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História A Terceira Princesa - Capítulo 20


Escrita por: Kany-chan

Capítulo 20 - Capítulo XVIII


“Quão abençoadas são algumas pessoas cujas vidas não têm medos, nem arrependimentos; para quem o sono é uma bênção que vem todas as noites e não traz nada além de bons sonhos.” 

— “Drácula”, Bram Stoker

Narradora 

Contar seus pecados, abrir sua alma para outra pessoa ver de longe nunca foi uma tarefa fácil, tanto Meliodas Hellsay quanto Elizabeth Liones tinham certa noção disso. 

Naquela manhã quando acordara de um sono muito breve, o loiro passou vários minutos olhando para o teto acima de si antes de se levantar. Estava temeroso do rumo que tomaria sua vida assim que encontrasse a garota. Por mais que a ideia de esconder todo o passado que lhe envolvia fosse tentadora — o que de fato era e muito — sabia que não deveria. 

Casamentos eram um marco eterno, por conveniência ou não, na vida das pessoas. Durante vários séculos esse laço protagonizou comédias, loucuras, paixões ardentes, atos de crueldade e tragédias. 

Não dava para iniciar algo tão importante assim com um armário cheio de esqueletos, ainda mais se esses pudessem de alguma forma interferir na vida deles e com uma guerra a espreita pronta para estourar. Guardar aqueles segredos por mais tempo era como dar um tiro no próprio pé, ciente disso o capitão da Sete Pecados Capitais levantou-se de vez da cama e decidiu enfrentar seus demônios logo. Ele fez suas higienes matinais, vestiu-se e desceu para o desjejum encontrando todos a mesa. 

Zeldris estava com uma cara exausta sentado do lado esquerdo da mesa, ao seu lado direito estava o futuro duque com uma expressão que Meliodas conhecia bem: ressaca. 

Do lado direito da mesa estava sua noiva tomando algum chá que ele não sabia ainda de que era, a face pálida levemente rubra nas bochechas e o olho direito como sempre coberto pela franja prateada e as íris azuis inocentes encobriam qualquer pista de seus pensamentos. Pelo menos para qualquer um que não fosse Meliodas, o loiro franziu a testa e respirando fundo caminhou até a cadeira vazia do lado esquerdo da que Ellie estava, a todo momento o rapaz evitava olhar para o pai acomodado na cabeceira da mesa e tomando alguma coisa que fosse em uma xícara se porcelana. O rosto belo malignamente pleno, a máscara de anjo que escondia a face do diabo verdadeiro em terra. 

Os minutos se passaram lentos e torturantes, mas enfim o final daquele café da manhã acabou, cada qual saiu da mesa por sua vez e foi para seu canto, ficando somente Elizabeth e seu noivo. 

A terceira princesa de Liones olhou bem para o loiro de olhos verdes e estendeu a mão para ele. Estava apreensiva, como se quisesse falar sobre algo, mas temesse o fazer. E realmente ela temia o mensageiro real de Liones veio visitá-la naquela manhã assim que desceu os primeiros degraus da escada para ir até a sala de jantar trazendo-lhe notícias um tanto preocupantes para os dois reinos. 

—Bem... Vamos? - chamou ela tentando agilizar as coisas, o príncipe assentiu e ambos caminharam até a escada e fizeram o caminho até a biblioteca onde entraram e fecharam a porta.

Tenso, o rapaz andou por entre as estantes e mesas e se sentou na mais discreta e distante da porta, os olhos verdes esmeraldas vidrados na noiva que sentava-se a sua frente e o olhava curiosa e ansiosa, Elizabeth analisou-o por alguns segundos e piscou os olhos suavemente. 

—Como você está? - indagou desviando as orbes para as mãos enfaixadas do rapaz. 

—Ah, eu... - passou a ponta da língua entre os lábios os molhando. —Estou bem, não foi nada grave. - deu de ombros. 

—Tem certeza? 

—Sim. - suspirou. —Se bem me lembro fiquei te devendo algumas respostas sobre... Bem, sobre o passado. - disse meio incerto. A Liones sorriu fracamente. 

—Tem certeza que está pronto para isso? - quis saber. 

Ele ponderou por alguns segundos, não estava pronto. Porém, era preciso. 

—Não, mas creio que nunca estarei. - respondeu em tom sério. 

Meliodas respirou fundo e umedeceu os lábios desviando os olhos para sua mão em cima da mesa entrelaçada a da princesa. Não tinha coragem de contar a ela a podridão de sua vida, mas ele já fizera tantas coisas sem ter coragem que achava que aquilo era só mais uma peça sendo pregada por sua mente insegura.

Haviam motivos fortes para ele esconder aquele lado de sua história de tudo e todos, como também haviam outros tão fortes quanto que o faziam estar ali prestes a narrar tudo. Por experiência própria o príncipe aprendeu que antes o mal fosse dito pela própria boca do que descoberto por conta própria.

—Por onde quer que eu comece? — perguntou depois de um tempo em silêncio.

—Por onde quer começar? — indagou a princesa mansamente.

O Hellsay riu anasaladamente com sarcasmo e disse:

—Sendo bem sincero eu preferiria nem ter que começar.

O rapaz inspirou profundamente e mordeu a parte interna da bochecha nervoso, mas tomado pelo medo de acabar comentendo os mesmos erros do passado, de ser covarde e não contar e acabar tendo alguém que lhe era importantíssimo descobrindo por si só e tendo sua vida tirada. Aquilo era o impulso que precisava para enfrentar os passado. 

—Eu tinha quase doze anos quando Tristan me levou ao cartel pela primeira vez e me apresentou a todos como o “provável futuro líder do clã”, eu não entendia bem o que acontecia ali ainda e com toda certeza eu nem imaginava o futuro que estava guardado poucos meses depois. - começou suspirando. —Meu pai e Sther nunca se deram muito bem, tudo  piorou quando Zeldris nasceu e Estarossa veio morar conosco. Ela ficou possessa e tentava de um tudo para conseguir o que queria, Tristan planejava fortificar seu poder no cartel com uma aliança de sangue entre seu herdeiro e a herdeira de um cartel do outro extremo do país.

—Um casamento. - murmurou, o loiro assentiu.

—Sther descobriu e foi mais rápida, acordou com seu pai um casamento entre mim e você acabando com os planos de meu pai. - a última palavra saiu amarga de sua boca. —A raiva consumiu o rei que via seu império ameaçado, no meu aniversário de doze anos ele mandou-me para uma viagem... - parou de falar e engoliu em seco. —Minha mãe desconfiou de algo e decidiu que eu não iria, não sozinho pelo menos e mesmo com todas as interjeições dele, ela jogou tudo para o alto e entrou no último segundo na carruagem, estava determinada em acabar com qualquer plano do rei por puro despeito e vingança. 

Absorto em memórias, nenhum dos dois perceberam que não estavam mais sozinhos naquela biblioteca. 

—Naquele dia um acidente aconteceu com a carruagem e ela morreu, por minha culpa. - o peso daquelas últimas palavras quase entalou em sua garganta. —Tristan nos achou, chegou em seu cavalo, desceu dele e me agarrou pelo braço gritando que a culpa era minha viu que eu a matei e isso me tornar um monstro, aquele que tirou a vida da própria mãe. - engoliu em seco. —Depois disso apenas lembro de acordar em uma sala úmida e escura onde ele me torturou por dias das mais diversas formas, fez-me prometer que não contaria a ninguém e que o obedeceria sem pestanejar, caso contrário meus irmãos pagariam, assim como minha mãe pagou. “E a culpa vai ser sua, mas que diferença fará na consciência de um monstro, não é mesmo?” foram as palavras que ele usou antes de me deixar sozinho na sala. 

Elizabeth apertou a mão dele entre as suas e franziu as sobrancelhas com pesar. Uma criança não deveria sofrer tanto. 

—Da primeira vez que Tristan pediu para que eu matasse, eu pensei que tudo o que ele me disse antes não passavam de palavras infundadas, ameaças vazias... 

—Mas não foram. - concluiu a princesa de Liones. 

Meliodas negou com a cabeça completamente perdido. 

—Não. - ficou cabisbaixo. —Estarossa apareceu horas mais tarde com vários hematomas e quando perguntei, ele disse que tinha apanhado de nosso pai. - engoliu em seco. —Foi aí que eu aprendi que nada que Tristan dizia era vazio, sempre tinha um pingo de verdade nas palavras dele, até mesmo de fossem mentiras. - contou. —Até que eu aprendesse a concordar e fazer tudo o que me pedia sem relutar Tristan descontava neles, duas crianças e depois ele queria que eu fizesse isso. 

—Ele queria que você... 

Assentiu. 

—Queria que eu fosse como ele, mas eu não podia fazer isso com meus irmãos então fiz um acordo com Tristan. Foi um erro, Ellie, mas foi a única solução que encontrei. - afirmou pesaroso. —O acordo era que me afastasse, parasse de me importar com eles, os desprezasse, se fizesse isso por mais que odiassem minha frieza, Tristan não descontaria neles. 

—E você fez. 

—Sem pensar duas vezes. - declarou firme fechando os olhos por um momento e lembrando-se da ocasião depois desse maldito acordo. 

Era final de tarde quando Zeldris chegou as pressas chorando e correndo de encontro aos irmãos mais velhos que estavam na biblioteca. 

Ao ver o mais novo dos Hellsay entrando com um braço ensanguentado, Meliodas engoliu em seco e ameaçou se levantar, mas então lembrou do acordo com Tristan. Aquilo era um teste, um maldito teste. 

Estarossa por outro lado foi o primeiro a correr de encontro ao irmão menor. 

—Zeldris, o que aconteceu? 

—O p-pai. - respondeu entre soluços. 

—Inferno, meu Deus tem muito sangue aqui! - exclamou desesperado e olhou para o mais velho. —Meliidas... 

—Quê? 

—Quê? Olha o estado do Zeldris! Vá chamar alguém! 

—Chame você! Ninguém mandou esse pirralho ir atazanar nosso pai! - reverberou rude sentindo agulhas sendo enfiadas em sua garganta a cada palavra que saía de sua boca. 

—O quê? Enlouqueceu, Meliodas? - a indignação do irmão do meio era palpável. 

—Não, apenas estou falando a realidade. Zeldris nunca deixa nosso pai em paz. 

—Babaca. - xingou. 

—Não para por aí, não é? - inquiriu Elizabeth ao noivo. 

—As coisas só pioram daí em diante. - contatou. —Mas que mesmo continuar ouvindo?

—Se quiser continuar a me contar, sim. 

O loiro ponderou por alguns segundos. 

—Essa parte da minha vida é podre, Elizabeth, andar por ela é quase como assinar uma carta de assassinato. 

—Eu aguento, Meliodas. Seja o que for, pode me contar, não tenho medo. 

Pois deveria. - a frase parou na ponta de sua língua, o príncipe queria proferi-las, embora soubesse que a teimosia da terceira princesa era grande demais para se importar. Então, o rapaz apenas tomou fôlego e prosseguiu com sua história. 

—Tristan tornou-me um assasino, ensinou-me a matar, a torturar, a não ter piedade ou compaixão, ele matou todos os meus sentimentos ano após ano, deitar com as prostitutas quando ele mandava de certo foi o menor dos meus problemas em nossa convivência. - confessou rindo sem humor algum e  analisando a reação da mulher a sua frente. Seus olhos não demonstravam pena, tampouco o julgamento que esperava. Tinham um brilho triste e uma ponta de revolta e agonia por tudo, mas Meliodas não encontrava nada além disso, nem mesmo o nojo e o medo que sempre esperou ver quando fantasiava secretamente no dia que revelaria todos os seus segredos a ela. O pecado da Ira encarou suas mãos entrelaçadas uma na outra em cima da mesa. —Bastava ameaçar meus irmãos que ele me tinha nas mãos sempre que desejasse, durante todos os anos em que vivi aqui esse foi o ciclo em meus aniversários, um ciclo que ele sempre fazia-me lembrar o quão fraco eu era por ter sentimentos, por eu ter medo se não por mim, por Zeldris e Estarossa. Na época eu não via outra opção se não fazer o que me pedia, me tornar outro monstro para os dois. 

—Sinto muito por tudo isso. - falou Elizabeth sincera. Não sabia o que falar para ele. 

—Depois disso, enquanto namorava com Liz, acho que ele percebeu que algo tinha mudado. Por mais que o obedecesse, eu não passava mais tanto tempo ao seu lado, estava me soltando dele, procurando saídas que não haviam naquele momento e então ela morreu e... Eu surtei. - puxou o ar para dentro dos pulmões. —Joguei as amarras fora e desisti de tudo, nem olhei para trás quando fui embora eu só precisava... Eu tinha que ir. - sua garganta apertou e os olhos arderam. —E eu fui e durante os quatro anos que se passaram, eles foram os únicos que realmente estive livre. 

Um silêncio ensurdecedor apoderou-se do ambiente pelo que pareceram minutos. Ninguém falara nada e nada poderia ser ouvido se não as próprias respirações dos presentes no local. 

—Agora parece que isso apenas piorou tudo. - o herdeiro do trono suspirou. — Zeldris está sendo preparado para assumir a liderança do cartel, não dá nem para imaginar o inferno que está passando no momento. 

—Toda ação causa uma reação, Meliodas. Não tinha como prever que isso aconteceria. - Elizabeth disse. —As vezes precisamos nos manter longe para não nos afogarmos no mar de desastres que a vida real nos proporciona vez ou outra. É como uma maneira de nos mantermos sãos diante de toda a loucura do dia à dia. 

—Mesmo assim, as coisas poderiam ter sido... 

—Diferentes, é, eu sei. E como eu gostaria que tivessem sido, mas o mundo não gira em torno do seu umbigo, irmão. - a voz que reverberava ao lado deles fez o corpo do Hellsay mais velho tencionar. 



Notas Finais


Oiiiii!!!

Como vão? Espero que bem ^^. Desculpem a demora para atualizar e enfim...

Eu escrevi e reescrevi esse capítulo no mínimo umas três vezes até ficar assim e enfim, epero que o capítulo tenha finalmente tenha ficado bom... E hum, espero que gostem.

Amo vocês viu? Muito obrigada por todos os comentários e favoritos e realmente desculpem pela demora em atualizar ❤️❤️❤️

E é isso, até a próxima!! Cuidem-se. Bjs :-*

:)


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