1. Spirit Fanfics >
  2. A vingança dos Romanov >
  3. Questões

História A vingança dos Romanov - Capítulo 8


Escrita por:


Notas do Autor


Tatiana usando uniforme militar em 1911; na imagem digitalmente colorida, Tatiana em 1913 num traje de gala; e na foto de perfil em 1914

Capítulo 8 - Questões


Fanfic / Fanfiction A vingança dos Romanov - Capítulo 8 - Questões

- Pai Nosso que estais no céu... – Era a décima oitava vez seguida que Tselms repetia o Pai Nosso segurando seu crucifixo no pescoço com uma mão e carregando a arma com a outra, os nós dos dedos já brancos com a força usada.

Ele estava andando sozinho a tanto tempo que tinha perdido a noção da hora ou de onde estava. Todas as árvores pareciam iguais. Seu treinamento de sobrevivência parecia inútil. Nenhuma das referências que poderia usar estavam normais. As estrelas estavam encobertas pela densidade anormal de árvores, ele não tinha coragem de subir nelas porque sentia que algo o observava daquelas árvores, o Sol que já devia ter se erguido a horas não dava nem o mínimo sinal, e o frio estava cada vez pior, anormalmente pior. Uma tempestade de neve estava se aproximando? Por isso o Sol ainda estava oculto? Não, não fazia sentido. Nenhuma tempestade apagaria completamente os vestígios do Sol daquele jeito como se fosse meia-noite o tempo todo. Mas e aquelas árvores todas? A floresta não era tão densa assim. Ele conhecia a região porque patrulhara aquela floresta muitas vezes durante o tempo que servira na honrada missão de manter a família imperial presa. E aquela sensação de estar sendo observado que nunca passava...

- Ridículo! Isso é ridículo, Tselms! – Ele disse a si mesmo imaginando o que Yurovsky ou Ermakov lhe diriam. Ele devia estar mesmo muito mais apavorado do que imaginava. Estava começando a desejar a companhia até mesmo de Ermakov! – Santificado seja Vosso Nome... – Ele focou na sua oração em voz alta como um conforto. Como a maioria dos filhos únicos, ele odiava ficar sozinho.

As folhas das árvores não balançavam. Tselms tinha percebido isso a algum tempo e esse pensamento estava o deixando inquieto porque, pra variar, não fazia sentido. Ele sentia o vento frio e seco da região passando por ele, mais frio de seus joelhos para baixo. E não era um vento leve, ou uma brisa. Era o vento mediano e constante, típico da noite ali. Estava tão escuro que nem ele sabia bem como ainda conseguia andar sem sofrer algum acidente. Em determinados pontos ele usava a arma como uma espécie de bengala para sentir o caminho. Parara algumas vezes para descansar, mas não demorara muito porque sentia como se a floresta o cercasse a ponto de sufocá-lo. A fadiga estava cobrando seu preço, mas ele não queria parar. Na verdade, ele queria, mas sabia no íntimo de seu ser que não devia. Andava a passos lentos e inseguros, mas andava. Mesmo assim, estava respirando com dificuldade, suas pernas ameaçavam falhar a qualquer minuto e sua cabeça doía. Por quê? Nem ele sabia. Tinha certeza que não havia batido a cabeça em lugar nenhum. Talvez fosse só cansaço, ou o sono, ou o medo, ou tudo isso junto.

Ele não se considerava um homem ruim. Até achava que era um homem bom, temente à Deus e seguidor ferrenho da Santa Igreja Ortodoxa. Criava seus filhos no rigor de sua crença. Muitas vezes era tido como fraco e supersticioso pelos colegas revolucionários, mas era respeitado por sua lealdade e capacidade militar de cumprir ordens. Tinha medo da família imperial os achava infiéis e, como bom ortodoxo, tinha plenas convicções sobre o que governantes infiéis podiam fazer: atrair a ira divina. Como a maioria dos russos da época, não achava Nicolau uma má pessoa, mas alguém que se deixou levar pela maior arma do diabo: uma mulher. Seu casamento com Alice de Hesse e Reno, uma infiel alemã, fora seu pior erro, seu pacto com o diabo e nem mesmo a conversão dela à ortodoxia, assumindo o nome de Alexandra, apagaria isso. Para ele, só pioraria tudo. Ele acreditava que ela não se convertera verdadeiramente, que era apenas um truque diabólico para destruir a Rússia. A prova disso para ele foi o nascimento de quatro filhas mulheres consecutivas, quatro que nunca poderiam governar a Rússia que, por lei, não podia ser regida por mulheres desde Catarina A Grande. A maior prova de todas fora o nascimento de Alexei fraco que depois se descobrira ser doente. Aquilo era a prova final do descontentamento de Deus com os Romanov. Ele temia mais a segunda filha do casal, Tatiana. Uma mulher que tinha mais perfil de czar do que o próprio czar, uma verdadeira blasfêmia! Era sensata, firme em suas decisões, tinha um bom conhecimento de estratégias, era equilibrada, até chefiou o comitê da Cruz Vermelha na Primeira Guerra. Se continuasse naquele ritmo, Alexei morreria pela sua doença que era um castigo divino, Olga era fraca e emotiva demais para assumir o trono e, possivelmente, o czar e aquela mulher demoníaca dele poderiam ter a estúpida ideia de revogar a lei que proibia que mulheres governassem a Rússia. Se isso acontecesse o castigo divino seria implacável com certeza.

Crack!

- AAAAAAH! SANTO DEUS! – Tselms gritou com o susto. Devia ser só um animal selvagem andando pela floresta. Embora, estranhamente, durante toda a noite ele e seus companheiros não tivessem visto nenhum animal na floresta, só aquela movimentação sinistra nas árvores perto do acampamento e que ele podia jurar que era um demônio.

Crack!....Crack!...

- Que..quem está aí? – Ele perguntou trêmulo segurando a arma e apontando para todas as direções no escuro. O som parecia vir de trás dele, mas, o pânico o fazia apontar a arma para todos os lados.

Silêncio.

- Ermakov, seu filho de uma rameira com um lobo! É..é você, não é? Isso nã..não tem graça! – Ele disse ainda tremendo tanto que a arma balançava ridiculamente à frente.

Silêncio.

Crack!... Crack!.... Crack!....

Pareciam passos no chão repleto de galhos e neve rasa.

- Revele-se ou irei atirar! – Tselms disse com toda coragem que conseguiu reunir.

Crack!...Crack!...

- Bem. Eu avisei. – Ele disse e puxou o gatilho.

Click. Click. Click. A arma falhou todas as vezes para seu desespero total. Silêncio.

Crack, crack... O som de passos recomeçou lento. E então acelerou como uma corrida em direção à Tselms. CRACK! CRACK! CRACK! CRACK!

Você esperaria para ver o que vinha em sua direção? Não?

? Imagine Tselms então. O homem correu como o diabo da cruz, tão ágil que nem bala o pegaria, mesmo com seu corpo tão cansado. Incrível o que o medo e a vontade de sobreviver faz com o corpo humano. A adrenalina era alimentada pelo constante e ininterrupto “crack!” atrás dele. Galhos batiam em seu rosto e corpo deixando arranhões e até cortes em sua roupa grossa. Mas a verdade é que depois de correr por uns 15 minutos sem descanso seu corpo deu sinais de estafa. Seus pulmões queimavam como o inferno, sua garganta estava seca, seus lábios sangravam com os ferimentos provocados pelos galhos, sua cabeça latejava como se seu coração tivesse se mudado para dentro de seu crânio, suas pernas vacilavam. Num momento ele caiu de cara no chão com neve, pedras, galhos e fezes de algum animal. O “crack” dos passos pararam e, apesar da completa escuridão, ele viu duas bolas vermelhas como olhos o encarando, esperando ele se levantar. Com fezes ainda na cara e um medo selvagem com aquela visão ele se levantou e começou a correr de novo, o som de “crack” recomeçando também. Mais alguns metros e ele caiu de novo. Tentou se levantar mas seu joelho doía com a queda. Ele recomeçou a correr curvado e mancando, quase arrastando a perna direita, não ouvindo mais o som de “crack” atrás dele, mas com medo demais para parar e olhar para trás. Quando não aguentou ele parou se jogando no chão deitado de barriga para cima, ofegante, lutando por um pouco de ar. Só então ele então a dor no joelho que estava deslocado de forma grotesca, com a rótula na lateral externa da perna, ao invés de na frente. Aquilo doía como o inferno agora que a adrenalina da corrida estava passando. Ele se ergueu um pouco, quase sentando, para ver melhor o dano, forçando a visão naquela escuridão toda. Mas, assim que se ergueu um pouco algo soltou um ar gélido e fedorento em sua nuca. Forte como de um grande animal. Ele sentiu sua coluna gelar, pensou em sua arma e só então se tocou. Ela não estava com ele. Como a perdera? Era possível perdê-la? Ela estava presa ao seu corpo pela bandoleira e ele não tirara desde que ouvira o primeiro “crack”. Seus pensamentos foram interrompidos quando uma boca fedida abocanhou seus cabelos espessos e o arrastou a um ritmo nem lento, nem rápido, mas constante. O que quer que fosse, não parava por nada, não ligava para as dores lancinantes dele. Sua cabeça parecia ter milhões de bombas explodindo ao mesmo tempo. Seu joelho deslocado batia no chão conforme ele tentava se soltar, piorando a dor de uma forma enlouquecedora. O bicho rosnava como um cão demoníaco a cada vez que ele tentava se soltar em vão. Fechou os olhos para amenizar a dor e começou a implorar aos gritos para morrer de uma vez e para que Deus o perdoasse por isso.

E então o animal parou. Sentiu a baforada gélida e fedorenta do bicho na sua cara, mas não teve coragem de abrir os olhos, apenas começou a rezar o Pai Nosso de novo e aguardar pela morte.

- Você mata uma família inteira e seus leais servos, mas tem medo de um amável cachorrinho e acha que Deus terá pena de você? – A voz feminina firme fez Tselms ter mais medo ainda de abrir os olhos.

Não queria ver. Não queria abrir os olhos e comprovar o que sua audição lhe dizia. Não. Se não olhasse poderia fingir que ela não estava ali e ela iria embora. Claro. Era só ignorar. Era isso que ele ia fazer e nada nem ninguém no mundo o faria abrir os olhos. Não. Nem pensar.

- Abra os olhos, covarde! – Tatiana disse com autoridade, mesmo sem erguer a voz.

Tselms não sabia por que, se fora o medo de morrer de uma forma terrível, a autoridade na voz da mulher, mas abrira os olhos imediatamente. Estava, para sua surpresa, atrás da tenda usada por Yurovsky, no acampamento. A fogueira devia estar acessa ainda, embora estivesse do outro lado da tenda na parte fronta, mas o cheiro de carne assada indicava seu uso. Seus companheiros estariam ali? Teriam conseguido voltar para o acampamento em segurança e se preparavam para comer? Seria possível que a moça o tivesse levado até ali para salvar sua vida, o guiado à segurança do acampamento? Com uma onda de esperança, virou a cabeça para olhar na direção da voz que o chamara. Havia uma mulher vestida como se tivesse acabado de sair da cama com seu robe branco semelhante à um vestido simples, de costas para ele com um ferimento do tamanho de uma laranja atrás da cabeça, gosmento, mas não sangrando. Ela se virou de frente para ele sem mover os pés, como se tivesse rodas sob eles.

Santo Deus! Como ela é linda! É possível alguém ficar mais bonito depois de morto? Tselms se perguntou momentaneamente embasbacado com a beleza ainda maior da criatura fantasmagórica do que quando estava viva.

- Você deveria estar lá com eles, mas não achei justo. Você me parecia um bom homem antes de... De tudo acontecer naquela noite. Então, - Tatiana disse se aproximando lentamente de Tselms ainda daquele jeito como se tivesse rodas invisíveis sob seus pés – fiquei me perguntando... Por quê?

Ela estava bem perto de Tselms agora com aquele olhar firme, mas, estranhamente, sem nenhum traço de dor, raiva ou tristeza. Ela parecia não ter perdido nada daquela essência prática e equilibrada que sempre tivera em vida. Tselms não sabia se isso o acalmava ou lhe despertava aquela sensação de culpa que por um ano ele tentou fingir que não existia, sempre repetindo para si mesmo que o que fizera fora um mal necessário. Ela não precisava explicar, ele sabia bem o que ela estava lhe perguntando.

- Seus pais pecaram contra tudo que Deus nos ensina quando sua mãe se tornou imperatriz. Ela não era digna. E... E... E os filhos pagam os pecados dos pais. – Tselms disse inseguro entre a dor e aquele olhar firme, mas sem emoção que o encarava.

- E qual foi o pecado de minha mãe? Nascer em outro país? Ser criada sob uma doutrina diferente? Ou meu pai pecou por amá-la a ponto de enfrentar as rejeições iniciais à essa união? – Tatiana perguntou ainda com aquele semblante imperturbável. – Não. Eu entenderia melhor se você acusasse a falta de pulso firme de meu pai para o governo, sua incapacidade de tomar decisões por si próprio quando estas eram difíceis. Mas não é a isso que me refiro.

Ele a olhou confuso. Tentou se levantar, mas um peso inexplicável e invisível estava sobre seu peito tão firme que ele não conseguia nem mesmo respirar sem algum desconforto. – Eu...Eu não entendo... O que você quer de mim?

- Você participou de um extermínio que jamais será esquecido pela história e tornará minha família santos na igreja que você mesmo segue. – Tatiana disse, se agachando e ficando próxima ao rosto do homem. Tselms estremeceu levemente porque isso significava que ou ele havia errado enormemente em seu julgamento ou a família diabólica iludiria a própria igreja. – Mas, éramos a família imperial e, em caso de um golpe de Estado, eliminar os governantes e sua descendência para impedí-los de tomar o poder com a legitimidade do sangue é algo prático. Mas... Eliminar pessoas sem essa legitimidade de sangue? Pessoas de uma classe social que você e seu grupo pregavam estar defendendo? Servos cujo único crime, a seu ver, é claro, foi ser leal e servir seus senhores até no exílio... Porque eles? Porque não poupá-los do massacre? Bastaria não convocá-los para aquele...extermínio disfarçado de “pose para a foto”. – Ela terminou citando com um leve tom de ironia a desculpa usada pelos bolcheviques para tirar a família de suas camas e levá-los ao local onde dariam seu último suspiro... e gritos.  

- Eles... Nós pensamos... Eles não... Talvez... Talvez estivessem infectados e servissem aos propósitos obscuros do czar e... e... – Tselms de repente não tinha mais tanta convicção sobre suas crenças. Na verdade ele se surpreendera quando a porta se abriu para que atirassem na família e lá estavam os três servos e o médico. Ele achava que mataria apenas os próprios Romanovs, mas ele não era homem de contestar ordens. Se os superiores decidiram que aqueles servos tolos deviam ser mortos é porque os superiores sabiam o que era melhor para a Revolução e para Rússia. – Discutir as ordens não era minha responsabilidade...

- Ai é que você se engana. Você se esconde por trás dessa máscara de bom homem seguidor das leis de Deus, mas perfurou 23 vezes o corpo de uma pobre serva pelas costas, apenas porque você não quis discutir as ordens que lhe foram dadas.

Tselms imediatamente lembrou dos soldados da revolução que se recusaram a participar do massacre e, depois de alguns dias, pediram dispensa do exército revolucionário e partiram para algum outro país desconhecido. Sim, fora dada uma opção para os soldados. Ninguém participou daquele massacre forçado. Mas ele escolhera exterminar os Romanov, não seus servos. – Ela...ela não morria. Estava com aquele travesseiro cheio de diamantes na frente do corpo... Eu...Eu apunhalei a Anna, mas foi no calor do momento... Não pensei direito...

- Não pensou direito? Vinte e três facadas pelas costas em uma mulher implorando pela vida e você está me dizendo que foi no calor do momento? Ela só morreu na vigésima terceira facada porque você ‘não pensou direito’? – Tatiana levantou, com a graça de um cisne, balançando a cabeça negativamente. – É. Parece que nenhum de vocês tem salvação mesmo. Anna era não apenas uma serva para mim e minhas irmãs. Ela era nossa amiga. Imploramos para que ela partisse, mas ela não foi. Essa era uma de suas maiores qualidades: ela era leal. Ela me ouvia sempre que eu estava sobrecarregada... Às vezes ela era como uma segunda mãe para nós. Foi por isso que ela escolheu vir para o exílio conosco. – Nesse momento Tatiana parecia realmente furiosa.

Seu semblante calmo e contido deu lugar a um olhar feroz e um rosto avermelhado. Seus olhos azuis escureceram com visível ódio. Pedaços de pele se desprendiam de seus dedos e rosto com uma aparência de queimadura. Sob a gola fechada da camisola, uma mancha vermelha apareceu jorrando sangue profusamente. A poça de sangue aumentava de uma forma insana, começando a se parecer mais com um lago do que crescia mais e mais a cada segundo. Quando ela inclinou a cabeça bruscamente para o lado, Tselms sentiu seu corpo ser jogado na direção apontada por ela como alguém o agarrasse e jogasse lá, mas não sentiu nada tocá-lo, só seu corpo se movendo sozinho e voando, literalmente, até bater no tronco de uma árvore, de costas para Tatiana. Os gritos de Anna quando ele a prensou contra a parede e desferiu os golpes com a baioneta soaram ao seu redor como se ele estivesse de novo naquela situação. Mas não estava. Para seu desespero, percebeu que era ele quem gritava as mesmas palavras e com a mesma voz de Anna. Era involuntário, quase como se fosse um ventríloquo. Seu corpo estava grudado de frente na árvore, a alguns metros do chão como se alguma cola poderosa o segurasse ali, o rosto voltado para um lado.

- Um covarde vive como covarde, mata como covarde e deve morrer com golpes covardes. – Tatiana sussurrou no ouvido de Tselms e, sem avisou, uma baioneta o perfurou no braço direito. Depos outra atrás do joelho esquerdo. Outra em uma orelha, a arrancando. Outra no cotovelo. E mais outra, e mais outra, mas outra... Cada uma perfurando a pele de tal forma que chegava a fincar a ponta no tronco da árvore. Vinte e três perfurações depois, o que quer que segurasse o homem no tronco da árvore se desfez em menos de um segundo e ele caiu batendo em dois galhos no caminho. Já no chão, milagrosamente ainda vivo, ele ergueu levemente a cabeça apenas para ver um cachorro negro bonito, mas estranho de alguma forma, e, de cada lado do animal, Tatiana e Anna, a serva. Anna tinha tanta raiva em seus olhos que era assustador apenas olhar para ela. Mas, nesse momento, temia mais aquela aparente calma e serenidade de Tatiana. Foi quando ele pensou mais uma vez naquela noite que se salvaria. Ele já sofrera seu castigo e estava vivo, ferido gravemente, mas vivo e, quem sabe, seus amigos o tivessem escutado e o salvassem.

Anna olhou com algum traço de gratidão para Tatiana e, com um sorriso, olhou para Tselms apontando com uma mão para baixo. Ele então percebeu que estava encharcado, não de seu sangue, não de água, mas num verdadeiro lago de sangue que emanava da garganta perfurada de Tatiana suavemente. Como se seu corpo apenas esperasse essa percepção, ele afundou metros e metros. Não era possível aquele sangue ter tanta profundidade. Mas tinha. Era um sangue que fazia a pele arder como se queimasse sem fogo, fedia como se estivesse misturado à inúmeras imundícies do solo. Ele conseguiu emergir de volta por alguns instantes apenas para ver suas esperanças ruírem de vez. Tatiana com seu lago sangrento tinha saído de trás da tenda de Yurovsky e agora ele, carregado junto com o lago, pôde ver de onde vinha o cheiro de queimado. Três cadáveres quase totalmente queimados estava presos à três estacas com resquícios de chamas. Pior. Esses cadáveres se mexiam como se suas almas estivessem presas àquele tormento. Ele não sabia como tinha esse conhecimento, mas, talvez por estar tão perto da morte, soube de imediato quem eram aqueles três. Aqueles eram os cadáveres amaldiçoados de Nikulin, Kudrin e seu irmão Medvedev. Em total desespero e loucura, Tselms afundou no sangue de novo gritando um grito sufocado pelo sangue, em pânico demais para tentar qualquer coisa que o salvasse. O sangue penetrou em seus pulmões enquanto ele tentava gritar, aumentando seu desespero até que não sobrou mais nem esperança, nem sanidade, nem vida em seu corpo.  

 

 


Notas Finais


Uma nadadinha suave pra apreciar a vista de uma carninha frita.
:v


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...