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História A vingança dos Romanov - Capítulo 9


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Notas do Autor


Na foto em preto e branco, Botkin e sua família antes do divórcio; na foto digitalmente colorida, Eugene Botkin ainda na Rússia Czarista.

Curiosidades:
A carta de Botkin citada aqui é real. Foi encontrada pelos investigadores do Exército Branco, apoiador de Nicolau, ainda na Casa Ipatiev no mesmo lugar que seu autor deixara. Dois dos filhos de Botkin morreram em batalha algum tempo antes, durante a Primeira Guerra Mundial. Os outros dois que ele temia estarem mortos, morreram já velhinhos, décadas depois da morte do pai e décadas antes dos cadáveres Romanov, dos servos e de Botkin serem encontrados. Seu filho se tornou autor, ilustrador e foi o fundador de uma igreja neopagã chamada Igreja de Afrodite, em 1938.
A arma usada por Ermakov e citada aqui foi desenvolvida pelo armeiro belga Léon Nagant para o império russo, em 1895, sendo produzida até 1945, e foi amplamente usada principalmente na Rússia por décadas.

Capítulo 9 - Onde está sua lealdade?


Fanfic / Fanfiction A vingança dos Romanov - Capítulo 9 - Onde está sua lealdade?

16 de Julho de 1918, Rússia Czarista, quase meia-noite.

Em seu quarto simples, Eugene Botkin, amigo de Nicolau II e médico da família imperial, tinha, mais uma vez, dificuldades para dormir. Ele estava a dias angustiado, temia por sua família que estava em Tobolsk e tinha certeza, não sabendo bem como, de que sua família estava morta. Ele dedicara-se tanto à seu dever de médico e à amizade que tinha pela família imperial que seu casamento findara quando sua esposa tivera um caso com o tutor de seus filhos e pediu o divórcio que ele concedeu. Não seria agora, num momento de dificuldades, que deixaria seus amigos e seu dever de lado. Mas a saudade e essa certeza interna de que seus filhos estavam mortos, essa sensação constante de que sua vida também não duraria muito, tudo estava pesando sobre ele naqueles últimos dias. O próprio Nicolau tentara acalmá-lo dizendo que logo tudo aquilo seria resolvido e todos iriam para a Inglaterra sob a proteção do primo do ex-czar, o rei da Inglaterra. Nicolau era um tolo sonhador, ele tinha que admitir, mas não iria destruir as esperanças de seu amigo. Quando Nicolau praticamente implorou para que ele e os servos que ainda seguiam a família fossem embora, voltassem para seus familiares, ele recusou terminantemente. Ele era leal à seu amigo, seu dever com o país e como médico. Ele não seria covarde agora. Mas a noite é uma companheira cruel. Ela traz os piores medos à tona, as dores da alma se sobrepõem à razão. Religioso como era, Botkin rezou, mas isso não estava o acalmando. Aquela sensação ruim, o sentimento de algo muito ruim se aproximando, era quase sufocante. Então, pela quarta vez naquela semana, ele resolveu escrever uma carta. Não tinha para quem enviar e, mesmo se tivesse, duvidava que os bolcheviques entregariam, mas escrever o ajudava e desabafar, então ele sentou-se e começou a escrever:

 

Estou fazendo uma última tentativa de escrever uma carta verdadeira - pelo menos a partir daqui - ainda que esta qualificação, creio eu, é absolutamente supérflua. Não acho que eu poderia a qualquer momento escrever a qualquer pessoa de qualquer lugar. Meu confinamento voluntário aqui é restrito a menos por tempo do que pela minha existência terrena. Em essência, eu estou morto - morto para meus filhos - morto para o meu trabalho... Eu estou morto, mas ainda não enterrado, ou estou enterrado vivo - o que, nestas consequências são quase idênticos... Anteontem, quando eu estava lendo com calma... eu tive uma visão reduzida do meu filho, o rosto de Yuri, mas morto, na posição horizontal, com os olhos fechados. Ontem, durante a mesma leitura, de repente eu ouvi uma palavra que soou como Papulya. Eu quase explodi em soluços. Mais uma vez - isso não é uma alucinação porque a palavra foi pronunciada, a voz era semelhante, e eu não duvido nem por um instante que minha filha, que supostamente estaria em Tobolsk, estava falando comigo... Eu provavelmente nunca vou ouvir aquela voz tão querida ou sentir aquele toque tão caro com o qual meus filhos pequenos me mimaram... Se a fé sem obras é morta, logo as ações podem viver sem fé... Isto justifica minha última decisão... quando eu, sem hesitar, órfão de meus próprios filhos, a fim de realizar meu dever como médico até o fim, como Abraão não hesitou na procura de Deus para sacrificar seu único filho,...

 

Uma batida forte e imperiosa na porta o interrompeu. O médico levantou-se e abriu a porta, dando de cara com o comandante bolchevique Yakov

Yurovsky, chefe do comando da Casa Ipatiev onde se encontravam presos, e Ermakov, o homem de confiança de Yurovsky que fazia Botkin querer vomitar ao vê-lo. Ermakov, a seu ver, era o homem mais repugnante que já conhecera, com graves problemas de comportamento que facilmente seriam motivo para jogá-lo em um hospício. Ermakov olhava para as mulheres da família como se fossem uma rameira dos becos de São Petesburgo, e sabia que isso incomodava os servos e o médico. O médico, sempre tão calmo, a alguns dias perdera a paciência com as provocações de Ermakov e lhe dera um soco, resultando num corte no lábio inferior. O homem cuspira o sangue no sapato do médico e, para sua supresa, não revidou, apenas olhou para ele como um louco enquanto Yurovsky o puxava para conversar mais afastado.

- Boa noite. – Botkin disse educadamente, evitando dar atenção àquela sensação irracional de “é o fim” que gritava dentro dele.

- Doutor, boa noite. Chame os Romanov e os servos e mande-os se vestir. Há uma comoção e tiros em Ecaterimburgo e teremos que transferí-los para um local mais seguro. – Yurovsky ordenou.

Botkin assentiu, um gosto ruim na boca que ele não sabia de onde vinha. Yurovsky se virou e parou de repente, olhando de solsaio para o médico, como se quisesse dizer algo, mas apenas suspirou e saiu com Ermakov assoviando alegremente atrás.  Botkin acordou a família, os servos e seguiu Yurovsky, Ermakov e alguns guardas que os guiavam, como sempre, de forma brusca, sem nenhum respeito ou consideração. O médico permitiu que a família e os servos entrassem no quarto indicado, ficando por último com aquele gosto amargo na boca. Quando fez menção de entrar, Ermakov o parou com uma mão no tórax do médico, sorriu como um doente mental e sussurrou: - Minha boca vai curar, quero ver se você vai se curar.

Ermakov o empurrou para dentro do quarto e Botkin ficou ao lado da família. Horas depois seu cadáver era jogado em uma vala com ácido e cal em cima.

 

Floresta de Ipatiev, Ecaterimburgo, 1919.

- Ninguém mais se afasta! – Yurovsky estava impaciente já com tantos sumiços. – Se os brancos acham que vou facilitar pra eles, estão muito enganados.

- O que faremos com ele? – Voikov perguntou se referindo ao cadáver nojento e desfigurado de Vaganov que tinha deitado no chão um pouco mais distante.

- Vamos enterrá-lo. – Yurovsky disse. – Depois que sairmos daqui, avisaremos aos camaradas onde está o corpo para que possam desenterrar e levar para ser sepultado em um local mais adequado.

- Mas... – Ermakov não queria mais pegar naquele cadáver nojento e se sujar mais ainda com aquilo.

- O que? Prefere que o deixemos aqui para os animais devorarem nosso camarada? – Voikov perguntou mais querendo desafiar Ermakov do que realmente preocupado com o cadáver.

- Tudo bem, não se preocupe, Voikov, não vou deixar seu namoradinho sem túmulo. – Sinceramente Ermakov não estava nem ai para o que aconteceria com o cadáver. Já estava morto e inútil mesmo. O que importava? Mas achou melhor não ir contra o chefe quando Voikov obviamente estava tentando tomar seu lugar de novo.

- Seu filho da... – Voikov estava louco para bater em Ermakov pela insinuação sobre a relação dele com Vaganov, mas foi impedido por Yurovsky.

- Parem com essa besteira! Vamos! Procurem algo para cavar o solo e colocar nosso camarada. – Yurovsky ordenou já cansado daquela rixa interminável entre os dois homens. Então, percebendo que o que falara podia ser interpretado erroneamente, acrescentou enquanto os dois homens se afastavam um pouco em direções opostas: - Mas não vão longe! Não se afastem!

Eles tinham acabado de entrar na floresta, sumindo da vista por não mais que um segundo, e Yurovsky imediatamente ouviu o som dos galhos sendo quebrados sob passos que voltavam para onde ele estava. Mas só vinham de uma direção.

- Sim, senhor. – Voikov disse saindo rapidamente da floresta.

- Que diabos! – Yurovsky praguejou. – Ermakov, volte aqui! É uma ordem!

Mas ninguém respondeu. Ele não podia ter ido longe. Pelo amor de Deus o homem tinha sumido das vistas por um segundo! Voikov e Yurovsky gritaram chamando Ermakov que com certeza estaria ouvindo já que estava tão perto. Com certeza... Mas não estava.

 

~o~

Ermakov entrou na floresta para procurar alguma pedra idiota pontuda pra cavar a porcaria de uma cova que ele obviamente não se importava para alguém que ele não dava a mínima, não agora que não era mais útil. Quando achasse a pedra pontuda talvez ele acidentalmente usasse

para cortar um braço de Voikov, o direito, assim ele não poderia mais atirar e sairia de seu caminho. Ou, pelo menos para fazer ele sentir muita dor. Ermakov sorriu com o pensamento. Dera alguns passos em direção à floresta, perdido em seus doentios pensamentos, quando se lembrou do que Yurovsky disse sobre não se afastar, e voltou para a clareira.

Mas... Onde estavam todos? Yurovsvky e o idiota do Voikov não estavam mais lá. Nem o cadáver inútil não estava. Ridículo! Ele não tinha se afastado por tanto tempo! Deviam estar se escondendo atrás de alguma árvore para assustá-lo. Talvez até tivessem carregado o cadáver junto. Essa ideia patética devia ser de Voikov. Será que ele já estava convencendo seu chefe a esse ponto? Isso não seria bom para ele.

- Já entendi. Nada de ficar longe. Já podem parar com a brincadeira. – Ermakov disse planejando secretamente uma forma de prender Voikov na floresta, cortar tirinhas e mais tirinhas da pele dele como fizera com algumas de suas vítimas secretas para se divertir, e depois o deixar ali pra ser devorado por feras ou morto pelos brancos. Ninguém respondeu. – Vamos, camaradas, temos que enterrar Vaganov e nos preparar para enfrentar os brancos. Não temos tempo para brincadeiras tolas.

Ele sabia que não devia falar assim com seu superior, mas se Yurovsky estava se rebaixando ao ponto de fazer uma brincadeira idiota com aquele imbecil do Voikov, então talvez o homem precisasse de um choque de realidade ou, quem sabe, ele poderia matar Yurovsky também. Seria divertido ver o chefe implorando pela vida... ou para morrer logo, como muitas de suas vítimas fizeram no passado. Ele estava louco para sair logo daquela floresta e voltar para casa. Tinha deixado sua vítima mais recente em seu porão secreto, cheia de cortes, sem comida nem água, no meio da sujeira, dos ratos, sem a língua, com pouco agasalho porque ele estava se sentindo bondoso naquele dia, e quase cega pelos tapas que dera. Era um moleque de uns 15 anos que ele encontrara morando nas ruas e atraíra com a promessa de dar comida e abrigo numa madrugada particularmente fria. Quando voltasse tinha certeza que o garoto estaria quase morto e ele poderia relaxar terminando de matá-lo sem pressa. Depois bastaria desmembrar o corpo como uma caça abatida, colocar em embrulhos com pedras e jogar em qualquer rio, ou só enterrar a uma grande profundidade. Mas antes precisava encontrar os dois idiotas ali e dar um fim dos brancos. Por mais que Yurovsky achasse que eram muitos, ele tinha certeza que poderia acabar com todos facilmente porque ele era um guerreiro muito bom.

Ermakov chamou mais algumas vezes, perdendo a calma e a forma respeitosa de falar com o chefe gradativamente. Sua paciência estava no limite, ele já estava frustrado com aquela brincadeira idiota e, verdade seja dita, desde criança Ermakov nunca soube lidar muito bem com frustração. A raiva estava subindo à cabeça quando ele ergueu sua Nagant M1895, um revólver que sempre carregava desde que lutara na Primeira Guerra, e gritou para que Voikov e Yurovsky saíssem com as mãos para cima ou iria caçá-los e matá-los.

- Mataria seu chefe e seu companheiro de guerra a sangue frio? Onde está sua lealdade? – Uma voz grossa disse, vinda de trás.

Ermakov se virou rapidamente com a arma ainda em punho, pronto para atirar no inimigo que, tinha certeza, ser um soldado de Exército Branco. Mas, ao dar de cara com aquela figura, sentada numa pedra a dois metros de distância, ficou paralisado e confuso.

- Mas que inferno! – Ermakov disse entre a confusão e a raiva. – Botkin? Filho da mãe! Como você sobreviveu?

Botkin olhou pra ele imperturbável e repetiu a pergunta: - Onde está sua lealdade?

- Olha, doutor, - Ermakov cuspiu a palavra com ironia – não 

sei como você sobreviveu, lembro que dei dois tiros, um perto do seu saco e outro nas suas costas quando você virou tremendo de medo como um maricas. Depois Yurovsky atirou nesse testão que você... – Ele parou de falar quando um círculo escuro, um furo, que ele não tinha notado ainda. Embora não tivesse como não notar aquela coisa naquele testão.

- Onde está sua lealdade, Ermakov? – Botkin continuava imperturbável. Sua pele clara, mais clara que o normal para o fenótipo russo, parecia azulada. Estava sentado na pedra com as pernas lado a lado, como se estivesse numa cadeira, mas, em sua roupa verde escura, podia-se ver rasgos. Não, não rasgos. Eram mais parecidas com queimaduras, como se ele tivesse acabado de sair de um incêndio que destruíra sua roupa em pedaços circulares. Como se algo quente, algum líquido, talvez, tivesse sido jogado, respingado na roupa. Ermakov, vendo tudo isso, ainda acreditava, ou queria acreditar, que, de alguma forma o médico sobrevivera e estava ali agora tentando assustá-lo. Mas não seria tão fácil.

- Voikov, aquele traidor! Não sei como você saiu com vida daquela casa, mas tenho certeza que foi aquela cobra que descobriu que você estava vivo e tirou você do amontoado de cadáveres, não foi! – Ermakov ainda apontava a arma para o médico à sua frente. – Não importa! Yurovsky, aquele incompetente, pode não ter acertado sua cabeça direito, mas eu vou te matar!

Furioso, Ermakov apertou o gatilho. Descarregou os setes tiros da arma no médico, bem na testa, sem errar nenhum. Ele era bom com armas, isso era um fato incontestável. Os tiros passaram pela cabeça do médico, ainda sentado imperturbavelmente olhando para Ermakov sem nenhum traço de emoção, mas não causaram nenhum ferimento. Passaram pela cabeça do médico como se fosse feita de fumaça e acertaram a árvore atrás dele. Ermakov sentiu um arrepio, um alerta no mais profundo de seu ser avisando do perigo, mas ele ignorou. Não ia ficar com medo de um médico idiota que deviar estar eunuco e aleijado com o tiro que recebera dele a um ano. Além do mais, todo mundo sabia que Botkin era um fracote, metido a bonzinho, corno e que não conseguia comer nem carne porque ficava com frescura lembrando dos ferimentos da Primeira Guerra. Não era homem o suficiente pra enfrentar Ermakov.

Esse pensamento meio que enfraqueceu quando Botkin acenou para a direita com a cabeça e a arma na mão de Ermakov voou sozinha da mão dele até uma árvore a metros de distância, ficando presa com o cano encravado no tronco. Ermakov olhou estupefato para a arma cravada e sentiu um vento gelado que começou em suas canelas e subiu tomando o corpo todo em um segundo, e virou a cabeça de volta para frente. Deu de cara com Botkin de pé, a centímetros do rosto dele, o encarando com uma mão alisando a espessa barba, olhos escuros, cercados por pequenas queimaduras e um pó esbranquiçado: cal. Ele não respirava, Ermakov percebeu que o ar frio não saía das narinas ou da boca do médico, mas parecia emanar do corpo dele como um vento gelado antes da tempestade.

- Onde está sua lealdade? – A voz de Botkin dessa vez soou mais grossa e ecoou ao redor da clareira como se todas as pedras e árvores dessem força à suas palavras.

Havia uma fogueira na clareira, acessa há algum tempo por Yurovsky suficiente para não congelá-los e pequena para não atrair o inimigo. Ermakov estava a poucos centímetros dela, mas parecia que ela nem estava ali tamanho era o frio que seu corpo sentia.

A arma... Voou? Não. Impossível. Ela não voou. Como ele está de pé? Um tiro na testa... Os tiros que dei a um anos... Como ele está de pé? Ermakov se perguntava em silêncio, sem conseguir desviar o olhar que parecia preso aos olhos de Botkin. Não importava. Ele ia matar o médico na porrada se fosse preciso. Passou a socar o médico no rosto, no peito, mas os socos atravessavam o corpo do médico como se ele não fosse de carne e osso. Fantasma. Sua mente gritava, mas ele se recusava a aceitar. Fantasmas não existem. Ele 

repetia pra si mesmo enquanto socava cada vez mais furioso pelos golpes não funcionarem e pela calma imperturbável do médico. Quando a fúria de Ermakov tinha tomado conta dela completamente, ele socou de novo o peito de Botkin, na direção do coração, mas dessa vez sua mão não saiu. Ela ficou presa como se o corpo do médico de repente fosse sólido, como se fosse uma rocha gélida ao redor de seu braço direito, preso até quase a altura do cotovelo, dentro do corpo estranho do médico.

- Me solta, seu monstro! Seu cão dos infernos! Eu vou matar você! DESGRAÇADO! – Ermakov gritou, o ódio assumindo sua mente de tal forma que ele não pensava direito.

- Onde está sua lealdade? – Botkin perguntou, ainda imperturbável, com o braço do inimigo dentro de seu corpo.

- O QUE TE INTERESSA, IMBECIL?! Minha lealdade é a mim mesmo, e SÓ a mim! Não sou um imbecil lambedor de botas de ninguém! Você foi leal e olha pra você! Um bosta ferido! – Ermakov ainda não queria admitir que Botkin fosse um fantasma, mas se fosse mesmo, então ele daria um jeito de matar até a alma fantasmagórica dele.

Quando ele disse isso, ficou satisfeito ao ter provocado alguma reação no médico o tirando daquela calma imperturbável. Os olhos do médico ficaram ainda mais escuros, pupilas muito dilatadas, uma carranca de raiva e nojo se formou em sua face, o frio que ele emanava aumentou consideravelmente e o médico pareceu ficar mais alto, sinistramente mais alto.

- Você não tem lealdade nem à sua causa, e isso é deplorável. – Botkin disse e sua voz parecia um trovão retumbando na clareira e dentro da mente de Ermakov. – Eu havia diagnosticado isso a muito tempo... Você é um doente da mente, Ermakov. E deve ser tratado como os doentes são.

Enquanto Botkin cresceu alguns centímetros naquela figura sinistra, o braço de Ermakov continuava preso, sendo puxado para cima e erguendo Ermakov do chão que praguejava todos os palavrões que conseguia se lembrar. Um metro mais alto, Botkin tinha Ermakov pendurado a pouca distância do chão, até que os ossos do braço e da mão do bolchevique foram esmagados todos ao mesmo tempo dentro do corpo do médico, como se fosse prensado entre duas rochas gélidas. O braço mole e sem utilidade foi finalmente libertado fazendo Ermakov cair aos gritos no chão.

- EU VOU TE MATAR! SEU DESGRAÇADO! VOCÊ VAI MORRER! EU. VOU. TE. MATAAAAR! – Ele gritava babando, literalmente, de raiva e se sentando no chão, meio inclinado pra frente com dor.

Botkin sumiu no ar e então reapareceu atrás de Ermakov com a mão no pescoço dele e a outra segurando um graveto fino e pontudo. Se inclinou e falou no ouvido de Ermakov: - Você já me matou. Agora vou devolver o favor.

Num movimento rápido demais para os olhos humanos captarem, Botkin derrubou Ermakov de frente no chão. Ele uivou de dor com o golpe no braço dilacerado, xingando o médico. O doutor chutou as costelas do homem o virando de barriga para cima. Raizes brotaram do chão feito mágica e seguraram Ermakov firmemente em sua testa, pernas, braços e cintura com tanta força que podiam facilmente quebrar seus ossos. Podiam, mas não iriam. Botkin se aproximou da cabeça do homem no chão, se abaixou e disse numa voz carregada de ódio e sarcasmo, algo que nunca se ouvira naquela voz em vida: - A mais de vinte anos, um colega alemão fez uma descoberta interessante no trato de alguns cães ferozes. Uma pequena retirada de massa cerebral e os animais ficam mais calmos, menos propensos à violência e mais obedientes. Creio que o mesmo possa ser aplicado aos humanos, mas nunca pude testar. Até agora.

- Você não me assusta, seu merda! Essa conversa de doutor metido, seu comedor de livros, não vai te salvar quando eu sair daqui. Eu mato você mil vezes se for preciso! – Ermakov gritava e os galhos o apertavam ainda mais.

- Bem, bem... Vamos ver se minha teoria está certa. – Botkin começou a assoviar uma canção que Ermakov logo reconheceu como a mesma que ele próprio cantarolava quando ele e Yurovsky falaram com o médico na noite das mortes, minutos antes de acabar com aquelas vidas.

O médico usou o galho fino, e mais forte do que um galho normal seria, para enfiar sem cerimônia no canal lacrimal do olho de Ermakov que gritou mais ainda. Um grito de dor que beirava à loucura com certeza. Usando o punho da outra mão, o médico deu um golpe mais forte do que o necessário pra bater na outra extremidade do galho. A ponta dentro de Ermakov acertou seu cérebro e Botkin girou o objeto devagar, muito devagar, para destruir uma região do órgão. Em algum ponto Ermakov gritava coisas desconexas, babava muito e revirava os olhos de forma grotesca. Botkin, sempre assoviando aquela canção, puxou rapidamente o galhou que saiu sujo de sangue e o jogou longe. Com um sinal de Botkin, os galhos soltaram o homem e entraram no solo lentamente, sumindo sem deixar vestígios. Ermakov, por sua vez, continuava deitado, babando, olhos vidrados e sem nenhum sinal de racionalidade, balbuciando apenas uma sucessão de ”eeeee” sem sentido.

 - Não se preocupe, rapaz. Vou lhe dar o golpe de misericórdia que você não me deu. – Botkin disse virando de costas e, se Ermakov não estivesse tão surtado teria visto a o ferimento gigante, a mancha de sangue escuro nas costas do médico e na virilha. – Mas antes...


Notas Finais


Nossa senhora do próximo capítulo, o que virá a seguir?
A autora ne certa da cabeça não. Só tem fantasma sanguinário nessa história. Credo.

Pra quem lembrou de uma coisinha 'relax' chamada lobotomia, parabéns ta ;)


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