História Accursed - Interativa - Capítulo 14


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Bishoujo, Bishounen, Comédia, Crossover, Drabble, Drabs, Drama (Tragédia), Droubble, Ecchi, Esporte, Famí­lia, Fantasia, FemmeSlash, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Fluffy, Harem, Hentai, Lemon, Lírica, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Orange, Poesias, Policial, Romance e Novela, Saga, Sci-Fi, Seinen, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Shoujo-Ai, Shounen, Slash, Sobrenatural, Steampunk, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Intersexualidade (G!P), Linguagem Imprópria, Mutilação, Necrofilia, Nudez, Pansexualidade, Sadomasoquismo, Self Inserction, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


A capa do capítulo é a última cena :)

Capítulo 14 - Ato 14 - Responsabilidades


Fanfic / Fanfiction Accursed - Interativa - Capítulo 14 - Ato 14 - Responsabilidades

Roheisia

Fora uma correria quando o lorde veio trotando com seu cavalo pelos portões. Lars Wolfhowl, junto de mais dois mil homens e mulheres se estabeleceu no Alantar. Parecia sério naquele momento, e deveria estar. Tinha um irmão cativo ou possivelmente morto, um povo para proteger e uma guerra para vencer. A sensação de ter de carregar todo esse peso nas costas sem ao menos ter pedido por isso parecia horrível para Roheisia. Pensava o mesmo de Archon, principalmente dele. É só uma criança... deuses, pensou. Dizia a si mesma que não saberia o que fazer naquela situação, e admirava os irmãos por não desistirem. O próximo passo era resgatar John.

Por todos os lugares do pátio havia tendas montadas para os soldados, era quase impossível passar por ali sem pisar nas botas de alguém. Ressoava pelo lado exterior do castelo o barulho da forja. Quando não estavam afiando suas espadas, bebiam e comiam. Os soldados pareciam determinados para ir atrás de John Wolfhowl, o que era um bom sinal. Se estivessem suficientemente determinados, resgatariam o lorde e venceriam a batalha, tinha fé nisso.

Lars sentou-se no Trono Negro de Alantar como se para relaxar, mas grunhiu ao sentir o quão duro era o assento. Carregava numa das mãos nuas uma perna de ave assada, e na outra um corno cheio de cerveja preta. Desferiu uma mordida feroz contra a ave, e ela sangrou gordura em seus lábios. Lars bebeu a cerveja e limpou a gordura que escorria do canto da boca com as costas da mão que segurava o corno. Mal terminara de engolir quando olhou para a loira e disse:

— Disseram-me que foi um belo de — lambeu os lábios —, o belo de um assalto o que fez aqui, Lady Auphrey — disse antes de morder a ave mais uma vez e arrancar um pequeno pedaço.

— Sim, milorde. Saímo-nos bem na nossa investida. Lorde Archon nos ajudou no meio da batalha, abriu os portões do castelo e os homens que estavam aqui dentro ergueram suas espadas para nos ajudar. Os pegamos dos dois lados — ela sorriu com o orgulho expressado no rosto junto de um sorriso, lembrando-se de como ela e o menino haviam pensado juntos.

— Ah, é — tomou um trago de cerveja. — Também me contaram sobre a ajuda do meu irmão, então é verdade. Por sinal, onde ele está? — olhou para o resto do salão com olhos arregalados. — Não veio me ver desde que cheguei aqui. Esperava encontrá-lo sentado bem aqui, neste trono, mas tudo que encontrei foi você guardando este assento vazio.

— Lorde Archon repousa em seus aposentos, milorde — Roheisia explicou, com o sorriso sumindo aos poucos.

— Repousa? De quê? — Lars deu uma mordida e pegou um pedaço gordo da ave melando os lábios com mais gordura, mas rapidamente os lavou com cerveja indo para dentro da boca.

— Feriu-se em batalha, porém são ferimentos leves e tratáveis, eu mesmo cuidei pessoalmente de alguns. Ele está bem, mas prefere ficar sozinho por hora. Pediu para não ser incomodado — em parte era verdade, mas sabia que o verdadeiro motivo para Archon estar trancafiado em seus aposentos era por causa da preocupação com John e de sua falha para com a família. Não o via chorar daquela forma com frequência, da forma como chorou pela garotinha.

— Ele lutou? — Lars gargalhou alto, com a boca cheia de ave destroçada. Tomou o último gole de cerveja de seu corno e voltou a olhar para Roheisia, passou a língua nos dentes superiores para limpá-los. — Que rapazinho ousado. Chame-o aqui. Exijo que ele venha até mim.

— Mas Lorde Archon não quer ser in...

— Não lhe fiz um pedido, Lady Auphrey. Quero ver meu irmão, saber o que aconteceu aqui, saber por que não encontrei Sor Scott Calfhead onde deveria estar. Numa prisão, e não morto — Roheisia abriu a boca para dizer algo, mas Lars continuou falando. — Não será você a me responder isso, milady. Traga meu irmão aqui.

— S-Sim... milorde. Como quiser. — fez meia reverência.

Em passos apressados e postura ereta atravessou os corredores que a levariam até os aposentos do menino. Encostou a orelha na porta, mas não ouviu um ruído vindo do outro lado. Roheisia bateu quatro vezes na espessa porta de madeira, mas ninguém respondeu. Ela adentrou os aposentos.

Archon estava de pé, nu e de costas para ela. Olhava para a janela aberta. Junto a um grande tapete havia uma banheira de água quente, e os rastros levavam para onde Archon estava. Se ele havia a notado, decidiu ignorá-la. Não esperava que o encontraria saindo de um banho matinal. Roheisia ruborizou e respirou fundo, com a porta entreaberta. Archon virou para ela, movendo apenas a cabeça e o pescoço. Algumas gotas de água caíram de seus cabelos para seus ombros e costas.

— Hum? — ele murmurou. — Ah, bom dia Auphrey — a cumprimentou de um modo assustadoramente calmo. Não compreendia como que Archon ficava tão calmo diante deste tipo de situação.

— V-Você! — atrapalhou-se. Ela entrou e fechou a porta num estrondo, com medo de que alguém os visse. Roheisia correu até a janela e a fechou, evitando que o vento gelado adoecesse o menino. — Você vai ficar doente, é melhor fechar isso — ainda desconcertada, ela sorriu.

— Que comportamento é esse? — pergunto a mesma coisa para ti, ela pensou. Roheisia agarrou uma longa toalha branca e voltou a olhar para o garoto. Agora, de frente para ela, ele estava exposto. Ao contrário dela, Archon não tivera a vergonha de corar.

— Tome — ela gentilmente arremessou a toalha no menino. — Lorde Lars lhe convoca perante o trono, milorde.

— Sim, é claro — ele olhou para a janela. — Irei vê-lo.

Roheisia pegou um gibão roxo para Archon e dois calções de lã negra. Sem sentir vergonha alguma, o menino vestiu-se na frente dela, como se fosse algo habitual. Roheisia teve uma boa visão de todo o seu corpo juvenil e pouco malhado. O garoto era branco como leite, com exceção das marcas vermelhas que ganhara recentemente durante a batalha. Ela estava junto da porta, de cabeça baixa, ainda pensando no que viu.

— Você viu? — Archon perguntou. Estava de pé, no meio do quarto. Olhou para ela e depois para a janela.

— O-O quê? — sentiu um arrepio, temendo que ela pudesse tê-lo olhado demais.

— O corvo. Havia um corvo aqui quando você entrou — ele olhou para a janela fechada com intensa curiosidade.

— Corvo? Essa área não tem corvos que não sejam os mensageiros — o castelo estava praticamente no mar, e aquela não era uma boa área para corvos ficarem voando e fazendo ninhos.

— Sim. Havia um corvo empoleirado na janela, ele ficou me encarando enquanto eu esfregava o suor do corpo. Eu ia tocá-lo quando você entrou pela porta — e então voltou a olhá-la.

— Perdoe-me, senhor. Eu não sabia — entrelaçou os dedos na altura da cintura e fez meia-reverência, envergonhada.

— Não, não... está tudo bem. Parecia ser só um corvo comum. Acha que foram os corpos que o atraiu? — moveu-se lentamente até a porta.

— Provavelmente. Faria sentido. Geralmente são carniceiros os que ficam voando sobre o campo de batalha e, bom... como o senhor bem sabe, há muito sangue e muitos corpos para serem recolhidos lá fora.

— Tens razão. Era só um corvo — abriu a porta de madeira, esperando que ela passasse. — Vamos, Lars deve estar tão apressado quanto eu para marchar até a Manopla e descobrir o que aconteceu com John.

O ressoar das botas de couro no mármore e na pedra ressoavam pelos corredores, depois, metal e pano dos soldados. A cota de malha também não passava despercebida. Roheisia fez a guarda de Archon até onde estava o irmão mais velho, e durante todo o percurso, de rosto sério, o garoto não proferiu uma palavra sequer, e ela não ousou interromper o seu silêncio.

— Olha só quem resolveu aparecer, o nosso Pequeno Conquistador — Lorde Lars falou de cima do trono, alto o suficiente para que o salão todo escutasse, antes de enfiar duas uvas frescas na boca.

— Acho que não gosto desse apelido — Archon resmungou, olhando para os sores e cavaleiros que acompanhavam Lorde Lars, todos posicionados e de espadas embainhadas. Eram cerca de vinte.

— Cabe bem a ti. Veja só, é baixo, mais que Lady Auphrey que é mulher, e tem pouca idade, mal pode se dizer um homem-feito, irmão. É pequeno — deslizou para os lábios sorridentes uma uva semiaberta e chupou-a de dentro da casca.

— Conquistador, e apenas Conquistador me caberia melhor. Posso ser pequeno, mas futuramente poderei me erguer tão alto quanto você — Archon se aproximou do Trono e do irmão subindo pelas escadas de mármore. — Lobos sempre crescem.

— Sempre — Lorde Lars disse, levantando-se do Trono, ficando maior que Archon. — Obrigado por me entregar este Trono. Não é macio, tampouco confortável, mas foi uma conquista sua, para mim, para nossa Casa.

— Te entregar?

— Sim, os homens disseram que foi uma batalha árdua, e que você comandou bem. Perdemos alguns homens para conquistar o castelo, mesmo que pareça que você não tenha sofrido por isso — Lars colocou a mão no rosto do irmão mais novo, e ele esquivou a cabeça para trás.

— Lady Auphrey tratou de minhas feridas com as suas técnicas de cura, mas sangrei junto dos soldados para conquistar este castelo para a Casa Wolfhowl, e... para mim — mesmo debaixo, Roheisia pôde ver Archon franzindo o cenho de forma apreensiva.

— O quê? Pra você? — Lorde Lars sorriu com a boca torta e lábios apertados. Suspirou e olhou para os outros sores. — John não está morto — oficialmente, Roheisia quis dizer, em defesa de Archon, mas não era maluca o suficiente —, irmãozinho. Nosso pai está. Sabe o que isso significa? Sou eu quem herda este castelo, e John o Santuário dos Lobos. Lembre-se, você é o mais novo da ninhada. Mas eu permito que aqueça esse banco de metal negro até que eu retorne, pois irei atrás de John. Queria ver se estava vivo antes, e parece que está bem vivo.

— Eu também ire...

— Não, não irá — Lars disse mais alto. — Digo, irá? Irá me responder por que tem a porra de um corvo comendo os olhos da cabeça de Sor Scott Calfhead lá fora, e porque não encontro em lugar nenhum a filhinha esquelética dele. E também quero saber por que é que o cadáver de Sor Roderic Hilde está sendo servido de comida para os cães — já havia tomado uma postura agressiva naquele momento. — Isso é falha o suficiente para uma retomada de castelo!

— Sor Roderic era um traidor. Cumpriu seu objetivo, é verdade — Archon continuava no mesmo tom tênue e calmo que estava antes —, trouxe-me a cabeça de Sor Scott por ter me acertado uma pedra no rosto. Orgulhoso do jeito que era provavelmente Sor Scott não se rendeu e Roderic lhe passou na espada. A menina... bem, Sor Roderic exigiu-me que a desse para ele como... uma recompensa. Ele queria a mão da menina. Neguei isto a ele — era notável a tristeza no timbre de sua voz.

— Negou?! — Lars apertou os punhos.

— Sim. A menina não era mais velha que a filha de John é. De noite, Sor Roderic tentou possuí-la por si mesmo, e a garota acabou caindo da janela, tivemos que matá-lo...

— Ele pediu a mão dela, não a boceta! — Lorde Lars vociferou quase como o pai. Sacudiu o braço direito, apertando os punhos cada vez mais. — Como é que vou manter os Hilde como vassalos se acabamos de matar um dos que nos serviam mais fielmente há anos? Droga, garoto. Já soube de homens e mulheres que se casaram com recém-nascidos apenas para ter e manter o poder do nome da família que o bebê carregava. Roderic matou um homem e quis tomar sua filha como esposa, não vê o sentido nisto? — suspirou, aliviando a raiva com um sopro, e sua postura mudou novamente. — E há quem diga que foi você quem mais aprendeu com nosso pai. Que os deuses tenham piedade de mim, então.

— Me pediu o Castelo, não reféns — Archon esbravejou um pouco chocado com a reação do irmão.

— Sim... ao menos cumpriu sua missão. Mas agora ficará aqui, partirei sozinho para a Manopla — Lars desceu as escadas, ficando perto de Roheisia. — E você me acompanha. Estou sem uma boa conselheira no momento. Lady Tarilla ficou no Santuário com a minha mãe.

— Como ordenar, Senhor.

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Donoghan

A lua era cem vezes maior que o normal dali, gigante e redonda como um queijo. Conseguia observar suas crateras, tão fundas que se pareciam com enormes rios que há muito foram desaguados. Majestosa... disse para si mesmo, observando cada detalhe. Sentiu, vagarosamente, uma coceira no lábio superior, tocou-a com dois dedos, e descobriu ter o nariz sangrando novamente. O sangue escorreu para os lábios, e para a língua. Era o mesmo gosto de sempre: ferroso e amargo. O gosto ruim de cobre dominou-lhe a boca, e eventualmente sua garganta.

No que parecia ser um puxão, a lua afastou-se numa velocidade surreal, ou teria ele se afastado de forma inumana? A lua, em uma incessante confusão de pensamentos, tornou-se o brilho da vida nos olhos de uma criança. E brilhou, brilhou, e brilhou de forma ainda mais intensa, até que os olhos de Donoghan abriram-se.

Suas costas forçaram-se para cima, e os cotovelos para baixo. Arremessou-se, quando sentiu algo pressioná-lo.

— Ei, se acalma! — ouviu a menina gritar.

O sol atingia-o nos olhos através da janela aberta. Afagou as pálpebras com as costas da mão, aliviando a tensão que a luz causava nos olhos. Quando a cegueira foi embora, pôde enxergar onde estava. Era no quarto dos hóspedes, que Lorde Laurence havia lhes concedido. Idoneus estava sentada numa cadeira ao lado da cama, e Edwyn do outro lado. Sentia um frio infernal, mas decidiu que não demonstraria.

— Não se levante. Você está queimando de febre. — Idoneus comandou, lançando a ele um olhar que era meio preocupação e meio raiva.

— O quê? — grunhiu. As costas doíam. — Que merda... aconteceu? — o rosto infantil de Idoneus tornou-se três, e depois um novamente.

— Nos diga você! — Edwyn retrucou. — Você caiu das muralhas, cara! O-Ou você se jogou. Se desistiu da vida, pelo menos me coloque num navio de volta pra Euclidia. Seu tio não se importa tanto assim comigo para mandar um navio e eu voltar sem você — Edwyn coçou a cabeça enquanto torcia a boca.

— Vá... se foder. — Donoghan se esforçou para sentar na cama, reclamando da dor nas costas em pequenos gemidos.

— Seu rosto... estava mergulhado em sangue quando aquela mulher te achou. Seu nariz não estava quebrado, mas... você se envolveu em uma briga? — Idoneus perguntou com curiosidade, com as pernas cruzadas uma sobre a outra.

— Mulher? Briga? Não... — colocou a mão sobre o rosto, sentindo que tinha uma faixa envolta na testa. Afastou, e não havia sangue saindo do nariz. Ainda bem... — Eu me lembro de ter falado com você antes de sair para a noite... e aí eu vi Annie, Todd, mais alguns guardas. Subi para as ameias porque me sentia um pouco sufocado no peito. A lua... — sua cabeça doeu, como se seu cérebro fosse explodir. E doeu mais uma vez, e mais outra. Apertou o punho direito e pressionou os lábios. — Eu vi a lua, sangue, e agora estou aqui — suspirou, tentando se lembrar de tudo o que havia acontecido.  — Mas não me lembro de queda nenhuma.

— Você caiu para o lado de fora das muralhas, para a sua sorte — Edwyn disse.

— Sorte? Como é que estou vivo? São tão altas...

— A mulher que te...

— Que mulher? — ele interrompeu Idoneus, com um rosto sério.

— Eu — uma voz mais adulta ressoou do outro lado do quarto. Era a mesma mulher que vira antes de entrar na prisão junto com Annie. Estava junto à parede, de braços cruzados, encarando-o. A pele que antes achara ser negra agora parecia ser mais clara, como um bronzeado natural. — Me chamo Artemis, a propósito. Eu te vi cair. Você apenas deslizou para um merlão e o peso do seu corpo fez o resto. Quando subi para ver se você estava morto, olhei para baixo e te encontrei sobre um monte de neve fofa, tive que correr e te trazer pra cá antes que se engasgasse no próprio sangue que saía do seu nariz.

Por um momento, o quarto entrou em um silêncio horrível. Donoghan suspirou, olhou para baixo e voltou a olhar pra mulher.

— Acho que devo minha vida a você, então. Muito obrigado, Artemis — disse com um sorriso no rosto.

— Eu só te trouxe até aqui, você é bem pesado... mas quem fez a maior parte do trabalho foi ela — apontou para Idoneus. — Foi ela quem usou alguns truques de cura para te consertar.

Idoneus desviou o olhar, corando levemente as bochechas. Donoghan usou forças para puxá-la para perto e a enrolou nos braços, esmagando o chapéu e o rosto da menina contra ele.

— Não! — ela tentou empurrá-lo, mas mesmo machucado, continuava sendo mais forte. — Você está suado! Sua... febre!

— Febre?! — Donoghan sentiu as pernas bambolearem quando tentou mexê-las, mas desajeitadamente se colocou em pé depois de libertar Idoneus de seus braços. Vestia apenas um short que lhe alcançava os joelhos. — Eu já tô’ pronto pra mais um dia! — espreguiçou-se, sentindo uma rápida e energética linha de adrenalina lhe percorrer a espinha.

— É isso aí! — Edwyn comemorou.

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Laurence

Noite Anterior

Tudo aquilo estava o matando, lentamente, a cada segundo que se passava sentia-se mais lorde e menos Laurence. Odiava aquilo. Pensava consigo mesmo se o pai também odiava ser lorde. Ao menos ele sabia como ser um...

Dirigiu-se em passos lentos e doloridos até seus aposentos. Fechando a porta, encontrou Sally limpando sua escrivaninha empoeirada usando um espanador. Tirava todo o pó, mexia nos cantos e recantos. A roupa preta e branca com os babados ficava bem nela, muito bem, reconsiderou para si mesmo. As meias-calças brancas apertadas em torno de suas coxas grossas estimulava sua virilha de forma assustadora sob os calções, mas Laurence era discreto o suficiente para não demonstrar. Daquela posição, a saia parecia — propositalmente — muito mais curta do que deveria. Essas são as roupas da Senhorita Mary? De quando ela era jovem?, perguntou-se. A roupa negra abraçava suas curvas bem formadas, de suas pernas e seios.

— Sally? Ainda não terminou de limpar? — despiu-se de seu gibão, ficando apenas com uma camisa de lã por cima do tronco nu.

— Per-perdoe-me, milorde — ela disse, o olhando por cima do ombro. — Estou quase terminando.

Como se não bastasse, ela se inclinou sobre a mesa, tentando alcançar as penas e tinta, dando-lhe uma bela visão de seu traseiro. Ela está me tentando... não está?, questionou-se. Foi quando viu a calcinha lutando contra intimidade da garota que teve certeza.

— Aonde arrumou isto? — olhou-a de cima a baixo. — Não é o tipo de roupa que as criadas do Forte usam.

— Senhorita Mary... ela me disse para vestir isso — ela explicou, olhando para ele com seus olhos azuis. — Ela disse-me que isso agradaria ao senhor, já que não sou uma simples criada e sim a criada pessoal do senhor... — assustou-se, de repente, e disse: — M-Mas se isso não é de seu agrado, eu uso outras vestimentas... — as bochechas completamente coradas.

— Não se preocupe — ele se aproximou lentamente, observando cada curva da garota. — Me agradou bastante.

Tentava afastar todos os pensamentos sorrateiros que lhe vinha na mente, o que importava agora era os deveres, não a carne... mas, hesitante, parou para pensar no que estava fazendo. Ser um lorde é tão... sufocante. Principalmente nestes tempos. Como o senhor meu pai lidava com isso? Será que ele passava muitas noites na cama junto com a senhora minha mãe? Era essa sua forma de aliviar o estresse?

Precisava pensar no que deveria fazer. Edmond nunca lhe dissera que deveria manter-se inocente até o casamento, e era fácil evitar ter um filho. Mas, mesmo assim, se possuísse aquela mulher, como poderia honrá-la futuramente? Embora fosse uma moça de beleza encantadora, Sally não possuía um nome nobre, tampouco importante para o reino. Se eu não engravidá-la não precisarei honrá-la futuramente... e não parecia nem um pouco que Sally queria ser honrada naquele momento.

Laurence percebeu que não adiantava resistir à atração daqueles hipnóticos seios apertados contra sua pele branca. Engoliu seco, incerto do que fazer a seguir.

— Termine amanhã, Sally. Quero ficar sozinho.

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Reginald

Apreensão não era a palavra adequada para descrever exatamente o que sentia naquele momento. Era algo mais profundo que isso, algo sufocante. Sentia um frio na barriga, e de vez em quando arrepios na nuca, temia não ser por conta do frio que batia contra suas costas e bagunçava os cabelos. Vez ou outra sentia um fio gelado tocar sua espinha, mas com suaves pensamentos e palavras ditas para si mesmo, logo se acalmava. Quando os cavaleiros começaram a aparecer por detrás das colinas, foi que os arrepios pararam por alguns momentos. Ajeitou-se na sela em posição ereta, e o cavalo reclamou de seu peso com um relincho.

Fazia anos que não via o pai, então porque sentia tanto medo? Era um homem feito agora, dono de suas próprias ações, ou assim disseram para ele. Reggy retomou ar para seus pulmões, incapaz de reprimir um estremecimento. As colinas cobertas de neve a oeste dão lugar a uma ligeira inclinação, e foi ali que teve o primeiro vislumbre do pai acompanhado por seus cavaleiros, e a irmã menor. Quando se aproximou, pôde vê-lo melhor, era como se lembrava: um homem alto e desgrenhado, com cabelos médios, meio grisalhos meio castanhos jogados para trás como se sempre estivessem molhados. Ele é, de fato, mais alto que Reggy, e mais magro também, mas sua musculatura era intensa de certa forma. Tinha um sorriso suspeitoso e primitivo sob seu bigode prateado, que cobria um lábio inteiro e tinha as pontas tão longas que alcançavam mais que a metade da bochecha. Seus olhos eram duros e fundos sob as sobrancelhas finas e vulgares, brilhando castanho-cinzentos.

Com as mãos duras agarrando as rédeas com firmeza, incerto de seus atos, Reggy fez com que o cavalo recuasse três passos para trás.

— Reginald! — Admon acenou, avançando com o cavalo, tirando todos os seus cavaleiros da frente.

Os cabelos meio grisalhos de Admon esvoaçaram quando forçou o cavalo a ir mais rápido, assim como os da garotinha sentada na mesma sela que ele. Ela sorria alegre, com os pequenos braços estendidos para cima. Aquela é a pequena Julie? Como foi que cresceu tanto? Era só um bebê... e como esperado, Lulie não veio.

Admon usava um gibão preto com bordados de fio de ouro, e uma águia branca cosida no peito. Ao chegarem perto um do outro, se abraçaram, mesmo por cima das selas. Estranhou, não esperava por aquilo. Embora o pai fosse imprevisível, ele nunca esperaria um abraço.

— Droga, como você cresceu rapaz! — sua voz era como prata velha. A cicatriz que Admon possuía na bochecha retraiu-se. Era corte de faca, estendia-se do canto da boca até o pescoço. Com uma voz elegante e animada, ele disse: — Julie, querida, esse é seu irmão mais velho. Você não se lembra dele porque era muito pequena para se lembrar de algo.

— Julie... — Reggy sorriu, aproximando o rosto do dela para lhe dar um beijo na testa. — Você cresceu tanto... está vinte vezes maior que da última vez que te vi — e gargalhou.

— A maninha falou de você — Julie agitou-se na sela, olhando para o irmão mais velho.

— Mesmo? Lulie ainda se lembra de mim, então? — olhou de viés para o pai, e voltou a olhar para a irmã caçula. — É surpreendente. Seria bom voltarmos para o Forte. O que acham? Tenho certeza que teremos uma conversa mais agradável se estivermos de barriga cheia.

— Eu concordo! — Julie sorriu.

Reggy assobiou para os guardas que Laurence mandou acompanhá-lo, e eles vieram para perto. A tropa que Admon trouxera consigo os seguiram também, mas Reggy guiava o caminho ao lado do pai.

— O que anda fazendo, filho? Parece que se tornou um bom rapaz, sabe usar uma espada? — Admon quebrou o silêncio.

— Sim, eu sei. Eu sou o Comandante do Exército Shalgoth — ergueu-se no cavalo orgulhosamente.

— Depois da sua prima adotada, é claro — Admon gargalhou. Decidiu ignorar o comentário infeliz do pai. Não faça perguntas quando já sabe a resposta...

— E você, pai, o que anda fazendo? Qual é sua rotina? — perguntou com desinteresse.

— Foder — não precisou de muito tempo para pensar. — Não tenho nenhuma dúvida quanto a isso, meu passatempo preferido é foder. Se eu pudesse sair fodendo com quem eu quisesse, tenho certeza que foderia todas as mulheres da porra da ponta de Mormolyse até Nezara, inclusive as gordas, aleijadas e tudo mais. Comigo não tem tempo ruim — ele sorriu um sorriso amarelo. Reggy sentiu-se incomodado pela irmã ter escutado aquilo. Que filho da puta... se ele tá dizendo isso na minha frente, o que não diz quando tá sozinho com ela?, pensou.  — Mas há outras coisas que faço, também. Eu caço.

— É... eu também.

— De olho em alguma lady? Pode conquistar algumas bocetas ruivas com o seu charme, filho — Admon riu.

— Hahaha... é — engoliu seco. — Bem, na verdade eu não estou de olho em nenhuma lady... esperava que o tio Edmond fosse casar-me com alguém. Ele me disse que planejava isso, e concordei com seu plano, mas ele não teve tempo o suficiente pra arranjar algo — agora que paro pra pensar... tio Edmond? Ele foi mais um pai pra mim do que este aqui, Reggy soube, tristemente.

— Ainda bem! Hahaha! — tossiu. — É melhor ficar solteiro e passar o resto da sua vida trepando com quantas quiser. As mulheres são só mais um luxo que os homens, assim como eu, tendem a ostentar perante seus amigos e inimigos. É como o ouro, ou glória, títulos, como este que ia se gabar agora mesmo sobre ser comandante. Elas dão a sensação de poder, a sensação de que você conquistou algo, mas além de sexo, elas não tem nada a oferecer. Elas não são necessárias para atingir seus objetivos, muito pelo contrário, só atrapalham. Depois que... — pigarreou — sua mãe morreu, que os deuses a tenham, as coisas começaram a dar certo pra mim.

A mãe não foi a última, ao que parece. Continua tratando as mulheres da mesma forma. Soube imediatamente. Corno filho da puta.

— Há mulheres que valem a pena, pai. Annie, por exemplo, se não fosse minha prima eu com certeza estaria apaixonado nela — desviou o olhar para os montes rochosos.

— Há! — ele gritou. — Sua prima, hein? Ela tem um corpo gostoso, sim, é verdade. Mas a garota é tão agressiva que acho que em qualquer relação ela seria o homem. Fique longe destas, a não ser que goste de um desafio — colocou a ponta da língua pra fora da boca, lambendo meio lábio e meio bigode. — E... porra, moleque, incesto? — ele parou por um momento, olhando para frente. — Na maioria das vezes nasce uma aberração da natureza... sem braços, pernas, olhos... é o castigo dos deuses — Admon encarou Reggy. — Falando nisso, não acho que os deuses tenham castigado Archon Wolfhowl por Leopold, na verdade foi o próprio pai dele que fodeu com sua vida — ele gargalhou alto. — Lorde Archon plantou a semente na própria prima e depois chutou o filhotinho de lobo pra lama.

Por vezes esquecia que Lorde Leopold Wolfhowl, o líder dos Guardiões da Lua era na verdade um bastardo de Archon, mas o fato era conhecido por todo o país, mesmo que Lorde Archon tivesse tentado manter discrição.

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Leopold

— Que merda, esses filhos da puta tinham que atacar o Vidrouro também? — Falvo-Verde reclamou, preparando uma pomada caseira dentro de um pote de carvalho.

— Vai ficar tudo bem, amigão... — Beth disse a um garoto jovem que havia levado uma flechada nas costelas. Algumas lágrimas escorriam do rosto da moça.

— Ele já morreu, Beth — Leopold a puxou pelo ombro. — Esforcem-se nos outros — ordenou aos ajudantes presentes na taverna.

— Lorde Leo!! — Joramund gritou, rouco, do lado de fora da taverna. — A Baronesa quer lhe ver!

Leopold rapidamente desceu as escadas da taverna e montou seu garrano. Puxou as rédeas com força e bateu com as pernas nas costelas do cavalo, soltando um urro. O cavalo relinchou e empinou-se, disparando-se sobre os cascos na terra molhada. Não demorou muito para que ele e o cavalo estivessem igualmente molhados da chuva torrencial, e Joramund e Mad, que o acompanhavam a cavalo por trás.

Vidrouro parecia desolada, mas não havia corpos no chão, apenas registros de batalha e abandono. Uma sensação ruim embrulhou lhe o estômago. Na praça elevada onde as ruas se cruzavam, Leopold viu à sua frente e mais abaixo, no azulão do anoitecer, as casas aprazíveis e campanários; e sua cabeça rodou numa curiosa vertigem enquanto seus olhos focaram-se no ponto alto de uma estalagem, como se fosse uma fachada. Achou que a chuva pintada de azul e branco estivesse confundindo sua visão. Mas o que viu era de gelar o sangue:

— Maldição...

Um cadáver jazia pendurado sobre sua cabeça, dilacerado, carcomido, pútrido. Era um homem, vestia a mais cara das roupas; era magro, estava sem dentes e sem olhos, como se tivesse morrido há muito tempo. Não tinha barba, mas um longo cabelo negro. Formava-se uma grande poça de sangue na lama sob o corpo.

— Que diabos? — Mad espantou-se.

— Vamos — sem estremecer,  Leopold tomou as rédeas.


Notas Finais


Espero que tenham gostado!


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