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História Abience - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


uma história curta para inaugurar meu não tão grandioso retorno.
senti falta de dizer isso:

decifra-me ou devoro-te.

Capítulo 1 - Um trote. Um herói.


 

abience

(n.) um forte impulso ou tendência de evitar algo ou alguém.

 

 

— Vocês podem correr, mas não podem se esconder!

Eu não conseguia me lembrar da última vez que uma frase me causara tanto medo. Quando o som da sirene preencheu o corredor e o bando de estudantes começou a correr, me espremi contra o conjunto de armários atrás de mim e comecei a rezar.

Aquele era meu terceiro dia na Universidade, e eu já não estava aguentando mais. Se as aulas eram difíceis, aguentar os veteranos e seus trotes malucos beirava o impossível.

Marchar de roupas íntimas na chuva me deu uma bela dor de garganta no primeiro dia. No segundo dia, acordei às quatro e meia com um balde de purpurina sendo jogado bem no meio da minha cara, o que rendeu boas risadas dos meus colegas de classe que não estavam cobertos de brilho ou tinta.

Alguns simplesmente tinham sorte e escapavam dos trotes. Já eu não tinha sido salvo de nenhum deles e me sentia um idiota por isso; eu ficava constantemente tossindo purpurina e desfilando por aí com uma mochila cor-de-rosa e moletom lilás, cortesia do trote do terceiro dia onde trocaram alguns de meus pertences por substitutos femininos. Eu sentia falta de ter meias normais ao invés de diferentes estilos de meia-calça guardados na gaveta.

Cada dia era uma surpresa diferente ao acordar. Naquele fim de tarde em específico, eu me sentia exausto só de pensar que, ao chegar no dormitório, teria que organizar e limpar meu quarto mais uma vez, já que antes de sair para as aulas da noite o lugar foi invadido e revirado até o último canto, e então forrado com centenas de bolinhas de ping-pong. 

Que tipo de trote era aquele?

Eu não aguentava mais aqueles caras. Não aguentava mais aqueles trotes.

Olhei ao meu redor quando a manada de calouros passou por mim e foi substituída pelos veteranos cruéis. Os mesmos malucos que invadiram meu quarto estavam ali. Eles corriam atrás dos novos estudantes com sorrisos sádicos no rosto, baldes de purpurina nas mãos e máscaras de Jason Voorhees. Eles não notaram que eu estava me escondendo nas sombras do corredor, disposto a atravessar a parede com o corpo para escapar da tortura.

No meio do caos, em um momento de burrice, tentei correr para longe e fui capturado. Senti uma mão me puxar de volta para o corredor com violência, e logo eu estava cercado por um grupo de veteranos.

— Veja se não temos uma bela moça bem aqui — disse o rapaz que me prendia contra o armário. Reconheci o rosto dele bem até demais. Tommy Muller, um dos chefes dos veteranos e o mais cruel estudante de Engenharia que eu já tinha visto em toda aquela Universidade. Tommy executava a maioria dos trotes, e nunca deixava calouro nenhum para trás, para a infelicidade das vítimas.

— Sai daqui, Muller — resmunguei, tentando me soltar do aperto.

Tommy riu, assim como os veteranos que acompanhavam a cena.

— Olha, como ele é corajoso — exclamou Tommy. Ele sorriu maliciosamente ao enfiar a mão em um dos bolsos de seu jaleco branco todo sujo de tinta vermelha. Ou talvez fosse sangue. Eu não sabia determinar qual era a substância que o cobria, pois tão de perto tudo o que eu conseguia sentir era o cheiro podre do hálito de Tommy. — Já que é tão corajoso, por que não participa do trote dos veterinários e aproveita o lanche deles?

Tommy balançou um pedaço de carne diante do meu rosto. Recuei automaticamente com o cheiro.

— O que é isso?

— Coração de coelho.

— Tem cheiro de morte — comentei, tentando me distanciar de Tommy, mas ele continuou em cima.

— Come — ordenou, e exatamente naquele momento eu soube que a coisa tinha ficado séria.

— Não vou comer, o trote é para os veterinários. — Virei o rosto.

— O trote é para calouros — corrigiu Tommy. — Se não participar, vai ter problemas.

— Não interessa, não vou comer essa coisa de coelho! — exclamei, começando a ficar irritado.

Tommy deu um pequeno sorriso. Olhou para seus veteranos comparsas.

— Deita ele no chão.

Comecei a me debater conforme era segurado e forçado ao chão. Os veteranos seguraram meus braços e pernas, e por mais que lutasse, não tinha força contra três caras maiores que eu. Virei a cabeça quando seguraram meu queixo. Tommy se abaixou, aproximando as mãos de mim.

— Aqui vai um pedaço fresquinho de coelho cru...

Balancei a cabeça, mas sabia que não escaparia. Quando a mão de Tommy começou a me obrigar a abrir a boca, fechei os olhos e rezei para que uma força maior me salvasse daquilo.

— Muller, já chega. 

A voz masculina, profundamente grave e alta foi o suficiente para parar Tommy. Abri os olhos e vi os veteranos se virarem. Me debati e me estiquei, mas não consegui me libertar o suficiente para ver o dono daquela voz. A voz da força superior que tinha me salvado. 

— Olha só, se não é o doutor Chanyeol — disse Tommy, meio rindo e meio irritado.

Uma mão foi estendida na minha direção. Eu aceitei, e rapidamente fui puxado para trás de um corpo grande. Na minha frente, vi uma nuca coberta pela gola de uma camiseta branca e cabelos loiros, mas não conseguia ver o rosto. Ainda assim, apoiei as mãos nas costas do desconhecido e escondi parte do rosto, ficando com apenas os olhos de fora.

Eu não conhecia Chanyeol, mas estava ele estava me defendendo e parou entre mim e Tommy de maneira protetora. Eu não queria nem saber se ia parecer esquisito me escondendo atrás dele e tocando-o. Eu preferia ter certeza de que continuaria ali, protegido.

— Suas brincadeiras já foram melhores, Tommy. Fígado cru de coelho? — Chanyeol balançou a cabeça. — Por que você não cresce?

— Quarto ano de Medicina e já se acha um deus — resmungou Tommy, a expressão irritada. Chanyeol cruzou os braços.

— Esse aqui fica sob minha proteção — disse ele, me puxando pelo pulso para que ficássemos lado a lado na frente de Tommy e os veteranos. — Sem mais trotes para os alunos de Jornalismo.

— Você que sabe. — Tommy deu de ombros e começou a se afastar, seguindo pelo corredor deserto. — Cuidado com o Gancho.

Quando Tommy e os outros foram embora, fiquei sozinho com Chanyeol no corredor. Todos os outros alunos tinham saído, e nem mesmo os professores estavam por perto. Até os responsáveis pela Universidade tinham ido assistir aos trotes no ginásio. Algumas folhas soltas de cadernos voavam pelo chão sujo de tinta do corredor. Comecei a tremer com o vento gelado.

Chanyeol se virou na minha direção, me fazendo tremer outra vez, mas dessa vez de surpresa com a beleza dele. Chanyeol tinha grandes olhos grandes e escuros, quase pretos. A linha do maxilar era bem marcada, nariz e boca como de porcelana. Imediatamente imaginei que aquela era a beleza que os escultores da antiguidade tentavam reproduzir ao esculpir anjos. Com os cabelos loiros puxados para trás em uma espécie de topete e um sorriso que apesar de contido era perfeito, Chanyeol parecia um anjo.

Ele era o típico príncipe encantado, como se tivesse saído de um livro de romance ou saltado do céu. Talvez escondesse nas costas asas tão brancas quanto o jaleco que usava.

— Você está bem? — perguntou Chanyeol, se aproximando. Assenti rapidamente.

— Melhor impossível. — Tossi levemente. — Você...

— Quem fica no corredor perde a cabeça — gritou uma voz ao longe, interrompendo até meu raciocínio.

— Merda. — Chanyeol xingou baixinho.

Ele me pegou pelo pulso e me arrastou até a sala mais próxima, bem na nossa frente. Chanyeol fechou a porta no mesmo instante em que o corredor se encheu de vozes.

— Procurem nas salas, peguem todos os calouros, veteranos, não importa quem. — Era a voz de Matthew Kim, o Gancho. Senti um arrepio horrível subir pela espinha.

Eu só cheguei perto daquele cara no primeiro dia de aula, quando ele deu as boas-vindas aos novos alunos e abriu a temporada de trotes. Matthew tinha um toque naturalmente malicioso nos olhos azuis e abria um sorriso sádico sempre que olhava para os mais novos. Ele era o próprio Jigsaw da vida real, planejando e executando jogos mortais para os estudantes.

Senti Chanyeol tremer ao ouvir a voz de Matthew se infiltrando pela fresta da porta fechada e enchendo o ambiente, uma gota de maldade de cada vez. Nós estávamos encostados nos armários de livros no fundo da sala de Literatura. Não tinha nenhum espaço naquela sala onde pudéssemos nos esconder de verdade, nada além de cadeiras desorganizadas, a mesa do professor e armários embutidos.

Chanyeol deu um jeito de me esconder usando o próprio corpo, praticamente me esmagando naquele canto. Apoiei as mãos nas costas dele novamente, apertando o tecido do jaleco para me assegurar que ele não ia sair correndo do nada e talvez me entregar para os veteranos para salvar a própria pele.

Me abaixei um pouco para esconder o rosto abaixo do ombro dele. Eu não estava muito bem encoberto, mas ao menos nós estávamos o mais longe possível da porta, ainda que encostados na parede onde ela se encontrava. 

— Se ele descobre que você escapou do coelho... — murmurou Chanyeol.

— Eles iam mesmo me fazer comer coração de coelho? — perguntei baixinho.

— Fígado de coelho — corrigiu Chanyeol.

— Mas ele disse...

— Ele queria te assustar, eles fazem isso com todo mundo.

Mais gritos de Matthew. Chanyeol se encolheu. Pelo jeito não eram só os calouros que tinham medo do Gancho.

— Você não tem medo de Tommy Muller mas tem medo do Matthew Kim? — sussurrei perto do ouvido de Chanyeol, encostando um dedo na nuca dele.

— Tommy Muller é um merda — respondeu Chanyeol, sem desviar a atenção da porta. Suspirei alto.

— Um merda que pode te dar uma surra é um pouco assustador, você não acha?

Chanyeol virou o rosto e me encarou, se inclinando na minha direção.

— Poucas coisas me assustam nessa vida. — disse ele.

— Por exemplo?

— Não conseguir meu diploma, escuro, palhaços, lugares apertados, pontas duplas...

— Tem bastante coisa que te assusta — interrompi com um sorrisinho, encarando a porta enquanto ouvia as vozes abafadas e as pancadas que os veteranos davam nas portas das outras salas.

—... e Matthew Kim — concluiu Chanyeol. — Matthew me dá medo.

— Ele tem muitas pontas duplas.

— É meu ex — murmurou Chanyeol, os olhos também presos na porta.

— Que droga — comentei. As vozes lá fora estavam ficando mais próximas.

— Já faz um ano que terminamos e parece que não consigo largar mão das lembranças — disse Chanyeol.

— Imagine ele vestido de palhaço em uma caixa escura e apertada — sugeri. Chanyeol me encarou de um jeito estranho, e eu devolvi o olhar.

No instante seguinte, a porta foi aberta com um estrondo e um veterano entrou. Eu não o conhecia, mas Chanyeol sim, já que se atirou para frente como se estivesse vendo um super-herói.

— Que porra é essa... — começou o veterano.

— Kai! — Chanyeol meio gritou e meio sussurrou, se aproximando do rapaz; ele estava segurando um balde e vestia uma camiseta com os escritos "Biomedicina é..." e o desenho de uma banana. Os olhos eram de um tom marrom escuro, mais escuro que a pele bronzeada, e o sorriso dele era branco e imenso.

— Kai, libera a gente por favor, eu faço o que você quiser. — Chanyeol parecia mesmo desesperado. Continuei meio escondido atrás dele.

Kai olhou em volta, para o corredor atrás de si. Pensou por alguns instantes e pareceu se decidir.

— Só dessa vez eu vou deixar — disse ele, e eu senti o alívio de Chanyeol com aquelas palavras quando ele afrouxou o aperto em meu pulso. Kai continuou aos sussurros. — Fiquem aqui até descermos, depois se escondam nos dormitórios e não apareçam no ginásio de jeito nenhum. — Ele apontou para mim. — Se ele não é de veterinária não vão sentir falta, mas não deixe que vejam vocês.

— Obrigado, Kai — disse Chanyeol.

— Me deve uma cerveja. Tem que ser Victoria Bitter. — Kai se virou para sair, mas hesitou logo na porta. — E ei, Chanyeol!

Kai tomou impulso e jogou o conteúdo do balde que segurava na nossa direção, mas antes que chegasse em mim, Chanyeol se virou e deu um passo, recebendo a chuva de purpurina direto nas costas. Aquilo evitou que eu a recebesse bem na cara.

Nós abrimos os olhos ao mesmo tempo que Kai fechou a porta e saiu para o corredor, berrando aos outros para descerem porque não havia mais ninguém nas salas.

Fiquei paralisado, na mesma posição que estava quando Kai jogou a purpurina. Minhas mãos estavam agarradas na parte da frente do jaleco de Chanyeol. Rapidamente as tirei dali e recuei um passo.

— Você me salvou três vezes em menos de cinco minutos. — Eu estava sorrindo. Chanyeol sorriu de volta, batendo as mãos nas roupas e no cabelo para se livrar do brilho.

Esperamos na sala por alguns minutos, vigiando a porta em silêncio até o corredor ficar completamente vazio. Depois saímos correndo a toda velocidade para fora do prédio e para o outro lado do campus.

— Você começou o quarto ano agora? — perguntei para Chanyeol enquanto andávamos lado a lado. Ele assentiu.

— Logo, logo fico careca. — Chanyeol tocou os fios loiros, ajeitando-os. Fiquei hipnotizado com os movimentos de seus dedos longos por um instante. Tive que balançar a cabeça para me livrar do encanto. 

— O que você vai querer quando terminar? — perguntei. — Vai se especializar em...?

— Pediatria, eu amo crianças — disse Chanyeol com um sorriso bobo. Já o sorriso bobo que eu estava quase abrindo desbotou na hora.

— Por favor, me diz que não é verdade.

Chanyeol começou a rir alto.

— É claro que não. Eu não sei o que quero ainda, sou apaixonado por tudo. — Os olhos de Chanyeol quase brilharam ao tocar no assunto. Ele olhou para mim. — E você? Está fazendo Jornalismo, não é?

— Isso aí — respondi. Chanyeol ergueu as sobrancelhas.

— Você tem dezoito?

— Vinte. Fiz curso por dois anos.

— Sua alma já está sendo sugada desde antes da faculdade — comentou Chanyeol. Dei de ombros.

— Eu posso até não ter alma, mas pelo menos não tenho pontas duplas.

A risada de Chanyeol preencheu toda a entrada do dormitório C.

Aquele já era um lugar vazio por natureza, visto que a maior parte dos alunos preferia as populosas e populares fraternidades. Com todos no ginásio, o dormitório estava realmente deserto. Puxei meu cartão do bolso e coloquei na frente do sensor do elevador preguiçosamente. Olhei para trás esperando ver Chanyeol, mas ele estava longe, parado no meio do saguão.

— Não vai subir? — perguntei, segurando as portas do elevador com um pé. Chanyeol balançou a cabeça.

— Meu quarto fica no outro prédio. Dormitório A. — Ele se curvou respeitosamente. — Foi um prazer conhecer você, estranho que nunca revelou o nome.

— Achei que você ia gostar do meu quarto — Me escorei na parede. — Está uma zona e lotado de bolinhas de ping-pong. Talvez você possa me ajudar a arrumar...?

Chanyeol riu.

— Como posso ir até seu quarto se nem seu nome eu sei?

Eu sorri, contagiado por Chanyeol.

— Meu nome é Baekhyun — disse arrastado, entrando no elevador e me virando para ele. — Vamos. Você nem pode ir até seu quarto mesmo, porque alguém pode te ver no caminho. Lembra do que o Kai disse. Melhor ficar seguro lá no trezentos e quatro, onde a única ameaça sou eu ou a bagunça.

Chanyeol estreitou os olhos, pensando. Tirei o pé da porta do elevador.

— Última chance antes de fechar.

Chanyeol bufou baixinho.

— Vou de escada.

Eu só consegui gargalhar enquanto as portas se fechavam e o elevador começava a subir.

Cheguei ao terceiro andar quase que ao mesmo tempo que Chanyeol, e não sei como ele conseguiu ser tão rápido indo pelas escadas. Caminhamos pelo corredor até a porta 304. Usei o outro lado do meu cartão para abrir o quarto, a madeira empurrando algumas bolinhas para longe ao se abrir.

— Jesus, Maria e José... — murmurou Chanyeol, parando na porta. Entrei no quarto e o puxei pelo braço, fechando a porta logo depois. Acendi a luz para revelar a extensão dos estragos.

O chão estava forrado com bolinhas de ping-pong, dezenas delas. A cama tinha sido arrastada para o meio do quarto, junto com a minha cômoda. Minha mesinha estava empilhada com as caixas de livros, e o colchão descansava perto da janela.

— Pelo menos foram só bolinhas de ping-pong. No meu primeiro ano, encheram o quarto com balões flutuantes cheios de farinha e estouraram todos em cima de mim. — Chanyeol entrou no quarto, tirando o jaleco que ainda soltava purpurina. Aproveitei a oportunidade para dar uma checada nele.

Chanyeol tinha um corpo bonito. Ele estava usando uma blusa de mangas compridas e um jeans, tudo branco. Quando se abaixou para jogar o jaleco no canto perto da porta, vi a pontinha da cueca dele. Branca.

— Você leva essa coisa de doutor a sério mesmo, não é? — Eu falei enquanto dava risada. Chanyeol franziu as sobrancelhas e eu apenas balancei a mão, desconsiderando. Tirei os sapatos e o moletom que vestia e joguei em um canto. — Esquece. Vamos arrumar.

Juntos, nós desempilhamos as coisas e colocamos a cômoda de volta no lugar. Liberei uma das caixas cheia de livros e usei para recolher as bolinhas de ping-pong enquanto Chanyeol colocava o colchão de volta na cama e a arrastava até o lugar que indiquei. A mesinha voltou para o lugar certo, e as caixas de livros foram jogadas no canto de sempre.

Demoramos mais de meia hora para organizar tudo e pegar todas as bolinhas do chão, mas no fim o quarto estava limpo e arrumado como se os veteranos nunca tivessem entrado ali. Era tudo bem do jeito que eu gostava, espaçoso e minimalista, sem decorações, e provavelmente muito diferente do estilo do Chanyeol, já que ele me questionou o tempo todo sobre o motivo de não personalizar o espaço.

— Aposto que seu quarto na sua casa não é chato igual esse — insistiu ele, sentando na beirada da cama quando a arrumação estava terminada. Estiquei as pernas de forma que meus pés ficassem no colo de Chanyeol. Ele não reclamou, então ficamos assim mesmo.

— Na minha casa, meu quarto é cheio das tralhas da minha irmã. Você tem irmãos? — Joguei a pergunta de maneira brusca em cima de Chanyeol, que assentiu timidamente.

— Tenho um irmão.

— Então sabe do que estou falando. — Tirei os pés do colo de Chanyeol e sentei ao lado dele na ponta da cama. — E então? Vai me contar em qual parte da sua história Matthew Kim entra?

A pergunta pareceu desconcertar Chanyeol. O ar ficou pesado e o rosto dele adquiriu a expressão que provavelmente usaria em alguns anos para contar aos pacientes que eles estão prestes a morrer. Era sério, frio, quase entorpecido.

— O que você quer saber? Por que quer saber disso? — Chanyeol se levantou e andou pelo quarto. Realmente, o assunto não parecia ser o mais agradável para ele.

— Eu só lembrei que você disse que estavam separados há um ano, só isso. — Tentei consertar, me ajeitando na cama. — Se não quiser falar disso...

— Não, tudo bem, não importa. — Mas Chanyeol continuou de pé, então talvez importasse sim. Ou talvez ele apenas quisesse ficar mais afastado de mim. Ele cruzou os braços e suspirou antes de falar. — Quando eu cheguei aqui, passei o primeiro ano como calouro apanhando feito um cão dos veteranos com os trotes. O Matthew ainda não comandava, porque ele estava no segundo ano de Engenharia. Ele só era um dos veteranos malvados, e ele era cruel, especialmente cruel comigo. Mas também quando estávamos na frente dos outros... Por algum motivo, ele sempre me livrava dos trotes.

Eu me encolhi como uma bola na cama, tentando dar espaço para Chanyeol voltar a sentar. Ele ocupou a ponta mais distante do colchão.

— No meu segundo ano comecei a ajudar com os trotes — continuou Chanyeol. — Eu não sabia por que fazia, talvez fosse a raiva de ter passado por tudo aquilo no primeiro ano. Mas a raiva não diminui quando você tortura outros calouros, então eu parei de ajudar. Naquela época eu já estava ficando com o Matthew. Ele estava cada vez mais dentro dessa coisa de veterano. Nós começamos a namorar, e ficamos juntos por um ano e meio. No final do segundo ano...

Chanyeol parou de repente. Parecia engasgado, sem ar. Abracei os joelhos com mais força, torcendo para que ele terminasse, e que sobrevivesse ao fim da história.

— Bom, no final do segundo ano eu percebi que ele era um babaca. Terminamos, já faz mais de um ano, e eu ainda lembro do relacionamento. É isso. — Aquele era um resumo muito mal contado, e que não combinava com o começo detalhado. Eu pude perceber pela cara de Chanyeol que ele estava escondendo algo, mas não queria pressioná-lo e acabar fazendo ele chorar, ou reviver coisas ruins. Eu estudava Jornalismo e era um tonto qualquer, não saberia consertar algum estrago que fizesse a alguém.

— Bom, tudo bem, é uma história bem ruim — comentei, já pensando em como ia mudar de assunto. — Não acredito que você já foi um veterano malvado. Aposto que fez garotinhas chorarem quando as obrigou a comer coração de coelho.

— É fígado de coelho — corrigiu Chanyeol, parecendo mais relaxado. Ele não se sentou, mas sorriu. — E qual é a sua, hein? Me fez confessar meus pecados e eu mal te conheço.

— É o milagre da persuasão. — E da insistência, completei em pensamento. Limpei a garganta para começar a falar, mas vozes no corredor me interromperam. Os alunos estavam voltando.

 — Acho que já posso ir agora. — Chanyeol foi até o canto do quarto e pegou o jaleco do chão. Ele se virou para mim, mas não disse nada. Acenou brevemente. —Boa noite.

— As aulas foram mesmo canceladas por causa do coração de coelho?

— O trote do fígado de coelho é uma tradição importante — disse Chanyeol, abrindo a porta. — E geralmente faz os alunos vomitarem. Por isso cancelam as aulas.

— É, faz sentido. Boa noite então, Chanyeol. Foi um prazer ser salvo por você hoje. — Acenei de volta, e Chanyeol sorriu ao deixar o quarto.

Não me lembro bem o que fiz depois daquilo, mas sei que naquela noite sonhei com médicos que escondiam asas nas costas, tinham olhos castanhos e sorrisos brilhantes.

 


Notas Finais


o próximo capítulo será postado na sexta :)


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