História A Serva de Charlotte (Rumo à publicação) - Capítulo 20


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amor, Drama, Guerra, Homossexualidade, Lesbicas, Medieval, Reinos, Romance
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Palavras 4.525
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), FemmeSlash, Romance e Novela, Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Bom... QUE COMECE A TRETA!!!

Capítulo 20 - Embate


A partida de Charlotte e Jennifer foi discreta, ambas estavam em uma carruagem comum, sem escolta ou guarda. O cocheiro era um camponês de Bergamo, a quem todos conheciam como capataz de uma das fazendas da cidade. Ele foi recompensado pelo transporte, e ainda mais recompensado pela descrição, embora soubesse apenas que um nobre do castelo seria seu passageiro e não tenha tomado conhecimento que esse se tratava da própria rainha de Torinn.

            Por outra rota, Gerald, os aspirantes a cavaleiro e alguma escolta seguiam caminho aparentemente de volta ao campo de treinamento de cavaleiros, embora na verdade se dirigissem até Bergamo, o que, é claro, não foi descoberto por ninguém, nem mesmo os próprios aprendizes sabiam seu destino, excesso Bernardo. Eles montavam a cavalo e seguiram boa parte do caminho tranquilamente, mas assim que chegaram em certo trecho do caminho, desviaram um pouco a rota e apressaram o passo, no intuito de chegarem a Bergamo antes mesmo da rainha para preparar tudo para que ela não fosse descoberta.

            - Bernardo – Chamou Gerald.

            - Senhor! – Respondeu o rapaz, de modo formal e disciplinado.

            - Já estamos longe o bastante das rotas mais movimentadas, seguiremos o ritmo até nosso objetivo, então não há mais necessidades de nos preocuparmos em sermos vistos por qualquer um que passe. Explique a todos o que vai acontecer amanhã.

            - Sim, Senhor.

            Então Bernardo compartilhou tudo que sabia sobre o ataque e sobre o plano para defender a cidade, o que não era muito. Todos tentaram manter suas posturas, mas ninguém conseguiu esconder a apreensão e o nervosismo que sentia. Treinamento, estudo de táticas de batalha, aperfeiçoamento de habilidades, tudo isso foi para prepará-los para momento que se seguiria. Suas vidas seriam postas em jogo, suas forças, testadas. A hora de um combate real, onde seu adversário não pararia de atacar até ter sangue sobre sua lâmina, estava para chegar.

            O grupo de Gerald chegou um pouco antes do anoitecer. O cavaleiro já visitara a cidade muitas e muitas vezes, e por isso tinha amigos de confiança para ajudá-lo em momentos assim. Eles foram recebidos por uma mulher de meia-idade, com cabelos já quase descolorando pelas mãos do tempo. Ela os acomodou em sua pousada e no estábulo. Houve uma pequena disputa para decidir quem dormiria na pousada e quem ficaria no estábulo, mas logo foi resolvida. Apesar de grande, a pousada não tinha camas para todos nem espaço nos quartos para acomodar armaduras, armas e outros equipamentos, então os guardas da escolta ficaram com os quartos.

Além deles, dois sortudos aprendizes que tiraram a sorte em palitinhos. Ironicamente, como se o destino tivesse cuspido na cara de todos, a sorte sorriu para o famigerado Jerry apostador finalmente. Ele e outro colega conseguiram espaço nos quartos da pousada, enquanto Bernardo e os demais resmungaram e acusaram Jerry apostador de trapacear. Jerry não entendeu porquê disso, já que ele nunca saia perdendo nas apostas - nenhum deles quis dizer que em todos os jogos eles o deixavam ganhar.

Os aprendizes perceberam que estranhamente havia um quarto desocupado que foi reservado para alguém que eles desconheciam.

- Para quem é esse quarto? – Perguntou um deles.

- Para alguém que deverá chegar logo. E é melhor se comportarem bem, pois esse “alguém” é uma pessoa muito importante – Gerald respondeu com um sorriso.

O cavaleiro acompanhou os aprendizes até o estábulo, e lá deixou seus equipamentos, sem qualquer explicação. A dedução de todos foi que ele ainda seguia a filosofia de “não posso forçar vocês a fazerem algo que eu mesmo não faria”.

A noite avançava, e então uma carruagem chegou à pousada. Quando os cavalos foram deixados nos estábulos, os jovens aspirantes a cavaleiros foram incomodados pelo barulho. Nenhum deles de fato se interessou pelas duas moças encapuzadas de mantos verdes cobrindo quase todo o corpo, já que imaginariam que fossem apenas duas pessoas que queriam se hospedar ali e que seriam recusadas por não haver mais vagas, mas não foi o que aconteceu. Discretamente, as duas moças falaram com a atendente e foram guiadas até o quarto reservado. Todos ficaram com a pulga atrás da orelha, já que Sir. Gerald fez uma reverência sutil e distante para ela e nem sequer comentou o fato da chegada delas incomodar o precioso sono dos guerreiros que logo entrariam em combate. Eles ficaram imaginando quem elas seriam para que tivessem permissão para ocupar um dos quartos que poderia ser cedido aos cavaleiros da rainha antes de um combate.

Poucas outras pessoas estavam na pousada, já que desocupar a todos seria algo que chamaria a atenção, embora não houvesse tempo para boatos e teorias se espalharem a tempo de interferir nos planos ditos por Gerald.

As duas moças, ainda encapuzadas e de cabeça baixa, se dirigiram com outras três ou quatro mulheres até um banheiro enorme. Ao que parecia, as mulheres que as acompanharam eram todas empregadas da pousada, e o banheiro era na verdade algo mais parecido como um salão de banho, nos fundos do lugar. Bernardo, assim como alguns dos aprendizes de cavaleiros, estava bastante curioso e se esgueirou até o fundo da pousada no intuito de espiar. Quando não conseguiram, esperaram um pouco afastados da porta, aguardando impacientemente que as moças saíssem com seus rostos à mostra.

Eles ouviram os sons da água, algumas vozes cujas palavras mais pareciam o chiado do vento e uma ou outra gargalhada. Quando as mulheres enfim saíram – para o desapontamento de todos já estavam novamente encapuzadas -, Jerry apostador deu um passo para a frente delas para obstruir a passagem e deu um sorriso.

- Olá, moças – Cumprimentou.

- Olá, senhor – Uma delas respondeu, e nesse momento Bernardo franziu o cenho.

- O que as trazem aqui tão tarde da noite?

- Uma ou outra coisa, nada que você não vá descobrir logo.

Por baixo do capuz da outra moça o branco de uma risada silenciosa já estava semivisível. Jerry, ingênuo como era, achou que aquilo fosse um sinal que a moça desejava ser cortejada.

- Ora, ora – Disse Jerry, dando um passo à frente. – Você me parece familiar, já nos vimos antes?

- Acredito que sim – Disse ela, com a voz tão firme quanto a fundação de um castelo. – Mas, e vocês, rapazes, o que fazem por aqui? Não me digam que estavam tentando nos espiar no banho – E nesse momento ela não conseguiu se segurar e amoleceu a voz em uma quase risada enquanto abaixava a cabeça para evitar que seu rosto ficasse visível.

Jerry sorriu ainda mais, aceitando a quase risada como um espaço para ele prosseguir. Atrás dele, sem que Jerry percebesse, as sobrancelhas de Bernardo saltaram para a testa e ele se ajoelhou, depois foi seguido por alguns outros ao seu lado. Logo, todos estavam ajoelhados, com exceção de Jerry, que continuava a falar.

- Quem sabe – Jerry sorriu. - Se estivéssemos, alguém poderia nos culpar? Ver o corpo de duas lindas beldades como vocês não é algo que nós, meros cavaleiros que dedicamos nossas vidas à Rainha, possamos apreciar todo dia.

Claramente Jerry estava ostentando seu posto de aprendiz de cavaleiro – falando de forma que já parecesse de fato um cavaleiro – para tentar atrair o interesse das moças. Foi quando reparou que seus companheiros estavam ajoelhados atrás dele, alguns fechando com força os olhos como se temessem algo, outros se entreolhando com pesar, mas todos bem apreensivos.

- Deseja me ver nua, aprendiz? – Disse a moça, chamando de volta a tenção de Jerry para si e retirando o capuz para revelar o cabelo curto e castanho acima de que destacava um rosto bem mais que familiar. – Se quer tanto assim, posso mandar fincar uma estaca de madeira no meu salão de banho e colocar a sua cabeça decepada em cima dele. Assim você poderá admirar meu corpo nu sempre que eu for tomar banho.

Charlotte.

Rainha Charlotte Peterson Elizabete Rowen McLeod, ao lado de sua serva pessoal, Jennifer, cujos capuz foi jogado para trás da cabeça. Jerry apostador não simplesmente ajoelhou, ele se jogou contra o chão, batendo a testa com força no piso. Charlotte e Jennifer não conseguiram segurar o riso e gargalharam frente a eles.

- Estava certa, Mestra – Disse Jennifer. – Garotos ainda são garotos, não importa quão crescidos parecem ser.

- Podem se levantar, rapazes – Disse Charlotte. – Não haverá decapitações nenhuma. Pelo menos hoje não. Deixarei isso a cargo de nossos amigos de Larik amanhã. Vamos, levantem-se.

Todos estavam receosos, mas se levantaram. O sorriso de Charlotte era sincero, doce, quente, e isso deu um pouco de tranquilidade para eles.

- Pedimos nossas sinceras desculpas, Alteza – Disse Bernardo, único que achava ter intimidade o bastante com ela para lhe dirigir a palavra. – Não estávamos espiando, como nosso companheiro JERRY deixou a entender – Ele olhou feio para ele quando citou seu nome. – Estávamos curiosos para saber quem eram as pessoas que tinham chegado tão tarde e eram tratadas com tanto respeito até por nosso superior.

Charlotte olhou para o rosto de cada um, dessa vez com um olhar mais sério, depois caminhou por entre eles até o fim do corredor.

- Deixarei isso passar – Ela não olhou para trás ao falar e levantou novamente o capuz. – Melhor irem se preparar para amanhã, será um longo dia, e bem duro também – Estava prestes a voltar a caminhar, mas parou novamente. – Melhor não saírem dizendo que são cavaleiros. Primeiramente por ainda não serem, e segundo para não chamar atenção. É por isso que estão aqui, nesta pousada, para se esconderem e aguardarem a hora chegar.

Todos assentiram e se desculparam. Assim que Charlotte e as mulheres que a acompanhavam viraram a curva do corredor, cada um deles deu um soco no ombro de Jerry apostador e o xingaram. Foi então que lembraram que Jerry não iria voltar para o estábulo para dormir sobre a palha, já que a sorte lhe concedeu um quarto confortável, e o xingaram ainda mais.

_

            Charlotte e Jennifer estavam em um quarto apenas para elas duas, o maior quarto do lugar. Ambas conversavam enquanto Jennifer escovava o cabelo de sua mestra, sorrindo de leve.

            - Acho que foi um pouco dura demais com eles – Disse ela.

            - Tenho que ser firme com os jovens. É assim que eles crescem.

            - Não acho que eles estavam espiando. Se estivesse, teriam visto que era você lá e teriam saído correndo para que não notássemos.

            - Homens são todos como búfalos em uma loja de cristais, principalmente os homens que são treinados como cavaleiros, podem até tentar fazerem silêncio, mas sempre serão brutos e barulhentos. Se são tolos em acreditar que não notaríamos que estavam lá, ainda tem muito o que amadurecer na vida. Se estavam espiando ou não, não vem ao caso.

            - Então o que vem ao caso?

            Charlotte fez um gesto com a mão para que a serva parasse um pouco de escovar seu cabelo.

            - Eles não parecem estar com medo – Disse ela.

            - E isso é ruim? Digo, não ter medo não é uma coisa boa?

            - Medo nos faz nos preocuparmos, nos faz sermos mais cuidadosos e não nos arriscarmos à toa. Sei que ordenei a Gerald para que dissesse a eles que não precisariam entrar em combate direto, mas eles também foram avisados que o risco ainda existe. Se estivermos perdendo a batalha, todos lá serão envolvidos. Até mesmo eles, que apenas estariam lá para conhecer o cheiro de um campo de batalha podem se envolver. Não sei ao certo se esses jovens tolos estão cientes do que vem pela frente.

            Jennifer lamentou em um murmuro, mas não conseguiu dizer nada.

            - Está com medo, não está? – Perguntou Charlotte.

            - Estou. Por mim, por meu irmão, pela minha família, por você. Tenho medo que possa perder alguém. Talvez até mesmo perder todos...

            - Sei que não gosta do fato de eu estar indo para lá, de eu permitir que seu irmão também vá, mas é necessário.

            - Eu entendo que é, mas isso não torna as coisas mais fáceis para mim.

            Charlotte se virou para ela com um meio sorriso, a abraçou à altura da cintura sem se levantar do banco em que estava sentada.

            - Vai ficar tudo bem.

            - Eu espero que esteja certa.

            - E alguma vez na vida eu estive errada? – Brincou a Rainha, e ambas riram.

            Charlotte se levantou, olhou nos olhos da serva, tocou seu nariz com o dela e disse em um sussurro:

            - Eu amo você, Jenny.

            A boca de Jennifer ficou semiaberta, depois se fechou em um sorriso.

            - Eu também a amo, Charlotte.

            E então se abraçaram e deitaram juntas na cama, dando as mãos e adormecendo rapidamente após um longo beijo. Elas estavam cansadas demais da viajem para quererem fazer qualquer coisa além de dormir, e mesmo que Charlotte não quisesse admitir, estava tão preocupada com o dia seguinte quanto Jennifer, ou talvez até mais.

_

            O calor dos raios de sol despertou completamente o vigia de um dos pequenos acampamentos ao redor de uma das cabanas. O homem estava quase adormecendo por ter chegado antes do sol nascer no local marcado e trocado de turno com um companheiro uma vez durante a manhã e agradeceu aos céus pelo momento estar finalmente chegando. Aquele era o último turno de vigília antes do ataque que aconteceria perto do meio dia, deixando o sol estrategicamente nas costas deles para que atrapalhasse a visão de qualquer arqueiro de Bergamo que percebesse o avanço.

            Os homens já estavam organizados em grupos seletos, separados em alguns esquadrões distintos, dentre ele esquadrões de arqueiros, batedores, vanguarda e retaguarda. Havia por volta de 60 e poucos homens em cada acampamento próximo a cabana onde eram mantidos os suprimentos e equipamentos. Um pequeno esquadrão de batedores passou a manhã rondando a área para garantir que os viajantes não notassem o que se passava por ali. Capturaram e levaram cinco pessoas, e tiveram que executar três pessoas a flechadas até o momento de voltar. Os corpos foram deixados para trás, escondidos em arbustos, e o sangue foi ocultado pela terra que os batedores jogavam.

            Finalmente era chegada a hora.

            Todos estavam bem alimentados, equipados, vestidos e armados para a batalha. O pequeno grupo de batedores não se juntou ao grupo que estava se reunindo em um local específico, pois estavam cansados e foram incumbidos de vigiar os reféns amarrados nas cabanas. Os demais estavam se organizando em uma enorme clareira atrás de uma pequena colina, oito grupos de mais ou menos 60 pessoas estavam entrando em formação. A formação era formada por duas linhas paralelas, com duas frentes de cavaleiros de armadura completa - essas não tão grande, pois era difícil enterrar uma armadura completa parte por parte – vinha seguida de batedores vestindo cotas de malha para melhor mobilidade, que iriam avançar para dentro da cidade após serem escoltados pelos cavaleiros de armadura pesada da linha de frente.

Não era a tropa mais indicada para enfrentar a força inimiga de frente, já que era uma força de invasão que pretendia se espalhar pela cidade, mas eles contavam com arqueiros e cavaleiros de armadura leve logo atrás do “aríete” formado pelo trabalho em equipe dos esquadrões da linha de frente e dos batedores para investir frente a um contra-ataque de uma linha de defesa de última hora.

            Um homem com espada em mãos andou à frente de todos os outros, provavelmente o comandante geral das tropas, e inspecionou a formação dela. Contou visualmente os quadrados de cavaleiros na formação e concluiu que tudo estava nos conformes.

            - Homens! – Vociferou ele, e outros que pareciam ser suboficiais no meio das tropas repetiam as mesmas palavras para que todos ali presentes pudesse ouvir. – É chegada a hora que estamos esperando há meses. O momento da nossa investida contra Torinn finalmente chegou. Agora marcharemos em direção a Bergamo! Nossas ordens são para exterminar tudo que se mover! Queimem as plantações e salguem as terras, todos foram informados onde são armazenadas as sacas de sal, destruam as fazendas, deixem apenas os depósitos de suprimentos militares intactos para nosso próprio uso! Se por infortúnio um futuro contra-ataque deles vier a tomar a cidade de volta, queimem as rações e provisões. Não deixem nada para eles, e isso já será nossa vitória, mesmo que percamos a cidade! Agora, avante, homens, avante! Por Larik!

            Um breve bradar ressoou em uníssono, e então a marcha começou.

_

            As tropas de Torinn se organizaram frente a Bergamo com a escolta de Charlotte a frente de todos. Havia um grande número de cavaleiros atrás dela, mas em sua maioria eram apenas arqueiros, salvo o grupo de cavaleiros de armadura pesada e enormes escudos de aço. Junto ao cerco móvel que era a escolta da Rainha, cavalgavam o Conde Morgan, Lorde Julius, Sir. Gerald, os aspirantes a cavaleiro, Bernardo e até mesmo Rudolf, que havia chegado a Bergamo junto com o último grupo de cavaleiros. Além deles, Jennifer, montada no mesmo cavalo que Rudolf, olhando impressionada o número de cavaleiros e arqueiros atrás de si e na multidão de espectadores curiosos olhando-os da cidade.

            - Não estamos chamando muita atenção? – Perguntou ela para a mestra.

            - Nossos inimigos já devem estar em posição. A essa hora eles devem estar marchando em nossa direção.

            - E a que distância estão de nós?

            - Devem estar bem perto. As cabanas ao redor da cidade ficam bem perto se você for a cavalo, mas uma boa caminhada se for a pé.

            - Então é seguro me contar como vai ser essa estratégia?

            Charlotte balançou a cabeça.

            - Não há necessidade disso – Disse ela - Você verá.

            Jennifer abaixou a cabeça como se tivesse sido repreendida, então ficou calada. Ela estava mais que curiosa, estava preocupada. Sim, os arqueiros tinham a vantagem de um ataque massivo de uma posição privilegiada até onde ela tinha tomado conhecimento, além dos cavaleiros montados, mas ainda assim eram pouco mais de 200 homens para enfrentar um exército de 500 inimigos. Charlotte não era tola, e todos tinham total confiança nela, então ela deveria ter algum plano. Quando olhou para a frente novamente, Jennifer reparou de relance no olhar de Charlotte, sorridente e confiante. Estava claro que ela estava confiante, e se esta estava confiante, Jennifer também estaria. Os nervos da serva finalmente se aquietaram um pouco, e ela pôde dar um breve sorriso de volta.

            - Só espero que minha família esteja bem... – Disse para si mesma.

            - E está, Jenny. Sei que vai acabar tudo bem – Respondeu Charlotte.

_

            Não demorou para as tropas de Larik notarem a linha inimiga vindo do topo da colina. Eram todos cavaleiros de armadura completa, portando escudos e espadas. O comandante das tropas de Larik praguejou em voz alta. Não podia ser coincidência aquilo estar acontecendo, mas ainda assim era muito estranho. Eram poucos cavaleiros, mesmo que melhor equipados; se tivessem descoberto o ataque furtivo, teriam mandado mais tropas além daquelas. Há mais deles em cima da colina, pensou ele, e julgou estar certo. De onde estava, não era possível ver nada além dos homens que desciam da colina, era certo que haveriam mais do outro lado dela, esperando o momento propenso para atacar. Uma cavalaria poderia descer pela colina rapidamente e arremeter contra as tropas de Larik, e esse pensamento fez o comandante hesitar um instante para formular uma estratégia. Foi nessa hora que ele se questionou se usar a colina como um ponto para se manter discreto foi uma boa ideia, pois tinha perdido a vantagem do terreno alto.

            - Esperem que desçam até o pé da colina, mas não avancem demais – Disse ele, e a mensagem foi passada por todos os cavaleiros em voz baixa. – Assim que chegarem ao terreno plano, avancem. Usem o sol atrás de vocês a seu favor, não subam a colina até receberem a ordem. Arqueiros, a postos. Preparem-se para avançar e formem uma linha com alcance para a colina. Se uma cavalaria vier, atirem de imediato.

            A vanguarda de Larik começou a marchar a passo lento, formando uma linha de frente de lanceiros e escudeiros. Ainda assim, a linha de cavaleiros de Torinn continuou avançando rapidamente.

            - Arqueiros, posicionem-se para acertar o inimigo! – Gritou o comandante.

E assim os arqueiros o fizeram, colocando e puxando as flechas em seus arcos. O comandante levantou a espada e houve uma pausa, então abaixou ela como se cortasse o vente

– Agora!

A chuva de flechas pairou pelo ar formando um arco, despencando sobre os cavaleiros de Torinn. Eles já estavam ao pé da colina, mas continuaram avançando. A primeira saraivada de flechas acertou apenas o chão, de três a cinco metros de distância, mas como os cavaleiros ainda avançavam, as outras saraivadas os atingiram. Cinco cavaleiros caíram ao serem atingidos, mas os demais conseguiram erguer seus escudos a tempo e em conjunto para se protegerem. Os escudos eram sólidos, lado a lado, formando uma muralha de escudos quase impenetrável que os protegiam pela frente e por cima, e assim avançaram um pouco mais. Outros dois cavaleiros foram atingidos quando as flechas passaram pelas brechas entre os escudos, e outro caiu quando outra flecha voou pelo espaço deixado pelo escudeiro que caiu antes.

Foi então que pararam e se posicionaram melhor. Por não avançarem, era mais viável manter a muralha de escudos estável e firme. As flechas seguintes foram incapazes de atravessar o metal, e os cavaleiros atrás da muralha ficaram seguros de tudo exceto do som das flechas acertando os escudos metálicos.

- Avançar! – Gritou o comandante, e a vanguarda e os batedores marcharam em direção ao grupo de cavaleiros de Torinn.

Eles avançaram em duas linhas: os batedores a frente com mais mobilidade graças as cotas de malha mais leves e os cavaleiros da vanguarda com suas armaduras completas. Os arqueiros mantiveram suas posições, aguardando que os demais cavaleiros da tropa limpassem o campo de batalha. Mas para a surpresa de todos, do topo da colina, finalmente um cavalo foi avistado.

- Arqueiros, preparar para contra-atacar a cavalaria inimiga! – Gritou o comandante.

Mas logo ele percebeu que não era a cavalaria chegando. No topo da colina, vestindo uma amadura leve, exibindo um rosto sombrio e frígido, estava a própria Rainha Charlotte. Em sua cabeça não estava uma coroa nem uma tiara, mas um elmo, e em sua mão direita, uma espada erguida, dando sinal para as tropas acima da colina se posicionarem. Dezenas de arqueiros formaram duas linhas uma atrás da outra acima da colina, com a primeira linha ajoelhada para dar lugar para a segunda se posicionar. Ao lado dela, o Conde Morgan e Lorde Julius, um de cada lado. Foi quando a Rainha cortou o ar de cima para baixo, gritando:

- ARQUEIROS!

E uma chuva de flechas voou em direção ao campo de batalha. Os cavaleiros de Larik estava há poucos metros de distância da vanguarda de Torinn, e isso significava de os arqueiros da colina estava atirando flechas em ambos os guerreiros. Mas antes que as flechas atingissem seus alvos, a vanguarda de Torinn mudou a direção da muralha de escudos. Em vez virada para seus inimigos, agora a muralha estava voltada para protegê-los de seus próprios arqueiros. Em contraparte, as tropas de Larik foram pegas desprevenidas pela surpresa. Dezenas de homens caíram no chão com o beijo das flechas antes mesmo de terem tempo de levantarem seus escudos. Mais e mais homens foram caindo, pois estavam espalhados demais para formar uma muralha de escudos, e se tornava uma tarefa cada vez mais difícil a medida que os homens iam caindo. Tudo o que lhes restava era recuar.

- Mirem nos arqueiros! Duas linhas de disparo! – Gritou Charlotte, levantando a espada novamente.

Uma das linhas de arqueiros de Torinn levantou seus arcos para uma mira certeira nos arqueiros de Larik. Por estarem em um terreno mais elevado, os arqueiros tinham mais alcance com suas flechas que seus inimigos, e isso foi um ponto crucial para a estratégia de Charlotte para aquele dia. Do meio dos arqueiros, Sir. Gerald surgiu montado em um cavalo prata, gritando:

- Cavalaria, avançar!

E então duas frentes montadas desceram a colina. A reação dos arqueiros inimigos foi quase inexistente visto o fato de que eles estavam sob saraivada após saraivada de flechas. Mesmo os cavaleiros da retaguarda protegendo seus arqueiros da melhor maneira que conseguiam, não conseguiam deixar brechas para que eles mesmos pudessem atirar na cavalaria assim como foram ordenas a fazer.

Assim que a cavalaria ultrapassou a vanguarda de Torinn, que começou a subir novamente a colina para defender os arqueiros aliados, eles foram em perseguição a vanguarda de Larik, que continuou sendo alvo dos arqueiros até o instante que os cavaleiros montados entraram na linha de tiro, então todos os arqueiros da colina, tornando ainda mais difícil para a vanguarda de Larik recuar ou mesmo se proteger e proteger os arqueiros.

A cavalaria arremeteu de forma arrasadora em direção a vanguarda de Larik, usando o pique dos cavalos para cortar os homens de armadura. Várias brechas foram deixadas na formação, abrindo espaço novamente para uma das linhas de arqueiros abrir fogo contra eles. Sir. Gerald liderou a cavalaria em direção aos cavaleiros da retaguarda Larik e seus arqueiros, e não levou muito tempo para chegar até eles. Os arqueiros vestiam cotas de malha ou nem sequer tinham uma vestimenta sólida para proteção além do couro de suas roupas em troca de mobilidade, mas isso os deixou expostos demais e frágeis demais. Assim que os cavaleiros de Torinn entraram novamente na linha de tiro dos arqueiros da colina, todas as flechas foram direcionadas para a vanguarda, que avançava em uma tentativa desesperada de subir a colina.

As duas frentes da cavalaria reduziram imensamente o número de arqueiros inimigos. Espadas e lanças atravessavam a leves cotas de malha dos arqueiros e penetravam no metal sólido das armaduras dos cavaleiros da retaguarda.

Subindo a colina, o que sobrou da vanguarda arremeteu rumo aos arqueiros mesmo em desvantagem tática, contando apenas com a vantagem numérica e com o fato de as flechas dos arqueiros da colina estarem se esgotando. Vários deles rolaram colina abaixando, pintando de vermelho o que instantes antes era o verde da vegetação. Quando enfim a vanguarda de Larik chegou ao topo da colina e levantaram suas espadas frente a vanguarda de Torinn e a seus arqueiros, agora com espadas, o embate mais crucial teve início. Seus números agora estavam quase equiparados, mas Torinn ainda tinha a vantagem tática. Ainda assim, seus números começaram a cair.

            Jennifer estava mais afastada dos arqueiros, protegida pela escolta real, agora protegendo Lorde Julius, os aprendizes de cavaleiro, o Conde Morgan e a própria Rainha Charlotte, que permanecia frente a eles empunhando sua espada. Jennifer viu de perto o motivo de Charlotte desprezar a guerra mais que tudo. Tantas mortes, tanto sangue. Não havia como descrever tal cena, pessoas empunhando hastes de metal afiado e cortando umas às outras, pescoços sendo cortados, membros decepados, gritos de dor e agonia, homens caindo e sendo pisoteados até por seus próprios companheiros, vísceras deslizando repugnantemente de cortes no estômago, rios e mais rios de sangue. Por fim ela entendeu toda a repugnância da guerra.


Notas Finais


Pois é, depois desse quebra-clima, finalmente temos a batalha tão esperada. Sinto por ter de dividir no meio da confusão, mas é no fim do próximo cap tem que bater com um gancho para outra coisa... aguardem o resultado disso.
PS: sinto falta de comentários... compartilhe com os amigos, interajam, eu prometo responder todos e trocar uma ideia com quem quiser. Gosto de interagir com vocês... responderia mesmo que fosse daqui a meses...


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