História A Serva de Charlotte - Capítulo 18


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amor, Drama, Guerra, Homossexualidade, Lesbicas, Medieval, Reinos, Romance
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), FemmeSlash, Romance e Novela, Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 18 - Présságio


            A carta foi enviada para Jennifer. Maria teve que reescrevê-la uma vez, pois deixou suas lágrimas caírem sobre o papel na primeira escrita. Leonard a consolava, dizendo que era a melhor coisa a se fazer. Ambos concordavam que não suportariam ter que se despedir da filha novamente como da última vez, então seria melhor para todos que a despedida fosse apenas uma menção em uma folha de papel.

            Leonard enviou a carta através de um mensageiro encarregado pela Rainha para mediar a correspondência entre Jennifer e a família. O homem já não era tão jovem, mas ainda era bem-disposto ao trabalho. Leonard agradeceu pela última vez pelo bom trabalho do homem, e foi recebido com um olhar confuso, que não sabia ao certo o porquê de agradecimentos extravagantes e repentinos. Assim que a mensagem foi entregue em suas mãos, o homem partiu, e então a família deixou escapar todas as lágrimas.

            Dois dias se passaram depois disso, e a família já estará viajando a um ciclo de dia e noite. Leonard imaginava se a carte já havia sido entregue à sua filha, já que ao que parecia o castelo estava muito movimentado e todas as mensagens que transitavam livremente nesses casos eram mensagens de maior importância. Talvez por se tratar de uma mensagem para alguém próximo a Rainha a mensagem seria entregue com mais rapidez. Leonard chacoalhou a cabeça para se livrar dos pensamentos e decidiu não olhar para trás. Ele segurava as rédeas do cavalo que comprou para carregar metade das coisas que levava para a viagem, ademais Lucinda, cujas pernas eram curtas demais para aguentar acompanhar todos na viajem inteira se caminhasse. Antônio, o leal burro da família, carregava em seu lombo os demais pertences e era montado por Lucas, que estava sempre atento ao seu redor, como uma sentinela.

            Maria se divertia vendo o filho assim, mesmo que soubesse que ele já fingia ser um cavaleiro, coisa que ela não queria para seu outro filho também. Eles caminhavam por quilômetros, com poucas pausar pelo caminho para comer e descansar. As duas noites para eles foram longas e revigorantes. Deitavam-se pouco depois de o sol se pôr e levantavam pouco antes do sol nascer, quando os primeiros vestígios de luz no horizonte iluminavam seu caminho. A jornada foi longa, cansativa, mas teve seu fim assim que avistaram a enorme cidade comercial de Bergamo, onde esperavam poder construir uma nova vida, ou melhor, reconstruir suas vidas antigas.

_

            Jennifer passou a noite com Charlotte, dividindo a cama com ela, mas por mais que a Rainha a abraçasse, a acolhesse e tentasse confortá-la, a serva simplesmente não parecia bem e não conseguia dormir. Seus olhos estavam inchados e cheios de raízes avermelhadas de tantas lágrimas que desceram deles. Charlotte não ousou insistir em perguntar o que tinha acontecido com a serva para que ela chorasse tanto. Nas duas vezes que perguntou, a resposta que recebeu foi um grunhido de choro, igual a de uma criança.

            Quando o dia amanheceu, a Rainha despertou do leve sono em que tinha caído. Dormira pouco, e seu sono foi leve demais para ser chamado realmente de sono. Seu primeiro ato ao despertar foi afagar o cabelo de Jennifer, cujos olhos pareciam não ter se fechado a noite toda.

            - Bom dia, Jenny – Disse Charlotte, com uma voz terna e tranquila, e no canto de sua boca um fragmento de sorriso.

            - Bom dia, Mestra – Jennifer respondeu, mais por reflexo que por qualquer outra coisa. Seu tom foi depressivo e triste.

            - Estou preocupada com você, Jenny – O sorriso de Charlotte sorriu completamente. – Você está assim a noite inteira.

            Jennifer rolou na cama, virando o rosto para o lado para que Charlotte não a olhasse nos olhos.

            - Eu não sei se devo incomodá-la com essas coisas – Disse ela, mesmo com o fato de o problema envolver Charlotte também.

            - Se não pode conversar disso comigo, com quem mais conversaria?

            Charlotte virou Jennifer para que ficasse de frente para ela. Quando a serva abaixou a cabeça, Charlotte tocou seu queixo e a levantou, tocando seus lábios de leve com os seus próprios.

            - Afinal, se não pode compartilhar o que sente com quem ama, não pode compartilhar com mais ninguém.

            Jennifer tentou sorrir, mas não conseguiu mais que fazê-lo por um instante. Ela inspirou fundo e apoiou o rosto sobre a barriga de Charlotte enquanto a abraçava.

            - Meu irmão nos viu.

            - Você quer dizer...

            - Ele viu quando nos beijamos.

            Charlotte levantou o olhar para o teto da cama, depois para as paredes, depois fechou os olhos. Não sabia ao certo o que pensar. Boatos sobre Charlotte eram tão comuns que nem mesmo os mais conspiradores, paranoicos e supersticiosos acreditavam neles. Uma grande parte da população desaprovava os métodos de Charlotte, então era comum que espalhassem mentiras sobre ela.

            Mas aquilo era diferente.

            Um soldado sob juramento de servir a coroa dizer tal coisa seria mais que um boato. Aquilo teria uma fonte interna, então subiria para o nível de uma informação. Charlotte ficou tão preocupada com o que ouviu que quase esqueceu a preocupação com o que Jennifer tinha sentido. Para Jennifer, beijar outra mulher e ser vista por alguém de sua família poderia ser algo que lhe traria repudia, talvez. Charlotte não conhecia a família de Jennifer tão bem para saber qual a opinião deles em relação a isso, mas não queria arriscar. Ela pensou em subornar Bernardo para que ele não falasse nada para mais ninguém, mas concluiu que essa atitude seria muito indigna para alguém da família de sua amada.

            Uma torrente de pensamentos correu livre pela mente de Charlotte, e ela até mesmo pensou – embora não tenha considerado realmente fazê-lo – prender Bernardo, assim qualquer coisa que ele dissesse seria apenas as asneiras de um soldado que iria querer ofender a Rainha. Por outro lado, pensou um pouco a respeito e imaginou que Bernardo não levaria isso a público, já que poderia manchar a imagem de sua preciosa irmã e de sua família.

            - Mestra? – A voz de Jennifer ressoou por seus ouvidos, tirando-a se seus pensamentos.

            - Ah... bem... – Charlotte não conseguiu juntar palavras para falar algo por um momento, mas respirou fundo e sorriu. – Vamos dar um jeito nisso.

            A Rainha se levantou vagarosamente, beijou a testa da serva e se espreguiçou.

            - O que vai fazer? – Quis saber Jennifer.

            - Vou conversar com ele – Respondeu ternamente com um sorriso.

_

            O jovem aprendiz de cavaleiro estava caminhando a esmo do lado de fora do castelo, no pátio externo, vagando quase sem olhar para frente, vestido tão casualmente que podia ser confundido com um dos empregados em dispensa do castelo. Alguns pensamentos martelavam sua mente, entre eles, confusão. Imaginou se não tinha visto coisas, imaginado um beijo que não tinha de fato acontecido, mas visualizou novamente a imagem e teve certeza de que tinha visto mesmo o que achou que viu. Depois imaginou como a irmã tinha se sentido ao saber que ele viu, mas não sabia como reagir a isso. Quando uma coisa tão inesperada acontece, ninguém sabe como reagir ou o que sentir na hora, e isso acaba se estendendo por muito e muito tempo. Talvez fosse melhor não ter dito nada a ela, ele pensou, talvez manter isso para si fosse a melhor coisa a se fazer.

            Arrancando-lhe de seus pensamentos, um homem chamou sua atenção.

            - Com licença, senhor. Pode me ajudar um instante?

            Bernardo levantou o olhar e viu um homem mais velho que ele, frente a uma carroça carregada de feno.

            - Olá, amigo – Bernardo o cumprimentou. – Como posso ajudar?

            - A roda está meio solta. Pode me ajudar a levantar a carroça enquanto eu conserto?

            Bernardo assentiu com a cabeça.

            Com uma alavanca de madeira, Bernardo conseguiu suspender um dos lados da carruagem por tempo o bastante para que o homem fizesse a roda voltar para o lugar e firmá-la lá. Por ser uma carroça de quatro rodas e por transportar feno, não foi uma tarefa difícil.

            - Muito obrigado, amigo – Disse o homem a Bernardo.

            - Não foi nada.

            O homem estendeu a mão para ele e sorriu.

            - Eu me chamo Rudolf.

            Bernardo apertou sua mão e levantou a sobrancelha.

            - Rudolf? O servo de Gerald?

            - O próprio. Vejo que ele comentou sobre mim. A quem devo a honra?

            - Eu sou Bernardo, aprendiz de cavaleiro.

            - Ah, o irmão de Jennifer! – Rudolf sorriu. – É muito bom finalmente poder conhecê-lo. Sua irmã sempre fala de você.

            “Irmã”.

            A palavra fez Bernardo voltar aos pensamentos de antes. Após um segundo, ele percebeu que ainda segurava a mão de Rudolf, então rapidamente a soltou.

            - Então, Bernardo, tem algo para fazer agora?

            - Bem... não. Estou de folga. Logo vou voltar para o campo de treinamento dos aspirantes a cavaleiro, então me deram alguns dias de descanso depois do festival.

            - Gostaria de me ajudar a levar esse feno para os cavalos?

            Bernardo pensou que fosse melhor ficar sozinho para organizar os pensamentos, mas achou melhor se distrair um pouco.

            - Claro. Por que não?

            Então ambos subiram na frente da carroça e foram até os estábulos. Chegando lá, Rudolf pegou dois tridentes, deu um para Bernardo e os dois começaram a encher as cocheiras dos cavalos com feno. Depois os dois carregaram alguns baldes d’água para os cavalos, escovaram os pelos, trocaram ferraduras velhas e outras coisas mais. Bernardo se lembrou que costumava fazer as mesmas tarefas antigamente, quando cuidava de Oscar, o cavalo da família. Ele notou que as tarefas pareciam bem mais fáceis agora, mesmo sendo em maior quantidade. Talvez seu treinamento tenha surtido efeito, pois ele martelava os pinos para prender as ferraduras nos cascos dos cavalos mais facilmente, com mais destreza e força. Baldes de água pareciam mais leves, manusear o tridente para distribuir feno nas cocheiras não era mais cansativo como ele se lembrava. Enfim ele percebeu que estava crescendo como cavaleiro, e agradeceu silenciosamente ao seu treinamento.

            Foi então que Bernardo estava para dar feno a um dos cavalos e viu algo familiar ele. O cavalo era preto, com manchas brancas no focinho e pouco acima das patas. O cavalo se aproximou dele com a cabeça por cima da cancela e foi recebido com um carinho no focinho pelo jovem.

            - Oscar? – Disse em voz alta, surpreso.

            - Como disse? – Rudolf olhou para ele.

            - Esse cavalo... onde? De onde ele veio?

            - Foi confiscado de uma vila perto das fronteiras. Parece que o Conde Morgan o confiscou junto erroneamente, e Sir. Gerald me encarregou de cuidar do cavalo quando o trouxe, já que a vila de onde ele veio foi tomada e não há como devolver ao dono.

            Rudolf se interrompeu ao ver o modo como o cavalo confiava no jovem aprendiz. Foi então que ele somou 2 mais 2 e juntou 4.

            - Ele é seu? – Perguntou.

            - Da minha família. Foi confiscada junto com as armas que eu roubei do arsenal. Deve saber da história. Veio a público com o meu julgamento.

            Rudolf sorriu para ele.

            - Gostaria de dar uma volta... como você o chama? No Oscar?

            - Uma volta?

            - Sei que o cavalo é seu de direito, mas não vai poder simplesmente reaver ele dessa forma. A Rainha desaprovou a confiscação dos bens daquela vila, mas ainda assim seria muito trabalhoso procurar donos para devolver tudo, então tudo o que foi confiscado deve ficar aqui, com exceção de alguns casos bem específicos.

            Bernardo deu um sorriso torno.

            - Ele foi confiscado por ser posse de um suposto criminoso. Não ouvi falar de qualquer outro cavalo sendo confiscado além do Oscar. Entendo que ele ser levado foi apenas consequências dos meus atos – Sorriu, então deu feno para o cavalo. – Quando posso dar essa volta que você me ofereceu?

            Mas Rudolf não respondeu. Em vez disso, apenas chamou sua atenção.

            - Rapaz... – Disse em um sussurro.

            Quando olhou para trás, Bernardo viu Rudolf ajoelhado frente a bela moça de cabelos castanhos. O jovem instantaneamente ajoelhou-se, tanto em reverência quanto para esconder seu rosto. Charlotte olhou para ele e fez um gesto com a mão para que ele se levantasse.

            - Bernardo – Chamou.

            - Sim, Majestade.

            - Há um assunto que desejo debater com você. Se importaria de me acompanhar para falarmos a sós?

            - Às suas ordens, Senhora.

Bernardo foi educado, reverente e cortês, e isso pareceu incomodar um pouco a rainha.

- Isso não é uma ordem. Não peço como Rainha. É algo pessoal, de mim para você.

            Bernardo finalmente olhou nos olhos dela, e então assentiu com a cabeça. Rudolf, que ainda estava ajoelhado, levantou e fez uma reverência com a cabeça enquanto os dois saíram. Eles andaram pelo pátio do castelo, para dentro dele, até chegar ao caminho que os levariam para as ameias. Assim que chegaram lá, Charlotte olhou sobre as ameias e parecia apreciar o horizonte, sentindo o perfume das flores espalhadas sobre algumas delas.

            - Imagino que saiba sobre o que desejo conversar – Disse ela.

            Bernardo abaixou a cabeça e assentiu.

            - O que exatamente você viu? – Continuou ela?

            - Preciso mesmo pôr isso em palavras? – Disse ele, fazendo Charlotte fechar os olhos com força, como se tivesse recebido um golpe. – Você e minha irmã... ainda não consigo acreditar nisso.

            - Antes de mais nada, saiba que ela não está sendo forçada a nada disso.

            - Não mesmo? - Bernardo começou a parecer irritado, depois enfurecido. – Que escolha ela teria? Acha que ela se encontra em posição de recusar alguma coisa que você deseja? Você praticamente a sequestrou e a obrigou a servir você. E ainda assim você acha que ela teve escolha de...

            O rapaz foi interrompido pelo toque da mão de Charlotte na manga de sua camisa. Ele ainda estava com o rosto sério, mas amoleceu ao ver o rosto tristonho e quase em lágrimas de Charlotte.

            - Eu quase abusei dela. Sei que fiz algo horrível, mas não posso mentir para você assim.

            Os punhos de Bernardo cerraram com força. Tudo que ele mais desejava era golpear Charlotte com força.

            - Mas eu a concedi liberdade depois disso – Ela continuou, e suas palavras amoleceram os dedos de Bernardo. – Eu a libertei. Ela estava prestes a deixar       de ser minha serva para ser uma empregada do castelo, e assim poderia ficar longe de mim. Foi então que você veio para o castelo, trazido pelo Conde Morgan. Quando Jennifer soube que você estava prestes a ser julgado e possivelmente executado, ela se entregou completamente a mim.

            Depois de tantos altos e baixos emocionais de acordo com o que Charlotte lhe dizia, ele virou de costas para ela e levou as mãos até o rosto, pensativo.

            - Está dizendo que minha irmã se prostituiu para você para que você me poupasse? – Disse ele, e então se virou violentamente para ela. – Ela deveria ter me deixado morrer!

            O punho de Bernardo se levantou fechado à frente do próprio rosto, como se fosse um sinal de protesto. A fúria do homem foi aplacada com a jovem rainha segurou suas mãos e as fez relaxar, desfazendo seu punho fechado e entrelaçando seus dedos.

            - Eu nunca permitiria algo assim – Disse Charlotte. – Eu não sou o monstro que você vê quando olha para mim. Jennifer é doce, pura e inocente. Eu nunca me aproveitaria dela naquele momento. Eu conheci sua irmã a partir do momento em que ela tentou se oferecer para mim. Ela faria qualquer coisa por quem ama, e isso é admirável. Eu prometi a ela que faria de tudo para poupar você, e que depois ela poderia nunca mais precisaria me ver, mas ela quis ficar ao meu lado. Por agradecimento ou por qualquer outro motivo que eu não entendo, ela escolheu estar lá ao meu lado. Foi então que eu e apaixonei por ela, me apaixonei pela sua irmã.

            Bernardo não soube o que dizer. O queixo caiu, os dedos relaxaram nas mãos de Charlotte. Ele sentiu o calor de suas mãos e seu olhar cortou o ar até chegar aos olhos do rapaz.

            - Eu sei que não mereço, mas tenho algo para pedir para você. Não como rainha, mas como uma mulher.

            Ele não conseguiu deixar de ter certos pensamentos ao ouvir aquela frase, mesmo sabendo que não era disso que se tratava. Em toda sua vida ele esteve no “comando” dos momentos em que um sentimento era formado entre ele e uma mulher, em toda sua vida ele fez com que se apaixonassem por ele, mesmo que muitas vezes falhasse ao tentar. Porém era a primeira vez que vira uma mulher sendo tão forte quanto Charlotte era, e ainda assim tão feminina, sensível e sentimental quando chegava o momento em que poderia ser. Era a primeira vez que uma mulher fazia seu coração bater mais forte. Era a primeira vez que...

            ... ele se apaixonara verdadeiramente por uma mulher.

            - Então me diga, o que deseja de mim? – Ele perguntou, agora apertando a mão de Charlotte com a mesma força com que ela a apertava de volta.

            - Eu quero que perdoe Jennifer... – A voz dela foi tão suave e sutil que pareceu um sussurro.

            - Depois de ouvir tudo isso... – Ele virou o rosto de lado, evitando olhar diretamente para ela. – Sabendo o que ela tentou fazer por mim, eu não posso ficar irritado com ela. Sei que foi algo imundo, mas ela só pensou em mim. Eu não tenho nada a perdoar.

            - E também... – Charlotte começou a dizer, mas hesitou e soltou a mão de Bernardo – Quero que me conceda uma coisa, se possível. Sei que é algo apressado da minha parte, mas agora que você sabe sobre nós duas, tenho que lhe pedir isso mais cedo ou mais tarde.

            Após um momento de tremedeira, Bernardo se preparou emocionalmente e assentiu com a cabeça.

            - O que você quer? – Disse da maneira mais gentil possível, mas ainda assim pareceu rude.

            - Eu quero sua benção. Quero sua permissão para desposar sua irmã algum dia.

            Charlotte ajoelhou frente a ele, de cabeça baixa em demonstração de seriedade, pois a Rainha raramente era vista fazendo esse tipo de coisa, e ainda mais raramente para um mero soldado. Um golpe atingiu o estômago de Bernardo. Não lhe veio palavras para esboçar qualquer reação. Tudo que pôde fazer foi olhara para os lados para se certificar que ninguém estava olhando o que Charlotte estava fazendo. Depois ele a ajudou a se levantar, quase em choque devido a surpresa.

            - Confesso que não sei como reagir a isso – Disse Bernardo.

            A Rainha sorriu um pouco tristonha, quase decepcionada.

            - Entendo como se sente – Disse ela, já virando de costas. – Pense a respeito disso. Eu... apenas... bem – As palavras entalaram em sua garganta, e depois somente disse: - Preciso voltar agora. Até a vista, cavaleiro.

            O orgulho que Bernardo sentiu ao ser chamado de cavaleiro pela Rainha durou apenas poucos segundos. Ele fez uma reverência e esperou-a caminhar para longe para que pudesse virar-se para olhar sobre as ameias, para o horizonte. Seus pensamentos nunca estiveram tão confusos, mas conseguiu tirar um momento para brincar consigo mesmo.

            - A primeira pessoa por quem você se apaixonou já teve o coração roubado pela sua irmã – Disse para si mesmo. – Que belo homem você está se tornando, Bernardo.

            Lá de cima, ele pôde ver o estábulo onde estava conversando com Rudolf, e o homem ainda estava a cuidar dos cavalos, sem sequer notar que Bernardo o olhava de cima. Ele observou enquanto Sir. Gerald caminhava até o Rudolf, o cumprimentando mais educadamente do que qualquer um cumprimentava um servo ou um escravo. Bernardo sorriu de leve. Era irônico como Gerald tratava bem seu servo, mas era tão duro com seus alunos da escola de cavaleiros. Rudolf parecia ser bem mais que um servo, ele era verdadeiramente um amigo.

            Ele ficou lá por um tempo, com os braços sobre um espaço entre as ameias e o rosto sobre os braços, olhando jardineiros, empregados, cavaleiros e todo tipo de pessoa transitando pelo pátio do castelo. Perdeu a noção de quanto tempo tinha estado ali, e foi quando viu um pequeno tumulto no pátio. Ele semicerrou os olhos para ver melhor do que se tratava e levantou de sobressalto assim que viu que era Jennifer, tentando se libertar dos braços de um guarda e de um servo. Bernardo quase saltou de cima da muralha para ir ao auxílio da irmã. Ele correu pela escadaria da muralha até chegar em baixo, e depois até o pátio, onde sua irmã estava.

            - O que está acontecendo? – Perguntou aos gritos. – Soltem ela!

            Ele tentou se aproximar para arrancar a irmã dos braços dos dois homens, mas entre ele e seu objetivo Charlotte se colocou na frente.

            - Acalme-se, Bernardo – Disse ela.

            - O que estão fazendo com ela?

            - Eu explico tudo depois. Não se preocupe. Vamos apenas levar Jennifer para meus aposentos. Ela recebeu uma carta e... está muito agitada.

            O jovem percebeu a hesitação em sua voz.

- Que carta? Do que está falando?

Foi então que Jennifer gritou para ele.

            - Nossa família! Eles foram para Bergamo! Eu tenho que avisá-los, eles não podem ficar lá!

            Charlotte parecia não saber bem o que fazer, então apenas fez um sinal para que soltassem Jennifer, e ela mesma a abraçou, acolhendo a jovem em lágrimas em seus braços.

            - Calma, Jenny. Vai ficar tudo bem, eu prometo – Charlotte sussurrou para ela, da maneira mais doce e aconchegante possível no momento.

            Bernardo ainda estava sem entender nada. Ele de fato não sabia sobre a viajem da família e sentia que gostaria de ter podido se despedir, mas o que de tão mal poderia acontecer se eles fossem para Bergamo? Ele não conhecia a cidade, apenas ouviu algumas vagas menções sobre ela, mas nunca sobre ser um lugar perigoso.

            - Jennifer – Continuou a Rainha, agora com a voz mais autoritária, mas não deixando de ser calorosa e acolhedora. – Vamos voltar para dentro do castelo, está bem? Eu prometo que vou resolver isso – Então se virou para o jovem aprendiz, que as olhava com preocupação e confusão. – Venha também, Bernardo. Eu vou lhe explicar tudo que eu puder.

            Então ambos acompanharam Charlotte até seus aposentos.


Notas Finais


Alias, confiram os dois novos capítulos da história que vou postar assim que essa acabar. O tema é diferente, mas ainda assim acho que val a pena dar uma conferida.
Os 12 Pecados de Ethan Scott: https://www.spiritfanfiction.com/historia/os-12-pecados-de-ethan-scott-em-breve-13893909


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