ficaram sozinhas, Charlotte levou Jennifer até a cama e a ajudou a sentar.

- O que aconteceu, Jenny? – Perguntou Charlotte, preocupada.

Mas Jennifer não respondeu, apenas continuou abraçando a mestra como uma criança se agarra ao colo da mãe. Tudo que Jennifer fez foi chorar e chorar, até seus olhos incharem e se tornarem vermelhos.



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