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História After 2 - Hosie (Hope e Josie) - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Desculpa se tiver alguma coisa errada.

Capítulo 1 - Capítulo 1


Pov Hope 

Não sinto o cimento gelado sob meu corpo nem a neve se acumulando sobre mim. Tudo o que sinto é um buraco no peito. Estou de joelhos, impotente, vendo Landon arrancar com o carro e sair do estacionamento com Josie no banco do carona. 

Jamais poderia ter imaginado isso — nem em meus sonhos mais insanos imaginaria que sofreria desse jeito. Acho que é isso que chamam de dor da perda. 

Nunca tive nada nem ninguém para amar, nunca senti a necessidade de ter uma pessoa que fosse completamente minha. Nunca quis me apegar a alguém dessa forma. 

O pânico — esse pânico de perdê-la — não foi algo planejado. Nada disso foi. Era para ser tudo bem fácil: dormir com ela, pegar meu dinheiro e tirar onda com Landon. O de sempre. Só que não foi o que aconteceu. 

Em vez disso, a morena das saias compridas que gosta de fazer listas de tarefas foi entrando no meu coração, bem devagar, até eu ficar inacreditavelmente apaixonada. 

Não sabia o quanto a amava até me pegar vomitando numa pia depois de mostrar aos degenerados dos meus amigos a prova da virgindade que roubei. 

Como odiei aquilo, cada momento… mas fui até o fim. Ganhei a aposta, mas perdi a única coisa que um dia me fez feliz. E com isso, perdi também toda a bondade que ela me fez enxergar em mim mesma. 

Sentindo a neve encharcar minhas roupas, minha vontade é de culpar meu pai por me transmitir seu vício; culpar minha mãe por ter ficado tanto tempo com ele, ajudando a criar uma criança tão desajustada; culpar Josie por ter dado bola para mim. 

Que inferno, quero culpar todo mundo. Mas não posso. Fui eu que fiz isso. Eu a destruí. Destruí tudo o que tínhamos. Mas vou fazer de tudo para consertar meus erros. Para onde ela está indo agora? Para algum lugar onde nunca vou encontrá-la?


Pov Josie 

Os para-brisas do carro, fazem barulho contra a neve, e o barulho me faz querer esmagar minha cabeça contra a janela. 

"Você está quente o suficiente?" Landon pergunta.

"Ou você começa a falar agora, ou me leva de volta." Eu o interrompo.

"O que quer saber?" Ele respira fundo.

"Tudo, como tudo começou." Honestamente não quero saber mais detalhes, mas algo me diz que preciso. 

"Tudo bem." 


*Flashback* 

"Por que ela precisa vir?" Maya perguntou enquanto tragava seu cigarro.

"Porque ela é colega de quarto da Penélope, e por algum motivo ela gosta dessa garota." Ethan explicou 

"Ela é uma vaca, super chata e desagradável." Hope resmungou fazendo Maya rir e se encostar nela.

"Mas ela é bonita." Ethan adiciona.

"Bonita? Não, ela não é." Hope negou, revirando os olhos.

"Definitivamente ela é bonita. Se eu pudesse, fodia ela em um instante." Landon disse.

"Se você pudesse, ela é totalmente santa. Quer dizer, quem é virgem na faculdade?" Maya zoou a menina que ela nunca admitiria que tem ciúmes.

"Talvez por isso seja tão chata, porque ainda não foi bem fodida." Hope disse, saindo de perto de Maya.

"Então precisa de alguém que faça isso." Landon disse em uma tentativa de fazer o pessoal rir.

"Você não conseguiria nem se tentasse." Hope contrariou o amigo. 

"E você conseguiria?" Landon indagou. "Eu teria mais chance que você." 

"O que eu perdi?" Sebastian perguntou e se sentou.

"Penélope tem uma colega de quarto totalmente chata. E Landon e Hope estão competindo para ver quem a fode primeiro." Maya o informou.

"Você sabe que podemos deixar isso muito mais interessante. Está dentro?" Hope falou para Landon.

"Depende." Landon sorriu.

"Hum... Ok, vamos ver quem transa com ela primeiro." Hope levantou as sobrancelhas.

"Não sei." Landon começou a se sentir um pouco mal pela garota que ele só viu algumas vezes. Ela era bonita, seus olhos castanhos pareciam tão queridos.

"Vamos Landon, não seja um broxa. Não vai ser tão difícil, é só um jogo." Hope disse, ela sabia que conseguiria vencer e só estava fazendo isso para provar.

"Isso é estúpido. Quem compete para tirar a virgindade de uma garota qualquer?" Maya bufou.

"Se você está tão convencida, vou te dar uma semana." Sebastian disse.

"Uma semana? Ela é super convencida e já não nos damos bem. Preciso de mais de uma semana." Hope disse.

"Quanto? Duas semanas? Olha se você conseguir em um mês, te dou quinhentos." Landon disse.

"Quinhentos dólares?" Maya estava ainda mais irritada pela atenção que a garota estava recebendo e ela sendo praticamente ignorada.

"E eu vou adicionar trezentos. Oitocentos dólares, acha que consegue?" Sebastian perguntou.

"Claro que consigo. Só espero que ela não fique toda pegajosa e psicopata." Hope riu.

"Duvido." Ethan brincou.

"Ela não vai cair, não parece ser tão estúpida." Landon disse.

"É por isso que precisamos de uma prova." Sebastian riu alto.

"Isso vai ser divertido." Hope sorriu.

*Fim do Flashback*


“Levou mais de um mês”, digo em meio aos soluços, assim que Landon termina de explicar como começou a aposta. Sinto enjoo e fecho os olhos, procurando algum tipo de alívio.

“Eu sei. Ela ficava dando desculpas, pedindo mais tempo e diminuindo o valor que ia receber. Foi estranho. Estava todo mundo pensando que ela estava obcecada para ganhar — para provar alguma coisa ou sei lá —, mas agora entendi.” Landon para de falar por um instante, e seus olhos observam atentamente meu rosto. “Ela só falava disso. Aí, naquele dia, quando chamei você para o cinema, ela surtou. Depois de levar você, ela veio falar um monte de merda para mim, para eu ficar longe de você. Mas eu dei risada, achei que ela estava bêbada.”

“Ela… ela contou do rio? E… das outras coisas?” 

Prendo a respiração assim que faço a pergunta. Pela expressão que vejo refletida nos olhos de Landon, já sei a resposta. 

“Ai, meu Deus.” Cubro o rosto com as mãos.

“Ela contou tudo… Tipo, tudo mesmo…”, ele revela, em voz baixa.

Fico quieta e desligo o celular, que não parou de vibrar desde que saí do bar. Ela não tem o direito de me ligar.

“Onde fica o seu novo alojamento?”, Landon pergunta, e percebo que estamos perto do campus.

“Não moro mais em alojamento. Hope e eu…” Mal consigo terminar a frase. “Ela me convenceu a ir morar com ela, tem só uma semana.”

“Não acredito”, Landon comenta.

“Sim. Ela não tem a menor… ela é tão…”, gaguejo, incapaz de pensar numa palavra apropriada para definir aquele tipo de crueldade.

“Não sabia que as coisas estavam nesse pé. Achei que, depois que a gente tinha visto… sabe como é, a prova… Pensei que ela fosse voltar ao normal, ficar com alguém diferente a cada noite. Mas ela sumiu. Mal falou com a gente, a não ser uma vez, quando apareceu nas docas pedindo para eu e Sebastian não contarmos nada pra você. Ela ofereceu uma bolada para o Sebastian ficar quieto.”

“Dinheiro?”, pergunto. Hope era mesmo muito baixa. A cada revelação doentia, o espaço dentro da caminhonete de Landon parece diminuir mais e mais.

“Pois é. Sebastian morreu de rir, claro, e disse que ia ficar de boca fechada.”

“E você não?”, pergunto.

“Não exatamente… Falei que, se ela não contasse logo, eu mesmo ia contar. Ela não ficou muito contente, claro”, Landon explica, apontando para o próprio rosto. “Se isso serve de consolo, acho que ela gosta de você.”

“Gosta nada. E, mesmo se gostar, não faz diferença”, digo e recosto a cabeça na janela.

Hope descreveu para seus amigos cada beijo e cada toque; tudo o que fiz foi completamente escancarado. Meus momentos mais íntimos. Os únicos momentos íntimos que tenho não são só meus. 

“Quer ficar lá em casa? Sem segundas intenções. Tenho um sofá na sala, e você pode ficar até… resolver as coisas”, ele oferece.

“Não. Não, obrigada. Mas posso usar seu telefone? Preciso ligar para a Lizzie.”

Landon aponta com o queixo para o telefone no painel do carro e, por um momento, penso em como as coisas teriam sido diferentes se eu não tivesse me afastado de Landon por causa de Hope depois da fogueira. Eu não teria cometido tantos erros.

Lizzie atende no segundo toque e me manda ir direto para a casa dela, exatamente como imaginei que faria. Ainda não contei o que está acontecendo, mas ela é muito gentil. Dou o endereço a Landon, e ele fica em silêncio durante a maior parte do trajeto.

“Ela vai me odiar por não ter levado você de volta para casa”, Landon diz, afinal.

“Em outras circunstâncias eu pediria desculpas por ter envolvido você nisso… mas foram vocês que inventaram essa história toda”, digo, com toda a sinceridade. 

Tenho um pouco de pena de Landon, porque acredito que ele tinha intenções muito melhores que as de Hope, mas minhas feridas ainda são recentes demais para pensar nisso agora.

“Eu sei.” E então oferece: “Se precisar de alguma coisa, me liga.”

Respondo com um aceno de cabeça antes de saltar do carro. Minha respiração condensa nuvens quentes de vapor em meio ao ar gelado. 

Mas não sinto frio. Não sinto nada. Lizzie é minha única amiga, e mora na casa do pai de Hope. A ironia da situação é evidente.

“Está caindo uma nevasca lá fora”, diz Lizzie, enquanto me coloca para dentro de casa. “Cadê o seu casaco, menina?”, ela me dá uma bronca meio de brincadeira antes de fazer uma careta ao me ver melhor sob a luz. “O que aconteceu? O que ela fez?”

Meus olhos esquadrinham a sala, torcendo para que Klaus e Caroline estejam no andar de cima. 

“Está tão na cara assim, é?” Enxugo os olhos.

Lizzie me dá um abraço e enxugo os olhos de novo. Já não tenho forças, nem físicas nem emocionais, para soluçar. Estou chocada demais até para isso. Ela me dá um copo d’água e diz: 

“Vai para o seu quarto”.

Eu me esforço para abrir um sorriso, mas, quando chego ao andar de cima, algum instinto perverso me leva até a porta de Hope.

Quando me dou conta, a dor, que já estava tão perto de vir à tona de novo, volta ainda mais forte, então me viro correndo para o quarto em frente. 

Ao abrir a porta, a lembrança de atravessar o corredor às pressas para sacudir Hope na noite em que a ouvi gritando durante o sono se reaviva dentro de mim. 

Sento desajeitadamente na cama do “meu quarto”, sem saber o que fazer. Lizzie aparece alguns minutos depois. 

Ela senta ao meu lado, perto o suficiente para demonstrar preocupação, mas longe o bastante para ser respeitosa, como sempre.

“Quer conversar?”, pergunta, com gentileza.

Faço que sim com a cabeça. Repetir a história toda dói ainda mais do que a descoberta em primeira mão, mas a sensação de contar para Lizzie é quase libertadora. 

E é um consolo saber que pelo menos uma pessoa não estava o tempo todo sabendo da minha humilhação. Enquanto me escuta, Lizzie permanece imóvel feito pedra, e não consigo decifrar o que está pensando. 

Quero saber o que ela acha da filha de seu padrasto depois dessa história toda. O que acha de mim. Mas, assim que termino, ela fica de pé em um pulo, com uma energia furiosa.

“Não acredito! O que essa idiota tem na cabeça?! Eu aqui achando que ela estava quase virando… alguém decente… e ela faz isso! É sujeira demais! Não acredito que ela faria isso com você, logo com você. Por que destruir a única coisa que tem?”

Assim que termina de falar, Lizzie vira a cabeça para o lado. E então eu também percebo passos apressados subindo a escada. E não é qualquer passo, mas botas pesadas batendo com força contra os degraus de madeira.

“É ela”, dizemos juntas. 

Por uma fração de segundo, chego a pensar em me esconder no armário. Lizzie me encara com uma expressão muito séria e madura. 

“Você quer falar com ela?”

Faço que não freneticamente com a cabeça, e Lizzie levanta para fechar a porta no mesmo instante em que sinto a voz de Hope me dilacerar.

“Josie!”

Assim que Lizzie estende o braço, Hope irrompe pela porta e passa por ela. Hope para no meio do quarto, e eu levanto da cama. Desacostumada com esse tipo de coisa, Lizzie não se move, atordoada.

“Josie, graças a Deus. Graças a Deus que você está aqui.” 

Hope suspira e passa as mãos pelos cabelos. Meu peito dói só de olhar para ela, então afasto o olhar, virando para a parede.

“Josie, você precisa me escutar. Por favor, só…”

Fico em silêncio e caminho na direção dela. Seus olhos brilham de esperança, e ela estende a mão para mim. Quando passo direto por ela, vejo essa esperança se extinguir. Bem feito.

“Fala comigo”, ela implora.

Mas eu nego com a cabeça, parando ao lado de Lizzie. “Não… Nunca mais vou falar com você!”, grito.

“Você não pode estar falando sério…” Hope se aproxima.

“Fica longe de mim!”, grito quando ela toca meu braço. 

Lizzie se coloca entre nós e põe uma das mãos no ombro dela. “Hope, é melhor você ir embora.”

Hope cerra o maxilar, e seu olhar alterna entre nós duas. “Lizzie, é melhor você sair da minha frente”, adverte.

Mas Lizzie não se move, e eu conheço Hope bem o bastante para saber que ela está analisando suas opções, avaliando se vale a pena brigar com Lizzie agora, bem na minha frente. Parecendo ter decidido não partir para a agressão, ela respira fundo. 

“Por favor… só preciso de um minuto com ela”, diz ela, tentando manter a calma.

Lizzie olha para mim, e meus olhos praticamente imploram por sua ajuda. Ela se vira para Hope. 

“Ela não quer falar com você.”

“Não vem você me dizer o que ela quer!”, Hope grita.

Dou um pulo para trás e começo a chorar de novo. Não, agora não, penso comigo mesma, tentando controlar minhas emoções.

“Vai embora, Hope!”, Lizzie grita. 

No mesmo instante Klaus e Caroline aparecem na porta. Ai, não. Eu não devia ter vindo para cá.

“Que diabos está acontecendo aqui?”, pergunta Klaus.

Ninguém responde. Caroline me lança um olhar cheio de compaixão, e Klaus repete a pergunta. Hope olha feio para o pai. 

“Estou tentando conversar com a Josie, e a Lizzie fica se metendo onde não foi chamada!”

Klaus olha para Lizzie, depois para mim. “O que você fez, Hope?” Seu tom mudou de preocupado para… furioso? Não sei ao certo.

“Nada! Que merda!” Hope ergue os braços.

“Ela estragou tudo, foi isso. E agora a Josie não tem para onde ir”, resume Lizzie.

Quero falar alguma coisa; só não tenho ideia do quê.

“Ela tem para onde ir, sim, ela pode ir para casa. Para a nossa casa.”, diz Hope.

“Hope estava o tempo todo só usando a Josie. Ela fez coisas que não tenho nem coragem de contar!”, explode Lizzie, e Caroline solta um suspiro enquanto caminha na minha direção.

Fico toda encolhida. Nunca me senti tão exposta e diminuída. Não queria que Klaus e Caroline soubessem… mas talvez não faça muita diferença, já que depois de hoje eles certamente nunca mais vão querer me ver de novo.

“Você quer voltar para casa com ela?”, pergunta Klaus, interrompendo minha espiral descendente.

Com um gesto tímido, faço que não com a cabeça.

“Bom, eu não saio daqui sem você”, Hope rosna. Ela dá um passo na minha direção, mas eu me afasto.

“Acho que é melhor você ir embora, Hope”, diz Klaus, me pegando de surpresa.

“O quê?” O rosto de Hope assume um tom de vermelho tão profundo que só pode ser descrito como fúria. “Você tem a sorte de eu querer frequentar a sua casa… e ainda tem a cara de pau de me pôr para fora?”

“Estou muito feliz com a evolução do nosso relacionamento, filha, mas agora você tem que ir embora.” Klaus se vira para mim, e depois para a filha. “Sejá lá o que você fez, espero que tenha valido a pena perder a única coisa boa da sua vida”, ele responde e baixa a cabeça.

Não sei se é o choque das palavras de Klaus, ou se a raiva de Hope já atingiu o ponto máximo depois do qual simplesmente começa a refluir, mas ela se acalma, olha para mim por um instante e sai pisando duro. 

Em silêncio, só ouvimos enquanto ela desce a escada sem hesitação. Quando escuto a porta da frente bater, ecoando pela casa agora tranquila, viro para Klaus e começo a soluçar. 

“Desculpa. Estou indo embora. Não queria que nada disso tivesse acontecido.”

“Não, pode ficar o tempo que precisar. Você é sempre muito bem-vinda aqui”, diz ele. E então ele e Caroline me abraçam.

“Não queria ter atrapalhado as coisas entre vocês”, digo.

Estou me sentindo péssima pela forma como Klaus teve que expulsar a filha de casa. Caroline aperta minha mão, e Klaus me olha com uma expressão exasperada e cansada. 

“Josie, eu amo a Hope, mas acho que sabemos que, sem você, não existiria coisa nenhuma para ser atrapalhada entre a gente”, diz ele.


....


Fiquei o máximo que podia, deixando a água escorrer pelo corpo. Queria me limpar, me tranquilizar de alguma forma. Mas o banho quente não me ajudou a relaxar como gostaria. 

Não consigo pensar em nada que possa acalmar a dor dentro de mim. Ela parece infinita. Permanente. Como um organismo que veio se alojar no meu corpo, mas também como um buraco que não para de crescer.

“Não consigo entender como a minha vida chegou a este ponto, como isso foi acontecer.” digo para Lizzie, evitando o olhar dela. “Três meses atrás, tudo fazia sentido. Eu estava com Rafael, que jamais faria uma coisa dessas. Estava bem com a minha mãe e tinha um rumo para a minha vida. E agora não tenho nada. Literalmente. Nem sei se deveria continuar o estágio na editora, porque Hope pode aparecer por lá, ou então convencer Marcel Gerard a me despedir só porque tem esse poder.” Pego o travesseiro na cama e o aperto com todas as forças. “Ela não tinha nada a perder, mas eu sim. E deixei que ela tirasse tudo de mim. Minha vida antes dela era bem simples e definida. Agora… depois dela… é só… o depois.”

Lizzie me encara com os olhos arregalados. “Josie, você não pode desistir do estágio; ela já tirou coisas demais de você. Não deixe que ela roube isso também.”, ela praticamente implora. “O lado positivo da sua vida depois dela é que você pode fazer o que quiser, começar tudo de novo.”

Eu sei que ela está certa, mas não é tão simples assim. Tudo na minha vida está ligado a Hope agora, até a pintura da merda do meu carro. 

De alguma forma, ela se transformou no pilar que sustenta o meu mundo e, sem ela, só o que me resta é o entulho daquilo que um dia foi a minha existência. 

Quando enfim concordo com um aceno não muito convicto, Lizzie abre um sorriso desanimado e diz: 

“Vou deixar você descansar um pouco.” Em seguida, me abraça e se levanta para sair.

“Você acha que algum dia vai passar?”, pergunto, e ela se vira para mim.

“O quê?”

"A dor?" Minha voz sai quase num sussurro.

“Não sei… Mas prefiro pensar que vai. O tempo cura… quase todas as feridas”, responde ela e me oferece uma expressão reconfortante, que é ao mesmo tempo sorridente e séria.

Não sei se o tempo vai me curar ou não. Mas sei que, se isso não acontecer, não vou sobreviver.


....


Na manhã seguinte, firme, mas sempre muito educada, Lizzie me força a sair da cama, para ter certeza de que não vou faltar no estágio. Escrevo um bilhete para Klaus e Caroline, agradecendo por tudo. 

Enquanto dirige, Lizzie me olha de relance e tenta me animar com sorrisos e pequenas frases de efeito. Mas ainda me sinto péssima.

Quando ela encosta o carro no estacionamento do bar, as lembranças começam a invadir a minha cabeça. Hope de joelhos na neve. Landon me contando da aposta. 

Abro a porta do meu carro depressa e entro, para fugir do frio. Assim que me acomodo no banco do motorista, estremeço diante do reflexo no retrovisor. Meus olhos ainda estão vermelhos, envoltos por olheiras profundas. O inchaço complementa a visão de filme de terror. 

Definitivamente vou precisar de mais maquiagem do que imaginava. Passo no Walmart, a única loja próxima aberta a essa hora, e compro tudo o que preciso para mascarar meus sentimentos. 

Mas não tenho forças nem energia para cuidar da aparência, então não sei se vai fazer alguma diferença. 

Conforme o esperado, assim que chego à Vance, Rebekah arregala os olhos na minha direção. Tento sorrir, mas ela levanta da mesa.

“Josie, querida, tudo bem com você?”, pergunta, assustada.

“Estou tão mal assim?”, questiono, dando de ombros timidamente.

“Não, claro que não”, ela mente. “Você só parece…”

“Exausta. Porque estou mesmo exausta. As provas finais acabaram comigo”, digo.

Ela balança a cabeça e sorri calorosamente, mas posso sentir seus olhos me acompanhando enquanto caminho pelo corredor até minha sala. 


....


Depois disso, o dia se arrasta, parecendo interminável, até o final da manhã, quando o sr. Gerard bate à minha porta.

“Boa tarde, Josie”, diz, com um sorriso.

“Boa tarde”, consigo responder.

“Só queria dar uma passadinha para dizer que estou impressionado com o que tem feito até agora.” Ele ri. “Você está fazendo um trabalho melhor e mais detalhado do que muitos dos meus funcionários efetivos.”

“Obrigada, isso significa muito para mim”, digo, e imediatamente a voz em minha cabeça me lembra que só estou neste estágio por causa de Hope.

“Por isso queria te convidar para a conferência em Seattle no fim de semana. Às vezes essas coisas são meio chatas, mas essa é sobre publicação digital, a ‘onda do futuro’ e tal. Você vai conhecer um monte de gente, aprender várias coisas. Vou abrir uma segunda filial em Seattle daqui alguns meses, e também preciso falar com algumas pessoas.” Ele ri. “E aí, o que acha? Todas as despesas pagas. Saímos na sexta-feira à tarde. E Hope pode vir junto, claro. Não para a conferência, mas para Seattle”, explica, com um sorriso. Se ao menos ele soubesse o que estava acontecendo.

“Claro, vou adorar. Agradeço muito o convite!”, digo a ele, incapaz de conter o entusiasmo e o alívio de que, enfim, algo de bom esteja acontecendo comigo.

“Ótimo! Vou pedir a Rebekah para passar os detalhes e explicar como funciona a questão das despesas…” Ele continua a falar, mas eu me distraio.

A ideia de ir para a conferência alivia um pouco a dor. Vou me afastar de Hope, mas, por outro lado, Seattle me faz lembrar de quando Hope queria me levar para lá. 

Ela poluiu todas as instâncias da minha vida, incluindo todo o estado de Washington. A sala parecia ficar cada vez menor, o ar mais abafado.

“Você está bem?”, pergunta o sr. Gerard, franzindo a testa de preocupação.

“Ah, estou, é que… Não comi nada hoje e não dormi bem esta noite”, respondo.

“Então vá para casa, você pode terminar o que está fazendo por lá”, diz ele.

“Não precisa…”

“Não, vá para casa. No mercado editorial, ninguém precisa sair de ambulância do trabalho. A gente dá conta sem você”, ele assegura com um aceno de mão e sai da sala.

Recolho minhas coisas, dou uma conferida na minha aparência no espelho do banheiro — sim, ainda está péssima — e estou prestes a entrar no elevador quando Rebekah me chama.

“Já vai?”, ela pergunta. Faço que sim com a cabeça, e ela acrescenta: “Bom, Hope está de mau humor, melhor tomar cuidado.”

“O quê? Como você sabe?”

“Porque ela gritou comigo por não transferir a ligação para você.” Ela sorri. “Nem na décima vez que ligou. Imaginei que, se você quisesse falar com ela, estaria com o celular ligado.”

“Obrigada”, respondo, agradecendo em silêncio por ela ser tão observadora.

Ouvir a voz de Hope ao telefone teria feito o buraco dolorido dentro de mim crescer muito mais rápido. De alguma forma, consigo chegar ao carro antes de desmoronar mais uma vez. 

Sem distrações, sozinha com meus pensamentos e lembranças, a dor só parece aumentar. E, claro, mais ainda quando vejo as quinze chamadas não atendidas de Hope no celular e um aviso de que tenho dez novas mensagens, que não vou ler. 

Depois de me recompor o suficiente para dirigir, faço o que vinha evitando ao máximo: ligo para minha mãe. Ela atende no primeiro toque. 

“Alô?”

“Mãe”, digo, num soluço. 

Aquela palavra soa estranha saindo de minha boca, mas preciso do conforto dela agora.

“O que ela fez?”

O fato de esta ter sido a reação de todo mundo é mais uma prova de que o perigo representado por Hope era óbvio para todos, menos para mim.

“Eu… ela…” Não sou capaz de formular uma frase. “Posso voltar para casa, só por hoje?”, pergunto.

“Claro, Josie. Vejo você em duas horas”, ela responde e desliga.

Melhor do que eu esperava, mas não tão acolhedor quanto eu gostaria. Queria que ela fosse mais como a Caroline, amável e capaz de aceitar erros. 

Queria que pegasse um pouco mais leve, só para eu poder sentir por um tempo o consolo de se ter uma mãe amorosa e acolhedora. 

Assim que pego o acesso para a rodovia, desligo o telefone antes de fazer uma besteira, como ler uma das mensagens de Hope.


Notas Finais


VOLTEEIII :D

Eu juro que não vou abandonar Embora não reconheça seu rosto, eu ainda te amo 😆❤ caso vocês queiram ler: https://www.spiritfanfiction.com/historia/embora-nao-reconheca-seu-rosto-eu-ainda-te-amo--hosie-21521849

Caso você não tenha lido a primeira parte de After: https://www.spiritfanfiction.com/historia/after--hosie-hope-e-josie-21398752


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