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História Adore You - Harry Styles - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Lights Up


No dia seguinte, Maria acordou com o sol iluminando a sala. A janela posicionada logo atrás do sofá, agora, estava aberta e permitia que o sol invadisse todo o cômodo. Era 8 de setembro e o verão se despedia lentamente dos habitantes de Eroda, e, apesar de essa ser uma época extremamente chuvosa, hoje, o sol atingia seu ápice. Com dificuldade, abriu os olhos e sentou-se no sofá, sentindo uma fisgada no pescoço. Torcicolo. Praguejou Harry mentalmente de todos os nomes imagináveis.

— Sofá — resmunga ela, esfregando um lado do pescoço. — Isso é uma piada. Se ele queria dormir comigo poderia ter, pelo menos, me levado para a cama dele. Era o mínimo.

Suas reclamações, porém, cessaram no momento em que pôs os olhos na mesinha de centro. Em cima dela haviam, basicamente, cinco coisas, mas apenas duas prenderam sua atenção: um bule com chá fumegante e um bilhete escrito à mão:

"Aqui está o chá como o prometido. 
Eu volto já! 
PS: ao lado da chaleira há um pequeno açucareiro, caso mude de ideia."

Maria não pôde conter o sorriso formando em seus lábios. É claro que ele não esqueceria o chá. Encheu a xícara até a metade com o líquido contido no bule e completou com leite, sentindo o aroma invadir suas narinas.

— Vindo da Inglaterra — ela diz levando a xícara próximo ao nariz, sentindo o aroma novamente. — Yorkshire Tea. Boa escolha, Harry! — elogia para as paredes, dando o primeiro gole e fazendo uma careta de desgosto logo em seguida. — Açúcar!

Uma risada se faz audível. O som que vem da cozinha é abafado, com certeza, pelas mãos de Harry, porque este aparece logo em seguida na porta, tapando a boca com as mãos.

— Eu disse sem açúcar! — ela finge estar brava, pousando a xícara novamente sobre a mesa e balançando a cabeça negativamente. — Estou decepcionada.

— Como você soube? — Harry diz liberando um pequeno espaço sobre a mesinha para se sentar.

— Diríamos que tenho um paladar apurado — responde orgulhosa. — Na verdade, não precisa ser nenhum expert para notar o gosto do açúcar. É impossível não notar. Ele tira toda a essência do chá.

— Espera um momento, deixa eu ver se entendi direito — ele pondera pasmo. — Você adiciona leite ao chá e está me dizendo que é o açúcar que tira sua essência?

— Claro? — retruca boquiaberta. — O leite não tira o sabor do chá, ele é apenas um complemento. Já o açúcar se mistura ao sabor de qualquer coisa que ele toque, tirando sua essência e dando outro gosto. Em outras palavras, muda o sabor dos alimentos.

Harry fica em silêncio por um tempo, pensando no melhor argumento para dar. Discutir assuntos não importantes com Maria, estava se tornando um de seus passatempos preferidos. Era engraçado e ele gostava da sensação de ter alguém discordando de suas ideias, refutando seus melhores argumentos e, principalmente, se importando.

— Isso é um insulto ao açúcar — Harry defende, fingindo ofensa. — Ele apenas realça o sabor dos alimentos, não muda completamente.

— É mesmo? — ela diz levantando uma sobrancelha. — Então venha comigo, eu vou te ensinar a fazer um chá descente e depois você me diz se continua com a mesma opinião. — Ela levanta e estende a mão para ele, que não tarda em retribuir o gesto, apertando a mão da mulher e acompanhando-a até a cozinha.

Ao contrário do que Maria esperava, a cozinha de Harry era extremamente organizada e bem limpa. Talvez o único cômodo planejado da casa. Os armários eram bem dispostos pelo local, o fogão e a geladeira habitavam locais estratégicos e, bem no centro, havia uma pequena ilha que tornava a cozinha bastante funcional. A garota contempla a cozinha com uma espécie de adoração.

— Eu vou me mudar para cá — ela diz suspirando.

— O que você esperava? — Harry pergunta olhando para a garota com divertimento.

— Não sei exatamente, mas eu com certeza não esperava ver aquela pia vazia — responde tirando uma risada de Harry.

— Vasilhas sujas ocupam muito espaço e dificultam na hora de cozinhar — ele explica enquanto abre um dos armários tirando uma caixa de Yorkshire Tea de dentro dele. Maria nota que, além do chá, não existem muitas outras coisas ali, mas não comenta nada.

— Então você cozinha? — ela pergunta interessada.

— Eu moro sozinho, então tive que aprender a me virar — ele dá de ombros, enquanto tira uma chaleira de outro armário, entregando-a à Maria.

— E você gosta? — ela indaga, enchendo a chaleira com água. O questionamento faz Harry sorrir. Essa era uma pergunta inédita. As pessoas nunca perguntavam sobre seus gostos.

— Sim, eu gosto — ele responde sincero. — É um dos meus passatempos favoritos, e eu não tenho muitos.

— E quais são seus passatempos favoritos? — ela pergunta desviando sua atenção do chá e focando-se em Harry ao seu lado. Ele não confessaria a ninguém, mas, por alguns instantes, chegou a se questionar sobre as reais intenções de Maria. Por que ela se importava? Esse interesse súbito era incomum, e esse tipo de atenção gratuita o assustava.

— Quem sabe um dia você descubra... — ele diz em tom de falso mistério, dando um sorriso ladino. Maria abre a boca para dizer algo, mas, no mesmo instante, a chaleira começa a apitar, fazendo a mulher dar um pequeno pulinho para longe do fogão e colidir com Harry. Eles se entreolham assustados e logo em seguida começam a rir descontroladamente, ao ponto de Harry curvar-se para frente com as mãos na barriga.  

Ao passo que o chá ficou pronto, Maria e Harry — que carregava o açucareiro consigo —, foram sentar-se à mesa, na varanda dos fundos da casa. Apesar do sol que brilhava intensamente, a brisa corria fria do lado de fora, e Maria agradeceu aos deuses por estar usando as roupas quentes de Harry, do contrário, estaria tremendo de frio.

A pequena varanda tinha uma bela vista para um campo aberto, onde não se viam casas, estabelecimentos ou algo do tipo, eram apenas metros e metros de grama verde que, nessa época do ano, não poderia estar mais bonita. Eroda, era uma ilha pertencente ao Reino Unido. Pouco urbanizada, contava apenas com alguns centros populacionais — dentre eles, Garona, onde Harry morava. Porém, mesmo os "grandes" centros populacionais abrigavam um pequeno quantitativo de pessoas, o que explica o fato de Harry ter poucos vizinhos. 

A economia da ilha baseava-se na agricultura e na pesca e, por isso, a maior parte dos produtos que circulavam ali provinham da Inglaterra e de outros países próximos. O cenário artístico do lugar começara a se desenvolver há pouco, mas contava com artistas habilidosos que faziam de tudo, desde cortes de cabelo bizarros a belas pinturas realistas. A culinária também era um de seus pontos fortes, e Maria conhecia uma padaria muito específica que vendia os melhores bolos de Garona. 

— Sabe, Harry?! — Maria chama sua atenção olhando para o horizonte. — Eu me mudaria facilmente para um lugar assim, tranquilo, silencioso e com muito verde. 

— Talvez seja melhor você reduzir suas expectativas — Harry diz com desdém. — Não é tão tranquilo quanto parece. Aliás, só é tranquilo para alguns, não para pessoas como eu.

— Pessoas como você? — Maria pergunta pousando sua xícara vazia sobre a mesa, ela olha para Harry por alguns segundos mas ele não está olhando para ela, então decide manter seu olhar no horizonte.

— Quer dizer, não são muitos os homens que andam por aí com as unhas pintadas e usam hidratante labial — ele diz rindo, fazendo Maria rir também. 

— Não? — ela ironiza. — Pois eu acho que eles deveriam! Ainda mais com esse frio que faz em Eroda, todos ficam com os lábios rachados, e Deus me livre beijar um homem com os lábios rachados, qualquer coisinha sangra e, até onde sei, eu não sou nenhuma vampira. — Ela comenta fazendo cara de desgosto e Harry ri alto. 

— Essa é alguma espécie de indireta para mim? — ele dispara com um sorriso malicioso nos lábios.

— Talvez... — ela pega a chaleira e vira-se para Harry. — Mais chá?

Ele acena positivamente com a cabeça sentindo as bochechas arderem, e estende a caneca para que Maria encha com o líquido. 

— Urgh! — ela estremece quando Harry pega o açucareiro. — Está na hora de você provar o chá do meu jeito — diz tirando o açúcar das mãos do rapaz.

— Ainda não entendo seu preconceito com o açúcar — ele diz balançando a cabeça negativamente. — É uma delícia!

— Nós já conversamos sobre isso, Harold — diz bebericando seu chá. — Vamos, prove! 

Harold, urgh!

Ele bebe um gole do chá.

Hmm... diferente!

Maria olha para ele com expectativa.

— Você tem razão — ele admite. — Não é tão ruim quanto eu pensava. — Ela sorri vitoriosa.

— Eu sempre tenho razão, Harold — diz encolhendo os ombros convencida.

— Tudo bem, eu já entendi todo o lance de perder a essência e blá blá blá — ele revira os olhos. — Mas me explica só mais uma coisa: como você adivinhou a marca do chá pelo cheiro? Porque isso é inacreditável! — Maria ri.

— Meus avós plantavam muitas variedades de chá na fazenda deles na Colômbia — explica com um sorriso sereno e um ar de nostalgia. — Lembro que eu odiava voltar para o Brasil quando as férias acabavam porque aquele era o meu lugar favorito do mundo.

— E não é mais?

— Não — ela diz sem tirar o sorriso dos lábios, mas Harry percebe que esse é mais um sorriso de conformação do que de felicidade genuína. — Eu amava tudo naquele lugar: a grama macia do jardim, as árvores frutíferas, o silêncio, a calmaria, o chá no fim da tarde... tudo. Mas então meu avô faleceu e poucos meses depois minha avó também partiu. E foi aí que eu entendi, eu não amava o lugar, porque aquela fazenda, por mais linda que fosse, era apenas uma fazenda comum sem os dois. A fazenda não podia me dar carinho, nem conversar comigo por horas a fio enquanto preparava comida no fogão à lenha, também não me levava para cavalgar, nem fazia um chá no fim de tarde. Ela perdeu todas as características que um lar deve ter para ser chamado assim. Tornou-se apenas um lugar nostálgico na minha memória. Acho que aquela frase que diz: "Lar não é um lugar, é um sentimento", nunca fez tanto sentido — ela diz sem tirar o sorriso do rosto e limpa discretamente uma lágrima que começara a se formar em seus olhos. Harry, por outro lado, não consegue conter as lágrimas que escorrem livremente por suas bochechas.

— Hey, não chore — Maria diz estendendo a mão para ele sobre a mesa. — Morrer faz parte da vida. É o que dá sentido à ela, não é? — ele ergue os olhos para ela e em seguida segura sua mão com firmeza, afirmando com a cabeça.

Maria faz um leve carinho com o polegar na mão de Harry, encorajando-o.

— Quando nós nos mudamos para Eroda, logo depois do meu pai nos deixar, eu e minha irmã costumávamos correr muito por esse campo. Lembro que ela era mais rápida e mais forte que eu, então sempre ganhava de mim nas brincadeiras e eu sempre voltava derrotado para casa, chorando — ele ri anasalado com a memória. — E minha mãe sempre me dizia a mesma coisa: "Volte lá e tente de novo". E depois de chorar muito, eu sempre voltava, e perdia de novo, e de novo, e de novo. Lembro como se fosse ontem da primeira e única vez que ganhei de Gemma em uma corrida, ela voltou para casa batendo o pé, emburrada, e se trancou no quarto. Eu fiz o dever de casa dela por um mês para que ela voltasse a falar comigo. Detalhe: ela não me pediu para o fazer. — Ele entra em uma crise de riso incessante e, apesar de não entender muito bem o motivo do riso, Maria o acompanha, simplesmente porque era contagiante. 

— Fazia tempo que eu não me lembrava disso — Harry diz depois de um tempo, quando finalmente para de rir. — Eu nem sei porquê estava rindo e, bem, essa também é outra coisa para adicionar à lista de coisas que eu não fazia há muito tempo. — Maria sorri radiante.

— O que eu posso fazer?! É um dom que eu tenho — diz convencida levantando os ombros. — Fazer as pessoas rirem sem motivo aparente e falarem de suas memórias mais remotas, entram na lista junto com outros dons tão importantes quanto, como sentir o gosto de açúcar em qualquer bebida e descobrir a marca do chá pelo cheiro. — Harry ri.

— Você é inacreditável!

Eles conversam por mais algum tempo e Maria conta outras histórias sobre sua infância e, sempre que Harry se sentia confortável, ele retribuía com uma de suas lembranças.

— Ela era uma mulher incrível, Maria — ele solta subitamente com ar pensativo, se referindo à sua mãe.

— Eu tenho certeza que sim!

— Queria que você pudesse ter tido a oportunidade de conhecê-la — diz sorrindo, mostrando suas covinhas. — Vocês se dariam super bem. Ela também não adoçava o chá — ele revira os olhos.

— De fato uma mulher sábia — Maria diz sorrindo com ar de vitória. 

Eles terminam de beber seu chá e lavam a louça enquanto conversam sobre assuntos aleatórios. Depois, Harry providenciou outro par de roupas e uma escova de dentes para Maria. Dessa vez, ele arruma um par de roupas que Gemma havia deixado ali para quando viesse visitá-lo. Porém, Gemma parecia ser tão alta quanto Harry, ou Maria que era muito pequena, porque ela teve que dobrar um pouco as mangas da blusa de frio e as barras da calça jeans para que pudessem servir. 

Mais tarde, enquanto Maria arrumava o sofá que tinha dormido, Harry desapareceu para dentro da casa, de onde voltou com uma caixa de ferramentas e um martelo em mãos. 

— Eu estava pensando em retirar as tábuas das janelas hoje — ele explica quando percebe o olhar assustado da mulher. — Mas como você é minha hóspede, pode ficar tranquila dentro de casa, eu já volto. A internet ainda não voltou, mas eu tenho alguns filmes baixados e... — ele para de falar quando percebe Maria parada à sua frente com as mãos na cintura e uma sobrancelha levantada. 

— Você está duvidando do meu potencial? — ela diz se aproximando e arrancando o martelo de suas mãos. — Eu sou uma mulher independente, irreverente e segura de si. E vou ajudar! — exclama girando em seus pés e saindo da casa.

— E eu não estou pedindo! — ela grita ao passar pela porta. Harry ri balançando a cabeça negativamente.

— Eu nunca duvidei disso — ele sussurra seguindo-a.

Seja fazendo sons engraçados aleatoriamente, ou rebatendo qualquer cometário sem importância, eles sempre encontravam um motivo para implicar ou fazer o outro rir enquanto trabalhavam. Se Harry sentisse que Maria estava muito silenciosa, ele soltava uma frase ou palavra aleatória para chamar sua atenção e fazê-la falar. Se Maria percebesse que Harry estava cabisbaixo, ela inventava alguma piada para fazê-lo rir. E assim passaram toda a manhã. 

— E... fim! — Harry exclama vitorioso após retirar a última tábua, arrancando um suspiro cansado de Maria.

— Você sabia que não precisa bloquear as janelas com tábuas ao sair de casa, não é? Se a gente sobrevive no Brasil, imagino que aqui você não corra muitos riscos — ela zomba rindo mas logo percebe o erro que cometeu. Merda, Maria!

— É que eu não tinha pretensão de voltar — ele responde como um sussurro, cabisbaixo. 

— Você quer conversar sobre isso? — ela pergunta receosa e ele balança a cabeça negativamente.

— Eu estou bem — ele desvia o olhar. — Agora vamos entrar porque eu estou morto de fome.

— E eu preciso de um banho — ela diz abanando o rosto com as mãos. 

No caminho para o banheiro, Maria percebe que a luz, agora, entrava por todos os cômodos, preenchendo todo o ambiente. Porém, o quarto permanecia ileso. Mesmo com a porta fechada, ela pôde perceber que sua janela não fora aberta porque a luz não passava pela greta debaixo da porta, como acontecia com os outros quartos. 

Sentiu uma ponta de curiosidade preenchê-la, porém, algo logo estalou em sua mente e ela apertou o passo para o banheiro, temendo que Harry a encontrasse espiando. Ao sair do banho, encontrou Harry sentado no sofá com os pés esticados sobre a mesinha de centro olhando atentamente para a tela do celular. Tão atentamente que não percebeu Maria parada à porta cobrindo o corpo apenas com uma toalha. 

Ela pigarreia atraindo sua atenção. 

— O que você está fazendo? — ele arregala os olhos, surpreso.

— Eu preciso de roupas — diz ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — As que você me deu mais cedo sujaram.

— Oh! Talvez tenhamos um problema — ele cerra os dentes. — Não tenho muitas roupas da minha irmã aqui, vamos precisar comprar novas para você. 

— E agora? — ela arregala os olhos. 

— Sorte a sua que eu penso em tudo — ele lança uma piscadela para ela. — Você esqueceu suas roupas no banheiro ontem à noite, então eu aproveitei para lavá-las. Já devem estar secas. — Ele se levanta e entrega o celular para ela. — Toma, termina essa fase para mim, por favor.

A proximidade de Harry faz Maria perder um pouco os sentidos, e ela quase se atrapalha ao pegar o aparelho das mãos do rapaz. Ele finge não perceber a confusão da garota e apenas sorri de lado para ela, saindo de sua zona de visão logo em seguida. 

Ao voltar, Harry encontra Maria sentada sobre a mesinha de centro com os olhos fixos no celular. 

— Difícil? — ele pergunta entregando as roupas para ela. Ela ri sarcástica. 

— Veja por si mesmo — ela entrega o celular para ele.

— VOCÊ TERMINOU O GRUPO 100? — ele grita levando uma mão até a boca, espantado.

— Tecnicamente faltavam apenas três fases para terminar este grupo, então não exagere — ela dá de ombros.

— E depois eu que sou o nerd — assovia. 

Maria solta uma risada alta. 

— Eu vou me trocar — diz levantando-se e indo em direção ao banheiro. — Não estou a fim de realizar uma Comic Con neste exato momento. 

Ao voltar do banheiro, encontra Harry na mesma posição de antes. 

— Você por acaso está paralisado? — ela pergunta incrédula. 

— É que eu não estou conseguindo responder uma das perguntas — ele responde coçando a nuca.

— E qual é a pergunta? — Ela senta-se ao lado dele o sofá.

— 'Time dos EUA onde Pelé jogou nos anos 1970' — ele lê a questão do jogo, passando o celular para ela.

— Fácil! — ela exclama sorridente. — Óbvio que é o Cosmos. — Harry olha aturdido para ela.

— Ah claro, muito óbvio — diz sarcástico. — Com certeza mais da metade da população mundial sabe disso. — Ela rola os olhos.

— Está bem, que você não entende nada de futebol eu já sei — ela diz com ar pretensioso. — Mas se você realmente sabe cozinhar... Isso eu ainda não tenho certeza. Está a fim de me mostrar seus dotes culinários?

— Essa é uma forma fofa de dizer "Estou com fome, me alimente, por favor"? — ele ri.

— Yep — ela responde sem rodeios. — O que o grande chefe de cozinha fará para mim hoje? — Harry engole a seco.

— Então... — ele pigarreia. — Diríamos que, talvez, só talvez, eu tenha sido demitido e esteja sobrevivendo das minhas reservas, e não tenha muita quantidade de comida por aqui. — Ele sorri amarelo. 

— Espera um minuto, deixa eu ver se eu entendi bem ou se meus ouvidos estão me traindo. Você está passando por vários perrengues financeiros e, mesmo assim, trouxe outro ser humano para dentro de casa? — Ela gargalha. 

— Na verdade, eu estava mesmo procurando uma colega de quarto para dividir as despesas quando te encontrei — ele ri. — Mas você estava tão quebrada quanto eu e agora nós temos um grande problema. 

— Okay, vamos nos organizar! — Ela senta-se de frente para ele, colocando duas mechas de cabelo atrás da orelha. — Quanto você ainda tem? 

— O suficiente para alguns dias — ele responde constrangido.

— Quantos dias?

— Uma semana, se a gente fizer uma dieta — ele ri. 

— Ótimo, você está melhor do que eu — ela ri. — Mas isso não vai durar para sempre então temos que fazer algo.

— Tipo? — ele levanta uma sobrancelha.

— Tipo arrumar um emprego — ela sorri entusiasmada. 

— Nãaaaoooo — Harry enfia a cabeça em uma almofada, tirando uma gargalhada de Maria. 

— Vamos, levante! — Ela o puxa pelo braço. — Vamos fazer algo rápido para comer e depois vamos entregar currículo por aí. 

— Maravilhoso! — Ele ironiza, rolando os olhos e se arrastando atrás de Maria. 

Os dois preparam um espaguete e logo em seguida começam a se arrumar para procurar emprego. 

— 3, 2, 1 e... tcharam! — Maria diz virando Harry para o espelho. 

— Eu não vou procurar emprego com um moicano — ele olha atônito para sua imagem refletida no espelho, vendo Maria gargalhar atrás de si. 

— Tenho certeza que aquele salão maluco te aceitaria — ela comenta. 

— Tenho certeza que sim — ele ri. — Inclusive, tenho uma amiga que trabalha lá, bem, na verdade, acho que ela nem se lembra mais de mim, e, de qualquer forma, eu não sei cortar cabelo, então essa não é uma opção. Por favor, arrume meu cabelo direito.

— Okay, okay, vou arrumar. — Ela vira Harry para si novamente, mudando o penteado. 

Harry observa Maria enquanto ela se mantém concentrada em colocar todos os seus fios de cabelo em seu devido lugar. Maria era uma mulher linda, ele não podia negar. Também era dona de uma autenticidade encantadora. Era meiga, engraçada, tinha uma inteligência incomum e, sim, ela poderia soar como uma pré-adolescente irritante às vezes, mas não era ingênua, de jeito nenhum. Maria não era do tipo de mulher que esperava um príncipe encantado vir salvá-la, ela fazia as coisas acontecerem. Era imperativa, dona de si e sabia muito bem se cuidar. Salvava a si mesma, mas era nobre o suficiente para pedir ajuda quando necessário, e Harry invejava isso. Ela era inteira, e parecia ter total ciência disso. Era destemida, corajosa e irreverente, não tinha vergonha de se expôr se acreditasse que isso poderia ser útil a alguém, e parecia estar sempre pronta para encarar qualquer situação de peito aberto. Eles mal haviam se conhecido mas Harry tinha a sensação de que ela o conhecia melhor do que muitos outros que passaram por sua vida, e isso o assustava muito, mas ele não queria afastá-la, pelo contrário, estava se esforçando ao máximo para não o fazer. Em menos de dois dias ela o tinha feito sorrir mais vezes do que havia sorrido nos últimos dois anos. 

Sem que ele pudesse controlar, um pequeno sorriso começou a formar-se em seus lábios. 

— Em que você está pensando? — Maria pergunta com um sorriso sereno nos lábios, mas sem parar o que estava fazendo. Harry sente suas bochechas queimarem.

— Nada — ele responde constrangido. 

— Prontinho — ela vira Harry para o espelho novamente. 

— Acho que você poderia trabalhar naquele salão — comenta.

— Você tem total ciência de que eu só penteei seu cabelo, certo? — Maria ri. 

— Você escondeu todas as minhas entradas, ou seja, gênio — ele elogia.

— Isso realmente foi um pouco complicado — ela zomba. 

— Hey, você está me ofendendo!

— Ai, para de drama queen — ela rola os olhos divertida. — Vamos porque nós já perdemos tempo demais. 

— Sim, senhora — ele diz batendo continência para ela que apenas ri e gira em seus pés, dirigindo-se para a porta de saída. 

Em poucos segundos Harry está ao seu lado, caminhando para fora de casa, mas ele para de repente olhando para suas mãos. 

— Preciso voltar! — ele anuncia refazendo seu percurso para dentro de casa. 

— O que aconteceu? — Maria pergunta sem entender.

Harry, porém, não responde, apenas volta alguns segundos depois com um vidro de acetona e algodão em mãos. 

— Eles não me dariam um emprego se eu fosse tão... tão eu — ele dá de ombros, sentando-se no chão de frente para a mesinha de centro e retirando o esmalte das unhas. 

Maria sente seu coração apertar e senta-se ao lado dele no chão, ajudando-o. 

— Algumas pessoas se importam demais com coisas inúteis, como a forma que você se veste, a que classe social pertence, qual o seu país de origem... São tantas coisas sem importância. — Maria diz enquanto tira o esmalte das unhas do rapaz. — E eu tento entender esse raciocínio, de verdade, eu tento. Mas acredito que eu nunca conseguirei entender em quê exatamente, gênero, etnia, sexualidade, religião e outras características do tipo interferem no caráter de alguém. Simplesmente não tem lógica. 

— Você se importa que eu seja assim? — Harry pergunta receoso, cabisbaixo. 

Maria procura pelos olhos de Harry, mas ele insiste em manter o olhar baixo. 

— Harry, olhe para mim! — Ela diz levantando gentilmente o queixo do rapaz, tomando sua atenção. — Eu cresci como uma mulher negra em um país como o Brasil. Acredite, eu sei o que é sentir medo por habitar o próprio corpo. E eu nunca, em hipótese alguma, o impediria de ser você mesmo, ou o deixaria desconfortável por isso. 

Harry sente seus olhos marejarem e Maria o acolhe em um abraço aconchegante. 

— Vai ficar tudo bem! — ela diz acariciando as costas dele. 

Eles ficam sentados por mais algum tempo, conversando sobre suas respectivas vivências na esperança de se encorajarem o suficiente para conseguirem sair de casa e enfrentar tudo o que poderia vir pela frente. 

Uma hora depois, eles ainda estão sentados no sofá da sala, quando Maria decide tomar a iniciativa de sair de casa, arrastando Harry consigo. 

— Ah, quase ia me esquecendo — Harry diz parando instantaneamente. — Se queria dormir na na minha cama, poderia ter pedido. — Ele sai com um sorriso convencido no rosto, deixando uma Maria constrangida atrás de si. 


Notas Finais


Fiquem atentos às referências musicais, elas dizem muito sobre a personalidade das personagens e, em alguns casos, dão spoilers sobre o andamento da hstória.


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