História Accursed - Interativa - Capítulo 15


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Bishoujo, Bishounen, Comédia, Crossover, Drabble, Drabs, Drama (Tragédia), Droubble, Ecchi, Esporte, Famí­lia, Fantasia, FemmeSlash, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Fluffy, Harem, Hentai, Lemon, Lírica, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Orange, Poesias, Policial, Romance e Novela, Saga, Sci-Fi, Seinen, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Shoujo-Ai, Shounen, Slash, Sobrenatural, Steampunk, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Intersexualidade (G!P), Linguagem Imprópria, Mutilação, Necrofilia, Nudez, Pansexualidade, Sadomasoquismo, Self Inserction, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Espero que gostem :)
Queria escrever mais mas não queria quebrar o costume de postar toda sexta :v

Capítulo 15 - Ato 15 - Lorde Leitão


Leopold

Lorde Leopold! A multidão vibrou quando passou a cavalo sobre a rústica ponte de pedra que levava à praça. Olhou em volta, e tudo parecia tão triste: árvores, construções, e mesmo a grama e os arbustos que antes eram verdejantes foram tingidos pela letal fragilidade azul-acinzentada daquele anoitecer. Ali em Vidrouro, era consabido que o lugar era o centro alimentício da Manopla, era onde a terra era mais fértil, mas mesmo com tantas plantações e cores diferentes, o mundo parecia assolado por uma só cor, e um só sentimento.

As ruas pareciam desertas antes de Leopold chegar como um vulto cinza sobre seu garrano, mas logo quando a população ouviu seu nome e os galopes, os olhos curiosos atrás das janelas tomaram formas de rostos e corpos. Não se importaram com a chuva, tampouco com a terra lhes sujando os calçados, e “milorde!” aclamaram ao homem cinzento.

A situação era tão precária e obscura que mesmo no centro alimentício da Manopla, homens, mulheres e crianças tinham rostos que imploravam por um pedaço de pão. Acenando, atravessou a multidão, lhes lançando sorrisos gentis. Diante de Leo, encontrava-se a Casa de Vidrouro, onde a Baronesa supostamente o esperava.

À frente estava uma velha senhora de manto preto que ele achou ter visto dias passados, enquanto, a uma distância menor, um homem gordo e negro fazia acenos e caretas imperiosamente para ele. Atrás deste homem, entre ele e a velha, uma fileira de soldados vestidos de vermelho esperava; eram cerca de quinze deles, a maioria de espadas, outros com lança, todos os quinze escondidos sob elmos de metal salpicados de chuva. Como entrada principal, duas grandes portas de madeira negra guardavam a Casa, e para lá sorrateiramente entrou a curiosa megera assim que Leopold freou seu cavalo, encarando-a. O homem negro agarrou-se ao pomo da espada sem desembainhá-la, apertou os lábios de forma rude e sob suas papas de gordura vociferou:

— Alto lá! Estávamos esperando por Lorde Leopold Lonewolf dos Guardiões da Lua, e apenas por ele — sua voz soava rouca e grave, mesmo que abafada pelo som da chuva.

— Sou Leopold — disse ao se ajeitar na sela. — Estes são Joramund Grant — com a palma da mão aberta, apontou para o Guardião ao seu lado. Alto e robusto como era, Joramund estufou o peito sob suas mantas cinzentas da lua. Tinha olhos verdes-jade, brilhantes como o fundo de um lago cristalino. Apesar da beleza dos olhos, Joramund era todo um bárbaro, possuía nariz adunco e boca amassada; cabelos e barba desgrenhados, meio-louros sob o sol, meio-castanhos sob a lua. Pendiam de sua cabeça em poderosas tranças pesadas de puro cabelo, e não era diferente com a barba, que mesmo trançada podia alcançar-lhe o peito. —, e Mad Malyne — moveu o braço em direção à jovem moça. Mad era tão pequena quanto podia ser, mas muito mais bonita que sua outra companhia. Pelo menos o tamanho era adequado para a idade, e não influenciava nem um pouco no tamanho de sua lealdade para com os Guardiões, e ele. Seus cabelos eram curtos na altura do pescoço, lisos e vermelhos cor-de-fogo, cheios de graça. Apesar de possuir catorze, a menina parecia ter dez anos ou menos devido ao rosto pequeno e infantil. — Estarão me acompanhando.

— Não estarão, milorde. Por ordens de nossa Baronesa Lady Caecilia Alanne, apenas a entrada do senhor será permitida. Por hora, os outros deverão se retirar ou esperar aqui fora — o homem insistiu.

— Sim. Claro. Que grande ameaça os Guardiões da Lua representam. — Leopold virou-se sobre a sela para os dois acompanhantes. — Vão, tragam os outros, e preparem as carroças para trazerem os feridos — Leopold ordenou enquanto trocava olhares com os dois. Falara alto o suficiente para que o homem gordo pudesse ouvi-lo, propositalmente.

— Isso é uma ordem para invadir, senhor? — Joramund perguntou em tom tênue.

— Não. É só antecipação. Não passem pelos portões, ou eles terão permissão para lhes matar. Quando for a hora de atravessar os portões, eu mandarei um aviso — não mudou o tom de voz.

— O que está planejando, Lorde Leo? — Mad o questionou, com preocupação expressada em seus olhos, enquanto virava o cavalo para a direção oposta, prestes a seguir as ordens.

— Irei convencê-la a abrigar o pessoal de fora dos muros. Até lá, é bom que deixem tudo adiantado. Essas pessoas precisam de ajuda urgentemente.

— Sim, senhor — Mad sorriu docemente para ele e foi a primeira a disparar-se por aonde veio. Joramund guinchou uma afirmação com os lábios colados, girou o cavalo sobre os cascos, seguindo Mad.

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Leben

Noite anterior

Eles me matarão hoje.

A impossibilidade de se expressar era a pior das agonias que ele agora sentia. Nenhuma língua algum dia possuíra as palavras necessárias para relatar o que Leben queria expressar, e aprendeu aquilo após cometer seus últimos crimes.

Tomada por uma alegria áspera e maldita, a mulher de roupas escuras lhe lambeu uma gota de sangue que escorria de seu nariz. Os lábios muito finos e duros de Leben contorceram-se e abafaram um grito demasiado tenso.

— Não posso dizer o que vi. Não posso — Leben começou. — Guz nunca falará, ele está... está...

— Morto — a mulher misteriosa completou, trazendo uma faca enferrujada na mão.

Era como se estivesse tendo um ataque de epilepsia, balançava-se na cadeira, mas as cordas não deixavam que fosse muito longe. Tudo que podia fazer era chorar, sangrar, gemer e lamentar-se. Por tudo.

Lá fora estava uma confusão, mal sabia o que estava acontecendo, mas decerto era uma batalha. Temia pela própria vida duas vezes.

— Me disseram que você não tinha amigos, Leben. Sempre foi só. Mas depois de tudo o que seu filho me contou, eu acredito que os boatos realmente não passavam de simples boatos. Seu filho soava bem honesto com a ponta da minha faca apontada pra sua traqueia. Pobre Guz, morto por tolice do próprio pai.

— Termine logo com isso — ordenou um homem loiro no canto da sala, com a voz cheia de autoridade. O modo como disse fazia parecer que era o líder, e que tinha poder sobre a torturadora de cabelos escuros.

— Você é muito chato, Gellius — a mulher reclamou. — Prometeu que eu teria a minha diversão, pra compensar tudo que o bastardo fez.

— Você tem mais cinco minutos. A batalha não demorará muito para acabar, chegamos tarde.

— Podemos levá-lo?! Por favor! — a mulher insistiu de maneira assustadora e manhosa. Aquilo lhe encheu de ânsia.

— Não. Lembre-se que precisaremos do corpo dele aqui, e de qualquer forma...

— Não me matem! Por favor! — Leben pôs-se a chorar. — Eu já confessei tudo! Já te disse... te disse... disse que ajudei com a mercadoria.

— Aquelas crianças não eram mercadoria, seu porco sujo — Gellius o corrigiu.

— S-Sim, me perdoe. Eu fazia a rota de entregas, mas eu te juro, eu não sei quem os comprava nem quem os vendia. Mas me pagavam muito dinheiro para transportar as crianças de um ponto ao outro. A rota está toda no mapa que te dei, juro! Juro! Pelos deuses, eu juro com a minha própria vida.

— Termine o que começou — Gellius disse para a mulher.

— Não, por favor! Por favor! — lamentou-se. — Eu-eu... Eu admito que também dei para eles Anna e Beryah! Eu me arrependo do que fiz, eu me arrependo muito! — as incontáveis lágrimas que saíam de seus olhos formavam uma cachoeira nas bochechas, descendo até o queixo e pingando na roupa.

— Ele admitiu, finalmente — disse a mulher, com uma grande tesoura enferrujada nas mãos.

— Patético — praguejou Gellius.

— Eu te dou o dinheiro, prometo-lhe, todo o dinhe—

— Hai de ir para o inferno com suas promessas e seus dez vezes maldito ouro, aberração. Que tipo de abominação vende a própria mulher e filha, ainda uma menininha inocente, em troca de ouro? Somente um verme asqueroso e abominável como tu pode pesar seres humanos, feitos de carne e osso, em ouro. Se gosta tanto do teu ouro, morra com ele — olhou para a mulher. — Faça-o engolir cada moeda de ouro que encontrar na sala. Certifique-se de que ele não se engasgue até que sua garganta sangre e que engula cada moeda. Divirta-se. Estarei esperando lá fora, junto de Helena.

E retirou-se.

Quando a mulher sorriu, soube que era seu fim. O brilho nos seus dentes brancos e salivados lhe deu o pior dos arrepios.

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Annie

A manhã trouxe um sol esmaecido, e sua claridade era tão intensa que o mundo parecia banhado a ouro. Os feixes de luz trespassavam os buracos quadrados da parede do Salão como se fossem pilares dourados, banhando-os com luz do dia.

Sentava-se à grande mesa retangular junto de Idoneus, Todd, Adler, Donoghan, Artemis, Kate, Adler, Edwyn, Reggy, os Irmãos Kontos, Julie — a menina sentava-se perto do irmão mais velho —, e mais uma dúzia de outros soldados dos quais não se recordava os nomes. Donoghan levou uma taça de prata cheia de vinho até a boca, isso foi o suficiente para fazê-la cega pela luz que a prata refletiu durante alguns segundos. Ele tomou todo o conteúdo da taça em apenas um gole, apalpou o estômago e arrotou no rosto de Edwyn. Idoneus, do outro lado da mesa, ergueu seu cajado e acertou-o na cabeça para tentar educá-lo. Era um método no mínimo eficaz, se a filosofia dele era a utilização da violência, a única forma de educá-lo era com a própria violência. Ouvia-os conversar com sorrisos nos lábios, até mesmo a mais recente integrante do exército estava se divertindo, Artemis. Mas suas vozes estavam sendo abafadas por seus pensamentos, que divagavam de um para o outro. Seus olhos pularam de rosto em rosto, até pousarem no de Idoneus, que a encarou de volta. A maga olhou-a por um momento, e lançou um olhar triste para baixo, depois voltou a sorrir, conversando com o elfo.

Lembrava-se de antes da manhã, na alvorada, quando o sol subia para seu posto. Idoneus veio encontrá-la nos jardins, queria uma conversa em particular com Annie, e apenas com ela. Atendendo ao pedido da amiga, foi sozinha. Idoneus carregava uma expressão triste no rosto, estava cabisbaixa, e parecia não ter tido uma boa noite de sono. Um dia se juntou ao outro.

— Eu preciso te dizer algo... — ela lhe dissera de forma triste.

— Estou escutando — Annie disse em tom tênue, cruzando e escondendo as mãos atrás das costas. — Há algo que te preocupa?

— Sim, na verdade há — ela a olhou nos olhos. — É Donoghan.

— Ele te tocou?! Ele tentou algo? — franziu o cenho, pensando em todas as formas de cortar sua virilha caso fosse necessário.

— Não! — Idoneus gritou — Não é isso... — falou mais baixo. Não queria gritar seus segredos. — Você provavelmente já está ciente de que ele caiu das muralhas ontem e acabou se machucando bastante.

— Sim, soube — lembrava-se de ter até mesmo visto o elfo subir as muralhas. — Soube que cuidou das suas feridas também. Você e a mulher nova.

— Sim. Bem, não. Na verdade... essa é a minha preocupação. Eu não o curei — ela voltou a olhar pro chão.

— Ele parece bem pra mim.

— Exatamente. Eu sequer usei minha magia de cura nele! Ele tinha três costelas quebradas quando Artemis o trouxe de madrugada... hoje, antes de sair do quarto ele estava fazendo flexões, e... se não me falha a memória, ele está agora mesmo destruindo alguns bonecos de treino no pátio — Idoneus gesticulava com os braços demonstrando confusão.

— Eu não consigo compreender aonde você quer chegar... entendo que isso é anormal até mesmo para um elfo, mas...

— Eu nunca vi nada assim! Mas esse potencial de cura... a força que ele tem... ele é... — ela balançou a cabeça. — Seu tamanho é bizarro, a cor do cabelo é bizarra, aquele olfato e audição poderosa dele... eu andei pensando, Annie, e só posso concluir que Donoghan faz parte daquela Ceita maligna, aquela que vocês chamam de...

— Calamidade?! — seus pelos da nuca eriçaram. — M-Mas não faria sentido... ele foi enviado pela Rainha de Euclidia para eliminar esta Ceita. Ele mesmo disse que a mãe e a irmã foram raptadas por membros desta Ceita.

— Mas você sabe que é algo a ser considerado. Apenas eles, dentre todos estes reinos, possuem magia tão poderosa. Eu posso ouvir coisas de muito longe, também, mas apenas com magia. Com ele é algo natural, ele não precisa conjurar uma magia, é como se fosse parte dele. Acredite em mim, eu estudo magia há muito tempo, e nunca soube de magos que pudessem ficar mais fortes permanentemente. Dói-me dizer isso, Annie, juro. Começava a enxergar Donoghan não mais como um parceiro, mas como um amigo, só que nunca vi três costelas quebradas se colocarem no lugar em horas dentro de um corpo febril, e sozinhas. Temos que ficar de olho nele a partir de agora. O mantenha longe de Lorde Laurence e sua família, e todos os outros amigos também, eles vieram junto dele, podem tem algo a ver com isso.

— Obrigado pelo alerta, Ido. Lembrar-me-ei disto.

E fazia sentido. Nenhum ser humano comum possuía tamanha força, nem tais habilidades especiais que mais pareciam a de um cão de caça. Não poderia deixá-lo aproximar-se mais de Laurence, mas não poderia contar sua teoria a Laurence até que tivesse certeza. Não tinha certeza nem de como faria para prová-la ou desmenti-la, mas estava trabalhando nisto junto com Idoneus. Se pudesse provar a teoria, estaria pronta para matá-los todos, se fosse para proteger os filhos de Lorde Edmond, faria. Nada importava mais para ela do que a família, e se suas vidas estivessem em risco, faria de tudo para protegê-los. Bom, se pudesse desmentir a teoria... seriam mais aliados para Laurence e tudo continuaria do jeito que está. Sujar sua lâmina de sangue não seria um custo necessário.

— Milorde, trago notícias de Auclive — Sor Darvan Wean passou pelo portão e aproximou-se a passos largos, segurando seu elmo com viseira sob o braço esquerdo. Sua armadura estava toda desgastada, de cor bronze. Cobria quase o corpo todo, ressoavam ferro e cota de malha a cada passo que dava. Tinha uma cabeça livre de cabeços exceto pelos lados e atrás, onde eram de tamanho médio e grisalhos.

Sor Darvan parou antes das escadas que levavam à mesa do Lorde. Lá, atrás da mesa, estavam sentados: Lorde Laurence no assento principal e Lady Karyn ao seu lado, alimentando-se de morangos frescos. Tinha os dedos e o entorno da boca suja de vermelho e com pequenos pedacinhos de morango espalhados pela sujeira. Karyn nunca gostou de comer como uma dama; era apressada para comer e se não lhe dessem os talheres comia com as próprias mãos, principalmente doces e guloseimas. E se não lhe ajudassem a se limpar, passava as mãos sujas no vestido. Achava engraçado, e fofo. Senhorita Mary dizia que era porque não era ela quem lavava os vestidos, então parecia engraçado mesmo.

— E quais são elas? — viu Lorde Laurence ficar sério, ajeitando a postura na cadeira.

— Marric Maldito continua preso lá dentro e se nega a sair. Dei seu tratado de paz para ele, e... — coçou a garganta. — mandou-lhe enfiá-los no... — olhou para Karyn.

— Entendo — Laurence respondeu.

— Um dos nossos arqueiros infiltrados disse que ele não quer abrir os portões. Trancou-se com toda a despensa da cidade dentro de sua casa. Toda a comida, todas as cozinheiras, todos os animais. Tudo. Este mesmo também diz que Marric está abusando sexualmente de suas criadas, das mais novas às mais velhas, até as crianças, ao que parece — era como se tivesse cuspido as palavras. — Os boatos sobre a traição de Marric eram verdade, abrigava sob seu teto espiões Blackburn, e em troca lhe davam dinheiro. Infelizmente, os espiões fugiram antes que pudéssemos pegá-los, seriam uma ótima fonte de informação, de fato, mas duvido que falassem, de qualquer forma. Marric Maldito está pedindo para ser morto, Senhor. Por traição e atos pecaminosos, violentos e foras da lei. Deixe-me invadir, e então terei a cabeça do Barão Marric Maldito em uma estaca até o próximo pôr do sol dentro destes muros — Sor Darvan caiu sobre um joelho, como se pedisse uma benção de seu senhor.

Karyn colocou um morango embebido em açúcar e mel na boca do irmão mais velho. Lorde Laurence mastigou e apertou o punho, olhando para os outros no Salão.

— Não é assim que fazemos as coisas por aqui, Sor Darvan — disse enquanto terminava de mastigar o morango e engoli-lo. — Permito-lhe assaltar o Auclive. Aceite toda a qualquer rendição do inimigo, faça isso da maneira mais limpa possível, sem mortes desnecessárias, principalmente da população que está lá dentro. Quero que me traga o Barão Marric Maldito vivo, se possível. Ele terá um julgamento justo perante nossa lei.

— Sim, senhor. Evitarei mortes. Partirei o quanto antes possível com duzentos dos nossos soldados — Sor Darvan ergueu-se, rodopiando sobre um pé e andando rapidamente até a porta.

— Espere! — Annie interveio. Essa é a minha chance, pensou. — Milorde, deixe que o grupo de Euclidia acompanhe Sor Darvan. Eles estão aqui há semanas, e ainda não tiveram chance maior de provarem seu valor para conosco. A retomada de uma vila é uma oportunidade incrível. Se eles estiverem dispostos — esteja, Donoghan, por favor, esteja. Seja tolo e previsível e esteja —, acredito que seria uma boa forma de provar que estão do nosso lado tanto quanto estamos do deles.

Um silêncio caiu sobre o Salão. Todos cruzaram olhares, mas o olhar de Donoghan estava particularmente focado nela. Seus olhos verdes desceram para seus quadris, e depois voltaram para seu rosto novamente. Sentia-se pressionada toda vez que ele fazia aquilo, odiava ter olhos — de qualquer um — vagando por seu corpo. Donoghan mordeu o lábio inferior e bateu um punho na mesa.

— Deixa comigo. Eu e Edwyn vamos! — ele deslizou para fora do assento de madeira.

— E-Eu? — Edwyn perguntou, com meio pão pendurado nos lábios.

Um alívio percorreu seu peito e saiu em forma de suspiro.

— Mas! — Donoghan anunciou, já no meio do Salão, em pé. Virou-se de frente para Laurence — Quando voltarmos prometa-me que falaremos da minha família desaparecida, Lorde Laurence. Se não, poderemos encerrar este contrato que a Rainha Sinaryel fez contigo aqui e agora, e mergulharei de vez na minha missão, com ou sem a sua ajuda.

— Certo. Prometo, pela minha honra como Lorde Shalgoth e Senhor do Forte Shalgoth que lhe ajudarei na sua missão quando retornar, Donoghan Wolfhowl — o rapaz sorriu, e Donoghan sorriu de volta.

— Levantem-se, seus preguiçosos! — anunciou para os outros.

— Senhor — Artemis, a mulher que chegara no dia anterior, interviu. — Deixe-me provar meu valor também. Se puder me conceder a honra de acompanhá-los em batalha, poderei demonstrar o meu valor — Laurence não tirou o sorriso do rosto, e acenou com a cabeça.

— Eu mesmo a analisarei, então. — Edwyn brincou.

Todos passaram pela porta, e Annie finalmente pode respirar normalmente. Depois, olhou para Idoneus, que só tinha preocupação no olhar. Reparou que havia sobrado uma pessoa ainda na porta. Era Adler, o garoto que em cores parecia com ela de uma forma assustadora, ele a encarava de modo desconfiado, e seus olhos azuis soavam como um tipo de ameaça.

---

Artemis

Adler, o rapaz bonito de cabelos pretos... Donoghan, o elfo grande de cores verdes; Edwyn, o louro brincalhão; Kate, a menina séria de cabelos rosas. Já podia lembrar-se de seus nomes, o que restava agora era conhecê-los. Finalmente pôde sair do Forte, sentia-se sufocada lá. Adorava mas ao mesmo tempo odiava todas aquelas palavras cordiais e jeito formal de se falar. Não era acostumada a aquilo e sentia-se desconfortável quando tinha de falar palavras bonitas, entretanto, parecia honroso e certo de alguma forma, pelo menos se as palavras fossem dirigidas para o menino Shalgoth. Gostava de sua maneira de agir, principalmente para uma criança. Respeitava-o, e jurara sua espada a ele, achou ser o certo a se fazer naquele momento.

Donoghan era o mais perto que tinha de um amigo ali, ele quase sempre estava falando palavrão ou brincando com a cara de alguém, gostava deste tipo de descontração, aliviava o clima tenso em que o país se situava. Salvara sua vida uma vez, e ele dizia que lhe “devia uma”. Aquilo a fazia se sentir confortável de alguma forma, já que o elfo parecia ser um homem forte, e mesmo que ousado, não aparentava ser desleal. Se em algum momento se metesse em problemas, teria alguém com quem contar para ajuda-la, ou pelo menos queria acreditar nisso.

O velho comandante, cujo nome parecia ser Sor Darvan informara antecipadamente que a viagem não duraria nem três horas a cavalo, isso se trotassem. Se fizessem os cavalos correrem, estariam lá dentro de duas horas ou menos. Já haviam se passado uma hora e alguns poucos minutos.

— Você é estrangeiro, estou certa? — Artemis perguntou, aproximando-se de Donoghan. Estavam os dois um pouco afastados dos outros, o suficiente para que não ouvissem sua conversa. Remexeu-se sobre a sela de seu cavalo de pelos marrons.

O elfo a olhou de canto, virou a cabeça para ela e voltou a olhar para frente.

— Sim. Edwyn, Kate e Adler também. Viemos de Euclidia.

Sempre quis conhecer Euclidia. Todos de Mormolyse queriam, na verdade.

— Então... me fale sobre lá, Donoghan. Sempre fui curiosa sobre lá, mas ouvi poucas coisas. Soube que a cerca de dez anos uma nova ordem foi instalada, e que até hoje vem dando certo. Dizem que não há preconceito com raças, e que tudo lá é bom — soava como um sonho de princesa, mas talvez pudesse ser verdade.

— Nem sempre foi assim. Meu próprio pai foi quem estabeleceu essa paz — o rapaz disse orgulhosamente, aconchegando-se na sela. —, junto da atual rainha, mas ninguém conhece o acordo que fizeram, ninguém além da rainha. Bem, Euclidia é um lugar de... pessoas bonitas e amigáveis. Campos verdejantes e céu aberto. Pessoas pálidas de orelinhas pontudas em forma de planta andando por aí, sorrindo, trocando beijos e gargalhando. Pacífica e feliz.

Há uma longa pausa depois disso, e passa-se tempo o suficiente para que ela ache que Donoghan não irá mais falar.

— Tem mais algo?

— Isso não é o suficiente? — Donoghan gargalhou. — O que mais você pode querer do meu continente? Não é o lugar mais excitante que existe, é claro, não há assassinos para matar, nem arenas de luta, e todo mundo é calmo como água parada. Basta perguntar para Edwyn, ele vive reclamando disso, pelo menos quando não está ocupado nos braços de uma garota. Haha... essa talvez seja a maior beleza de Euclidia, hein? Uma boa mulher para lhe distrair das aflições. Se estiver tendo um dia ruim, vá até o bordel mais próximo e fique lá até que o dia deixe de ser ruim.

— Do jeito que você diz... — ela gargalhou.

— Já provou o mel de uma elfa? — Donoghan a olhou com olhos pervertidos e com um leve sorriso nos lábios. Aquilo, sem saber exatamente o porquê, a fez corar. Não tem como ele saber que...

— Do que você está...

— Nada. Hahaha. E você, da onde veio.

Antes que pudesse ter tempo em pensar em algo pra responder, uma trombeta soou alta e trovejante, como um rugido para os céus.

— O quê?! — Artemis assustou-se.

— Eles estão atacando? — Adler agora estava mais perto.

— Atenção!!! — Sor Darvan berrou. — Estão chegando até nós! Não estávamos esperando por este ataque, mas estamos mais do que prontos para destruí-los! — ele desembainhou a espada. — Aceitem qualquer rendição, soldados! Quero os batedores na linha de frente, venham!...

E então ele começou a gritar suas ordens de batalha. Acabou que Artemis e Donoghan juntaram-se à linha de frente, Edwyn ficou na retaguarda junto com os arqueiros, já Kate e Adler ficaram no meio, logo atrás deles. Já podia ver a grande vila atrás de muros, a qual se chamava Auclive. Enormes árvores se erguiam para o leste, engolindo a estrada enquanto serpenteia entre elas. Apesar de estar no norte, o ar parecia úmido e quente de forma opressora. E a trombeta ressoou mais uma vez...

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Não demorou muito para que a batalha tivesse seu fim. Muitos dos soldados do Barão ao verem o exército de Shalgoth atacando-os como águias atacam os pequenos animais da floresta largaram suas espadas e anunciaram desistência. Neste meio tempo pôde matar dois homens, e não se sujou de sangue. Por outro lado, o elfo havia partido sete homens ao meio, e tinha certeza que ouvira um deles dizer: “eu me rendo!”.

Como outro sinal de rendição, os próprios soldados abriram o portão. Adler foi um dos primeiros a passar para dentro. A cidade havia se acalmado quando todos os outros desistiram, e havia poucos corpos para serem recolhidos no campo. Todos haviam atravessado os portões e pulado para dentro do Auclive. Obviamente, as portas da casa do Barão estavam trancadas, e Sor Darvan Wean berrava:

— Abra e não o mataremos, Marric!

Mas nenhuma resposta foi escutada.

Impaciente, Donoghan aproximou-se da porta de punhos cerrados e cenho franzido, mas logo um sorriso formou-se na sua boca.

— O que pensa que está fazendo? — resmungou o Sor.

— E o lobo mau disse: “então vou soprar, e soprar, e soprar, até derrubar a sua casa!” — ouviu Donoghan recitar, e viu fechar um punho com força, e atirar-se de lado contra as portas vermelhas que guardavam a casa.

O elfo gigante caiu como um trovão nas portas. As duas espessas portas de madeira, de algum modo voaram para dentro da casa. Não foram apenas arrombadas, mas destruídas de modo avassalador. Artemis não tinha certeza se aquilo era magia de elfo ou algum tipo de truque que jamais vira, mas, se aquilo tivesse sido pura força, Donoghan não parecia aturdido de forma alguma. Na verdade, parecia animado. Com somente ele dentro da casa, os outros esperaram por ele do lado de fora.

Passaram-se dois minutos, e criadas, algumas nuas e outras assustadas, correram para o lado de fora da casa. Por último, Donoghan apareceu, trazendo um homem gordo e calvo, nu. Mais parecia porco do que homem, e Donoghan deve ter pensado o mesmo, já que o atirou na terra sujando-o todo.

— Marric Maldito — Sor Darvan aproximou-se —, é acusado de traição e será levado perante o Lorde Laurence Shalgoth para um julgamento justo e...

— Poupe-o de palavras gentis, Sor — Donoghan disse, aproximando-se do próprio cavalo e dando-lhe algumas plantas para comer. — Eu mesmo o levarei para o Forte — sorriu. — Desculpe por roubar sua recompensa, mas eu fui mais rápido — gargalhou sob o espesso bigode verde.

O elfo trouxe algumas cordas do alforje, ergueu Marric do chão com um puxão de orelha e amarrou suas mãos. A população da vila observava, todos curiosos. Alguns até riam. Donoghan guiou Marric até o cavalo e atou-o às rédeas, deixando-o a frente de seu cavalo, separando-os com cinco metros de corda.

— Que porra é essa? — resmungou o Barão Marric.

— Corra o mais rápido que puder, leitão — Donoghan desferiu um tapa forte no traseiro nu do homem. — Dei alguns afrodisíacos de efeito rápido pro meu cavalo, e ele vai querer entrar no primeiro buraco que vir! — montou o cavalo. — O que eu quero dizer é que você tem que correr até o Forte Shalgoth o mais rápido que puder, e meu cavalo não come o seu cu! — gargalhou.

Era simplesmente impossível que alguém tivesse tanta disposição e força com menos de um dia de recuperação de uma queda daquela altura.

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Leopold

— Foi aqui que o torturaram?

— Sim. Há pedaços do corpo que nem sei o que são.

Uma cadeira quebrada sobre uma poça de sangue e algumas moedas de ouro espalhadas pelo chão. Saliva... unhas... pele, dentes. Descobrira há pouco que o corpo pendurado para os corvos do lado de fora pertencia ao Barão Laben Alanne, que morreu de forma misteriosa durante a batalha de John contra os Calfhead e os Brenhill. O assassino não deixou rastros, surpreendentemente.

— Ele o pendurou do lado de fora, e ninguém o viu? — Leopold perguntou com desconfiança para a megera.

— Eu sei que é difícil de acreditar, mas não — disse a irmã do falecido, a mais nova Baronesa. — Ou estão acovardados demais para dizer algo.

O fedor era pútrido, lhe dava vontade de vomitar. O ambiente estava nojento e malcheiroso, odiava aquilo. Era triste saber que existia tamanha crueldade no mundo, principalmente em seu país que amava tanto. Isso não foi simples diversão, ninguém tortura dessa forma, principalmente uma figura importante apenas para brincar. Retaliação, talvez? Argh... não deveria me preocupar com isso.

— Desculpe-me, senhora — disse, fechando a porta e virando o rosto. — Não sou um investigador, muito menos um dos seus soldados. Sinto muito por seu irmão, mas não posso ajudá-la — tinha razão, seu dever era para com o povo.

— Achei que fosse um bom homem, Lorde Leopold.

— Não cabe a ti julgar isto. Nem a mim. Não sirvo à nobres, como a senhora bem sabe. Tem dinheiro para contratar duzentos investigadores e sobra ouro o suficiente para mais trezentos, se estiver afim — disse enquanto descia pelas escadas.

A casa era tão forte quanto se pode imaginar: do lado de fora, o prédio parece um celeiro monstruosamente grande, com teto de telhas e tinta vermelha brilhante. De dentro, no entanto, ele pode ver que foi claramente projetado como um casarão burguês: o teto se retrai em um par de poderosos braços de metal. No meio do salão havia uma lareira gigante lançando suas chamas para cima enquanto as madeiras crepitavam suavemente, em seu entorno havia um grande banco circular acolchoado, grande o suficiente para abrigar e aquecer um bando de gente. A comida era farta, o suficiente para viver meses isolado lá dentro, havia provisões de todo tipo.

— Lorde Leopold... imploro por sua ajuda — disse a velha.

— De nada me importa suas súplicas se não se importa com as de seu povo. Permita-os entrar, cuide-os, dê-lhes casas, e eu ajudarei. Isso é mais do que você merece, senhora, considerando que essa é sua obrigação como baronesa. Também quero suprimentos para os Guardiões.

— Tudo bem! Farei isto, mas, por favor, ache o assassino do meu irmão — ela pedia quase como se fosse ajoelhar.

— Acharei. Mas tem de abrir os portões agora. E não se engane, senhora, não sou assassino e nem mercenário. Irei achar o assassino do seu irmão, mas não significa que lhe darei ele para que faça o que quiser. Será uma justiça imparcial, terá um julgamento — ele impôs com um tom de voz sério, e uma crosta de cabelos cinzentos caindo sobre o olho direito.

— É tudo o que mais quero Lorde Leopold... justiça.


Notas Finais


Obrigado por lerem, espero que tenham gostado.


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