História Acima de tudo - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Tags Época, Flor Da Índia, India, Inglaterra, Romance
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Palavras 5.384
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Famí­lia, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Estupro, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Ia pedir desculpa por estar atrasada, mas isso é basicamente meu dia a dia kkkkkkkkkkkkk

Galera, estou empacada em flor da Índia, e como esse capítulo estava quase pronto, terminei ele pra vocês não me matarem.

Espero que gostem, é um ENORME capítulo de transição.

Capítulo 2 - Sim!


 

Observei minha imagem no espelho:

Um vestido simples adornava meu corpo, sem grande armação, um corpete trançado azul com mangas compridas, um coque alto, rosto lavado.

Era isso que o espelho refletia, era isso que eu refletia.

Simples, recatada.

Passei as mãos pelo rosto, elas estavam frias, e arranharam minha pele seca.

Eu queria ter a pele macia como Annabelle, ou suave como Harryet, mas o tempo não fora tão generoso comigo, eu não era tão bonita quanto elas, mas isso já era esperado, que eu fosse inferior, já estava acostumada com essa probabilidade a muitos anos.

Suspirei, claro que sim.

Uma batida na porta me despertou dos devaneios, ainda estava escuro, então isso só podia ter algo haver com Naveen.

Abri a porta receosamente e encontrei uma mulher indiana, ela tinha a pele caramelo e os cabelos trançados de modo simples.

- Senhora.

Eu estava nervosa, não ia mentir, estava muito nervosa, nunca havia visto um duelo de perto, e não sabia como funcionaria, mesmo que eu conhecesse as regras, ainda me era algo completamente novo.

A mulher tinha uma capa nas mãos, uma capa vermelho tijolo, discreta e simples, peguei a capa de suas mãos e prendi o grampo no pescoço, olhei de novo o reflexo, parecia que algo estava errado, puxei o capuz sobre a cabeça, ainda estava errado, nós estávamos quebrando algumas regras ali, então parecer exatamente como eu era todos os dias não me parecia certo.

Se eu pudesse, teria usado um vestido mais bonito, mas não os possuía, então meu pequeno ato de rebeldia teria que quebrar meus próprios parâmetros.

Levantei as mãos e puxei os grampos do meu cabelo, os pequenos objetos de ferro batiam no chão de mármore e tilintavam suavemente, as madeixas caíram pesadas e onduladas até meu quadril.

Não conseguia me lembrar da ultima vez que meu cabelo esteve solto durante a luz do dia, sentia falta de passar a mão nos fios.

Joguei meu cabelo para frente e puxei novamente o capuz sobre o cabelo, e amei o que eu vi, parecia rejuvenescida, me sentia mais forte, me sentia quase poderosa, pela primeira vez em anos não via o reflexo de minha mãe no espelho, olhando dessa forma eu quase parecia com Harry.

Então me senti pronta.

Saí com a serva e caminhamos pelos corredores vazios do palácio, ainda era muito cedo e os únicos acordados eram criados aqui e ali, que não parecia se importar conosco, de tão focado que estavam cada um em suas respectivas tarefas.

Nós passamos discretamente pela lateral, de dava nos jardins e encontrei uma carruagem do palácio esperando por mim, parei na porta, respirei fundo, e entrei.

Nesses dois dias que haviam se passado, o mundo parecia girar de forma frenética, Annabelle e seu rei decidiram ir embora do palácio depois do ataque a meu sobrinho, mas havia alguma outra coisa acontecendo, eu podia sentir o cheiro de encrenca no ar, mas não conseguia saber exatamente o que estava acontecendo.

Assim que a porta se fechou, meus olhos se adaptaram a luz e percebi que não estávamos sozinhas, Naveen e um outro homem moreno estavam conosco, meu coração bateu descompassado por um milésimo de segundo antes de eu lembrar a mim mesma que estava tudo bem, de que nós estávamos seguras.

Ninguém disse nada, o clima estava gélido e enevoado, espiei Naveen discretamente, ele não parecia apreensivo ou agitado, na realidade sua expressão era de tédio e sono, como se não entendesse o real motivo de estar ali, e talvez ele não entendesse mesmo, talvez o que para mim fosse uma chance de limpar minha honra, para ele seria apenas uma brincadeira, uma diversão fácil.

Balancei a cabeça de leve, eu tinha essa mania de me alto sabotar, de criar situações onde eu pensava no pior cenário possível de cada situação, e se caso fosse verdade, não me decepcionaria tanto.

- Você tem certeza? - Ousei perguntar.

Os olhos de chocolate de Naveen se vivaram em minha direção.

- Sim. - Respondeu simplesmente.

A carruagem parou com um pequeno solavanco e logo em seguida um criado abriu a porta, minha pequena dama de companhia desceu e me esperou fielmente. Não estava acostumada com aquele tipo de criadagem.

Mas para os homens a minha frente, nada parecia fora do comum, pensei em como eles deveriam viver na Índia, suspeitava que apesar de tudo o que diziam, aquelas pessoas não viviam como animais e muito menos esbanjavam pouco luxo.

- A senhorita está bem? - O homem que eu não conhecia me ofereceu a mão, ele possuía cicatrizes de queimadura no rosto, e não parecia realmente interessado na resposta, na verdade, sua expressão era de uma pessoa triste e perdida.

Concordei com a cabeça.

Desci da carruagem e uma lufada de ar frio beijou minhas bochechas e isso me fez agradecer internamente por Naveen ter oferecido uma capa.

Era uma planície comum, sem grandes atrativos, apenas uma grande área verde ao céu aberto, sem obstáculos grandes no caminho, em resumo, um lugar ideal para um duelo.

Havia três outras carruagens a nossa espera, e eu reconhecia duas delas como as da casa do duque e a da casa Hampford, a terceira, mas simples e sem atrativos, provavelmente pertencia ao medico que cuidaria de quem fosse preciso.

Assim que nos aproximamos, senti o olhar de Edward em cima de mim, e comecei a me arrepender de ter solto o meu cabelo, quando senti seu olhar sobre as madeixas.

"Não olhe para mim, você não tem esse direito" Minha mente gritava.

Pude perceber que todos estavam espantados por eu e a dama estarmos ali, no entanto, por mais que isso fosse curioso, até mesmo ultrajante, ninguém disse nada.

- Então o senhor veio. - Victor estava sentado em cima de uma pedra lisa.

 

- Não perderia isso por nada. - Naveen retirou uma espécie de casaco escuro e ficou somente um o camisão de linho branco que tinha por baixo. - Mas me perdoem por não ter muito tempo. Quais as armas escolhidas?

Victor sorriu de maneira afetada, quase não acreditando nas palavras do indiano.

- Para mim, escolho espadas. - Seus lábios de anjo de abriram de modo cruel. - Pensei em usar pistolas, mas apenas um tiro não é o suficiente.

- Muito bem.

O padrinho de Victor abriu uma caixa longa, contendo duas espadas finas e de aparência afiada, como os desafiados, tanto Victor quanto Edward escolheriam as armas.

Naveen pegou a espada de frente para ele, e Victor fez o mesmo, então ambos deram um passo para trás.

O juiz se aproximou.

- Os senhores estão aqui no referente a um crime de honra cometido pelos Senhores Edward de Raaf e Victor Hampford para com a senhora de Naveen Dahale. Todos conhecem as regras, lutem justamente, sem truques, o duelo deve terminar com o primeiro derramamento de sangue, ou assim que o ofendido se sentir finalmente limpo da ofensa, dito isso, dois passos para trás e podem começar.

Meu peito doeu só um pouquinho ao ver aquela situação, sabia que Victor e Edward lutavam sempre no clube de esgrima e eram hábeis lutadores.

No entanto, para minha surpresa, ou não, Naveen fez o primeiro corte no braço de Victor nos primeiros vintes segundos, o juiz sinalizou o sangue, mas quando Naveen me olhou, fiz um sinal negativo com a cabeça.

Ainda não era o suficiente, então ele voltou a atacar e feriu a barriga lisa do homem, que começou a verter um rio vermelho, o juiz sinalizou novamente, e novamente, e novamente.

Não haviam se passado nem trinta minutos e o corpo antes imaculado de Victor agora estava cheio de cortes.

Seus olhos estavam vidrados, ele mal conseguia ficar de pé, havia fincado a espada no chão e estava tentando se levantar forçando o corpo para cima.

O juiz sinalizou quel se um padrinho quisesse interferir e tomar a posição de Victor, poderia, mas ninguém se moveu.

"Então ambos morrerão." A voz do indiano ecoou em minha cabeça.

Ele não estava mentindo, parecia completamente bem e não havia sequer suado.

Me olhou mais uma vez.

Meu corpo vibrava, a adrenalina da morte estava tomando conta de mim com uma nova perspectiva. Pela primeira vez na minha vida, não queria salvas alguém.

Balancei a cabeça de novo.

Mas antes que Naveen fizesse algum movimento, vi o sol reluzir em alguma coisa logo atrás dele, e me deparei com Edward com uma pistola apontada para Naveen.

Ele deve ter visto o desespero em meus olhos porque logo se virou, encarando o cano da arma a menos de três metros de si, era uma armadilha.

Eles sabiam que Edward faria isso, os padrinhos sabiam disso, fora tudo planejado, eles queriam Matar Naveen e só Deus sabe o que fariam comigo quando isso acabasse.

Olhei para trás, buscando auxílio o homem que viera conosco para ser o padrinho de Naveen, ele estava sentado nos degraus na carruagem, parecendo dormir.

Não!

Se ele morrer, se ele morrer por minha causa...

- Senhor, senhor, acorde. - Sacodi seu corpo.

Ele se remexeu, e abriu os olhos devagar.

- O que foi? - Bocejou.

- É uma armadilha, vão mata-lo. - Apontei.

Ele levantou a cabeça, com um ar desinteressado e viu o amigo com uma arma apontada para o peito.

- Ah...sim, parece que sim. - Voltou a fechar os olhos. - Isso vai ser meio chato, já vi ele morrer algumas vezes, mas tente não ficar chocada, sem choros e bla,bla,bla...

E como se nada houvesse acontecido, voltou a ressonar.

- É melhor você não errar, garoto. - A voz de Naveen desviou minha atenção. - Porque você só tem uma bala, e se ela não me derrubar, vou matar você.

Os homens a volta daquele espetáculo de horror pareciam desconfortáveis com a falta de temor do indiano.

As mãos de Edward começaram a tremer, isso fez Naveen sorrir.

- Atira nele. - Victor gritou, cuspindo sangue. - Atira nele agora.

Eles não podiam fazer isso, por que ninguém impedia?

- Ouviu seu amigo. - Naveen deu um passo a frente. - Não deixe a mão tremer, você não quer errar.

Continuou andando lentamente.

- Respire fundo, foque no seu alvo, segure com as duas mãos, assim...

Um estampido se ouviu, alto e surdo por toda planície, um bando de pássaros alçou voou.

A bela camisa de linho de Naveen agora possuía uma flor vermelha no peito.

Ele cambaleou para trás, e caiu em cima de um joelho.

Chocada, corri em sua direção sem me importar se o duelo fajuto havia ou não terminado, mas antes que eu conseguisse tocar em Naveen, ele se ergueu e tão rápido que não pude acompanhar, transpassou Edward com sua espada.

O sangue espirrou em meu rosto e vestido, como quando eu trabalhava de enfermeira e a carótida de um paciente estourou durante uma cirurgia.

Paralisei no lugar, sangue no rosto, no cabelo, no nariz, na minha língua. Edward caiu no chão com um olhar de espanto cravado no rosto.

Naveen olhou para o juiz.

- Me sinto limpo da ofensa. - Jogou a espada no chão. - Espero que a partir de hoje, saibam que a senhorita Thompson é uma mulher honrada.

Então os padrinhos correram para socorrer cada um seu respectivo amigo.

Enquanto Naveen se virava para mim, a mancha em sua camisa já descera para as calças e agora parecia que ele havia derramado vinho nelas.

Ele começou a caminhar, e passou por mim como se eu não estivesse ali, ele voltou para a carruagem onde o amigo dormia e chamou o cocheiro, avisando que partiríamos.

Demorei um tempo para processar.

Acabara.

Menos de uma hora depois de começar o duelo, acabará, aqueles homens não poderiam falar mais de mim ou manchar minha reputação.

Acabara.

Tão fácil assim?

Acabara.

Naveen gemeu um pouco quando entrou na carruagem, mas não disse nada, ele não reclamou, mesmo que seu ombro contraísse involuntariamente e o braço parecesse dançar com as cãibras.

O tiro era perto do ombro e provavelmente atingira o músculo, precisava ver isso urgentemente, mas não achava que ele fosse em um médico convencional.

- Achei que você fosse morrer. - O homem com a queimadura no rosto bateu no braço ferido do amigo. - Seria uma pena, mas eu não iria derramar uma única lágrima por você.

- Eu sei. - Ele trincou os dentes. - Não se preocupe, também sentiria sua falta.

Aquela conversa continuou por todo o percurso, e eu estava em choque demais para conseguir me concentrar em qualquer coisa que não fosse uma espada transpassando Edward de Raaf, bem no peito, sangue...sangue...sangue...

- Aqui.

Pisquei.

Naveen me oferecia um lenço bordado.

- Você precisa mais do que eu. - Minha voz estava arranhada. - Pressione contra a ferida.

- Tem sangue no seu rosto Libby.

Estendi minha mão, elas estavam tremendo muito, recuei e as fechei no colo.

Minha dama pegou o lenço e começou a limpar meu rosto lentamente, balancei a cabeça e agradeci internamente por ela não se meter ou fazer perguntas.

Quando chegamos ao palácio, o homem das queimaduras desceu sem grandes esforços e foi embora, sem ajudar o amigo.

- O que posso fazer? - Perguntei.

- Nada. - Naveen desceu logo depois de mim. - Vou dar um jeito nisso.

Fiquei em silêncio, o que ele ia dizer agora? O que cobraria de mim? O que iria requerer?

- Cumpri minha promessa. - Ele segurou o braço. - Sua honra está limpa.

- E o que quer?

Ele franziu o cenho.

- Que vá para seus aposentos, se limpe e descanse, espero que as coisas mudem agora.

- O que devo fazer por você?

Naveen se aproximou de mim.

- Eu disse antes, faço tudo para que a família do meu rei fique bem, fiz minha parte, agora acabou.

Mordi os lábios.

Ele deu as costas e saiu, vi gotas de sangue se formando na ponta dos dedos e pingando no chão.


 

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Quando entrei no meu quarto e sentei na cama, o espelho ainda estava lá, me encarando.

Refletindo a imagem de uma mulher, mas eu não a conhecia, não mais.

Ela parecia...selvagem.

Os cabelos dela estavam bagunçados, sua pele um pouco vermelha, havia sangue em suas roupas, ela estava tremendo.

Ela já havia visto sangue antes, então porque aquela imagem não saía da minha cabeça? Por que não conseguia esquecer a expressão vidrada de Edward?

A criada entrou logo atrás de mim e me ajudou a tirar o vestido, de repente, entendi o porque das mulheres não irem a duelos.

Retiramos o vestido e ela o colocou na lareira, fez uma quantidade terrível de fumaça, mas quando virou cinzas, levou com elas todo vestígio daquela manhã, quanto a criada, se ela notou meu estado, nada disse, e fiquei grata sobre isso.

Será que Edward havia morrido?

Será que finalmente ele compareceria ao tribunal de Deus pelo que me fizera?

Balancei a cabeça.

Não iria pensar nisso, não iria pensar nele, em nenhum dos dois, nunca mais eles teriam minha atenção, ou meus pensamentos.

Naquele momento percebi que eu deveria pensar era em Naveen, em como ele salvara minha honra e em seus dedos com gotas de sangue.

Me levantei devagar e peguei minha maleta médica, eu devia ir?

Olhei para a moça indiana no canto do quarto, eu devia muito a Naveen, e não gostava dessa sensação, se eu pudesse ajudá-lo e diminuir minha dívida, eu assim o faria, mesmo que isso custasse minha honra recém adquirida.

Pedi que ela ficasse e saí pelo corredor, o dia estava cada vez mais claro e isso significava novas pessoas andando por todos os lados.

Encontrei algumas pessoas, se nobre ou não, eu não ligava, havia voltado a ser transparente, roupas recatadas, cabelos presos, olhar baixo, eu estava de volta.

Bati na porta que eu sabia que era de Naveen, mas não obtive resposta, girei a maçaneta e senti o cheiro de sangue.

A lareira estava acesa e também havia cinzas queimando ali.

- Naveen?

Sem resposta.

Ouvi uma movimentação no corredor então entrei rapidamente.

A porta do trocador se abriu e ele apareceu, vestindo apenas um calção escuro, o peito vertia sangue.

Assim que me viu, ele pareceu surpreso.

- O que?

- Vamos cuidar disso. - Apontei. - Sente-se aqui.

- Libby, acabou de ganhar sua honra...

- Sou uma enfermeira. - O cortei. - Vim cuidar de um paciente.

Acho que ele ia protestar, mas a perda de sangue o estava deixando fraco.

Naveen caiu pesadamente na cama.

A luz não estava muito boa, mas era o suficiente para começar a trabalhar.

Desinfetei o local, estava bem feio, um buraco grande e feio, então peguei uma pinça e retirei os pequenos vestígios da bala na ferida.

- Achei que morreria quando ele atirou. - Olhei de relance para seu rosto, ele nem parecia sentir a dor.

- Aqueles homens podem ser considerados bons em comparação a outros ingleses, mas eu fui forjado no fogo, já estive em guerras, lutei com mercenários, homens nascidos para matar, para falar a verdade toda aquela encenação na verdade foi injusto com eles.

Não pude evitar sorrir um pouco.

- O que foi isso?

Levantei os olhos.

- O que?

- Essa coisa estranha na sua boca? - Ele se inclinou um pouco. - É um sorriso?

Franzi os lábios.

- Não estou sorrindo. - Pigarreei - Fique quieto, vou suturar.

Comecei a costurar o ferimento o mais rápido e precisamente que pude, Naveen era um homem estranho, e parecia despertar sentimentos estranhos, isso era perigoso.

- Então... O que pretende fazer no futuro?

O sangue escorria dentre meus dedos enquanto a linha de sutura juntava os pedaços de carne.

- Isso depende. - Suspirei. - Se Harry se casar com o doutor americano, vou morar no interior, tenho juntado algum dinheiro, vou conseguir viver por alguns meses, então pensei em procurar um hospital ou um convento para me alistar, se Harry não ficar com ele, vou me esforçar para ficar o mais perto de casa, para ajuda-la no que for preciso, até que consiga um bom marido.

- Não pretende se casar também?

Neguei com a cabeça.

- Não sou tão iludida quanto Harryet para pensar que o amor está na próxima esquina, esperando o momento certo para me encontrar. - Peguei um retalho e comecei a limpar o sangue que havia escorrido por seu tronco.

E uma coisa era certa, aquele tiro não seria a primeira cicatriz que ele teria, a parte superior de seu corpo estava coberta de cicatrizes antigas, proveniente das tais guerras que ele dissera lutar, eu esperava.

- Não. - Continuei. - Não acho que alguém irá querer se casar comigo algum dia, e se acontecer, só aceitarei se for um contrato interessante.

Joguei a bandagem coberta de sangue em um pequeno saco de couro.

- Terminei. - Me coloquei de pé. - Beba bastante água, coma coisas com bastante nutrientes, e creio que estará novinho em alguns dias, teve sorte de Edward ser tão ruim de mira quanto é de personalidade, não acertou nenhum órgão e não destruiu seu ombro.

Peguei minha maleta e me dirigi a porta.

Hesitei.

- Eu...Bem...Obrigada. - Olhei para trás. - Não vou esquecer o que fez por mim, e por minha família.

Toquei a maçaneta.

- A senhorita...

Esperei que ele terminasse.

- Sim?

- Bem, eu não sei como dizer isso de modo menos prático. - Me virei para ele.

- O que foi?

Ele ergueu o rosto, suas cicatrizes brilhavam levemente na luz da lareira.

- A senhorita podia casar comigo, se quisesse.

Arregalei os olhos.

O que?

Ele...ele estava me propondo casamento?

- Está brincando. - Concluí.

- Não. Escute. - Naveen se levantou, com alguma dificuldade. - Eu e você temos noção que não somos exatamente o que se encaixa no convencional e entendemos que o amor é apenas um conto de fadas para crianças dormirem. Então essa é minha proposta: Você seria ainda mais respeitada, e não dependeria do dinheiro de Annabelle para viver, na Índia, poderia ter acesso a livros e conhecimentos médicos que os hospitais e conventos daqui sequer sonham em ter, então poderia exercer sua profissão com maestria e ao mesmo tempo, ter a reputação imaculada da esposa do irmão do rei.

Abri minha boca.

- E não se preocupe com minhas necessidades ou algo assim. - Ele me interrompeu. - Tenho uma concubina e ela é uma mulher muito doce, nosso casamento seria mais uma forma de tanto eu quanto você sermos beneficiados de modo que agora não podemos ser, porque eu preciso de uma esposa, um homem divorciado não é bem visto, da mesma forma como um solteiro não é, em minha cultura, um homem sem uma esposa não é um homem completo, então terei meu respeito de volta, ao tempo em que poderei finalmente ter conversas interessantes com alguém que não me olha com nojo ou pena.

Sua respiração estava acelerada, quase como se ele houvesse gastado um tempo pensando naquilo e não queria que eu o interrompesse antes que expusesse tudo em que havia pensando.

Um nó se formou em minha garganta.

- Eu... - Engoli em seco. - Eu agradeço sua gentil oferta, mas a resposta é não.

Na verdade, era uma proposta incrível, melhor do que eu poderia sonhar, mas...não podia enganá-lo.

Me virei para sair.

- Espera. Espera...- Naveen segurou meu ombro. - Pelo menos me diga o porquê.

Minhas mãos apertaram a maleta contra meu peito.

- Porque...

- Libby?

Ao ouvir meu nome, levantei a cabeça, a imagem que eu vi era diferente de tudo o que costumava encontrar em Londres.

- Porque quando você souber a verdade, me recusará. - Murmurei. - Apenas o estou poupando dessa dor de cabeça.

- Isso seria impossível, nós seremos parceiros, amigos.

- Não...Não seremos. - Balancei a cabeça. - Por favor, me deixe ir.

Não me faça contar o motivo pelo qual vai me odiar.

- Por que está dizendo isso? Está parecendo que minha proposta não é o problema.

- Não é. - Deixei bem claro. - Não a nada de errado com que me propôs.

- O que tem de errado então?

-...

- O que?

- ...

- Libby, não consigo ouvir.

- Edward e Victor...eles são o erro.

- Achei que eles fossem assunto resolvido.

O que eu estava fazendo?

Por que essa necessidade de ser sincera?

Não conseguia me lembrar da ultima vez que havia sido sincera com alguém sobre meus sentimentos.

- Não são...

Com a mão boa, Naveen me fez olhar para ele.

- Por que?

Respirei fundo.

- Porque eu estou grávida.

Vi muitas coisas passarem por seus olhos: Surpresa, dor, espanto, agonia, ódio, desespero, raiva.

- O...O que? - Seus olhos desceram até minha barriga. - De quem?

Dei de ombros.

- Quando isso aconteceu?

Meus olhos se encheram de lágrimas.

- Eu estava... tratando da irmã de Edward a alguns meses atrás quando ele em viu. - Minha voz estava estrangulada. - Alguns dias depois mandou me chamar em sua casa alegando estar muito doente, mentira, apenas queria um motivo para ficarmos a sós, quando me assediou, em retirei da casa o mais rápido possível e garanti que nunca mais fosse chamada...

- Acho que ele não gostou da rejeição, pois pouco tempo depois, recebi um recado de uma casa rica, me pareceu uma ótima oportunidade. - Senti meu corpo se arrepiar ao me lembrar desse pesadelo. - Eu sabia que a família Hampford era parente dos De Raaf, mas não pensei que aquela fosse ser uma armadilha...

Parei, de repente, me sentindo sem fôlego.

- Não vou...eu não vou contar o que aconteceu...você já pode imaginar. - Minhas unhas arranharam meus braços tentando afastar as más memórias. - Edward estava lá e ele...eles me...os dois...

Uma lágrima teimosa escorreu do meu rosto, meus lábios estavam tremendo.

- Enfim, quando isso aconteceu, senti tanto nojo de mim, do que eu havia me tornado, queria partir e não olhar novamente o rosto do meu pai e da minha irmã... No entanto, seguindo meu exemplo, Harry queria se tornar enfermeira também, mas meu pai disse que não podíamos ser as duas, que uma precisaria cuidar da casa, por isso... - Minha voz falhou. - Eu...Eu voltei para as ruas, ainda ajudando em alguns conventos e em hospitais, estava cuidando de casas mais simples também...

A bile me subiu a garganta, pensar naquelas cenas me fez lembrar de todo nojo que eu senti de mim mesma, do meu corpo e das vontades humanas.

Levantei os olhos e encontrei Naveen parecendo completamente perdido, mas eu sabia como aquilo iria terminar.

- Se eu soubesse. - Ele rosnou. - Se tivesse me contado, teria mandado os dois para arderem no fogo do inferno da forma mais dolorosa possível...eu...eu teria...

Naveen me olhou, de repente, se dando conta da total extensão de minhas palavras.

- Eu...Eu acho melhor eu sair agora. - Murmurei.

Ele pareceu despertar com essas palavras, hesitou, queria dizer algo, mas não disse.

- Tudo bem. - Concordou.

Minha garganta trancou de uma forma que eu não esperava.

Minhas mãos tremiam tanto que os utensílios de metal tropicavam dentro da minha bolsa.

Eu já sabia que isso iria acontecer, nenhum homem são aceitaria criar o filho de outro homem. Era esperado, por isso eu havia dito a verdade.

Fui para meus aposentos e fechei a porta.

Tudo bem.

Eu iria ficar bem, disse a mim mesma quando comecei a chorar.
 

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Os dias foram se passando e nós saímos do palácio, o rei de Annabelle comprou uma enorme propriedade mais ao norte de Londres, sabia que eles estavam com medo de um novo ataque a família real, então nós nos mudamos para lá tão rapidamente que quase não consegui acompanhar a mudança.

Aceitei o fato de que precisávamos ficar todos seguros, pois o clima estava extremamente pesado e não parecia que ia melhorar.

E eu fiz o que eu fazia de melhor, coloquei uma expressão séria no rosto e fingi que estava tudo bem.

Não vi Naveen, seja lá o que estivesse fazendo tive certeza de duas coisas: Ele não havia contado do duelo a ninguém, e também não havia contado sobre a minha gravidez, e nas duas ocasiões estava feliz por isso.

Quanto a reação dele, era completamente normal, eu não o culpava, homens eram assim, pessoas eram previsíveis, e o erro era meu em pensar que daria certo um casamento por conveniência.

Eu estava fadada a ir para o interior, fingir que eu era viúva de algum soldado e criar essa criança.

Não, eu não era uma santa, havia pensando em inúmeros procedimentos onde eu me livraria do bebê, mas a culpa do pecado que eu já havia cometido me fez andar para trás, e por mais que eu quisesse me livrar do problema, não podia me afogar na agonia de cometer um assassinato, se meu corpo era impuro, não podia violá-lo mais uma vez para cumprir meus caprichos.

No entanto, o assunto do momento não era mais eu, como sempre precisava me colocar de lado e pensar em quem era mais importante: Harryet.

O médico havia pedido a mão dela em casamento, todos estavam completamente felizes com isso, inclusive eu.

Minha pequena gêmea, minha irmã mais nova poderia ser feliz, ela viajaria o mundo, meu pai poderia ir com eles e eu terminaria minha vida como havia planejado desde o começo, com uma criança, em um pequeno chalé.

- A senhorita está bem?

Me assustei.

Estava sentada na biblioteca, pesquisando atualizações sobre alguns métodos para tratar infecções.

- Naveen. - Não nos víamos a quase uma semana. - O que o traz aqui?

Ele parecia nervoso, agitado, estava sem seu turbante, rosto a mostra, o que era uma coisa rara.

- Precisa de alguma coisa? - Eu devia me colocar de pé?

- Podemos conversar?

Concordei de leve, então ele se sentou na minha frente.

Colocou as mãos sobre a mesa, estralou os dedos, pigarreou, então inspirou profundamente.

- Eu...eu só queria dizer que minha proposta ainda está de pé.

Senti minha boca seca.

- Não. Não está.

Ele sorriu minimamente.

- Acho que posso decidir sozinho se estou ou não pedindo uma mulher em casamento.

Tentei ficar calma, não me descontrolaria por causa de um homem, de novo não.

- Talvez o senhor tenha machucado a cabeça durante a mudança e não se lembre de tudo o que conver...

- Estou ciente da sua...condição. - Ele olhou em volta preocupado. - E isso significa mais do que tudo que precisa de um pai para essa criança, não é mesmo?

Discutiríamos mesmo isso?

- Sim, eu preciso, mas nenhuma pessoa sã assumiria responsabilidade por isso. - Murmurei, irritada.

- Estou disposto a fazê-lo.

Encarei seus olhos chocolate, Naveen não parecia estar brincando.

- Pense nisso, um sobrenome para a criança e uma garantia de um futuro honrado para você.

- Por que você faria isso? - Perguntei finalmente. - Não me parece um ganhador da loteria se casando com uma mulher grávida de outro homem.

- Você mesma disse que somente se casaria se a proposta fosse boa. - Deu de ombros. - Eu não vou mentir, pensei em escolher outra pessoa, na verdade, reneguei totalmente a ideia de fazer algo parecido com isso, mas...estive pensando esses dias, do que adianta proteger a sua honra, apenas para que meses depois ela seja jogada na lama? Não. Não posso permitir que a senhorita passe por essa humilhação, não depois do que eu me arrisquei para fazer.

- Você disse que o duelo havia sido fácil. - Ergui a sobrancelha, desafiando.

- E foi, o grande desafio foi esconder isso do meu rei.

Balancei a cabeça, finalmente entendendo.

Então novamente essa era uma possibilidade? Eu poderia ter um futuro melhor do que o esperado?

- Tenho algumas condições.

Ele fez um sinal com a mão para que eu prosseguisse.

- Nada de relações conjugais, eu quero meu próprio aposento, e quero continuar cuidando das pessoas...

Naveen aguardou um pouco, como não continuei ele começou a anotar o que eu dissera.

- Não se preocupe, tenho uma concubina, acho que já lhe disse isso antes, então não se preocupe com isso, quanto aos seus aposentos, Annabelle designará um para você assim que chegar, e pode perfeitamente exercer sua profissão, não me importo com isso. - Ele ergueu a cabeça. - Mas também tenho algumas condições a serem consideradas.

- Fale. - Pedi.

- Apesar de esse não ser um casamento com todas as suas funções, não irei tolerar qualquer tipo de adultério, então se em algum momento sentir que seu coração pertence a alguém, conversaremos e terminaremos isso legalmente. - Me encarou, concordei com isso. - E essa criança, sendo menino ou menina, nunca, jamais saberá que eu não sou seu pai, para qualquer curioso ou familiar, nós a fizemos juntos, entendido?

- Sim.

Essa era um cenário muito melhor do que eu imaginara.

- Tirando isso, nosso convívio será de sócios, nossas interações mais intimas se darão em público, mas no nosso dia a dia, seremos cordiais, sentaremos para conversar, viajaremos quando pudermos, e criaremos essa criança, junto com meus dois outros filhos de maneira igualitária.

De repente, me dei conta de algo.

- Você tem filhos?

Ele concordou.

- Três meninos, um está na guarda do primeiro príncipe, os outros dois ficaram por causa do treinamento.

- Me perdoe, não sabia que você era viúvo.

Não se se ele sorriu por minha forma informal de falar ou pelo "viúvo".

- Eu não sou. - Naveen esfregou o rosto. - Ela gostava de mim porque eu era forte e bonito, e bem...quando deixei de ser isso, ela deixou de gostar de mim, não suportava me olhar nos olhos, não suportava sequer minha presença, então parei de vê-la, quando percebi, ela havia ido embora, sequer brigou pelas crianças, simplesmente foi.

Não era muito boa expressando sentimento, mesmo assim, consegui estender minha mão e tocar a dele.

Isso pareceu desperta-lo de alguma maneira.

- Então...- Continuou. - Eu terei uma esposa e a senhorita terá um futuro garantido, com todas as complicações que essas condições trazem, está disposta?

Não precisei pensar.

- Sim!


Notas Finais


E aí, será que o casório está certo?


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