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História Afterlife - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Prólogo



       Percy tinha apenas uma missão naquele hospital. Levar almoço para sua mãe. Havia feito aquilo inúmeras vezes nos últimos anos e nunca havia tido um problema sequer. A não ser, claro, naquele dia. 

Embora gostasse de pensar que fosse, ele sabia que não era uma boa pessoa. Quer dizer, tentava ao máximo não ser uma pessoa ruim, mas isso não fazia dele uma pessoa boa. Ainda lembrava da vez que ignorou a declaração de amor de Rachel na frente da escola toda e também da vez que quebrou o celular da irmã de seu melhor amigo, Nico, e colocou a culpa nele. Mas também se lembrava da vez que passou a semana inteira indo depois da aula pra casa de Jason para ajudar ele com os deveres de casa e as matérias acumuladas quando ele quebrou a perna e da vez que passou a madrugada inteira consolando Leo quando a namorada terminou com ele. 

Percy não era uma pessoa ruim, mas também não era umas das melhores. Então não sabia como havia se colocado naquela situação. Só sabia que tudo aquilo havia acontecido quando foi levar almoço para Sally Jackson.

Ele estava no corredor do segundo andar, esperando sua mãe sair de uma cirurgia, quando escutou duas enfermeiras conversando na frente de um quarto. Deveriam estar discutindo algum caso e, pelo olhar em seus rostos, não era um dos melhores.

–Deveríamos ligar para os responsáveis dela. – A primeira mulher disse. – Claramente ela não vai passar de hoje.

–Eu pedi que fizessem isso mais cedo. – A segunda respondeu. – Tentaram ligar para o pai, mas ele não atendeu e a mãe está fora do país.

– Ela não tem nenhum outro parente? 

– Não que se tenha notícia. Posso tentar ligar para a mãe dela novamente, mas duvido que ela consiga chegar a tempo de se despedir. 

– Faça isso. Precisamos que alguém assine a papelada. – As duas voltaram a andar indo em direção ao elevador. – Sinto muito pela garota. Ninguém deveria estar sozinho em um momento desses.

Assim que as duas mulheres saíram do campo de visão, Percy se desencostou da parede e andou até a janela do quarto que as enfermeiras tinham acabado de sair e então entendeu de quem elas falavam. Na maca que ficava no meio do quarto havia uma menina deitada, seus cabelos loiros estavam espalhados por todo o travesseiro e tinha inúmeros fios ligados ao seu corpo. Embora não desse para ver bem através da janela, Percy percebeu que seu corpo estava mais pálido do que seria considerado normal e ela parecia estar ficando rígida demais. 

Ela estava morrendo. Percy sabia disso porque o pai de Nico era médico, dono do hospital que ele se encontrava, e tinha como passatempo fazer autópsias. Em algum momento, Hades havia decidido levar as duas crianças para assistir suas performances. E aos 18 anos, Percy havia passado muito tempo em um necroterio e era capaz de reconhecer um cadáver mesmo de olhos fechados. 

Mas aquela menina ainda não estava morta. O aparelho ao seu lado ainda demonstrava seus batimentos cardíacos, mesmo que fossem incrivelmente lentos. "Sinto muito pela garota. Ninguém deveria estar sozinho em um momento desses." Percy respirou fundo ao perceber o que aquilo significava. Ela estava morrendo e estaria sozinha quando partisse. Parte dele sentiu pena pela garota. Imaginava que aquele fosse um dos momentos em que a pessoa gostaria de estar cercada por seus amigos e familiares e ele não poderia imaginar em estar no lugar dela, simplesmente porque sabia que nunca estaria sozinho. Sua mãe, mesmo que estivesse quase ficando louca com seus plantões de enfermeira, estaria lá. Seu pai também, por mais distante que fosse. E seus amigos nunca o deixaria sozinho. Ele não precisava imaginar como seria estar no lugar daquela estranha porque sabia que nunca estaria. Talvez foi esse pensamento que o fez abrir a porta e entrar naquele quarto.

"Ninguém deveria estar sozinho em um momento desses."

Percy se aproximou da maca e olhou para a desconhecida deitada ali. Ela era bonita apesar da palidez excessiva e das olheiras. Os dois pareciam ter a mesma idade e isso fez com que ele pensasse em como ela foi parar naquela situação. Talvez tivesse sido um acidente, isso explicaria os hematomas que se espalhavam pelo seu corpo. 

Os olhos da menina se moveram levemente e se abriram um pouco. Percy deu um sorriso de leve e então percebeu que talvez deveria dizer alguma coisa.

– Olá. – falou suavemente. – talvez você não me conheça, eu definitivamente não conheço você. Minha mãe trabalha aqui. Ela é enfermeira. Eu estava esperando ela e tinha umas mulheres no corredor, acho que estavam falando de você.

Ele fez um momento de silêncio percebendo que os olhos da menina haviam aberto um pouco mais e que agora ela olhava para ele.

– Eu sei que isso é estranho, mas acho que você está morrendo. Eu provavelmente não deveria falar isso. É, definitivamente não. É só que nunca fiz isso. Seus pais não vão chegar a tempo e eu achei que talvez você quisesse companhia. Mesmo que fosse de um estranho. 

Percy percebeu que os olhos da garota estavam marejados e então pegou sua mão. 

–Bem, Eu estou aqui. Mesmo que você não me conheça e nem eu a você. Está tudo bem, não precisa ter medo. Vou ficar com você até que esteja pronta. 

O ar no quarto ficou mais gelado e poucas lágrimas desciam desciam do rosto da menina. Percy esperou mais um pouco até que percebeu que ela já não pesquiva e que o aperto dela em sua mão já estava fraco. Ele ficou um tempo ali ao lado daquela maca e então percebeu que ela estava morta e que ele ainda segurava sua mão fria. Ficou mais um tempo parado olhando para aquela cena e então saiu daquele lugar sentindo uma vontade enorme de vomitar.

Percy sentia a ansiedade consumindo ele cada vez mais enquanto esperava a mãe chegar em casa. Sabia que o trânsito de Nova York podia ser infernal e tentou se distrair jogando uma partida de overwatch. Mas nem mesmo isso conseguiu o distrair do nó na sua garganta. Queria perguntar mais sobre a garota do hospital. Queria saber o que aconteceu depois que ele saiu. Sabia que sua mãe saberia de tudo e mal conseguia se impedir de pegar o seu celular e a bombardear de ligações e mensagens. Mas mesmo assim se forçou a esperar até que a porta da casa se abrisse e Sally entrasse parecendo extremamente cansada.

– Ei, mãe. – Ele disse fechando o jogo e olhando para ela. – Como foi o trabalho?

– Cansativo, como sempre. Achei que ia te ver no horário do almoço. 

– Eu até esperei um pouco, mas tive que sair. – respondeu dando de ombros, mas ainda se lembrando dos acontecimentos de hoje cedo. – Não queria atrapalhar. 

– Ah, sim. – Sally respondeu tirando seus sapatos. – até bom você não ter ficado. Uma menina morreu hoje, foi horrível. Ela era tão nova.

Percy sentiu o estômago revirar novamente, mas se forçou a agir normalmente.

– Era alguém que você conhecia? – perguntou tentando fingir casualidade.

– Não cheguei a cuidar dela diretamente, mas todo mundo conhecia ela. Annabeth era uma menina muito doce. Ninguém sabe como que ela foi parar lá e ela não ficou muito tempo também, mas foi suficiente para conquistar todo mundo. – Percy observou a mãe abrir a geladeira. –Ela tava sozinha, sabe? A mãe é muito ocupada. É CEO de uma empresa importante, só conseguiu chegar agora a noite. E o pai... Ninguém sabe muito sobre ele. 

– Annabeth? – perguntou sentindo que já havia escutado aquele nome em algum lugar. 

– Annabeth Chase. – Ela confirmou. – Esse não é o tipo de conversa pra hora de dormir, não é mesmo? Vou ir para o quarto. Não fique acordado até mais tarde.

Percy assentiu e levantou para desligar o vídeo game e a TV. Foi para o banheiro e enquanto escovava os dentes não pode deixar de pensar em Annabeth. Annabeth Chase.

Já deitado em seu quarto escuro, Percy continuou pensando nela. Lembrava de seus cabelos loiros e de sua pele pálida. Podia até mesmo jurar que sentiu o toque frio de sua pele novamente antes de dormir. E mesmo em seus sonhos não pode deixar de sentir que estava sendo observado.

Ficarei com você até que esteja pronta.



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