História A tragédia dos irmãos Schwertmann - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Angustia, Drama, Horror, Mistério, Sofrimento, Suspense, Terror Psicológico, Violencia
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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Luta, Mistério, Seinen, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Estupro, Insinuação de sexo, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Capítulo único


I

Augusto Schwertmann nasceu em abril de 1860 na cidade de Leipzig e sua irmã Helena tinha três anos de diferença. Sua família morava numa boa casa, próxima ao centro da cidade, tinham o que comer, o que vestir e quem os servisse. Augusto nunca foi soberbo para com os criados apesar de adorar os ver irritados com suas traquinagens de criança. Adorava ouvir todas as histórias que pudesse, e sua curiosidade o levou a querer sempre bisbilhotar os assuntos dos adultos, aos 7 anos já aprendera sobre a rotina dos empregados, quando sua mãe estaria na cozinha ou no quarto, quando seu pai estivesse no escritório de casa ou na cidade. Ainda assim, nunca soube profundamente em quais negócios seu pai estava metido, o único momento onde poderia recolher mais informações era quando o Sr. Schwertmann se trancava no escritório com os homens de trajes e bigodes bonitos que os visitavam de vez em quando.

Quando atingiu 10 anos de idade, no prelúdio à unificação da Alemanha, sua mãe começara a adoecer e a figura alta e robusta de seu pai ficava cada vez menos presente, o que o levou a se afeiçoar mais à sua irmã e passar mais tempo com ela, era bem parecida com Augusto na aparência, apesar de terem áreas de interesses diferentes e costumava repreender o irmão quando tentava bisbilhotar o que seu pai fazia no escritório ou quando tentava aprontar com os criados, suas bochechas gordinhas ficavam vermelhas e provocavam riso nele, que algumas vezes fingia que iria aprontar alguma coisa para poder vê-la nervosinha mais uma vez. Ao final de 1870 sua mãe faleceu, provavelmente de tuberculose, essa palavra não fazia sentido para Augusto, mas ele entendia que era algo grave pelo tom que os adultos usavam ao falar dessa doença. Mudaram-se repentinamente e sem explicações para o lado oeste e mais afastado da cidade. o Sr. Schwertmann parecia absurdamente preocupado com alguma coisa, suas olheiras ficavam a cada dia mais fundas, mas sempre mostrava um sorriso fraterno sob o bigode grosso e curvado quando percebia que Augusto o observava, como se quisesse acalmar o filho.

A comida começava a faltar nas dispensas, comprar roupas novas estava fora de cogitação e os servos foram sumiam aos poucos, um a um a cada dia. Augusto foi sentindo falta dessas coisas, mas não se permitiu abalar pela situação e tentava conservar a felicidade da irmã brincando com ela de cuidar da casa. Mas, como muitos dizem, não há situação que não possa piorar. Em 1873, quando as coisas pareciam um pouco mais estáveis e havia pelo menos um criado na casa de vez em quando, o garoto, agora com seus 13 anos, foi surpreendido ao saber que seu pai havia sido assassinado após sair do Reichstag, onde trabalhava. Um desconhecido apareceu na casa para avisar a governanta e levar os dois filhos do Sr. Schwertmann para um orfanato previamente designado. Cheio de dúvidas e receios, Augusto correu para tentar entrar escritório do pai para encontrar alguma pista, alguma carta de despedida, ou algum amuleto que pudesse levar para lembrar do seu pai, mas foi logo impedido pela mão que pousou com força e peso em seu ombro, viu erguer-se à sua direita o homem que o segurava com um olhar agradável querendo tranquilizar o jovem, a voz poderosa e retumbante o ordenou para fazer as malas e ajudar sua irmã a fazer as delas, Augusto não ousou desobedecer, havia algo a mais no olhar fuzilante daquele homem, sabia disso, mas não o que era.

Foram levados, então, para o orfanato de Baruch Auerbach. Augusto era um dos mais altos do orfanato, com 1,70 metros graças à genética paterna. Os irmãos Schwertmann não eram os mais bonitos dali, mas Helena tinha um pouco mais de charme, somando seus trejeitos nobiliárquicos, sua alegria, animação e a sua polidez na fala, sem ser mesquinha e mimada, era muito mais comportada e elogiada que seu irmão. Já nos primeiros dias no orfanato, ele se destacou por seu mau comportamento, era repreendido por pregar peças nos outros internos, desde unir cadarços dos sapatos de duas crianças diferentes, cortar as saias das bonecas de várias meninas, até esconder ovos nos bolsos traseiros das calças de outros garotos e colocar a lixeira da sala de aula sobre a porta entreaberta, para que quando fosse aberta, caísse sobre a cabeça de quem estiver entrado na sala. Além disso, Augusto tinha o hábito de furtar alguns livros na biblioteca, a maioria sobre história e anatomia.

Os dias passam sossegadamente, e sem que os irmãos percebessem, a primavera logo chegaria naquele ano, e naquela primavera uma flor iria sangrar. Na 4ª noite da 4ª semana de setembro o sono de Augusto é interrompido pelo soluçar de uma criança no andar superior, ficou um pouco comovido, percebeu com o tempo que ali era normal ter o sono incomodado por um colega que lamenta alguma dor no coração, mas não conseguia deixar de entristece-se também, já que conhecia algumas dores.

 

II

Na tarde do dia seguinte, os dois irmãos se encontraram no refeitório, como costumavam fazer para contar as coisas interessantes que fizeram pela manhã, ou simplesmente para ficarem juntos. Augusto a esperava no canto direito da última fileira de mesas, quando sua irmã surgiu por entre a multidão de crianças no refeitório, ele logo notou que havia algo errado com Helena, estava cabisbaixa e ostentava um olhar triste, uma garota completamente diferente dos dias anteriores. Ela não contou nada sobre o motivo do seu estado, que o deixou muito preocupado, pensou se outras colegas começaram a caçoar dela, ou se a perda dos pais começara a pesar sobre seu coração, ela não esboçava nenhuma emoção no rosto, mas seus olhos transbordavam tristeza e dor. Após o almoço, Augusto usou tudo que desenvolveu na casa dos pais para seguir os passos da irmã para tentar descobrir o motivo de tal mudança e eliminar algumas hipóteses. Não fez grandes descobertas, ela estava falando menos e com menos pessoas do que o normal, seu sorriso era morto e seus trejeitos, mecânicos, sem a suavidade natural que costumavam ter. Aquele foi um dia mais ou menos normal para Helena, não havia nada na rotina dela que pudesse denunciar a causa de sua mudança súbita de estado de espírito, todos eram gentis e ela também tentava ser. A noite vinha e trazia consigo uma barreira que impedia a pesquisa de Augusto: o toque de recolher.

Durante aquela noite, algo incomodou o sono de Augusto, emergia dos seus sonhos e o perseguiu momentaneamente após o seu despertar. Fitou o estrado da cama acima por alguns segundos e resolver vagar pelos corredores do prédio, calçou os sapatos sem as meias e escapou do quarto se aproveitando do trinco fraco da porta. Não era a primeira vez que errava pelos corredores, inclusive que já fora pego algumas vezes durante esses passeios noturnos. Mas algo incomodava seu coração naquela noite, não sabia explicar as razões dessa perturbação, talvez pudesse ser o conteúdo do sonho febril que teve, onde fantasmas e demônios regozijavam devorar sua carne. Apesar disso, subitamente surgiu o desejo irracional de interromper o passeio e voltar a dormir. Mais tarde, Augusto gostaria de ter ouvido naquele momento aquela vontade de voltar para a cama.

Os corredores circundavam um pátio no formato de um quadrilátero retangular, aproximadamente 10 x 5 metros, as paredes que davam para o pátio eram revestidas de janelas transparentes e se dispunham no lado esquerdo corredor. Augusto seguia cautelosamente o curso dos corredores, subindo e descendo os andares quando bem queria, no peito martelava o desejo de parar o passeio, mas a mente estava vazia e querendo se manter assim até ser revestida pelo sono. Virou num corredor e subiu uma escada, sentiu uma vertigem estranha ao entrar no corredor diante da escada, então ouviu algo que chamou sua atenção. Era um som muito soturno, que queria ser mantido em segredo entre as paredes do orfanato, abafado pelas portas fechadas, mas no começo ele não notara isso, sequer o som o havia perturbado, algo que mudaria dentro de poucos instantes. A tontura intensificara conforme avançava no corredor, notou, ou talvez delirou, que o corredor tinha um aspecto mais tétrico que o normal, talvez fosse um detalhe que ele não havia notado ainda ou era realmente algo estranho acontecendo. O pequeno Schwertmann não sabia descrever exatamente o que o perturbava naquele instante, mas sabia que aquele pressentimento não era nem um pouco natural, teve a mesma sensação que alguém têm quando perambula solitário por um edifício abandonado, era como se o orfanato tivesse repentinamente envelhecido meio, talvez um século inteiro, mas preservando toda a sua estrutura e suas características básicas. De fato, o prédio não envelhecera anormalmente, mas havia algo naquele instante que dava a im- pressão de que era muito mais antigo do que parecia ser.

O som ficou mais alto conforme ele seguia pelo corredor opressivo do orfanato, parecia vir de alguma das portas à direita daquela estrada mórbida qua- dricular, era harmonioso como uma canção ou um hino da Igreja, coisa que Augusto adorava ouvir, mas a melodia era horrível, como se o que estivesse entoando a canção tivesse intenções malignas e escabrosas. Essa natureza es- tranha que o som tinha deixou ele confuso, não sabia se se interessava pela música ou se a odiava, se amava ou repugnava, se era bela ou ignóbil, pois justa- mente essas características opostas e impossíveis de residirem num mesmo obje- to, definiam a natureza daquela polifônica detestável que se percebia através do fino véu de silêncio do orfanato. Ele parou diante da porta que julgou ser a origem dos sons, mas não entrou bruscamente para reclamar com quem estivesse ali para parar a cantoria irritante, do contrário, congelou diante dela pois as im- pressões que tivera dos sons tornou-se mais nítida e adquiriu traços mais grotes-cos e absurdos, era realmente uma canção infernal ainda que bela na medida do possível, pois era encantadora, sensual, persuasiva mas não mascarava sua natu- reza abominável. Suspirou pesadamente e tomou coragem para fazer o que esta- va ao seu alcance: olhar pelo buraco da fechadura para ter certeza de que não era o próprio Satanás que cantava com seus subordinados. O que estava prestes a ver mudaria toda a sua vida, o motivo de tantos pesadelos e tormentos que o perseguiriam incansavelmente, a maior ferida na sua pobre alma e um choque desproporcional para sua mente ainda tão jovem.

 

III

Ele reparou ao se preparar para colocar o olho direito na fechadura, que dela se projetava uma luz verde horripilante, muito fraca, mas nítida. Mas esse detalhe foi insuficiente para arrebatar a curiosidade do jovem Augusto, que não entendia ainda o preço que saciá-la custaria. Enfim, olhou para dentro do cômodo e estremeceu, quase saltou para trás se pudesse emitir algum som diante daquela ameaça, arrepiou-se da cabeça aos pés e mordeu o próprio lábio para conter um grito que quase escapou de sua garganta. Não conseguiu entender exatamente aquilo que vira, era uma mera sugestão de algo horrível e que certamente era a causa da mudança no coração de sua amada irmã, não entendia o que era, quiçá as razões daquela cena bizarra que se desenrolava diante de seu olho direito, uma cena que o fez desejar em seu íntimo ser cego a ver aquilo de novo. Aquela era uma sala estranha, de parede de tijolos vermelhos escuros, sem nenhum móvel, como se tivesse sido preparada exclusivamente para o que estava acontecendo naquele momento, em todas as paredes do cubículo – inclusive a da porta – haviam inscrições, círculos e desenhos estranhos, formas deprimentes, horripilantes, num estilo artístico que só seria nomeado dois ou três séculos depois e que era desprezível para a gente daquela época, gente que sabia que tais coisas só seriam criadas para insultar a criação divina e vilipendiar o patrimô- nio de Deus. Somente aquelas coisas pintadas numa tinta esverdeada seria neces- sário para despertar o terror até no mais louco e desvairado dos homens, mas o que adornava aquele ambiente, ainda que bizarro, seria o mais indiferente dos detalhes daquela cena através do buraco da fechadura, mas esse detalhe tornava tudo pior para o pobre garoto, por que o afetava diretamente. O círculo maior do chão era composto de quatro outros círculos, além de um menor no centro, com linhas transversais que conectavam uns aos outros dentro do círculo maior. Linhas adornadas com mais inscrições e desenhos diabólicos. em cada um dos círculos menores estavam de pé figuras masculinas, de cabelos e olhos escuros, peles queimadas pelo sol, narizes aduncos, recitando a canção macabra que parecia dar um efeito estranho às pinturas do ambiente, elas brilhavam sutilmente conforme as notas ressoavam nas gargantas daqueles homens misteriosos, todos nus, aguardando ansiosamente para terminar a música. E no centro do círculo estava um detalhe que transtornou Augusto e feriu seu coração por sua presença num ambiente tão atormentador. Lá, pálida como o brilho lunar, bela como um botão de lírio desabrochando, segurando o braço esquerdo com o direito como que para se proteger inutilmente do frio ou da ameaça iminente, olhando para o chão com melancolia e desesperança, estava a sua irmã mostrando todas as suas vergonhas, cansada e atormentada, como alguém que de tanto sofrer reage com indiferença aos pesadelos que estão por vir.

A canção parou quando os homens diminuíram o tom de voz, começaram a sibilar e avançaram lentamente para o centro, para Helena. Mesmo muito jovem, Augusto sabia o que estava por vir e uma força interior o fez parar de olhar pelo buraco. Sentia seu rosto quente, segurava sua cabeça com as mãos tremendo, um gesto inconsciente para segurar as lágrimas e se proteger do choque, se sentia horrivelmente impotente, estúpido por não ter feito algo antes mesmo de que pudesse se repetir, sabia que era isso que fizera a sua irmã morrer por dentro e se tornar aquele fantasma não-morto que perambulava no orfanato no dia anterior. Não conseguia imaginar o que estava acontecendo exatamente, nem porque, sequer quem eram aqueles homens, nunca os viu no prédio (e nunca os veria novamente). Então algo aconteceu em seu coração, de repente toda a sua melancolia explodiu, transformou-se num ódio tão profundo e insuportável para qualquer outra pessoa que o sentisse e seu corpo respondeu a essa chama que incendiava sua alma, largou a cabeça e cerrou os punhos enrijecendo todos os músculos do corpo, franziu o cenho e pressionava os dentes uns contra os outros, a respiração pesou e os olhos cravaram na porta acinzentada a sua frente. Girou abruptamente e socou a janela mais próxima. Com a mão direita recolheu um caco pontiagudo de cerca de onze polegadas e meia e esmagou outro com o salto de seu sapato, pegando o pó de vidro com a mão esquerda, então encostou suas costas na parede no mesmo lado da dobradiça da porta, esperando quem quer que saísse para investigar. Logo um homem barbudo, com o peito nu e calças vestidas desajeitadamente abriu a porta para a própria infelicidade e a de seus companheiros.

 

IV

Com uma velocidade absurda e inumana, segurando o vidro o mais firme possível, ainda que sangrasse as juntas internas dos dedos, Augusto desferiu uma estocada mortal trespassando lateralmente o pescoço do homem, recolheu o braço e desferiu uma série de estocadas nas vísceras dele, o homem enfraqueceu com a rápida perda de sangue, então Augusto mudou seu alvo, que vinha avançando confuso para a porta pela direita. Ergueu-se sobre o homem que jazia na porta daquela sala bizarra, empurrou a porta com o ombro esquerdo e viu que outro homem avançava pela esquerda, havia outro homem tremendo no fundo da sala e Helena jazia deitada no centro do círculo, o rosto coberto por seus cabelos dourados estava virado para o chão, e se tremia toda. Augusto, veloz como o vento de uma tempestade violenta, jogou o pó de vidro no rosto do homem que vinha pela esquerda, desviou o soco que vinha pela direita e rasgou a axila direita daquele homem e perfurou suas costas na altura do rim direito com três estocadas rápidas e chutou em cima do ferimento, fazendo seu oponente cair. O outro, enquanto agonizava com o vidro nos olhos, recebeu uma estocada entre o trapézio e a clavícula esquerda, outra pouco abaixo do mamilo – que por pouco custou a integridade do vidro por conta da proximidade das costelas, mas a precisão de Augusto era movida por seu furor, o sucesso desse golpe foi mera sorte –, outras quatro estocadas no intestino além de uma na parte interna da coxa direita. Antes que seu sangue esfriasse ele avançou contra o último homem, que caíra de costas pelo horror ao ver seus companheiros serem mutilados com tanta ferocidade e num piscar de olhos. A sombra do garoto se projetava sobre ele, cobrindo-o com seu ódio selvagem e mortal, o vidro em sua mão cintilava em escarlate, pingando pequenos que brilhavam pela luz da lua às suas costas, uma silhueta assombrosa que avançava até ele. O homem, se tivesse tempo, teri-a cagado de medo.

Um grito abafado pelo gorgolejar de sangue, e mais uma vida se dissolvia na sala tenebrosa. Certificando-se que o homem estava morto com algumas estocadas no estômago e na virilha, Augusto largou o pincel que compusera a- quela obra horrível, espatifando-se quando beijou o chão. Olhou para sua mão direita, agarrara tão forte naquele objeto pontiagudo que causou sérias lesões, todos os dedos cortados além de um corte horizontal que acompanhava paralela-mente as linhas de sua mão. Não sentia a dor, ainda havia muita adrenalina circu-lando em seu sangue. Então contemplou sua obra, uma polifônica de gorjeios, sussurros e suspiros desajeitados, impregnava em suas narinas o terrível cheiro metálico de sangue, que se espalhava cada vez mais no ambiente. Por algum motivo, não quis olhar os homens no rosto, preferia desfigura-los a isso, não o fez não por que não quis, mas por que não pode; algo extraordinário aconteceu quando se aproximou de sua irmã, ainda imóvel no chão. “Isso! Foi até melhor do que planejei!” disse a voz espectral – uma polifonia de 6 vozes que soavam de uma garganta só – num tom soturno ainda que terrível e ameaçador, gargalhando logo em seguida. O que mais perturbou o garoto naquele instante foi o fato de que a sua irmã não havia movido um músculo sequer: aquela voz penetrante e diabólica parecia vir dos desenhos das paredes e do chão, mas ressoavam como se ecoassem do mais profundo abismo além das estrelas. Mas o pior ainda estava porvir.

E a risada aumentava, em volume e intensidade, as inscrições e formas pareciam brilhar ainda mais acompanhando a gargalhada infernal, as pernas do garoto tremeram na mesma hora em que ele percebeu que a risada parecia aproximar-se cada vez mais. Isso era só o início, o sopro do terror reverberaria ainda mais no seu espírito com as coisas que viriam a seguir, coisas que o perturbaram profundamente até seu último suspiro, e ouso dizer que até além dele. A luz nas paredes competia sua intensidade com o luar, e seu brilho parecia revelar a nuvem de sangue ainda perfumando o ambiente, e de repente, a coisa que riu começou uma canção silenciosa, uma cacofonia surda ainda mais horrível e infernal que o cântico bizarro anterior. E de repente, Helena se ergueu lentamente do chão, como se fosse levantada pelos ombros por mãos invisíveis e só parou de levantar quando seus pés deixaram de tocar no chão, seu rosto angelical desenhava uma expressão de dor lancinante enquanto seu corpo se deformava horrivelmente. Murchavam seus músculos e sua pele ressecava, e estranhos tumores inchavam e cresciam perto das articulações. Ela gritava baixinho, entre suspiros e sem forças, com o olhar congelado na lua além da porta aberta. Uma nuvem titânica cruzava o céu escondendo as estrelas atrás de si, avançava vagarosamente para a esquerda, quando tocou a lua, Helena fez um movimento abrupto, que só foi compreendido por Augusto quando se repetiu: era uma contração do diafragma, ela estava prestes a vomitar algo. Quanto mais a nuvem cobria a lua, mais o diafragma se contraía com mais violência. A cada contração sua pele se ressecava ainda mais, esticava, pois os nódulos acom-panhavam as contrações inchando com muita força, e ficava mais alto e mais nítido o gemido de dor de Helena.

Augusto ficou desorientado enquanto a cena se desenrolava, não sabia como reagir, nem o que fazer. Queria ajuda-la, mas se esforçava para não vomitar diante daquela anomalia espectral bizarra que deformava o corpo de sua tão querida irmã. E a nuvem continuava avançando intrépida, fazendo com que, pouco a pouco, o ambiente fosse apenas iluminado pela luz verde-água fosfore-cente nas paredes. Ele não conseguia entender nada do que acontecia no momento, todo os detalhes não pareciam encaixar e nem levar a nenhuma con-clusão concreta, nada fazia sentido direito, embora ele pudera notar a conexão estranha e ilógica entre o brilho do luar e a mutação horrível do corpo de sua irmã. Não havia nada que pudesse correlacionar essas duas coisas tão diferentes em sua substância: uma era apenas um mero evento natural e acidental, a outra, uma perversão da natureza e da integridade humana e, embora aparentemente acidental, era claramente premeditado e arquitetado. Mas Augusto não teve tempo nem base para conjecturar tais coisas, não tinha conhecimento algum sobre as coisas do oculto, nem que existiam coisas terríveis assim para se ocultar, nunca em sua vida breve ouvira uma história terrível como a que acontecia consi-go, a única coisa que entendia sobre coisas ocultas é que eram ditas entre cochi-chos por adultos e eram muitas vezes sobre assuntos tediosos. Aquilo que se desenrolava era de um aspecto completamente incompreensível (quem dera que de alguma forma realmente fosse), já não bastasse o choque de matar 4 homens adultos com a brutalidade em que os executou, não foi capaz de suportar o que viria a seguir.

 

V

O tempo passava devagar demais enquanto aquilo acontecia, ou assim parecia para Augusto. Aquela nuvem gigantesca cobria a terra com a penumbra mais profunda e absoluta, uma coisa impossível até mesmo para aquela nuvem estranha, uma pequena faixa da luz lunar estreitava para fora daquele tapete colossal, o coração dele não parava de pular, tinha uma má impressão sobre o que aconteceria com sua irmã quando restasse apenas a luz espectral que revestia-os, tinha uma má impressão sobre a estranha paralisia que congelava seus movimentos, atrapalhava até sua respiração e o piscar de seus olhos, tinha uma má impressão quando os nódulos gigantes que se formaram no corpo de sua imã, que ainda flutuava três palmos acima do chão, gemendo de dor e tendo sua pele levada ao limite, toda esticada e ressequida, quanto aquilo devia doer! E essa sensação ruim nos lábios do garoto não o deixou depois que ficara insuportável olhar o estado de sua irmã, de respirar e de piscar, como se a nuvem tivesse cessado sua marcha para tortura-los mais um pouco. Mas era inevitável que a lua não brilhasse mais naquela noite terrível.

E logo o último raio de luz da lua se dissipou no ar, completamente esmagado pelo colosso irrefreável no céu. O sangue congelava, o coração parou por um instante e saltou logo em seguida, o horror dominava completamente seu coração vendo o apogeu daquela loucura, entronado pelo grito agudo de sua irmã. A luz dos símbolos pareceu vibrar mais forte quando sua pele explodiu, o sangue se manteve imóvel no ar enquanto ela se contorcia e urrava como nunca, mas isso não foi o pior; os nódulos eram agora uma massa nojenta e avermelhada (roxa sob a luz espectral) ondulando no ar, eram os músculos de seu corpo presos nas extremidades dos ossos expostos. Augusto não ousou gritar, por mais que quisesse, não conseguia de jeito nenhum, sequer conseguia pensar direito, tinha certeza que essa era a ruína de sua vida e acreditou que por mais que pudesse sair vivo dali, jamais estaria realmente. O grito de sua irmã se deformou no ar, tomando um aspecto cada vez mais gutural e profundo, tão potente que borbulhava as entranhas do garoto. E então parou, parecia se acalmar e o fitou sem olhos, seu rosto fora completamente rasgado, pedaços de pele ainda se prendiam à caveira tingida de sangue e duas massas roxas agitavam-se no elo entre o crânio e a mandíbula. Se aproximou vagarosamente.

A entidade que tomou conta do que restara do corpo de Helena explicou sucintamente por que tudo isso era necessário e por que ele tinha que ser devorado e, vendo o pavor e perplexidade do garoto, tentou acalmá-lo contando quem era, de onde vinha e por que precisava vir, só quando acabara seu discurso que tinha percebido que o garoto jamais a entenderia pois suas línguas não tinham qualquer semelhança, se desenvolveram em épocas e em planetas diferentes, conversar era inútil, então se apressou para devorá-lo. Mas achou curiosa a reação do garoto ao ouvir o nome de Simimam.


Notas Finais


Vai ficando ruim conforme progride, né? Essa estória me é muito frustrante.


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