1. Spirit Fanfics >
  2. A vingança dos Romanov >
  3. Pressentimento ácido

História A vingança dos Romanov - Capítulo 10


Escrita por:


Notas do Autor


Na imagem: Alexandra Feodorovna recém-casada aos 19 anos (1894); Alice ‘Alix’ de Hesse e Reno, nome de nascimento de Alexandra, em preto e branco, aos 3 anos (1875); Alexandra e Nicolau no Palácio de Inverno, no último grande baile imperial, em 1903.

Capítulo 10 - Pressentimento ácido


Fanfic / Fanfiction A vingança dos Romanov - Capítulo 10 - Pressentimento ácido

Rússia comunista, 1918.

Era tarde, mas Alexandra não conseguia dormir. Suas dores de cabeça que sempre a incomodaram hoje era ininterrupta o dia inteiro. Não era intensa, mas era incomodativa. Botkin, médico e amigo leal da família, havia lhe aconselhado a tentar acalmar seus nervos, evitar preocupações que iria ficar tudo bem. Por seu olhar ela soube que nem ele acreditava nisso, mas acenou com um sorriso, pegando a única dose diária do remédio para suas dores de cabeça que os bolcheviques permitiam. 

Nicolau estava deitado atrás dela, com um braço ao redor de sua cintura. Sabia que ele não estava dormindo. Ele quase não dormia e sempre se atormentava se perguntando se havia sido um bom czar. Ela tentava acalmá-lo, ele era um bom homem, de bom coração, talvez fosse esse exatamente o problema, a razão pela qual ele perdeu o trono russo. Mas jamais o acusaria de nada. Ela o amava e não importava o que acontecesse, sempre o apoiaria. Aquela noite, entretanto, o ar parecia mais denso. Não. O dia pareceu mais denso. Era quase como um sentimento ruim de antecipação de algo que ninguém sabia o que era, mas que todos sentiam no ar. Desde a abdicação do marido a mais de um ano, uma coisa nunca saíra de sua cabeça.

Quase dois anos antes, seu amigo, amigo de toda a família, o homem mais grosseiro e fedido que já conhecera, e, ainda assim, um amigo leal, fora morto por um membro menor da família Romanov. Rasputin que a tratava como uma mulher sagrada, tocada pela Virgem Maria, entrou em suas vidas como um furacão abalando tudo ao seu redor. Salvara a vida de seu tão precioso filho mais vezes do que ela podia contar e ganhou o respeito e a gratidão de toda família, até mesmo do desconfiado Botkin, por isso. Mas era um homem sem nenhuma classe, distinção ou mesmo educação, isso ela tinha que admitir. Isso e seus atos pouco ortodoxos atraíram o rancor e a inveja de muitos membros da nobreza e serviu para que os inimigos do czar sujassem a imagem dela. Prevendo sua morte, Rasputin escreveu uma carta endereçada à ela com uma previsão aterradora que ela jamais esquecera:

 

...tenho o pressentimento de que morrerei antes de 1º de janeiro (1917). Se eu for assassinado por gente comum, especialmente por meus irmãos os camponeses russos, então o czar da Rússia não deve se preocupar por seus filhos, que reinarão na Rússia outros cem anos, mas se eu for assassinado pelos boyardos e nobres (suas relações) digo que ninguém da sua família, nenhum de seus filhos, viverão mais de dois anos. Eles serão assassinados pelo povo russo…

 

Cerca de três meses depois, Nicolau abdicara. Dois meses depois Alexandra tivera um daqueles sonhos que sempre a avisavam sobre algo, mas desta vez o sonho fora com Rasputin. Em seu sonho ele fizera uma reverência para ela e apontava para trás dela. Quando se virou viu uma casa cercada por um muro alto e a voz de Rasputin atrás dela lhe dizia tristemente: “Aqui suas vidas serão roubadas. Eu lamento.” 

Ela acordou suada e tremendo com Nicolau preocupado ao seu lado. Contara à ele e ele, como sempre, tentara tranquiliza-la, mas ela sempre sentiu calafrios com a lembrança constante desse sonho. Por semanas aquele sonho se repetiu e então, do nada, parou. Em 30 de abril, a exatos dois meses e desessete dias, seus temores se intensificaram quando chegaram à sua nova residência imposta pelos inimigos, a chamada Casa Ipatiev. Alexandra, acompanhada de sua filha Maria, quase caiu de costas quando viu que a tal casa era exatamente idêntica à casa que Rasputin mostraram em seu sonho. Desde então ela tentava em vão afastar a sensação de morte iminente para não preocupar Nicolau e assustar seus filhos, rezava sempre que podia e tentava não associar as provocações, indecências e grosserias dos guardas, tão diferentes de Tobolsk onde a família ficara antes. Sentia medo quase o tempo todo desde o primeiro dia ali quando Nicolau tentara defende-la de uma grosseria dos guardas que interromperam grosseiramente alertando que, caso eles não seguissem as regras (todas elas sem reclamar), Nicolau seria separado de sua família, uma segunda contestação e ele seria enviado à trabalhos forçado, e uma terceira resultaria em pena de morte.

- Alix. – Nicolau falou atrás dela, tirando-a de seus pensamentos conturbados.

- Sim. – Ela respondeu o mais docemente possível para tranquilizá-lo.

- Você precisa descansar, querida. – Ele disse.

- Você também. – Ela respondeu.

- Não consigo dormir. Algo me incomoda, embora não saiba o que. Mas você precisa descansar para suas dores... – Nicolau foi interrompido por batidas calmas, mas firmes em sua porta.

...Ninguém da sua família, nenhum de seus filhos, viverão mais de dois anos... Aqui suas vidas serão roubadas. Eu lamento.

A lembrança surgiu como um soco no estômago de Alexandra quando seu marido se levantou, abriu a porta e a voz de Botkin soou com um simples ‘boa noite’. Com um semblante calmo, forçando-se a agir com dignade e frieza como fora ensinada, ela seguiu seu marido no percurso que sentia ser o último de sua vida. Horas mais tarde, seu corpo era coberto com os corpos da maior parte de seus filhos, seu marido, médico e servos leais, sob um lamaçal de ácido sulfúrico, terra e sangue.

- O mundo nunca saberá o que fizemos com eles. – Voikov disse à Yurovsky que fazia um inventário das jóias reitiradas dos corpos.

 

Floresta de Ipatiev, Ecaterimburgo, 1919.

- É impossível alguém sumir tão depressa assim. – Yurovsky resmungava consigo mesmo.

- Ermakov! – Voikov gritou vendo um homem agachado de costas, batendo a cabeça do no tronco de uma árvore.

- Maria lutou....Maria gritou...Anasfássfia gemeu..... – Ermakov balbuciava babando ridiculamente e batendo a testa na árvore com força.

Yurovsky e Voikov se aproximaram e entreolharam-se confusos.

- Pare com isso, Ermakov. Não tem graça! – Voikov disse, mas, assim como Yurovsky, não se aproximou mais.

-...O médico...tiro...tiros...a cabeça...o czar...morreu? – Ermakov parecia completamente alheio à seus colegas atrás.

- Claro que morreu! Nós enterramos todos eles depois de deixar aqueles idiotas cheios de furos. – Voikov queria crer que Ermakov estava brincando com a morte de suas vítimas como ele sempre fazia. Ele queria muito acreditar nisso.

- Já chega disso. Vamos. Levante-se. – Yurovsky disse se aproximando e tocando o ombro de Ermakov. Pior ideia.

- NÃO!! NÃO! NÃO! MÉDICO...O MÉDICO...ELA...NÃO! ELA...ELA VAI ME PEGAR!!! – Ermakov levantou gritando como se tivesse levado o coice de um cavalo no rosto. Quando ele se virou, ainda aos gritos, seus colegas congelaram no lugar. Ermakov estava com um olhar vítreo, selvagem, em pânico como um indefeso coelho encurralado. Seu braço direito estava pendurado do lado do corpo, mole e flácido como se não tivesse nenhum osso nele. Um olho de Ermakov, no canto interno, estava inchado, sua esclera vermelha como se um lago de sangue cercasse a íris verdes do homem.

- Mas que inferno... – Yurovsky murmurou chocado demais com a cena. Não tinha como os brancos terem levado Ermakov e causado tanto estrago nos dez minutos em que ele sumira. Não sem atrair a atenção deles com os gritos. Além do mais, Ermakov era duro na queda. Não era o tipo de homem que se pode capturar, subjulgar e causar tanto dano em pouco tempo. Mas Yurovsky não pôde mais ficar preso em seus pensamentos confusos.

Ermakov olhou para Voikov tomado de uma raiva maior do que a habitual. Era quase como se Voikov tivesse atirado na cara dele pra provocar aquela fúria selvagem nele. Seus olhos não eram mais verdes, eles estavam azuis e algo neles lembrava outro olhar. Voikov percebeu isso também, preso sob Ermakov que, mesmo com apenas uma mão estava dando trabalho. Aqueles olhos... Voikov tentou não associar a quem ele estava associando, mas era impossível. Ermakov tentava mordê-lo como um animal selvagem, babando, rosnando como um cão raivoso, e pingando sangue de sua testa tão ferida que estava deformada.

Yurovsky mal pôde ver o salto que Ermakov deu tão inumanamente alto, passando por cima dele, derrubando e caindo em cima de Voikov um pouco atrás. Ele se aproximou por trás para arrancar Ermakov de cima do outro homem, mas nem conseguiu tocá-lo. Com a mão quase tocando Ermakov, Yurovsky sentiu um braço forte o puxar pela cintura e jogar longe. Ele praticamente voou, caindo no tronco da mesma árvore que o outro homem, minutos antes, batia a cabeça insanamente. Mesmo tonto pela pancada, com todo seu corpo doendo, Yurovsky se levantou e olhou ao redor esperando ver quem o jogara longe, o instinto militar assumindo onde devia haver o medo. Mas, não havia ninguém. Só Voikov lutando para evitar as mordidas de Ermakov. Ele se levantou alerta ao seu redor para qualquer inimigo oculto nas árvores, e correu para ajudar Voikov. Tarde demais. Ermakov conseguiu dar uma mordida enorme no rosto do outro homem arrancando um pedaço tão grande da bochecha que a arcada dentada ficou exposta. Voikov foi tomado pela raiva e a dor. Ermakov pareceu satisfeito com isso como se captasse apenas no ar que tinha causado esse efeito no outro. Então, inesperadamente, ele se levantou e correu para a floresta, com Voikov se levantando em seguida, pingando sangue, e correndo atrás dele sem pensar em mais nada. Yurovsky não teve outra opção e, mesmo se tivesse, teria escolhido seguir os dois homens porque, bem, ele não queria ficar sozinho. Estava cada vez mais difícil explicar racionalmente o que estava acontecendo.

 

~o~

Voikov mal conseguia falar com aquele ferimento, mas a adrenalina e a raiva acumulada de anos naquela luta disfarçada pelo poder dentro do grupo com o homem que o ferira agora, o faziam correr sem medo atrás de Ermakov floresta adentro. Alguém gritara algo atrás dele ao longe. Yurovksy? Kabanov? Seu pai o chamando de fraco e imprestável como sempre? Ele não sabia dizer e não se importava. Ele queria apenas matar Ermakov que corria a cerca de cinco metros à frente. Até a floresta parecia apoiar sua decisão porque ele não tropeçou em nada, nenhum galho bateu nele, nada o atingiu, quase como se a floresta estivesse saindo do seu caminho. E estava. Mas por outro motivo.

Quando Ermakov parou, se a raiva de Voikov não o estivesse dominando ele teria percebido onde estavam. Mas ele estava ocupado demais focado em seu alvo parado à frente, de costas. Ele parara perto do acampamento deles, do lado oposto, bem em cima de onde os cadáveres da maioria das vítimas do ano anterior estavam sepultados. Um pouco distante, Voikov pôde ver a luz da fogueira parcialmente oculta pelas barracas, mas sua mente nem processou a informação. Ele acelerou a corrida e, à dois metros de Ermakov, parou de repente com um frio repentino em suas pernas, subindo pela coluna e, podia jurar, entrando em sua alma. Ermakov virou lentamente como um marionete movido por mãos invisíveis. Ele jogou a cabeça pra trás num movimento rápido e abriu a boca. Uma nuvem branca-azulada saiu de sua boca, se erguendo no ar verticalmente, depois descendo ao lado de Ermakov e fomando uma figura cada vez mais humana, até se tornar completamente reconhecível, quase sólida se não fosse por sua transparência que permitia ver o acampamento através de seu corpo. Os olhos de Ermakov voltaram ao verde de sempre, mas ainda não se via nenhuma luz de vida neles. Ele se agachou, balançando o corpo pra frente e pra trás, babando muito e murmurando uma sucessão incoerente de “eeee”. Voikov estava congelado de medo no lugar e seu medo só piorou quando uma figura surgiu do nada atrás de Ermakov, um homem que Voikov achou que nunca mais fosse ver: Botkin, o médico e amigo da família. Os olhos de Alexandra estava focados em Voikov, uma raiva selvagem neles. A mesma raiva, os mesmos olhos, que vira a poucos minutos em Ermakov. Ela flutou para frente dele tão rápido que ele mal conseguiu ver o movimento. Ficando cara a cara com Voikov, seus rostos a poucos centímetros, elepodia ver claramente os ferimentos de ácido, as manchas brancas de cal, as pedras e folhas presas eu seus cabelos desgrenhados, o sangue duro e seco em sua pele e roupas.

Sua mão se transformou em uma espécie de faca que lembrava uma baioneta e ela ergueu na altura do rosto, na lateral, para que ele visse. Com um semblante sério que lhe era característico e combinado com aquela fúria selvagem em seus olhos azuis, ela abaixou a mão e enfiou nas costelas de Voikov. Uma, duas, três, quatro vezes até que, no último golpe, em meio aos gritos de dor enquanto ele tentava segurar a faca sem sucesso, um crack se ouviu. Sua costela quebrara e ele caíra de frente no chão. Ela parou os golpes, andou ao redor dele e parou à frente de sua cabeça. Abaixou, agarrou sua espessa barba sem se importar com a dor do homem, e o arrastou pelo chão até onde estava Ermakov. Enquanto era arrastado, seu corpo se bateu em pequenas pedras com força, o movimento fazendo mais costelas e alguns ossos do pé quebrarem com cracks que era tão aterrorizantes quando dolorosos. Ela parou e soltou a barba dele bruscamente o fazendo cair de cara no chão, quebrando o nariz.

- Não... Não me mate. Pelo amor de Deus. – Voikov implorou lembrando-se que Alexandra era muito religiosa em vida.

- Porque não? – Ela perguntou se abaixando e segurando seu queixo para que ele olhasse para ela.

- Eu...eu tenho filhos. – Era verdade. Ele tinha. Embora nunca dera importância pra eles que só via como um gasto a mais de seu suado dinheiro. Um atraso de vida.

- Eu também tinha. Você os matou. Lembra? – Ela respondeu entredentes.

- Por tudo que é mais santo, majestade. Eu não quero morrer. – Voikov estava realmente desesperado. O medo da morte o consumia mais do que o medo de ficar inválido depois de tantos ferimentos.

- Majestade? Você não me chamou assim em todo o tempo que ficamos em Ipatiev! Você fez gestos nojentos para mim e minhas filhas. Você se divertiu com nossas mortes. Você e seu amigo aqui – Ela apontou Ermakov com o nojo transbordando na voz – quebraram nossos ossos depois de mortos apenas por diversão. Você, literalmente, bebeu e dançou sobre nosso túmulo. Você não quer morrer... E eu queria? Meu filho doente queria? Qualquer um de nós queria? Não tivemos nem ao menos chance de defesa. Não tivemos um funeral, nem algumas palavras respeitosas sobre nossos túmulos para que pudéssemos descansar em paz... Agora você apela ‘por tudo que é santo’?

- Nós fizemos apenas o nosso trabalho. Estávamos só cumprindo ordens. – Voikov disse não disfarçando o medo em sua voz. Talvez assim ela tivesse pena dele.

- É a segunda pessoa que diz isso esta noite. Mas não estavam cumprindo ordens quando profanaram nossos corpos. Não estavam cumprindo ordens naquele massacre. Você estava se divertindo e rindo muito com nossa dor e nossos gritos. Eu nem mesmo pude terminar o sinal da cruz... – Ela acrescentou em um murmúrio dolorosamente triste. Então o ódio voltou ao seu rosto. – Eu não polparia sua vida nem se a minha pudesse ser trazida de volta. Meus filhos nunca crescerão e me darão netos. Os seus sim! Você não merece viver essa dádiva!

Ela se levantou e virou. Toda a parte de trás de seu corpo da cabeça aos pés estava corroída, gosmenta, com pedaços de pele, músculos e ossos à mostra. Do lado direito de sua cabeça um ferimento à bala, com boa parte do crânio exposto, estava banhado em sangue, pó branco e pequenos galhos e pedras. Seus movimentos eram um misto de elegância e estranheza porque a parte superior e inferior pareciam quicar levemente uma na outra, como se os ossos do tronco, das costelas talvez, estivessem quebrados. Ele não aguentou a cena repulsiva e acabou vomitando, sem nem conseguir levantar a cabeça o suficiente já que seu corpo doía demais para fazer qualquer movimento. Acabou caindo de cara no próprio vômito. Alexandra vendo a repulsa que causara no homem pareceu ficar ainda mais furiosa. Seus olhos brilhavam de raiva, seu rosto se contorceu deixando à mostra uma face deformada como se muitos ossos estivessem quebrados e o rosto queimado quase totalmente pelo ácido. Ao mesmo tempo o chão tremeu e, à frente dela, uma rachadura se abriu e um cheiro forte emanou do buraco.

Voikov conhecia bem aquele cheiro e o terror se aprofundou em seu íntimo só com a possibilidade do que poderia significar. Botkin e Ermakov ainda estavam do mesmo jeito, pouco atrás de Alxandra. Ermakov agachado daquele jeito insano e Botkin em pé atrás dele como um encosto maligno de semblante imperturbável que era mais assustador do que se ele estivesse gritando. Alexandra olhou para Botkin e ele segurou Ermakov pelos cabelos o arrastando para a beirada do buraco recém aberto no chão. Ermakov não tentou lutar, apenas tinha um semblante cada vez mais aterrorizado como se alguma parte de sua mente ainda percebesse o que estava acontecendo, mas seu corpo não pudesse reagir apropriadamente. Voikov tentou se apoiar nos braços para levantar e correr, mas era inútil. Seu corpo estava pesado, o frio assustador parecia uma entidade que o prendia ao solo tanto quanto a dor. Talvez até mais. Alexandra estava ao lado dele agora, embora ele não tivesse visto ela se aproximar. Ela chutou suas costelas, seus pés fantasmagóricos fortes demais apesar de parecerem tão frágeis naquele corpo translúcido. Os golpes quebraram mais ossos, a dor lancinante o levando à irracionalidade, cada chute o arrastando para onde Ermakov estava. Quando ela parou, ambos os homens estavam na beira do buraco e, com horror, Voikov confirmou suas suspeitas. O buraco inexplicavelmente estava cheio até a borda com ácido sulfúrico como uma piscina mortal.

Botkin se aproximou de Ermakov, agachou, ergueu o queixo babado no homem o fazendo olhar para ele, e disse: - Você já fez o que mandei. Muito obediente. Parabéns. Por isso vou lhe dar uma escolha. Você pode ter seu golpe de misericórdia que prometi ou posso deixá-lo viver assim.

- Botkin tem um bom coração. Eu tinha, mas perdi quando vi meu marido morrer e minhas filhas serem atingidas sem piedade. – Alexandra quase rosnava de raiva falando de pé, altiva, na frente de Voikov. Ele conseguira se levantar um pouco, talvez numa última onda de adrenalina causada pela sua vontade de viver, com esperança ao ouvir a proposta de Botkin para Ermakov, ficando quase de joelhos de frente pra mulher fantasmagórica.

- Eu posso mudar. Eu posso. Posso compensar. Posso contar para todos onde estão seus corpos e vocês serão sepultados dignamente. Só preciso de uma chance. Só uma. – Voikov estava aos prantos agora.

- Como foi que você disse naquela noite mesmo? Diga, Voikov. – Ela disse o nome dele com mais nojo do que se estivesse com meio quilo de vermes na boca.

- Eu disse... Bem... Eu, eu disse... O mundo nunca saberá o que fizemos com eles... – Voikov respondeu, sentindo a urina descendo por suas calças tamanho era seu medo da morte.

- Você não tem ideia do quanto está errado. Seus nomes serão esquecidos, mas o nosso se tornará uma lenda que irá perdurar por séculos. Talvez você possa mesmo mudar, talvez posso mesmo se arrepender... – Ela disse causando uma onda de esperança em Voikov que quase imediatamente, num reflexo, pensou em formas de se vingar daquela fantasma que o humilhara fazendo ele se mijar de medo. – Ou talvez não. – Alexandra disse o empurrando com o pé em seu peito, fazendo Voikov cair na ‘piscina’ de ácido sulfúrico.

Os gritos de Voikov duraram pouco, seu corpo sendo rapidamente consumido pela substância poderosa, mas assustariam até o mais corajoso dos homens. Sem dúvida assustaram Yurovsky que parou sua corrida no meio da floresta, olhando para todos os lados, tentando encontrar os dois homens desaparecidos e a fonte daqueles gritos de gelar a alma que ouvira. Ele se forçou a voltar a correr na direção dos gritos que torcia para não ser de Voikov como pareciam.

 


Notas Finais


Sei lá... De repente me deu uma vontade de tomar um banho.
:v


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...