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História AFTER - Rubinho e Fernanda - Capítulo 3


Escrita por: e Lashippadora


Capítulo 3 - Tempestade, Emily Bronte, a Passageira


 

  Amanheceu chovendo em Porto do Céu, e eu não consegui pregar meus olhos a noite inteira, porque sonhei com a Fernanda. Sonhei que ela voltava para todos nós. Assustada, abri meus olhos e olhei para o relógio. Ainda era cedo. O Miguel dormia tranqüilo do meu lado e na casa eu não ouvia nenhum barulho, exceto o ruído da chuva sobre o teto e o vento lá fora no jardim. Procurei dormir novamente, mas eu não consegui, havia algo diferente nesse dia, eu sentia. Inspirada pelo sonho, eu fiquei acordada pensando em como as coisas seriam diferentes se a Fernanda tivesse escapado viva da queda do avião. Mas quem escaparia da explosão? De repente, essa idéia fixou-se na minha cabeça e eu passei a acreditar que a minha irmã seria capaz de sobreviver. A única coisa que não fazia sentido era o fato de não mandar notícias.  Se a Fernanda tivesse viva, certamente, gostaria de tranqüilizar o Pedro. Ela não deixaria o Rubinho sofrendo, e eu também, ela não me abandonaria, e tem o papai que ela adora.

     Quando Miguel chegou para tomar o café, eu já tava sentada à mesa. Ele estranhou me ver de pé antes dele, mas me deu um beijo na testa e me desejou bom dia. Eu não queria contar sobre minha péssima noite de sono, mas o sonho com a Fernanda martelava minha cabeça.

- O que você tem? Parece preocupada!

- Pareço? – Questiono enquanto enfio um pedaço de mamão na boca.

- Sim. Você está com olheiras. Não conseguiu dormir por causa da tempestade? – Na verdade, a tempestade ainda não tinha passado. Chovia tanto, que ficamos ilhados. Miguel cancelou a reunião da manhã para tarde, porque não dava para pilotar uma lancha naquelas condições climáticas.

- Eu andei pensando.. – Parei de comer e olhei para ele. – ...Esse lance de ser gêmea, essa história que todo mundo conta sobre irmãos gêmeos serem bastante ligados..

- Vivi, o que você quer saber?

- Se a Fernanda tivesse viva eu saberia?Assim, eu sentiria? – Miguel quase se engasgou com o café. Ele olhou para mim como se eu tivesse dito a maior besteira que ele já ouviu em anos.

- De onde você tirou essa idéia? Foi o Pedro? Eu sabia que ele não tinha se conformado com a morte da mãe, ele parecia sereno demais pra uma pessoa que..

- ..Não, de jeito nenhum. Foi só uma idéia, é coisa minha.

      Miguel segurou minha mão e apertou um pouco. Ele me olhou com Ternura e em seguida me disse que a Fernanda estava morta, os bombeiros foram claros, a polícia tinha encerrado o caso e a história de gêmeos conectados era crendice, cultura popular, nada mais. Porém, eu não sei. A sensação dentro do meu peito após sonhar com a Fernanda não era um faz de conta, mas resolvi silenciar e mudar de assunto.   

   ...

  Mas a história não acaba aqui, coisas mais sérias que a minha tristeza ainda acontece na cidade. Pairam nuvens escuras, pesadas. A história que nunca termina de um amor infeliz. Um amor sem fim. Louco. Mais forte do que eu sou capaz de entender. E eu só posso olhar com tristeza pro protagonista dessa história. O Rubinho, que nunca se recuperou da morte da mulher que ele amava mais do que tudo..

Os alunos foram surpreendidos quando a luz apagou. O som dos pingos caindo sobre a calçada do colégio foi abafado pela exaltação dos jovens na sala de aula. De repente, as portas do Centro Educacional se abriram e a sombra do professor entrou por elas. Ninguém disse nada, mas todos olhavam enquanto sentavam nas carteiras. As roupas do Rubinho, o cabelo e todo o resto encontravam-se ensopados, porque veio caminhando debaixo da chuva. A chuva não lhe importava mais.

 Após alguns instantes, Rubinho olhou para seus adorados ouvintes e ergueu um pouco o livro de capa vermelha, com folhas envelhecidas. Seu rosto contorcido de dor. Toda a face contraída pelo sofrimento que se abateu sobre ele. No meio do enorme silêncio, o professor observou a obra como se fosse a primeira vez que lia, e com uma das mãos, removeu um pouco da água que molhou o romance.

- Este livro tem um, tem um título sombrio! - Disse, tentando rir em vão. – O Morro dos Ventos Uivantes. Ele foi escrito por Emily Brontë, e é o único romance dessa escritora inglesa do século passado. Emily teve uma infância difícil, uma juventude severa, pobre. Uma vida árida de afeto. Foi dentro de si mesmo que essa escritora genial teve de buscar o alimento para seu coração atormentado. Faminto de paixão, de intensidade de paixão, de força. Isso talvez explique o fato de que esse seu único romance seja uma das mais belas e ousadas histórias de amor da literatura. Ele nos fala de um amor desesperado, absoluto, que desafia a contingência da vida humana, as distâncias, o tempo. É um amor que persiste. É um amor forte! É um amor exigente, desesperado! Vai além desse grande mistério que nos assombra. Dessa coisa terrível que não sabemos nada. Nada! Disso que chamamos de – Ele hesita. -...De morte!

   O professor não consegue ir adiante, porque a boca treme. O coração sangra! Ele deita a cabeça sobre o próprio peito amargurado, enquanto os alunos assistem a cena no mais piedoso respeito. Todos sabem que a escolha do romance de Emily Brontë não é uma coincidência, porque como a personagem do livro, Rubinho também ama, desesperadamente, uma mulher que está morta. É um amor inacabado, interrompido. Bonito, mas interrompido, e tão urgente que agora digladia, procurando conter as lágrimas e manter-se apto, mas é derrotado porque ele jamais ganhou do açoite do amor.

  E Rubinho abandona a classe no meio da aula, passando entre as carteiras no meio do escuro.

  Horas depois, com o fim da tempestade e com a chegada do sol, meu bom amigo vagava pelas ruas, porque agora era isso que ele fazia quando não sabia aonde ir. Margot e eu fomos almoçar com ele, mas não nos deixou ficar por muito tempo, porque não se sentia digno de nos receber em casa. Rubinho estava tão devastado com a morte da minha irmã que nada no mundo o faria sorrir novamente. Não era mais aquele homem enlouquecido que eu conheci quando pisei em Porto do céu pela primeira vez, ele agora não se deixou ensandecer, mas ainda amava a Fernanda com a mesma profundidade, e isso, algum dia, o mataria de tristeza.

 Com passadas largas e incertas, ele passou pela calçada do Centro Educacional e caminhou na direção da praça. O ônibus se aproximando do ponto, passou por Rubinho, e a passageira lendo o jornal olhou para ele sem ser vista, por causa da janela fechada.  Dois minutos depois, Rubinho viu a mulher desembarcar. Ela usava sapatos vermelhos, calça jeans, a blusa amarrada na cintura, cabelos castanhos e óculos escuros. Ela abaixou-se para abrir a bagagem e parecia que procurava algo dentro da maleta. Ele não sabe explicar como, mas, imediatamente, reconheceu aquela passageira. Era Fernanda, tinha que ser! Jamais esqueceria o andado, as formas do corpo, a altura, a postura.

   No entanto, se aproximou cuidadoso e cheio de esperança. Ao chegar perto o suficiente, arriscou pronunciar o nome dela.

- Fernanda? – Sua voz saiu quase como uma súplica.

  A passageira não titubeou, retirou os óculos e jogou sobre a maleta entreaberta, depois virou o rosto para ele e sorriu largamente. Olhar para o rosto dela foi o momento mais milagroso na vida do Rubinho, uma vez que ele apreciava a religião como própria do amor, e vê-la viva era a definição de milagre. Finalmente, o Criador tinha se lembrado do seu palhaço.

- Será que você pode acender meu cigarro? – Perguntou Fernanda apontando o cigarro e brincando, adorando rever o amado.

  Rubinho sorriu. Além de viva, Fernanda não era mais cega. Parecia uma brincadeira divina que ele não conseguia compreender, e gostaria que ela lhe contasse sobre tudo, mas ficou tão feliz, que por hor,  bastava olhar pro único e grande amor da sua vida.

Fernanda como sempre, se divertia, enquanto Rubinho procurava sair do choque de reencontrá-la. Ele também sorria contido, porém luminoso, mas parecia continuar ainda dentro de um sonho que ele temia acordar.

- Fernanda!- Repetiu o nome dela mais uma vez. Aquele nome era seu mantra e ela a deusa, a musa exclusiva, a perfeição da natureza.

    Vendo-o imóvel por causa do choque, Fernanda removeu a peruca e com as mãos bagunçou os cabelos escuros, jogando-os para o lado. Em seguida foi até ele e lhe abraçou cheia de amor. Rubinho fechou os olhos, não queria sair do colo dela. Ele tremeu ao sentir novamente o perfume dela e o calor do seu corpo. Por isso, lhe apertou em seus braços, louco de felicidade.

- Fernanda? É você mesmo? Você está aqui comigo! – Ele lhe abraçou com desespero.

- Sou eu mesma, Rubinho.

- Meu Deus, Fernanda! – Rubinho queria rir e chorar ao mesmo tempo.

- Eu prometi que eu voltaria, não prometi? Hum? Pois então, eu voltei pros teus braços!

Rubinho não se agüenta, não suporta mais, a espera foi cruel e longa demais para não  beijá-la com urgência, como se os lábios dela fosse ar para seus pulmões, sangue para suas veias e alimento para a alma.

  Os dois se beijam no meio da praça.

- Eu morri e ressuscitei contigo, minha vida! – Disse ele, encostando a testa na dela, em seguida torna olhá-la com espanto, mantendo seu rosto entre as mãos. - Você.. Fernanda, você está me vendo? Consegue ver meus olhos? Ver as flores dessa praça, as pessoas que estão passando?

- Tô sim, Rubinho! Eu vejo tudo, mas só você me interessa, meu amor.

- Mas, mas como, quando aconteceu? Foi durante o tempo que você esteve desaparecida? - Rubinho não sabia de nada porque pouco conversava com as pessoas. Eu era uma dessas pessoas que sabia sobre a recuperação da minha irmã, mas ele não me deixava ficar perto e evitava contatos com os amigos.

- Depois, depois eu te conto. Agora me leva pra casa!

CONTINUA



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