História A Serva de Charlotte (Rumo à publicação) - Capítulo 19


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amor, Drama, Guerra, Homossexualidade, Lesbicas, Medieval, Reinos, Romance
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), FemmeSlash, Romance e Novela, Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 19 - Antes da tempestade


Jennifer, sentimos muito por nos despedirmos dessa forma. Eu gostaria que fosse diferente, mas meu coração não suportaria a visão de outra separação. Você está se tornando uma mulher madura, mas ainda acho que é jovem o bastante para se adaptar a sua nova vida, a qual parece que lhe dá alguns sorrisos com o passar dos dias. Seu pai e eu decidimos sair da capital e ir para um lugar menor, mais tranquilo, que se pareça mais com a nossa pequena vila, onde sempre vivemos e que sempre será nossa casa.

Nada do que seu pai e eu fazemos consegue vender bem, e por conta disso o dinheiro que você nos manda é praticamente nossa única renda, mas isso tem que mudar. O lugar aonde vamos se chama Bergamo, e é uma cidade que vive do comércio de grãos e outros meios alimentícios, mas também é, pelo que pesquisei, um lugar onde nós poderemos viver do que produzimos, embora apenas pretendamos tomar posse de alguma cabana nos arredores da cidade, não nela propriamente dita. 

Sei que estou sendo egoísta escrevendo isso e sei que deveria a abraçar uma última vez antes de partir, mas sinto que não seria fácil nem para mim nem para você. Lucinda e Lucas ficaram um pouco triste com a partida, mas mesmo eles não estão acostumados com a vida na cidade grande. Quando receber essa carta, receio já estarmos longe, talvez até chegado lá, mas de forma alguma quero que pense que estamos a abandonando, não, longe disso. Estamos partindo sem você porque sabemos que já é adulta e que pode reger sua vida como bem entender.

Tenho orgulho da mulher que está se tornando, minha pequena. Nós amamos você, todos nós. Se puder, avise Bernardo da nossa ida, pois não conseguimos enviar uma carta para ele a tempo. Adeus, minha filha. Prometemos visitá-la assim que possível.

De sua mãe, seu pai e seus irmãos. Com todo amor e carinho.

 

Isso era o que dizia a carta que chegou até as mãos de Jennifer, e que estava sendo lida por Bernardo. Os três estavam nos aposentos de Charlotte, tentando acalmar os nervos e manter a cabeça no lugar. O jovem aprendiz de cavaleiro leu e releu a carta, mas não conseguiu encontrar a parte que teria preocupado tanto Jennifer, então, deixando a carta sobre a mesa e se virando para a irmã, disse:

- Jennifer, sei que deve estar um pouco abalada com uma partida repentina dessas, mas o que há de tão ruim nessa viagem?

Jennifer estava com as mãos trêmulas, sentada em um dos lados da mesa, enquanto Charlotte e Bernardo sentavam nas duas extremidades. Foi Charlotte que tomou a palavra antes que Jennifer sequer demonstrasse tentar falar, não por Charlotte a interromper, mais por Jennifer hesitar muito.

- Bergamo vai ser alvo de um grande ataque de inúmeras tropas de Larik – Disse ela. – Nossos espiões em Larik tomaram conhecimento do plano de ataque e nos avisaram.

Bernardo ficou paralisado por alguns instantes antes que conseguisse falar novamente.

- Mas... – Hesitou. – O que você vai fazer a respeito? – Sua voz soou com um misto entre indignação, ameaça e acusação. – Se sabe do ataque, deveria mandar as tropas para montar uma linha de defesa e um bloqueio. O que diabos os cavaleiros nas fronteiras estão fazendo para permitir um número enorme de tropas do inimigo passarem? Bergamo não fica praticamente no meio do caminho entre a capital e a fronteira? Como eles chegaram lá?

Charlotte se enfureceu e levantou em sobressalto.

- Abaixe sua voz para falar comigo – Disse ela, quase em um grito. – Eu sei exatamente o que estou fazendo. Você ainda é apenas um aprendiz, um aspirante a cavaleiro. Não pense que não tomei as devidas providências. A cidade em si está segura e protegida. Posso garantir com a mais absoluta certeza que nenhum dos cidadãos será sequer tocado dentro dela.

Bernardo abaixou a cabeça e sentiu-se um pouco mais aliviado, até mesmo um pouco culpado por subestimar a determinação da Rainha em proteger seu povo.

- Por outro lado – Prosseguiu Charlotte, mais calma agora que Bernardo se encolheu. - Não posso fazer um alerta para que nenhum deles saia da cidade, nem mesmo para passear pelos arredores. Se sua família está mesmo pretendendo ficar nos arredores da cidade, não posso esconder que eles correm risco de serem saqueados e feitos prisioneiros.

- Então temos que fazer alguma coisa! Mande um mensageiro, um cavaleiro. Avise a alguém cidade para que avise minha família!

- Eu não posso fazer isso – Disse ela, e podia-se perceber o pesar em sua voz. – Poucas pessoas sabem do ataque, e menos ainda sabem do plano para contra-atacá-los. Não posso arriscar deixar o inimigo saber que estamos cientes do ataque. Não sabemos onde sua família está exatamente, e mandar alguns homens para vasculhar os arredores da cidade em busca de quatro pessoas vai ser arriscado, já que o inimigo vai estar e grande número e pode atacar e aniquilar facilmente um pequeno grupo de pessoas se os perceberem. O ataque já deve estar sendo organizado e os arredores vigiados agora – Ela levantou a mão para interromper o que Bernardo estava prestes a dizer, pois sabia do que se tratava. – Também não posso mandar um grande número de homens, já que isso iria avisar o inimigo que sabemos de sua presença.

- Mas temos que fazer alguma coisa!

- E algo vai ser feito – Charlotte olhou para Jennifer ao falar, sentindo pena do olhar triste e das mãos ainda muito trêmulas da jovem. – Eu prometo – E sua voz soou mais consoladora.

Logo após isso, os três deixaram os aposentos reais. Charlotte foi em busca de alguns membros do conselho para debater alguns assuntos, provavelmente enfatizando o fato que poderia haver civis ao redor da cidade durante o ataque e que a proteção deles era prioridade. Jennifer estava na porta de seu quarto quando Bernardo enfim falou com ela calmamente e ciente da situação.

- Podemos conversar um instante?

Ela hesitou, mas então assentiu e entrou no quarto, Bernardo logo atrás. Ambos se sentaram lado a lado na cama, Jennifer ainda de cabeça baixa.

- Não há nada que você possa fazer? – Perguntou Bernardo.

- Se houvesse, eu já teria feito – Se Jennifer entendeu o que Bernardo quis dizer, fingiu não entender.

- Quando eu fui à julgamento, você a convenceu a me ajudar, mesmo não sendo algo moralmente certo da parte dela. Você talvez possa convencê-la a mandar alguém para procurá-los.

- Já que sou a amante dela – Completou ela.

As palavras soaram como uma flechada no joelho, derrubando o aprendiz de cavaleiro em pensamentos e sentimentos de culpa. Longe dele querer pressionar a irmã ou fazê-la se sentir mal de qualquer maneira.

- Eu não quis dizer por esse lado. Ela ouve você, e sempre ouvi dizer que ela nunca ouve ninguém, e até mesmo dispensa conselheiros em suas decisões. Mesmo no conselho de guerra, dizem que ela apenas ouve opiniões e planos para levá-los em consideração, mas nunca se deixa influenciar por ninguém.

- Ela me ouviu porque se importa comigo. Foi algo isolado. Você estava quase indo para a forca ou para a guilhotina, e evitar que você fosse não iria prejudicar ninguém. Já no caso de nossos pais, semanas e mais semanas de planos estão em jogo. Se o contra-ataque falhar, poderemos perder a cidade comercial que é fonte de suprimentos das forças na fronteira. É exatamente esse o plano do inimigo para nos enfraquecer: atacando nossa economia. Seria como pedir a ela para deixar de lado a segurança da cidade e talvez do reino por quatro pessoas.

De tantas vezes que Jennifer ouvira tal explicação, dessa vez ela a conduzia como uma verdadeira entendedora de tais assuntos, como se fosse dedução dela própria, o que obviamente impressionou o irmão.

- Eu me sinto impotente – Confessou o aprendiz de cavaleiro. – Todo o treinamento que eu tive, todas as filosofias que me foram passadas... parece que tudo estava me preparando para não perder a calma e a postura nesse momento, mas agora que ele chegou parece que não consigo evitar de me sentir assim.

            - Charlotte sempre parece radiante, não é? – As palavras de Jennifer pareceram aleatórias para Bernardo, pois não conseguiu encaixar no assunto falado. – Se fosse qualquer membro da família real no lugar de nossos pais, mesmo a condessa ou qualquer outra pessoa próxima a ela, seu julgamento não mudaria. Ela continuaria firme, sem se deixar abalar, mesmo com o risco de perder as pessoas que ama. Ela continuaria radiante em comando, com seu olhar firme e decidido até o fim, como se não conhecesse arrependimento ou hesitação.

            - Não entendo como ela consegue ser tão fria a esse ponto. Ela é tão jovem – Bernardo apoiou os cotovelos sobre os joelhos e juntou as mãos.

            - Acha mesmo que ela não sofre por causa dessa “frieza”? Eu já a vi chorando e lamentando por seus atos. Na verdade, a vejo triste e mal a maior parte do tempo. Ela mantém a postura frente aos cidadãos e cavaleiros, mas quando não há ninguém para julgá-la, finalmente ela pode chorar. E como chora. Ela é sensível como eu ou você. Talvez até mais. Alguns a respeitam e idolatram, outros a odeiam e a desprezam. Isso também pesa para ela. Ficar indiferente a esses julgamentos é algo mais difícil que parece.

            Bernardo refletiu um pouco sobre as palavras e decidiu era verdade. Ele não conseguia se imaginar tomando decisões importantes com tanta pressão e julgamento em seus ombros. Charlotte se esforçava para ser uma boa rainha, não uma rainha amada.

            - Ela é realmente uma grande mulher – Disse ele, por fim.

            - Sim – Concordou. – Ela é sim.

            Um pequeno sorriso no rosto de Jennifer surgiu ao falar de Charlotte, e Bernardo percebeu. Ele riu de leve, ainda mais que ela, e então disse:

            - Sobre você e ela, eu quero que saiba que se você a julga como um bom partido para você, eu não tenho nada contra. É só que...

            - Acha que não é real porque eu sou apenas uma serva dela – Jennifer o interrompeu.

            - Na verdade acho estranho duas garotas juntas. Foi a primeira vez que vi duas mulheres se beijando – Outro sorriso, dessa vez bem mais descarado, surgiu no rosto de Bernardo.

            Jennifer ficou envergonhada, e então sorriu enquanto desviava o rosto.

            - Seu idiota... seja mais delicado.

            - Mas pelo que você me disse, devo dizer que isso é algo que ninguém deve saber. Ela já está sob pressão o bastante por ser rainha, e não acho que seja um bom momento para que a população descubra que ela tem uma garota como amante.

            Jennifer sorriu.

            - Eu sei. Você tem razão. Bem, acho que isso depende de você agora.

            - Eu sei guardar segredo. Lembra quando quebramos o vazo que a mamãe ganhou de presente da vovó? Eu fiquei de castigo por não dedurar você.

            - Você estava tomando conta de nós enquanto o pai e a mãe estavam fora.

            - Também teve o dia que o Lucas tentou ensinar a Lucinda a atirar com arco e flecha, e ela acertou a janela de vidro, que se espatifou.

            - Você escondeu a flecha e disse que não fazia ideia do que tinha acertado a janela. Você sempre nos protegeu.

            - E sempre vou proteger, pois eu amo vocês. Somos família, e é isso que as famílias fazem: protegem uns aos outros.

            Jennifer abraçou o irmão com toda força que um abraço gentil permitia.

            - Eu também amo você, irmão.

_

            Era chegado o dia que precedia o grande ataque de Larik a Bergamo. Cedo da manhã, tudo parecia em ordem, sem qualquer alerta, sem qualquer movimentação estranha na cidade, mas ao redor dela alguns homens começavam a sair discretamente sem que ninguém os visse. Pouco a pouco, um pequeno e seleto grupo estava cavando ao pé de determinadas árvore e retirando do solo espadas, cotas de malha, escudos, adagas, arcos e flechas de metal. Todo o equipamento foi reunido e limpo, e as espadas foram afiadas e verificadas. Cerca de 15 homens e mulheres passaram a manhã inteira com esse trabalho, provavelmente os comandantes das tropas que se reuniriam no dia seguinte.

Durante todo o tempo de planejamento em que tinham se passado por refugiados, eles buscaram ter o mínimo de contato possível uns com os outros, embora alguns formassem pares para fingirem ser um casal, reduzindo de certa forma o número de lugares que eles ocupariam a fim de chamar menos atenção. Em uma das poucas ocasiões em que os líderes trocaram informações eles procuraram um lugar ideal para armazenar o equipamento escondido depois de desenterrado e se ocultarem até o momento do ataque, além, é claro, de armazenarem provisões para que todos estivessem bem-dispostos quando o ataque começasse. Para tal, escolheram as cabanas ao redor da cidade, por volta sete ou oito delas, as que ficavam em semicírculo voltado para a fronteira, pois seu número não era grande o bastante para cercar a cidade inteira – pretendiam concentrar sua força em um único lado.

A estimativa era que uma força de pelo menos 500 homens, mais os 15 comandantes, chegasse ao amanhecer, antes mesmo da cidade acordar. Todos estavam familiarizados com a geografia da cidade e dos arredores, conheciam os cidadãos, os locais mais vulneráveis e a rotina da força da guarda da cidade. O plano era praticamente infalível, se bem executado, pois cada um dos que se infiltraram em Bergamo viveu lá por bastante tempo, criaram laços de amizades e até mesmo laços amorosos, estando assim acima de qualquer suspeita. Os demais homens que se infiltraram nas cidades próximas estavam cientes de toda a geografia, pois visitavam a cidade supostamente para ver seus parentes refugiados.

Tudo era perfeitamente bem arquitetado, até mesmo a disciplina dos cavaleiros, cujas mentes foram preparadas para não hesitarem e levantar suas armas até mesmo que para aqueles que conheceram e conviveram durante muito e muito tempo.

Um dos homens infiltrados foi visto e seguido pela bela moça de quem era amante. Ela o estava seguindo por desconfiar de adultério, pois mesmo que bem infiltrado, em certos momentos um pequeno vacilo o fazia parecer suspeito vez ou outra. Assim que ela viu que ele se encontrava com várias outras pessoas e que desenterravam armas, ela se esforçou para ser ainda mais discreta, mas ainda assim foi vista por outros dois homens de Larik que chegavam ao local. Não havia o que discutir, ela teria que ser silenciada, e foi seu próprio parceiro quem o fez. Em nenhum momento ele deu ouvidos ao choro da mulher, que implorava para que ele não a ferisse, nem mesmo hesitou, e a apunhalou na barriga da forma menos agressiva que pôde – se uma punhalada pudesse ser gentil, aquela teria sido. Ainda assim, como se um resquício de humanidade e sentimento tomasse conta do homem, ele deitou a mulher o mais gentilmente conseguiu, levou o rosto para perto do dela até suas testas se tocarem. Uma lágrima desceu pelos seus olhos, escorreu pelo nariz e chegou ao rosto dela enquanto ele sussurrava para ela, tentando dizer algumas palavras ternas para aliviar sua dor e implorando por perdão.

As últimas palavras que a pobre moça ouviu foram o “eu te amo”, dito com a mais pura sinceridade do homem que ela também amava, mas que lhe arrancara a vida.

Os 15 homens e mulheres vagaram pela floresta de forma discreta, fazendo tanto barulho quanto uma formiga, marchando rumo as cabanas que tomariam à força. Os residentes das cabanas foram rendidos e tomados de reféns – como medida de segurança caso a investida contra a cidade não fosse bem-sucedida. Duas cabanas viram sangue quando os homens solitários que viviam nelas reagiram, mas as demais eram ocupadas por famílias, e por temerem por seus parentes, ninguém reagiu. Entre essas famílias, em uma das cabanas, estava ela, a amada família de Jennifer.

_

            Estava no meio da manhã do dia anterior quando Charlotte se preparou para deixar o castelo. Ela estava com roupas simples, não portava armadura ou espada e vestia um manto verde com o capuz cobrindo parte de seu rosto. Ela e sua serva estavam nos aposentos reais, esperando Alfred chegar para guiar Charlotte até sua carruagem, e a demora se dava ao fato de tudo ter que ser feito no maior sigilo.

            - Tudo depende de eu não ser vista deixando o castelo e indo até Bergamo – Disse ela para a serva. – As notícias, ou fofocas, se preferir, voam. Se me virem indo para Bergamo e nosso inimigo tomar conhecimento, saberão que estamos cientes do ataque.

            - Tem mesmo que ir pessoalmente? – Perguntou Jennifer, sem se preocupar em esconder sua preocupação. – É perigoso, mesmo para você.

            - Se eu não estiver no campo de batalha, arriscando minha vida tanto quanto meus cavaleiros para proteger o reino, não mereço ter uma coroa sobre a cabeça.

            - Você já não a usa mesmo – Zombou Jennifer, com a cara fechada, não diretamente para Charlotte, estava jogando palavra no ar.

            - Gosto da tiara – Retrucou. – Além disso ainda não posso usar a coroa. Não sou digna até garantir a prosperidade do reino. Eu assumi a nação quando ela estava com problemas, então só usarei a coroa se eu for capaz de resolvê-los, ou o simbolismo que a coroa representa será desonrado.

            - Sim, sim – Caçoou novamente a serva, visivelmente incomodada. – Honra, dignidade, fazer por merecer. Coisas que fazem você correr risco de vida. Sabe que se você morrer vai ser o fim de tudo, não é?

            - Estou ciente, mas ainda assim vou. Vivo pelo me povo, morro pelo meu povo.

            - O povo não merece o sacrifício da sua vida. Eles criticam você sem nem ao menos entender como tudo que você faz é difícil. Se algo dá errado, eles instantaneamente culpam você.

            Charlotte franziu o cenho.

            - Jenny, onde estão seus modos?

            Jennifer deixou os ombros caírem e sentou sobre cama.

            - Desculpe – Pediu. – Estou tão estressada. Fico preocupada com minha família e irritada por não poder fazer nada. Saber que você também vai estar em perigo e que vai ser o principal alvo assim que for vista é demais para mim. Eu... – Ela hesitou, abaixou a cabeça e levou as mãos até seu colar. – Estou com medo.

            Charlotte fitou os olhos majestosamente belos de Jennifer, olhos esses que sempre brilhavam quando ela estava preocupada com quem amava – E Charlotte admirou mais ainda o fato de parte dessa preocupação ser para com ela.

            - Jenny – Disse, enquanto levava a mão até o rosto tristonho da serva. – Eu vou estar com uma guarda bem competente. Como Rainha eu não posso diretamente entrar no meio da batalha e combater com minhas próprias mãos, mas minha presença lá vai ser essencial para o rumo da batalha.

            - O que quer dizer com isso?

            Charlotte sorriu, beijou de leve os lábios da serva e a abraçou, ainda de pé em frente a ela, acolhendo o rosto da jovem em seu busto.

            - Quem sabe... – Disse, e depois se silenciou.

            Alfred bateu na porta, mas antes de receber uma resposta ele entrou.

            - Senhorita, está tudo pronto para sua partida – Disse ele.

            Charlotte desvencilhou seus braços de Jennifer e beijou sua testa.

            - Eu prometo que irei voltar, e quando voltar, tenho algo para conversar com você.

            - Me diga agora! – Exigiu Jennifer, quase como se gritasse que haveria risco de ela não voltar, o que de fato havia.

            - Conto quando voltar – Brincou. – Assim, se eu não voltar, você vai ficar zangada comigo por não poder mais te dizer. Farei disso uma motivação para estar de volta sã e salva.

            Charlotte beijou novamente a serva, dessa vez na bochecha, e caminhou alguns passos em direção a porta.

            - Me leve! – Jennifer pediu.

            - O quê? – Surpresa, Charlotte a olhou sem reação.

            - Me leve com você. Eu quero estar lá para procurar minha família quando tudo acabar e... quero estar lá com você. Afinal... eu sou sua fiel serva. Onde você for, você tem que me levar.

            Charlotte sorriu, depois riu e abraçou Jennifer, beijando sua boca sem nem mesmo se importar se Alfred olhava ou não. Assim que se desvencilhou dela, segurou sua mão.

            - Você nunca para de me surpreender – Disse simplesmente.

_

            Os aprendizes de cavaleiros finalmente foram informados do motivo para ainda estarem no castelo. Todos, com exceção de Bernardo, foram convocados para terem a oportunidade de presenciar uma batalha real, se assim desejarem, mesmo que não entrassem de fato em conflito. Todos os 15 aprendizes estavam em um salão fechado com Sir. Gerald, ouvindo seu discurso.

            - Haverá uma batalha amanhã entre nossas forças e as forças de Larik – Disse Gerald em um tom rude e grave que geralmente usava durante o treinamento para instigar seus aprendizes. – Vocês têm agora a escolha de se apresentarem ao campo de batalha ou permanecerem no castelo, escondidos como ratos. Não serão forçados a nada, nem mesmo precisam lutar se forem. Quero apenas que sintam o cheiro do campo de batalha, a visão de um combate real. Não vou dizer que não há possibilidade de serem forçados a lutar, e até mesmos temos chances de sermos derrotados por causa das medidas que tomamos para preparar nosso contra-ataque, mas garanto que verão cavaleiros de verdade lutando e dando suas vidas pelo bem do nosso reino.

            - O que exatamente está havendo? – Um dos aprendizes perguntou. – O ataque vai acontecer nas fronteiras?

- Como chegaremos lá há tempo? – Perguntou outro.

            - Não lhes darei nenhum detalhe sobre isso. Tudo tem que ser mantido no mais total sigilo, e por isso estou contando isso a vocês de forma tão repentina, para evitar que a informação escape. Aqueles que concordarem em ir, saibam que estarão um passo mais perto de se tornarem cavaleiros de verdade. Cada um de vocês têm as habilidades necessária para se tornar um bom guerreiro, mas ainda lhes falta experiência. Venham comigo para essa batalha e ganhem essa experiência. Não lhes darei tempo para decidir, não lhes darei garantia de total segurança, não lhes darei mais que a minha palavra que o que verão irá mudar completamente suas vidas e a visão que vocês têm dos cavaleiros e do que é de fato ser um cavaleiro.

            Gerald andava de um lado para outro em frente a fileira de aprendizes, olhando nos olhos de cada um que passava. Foi então que virou de costas para eles e respirou fundo.

            - Aqueles que decidirem ir, digam “sim”.

            Então todos disseram, em uníssono:

            - Sim.

            - O que vocês disseram? – Perguntou Gerald, instigando-os.

- SIM – Gritaram.

Gerald virou-se para eles e gritou:

- Acham que seus inimigos vão temer esses seus gritos de mocinhas assustadas? Vamos, mais alto, eu quero ouvir!

- SIM! SIM! SIM!

Todos gritaram com toda a força que tinham em seus pulmões, levantando os braços e brandindo com seus punhos no ar.

- Eu tenho mais que orgulho de cada um de vocês – Disse ele, em uma voz mais terna.

Após isso, todos partiram para seus aposentos para se prepararem para a viagem. Quando Bernardo estava passando por Gerald, o homem estendeu a mão para ele.

- Você não. Você ainda não está pronto para um combate de verdade.

- O quê? Não pode me deixar para trás.

- Posso e vou. Você não está tão qualificado quanto seus companheiros. Tem menos tempo de treinamento e mais imprudência que todos eles juntos.

- Sir. Gerald, eu... – Tentou falar, mas foi interrompido.

- Basta. Está decidido.

Gerald deu as costas a ele e começou a caminhar.

- A minha família está em Bergamo – Disse Bernardo, como se usasse seu último recurso, e Gerald parou de andar e se virou para ele.

- Você sabe sobre o ataque a Bergamo? Como?

- Minha família enviou uma carta para minha irmã, e Charlotte me contou que não poderia fazer nada por eles. É por isso que eu tenho que ir. Se eu não fizer nada pela minha família, eu nunca vou conseguir me perdoar se acontecer alguma coisa com eles.

Gerald suspirou, pensou um pouco e deu as costas novamente.

- Prepare seu equipamento, partiremos logo – Disse ele, e partiu.


Notas Finais


Pois é, uma amiga já me disse que a Jennifer não pode ver perigo que já se mete de cabeça, e Bernardo parece ser mesmo irmão dela para fazer a mesma coisa. A treta se aproxima.


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